A “missão suicida” do “zelota” que desafiou Roma

O Zelota gerou controvérsia como biografia de um “messias falhado”, um “judeu analfabeto” que queria “derrubar pela força” o Império Romano. Reza Aslan, o autor, garante a existência deste Jesus histórico sem questionar a sua divindade. Agora que o Médio Oriente é assolado pelos zelotas do “estado islâmico” e investigadores insistem em que Yeshua ben Yosef foi só um mito, revisitamos o livro que derrubou Harry Potter da lista dos bestseller. (Ler mais | Read more…)

© riverofhopehutchinson.org/

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O Natal ainda estava longe quando 5 Reasons to Suspect that Jesus Never Existed (“5 razões para suspeitar que Jesus nunca existiu”) foi publicado, com grande destaque, por dois websites nos Estados Unidos, AlterNet e Salon. O texto de Valerie Tarico, autora de Trusting Doubt: A Former Evangelical Looks at Old Beliefs in a New Light (“Confiar na Dúvida: Uma antiga evangélica olha para velhas crenças a uma nova luz”), atraiu elogio condenação.

Ateus e crentes brandiram argumentos em centenas de comentários nas redes sociais, e Reza Aslan não ficou surpreendido. Afinal, a biografia que o tornou famoso, O Zelota – A Vida e o Tempo de Jesus de Nazaré (Ed. Quetzal, 2014), continua a suscitar discussão e paixão.

Entre os cépticos que Valerie Tarico cita estão David Fitzgerald, que escreveu Ten Christian Myths That Show Jesus Never Existed at All (“Dez mitos cristãos mostram que Jesus jamais existiu”) Richard Carrier, Robert Price, Bart Ehrman e Joseph Atwill. As cinco razões que ela aponta para a não existência do revolucionário retratado por Aslan podem ser assim resumidas:

  1. Não há quaisquer provas, seja o registo de nascimento ou a certidão de óbito, fornecidas por autores pagãos do século I, sobre Yeshua ben Yousef (Jesus filho de José); 2) Os primeiros escribas do Novo Testamento ignoram pormenores sobre a vida de Jesus, que só é detalhada nos evangelhos posteriores; 3) Os evangelhos do Novo Testamento têm os nomes de Mateus, Marcos, Lucas e João mas não foram escritos por eles; 4) Os evangelhos contradizem-se uns aos outros; 5) Os historiadores modernos não se entendem quanto à figura histórica de Jesus – “filósofo cínico, carismático hassidita [judeu ortodoxo de uma corrente mística fundada no século XVIII na Europa Oriental], fariseu liberal, rabi conservador, revolucionário zelota ou pacifista não violento….”

Nada do que Valerie Tarico enuncia no seu artigo é novo. Tal como não há novidades – mas sim interpretações das Escrituras diferentes das de outros estudiosos que o inspiraram e uma belíssima narração – no livro de Reza Aslan.

A popularidade de Reza e as vendas do seu livro subiram em flecha depois de uma entrevista à cadeia de televisão Fox, quando a locutora questionou a legitimidade de o iraniano-americano escrever sobre Jesus, uma vez que era um antigo convertido ao cristianismo evangélico regressado às origens islâmicas dos antepassados.

Segundo a informação disponível no seu site (rezaaslan.com), Reza fez um mestrado em Estudos Teológicos na Universidade de Harvard e completou o doutoramento em Sociologia das Religiões na Universidade da Califórnia. Aqui, é agora professor de Escrita Criativa, além de dirigir a sua rede noticiosa Aslan Media.

Para falar de O Zelota – a biografia que destronou Harry Potter da lista de bestseller – e também dos “novos zelotas” que ameaçam o Médio Oriente, como o “estado islâmico” (Daesh, acrónimo pejorativo em árabe com significado do “pisar”, “esmagar” ou “estado de ignorância”), Reza Aslan deu-me uma entrevista. Era Agosto, 10 da manhã no seu gabinete, em Los Angeles, e 18h00 em Lisboa. A conversa telefónica durou precisamente os 45 minutos estipulados pela agente do autor.

© pixbim.com/

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Comecemos pelo título do seu livro. “Zelo”, segundo diz, era como que “uma doutrina bíblica” no tempo de Jesus, quando os judeus se orgulhavam de ser chamados de “zelotas”. Hoje em dia, porém, “zelota” equivale a “fanático”, “extremista” e até “terrorista”. Como académico e especialista em media, por que escolheu “Zelota” e não uma palavra menos negativa para descrever o “Jesus histórico”?

Um livro sobre este Jesus histórico, particularmente, um livro como o meu, tem de o colocar no seu tempo e lugar, porque é a única forma de entender quem ele era e o que queria. Não se pode extrair as palavras ou ensinamentos de Jesus da era em que viveu.

Mais do que se justifica usar um título como “Zelota”. É obviamente provocador, porque o objectivo é chamar a atenção das pessoas. No entanto, o título é, em si próprio, uma explicação da metodologia do livro: a palavra “zelota” tem significados diferentes se colocada, ou retirada do contexto.

O mesmo se pode dizer em relação a Jesus. Retire-se Jesus do contexto da Palestina do século I e ele pode ser entendido de milhares de formas diferentes. No entanto, colocá-lo no contexto da Palestina do século I é a única maneira de o entender como um revolucionário que se revoltou contra os poderes do seu tempo.

Então, por que optou por “zelota” e não “revolucionário”?

Porque “revolucionário” não tem um contexto, ao contrário de “zelota”. Há uma distinção clara entre o Jesus da história e o Cristo da fé! O Cristo da fé pode significar o que quiserem, porque não tem contexto. Quando um cristão lê as palavras de Jesus no Evangelho de Marcos, esse cristão acredita que Jesus se dirige directamente a ele como se fosse hoje. Mas Jesus não falava para si ou para mim, e sim para uma audiência de judeus há 2000 anos.

Se queremos entender o que Jesus realmente queria dizer com as suas palavras, é preciso primeiro compreender o que a sua audiência teria entendido. É isso que este livro trata.

Em algumas entrevistas admitiu que “não há muita coisa nova para se dizer (sobre o Jesus histórico) porque desde há 200 anos que académicos têm vindo a estudar este tema”. Em O Zelota, exprime gratidão e cita várias vezes o professor e padre católico John P. Maier, autor do épico A Marginal Jew. Assim sendo, o que distingue o seu livro de outras obras sobre o mesmo tema?

O que o distingue, acima de tudo, é a audiência para o qual foi escrito. Sim, é verdade que há 200 anos de estudos académicos sobre o Jesus histórico. No entanto, esses estudos foram escritos, exclusivamente, tendo em vista uma audiência erudita.

O meu livro é uma tentativa de traduzir esses 200 anos de estudos académicos para um formato popular, apelativo e acessível, de modo a tornar agradável a leitura às pessoas que não se interessariam por história religiosa.

Esta é uma das razões por que o livro tem tido tanto sucesso. Do ponto de vista académico, é verdade que não há nada de muito novo a acrescentar. Tudo já foi dito, mas foi dito a uma elite muito pequena e uma audiência exclusiva.

Eu tentei alargar essa audiência e tornar a informação acessível de uma forma atractiva. Aliás, esta é uma característica de todos, todos os meus livros [No god but God: The Origins, Evolution, and Future of Islam, traduzido para 17 línguas, e How to Win a Cosmic War: Confronting Radical Religions).

Foi para facilitar a leitura que separou a narrativa principal das notas? Por exemplo, se quisermos saber onde se inspirou para os detalhes minuciosos da “limpeza” do Templo temos de ir à procura num capítulo (pp 285-339) inserido entre os agradecimentos e a bibliografia…

Para alguns leitores, não interessa os detalhes nem a investigação [que deu origem ao livro]. Outros vão à procura da pesquisa e da erudição.

De certo modo, é como se [O Zelota] fosse dois livros. Um livro é a narrativa principal. Depois, em vez das tradicionais notas de rodapé ou notas finais, há uma outra narrativa que pode ser lida quase como que se fosse um livro diferente. Muitas pessoas acabam de ler um capítulo e seguem de imediato para as notas correspondentes…

© thethirstingcatholic.com/

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Esta opção tem a ver com o facto de o senhor ser um especialista em escrita criativa, não? E, de certo modo, é também uma forma de se defender contra os que o questionam as suas credenciais como “historiador das religiões”…

É verdade. Não sou apenas um estudioso das religiões, e o que procurei fazer foi escrever um livro acessível. Também quis mostrar que fiz uma investigação séria – por isso, era importante que esta parte constasse do livro para que os críticos confirmassem a minha absoluta qualificação.

Relativamente às fontes, quais foram as reacções por parte de dois dos principais académicos que cita, John P. Maier e Richard A. Horsley, por si descrito (p.286) como “o mais proeminente pensador sobre o tema do apocalipticismo do século I (autor de, entre outros, de Popular Messianic Movements Around the Time of Jesus e de Jesus and the Spiral of Violence: Popular Jewish Resistance in Roman Palestine)?

Nem John Maier nem Richard Horsley me contactaram, mas obtive reacções de outros académicos e, como era previsível, há partes do livro com as quais estão de acordo e outras sobre as quais discordam.

Como digo, logo no início, “por cada argumento bem atestado, profundamente investigado e eminentemente abalizado acerca do Jesus histórico, há um argumento igualmente bem atestado, profundamente investigado e eminentemente abalizado que se lhe opõe” (p.18). Há centenas de livros sobre o Jesus histórico. Estamos a falar de uma era envolta num mistério denso. Por isso, há múltiplas maneiras de olhar para isto.

Por exemplo, embora eu seja um grande admirador de Richard Horsley e de John Maier, mesmo que eu use muitos dos seus argumentos, eu especifico os pontos sobre os quais eu estou em discordância com eles. John Maier diz que Jesus era alfabetizado; que sabia ler e escrever.

Eu pertenço ao grupo dos que discorda. Richard Horsley diz que alguns dos personagens messiânicos sobre os quais me debrucei não eram bem messias mas figuras apocalípticas, escatológicas – não concordo, porque a maioria dos judeus no século I não entenderia essa categoria definida por um académico.

Na academia, usamo-nos uns aos outros, discordamos uns dos outros. Não há um único estudioso bíblico que concorde com tudo o que está no meu livro. Mas também não há um único estudioso que discorde de tudo o que está neste livro.

O que tem gerado controvérsia é a sua apresentação de Jesus como alguém que defendia a violência. No entanto, parece haver uma contradição no retrato que faz. Numa página (124), diz que Jesus não era um revolucionário violento inclinado para a rebelião armada”; mais adiante (p. 171), escreve: “Não há provas de que Jesus tenha defendido pessoalmente acções violentas, mas certamente não era um pacifista.” Numa outra entrevista, o senhor diz que “a noção de um Jesus pacífico é tão incompleta como a de um Jesus revolucionário”. Pode clarificar?

É complicado explicar. Há a tentação de se afirmar que Jesus foi uma coisa ou outra: um revolucionário violento ou pacifista. Não se admite que tenha sido as duas coisas ou nenhuma delas. O maior império da história da Humanidade ocupava a Terra Santa.

O messias não podia simplesmente dizer a eles [romanos] que se fossem embora. Jesus sabia que força e violência eram necessárias. Sabia que o seu pequeno grupo de seguidores não conseguiria derrubar o império.

No entanto, como bom judeu que acreditava nas Escrituras, Jesus sabia que só Deus podia destruir os inimigos dos judeus. Para ele, por exemplo, foi Deus que massacrou os Cananeus. Jesus sabia que a violência era necessária e inevitável – mas seria Deus a praticar essa violência. Ele não era um defensor da violência mas também não defendia oferecer a outra face.

© killimengri.wordpress.com/

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No seu livro sugere um messias relutante. Veja-se esta passagem: “Jesus de Nazaré não se referia abertamente a si próprio como messias. Nem, a propósito, chamava a si mesmo ‘Filho de Deus’; era mais um título que outros pareciam ter-lhe atribuído” (pp 189-190). Como explica, então, a decisão de Jesus entrar em Jerusalém e “limpar” o Templo depois de ter passado “mais de 99% do seu ministério nas aldeias da Galileia, como um zelota obscuro”? 

Não é de estranhar que Jesus, durante a maior parte do seu ministério, tenha querido manter-se discreto quanto às suas ambições messiânicas. Quando Jesus começou o seu ministério, já tinha visto Roma destruir pelo menos meia dúzia de outros messias e seus seguidores.

Faz sentido que Jesus tenha querido esconder a sua identidade messiânica entre os fiéis. Eu digo que, talvez, tenha sido por isso que ele escolheu a expressão “Filho do Homem”, porque era ambígua e Roma não entenderia. Esta ambiguidade era benéfica para Jesus, no início do seu ministério.

Depois de ter passado mais de 99% do seu tempo na Galileia, a decisão de ir até Jerusalém e proclamar-se Messias significa basicamente que ele escolheu morrer.

Para os cristãos, convencidos de que Jesus está a falar para eles, quando ele diz aos seus discípulos, a caminho de Jerusalém, ‘se alguém quer acompanhar-me, pegue na sua cruz e siga-me’, é como se Jesus dissesse ‘vocês têm de desistir das coisas terrenas e estar preparados para se sacrificarem’. No contexto, no tempo de Jesus, a cruz significa crime por traição.

Portanto, Jesus disse aos discípulos: ‘Eu vou ser um traidor; querem vir comigo? Se querem, têm de estar preparados para também serem traidores.’

E é isso que acontece. Por que é que Jesus fez isto? Eu não quis especular. Deixo isso para o leitor decidir. Uns dirão que ele fez isso porque era mesmo o messias. Outros dirão que ele sabia, com toda a certeza, quais seriam as consequências dos seus actos; que ao entrar em Jerusalém e no Templo, seria condenado à morte.

O argumento é o de que Jesus foi para uma missão suicida. Porquê? Cabe ao leitor entender. Tinha ele uma missão divina, a de morrer pelos nossos pecados? Ou pensava que, a sacrificar-se a si próprio, conseguiria concretizar a revolução para libertar Israel? Incontestável e inegável, como facto histórico, é que Jesus foi a Jerusalém. Nada contraria isto.

Disse que escreveu para crentes e não crentes. Que reacção teve da parte dos dois campos? Há quem diga, como David Fitzgerald (autor de Ten Christian Myths That Show Jesus Never Existed at All), que o Jesus histórico nunca existiu, e que a única referência a esta figura é feita pelo historiador judeu Flávio Josefo.

Sim, há apenas uma só referência, que é a do historiador judeu Josefo, mas é preciso entender o quão significativa é esta referência. O facto de um historiador judeu que escrevia para uma audiência romana mencionar Jesus é extraordinário. Não é uma simples referência – é impressionante! É uma prova muito sólida de que Jesus existiu.

Sobre as reacções ao livro, recebei centenas de e-mails de cristãos, afirmando que este livro reforçou a fé deles. Que ficaram a saber mais sobre o mundo de Jesus, e que o seu triunfo sobre a morte comprovou que a missão de era mesmo divina.

Quanto aos ateus, disseram-me que adoraram o livro porque os fez compreender por que motivo Jesus é tão especial. Não importa se é ou não messias, é ou não deus. O facto básico da vida de Jesus é extraordinário.

©catchat.ca/~catchat/images/stories/vbs/

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Um dos desafios de quem estuda religiões deve ser o modo como concilia fé (se a tem) e história. Sendo crente, primeiro cristão e agora muçulmano, como é que combinou ambas?

Não creio que seja um desafio. De modo algum!

O historiador John Maier, por exemplo, é um padre católico. Talvez o modo como ele estudou o Jesus histórico seja diferente do método usado por si…

Sim, isso é verdade. A propósito, foi com cristãos que aprendi muito sobre o Jesus histórico. Muitas das conclusões a que John Maier chegou contradizem a sua religião, mas ele continua a ser católico e a ser padre. John Maier dirá que não tem problema em conciliar fé e história. A vasta maioria dos estudiosos dirá exactamente a mesma coisa. Há uma diferença entre religião e fé. A fé é indescritível, individualista.

Religião é uma instituição criada pelo homem. John Maier dirá que tem fé em Deus, fé de que Jesus é filho de Deus. No entanto, como historiador, também dirá, com toda a confiança, que muitas das coisas que a sua religião ensina sobre Jesus não são historicamente correctas – e não parece haver nisso um problema. A minha fé não está na minha religião. A minha fé está em Deus.

Em O Zelota lemos (p.187): “Os Judeus do século I que escreveram acerca de Jesus já tinham decidido quem ele era. Estavam a construir um argumento teológico acerca da natureza e função de Jesus como Cristo, e não a compor a biografia histórica de um ser humano.” Neste seu livro, e em entrevistas que deu, confessa que se tornou quase uma obsessão, para si, estudar o Jesus histórico. Nesta investigação deixou-se surpreender pelo que foi “descobrindo” ou estava determinado a desmontar, a qualquer custo, a “fabricação” do Jesus celestial em que acreditou enquanto cristão evangélico?

Não tenho qualquer interesse em desmontar a fabricação do Jesus divino. Em parte alguma do livro digo que Jesus não é Deus. Esta questão não me interessa como investigador. Eu não contradigo a divindade de Jesus. Só não acredito que Jesus seja a única divindade na Terra.

Não acredito que ele seja exclusivamente divino. Não me interessa provar nada – nenhum tipo de fabricação. O que eu digo é que a afirmação dos discípulos sobre a divindade de Jesus era invulgar, sem precedentes. Não é um facto histórico. Se é verdadeira ou falsa, cabe aos leitores decidir.

No que toca à investigação, fiquei muito surpreendido sobre, por exemplo, o número de messias que havia no tempo de Jesus. Para mim, suponho que o mais difícil de aceitar foi a decisão de Jesus ir até Jerusalém. Tal como escrevi, não há maneira de entender esta decisão excepto como uma decisão de morrer, de se suicidar.

Por que fez isso? Estava a ser bem sucedido. Tinha seguidores. Evitara todo o tipo de sarilhos. Conseguira escapar às autoridades. E, no entanto, um dia, sem que ninguém esperasse, decidiu: “Chega! Vamos sacrificar-nos.” Há algo de profundo nesta declaração e precisamos de a compreender.

Se Jesus tivesse sido apenas mais um zelota, e um zelota falhado, teria o senhor escrito este livro?

Bem, bem….

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Pergunto isto porque há muito que se diz, e o senhor retoma esse argumento, de que o Cristianismo é uma invenção do apóstolo Paulo.

Sim, é correcto dizer que o Cristianismo, como o conhecemos hoje, tem mais a ver com Paulo do que com Jesus. Dito isto, não considero que Jesus tenha sido um zelota falhado. Acho que foi um messias falhado. Isto é um facto histórico, por mais que possa perturbar algumas pessoas.

Se um judeu no século I proclamava que era o messias, isso significava algo de muito específico: esse judeu estaria a dizer que era descendente do Rei David, que a sua missão seria a de recriar o Reino de David…. se não fizesse isso, não era o messias.

Dezenas de judeus clamaram ser o messias, mas como não fizeram nada do que um messias supostamente deveria fazer deixaram de o ser. Chamamos a essas pessoas messias falsos. Por algumas razão, todavia, Jesus é apresentado como o verdadeiro messias, apesar de ter falhado como os restantes.

O que é incrível é o modo como os discípulos de Jesus usaram a experiência da ressurreição para reinterpretar o significado de messias. Para 2000 milhões de cristãos em todo o mundo, Jesus é o messias, mas não era este o significado de messias no seu tempo.

Falando de zelotas e de contexto, assistimos neste momento ao que parece ser um crescendo de zelotas no Médio Oriente, em particular na Síria e no Iraque, onde o grupo “estado islâmico” [EI, ISIS, Daesh] está a semear o terror em nome de uma religião. Como avalia este fenómeno?

Não acho que se trate de um fenómeno novo. Desde o início que as revoluções têm sido usadas para fomentar revoluções, para o bem e para o mal. Estamos agora talvez mais alerta graças às redes sociais, mas sempre existiu um grande zelotismo. Parece-nos que há mais zelotas porque temos mais informação – só isso.

A violência do “estado islâmico” não representa um zelo assassino sem precedentes?

Não creio. Sim, é horrível, absolutamente horrível que o ISIS tenha decapitado [o jornalista norte-americano] James Foley, mas será que alguém deu conta que três semanas depois a Arábia Saudita decapitou [outras] 19 pessoas.

Há obviamente razões, sobretudo na América, para não divulgar o que se passa na Arábia Saudita, porque é um país aliado dos EUA, porque nos fornece petróleo… Parece que este fenómeno é novo, mas não é. Há milhares de anos que isto se repete. Agora, temos notícias 24 horas por dia e estamos mais atentos, mas a religião como instrumento de violência existe há muitos anos.

Última pergunta: Já está a escrever um próximo livro? Pode dizer-nos sobre o que trata?

Sim, será sobre a origem, a evolução e futuro de Deus. E, sim, está a ser uma tarefa assustadora.

Reza Aslan, o autor de "O Zelota: Vida e o Tempo de Jesus de Nazaré" (Ed. Quetzal) © Direitos Reservado | All Rights Reserved

Reza Aslan, o autor de O Zelota: Vida e o Tempo de Jesus de Nazaré (Ed. Quetzal)
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

zelota

Este artigo, com outro título, foi publicado originalmente na edição de Dezembro de 2014 da revista LER | This article, under a different title, was originally published in the Portuguese magazine LER, December 2014 edition

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One thought on “A “missão suicida” do “zelota” que desafiou Roma

  1. Quando iniciei minha pesquisa diletante acerca da origem do cristianismo eu já tinha uma ideia formada: nada de Bíblia, teologia e história das religiões. Todos os que haviam explorado esse caminho haviam chegado à conclusão alguma. Contidos num cercadinho intelectual, no máximo, sabiam que o que se pensava saber não era verdade. É isso o que a nossa cultura espera de nós, pois não gosta de indiscrições. Como o mundo não havia parado para que o Novo Testamento fosse escrito, o que esse mesmo mundo poderia me contar a respeito dessa curiosidade histórica? Afinal, o que acontecia nos quatro primeiros séculos no mundo greco-romano, entre gregos, romanos e judeus? Ao comentar o livro “Jesus existiu ou não”, de Bart D. Ehrman, respondo a essas perguntas.

    http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/paguei-pra-ver

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