A woman’s world

O Presidente Recep Tayyip Erdogan declarou que “é preciso equivalência e não igualdade entre homens e mulheres”, mas a Turquia tem uma embaixadora em Lisboa. Nos Emirados Árabes Unidos, as mulheres ainda precisam de um guardião masculino, mas é uma Sheika que representa o país em Portugal. O Paquistão enviou, nos últimos 20 anos, quatro embaixadoras para a capital portuguesa. E as que estão aqui colocadas são também as mais altas representantes diplomáticas da Argélia, da Tunísia e de Marrocos. O principal impulsionador desta mudança é um crescente investimento na educação. Fui ao encontro de Fatiha Selmane, Karima Benyaich, Leena Salim Moazzam e Saloua Bahri, diplomatas de carreira que marcam a diferença num mundo muçulmano que não é monolítico e é tantas vezes incompreendido. O poder destas embaixadoras não é meramente protocolar. As suas vidas, pessoais e profissionais, mudam a história dos seus países. * (Ler mais | Read more…)

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This is a man’s world

This is a man’s world

But it would be nothing, nothing

Without a woman or a girl

(James Brown)

 Karima Benyaich

“Não houve mudança de regime em Marrocos mas houve uma evolução”
Embaixadora de Maroocos, Karima Benyaich Cortsia de | Courtesy of Pedro Bettencourt

Karima Benyaich, Embaixadora de Marrocos
© Pedro Bettencourt

Há uma lágrima que ofusca momentaneamente um sorriso luminoso quando Karima Benyaich recorda o dia em que o pai, médico pessoal do Rei Hassan II, foi assassinado durante uma tentativa de golpe de Estado, em 13 de Julho de 1971.

“Eu tinha apenas 10 anos; é difícil não me emocionar”, diz a embaixadora de Marrocos, uma mão enxugando o rosto, a outra ajustando o gracioso caftan branco, bordados dourados a condizer com uma requintada pulseira que herdou da mãe.

“Tínhamos uma casa de praia perto do palácio de Verão de Skhirat. Saímos de manhã para ir ao cabeleireiro porque tínhamos um jantar. Ouvimos tiros mas pensávamos que era uma festa, até notarmos que havia muitos militares e que as ruas estavam fechadas. Fomos obrigados a fugir à pressa para Rabat [a capital], que ficava a 30 quilómetros de distância. Receávamos que nos matassem. “

“À meia-noite, o rei anunciou que perdera o seu médico. Nesse dia perdi também a minha inocência. Como filha mais velha, assumi a responsabilidade de ajudar a mãe, que se sentia perdida, por ser estrangeira.” Carmen, viúva de Fadel Benyaich, é espanhola, de Granada. Passou a chamar-se Karima quando se converteu ao Islão.

No dia golpe, Hassan II (1929-1999) preparava uma grande recepção para celebrar o seu 42º aniversário. Cerca de 250 soldados, a maioria da escola de cadetes de Ahermoumou, tomaram de assalto o palácio. Surpreendido pelos rebeldes, o rei foi implacável. Menos de 72 horas depois, sem julgamento, dez oficiais – quatro generais, cinco coronéis e um major – foram executados por um pelotão de fuzilamento.

Após a morte do pai, Karima e os três irmãos ingressaram a tempo inteiro no Colégio Real de Rabat, frequentada pelos príncipes. “Estudávamos das 7 da manhã às 8 da noite. Era uma educação rígida, com muita disciplina, mas o melhor investimento é a educação, e foi a educação que contribuiu para mudar a vida das mulheres marroquinas.”

O motor que “acelerou a história” foi o herdeiro do trono, Mohammed VI, amigo e colega de Karima. Foi ele que, em 2008, a enviou para Lisboa, o seu primeiro posto como embaixadora. E foi ele quem nomeou como embaixador em Madrid o irmão, Fadel Benyaich (homónimo do pai), em Fevereiro de 2014.

Não é de estranhar, pois, que nos salões da residência oficial, adornados com belíssimos zelliges, azulejos de padrões geométricos e multicoloridos típicos da arquitectura marroquina, fotos do filho-sucessor de Hassan II estejam presentes em quase todos os recantos.

“Sua Majestade sempre se mostrou interessado em aplicar reformas”, garante Karima, exprimindo-se num português fluente, prova de que seguiu o seu próprio lema: “é importante aprender a língua do país onde se vive e trabalha para o conhecer melhor”. Há obstáculos, admite, mas também progressos. “Basta olhar para Portugal e ver que há quatro embaixadoras de países árabes: Marrocos, Tunísia, Argélia e Emirados. Há dez anos isto seria impossível! Acima de tudo, é indispensável que haja vontade política.”

“Em Marrocos, foi aprovado, em 2004, o Código da Família [Moudawana], que assegurou igualdade de direitos, em particular no casamento e no divórcio”, destaca Karima. “Também foi aprovado o Código da Nacionalidade, que permite às mulheres casadas com estrangeiros conferir aos seus filhos a nacionalidade marroquina. No mundo árabe e muçulmano, somos o único país onde uma mulher preside à Confederação dos Empresários. Temos mulheres médicas, juízes, pilotos de aviação… No Ministério dos Negócios Estrangeiros, 40% dos funcionários são mulheres – e aqui os salários são iguais.”

“O Ocidente precisa de entender que o mundo árabe não é monolítico”, recomenda a embaixadora. “Cada país tem a sua história e os seus processos. Em Marrocos, depois da independência (1956), a partir de 1963, o rei Hassan II aboliu o partido único. É verdade que voltámos atrás com dois golpes militares [em 1971 e 1972] porque o Exército queria uma ditadura como outras na região.”

“Em 2011, coincidindo com a ‘Primavera Árabe’, houve manifestações e reivindicações legítimas em Marrocos, sobretudo da juventude que enfrenta um elevado desemprego. O rei respondeu, a 9 de Março, com um projecto de reforma constitucional, envolvendo partidos, sindicatos, ONG e outros. E assim se procedeu à quinta revisão constitucional. Somos um país apegado às tradições mas também virado para a modernidade. Não houve uma mudança de regime, não houve uma revolução, mas houve uma evolução.”

Outro motivo de orgulho para a embaixadora que nasceu na cidade de Tetuão, no Noroeste, onde segundo os últimos censos 1/5 dos mais de 320 mil habitantes são judeus, é definição constitucional do reino. “Somos um país aberto e tolerante, com influências distintas: africano, árabe, muçulmano, mediterrânico, atlântico e hebraico.”

Sobre o seu cargo, a mulher que ajudou a solidificar uma parceria estratégica entre Marrocos e Portugal sublinha: “Não é um função decorativa! É um privilégio representar o meu país – que tem 12 mulheres embaixadoras [Portugal tem nove no serviço activo]–, e também conhecer os actores políticos, económicos e culturais da sociedade portuguesa. O objectivo é criar pontes. Somos vizinhos e a capital mais próxima de Lisboa é Rabat.”

Leena Salim Moazzam

“No Paquistão, as mulheres são educadas para serem excepcionais”
Leena Salim Moazzam. embaixadora do Paquistão Cortesia de | Courtesy of © Pedro Bettencourt

Leena Salim Moazzam, Embaixadora do Paquistão
© Pedro Bettencourt

Se pudesse, Leena Salim Moazzam teria viajado para Portugal com as montanhas do Paquistão, que constituem 1/3 do território. Mas se os muitos picos e cordilheiras do seu país não cabiam na bagagem a embaixadora conseguiu transportar até aqui algumas memórias desses lugares.

Uma dessas recordações, exposta numa parede central da residência em Lisboa, “veio da confluência montanhosa do Hindu Kush, onde Alexandre o Grande parou”, indica. É um shushut, pedaço de tecido ornamentado com búzios, botões e missangas, que as mulheres Kalash usam em forma de coroa, fazendo-a deslizar pelas costas como um véu.

Descritos por viajantes e antropólogos como “povo em vias de extinção”, os Kalash são pagãos de origem indo-europeia. Durante anos especulou-se que eram descendentes de Alexandre, cujo exército invadiu a região no século IV a.C., mas nunca foram apresentadas provas. Recentemente, porém, geneticistas citados pelo jornal The New York Times anunciaram ter encontrado ADN que parece indicar “uma infusão de sangue europeu” durante a época das conquistas do general macedónio.

O Paquistão é menos conhecido pelos Kalash, que contam com alguma protecção das autoridades, e mais pelos Taliban, os extremistas que, na fronteira com o Afeganistão, os perseguem como takfir (infiéis) por se recusarem a ser muçulmanos. Leena Moazzam, que antes de enveredar pelo serviço diplomático e se casar (o marido é embaixador na Holanda) participava em manifestações de rua do Fórum da Acção das Mulheres, deplora que o seu país seja “visto à luz do fundamentalismo islâmico”.

“Já perdemos mais vidas na guerra contra o terror do que nas guerras com a Índia”, lamenta a diplomata. “A invasão soviética do Afeganistão deixou para trás a ‘cultura da Kalashnikov’, afectando três áreas importantes, Peshawar, Quetta e Carachi. Hoje, a Europa vê-se ameaçada pelo chamado ‘Estado Islâmico’ mas o Paquistão há mais de 30 anos que sofre com o terrorismo.”

Para mudar a imagem negativa que outros construíram, Leena Moazzam, nascida na região montanhosa de Murree, a antiga capital de Verão da província do Punjab, quando o subcontinente era britânico, conta agora com ajuda de uma menina que estuda na cidade inglesa de Birmingham.

Malala Yousafzai ganhou o Prémio Nobel da Paz 2014 [dividido com o indiano Kailash Satyarthi] porque promove a educação”, diz a embaixadora, elegante no seu shalwar kameez, conjunto de túnica e calças tradicional. “Orgulhamo-nos muito que ela seja paquistanesa, e estamos a contribuir com donativos para a sua fundação. Na nossa região, as mulheres são educadas para serem excepcionais: antes de outros Estados, o Paquistão, a Índia e o Bangladesh tiveram primeiras-ministras”, e outras mulheres continuam a exercer cargos de poder”.

“Se Malala é famosa, há outra celebridade que pode também ajudar no nosso esforço de filantropia: Cristiano Ronaldo”, revela a diplomata, a sua alegria exuberante partilhada pela mãe, exímia jogadora de bridge, e pela filha, talentosa designer, recém-chegadas de Islamabad. “As bolas com que Ronaldo joga são fabricadas no Paquistão. Quero convidá-lo para uma visita, promover a sua marca, CR7 e organizar, com ele, uma cerimónia de angariação de fundos.”

Saloua Bahri

“A Tunísia é o único Estado árabe que oferece igualdade entre homens e mulheres” 
Saloua Bahri, embaixadora da Tunísia Cortesia de | Courtesy of © Pedro Bettencourt

Saloua Bahri, Embaixadora da Tunísia
© Pedro Bettencourt

Saloua Bahri não se surpreendeu quando, em Janeiro de 2011, Zine El Abidine Ben Ali foi forçado a demitir-se, após um mês de protestos que se seguiram à imolação pelo fogo de um vendedor de rua, Mohamed Bouazizi.

“A situação era muito difícil, política e economicamente”, justifica a embaixadora da Tunísia. “O Presidente já estava no quarto mandato, aumentava a corrupção na família da sua mulher, a crise económica acentuava-se e o povo revoltou-se.”

“Na altura, eu era embaixadora na Roménia, e lembro-me que ficava perturbada quando me falavam em direitos humanos, porque sabia que não havia liberdade”, confessa a diplomata que, em criança, sonhava ser juiz.

“Era necessária uma revolução para completar a nossa história de sucesso. Hoje, sinto-me muito satisfeita porque temos um país moderno e desenvolvido. Há liberdade de expressão e de consciência. Há uma nova Constituição que garante a igualdade entre mulheres e homens – não há nenhum Estado árabe com este estatuto. E, na Europa, só os nórdicos se podem comparar à Tunísia.”

“É um orgulho dizer que nasci num país com 3000 anos de civilização, mas não tem sido fácil”, admite Saloua Bahri. A caminhada pessoal seria mais penosa, reconhece, sem o apoio do marido, um médico na reforma, e da mãe, professora jubilada que a ajudou a criar os filhos. “É como se vivesse um tsunami, de altos e baixos, mas finalmente chegámos a um consenso. Mesmo que haja discórdia continuará a haver diálogo”.

Nas eleições legislativas, em Outubro [de 2014], os islamistas do partido Ennahda foram derrotados pelos laicos do Nidaa Tounes, que ocupará 85 dos 217 lugares da Assembleia dos Representantes do Povo. Na primeira volta das presidenciais, em Novembro, nenhum dos candidatos obteve maioria. Uma segunda volta, entre Moncef Marzouki, chefe de Estado cessante, e Beji Caid Essebsi, candidato do Nidaa Tounes, [estava] marcada para 28 de Dezembro.

[Essebi, que foi presidente do Parlamento sob a liderança de Ben Ali, venceria com 55,6% dos votos, contra 44,3% de Marzouki. Na tomada de posse, prometeu aos tunisinos que a sua principal missão é fomentar a ‘reconciliação nacional’.]

“As eleições têm corrido bem, mas são mais um desafio”, exulta a embaixadora, enquanto acaricia o medalhão de filigrana que lhe enfeita o pescoço, e funciona, para os mais supersticiosos, como espanta-espíritos. “É certo que, na Tunísia, a sociedade civil é o grande regulador da democracia e vivo estes momentos com um sentimento positivo. No entanto, movemo-nos num contexto internacional, e nem sempre o destino é definido por nós.”

Fatiha Selmane

“A educação deu às mulheres na Argélia a liberdade de escolherem a sua vida”
Fatiha Selmane, Embaixadora da Argélia Cortesia de | Courtesy of © Pedro Bettencourt

Fatiha Selmane, Embaixadora da Argélia
© Pedro Bettencourt

Na sala de visitas de Fatiha Selmane, o presente e o passado misturam-se. De um lado está a foto do Presidente Abdelaziz Bouteflika e dois exemplares do Corão. Do outro, cópias de um tratado de paz e amizade “ajustado em nome de Deus, Clemente e Misericordioso, entre S. A. R. [Sua Alteza Real], o Muito Alto e Muito Poderoso, Príncipe Regente de Portugal, dos Algarves, d’aquém e d’além-mar, em Africa de Guiné, e da Conquista, da Navegação, Commercio da Ethiopia, Arabia, Persia, e da India; e o Muito Nobre e Honrado Sid Hage Aly, Baxá [otomano] de Argel e mais províncias sujeitas ao seu Dominio [sic].”

O quase octogenário Bouteflika é ele próprio uma mistura de passado e presente. Mujahid (combatente) desde os 19 anos na guerra pela independência, conquistada em 1962, mantém-se no poder desde 1999. Ultrapassou a longevidade política do mentor, Houari Boumediène, mas a sua governação não tem sido isenta de críticas. Para Fathia Selmane, porém, ele é um herói.

Nos anos 1970, diz ela, quando começou a carreira diplomática no Ministério dos Negócios Estrangeiros, “havia um tecto de vidro que impedia as mulheres de chegarem ao topo”. Sem esperança de progredir, muitas optavam por se juntar a organizações internacionais. A situação só mudou a partir de 2001, quando Bouteflika começou a nomear as primeiras embaixadoras.”

É a esta “primeira geração” que pertence a actual embaixadora da Argélia em Lisboa. Está em funções desde 2009. Anteriormente, representou o seu país na Holanda e na África do Sul. “Não nos foi dada uma quota mas reconhecida justiça”.

“Depois da independência, a educação da mulher democratizou-se na Argélia; até então só 10 a 20% concluíam o ensino secundário”, refere Fatiha Selmane, doutorada em Direito e Relações Internacionais.

“Entre a minha mãe e eu há um enorme salto qualitativo. Sou de uma família de 11 filhos – sete são mulheres. Todos temos estudos universitários. Todo o ensino é gratuito na Argélia. Todas as famílias têm os filhos na escola. Foi a educação que nos ofereceu a liberdade e a capacidade de escolhermos a nossa vida.”

Para a embaixadora, “há um princípio cardeal que tem de ser respeitado: para trabalho igual salário igual”. E ela garante que assim tem sido desde que a Argélia se libertou do poder colonial francês. Fatiha é um exemplo da igualdade de oportunidades: por ela ser embaixadora, o seu marido, que é auditor de profissão, teve de deixar de trabalhar para assumir a educação das filhas. Se fosse ao contrário, seria ela a acompanhá-lo.

“Claro que nem todos os casais aceitam estas condições, mas homens e mulheres são livres para escolherem entre a carreira e a família. Alguns divorciam-se.”

O caminho percorrido pela Argélia é, para Fatiha Selmane, tão extraordinário, que ela não aceita “a ideia errada do Ocidente de que a mulher tem um estatuto de inferioridade” nos países árabes e muçulmanos.

“No Mediterrâneo, o machismo nada tem a ver com o Islão, porque também o encontramos na Grécia ou na Itália. Em Espanha fiquei chocada com o nível de violência doméstica [na última década foram mortas 700 mulheres, segundo o diário El Mundo].”

Aos que apontam a aparente incapacidade de os Estados árabes renovarem as suas lideranças, Fatiha Selmane tenta explicar, num castelhano fluente, aprendido com a avó quando a guerra civil espanhola (1936-1939) levava muitos refugiados para o Noroeste da Argélia, e mais tarde aperfeiçoado no que é hoje o Instituto Cervantes.

“Os progressos acontecem ao ritmo de cada país, e não se deve impor mudanças a partir do exterior. Cada sociedade tem a sua história. Bouteflika foi eleito pelos argelinos [em 18 de Abril, obteve 81% dos votos]. Todos os povos aspiram à democracia, mas é preciso avançar por etapas, de uma forma interna.”

* Solicitei entrevistas às embaixadoras dos Emirados Árabes Unidos, Sheika Najla Mohammed Salem Mohammed Al Qassim, e da Turquia, Ebru Gokdenizler, mas as diplomatas invocaram falta de tempo nas suas respectivas agendas para aceitarem os pedidos

@Shirin Neshat

© Shirin Neshat

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi originalmente publicado na revista MÁXIMA, edição de Janeiro de 2015 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese magazine MÁXIMA, January 2015 edition

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