Adonis: “O medo é banal. A morte é banal. O maior problema é defender a vida”

O mais famoso refugiado sírio vive, desde 1956, entre o Líbano e a França. O poeta que modernizou a literatura árabe, candidato perene ao Nobel da Literatura, descreve como “horror absoluto” os ataques terroristas que, em Novembro, abalaram Paris. O bairro onde vive, La Defense, era um dos alvos potenciais. Ele não tem medo: “O maior problema é a vida, não a morte”, diz nesta entrevista, a dois tempos, por telefone, e na sua casa e escritório. “Talvez agora me levem a sério, quando insisto em separar Estado e religião”. (Ler mais | Read more)

Adónis, numa foto da sua filha Nina Esber © www.ninaresber.com

Adonis, numa foto da sua filha Nina Esber
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É numa torre de betão e vidro, de 104 metros de altura e 308 apartamentos, La Tour Gambetta, em La Defense, que o ilustre poeta árabe Adonis vive e trabalha. E era aqui, no maior centro financeiro de Paris – e da Europa –, que o terrorista de 27 anos responsável pelos piores ataques na capital francesa desde a II Guerra Mundial (130 mortos e 350 feridos) planeava fazer-se explodir.

O atentado suicida em La Defense estaria programado para os dias 18 ou 19 de Novembro e seria cometido por Abdelhamid Abaaoud, o “cérebro” e financiador dos massacres de sexta-feira 13, informou o procurador François Molins.

De nacionalidade belga e origem marroquina, o operacional do autoproclamado “estado islâmico” (Daesh) regressado da Síria foi morto, precisamente no dia 18, durante um cerco policial num apartamento na zona de Saint Denis.

A 13, Adonis estava em casa quando tomou conhecimento, primeiro pela televisão, e depois em telefonemas de amigos, dos ataques coordenados, com bombas e metralhadoras, em seis locais de Paris, do Estádio de França ao teatro Bataclan. Aqui, onde decorria um concerto com 1500 pessoas, registou-se o maior número de vítimas, algumas executadas a sangue frio.

“Fiquei horrorizado – foi um horror absoluto”, diz-me o escritor sírio, numa conversa telefónica, que completou uma entrevista que me deu em Setembro, a primeira (assegurou ele) a uma publicação portuguesa.

“Estes criminosos podem até nem ser crentes, e admito que há uma maioria de muçulmanos a renegá-los, mas eles reclamam o direito de matar invocando o nome de Deus, e não podemos ignorar essa realidade.”

“Talvez agora me dêem razão quando insisto em separar rapidamente Estado e religião. Sem isso não avançaremos em direcção ao futuro.”

“Cada vez mais me convenço de que a religião organizada é uma colonização interior do ser humano”, enfatizou Adonis.

“Continuo o meu combate contra o fundamentalismo, o islamismo e as leis religiosas que a todos oprimem, e as mulheres, em particular. Enquanto as mulheres não forem livres, não progrediremos.”

Soldados franceses vigiam a Torre Eiffel depois dos ataques de 13 de Novembro de 2015 em Paris, que mataram 129 pessoas
© Joel Saget | AFP | Getty Images

O Presidente François Hollande prometeu “uma resposta implacável”, e Adonis confessou que ficou “muito feliz” quando começaram os bombardeamentos da França contra o Daesh. “Temos de ser realistas: a política ocidental na Síria faliu completamente. Há muito que deveria ter havido uma intervenção militar, como a que empreendeu a Rússia, que tem todo o meu apoio.”

“A Europa agiu tardiamente. Não defendo o regime de Bashar al-Assad, que é um dos grandes responsáveis pela destruição do país, mas os seus opositores também não são inocentes. De modo algum! Não interessa derrubar apenas um homem se não rompermos com as estruturas do passado.”

“Os ataques de Paris foram o princípio do fim do Daesh, estou convencido e podemos todos dormir descansados a este respeito”, frisou o poeta. “Não, não tenho medo de sair à rua. O medo é banal. A morte é banal. Toda a gente morre. O problema é viver e defender a vida. O problema não é a morte.”

A residência de Adonis e o escritório, que ele designa por “a desordem mais bem organizada”, ficam em dois pisos diferentes da Tour Gambetta onde, na portaria, funciona um centro de segurança permanente.

Enquanto espero por um dos vários elevadores, são muitas as mulheres muçulmanas que sobem e descem, a maioria com os cabelos cobertos por um lenço sugerindo devoção religiosa, o hijab.

Parece ironia que este lugar, frequentado por “ricaços do Golfo Pérsico”, seja o segundo exílio (depois de Beirute) do poeta que quer secularizar o mundo árabe.

É sábado, 18 de Setembro, 9:30 da manhã, quando toco à campainha de casa. Abrem-se a porta e o sorriso de um homem de cabelos brancos, mais aprumados do que é hábito, calças de ganga, casaco de bombazina preta a combinar com uma camisa de riscas e um cachecol de vários de tons de rosa.

Sou convidada a sentar-me num dos sofás de uma sala-de-estar com centenas de livros, paredes revestidas de pinturas pessoais e de amigos.

Na mesa em frente desalinham-se revistas, cartas, papéis diversos, canetas e lápis e uma caixa de baklava, doce tradicional turco. O anfitrião acaba de chegar de Ancara e Esmirna, e já tem as malas prontas para uma conferência nos EUA.

A sua mulher, a crítica literária Khalida Esber, fora hospitalizada no dia anterior. Ele permanece sereno, como a música que se ouve de um pequeno rádio e o sol que entra, radiante, por uma de duas janelas.

“Você conhece a minha história, não preciso de a repetir, certo?”, avisa, desde logo, o filho de camponeses a quem os pais deram o nome de Ahmed Said Esber quando nasceu, em 1930, em Qassabin, aldeia encravada entre a cidade de Latakia e o reduto da família Assad em Qardaha, na Síria.

“Adonis” foi o nome que, apesar de não acreditar em divindades, deu a si próprio aos 17 anos, inspirado no mito do deus greco-fenício da fertilidade.

Sentia-se frustrado por nenhuma publicação aceitar os seus versos e artigos. Como explicar que o ignorassem, ele que, aos 13, comovera o primeiro Presidente da República pós-independência ao declamar o primeiro poema, recompensado com uma bolsa de estudos no Liceu Francês de Tartous?

Ainda não foi em 2015 que Adonis, que já havia lido a poesia árabe clássica e pré-islâmica, e também as obras de Baudelaire, Rilke, Char e Michaux, quando se licenciou em Filosofia na Universidade de Damasco em 1954, ganhou o Nobel da Literatura.

Está sempre na lista de favoritos. Mas, em 2011, recebeu o não menos prestigiado Prémio Goethe (um de vários de uma carreira de sete décadas), por ser “o mais importante poeta árabe do nosso tempo”.

Adónis, na sua sala de visitas, na entrevista que me deu na sua casa em Paris. © Margarida Santos Lopes

Adonis na sala de visita da sua casa em Paris, durante a entrevista que me deu em 2015
© Margarida Santos Lopes

A nosso lado está uma personalidade, simultaneamente, delicada e indómita. Eis o socialista sírio que fugiu, primeiro, para o Líbano em 1956, depois de onze meses preso, acusado de subversão por se opor “à ideologia de ideias únicas” do Partido Baas, e que, em 1985, durante uma guerra civil, procurou abrigo em França.

Este é o amigo do poeta nacional palestiniano Mahmoud Darwish (1942-2008) que, nas revistas que dirigiu, Chiir e Mawáqif, apresentou ao mundo os novos talentos das letras árabes.

O escritor que abençoou a “primavera tunisina” de 2011, mas recusou apoiar “a revolução que sai das mesquitas” no seu país. Porque todas as ditaduras árabes, e não apenas uma, têm de ser derrubadas – pacificamente e não pela força.

Cheguei com um dos seus livros mais emblemáticos, Chants de Mihyar le Damascène (Gallimard) e regressei, após quase cinco horas de conversa, com dois presentes especiais: um das suas pinturas, que ele considera “indecifrável”, e Adonis [poemas], antologia em português do Brasil, selecção e tradução do árabe de Michel Sleiman, com apresentação de Milton Haitoum.

Uma das mesas de trabalho de Adónis, na sala de visitas. © Margarida Santos Lopes

A “desordem organizada” de Adonis
© Margarida Santos Lopes

Aos 85 anos, a sua energia parece inesgotável. Ainda agora veio da Turquia e já prepara outra viagem. Como é a sua rotina diária?

Tenho esta energia porque sinto que tenho qualquer coisa para dizer. Devo viver a trabalhar. Não tenho regras. Sou totalmente livre. Há dias em que trabalho de manhã; noutros dias não consigo. Não sigo qualquer disciplina, como outros escritores.

Surpreendem-me aqueles que têm a vida organizada: uma hora para escrever, outra para comer, outra para ler… Sou contra qualquer planeamento. De vez em quando gosto de nada fazer. Fico apenas quieto, a ouvir música…

Estava a ouvir música quando abriu a porta…

Sim, estava a ouvir música clássica, a minha favorita. Quando estou um pouco perdido, adoro ouvir Beethoven, Mozart para quando estou triste… ou alegre. Também gosto muito de Bach.

Da música para a palavra: qual é a que o define melhor?

Não encaixo em nenhuma definição. As definições deformam as coisas. As coisas estão em aberto; defini-las é fechá-las. Só duas palavras pretendem ser definitivas: “religião” e “ideologia”. E eu oponho-me a isso, porque a palavra é uma busca do infinito.

Mas não se define como poeta?

Oh, sim, sou poeta! E falo como poeta. Mas a poesia não consiste apenas em escrever versos. A poesia fala dos problemas mas não oferece soluções. A poesia é um pensamento. Todos os grandes poetas foram ou são grandes pensadores. A começar pelo vosso poeta português Fernando Pessoa. A poesia de Pessoa é a de um pensador.

Adónis junto a uma composição de algumas das suas pinturas, na sua sala de visitas. © Margarida Santos Lopes

Adonis junto a uma composição de algumas das suas colagens
© Margarida Santos Lopes

“Morremos se não acreditarmos em deuses/ morremos se não os matarmos”. O que quis dizer quando escreveu isto?

O dever do pensador é criar deuses e matá-los, logo a seguir. Para que haja uma renovação perpétua. A mentalidade religiosa satura o corpo…

É esse o pensamento subjacente a outra das suas afirmações: “As ditaduras militares controlam o espírito e as ditaduras religiosas controlam o espírito e o corpo”?

Sim, as ditaduras religiosas matam todo o ser humano.

Não acha possível conciliar religião e poesia? Em Portugal, temos um grande poeta, José Tolentino de Mendonça, que é padre e pensador, admirado por crentes e ateus…

Na sua poesia, ele é certamente uma pessoa aberta. Tem uma crença que lhe pertence. Eu respeito a fé individual. Não aceito é que alguém me imponha, pela força, as suas convicções. A religião é pessoal, como o amor. Sou contra a religião institucionalizada.

Recuso que toda a gente tenha de pensar da mesma forma. Se quisermos uma “religião social” então que seja a dos direitos humanos, a da liberdade, a da fraternidade.

A religião tem sido usada como instrumento de guerra, e o seu país – com mais de 20.000 mortos e uns dez milhões de refugiados e deslocados internos – é um desses campos de batalha. Que memórias guarda da Síria?

Tenho muitas memórias: a da minha aldeia, a da minha infância e a da infância da Síria, o país da Europa. Há uma lenda, na qual acredito, que este continente deve o seu nome à deusa fenícia Europa. Zeus transformou-se num touro e raptou-a.

Cadmo, o irmão de Europa, foi à procura dela e trouxe com ele o alfabeto. Não trouxe a guerra. A Síria é o berço de grandes civilizações e das três religiões monoteístas. Embora não seja monoteísta, respeito essas religiões. Sou apenas contra os aspectos totalitaristas das religiões.

Mas, na sua infância, estudou numa escola corânica…

Sim, nasci num meio religioso [a família de Adónis é alauita, uma subseita do xiismo que mistura rituais secretos judeus, cristãos e muçulmanos, e que é olhada com suspeição pela maioria sunita], mas com o tempo fui-me afastando. A partir dos meus 14-15 anos.

O meu pai foi bastante condescendente e amigo. Nunca me impôs as suas ideias. O seu conselho era este: “Pensa meu filho e depois decide.”

Tenho três irmãos e duas irmãs (uma delas já morreu). Respeitámos sempre a liberdade de cada um. A minha mãe, que morreu aos 107 anos, era uma mulher livre. Ainda tenho familiares na Síria mas, infelizmente, não os vejo desde há cinco anos.

Não mais regressou?

Não. Escrevi um livro sobre o que lá se passa, Printemps Arabes: Religion et Révolution [“Primaveras Árabes: Religião e Revolução”]. Não me canso de repetir que não podemos criar uma revolução que tenha como base a religião.

A humanidade precisa de uma revolução que separe totalmente a religião do Estado, da política, da cultura e da sociedade.

A religião só deve comprometer o indivíduo. É necessário devolver a liberdade à criatividade. As pessoas têm o direito de mudar de ideias. Um muçulmano ainda não pode mudar de religião. Se mudar, é condenado à morte.

Insisto no meu manifesto: não aceito participar numa manifestação cujo ponto de partida seja uma mesquita. Muitos, de início, criticaram-me duramente por esta posição, mas agora começam a dar-me razão.

O mundo de Adónis: livros e pinturas © Margarida Santos Lopes

Parte do mundo de Adonis: livros e rakaim, o que ela chama às suas “imagens, caligrafia árabe, cor e gestos figurativos
© Margarida Santos Lopes

Em 2011, quando começaram os protestos contra Bashar al- Assad, a faceta religiosa parecia ausente. Os sírios pediam reformas, não o derrube do regime. No entanto, as forças de segurança reprimiram vigílias pacíficas…

Sempre houve oposição na Síria. Eu sou opositor desde 1956! Condenei as políticas do Baas [partido único em Damasco e em Bagdad, durante o regime de Saddam Hussein]. A esquerda árabe, incluindo os comunistas, nunca foi verdadeiramente radical – interessa-lhe o poder mais do que mudar a sociedade. Veja o caso do Egipto: Gamal Abdel Nasser foi um grande líder, mas não deixou qualquer instituição moderna.

Uma das raras excepções foi Habib Bourguiba [1903-2000], na Tunísia, que mudou leis e deu mais direitos às mulheres. A Tunísia é, talvez, o único país onde o tecido social não é religioso; onde os fundamentalistas sabem que podem ser afastados a qualquer momento. Não se pode, contudo, fazer uma revolução apenas para derrubar um ditador.

Uma revolução – pela via pacífica e não pela violência (sou mais Gandhi do que Che Guevara) – tem de servir para mudar toda a sociedade. Desde há dois séculos que os árabes nada mais fazem do que mudar regimes – e não mudam mais nada.

Mas mudar o regime não é o primeiro passo?

Temos mudado muitos regimes, mas não construímos universidades…

… bem, na Arábia Saudita, reduto de uma versão rígida do Islão, o anterior rei fundou uma universidade sem segregação de sexos; no Qatar, foram criados pólos de universidades de elite inglesas e americanas.

Quando falo em universidades é no sentido moderno do termo. Não em instituições onde a religião permanece dominante nos currículos. Voltemos ao que se passa na Síria. O que acontece aqui é que em vez de um povo unido para derrubar o regime temos mercenários que usurparam e estão a destruir um país.

Esta revolução não é independente. Pelo contrário, está totalmente ligada a forças estrangeiras. Assistimos a uma invasão, a uma servidão.

Os que são revolucionários verdadeiros defendem novos princípios para o futuro. Os actuais “revolucionários”, sejam eles a Frente al-Nusra, aliada da al-Qaeda, ou o “estado islâmico” [Daesh], jamais falam das mulheres, por exemplo. É como se elas não existissem, mas é fundamental libertar a mulher do jugo religioso. Também nunca falam de laicidade.

Ora, como se pode fazer uma revolução sem questionar a religião? O objectivo das forças estrangeiras é mudar um regime cuja cor política lhes desagrada, e substituí-lo por outro mais favorável. Isto é um golpe de Estado – não me interessa!

Adónis no seu escritório, onde pinta e faz as suas colagens, mas onde os livros - sobretudo em árabe e em francês - estão também em toda a parte. © Margarida Santos Lopes

Adonis no seu escritório, onde pinta e faz as suas colagens, mas onde os livros – sobretudo em árabe e em francês – estão também em toda a parte
© Margarida Santos Lopes

No passado, as revoluções árabes eram mais ideológicas do que religiosas…

Sim, é verdade. Na minha juventude, quando havia esperança, a religião não tinha uma componente ideológica, ou era praticamente invisível. Nunca ninguém me perguntava: “Qual é a sua religião?” Hoje é o contrário.

A geração das “primaveras árabes” ainda pode inverter este declínio?

A “Primavera Árabe” fracassou devido às forças da regressão (Arábia Saudita, Qatar, etc…) e devido aos interesses estrangeiros. Mas, ainda acredito que há uma geração que não desistiu. Ser democrata significa reconhecer e aceitar que “o outro” é diferente. Não me refiro a tolerância – a tolerância camufla um sentimento racista.

A democracia exige liberdade, não tolerância. Um cristão tem de ter os mesmos direitos de um muçulmano, e isso só pode acontecer quando a religião se tornar apenas escolha individual. A democracia não pode ser um mero slogan.

“O criador deve apoiar sempre o que é revolucionário mas nunca ser como os revolucionários”. Pode explicar?

Um revolucionário praticante é o que aplica tácticas, estratégias… Eu estou na órbita dos revolucionários genuínos. Um criador está empenhado em mudar a sociedade, e não apenas o poder. Não me exprimo, porém, na linguagem dos revolucionários. Não repito jamais o que um revolucionário praticante diz, porque um escritor tem de ser totalmente livre.

Sou solidário com os revolucionários verdadeiros mas estou solitário nessa revolução. A ideologia é contra a arte. Sou militante, não partisan.

Essa solidão exige de si alguma força interior, porque as suas posições são controversas e muitos o criticam…

Sim. Quando não somos partisans, corremos o risco de ter muita gente contra nós. Muitos criticaram-me porque não usei as palavras deles. Recusei repetir os mesmo slogans. Permaneci um militante. Na nossa cultura, lamentavelmente, tudo se baseia na unidade – de Deus, da política, do povo. Mas não é possível chegar à democracia com esta mentalidade. Ninguém pode declarar que é o único dono da verdade.

Em 2011, quando recebeu o Prémio Goethe, avisou que se os homens do poder não ouvissem os clamores das populações seria inevitável uma catástrofe. É isso que está a acontecer na Síria. Um Presidente que não faz concessões, apesar de o povo estar a ser massacrado e de o património da humanidade estar a ser destruído…

É algo sem precedentes… Nunca, na minha vida imaginei que isto seria possível. Todos são responsáveis – não é apenas o regime, embora este seja o principal culpado.

Escrevi uma carta aberta a Bashar [publicada no jornal libanês “As-Safir”, em 2011], pedindo-lhe que ouvisse o povo, que não recorresse à violência e que permitisse as condições para a secularização do país. Ele ignorou-me. No entanto, também não compreendo que se possa combater um regime déspota em benefício de outro, como o islamismo.

Adónis, poeta do erotismo e do amor, tem pelo duas imagens de A Origem do Mundo, de Courbet, em lugar de destaque no seu escritório. © Margarida Santos Lopes

Adonis, poeta do erotismo e do amor, com A Origem do Mundo, de Courbet, em lugar de destaque no seu escritório
© Margarida Santos Lopes

Se Assad tivesse aceitado os pedidos de reformas, não teria sido possível uma transição pacífica?

Se julgarmos os regimes árabes, o sírio – no que toca ao desenvolvimento da sociedade – era, relativamente, quase o melhor deles todos. Se quisermos libertar os árabes, temos de nos insurgir contra todas as ditaduras árabes, sem excepção!

O Ocidente é muito hipócrita. Não escolhe o campo dos direitos humanos, mas o da colonização. Ainda há monarquias na Europa – mas são constitucionais e meramente simbólicas. Não são dinastias absolutas e hereditárias como as árabes.

É demasiado cedo para julgar os acontecimentos actuais. Apesar de tudo, muito já compreenderam que, na Síria, não está em marcha a revolução com que sonharam. E a triste realidade é que o regime está mais forte do que nunca.

Porquê?

Porque as pessoas fazem uma comparação. O regime era ditatorial – não há dúvidas quanto a isso. Mas não se está a combater a ditadura e sim a destruir um país. A oposição tem de se fortalecer.

Durante muito tempo a única oposição que parecia disposta a morrer era a da Irmandade Muçulmana. Os laicos, como Adónis, procuraram o exílio…

Não, não! Eu estive preso, e não fui o único. Mas é verdade que a ditadura oprimiu tudo o que era laico, cívico, humano. O regime favoreceu os religiosos.

Damasco é, hoje, uma floresta de mesquitas. E foi o regime que as construiu. No entanto, oprimiu todos os que defendiam a laicidade e a liberdade. O regime sabia que podia usar os crentes, porque os laicos eram uma ameaça maior.

Até que ponto a escolha do exílio favoreceu a ascensão dos religiosos?

Talvez, talvez tenha favorecido. Só posso falar de mim: não sou, repito, um partisan. Não sou político. Sou um homem da cultura. Sou poeta. [A conversa é interrompida para atender um telefonema de um amigo.]

Desculpe, mas estamos a preparar a publicação de Islam et Violence (“Islão e Violência”), que deverá sair em Novembro deste ano, e o III volume de Al-Kitâb [“O Livro” – considerada obra-prima]. É uma comédia como a de Dante, mas a dele centra-se no céu e a minha é terrena. É o inferno da história árabe.

Ainda se lembra do seu primeiro poema?

Essa parte da minha história já é quase lendária. Ainda hoje me interrogo como tudo aquilo foi possível. O que me levou a escrever aquele poema; a certeza de que o presidente iria gostar e me iria perguntar: “O que queres em troca?”; eu responder: “Quero ir para a escola”; ele aceitar.

Este diálogo imaginário realizou-se exactamente como eu o idealizei. Por isso, posso dizer que nasci na poesia. Nasci na poesia clássica.

Adónis no escritório onde, numa das paredes, colocou duas fotografias o casal José Saramado e Pílar. Não porque tenha lido algum livro do Nobel português da Literatura, mas porque o encantou "a imagem do amor". © Margarida Santos Lopes

Numa das paredes do escritório, Adonis colocou duas fotografias do casal José Saramago e Pilar. Não porque tenha lido algum livro do Nobel português da Literatura (uma das filhas até prefere António Lobo Antunes, diz ele), mas porque o encantou “a imagem do amor”
© Margarida Santos Lopes

O que inspira a sua poesia?

Não há inspiração. Há trabalho e há vida. A relação com as pessoas e com as coisas. É como se tivesse recebido uma revelação… Sou um profeta pagão.

Há temas sempre presentes: a amizade, o amor, o erotismo, a natureza…

Escrevo sobre o universo. O ser humano é uma criatura extraordinária e complicada. É, ao mesmo tempo, selvagem e divino. Um homem que decapita outro homem; um homem que também se abre à humanidade.

Amo toda a minha poesia. Se não a amasse não a escreveria. Escrevo sobre os males dos árabes, não de uma perspectiva externa mas interna. Vivemos numa cultura que não deixa espaço a perguntas. Nem Deus tem direito de resposta. (Risos)

A sua poesia nasce onde?

Nasce em casa e na rua, de dia e de noite… Não há um tempo para a poesia nem para o amor. Todo o meu tempo é para a poesia a para o amor. Não interessa quando, onde, como.

Tem sido influenciado por outros poetas?

É essencial termos uma luz pessoal e particular. Até podemos adicionar isto ou aquilo, mas a poesia é vertical. Não é linear. É preciso vir do interior. Só a partir daí se constroem todas as palavras. Cada poeta tem o seu espaço.

Só os maus poetas imitam frases ou imagens. Por exemplo, se gosto de Goethe ou de Dante, não vou fazer como eles. A sua influência impele-me a criar um mundo totalmente diferente do deles; um mundo só meu. Essa é a minha a única influência poética. Imitar uma cultura é banal.

É por isso que reescreveu toda a literatura e poesia árabes?

Não poderia ser poeta de outra forma. Rompi com o passado. Revolucionei a ordem das coisas. É isso que me importa. Os árabes não são iguais na sua língua, e não têm essa consciência.

Digo muitas vezes que o Islão se tornou numa religião sem linguagem e sem cultura. São mais os que ouvem do que os que lêem o Corão, mas a língua árabe não tem apenas música: tem corpo, voz, sonhos, imaginação…

Outro problema que enfrentamos: não há filosofia nem filósofos no mundo árabe. Não há psicanalistas, e nós precisamos mais de Freud do que de Marx. Os árabes são consumidores da modernidade ocidental, mas recusam o seu princípio racional.

Que poetas lê?

O meu primeiro poeta foi um filósofo, Heráclito [535-475 a.C., aproximadamente]. Foi ele quem disse que não podemos mergulhar duas vezes no mesmo rio. Amo muito os poetas que não o são no sentido clássico do termo. Nietzsche foi um grande poeta.

Adoro os textos antigos de poetas latinos, romanos e gregos. Da modernidade, amo Rimbaud, Baudelaire [que Adónis traduziu para árabe], porque eram ambos críticos da ordem estabelecida, sobretudo da religião.

Não quero falar dos que ainda estão vivos, mas gosto imenso dos poetas árabes clássicos como Ibn-Arabi, Abu Nuwas e al-Níffari, que foram muito mais revolucionários no seu tempo do que Baudelaire foi para os europeus. No entanto, foi com Baudelaire que redescobri Abu Nuwas.

Foi a ler os surrealistas que compreendi a grandeza de al-Níffari, um revoltado contra as instituições religiosas. Nawas e Níffari mudaram a estética e beleza da língua árabe. Alargaram a concepção da poesia. Revolucionaram a língua árabe a linguagem poética árabe.

Escreve sempre em árabe?

Sim. E a minha língua mãe. O árabe é a pele. Mais: é o corpo. Não se pode traduzir um poema clássico árabe – porque traduzir é destruir. A tradução é como uma nova criação. E, todavia, mesmo que seja “uma traição”, é preciso traduzir.

Adónis e uma das suas pinturas mais recentes (ainda inacabada), dedicada à Síria. © Margarida Santos Lopes

Adonis e uma colagem/rakima (singular de rakaim), ainda inacabada, dedicada à sua Síria
© Margarida Santos Lopes

Escreve os versos no computador?

De modo algum! Nunca! A minha mulher é que passa o que eu escrevo à mão para o computador. Não sou capaz de imaginar uma máquina a separar o poema do corpo.

Tenho tantos, mas tantos blocos de notas, que é impossível dizer quantos. Quando me sinto cansado, escrevo prosa em vez de poesia. Desde há dez anos que me dedico também ao desenho e a colagens.

Como é que isso começou?

Por acaso. Há momentos em que não consigo ler nem escrever. Tenho muitos amigos pintores e alguns desafiaram-me: por que não fazes qualquer coisa que esteja no prolongamento e no espírito da poesia? Tentei fazer algo em vez de nada fazer, porque houve um tempo em que parei tudo. Mas, depois, tive de recomeçar.

Um amigo que já morreu, Michel Camus [1929-2003], viu as minhas colagens e perguntou-me: “Quem fez isto?” Eu respondi: “Foi um outro amigo.” E ele replicou: “Posso conhecer esse amigo?” Tive de confessar: “Fui eu.” Ele encorajou-me e organizou exposições.

O que significa, para Adónis, o exílio?

Somos todos exilados – porque viver neste mundo não foi uma escolha nossa. Não escolhemos os nossos pais nem o lugar onde nascemos. O criador estabelece sempre uma distância entre si próprio e os outros. Quando nos distanciamos, entendemos melhor o nosso país.

Somos exilados na nossa própria língua. O exílio, para um criador, é um estado natural. Não poderia escrever e viver sem esse distanciamento. É como o amor: só dois corpos solitários podem fazer amor.

Não há pátria?

Não. A pátria é onde escrevemos – não é uma geografia. O que é essencial é o ser humano. É por isso que os poetas se consideram irmãos, independentemente da sua língua, da sua nacionalidade, do seu país. Entre os meus exílios de Beirute e Paris, há apenas uma diferença de grau.

Em França, é um ambiente mais repousante e aberto. No Líbano, é mais íntimo e natural. Talvez, num certo sentido, Fernando Pessoa esteja mais próximo de mim do que um poeta árabe.

O que é que conhece da poesia portuguesa?

Conheço Miguel Torga e Nuno Júdice, mas não muito bem. Quanto a Fernando Pessoa, leio-o como um homem incompleto que anda em busca de si próprio. Sinto que se repete muito. Diz em duas páginas o que poderia ter dito em duas linhas.

Os árabes também são assim. Eu só mudei isso um pouquinho. Creio que viver e amar ajudam a que não precisemos de usar muitas palavras. Isto não é uma crítica. Não gosto de julgar, nem de insultar.

[Nuno Júdice seleccionou, traduziu e assina o prefácio da primeira antologia poética de Adonias publicada em Portugal, em 2016, “O arco-íris do instante”]

Eu, pelo contrário, adoro ter inimigos, desde que não sejam ignorantes. Um grande inimigo é como um grande amigo. Vê o que não está bem em nós, mas respeita-nos. Só as pessoas mesquinhas, as que nada têm para dizer, gostam de enxovalhar os outros. Os maus poetas condenam; os grandes esquecem.

Adónis e uma das colagens: uma nova forma de arte que tem merecido exposições em vários países. © Margarida Santos Lopes

Adonis e uma das rakaim mais recentes: nova forma de arte que tem merecido exposições em vários países, do Reino Unido aos Emirados Árabes Unidos
© Margarida Santos Lopes

Para um poeta que já recebeu tantos prémios, sente-se magoado por ainda não lhe terem dado o Nobel da Literatura? Só um árabe, o egípcio Naguib Mahfouz o ganhou no ano [1988] em que se esperava que fosse Adonis.

Mahfouz foi um grande escritor e eu gostava muito dele. Não me interessa falar do Nobel. Para ser sincero, não busco essa glória. Já o dinheiro do prémio poderia ajudar-me a ter uma vida menos difícil – porque sou obrigado a escrever e a viajar muito.

[Estamos agora no estúdio, duas assoalhadas – uma para as pinturas e colagens, e outra para guardar estes trabalhos, em fase de aperfeiçoamento ou eliminação; mais livros, fotografias, jornais, molduras, dossiers, relíquias… Temos de ter cuidado com os pés. Um passo em falso e podem perder-se preciosidades.]

Tem aqui nesta parede duas fotografias de José Saramago, o escritor português que ganhou o Nobel da Literatura em 1998. Leu algum dos livros que ele escreveu?

Nenhum! Para ser sincero, uma das milhas filhas admira mais [António] Lobo Antunes, que eu também nunca li. Coloquei estas fotos de Saramago abraçado à sua mulher [em Lanzarote, Espanha] porque são belas, e exprimem uma relação de amor.

[Apontando para um postal] É como esta reprodução de A Origem do Mundo, de Courbet, um quadro que, por mostrar a genitália de uma mulher, escandalizou tanta gente quando foi pintado [em 1865].

Eu gosto de escrever sobre o corpo – marginalizado, oprimido, escondido pelas religiões. Se não conhecemos o nosso corpo, como chegaremos ao “outro”?

Tem medo da morte?

Muitas vezes é preciso morrer para viver. Não tenho medo da morte, apenas de morrer deixando um poema incompleto.

Como espera ser recordado pelos árabes?

Não me interessa como sou visto e serei lembrado. Só me interessa criar o que os árabes não conhecem ou nunca conheceram.

Um grande poeta não escreve para os outros. Escreve para se compreender melhor a si próprio e compreender melhor o mundo. Não escreve para transmitir uma mensagem. Escrevo para ser um lugar de encontro com os outros.

Adónis, numa foto da sua filha Nina Esber © www.ninaresber.com

Adonis, numa foto da sua filha Nina Esber
© http://www.ninaresber.com

Este artigo, aqui na versão integral e actualizado, foi publicado na revista VISÃO em 3 de Dezembro de 2015 | This article, here an updated and expanded, was originally published in the Portuguese news magazine VISÃO, on December 3, 2015.

De um quarto em Alhandra para o Parlamento: As muitas vidas de Domicília

Na terra que a viu nascer, a filha de Antero da Costa e Maria Correia dos Santos, operários da antiga “fábrica da Figueira”, ainda recorda os lugares onde começou a sua história. Não renega o passado de clandestinidade no PCP, partido a que os pais foram leais até à morte, mas o seu presente é outro. Aos 69 anos, entrou na Assembleia da República como deputada do Bloco de Esquerda. (Ler mais| Read more…)

Domicília Costa completará 70 anos em Janeiro de 2016. Não esperava ser eleita deputada quando o BE a conviou para integrar as listas às legislativas em 2015. © Bloco de Esquerda

Domicília Costa não esperava ser eleita deputada quando o Bloco de Esquerda a convidou para integrar as listas do partido às legislativas em 2015
© Bloco de Esquerda

Os olhos fatigados de Odete Costa, 85 anos, reflectem várias cirurgias e horas dedicadas à costura. Já não exerce a profissão, embora ainda dedilhe um alfinete solitário preso à camisola de lã que a aconchega.

Ao toque da campainha, ela assoma à janela de casa, na R. D. Maria Annes, em Alhandra, e a “vista cansada” ilumina subitamente um sorriso generoso: “Oh, Cilinha, o que fazes por aqui?”

Cilinha é diminutivo de Domicília Maria Correia da Costa, quase septuagenária, uma sobrinha natural de Alhandra e eleita deputada do Bloco de Esquerda no distrito do Porto, sua actual residência, depois de várias décadas consagradas ao Partido Comunista Português (PCP). A porta abre-se, e as duas mulheres abraçam-se, genuinamente comovidas.

Odete é viúva do serralheiro Alfredo, um dos irmãos de Antero da Costa, pai de Domicília. Quando a filha única lhe deu a notícia de que iria ter uma sobrinha no Parlamento não ficou surpreendida. “Por que haveria de ficar?” O espanto foi de Cilinha: “Olhe, eu fiquei.” A tia replicou: “Mas a tua vida foi sempre a política!”

Saberia Odete das actividades clandestinas dos pais de Domicília? “Desconfiávamos, sobretudo quando eles se mudaram para o Sobralinho, sem dizerem nada a ninguém”. Sentadas num sofá de uma sala aprimorada com retratos de família, quadros e flores, tia e sobrinha vão passando em revista momentos bons e mal-entendidos.

O dia em que Domicília, aos 5 anos, foi ao casamento de Odete com “um vestido muito bonito que durou até aos 11 anos”. E o dia em que Alfredo devolveu uma carta de Antero “magoado por ter sido o único que não recebia notícias do irmão”.

Reencontro, em Alhandra. com a tia, que ainda trata Domicília por "Cilinha. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Reencontro, em Alhandra. com a tia Odete, que ainda trata Domicília por “Cilinha
© MSL

A mulher que os familiares tratam por Cilinha e que também era conhecida como Deolinda (“nome escolhido aos 9 anos, quando me disseram que não podia continuar a dizer que me chamava Domicília, e que usei, para vizinhos e colegas de trabalho durante o resto da clandestinidade, até ir para França, aos 20 anos”) e como Daniela (“pseudónimo para todos os camaradas, desde os 11 anos”) tentou justificar as limitações do pai.

Ele não podia usar os correios, para não ser interceptado pela PIDE, a polícia política da ditadura. Naquele tempo, a correspondência circulava de mão em mão, no PCP, até chegar ao destinatário. No final, a tia pediu à sobrinha que, nas suas novas funções, “deixe o país melhor, em paz”.

Por um país melhor tem sido a luta das “muitas vidas” de Domicília Costa desde que nasceu, a 25 de Janeiro de 1946, num “quarto alugado a um senhor que vivia sozinho”, na R. Vasco da Gama, junto ao quartel dos Bombeiros, em Alhandra. Era um prédio de rés-do-chão e primeiro andar, e neste vivia D. Odete.

“O meu pai fugiu de casa do meu avô, em Alfama [Lisboa], quando tinha uns 10 ou 12 anos, e veio viver com a mãe, natural de Subserra, mas já a morar em Alhandra”, contou Cilinha, no amplo salão de entrada da Sociedade Euterpe Alhandrense (SEA), a colectividade a que esteve ligado outro activista do PCP, Soeiro Pereira Gomes.

“Obviamente que li Esteiros”, sublinha Domicília, referindo a obra do escritor neo-realista dedicada aos “homens que nunca foram meninos”, crianças que eram exploradas no lodo dos telhais, onde se utilizava o barro para produção de telhas e tijolos.

“Sozinho, o meu pai fez várias tarefas para se sustentar”, disse a deputada, demonstrando orgulho. Aos 17 anos, ele foi trabalhar para a chamada fábrica da Figueira. Seguiram-se quatro anos de tropa, incluindo dois em Cabo Verde. Em 1942-1943, instalou-se em Alhandra. Em 1945, casou-se.”

"Cilinha" com os pais, em Alhandra: uma família que viveu muitos anos na clandestinidade. © Cortesia de Domicília Costa | Courtesy of Domicília Costa

“Cilinha” com os pais, em Alhandra: uma família que viveu muitos anos na clandestinidade
© Domicília Costa

É importante realçar o simbolismo da fábrica referida por Domicília. Foi fundada, em 1892, por Domingos de Assis, como Fiação de Tecidos de Lã. Mais tarde, seria designada Empresa Nacional de Penteação de Lãs. Ficou conhecida como “da Figueira” por se localizar numa quinta com o mesmo nome. Vital para o abastecimento da indústria têxtil, ali se registaram as primeiras greves, em 1898, pela melhoria das condições de vida.

Em 1932 e em 8-9 de Maio de 1944, seguiram-se mais paralisações, envolvendo operários de outras empresas do concelho, como a Cimento Tejo (Alhandra), Covina (Santa Iria de Azóia), Soda Póvoa (Póvoa de Santa Iria)…, mas também trabalhadores rurais em São João dos Montes, Sobralinho, Á-dos-Loucos e Cotovios.

A “marcha da fome” fora convocada pelo PCP. como protesto contra as políticas de Salazar, agravadas pela II Guerra Mundial, que racionavam géneros alimentícios, incluindo pão, os quais seriam desviados para a Alemanha de Hitler e a Espanha de Franco. A Praça 8 de Maio de 1944, junto à estação ferroviária de Alhandra, é um tributo àquelas lutas laborais.

Sem certeza, Domicília diz ter “a ideia” de que o pai (que adoptou na clandestinidade o nome de António) se tornou militante do PCP aos 27 anos, após as greves de 1944. A filha abandonaria o partido uma primeira vez, em 1970 e, definitivamente, em 1991, mas posteriormente ainda ajudou a mãe a cobrar quotas e a vender o jornal Avante, de porta em porta.

A deputada do BE na creche da antiga "Fábrica da Figueira", em Alhandra, onde os pais trabalharam. © Cortesia de Domicília Costa | Courtesy of Domicília CostaDomicília Costa | Courtesy of Domicíiia Costa

A deputada do Bloco de Esquerda na creche da antiga “Fábrica da Figueira”, em Alhandra, onde os pais trabalharam
© Domicília Costa

Maria Correia dos Santos, a mãe de Domicília, era natural das Cardosas, em Arruda-dos-Vinhos. “Aos 12-13 anos, começou a trabalhar como criada em Lisboa. Serviu em várias casas até ir, também, para a ‘fábrica da Figueira’, onde esteve pouco tempo.

Só vivemos uns meses no primeiro quarto alugado, que dava para umas traseiras de onde só se via um muro muito alto. Era um sítio sombrio, sem luz. A seguir, arrendou-se, ‘uma parte de casa’ no bairro do Manuel César, onde ficámos também só alguns meses.”

Após uma longa conversa, a deputada vai em busca dos lugares da infância. O passo é célere e firme. A elegância está na simplicidade de um conjunto de calças castanhas, camisa e colete bege, casaco em tons de rosa, mala azul numa mão, de onde irá retirar fotos com marcas do tempo, e noutra o livro As Mulheres de Alhandra na Resistência, de Antónia Balsinha.

Ao passar pelo decrépito mas outrora faustoso cine-teatro Salvador Marques, inaugurado em 1905 com a peça Comissário de Polícia, o rosto a que o cabelo grisalho não retrai jovialidade alegra-se: “Vi ali muitos filmes”.

Na Praça de 7 de Março, que homenageia o médico Sousa Martins, lembra-se da primeira Farmácia Central, onde hoje funciona uma churrascaria. Procura, mas não reconhece os espaços partilhados com Antero e Maria junto ao rio Tejo, onde se deixa fotografar.

Numa paragem-relâmpago matinal na sede do PCP, Rua Dr. Miguel Bombarda, um homem vem à porta dar as boas-vindas. Nunca ouviu falar de Antero, nem de Domicília, embora louve a eleição de Domicília.

Pede-lhe que venha mais tarde, quando estiverem presentes “camaradas mais velhos”. Não houve tempo, mas, provavelmente não encontraria ninguém. As vidas na clandestinidade não principiaram aqui.

“Mudámos para o Sobralinho quando eu tinha quatro anos. A minha mãe ficou desempregada. Vivemos em duas casas num mesmo bairro, onde começaram as reuniões secretas do PCP. Os meus pais nunca assistiam. A essas casas chamava-se ‘pontos de apoio’”.

Com um amigo, no Sobralinho, para onde os pais de "Ciliinha" se mudaram, sem informar ninguém (familiares, amigos, vizinhos) ,depois de deixarem Alhandra. © Cortesia de Domicília Costa | Courtesy of Domicília Costa

Com um amigo, no Sobralinho, para onde os pais de “Ciliinha” se mudaram, sem informar ninguém (familiares, amigos, vizinhos) ,depois de deixarem Alhandra
© Domicília Costa

Quando deixaram Alhandra, onde viveram três anos, surgiram os primeiros conselhos: “Os funcionários do partido que nos visitavam deveriam ser sempre identificados como nossos ‘primos’, se vizinhos e outros estranhos se mostrassem curiosos. Aprendi desde muito cedo a não fazer perguntas. Era como uma ‘pascácia’ – vai para aqui, vai para acolá.”

“Não foi uma infância normal”, admitiu Cilinha. “Tinha pouca convivência com outras crianças, sobretudo as que brincavam na rua. Andava-se muito a pé, e também de bicicleta – o transporte do meu pai.”

“A minha mãe nem sempre me deixava sair. Eu ficava à soleira da porta ou à janela. Tínhamos um cão meigo, mas barulhento. Ladrava quando via estranhos. Os moradores do bairro deram-lhe o nome ‘Autoridade’, porque ele fiscalizava tudo”.

A família de Cilinha mudou-se, de novo, quando ela tinha 6 anos, desta vez para Alverca. Viveram aqui em duas casas, que ainda existem na R. Joaquim Sabino Faria. “Recebíamos, na altura, três funcionários do partido e, a partir de então, já não podia sequer falar deles aos vizinhos.

Por ordem do partido, António despediu-se da “fábrica da Figueira”, quando Domicília tinha 7 anos. Alugou outra casa em Lisboa. “Ainda frequentei uma escola em Alverca, mas só conclui a 1ª classe, e no Lumiar. Fiz a 2ª classe na Buraca, onde ficámos pouco tempo. Mudámos de novo. Para o Porto, em Maio de 1954.”

“O primeiro problema surgiu quando o Ministério da Educação, seguindo novas regras, recusou emitir um boletim de transferência se a minha mãe não desse a nova morada. Ora, isso era impossível porque o partido não permitia que identificássemos a residência.”

“Quando deixávamos uma casa, tudo ficava para trás. Desaparecíamos completamente. Não podíamos visitar ninguém, nem ser visitados. Era isto a clandestinidade.”

Foi assim, um mês antes de passar para a 3ª classe, aos oito anos, que Domicília teve de abandonar a escola. Ainda ficou ao cuidado de duas “amas”, para não levantar suspeitas, mas só voltaria às aulas em 1975, quando completou a 4ª classe, já após o nascimento do primeiro filho.

No mesmo ano, matriculou-se no antigo ciclo (fez o 1º e o 2º num só ano), em regime nocturno, pós-laboral. Durante a gravidez do segundo filho, concluiu o 7º ano. Tinha 31 anos. “Como não arranjava trabalho, desisti e passei a cuidar da casa, dos filhos, a fazer natação, a ir ao cinema e ao teatro, a passear.”

Numa das "casas de apoio" do PCP alugadas para a família receber os militantes na clandestinidade. © Cortesia de Domicília Costa | Courtesy of Domicília Costa

Numa das “casas de apoio” do Partido Comunista Português alugadas para a família receber os militantes na clandestinidade
© Domicília Costa

Porto, Leça da Palmeira, Matosinhos, Viseu, Montijo, Baixa da Banheira, Paio Pires, Vila Nova da Caparica, Cova da Piedade, Almada, Trafaria, Ermesinde… foram muitos os “pontos de apoio” da família de Cilinha ao serviço do PCP.

Muitas das casas eram térreas, para facilitar a fuga em caso de perigo; a certa altura, optaram por prédios de três apartamentos em cada piso para dificultar a identificação de inquilinos e visitantes.

A partir de 1955, Antero e Maria ficaram encarregados de pôr a funcionar e proteger uma tipografia do partido, onde seriam impressos, durante quatro anos, os jornais O Corticeiro e O Camponês.

Aos 11 anos, Domicília começou a trabalhar ali, a ajudar a família. “E, aos 13 anos, os camaradas decidiram que eu deveria receber um salário por inteiro e pagar a quota estabelecida pelo partido.”

“Em 1959 foi preso um dos funcionários que ia a nossa casa; fomos avisados de que estavam a ser presas pessoas denunciadas por ele. Recebemos ordem para fechar a tipografia, e o meu pai foi fazendo trabalhos avulsos de carpintaria, sempre indicados pelo PCP”.

Aos 12 anos, Domicília e os pais acreditavam que o país poderia mudar. Em 1958, “Humberto Delgado candidatou-se a Presidente e o tempo era de esperança”, recordou.

“Começara a aventura no espaço, com o Sputnik. As pessoas falavam de russos e americanos. Eu sonhava em acabar a 4ª classe e ser modista ou professora. Infelizmente, as eleições foram uma fraude, e acabámos com Américo Tomás a suceder a Craveiro Lopes. Foi um balde de água gelada.”

No início de 1961, o ano em que Henrique Galvão, capitão opositor de Salazar, comandou o assalto ao paquete Santa Maria, Antero/António mudou-se de novo com a família para o Porto, junto ao Mercado do Bom Sucesso. Durante três meses deram abrigo ao secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, à companheira e à filha de ambos, de poucos meses.

Cilinha não ficou fascinada com o homem que um dia entrou em sua casa disfarçado de cabelo e sobrancelhas louras. “Não era uma pessoa muito simpática”, diz ela sobre o líder comunista. “Talvez fosse assim, um pouco sisudo, porque tinha muitas responsabilidades. Muitas vidas dependiam dele.”

Maria, a mãe de Domicília, chegou a ser repreendida pelo partido por o ter deixado entrar, numa noite, quando ele apareceu sozinho e não com outro camarada. Ela reconheceu-o, e achava que o perigo seria maior se ele ficasse nas escadas.

Aos 17 anos, Domicília Costa, seguindo instruções do partido, procura um emprego. “Tínhamos uma verba mensal para comprar um de três diários – o Jornal de Notícias, o 1º de Janeiro ou O Século – e foi num destes que consultei os anúncios classificados.”

“Não poderia trabalhar numa fábrica ou em empresas comerciais porque os nossos documentos de identificação eram falsos. Eu teria gostado de trabalhar numa livraria, mas fui aconselhada a aceitar trabalho de costura, sem descontos para a então Caixa de Previdência.”

Trabalho de cozinha, em França, quando aqui se exilou, após romper com o PCP, em solidariedade com o camarada Silva Marques. © Cortesia de Domicília Costa | Courtesy of Domicília Costa

Trabalho de cozinha, em França, quando aqui se exilou, após romper com o PCP, em solidariedade com o camarada Silva Marques
© Domicília Costa

Aos 20 anos, o PCP pediu-lhe que fosse viver com um funcionário do partido sem que tivessem sido previamente apresentados.

“Era Inverno, talvez Janeiro de 1966, levei um jornal debaixo do braço para ser identificada, e esperei junto ao Largo de Contumil, no Porto. Ele disse-me algo que não recordo. Talvez me tenha perguntado as horas… A minha resposta deve ter sido disparatada – só podia ser! Em Abril fui sozinha, de Ermesinde à Baixa da Banheira.”

“O meu pai apenas me pôde ajudar a levar até ao comboio duas malas pesadíssimas (com roupas para o corpo e para a casa; pratos, talheres, panelas, tachos e outros objectos).

Despedimo-nos sem que ele soubesse para onde eu ia. A carruagem estava apinhada, com muitos soldados. Deveria ser sexta-feira. Fui em pé de Campanhã até Santa Apolónia. Segui de imediato para o Mosteiro dos Jerónimos.”

Ao vê-la com as malas, Silva Marques, o homem com quem o partido decidira que iria viver, “ficou horrorizado”. Como ela chegara duas horas atrasada, não deu para cumprir a regra de apanhar dois transportes. Ela ainda se lembra da mudança, com os pais, da Vila Nova da Caparica para a Cova da Piedade.

“Levámos a mobília, a gata e os coelhos. Como a camioneta não nos podia conduzir até ao destino pretendido, parámos num pinhal. Eu fiquei à espera com a minha mãe, até o meu pai chegar com outra camioneta.”

Silva Marques e Daniela – nome com que Domicília assinava, então, o jornal clandestino das mulheres do partido – foram de táxi até uma casa com duas divisões, cozinha e WC. “Ele dormia no quarto e eu, como sempre fiz desde criança, na sala de jantar.”

“Não recebíamos ninguém. Ele recolhia e dava informações noutros sítios. Contactava operários na CUF, e ambos fazíamos o boletim dos trabalhadores, batido a stencil.”

Silva Marques já havia estado preso. Fugira da cadeia do Porto. Quando suspeitaram que estavam a ser seguidos na Baixa da Banheira, mudaram-se para Paio Pires, depois para o Marquês de Pombal, seguindo-se as termas de São Pedro do Sul.

Viveram juntos durante quatro anos. A 3 de Agosto de 1968, regozijaram quando souberam que Salazar, de férias no forte de Santo António do Estoril, caíra da sua cadeira de lona, nunca mais recuperando.

Em 1970, quando o ditador morreu, a esperança renasceu. “Talvez Marcelo Caetano fosse melhor. No entanto, não tinha vontade de democratização. Algumas coisas até pioraram, como as torturas infligidas aos presos.”

A “união” com Silva Marques terminou quando ele decidiu afastar-se do partido. “Num congresso no estrangeiro onde foi votada uma moção, ele absteve-se, mas os jornais Avante e Militante noticiaram que o documento fora aprovado por unanimidade”, revelou Domicília.

“Ele protestou e pediu uma rectificação. O PCP foi prometendo ceder ao pedido mas, depois, recusou. Fiquei revoltada com a direcção. O meu camarada tinha razão. Solidária, decidi romper com o partido, mas quis comunicar aos meus pais sem interferências. Eles compreenderam, embora continuassem a ser funcionários leais.”

Silva Marques, que tinha “cadastro”, procurou exílio em França. Ela seguiu-lhe o exemplo, em Abril de 1970. Tinha 27 anos quando partiu “a salto”, sem passaporte, pela fronteira de Vilar Formoso. “Tive sorte porque arranjei logo trabalho numa organização não governamental que lidava com refugiados políticos, a maioria espanhóis.”

Foi em França que Domicília conheceu o marido, Joaquim Soares Santos Júnior, e nasceu o primeiro filho. Em 1974, o ano do 25 de Abril, o casal regressou à pátria. Inscreveram-se como membros do entretanto legalizado PCP. Em Janeiro de 1975, o marido foi readmitido na Função Pública; em Fevereiro, foram para a residência dos pais de Domicília em Oliveira do Douro.

Em 1991, após a queda do Muro de Berlim e do colapso da União Soviética – e, curiosamente, ano do encerramento da “fábrica da Figueira” –, Domicília e Joaquim apoiaram os que, no PCP, clamavam pela realização de um congresso extraordinário.

Exigiam debater os acontecimentos que mudavam o mundo. “Nem tudo o que nos disseram era verdade. Havia muitas mentiras. A URSS também tinha censura e presos políticos. A vida não era um mar de rosas. Senti-me enganada. A desilusão foi grande, mas no essencial sinto que valeu a pena tudo o que fiz.”

O pai de Domicília morreu em 1999. A mãe em 2000. Estão ambos sepultados em Arruda-dos-Vinhos.

Álvaro Cunhal (à direita), o líder histórico do PCP, foi um dos "hóspedes" dos pais de Domicília, mas hoje as suas ideias políticas são as de Marisa Matias (em cima), candidata do Bloco de Esquerda às presidenciais, e de Catarina Martins, a porta-voz do partido. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Álvaro Cunhal (dir.), o líder histórico do PCP, foi um dos “hóspedes” dos pais de Domicília, mas hoje as ideias políticas de “Cilinha” estão em sintonia com as de Marisa Matias, candidata do Bloco de Esquerda às presidenciais, e de Catarina Martins (esq.), porta-voz do partido

A ligação ao Bloco de Esquerda começou por influência do filho mais novo e dos seus amigos. Convivia com eles e era chamada a participar em reuniões, com uma informalidade que a cativou, e que “nunca existiu” no PCP. “O BE é um partido aberto”, elogiou.

“Temeu-se o pior com a saída de Francisco Louçã, que era muito carismático. Felizmente, a Catarina Martins emergiu com uma grande vivacidade e simpatia. É talvez mais pequenina do que eu, mas revela grande experiência e consegue passar bem a mensagem por ser eloquente.”

Como é que Domicília foi parar às listas de candidatos às últimas legislativas? “Olhe, estava numa acção contra a privatização do metro do Porto e amigos do meu filho perguntaram-me se eu aceitaria ser candidata. Eu já tinha concorrido à Junta de Freguesia de Oliveira do Douro, em 2005.”

“Não estava a ligar-lhes nenhuma, e respondi: ‘Se acharem que faço falta, ponham-me para lá’. E fui para casa. Colocaram-me em 4º lugar. No dia das eleições, não fui, como era hábito, para as mesas de voto. Não fora preciso.”

“A tarde estava agradável, depois de ter chovido a potes de manhã, e decidi ir para o Bloco. À medida que iam sendo anunciados os resultados, as pessoas celebravam. Quando chegou a minha vez, muitos disseram que já esperavam, mas eu não. Fiquei muito surpreendida.”

A rotina que passava por nadar e caminhar, por motivos de saúde, foi alterada. Ainda a viver em casa de amigos, em Lisboa, só de sexta a segunda, Domicília Costa pode ir ao Porto. Também ainda está a aprender os regulamentos da Assembleia da República. “Não tenho pressa de intervir, quero aprender primeiro com os outros.”

No final da entrevista, com o mesmo brilhozinho nos olhos com que falou de Catarina Martins, enalteceu também Marisa Matias, a candidata do Bloco à Presidência: “Ainda não a conhecem bem, porque ela tem estado no Parlamento Europeu, mas quando se aperceberem da sua sabedoria e energia, as pessoas ficarão maravilhadas.”

[Em Julho de 2017, o Bloco de Esquerda informou que Maria Manuel Rola, de 33 anos, iria substituir, na Assembleia da República, Domicília Costa, 71 anos, que, “por cansaço” renunciou ao mandato de deputada.]

O livro © Direitos Reservados | All Rights Reserved

O livro As Mulheres de Alhandra na Resistência: Anos 40-Século XX, de Antónia Balsinha, onde é contada uma parte da história da sua família
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Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente na revista “Vida Ribatejana”, edição de Dezembro de 2015 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese news magazine “Vida Ribatejana”, December 2015 edition

“Há em Netanyahu um ódio tão profundo aos palestinianos que não é difícil encontrar afinidade com Hitler”

Historiador franco-libanês, Gilbert Achcar é o autor de Les Árabes et la Shoah: La guerre israélo-arabe des récits (“Os Árabes e o Holocausto: A guerra israelo-árabe das narrativas”), aclamada como uma obra de referência. Não há aqui complacência com os negacionistas do genocídio de seis milhões de judeus. Uma grande parte do livro é dedicada a Haj Amin al-Husseini, Grande Mufti de Jerusalém, e aos seus encontros com os nazis, durante a II Guerra Mundial. Na sequência da acusação de Netanyahu de que o extermínio foi ideia do defunto líder espiritual palestiniano e não de Hitler, telefonámos para Beirute, onde Achcar se encontra em ano sabático da cadeira de Relações Internacionais que lecciona na School of Oriental and African Studies (SOAS, Escola de Estudos Africanos e Orientais), em Londres. (Ler mais | read more…)

Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel
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Como avaliou a declaração do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, de que a culpa pela Solução Final não foi de Hitler mas de Haj Amin Al-Husseini?
Netanyahu chocou o mundo inteiro, ao tentar exonerar Hitler. A única razão que encontro para este discurso ultrajante é a de que Netanyahu odeia os palestinianos mais do que odeia Hitler. Isto é chocante.

Sempre vimos revisionistas do lado pró-nazi e anti-semita; do lado sionista este revisionismo, agora expresso por Netanyahu, é surpreendente. Do ponto de vista histórico, o que Netanyahu disse é um disparate total.

Até o Governo alemão refutou imediatamente o que ele disse [assumindo o Holocausto como responsabilidade exclusiva nacional]. Na extrema-direita do movimento sionista há um ódio tão profundo aos palestinianos que não é difícil encontrar esta afinidade com Hitler, tentando absolvê-los dos seus crimes sórdidos.

Talvez, por quererem ver-se livres dos palestinianos – não digo que seja recorrendo ao genocídio, mas através de expulsões ou transferência em massa. Isto é muito perigoso e trágico. Netanyahu é um político oportunista, capaz de se exprimir de forma muito demagoga, de acordo com a sua audiência, para conseguir o que quer.

Não foi a primeira vez que a figura de Amin al-Husseini foi invocada para associar os palestinianos ao nazismo. Qual era, afinal, a relação entre o Mufti e Hitler?
Amin al-Husseini era um nacionalista de direita, sem escrúpulos e profundamente anti-semita. Ao contrário de Hitler, porém, a natureza do seu anti-semitismo estava na crescente colonização sionista da Palestina.

Isto não é uma justificação, mas é preciso distinguir o seu anti-semitismo do anti-semitismo na Alemanha, onde os judeus eram uma minoria oprimida.

Quando cortou relações com os britânicos e se mudou para Berlim [em 1940], Husseini aliou-se aos nazis e participou na propaganda deles, mas não desempenhou qualquer papel directo na Solução Final.

Husseini só teve conhecimento da Solução Final no Verão de 1943 – ele diz isso nas suas memórias, onde deixa claro que não lamenta o que aconteceu, “porque os judeus mereciam isso”, uma atitude que comprova a sua dimensão profundamente anti-semita.

No entanto, dizer que o genocídio foi levado a cabo por sugestão de Husseini é totalmente ridículo. A discussão entre historiadores respeitados é sobre se genocídio foi sempre um dos desígnios de Hitler ou resultou da sua derrota na Rússia.

Jamais um historiador debateu se Husseini influenciou a Solução Final, porque Hitler desprezava-o. Até a sua linguagem corporal quando se encontrava com o líder palestiniano denotava desprezo. A tentativa de Netanyahu rever a História é um sinal de doença mental grave.

Mohammed Amin al-Husseini, Mufti de Jerusaém, 1937
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O historiador israelita Tom Segev, num artigo no Guardian, recorda que Husseini pediu a Hitler que assinasse uma espécie de Declaração Balfour de apoio aos direitos palestinianos, semelhante ao documento britânico que defendeu um “lar nacional para o judeus”, mas que Hitler recusou. Lembra também que os árabes não foram os únicos a pedir assistência aos nazis. “No final de 1940 e de novo no final de 1941, antes de o Holocausto atingir o auge nos campos de extermínio, uma pequena organização terrorista sionista – Combatentes pela Liberdade de Israel, também conhecida por Bando Stern – contactou representantes nazis em Beirute esperando apoio alemão contra os britânicos. Um dos sternistas, então numa prisão britânica, era Yitzhak Shamir, futuro primeiro-ministro de Israel”…
Sim, uma parte da extrema-direita sionista tentou colaborar com os nazis. Mais: havia na Alemanha um movimento judeu que colaborou com os nazis.

Foi o único grupo não nazi autorizado a permanecer na Alemanha, e ajudou as autoridades nazis na transferência de judeus alemães para a Palestina. Essa colaboração manteve-se até 1941 – e isto está registado por todos os historiadores do Holocausto.

Pessoalmente, não gosto de entrar neste jogo. A extrema-direita colaborou mais com Mussolini, talvez, porque era menos problemático. A colaboração de judeus com os nazis acabou, naturalmente, quando a Solução Final começou a ser aplicada.

O que nos deve interessar, agora, é a recolha dos factos históricos e as lições que devemos aprender com eles. Netanyahu não segue esse caminho.

O Holocausto: o pior crime contra a Humanidade

A Nakba: Israel não reconhece que o êxodo palestiniano em 1948 foi o seu “pecado original”

No seu livro reconhece que vários líderes árabes, não apenas Husseini, colaboraram abertamente com os nazis, e que outros permanecem negacionistas do Holocausto, mas opõe-se à generalização deste anti-semitismo, que também distingue, por outro lado, do “sentimento anti-judeu profundamente enraizado na Europa”. Pode explicar?
Se um alemão é anti-semita, isso é racismo contra uma minoria que durante séculos foi oprimida na Europa. Se um palestiniano exprime opiniões anti-semitas é por se sentir oprimido num Estado que exige ser reconhecido como judaico, ignorando os não judeus que são cidadãos israelitas.

Perante a exigência de uma definição étnica, os palestinianos são tentados a posições anti-semitas – e devem ser criticados por isso –, mas é uma situação semelhante à dos negros sul-africanos que se manifestavam contra os brancos durante o regime de apartheid. Não é racismo preto-branco. É uma forma de o oprimido se rebelar contra a opressão.

A verdade é que há ainda muitos negacionistas do Holocausto no mundo árabe, não apenas palestinianos…
Sim, é verdade. Negam, sobretudo, que sejam responsáveis pelo Holocausto, que foi cometido por europeus. Vale a pena frisar que havia muito mais soldados árabes nas fileiras do Aliados do que no campo dos nazis.

É quase insignificante o número de combatentes árabes do lado nazi durante a II Guerra Mundial, comparado com o número extraordinário de soldados do Norte de África e do Médio Oriente que se juntaram às tropas britânicas e às francesas.

Havia 9000 palestinianos no Exército britânico! É certo que ainda há muitos árabes a negar o Holocausto, mas é uma maneira – completamente estúpida e eu chamo-lhes ‘loucos anti-sionistas’ – de exprimirem a sua fúria contra Israel.

No entanto, é preciso realçar que essa negação não pode ser comparada à negação do Holocausto por parte de um europeu, cujos países foram protagonistas do genocídio.

É estúpido, reafirmo, que haja palestinianos a negar o Holocausto, mas convém salientar, também, que o Estado Israel continua a negar a Nakba, a catástrofe palestiniana [o êxodo] de 1948 que foi cometida por Israel. Isto é ainda mais grave. Tal como é muito grave que as autoridades turcas continuem a negar o genocídio arménio [em 1915-1917, durante o período otomano].

Depois de 1948, a palavra “Holocausto” tem sido usada e abusada, pelos palestinianos, que reclamam reconhecimento da Nakba e se afirmam como “vítimas das vítimas”, e por muitos israelitas. O antigo primeiro-ministro Menachem Begin comparava Yasser Arafat, o líder da OLP, a Hitler, e até o filósofo Yeshayahu Leibowitz cunhou a expressão “judeu-nazi”. Até que ponto a ideologia sionista é responsável por esta desvalorização de um dos piores crimes da Humanidade?
A ideologia sionista foi promovida, de uma forma generalizada, por Elie Wiesel [um sobrevivente do Holocausto e Prémio Nobel da Paz]. É um termo muito mau. O significado bíblico é o da queima de oferendas a Deus. Isso é muito perigoso. É como uma representação dos judeus sacrificados em nome de Deus.

De vez em quando, aparece um rabi doido que descreve o Holocausto como um castigo divino, porque não os judeus não obedecem às suas leis. Naturalmente, isto gera críticas. Para ser honesto, acho que a declaração de Netanyahu a propósito de Husseini e Hitler encaixa na mesma categoria: loucura ideológica.

Em todo o caso, não é esta declaração de Netanyahu o grande problema, mas sim a atitude do Estado de Israel, já não apenas face aos palestinianos sob ocupação mas, também e cada vez mais, em relação aos palestinianos de cidadania israelita, sujeitos a mais e mais racismo – documentado por organizações israelitas de direitos humanos.

É preciso que o mundo entenda que Israel não representa as vítimas do Holocausto. O que Netanyahu disse exonerando Hitler deveria ser um toque de alarme, sobretudo na Europa, que deveria reagir, antes que seja tarde de mais.

Gilbert Achcar, autor de Les Árabes et la Shoah: La guerre israélo-arabe des récits (“Os Árabes e o Holocausto: A guerra israelo-árabe das narrativas”)
© enlacejudio.com

Este artigo foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO em 24 de Outubro de 2015 | This article was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on October 24, 2015

Gilbert Achcar: “Netanyahu hates the Palestinians more than he abhors Hitler”

The French-Lebanese historian who wrote The Arabs and the Holocaust: The Arab-Israeli War of Narratives has zero tolerance to deniers of the genocide of up to six million European Jews. A great part of his book is devoted to Haj Amin al-Husseini, former Grand Mufti of Jerusalem, and to his encounters with the Nazis during World War II. Following Netanyahu’s accusation that the Shoah was the brainchild of the late Palestinian spiritual leader and not of Hitler, I called him in Beirut where he was on sabbatical leave of the International Relations chair that he teaches at the School of Oriental and African Studies (SOAS) in London. (Read more…)

Israel's Prime Minister Benjamin Netanyahu told the World Zionist Congress that Hitler wanted to expel the Jews - but was convinced to exterminate them by Palestinian leader Haj Amin al-Husseini © countercurrentnews.com/

Israel’s Prime Minister Benjamin Netanyahu told the World Zionist Congress that Hitler wanted to expel the Jews, but was convinced to exterminate them by Palestinian leader Haj Amin al-Husseini
© countercurrentnews.com

How do you assess Israeli Prime Minister Benjamin Netanyahu’s statement condemning Haj Amin Al-Husseini and not Hitler as the main architect of the Final Solution?

Netanyahu shocked the whole world by trying to exonerate Hitler. The only reason I can find for his outrageous speech is that Netanyahu hates the Palestinians more than he abhors Hitler.

This is dreadful. I’ve always seen this revisionism in the pro-Nazi and anti-Semitic side, not in the Zionist side. This revisionism, now expressed by Netanyahu, is amazing. From a historical point of view, what Netanyahu said is utter nonsense. Even the German government immediately refuted what he said [assuming the Holocaust as being of the country’s single responsibility].

On the far right of the Zionist movement there is such a deep hatred of Palestinians that is not difficult to find an affinity with Hitler, trying to absolve him of his sordid crimes. Perhaps because they [the far right] want to get rid of the Palestinians – not by using the genocide, but through expulsions or mass transfer.

This is very dangerous and tragic. Netanyahu is an opportunist politician, able to express himself in a very demagogic way, according to his audience, to get what he wants

It’s not the first time Amin al-Husseini is invoked to associate the Palestinians to the Nazis. What was the relationship between the Grand Mufti and Hitler?

Amin al-Husseini was a right-wing nationalist, without scrupulous and deeply anti-Semitic. Unlike Hitler, however, the nature of his anti-Semitism was the growing Zionist colonization of Palestine – this is not a justification, but we must distinguish his anti-Semitism from the anti-Semitism in Germany, where the Jews were an oppressed minority.

When he cut ties with the British and moved to Berlin [in 1940], Husseini allied with the Nazis and participated in their propaganda, but he played no direct role in the Final Solution.

Husseini did not learn of the Final Solution until the summer of 1943 – he says so in his memoirs, where he makes clear that he has no regrets of what happened ‘because the Jews deserved it’, an attitude that demonstrates his deeply anti-Semitic dimension. However, to say that the genocide was carried out because Husseini recommended it is totally ridiculous.

The discussion between respected historians is whether genocide has always been one of Hitler’s plans or resulted from his defeat in Russia.

Not a single historian has ever debated whether Husseini influenced the Final Solution, because Hitler despised him Even Hitler’s body language when he was with the Palestinian leader denoted contempt. Netanyahu’s attempt to revise history is a serious signal of mental illness.

November 1943: Husseini greeting Muslim Bosnian Waffen-SS volunteers with a Nazi salute. At left is SS General Karl-Gustav Sauberzweig
© The Jerusalem Post

According to the Israeli historian Tom Segev (in an article published in The Guardian), Husseini asked Hitler to sign a kind of Balfour Declaration in support of Palestinian rights, similar to the British document that called for a ‘national home for the Jews’, but Hitler refused. Segev also says that the Arabs were not the only ones who were seeking a deal with the Nazis: “At the end of 1940 and again at the end of 1941, before the Holocaust reached its height in the extermination camps, a small Zionist terrorist organisation – Fighters for the Freedom of Israel, also known as the Stern Gang – made contact with Nazi representatives in Beirut, hoping for support for the struggle against the British. [One of the Sternists, in a British jail at the time, was Yitzhak Shamir – who would be Israeli prime minister and one of the leaders of  Netanyahu’s Likud party”...

… Yes, part of the far-right Zionist tried to collaborate with the Nazis. More: there was in Germany a Jewish movement that collaborated with the Nazis. It was the only Jewish group allowed to remain in Nazi Germany, and helped the Nazi authorities in the transfer of German Jews to Palestine.

This collaboration lasted until 1941 – a fact that has been recorded by all historians of the Holocaust. Personally I do not like to get into this game.

The right wing collaborated more with Mussolini, perhaps because it was less problematic. The collaboration of Jews with the Nazis ended, naturally, when the Final Solution began. What should interest us now is the collection of historical facts and the lessons that we should learn from them. Netanyahu is not following this path.

Haj Amin al-Husseini meeting with Hitler, in Germany © All Rights Reserved

Haj Amin al-Husseini meeting with Hitler, in Germany, November 28, 1941
© warhistoryonline.com

In your book, you acknowledge that several Arab leaders, not only Husseini, openly collaborated with the Nazis, and that others remain Holocaust deniers. But you also oppose the generalization of this anti-Semitism, distinguishing it from the “anti-Jewish feeling deeply rooted in Europe”. Can you explain?

If a German is anti-Semitic, that’s racism against a minority that, for centuries, has been oppressed in Europe. A Palestinian expresses anti-Semitic views because he feels powerless in a state that demands to be recognized as Jewish, ignoring the Israeli citizens who are not Jews.

In view of the requirement of an ethnic definition, Palestinians are tempted to adopt anti-Semitic positions – and they should be criticized for it – but it is a situation similar to that of the black South Africans when they protested against whites during the Apartheid regime. It’s not black-white racism. It is a form of the oppressed to rebel against their oppressors.

The truth is that there are still many deniers of the Holocaust in the Arab world, not just Palestinians…

Yes it’s true. They deny, above all, that they are responsible for the Holocaust, which was committed by Europeans. It is worth emphasizing that there were many more Arab soldiers in the Allied ranks than on the camp of the Nazis.

It is almost negligible the number of Arab fighters who joined the Nazi side during the World War II, compared to the sheer number of soldiers from North Africa and the Middle East who supported the British and the French troops.

There were 9,000 Palestinians in the British Army! It is true that there are still many Arabs who deny the Holocaust, but it’s a way – completely stupid and I call them ‘anti-Zionist crazy’ – to express their anger against Israel. However, we must underline that this denial cannot be compared to the denial of the Holocaust by Europeans whose countries were protagonists of the genocide.

It’s stupid, I reaffirm, that there are Palestinians still denying the Holocaust, but it should be noted, too, that the State of Israel continues to deny the Nakba, the 1948 Palestinian catastrophe, which was committed by Israel.

This is even more serious. It is also very serious that the Turkish authorities continue to deny until now the Armenian genocide [in 1915-1917, during the Ottoman period].

 

 

Jewish women and children from Carpatho-Ruthenia after their arrival at the Auschwitz death camp. May/June 1944. © All Rights Reserved

Jewish women and children from Carpatho-Ruthenia after their arrival at the Auschwitz death camp, May/June 1944
© Times of Israel

“It’s stupid that there are Palestinians still denying the Holocaust, but it should be noted, too, that the State Israel continues to deny the Nakba, the 1948 Palestinian catastrophe (pictured here), which was committed by Israel,” Achcar said
© palestinechronicle.com

After 1948, the word “Holocaust” has been used and abused, by Palestinians (who demand recognition of the Nakba and define themselves as “victims of the victims”) and by Israelis. The former Prime Minister Menachem Begin, for instance, used to compare Yasser Arafat, the PLO leader, to Hitler. And the Israeli philosopher Yeshayahu Leibowitz dared coin the expression “Judeo-Nazi“. To what extent is the Zionist ideology contributing to “banalizing evil”?

Elie Wiesel [Holocaust survivor and Nobel Peace Prize winner] is the one who has been promoting a more broad approach to the Zionist ideology. It is a very bad word. The biblical meaning is the burning of offerings to God.

This is very dangerous. It’s like a representation of the Jews sacrificed in the name of God. From time to time, a crazy rabbi describes the Holocaust as a divine punishment, because Jews did not obey His laws. Of course, this generates criticism.

To be honest, I think the statement of Netanyahu regarding Husseini and Hitler fits in the same category: ideological madness. Anyway, the big problem is not this Netanyahu’s statement, but the State of Israel’s attitude not only against the Palestinians under occupation but now also against Palestinians of Israeli citizenship who are subject to more and more racism – documented by Israeli human rights organizations.

The world needs to understand that Israel does not represent the victims of the Holocaust. What Netanyahu said exonerating Hitler should sound like an alarm ring, especially in Europe, which must react before it’s too late.

Gilbert Achcar, author of © All Rights Reserved

Gilbert Achcar, author of  The Arabs and the Holocaust: The Arab-Israeli War of Narratives
© All Rights Reserved

This article was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on October 19,2015

O azar de serem amuletos da sorte

Habituado a dar brilho à Cartier ou a Van Cleef & Arpels, Patrick Gries desceu às trevas para fotografar os albinos da Tanzânia. Aqui, a doença genética que afecta um em cada 1400 habitantes já limita o tempo de vida. A morte aproxima-se ainda mais em eleições – 25 de Outubro – com crianças e adultos vítimas de feiticeiros e políticos supersticiosos. (Ler mais | Read more)

Kabula N. Masanja : 12 anos É uma sobrevivente. Perdeu o braço direito, cortado com um machado. até à axila. Os criminosos deixaram-na a sangrar e fugiram com uma parte do corpo dela para vender a feiticeiros. Kabula regressou há pouco tempo de Nova Iorque onde recebeu uma prótese que substitui o braço amputado. © Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

Kabula N. Masanja : 12 anos
É uma sobrevivente. Perdeu o braço direito, cortado com um machado, até à axila. Os criminosos deixaram-na a sangrar e fugiram com uma parte do seu corpo para venderem a feiticeiros. Kabula regressou há pouco tempo de Nova Iorque onde recebeu uma prótese que substitui o braço amputado
© Patrick Gries

Patrick Gries foi viver para a Tanzânia durante seis meses, acompanhando a mulher, uma antropóloga, e os dois filhos (uma menina e um rapaz), de sete e nove anos. Neste país da África Oriental, “demasiado vasto e onde viajar consome muito tempo e energia”, adiou os projectos de arte que o tornaram famoso e dedicou-se à leitura dos jornais regionais. Todos os dias o fascinavam “as perspectivas da política americana e europeia, tão diferentes do resto do mundo”, até que uma notícia, em particular, o deixou atónito.

“Um diário em Dar-es-Salam narrava a história de um agricultor que vivia a quatro horas e meia da capital”, diz-me, numa entrevista por Skype, o autor de In/Visibility, série de retratos de “pessoas que ninguém vê” e a quem ele quis devolver a identidade e a dignidade. “Certa noite, estranhos entraram na casa daquele homem, amputaram-lhe os dois braços e deixaram-no no chão a esvair-se em sangue. Ele era albino e os seus braços foram vendidos a feiticeiros.”

Regina Matias : 9 anos O seu rosto já evidenciava sinais de melanoma devido ao sol. A maioria das crianças albinas pobres morre antes dos 30 anos. São muitas as que sofrem de cancro de pele por não usarem protectores solares, chapéus e óculos escuros. Regina está vestida com um uniforme escolar, mas provavelmente nunca chegará a frequentar as aulas. © Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

Regina Matias : 9 anos
O seu rosto já evidenciava sinais de melanoma devido ao sol. A maioria das crianças albinas pobres morre antes dos 30 anos. São muitas as que sofrem de cancro de pele por não usarem protectores solares, chapéus e óculos escuros. Regina está vestida com um uniforme escolar, mas provavelmente nunca chegará a frequentar as aulas
© Patrick Gries

Foi a primeira vez que ouvi falar nisto”, adiantou Gries, cujo projecto, iniciado em 2010, demorou vários anos a concluir, desde a selecção das fotos até às várias exposições, da China à Argentina. “Nunca mais consegui deixar de pensar no que li. A princípio, tentei compreender, mas não havia nada para compreender. Foi nesse momento, enquanto a minha mulher, “uma africanista”, investigava sobre o sector mineiro na Tanzânia, que decidi fotografar os albinos deste país. Comecei em Dar-es-Salam, porque era mais fácil.”

“Contactei a associação [clube de futebolAlbino United [Albinos Unidos]”, relata. “Expliquei que pretendia fazer alguns retratos. Pediram-me dinheiro. Respondi que não tinha meios de pagar, e que qualquer pagamento afectaria negativamente a natureza do projecto. Fui, então, autorizado a perguntar aos albinos que ali se encontravam se algum aceitava ser fotografado. Prometi-lhes que daria o melhor de mim e, acima de tudo, que tentaria chamar a atenção para o drama deles. Todos aceitaram. Fotografei todos. Só usei a luz do dia, sem flash. Por vezes, procurava uma sombra. Eles pousavam com naturalidade, tal e qual como estavam vestidos.”

Shida e Semen Bahati : 12 e 17 anos Estas duas irmãs presenciaram o assassínio de uma outra irmã, no seu quarto em casa dos pais. Foram afastadas do ambiente familiar, para ficarem a salvo, graças à ajuda da organização não governamental Under The Same Sun (Sob o Mesmo Sol), que opera desde a área ocidental da Tanzânia até à zona costeira de Tanga. © Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

Shida e Semen Bahati : 12 e 17 anos
Estas duas irmãs presenciaram o assassínio de uma outra irmã, no seu quarto, em casa dos pais. Foram afastadas do ambiente familiar, para ficarem a salvo, graças à ajuda da organização não governamental Under The Same Sun (Sob o Mesmo Sol), que opera desde a área ocidental da Tanzânia até à zona costeira de Tanga
© Patrick Gries

Antes de avançar para as fotografias, Gries teve de aprender o que não sabia sobre albinismo. Que é uma doença genética caracterizada pela ausência total ou parcial de pigmentação na pele, cabelo e olhos, devido à ausência ou defeito de uma enzima envolvida na produção de melanina. “Muitos cegam completamente e são raros os que conseguem chegar aos 40 anos”, refere o fotógrafo. “Todas as camadas da sociedade são afectadas, sejam pobres e ricos, brancos e pretos.”

A Tanzânia é o país com maior percentagem de albinos: um em cada 1400 habitantes, ou seja, sete vezes mais do que no resto do mundo. “Na Europa, uma pessoa que sofra de albinismo conseguirá, provavelmente, pintar o cabelo ou usar maquilhagem que disfarce a sua condição”, anotou Gries. “Em África, é muito difícil um albino sobreviver, porque falta educação sobre a doença que os afecta.”

Petro e Jenifer Paulo: 12 e 9 anos Irmão e irmã no uniforme da escola para deficientes visuais em Tanga. Era habitual percorrerem, a pé, cerca de cinco quilómetros por dia, ida e volta casa-escola. Vivem na área remota de Muanza. Estranhos começaram a segui-los e os pais entraram em pânico. Cristãos evangélicos decidiram dar-lhes apoio e lugar num internato em Muanza. © Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

Petro e Jenifer Paulo: 12 e 9 anos
Irmão e irmã nos uniformes da escola para deficientes visuais em Tanga. Era habitual percorrerem, a pé, cerca de cinco quilómetros por dia, ida e volta casa-escola. Vivem na área remota de Muanza. Estranhos começaram a segui-los e os pais entraram em pânico. Cristãos evangélicos decidiram dar-lhes apoio e abrigo num internato em Muanza
© Patrick Gries

O problema maior reside na crendice de que o corpo e o sangue dos albinos, também conhecidos como “tribo de fantasmas”, valem mais do que as suas vidas, porque “têm efeitos curativos” e auguram boa sorte. Além de vítimas de mutilação e assassínio, mulheres albinas têm sido também violadas e infectadas com o vírus HIV, porque muitos, influenciados por feiticeiros, acreditam que ter relações sexuais com elas é “a melhor cura para a sida”.

A pele branca dos albinos é, igualmente, muito procurada, não apenas na Tanzânia mas noutros países como Moçambique, Malawi e Zâmbia. Os órgãos genitais são usados como “remédio contra a impotência”. Os ossos são, frequentemente, triturados e enterrados por mineiros na expectativa de que se transformem em diamantes. A este respeito, Patrick Gries recorda que “os albinos começaram a temer pela vida a partir de 2005, com o desenvolvimento da indústria mineira.”

Pauline Julius e Kredo Samwey : 28 e 2 anos Mãe e filho em Dar-es-Salam, capital da Tanzânia © Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

Pauline Julius e Kredo Samwey : 28 e 2 anos
Mãe e filho em Dar-es-Salam, capital da Tanzânia
© Patrick Gries

Quando os albinos morrem, os familiares “enterram-nos em locais secretos ou nas suas próprias casas, debaixo de camas ou de árvores, para que os ossos dos entes queridos não sejam roubados”, revela Gries.

Apesar de o actual Presidente, Jakaya Kikwete, ter ordenado a prisão de quase uma centena de feiticeiros envolvidos no “comércio macabro de albinos”, muitos políticos supersticiosos ainda pagam grandes quantias – num país que vive com menos de dois euros por dia – cada vez que se aproximam eleições, esperando vencer os adversários. Este ano, apesar de maior vigilância, “a caça aos invisíveis” continuou activa, porque haverá legislativas e presidenciais a 25 de Outubro.

Patrick Gries lamenta que a Tanzânia já não tenha ao leme “um político exemplar como Julius Nyerere [N:1922-M:1999, que se afastou do poder em 1985], porque, depois da independência, ele tentou acabar com a tribalização do país, para que se tornasse seguro e pacífico”. O fotógrafo deixa um alerta: “O que vemos é o princípio de um genocídio dos albinos.”

Monica John Kwgyir : 35 anos Bailarina, Monica vive com a família em in Dar-es-Salam. Tem um filho. Quando Patrick Gries lhe perguntou se tinha medo de sair à noite, respondeu: “Os vizinhos adoram-me porque pensam que sou uma branca europeia.” Conta o fotógrafo: “Quando a vi, pela primeira vez, parecia um travesti: demasiada maquilhagem cabelo pintado. Percebi então que ela estava a tentar transformar-se para ter o que ela crê ser a aparência de uma pessoa branca”. © Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

Monica John Kwgyir : 35 anos
Bailarina, Monica vive com a família em in Dar-es-Salam. Tem um filho. Quando Patrick Gries lhe perguntou se tinha medo de sair à noite, respondeu: “Os vizinhos adoram-me porque pensam que sou branca e europeia.” Conta o fotógrafo: “Quando a vi, pela primeira vez, parecia um travesti: demasiada maquilhagem, cabelo pintado. Percebi, então, que estava a tentar transformar-se para ter o que ela crê ser a aparência de uma pessoa branca”
© Patrick Gries

Nos locais que visitou para a sua série de retratos – como uma escola para cegos em Tanga, abrigos, colégios privados, residências e/ou escritórios –, Gries fotografou “mais de 200 pessoas, uns com estatuto social superior e outros menos afortunados.” Só seleccionou 20 imagens. “Não fiz qualquer casting mas senti necessidade de uma escolha posterior, porque alguns dos miúdos estavam tão frágeis que não os poderia mostrar numa exposição – não queria que olhassem para eles como totós.”

“Estruturei o meu projecto, misto de antropologia e política, à volta de três paradoxos. 1) O paradoxo do valor: os albinos são considerados inúteis por uma sociedade que nega a sua existência – não estão registados e, por isso, é tão complicado conhecer os números reais (entre 8000 e 50.000), mas os seus órgãos e membros custam fortunas; 2) O paradoxo do branco, ou ambivalência e ambiguidade de nascer branco de pais pretos; como o branco é visto como herança da colonização, os albinos são rejeitados pela sua fisionomia – muitas raparigas que encontrei pintavam o cabelo e maquilhavam-se para parecerem ‘mais brancas, como elas se imaginam’. Não é tão arriscado parecer branco do que preto com albinismo; 3) O paradoxo da morte: negar que eles ‘não morrem’, porque não podem ser sepultados em cemitérios.

Sophia Mwhlammedi : 24 anos Já não se consegue perceber, de modo algum, se Sophia é branca ou preta, observou o fotógrafo. Mas é albina. Vive e trabalha nos escritórios da organização não governamental Under The Same Sun, em Dar-es-Salam. © Cortedia de | Courtesy of Patrick Gries

Sophia Mwhlammedi : 24 anos
Já não se consegue perceber, de modo algum, se Sophia é branca ou preta, observou o fotógrafo. Mas é albina. Vive e trabalha nos escritórios da organização não governamental (ONG) Under The Same Sun, em Dar-es-Salam
© Patrick Gries

Um dos lugares que Patrick Gries visitou emocionou-o: a escola de Shinyanga, na região ocidental. “Havia uns 120 miúdos. Comecei a fotografá-los. Todos queriam o seu retrato. Sentiam-se como se fossem estrelas. Não precisavam de fingir. Queriam apenas mostrar-se como eram. Foi tão poderoso!”

“Não sou historiador nem fotojornalista”, esclarece Gries. “Não era minha intenção explorar a questão de quem alimenta este negócio maldito. Tem havido mais pressões da UE e dos EUA. Isso é bom mas, por outro lado, para serem protegidos, os albinos são colocados em centros onde vivem segregados – são refugiados no seu próprio país, mas não podem reclamar os mesmos direitos.”

O fotógrafo dos que “ninguém vê”

Patrick Gries © Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

Patrick Gries
© Patrick Gries

Patrick Gries, 56 anos, estudou para ser professor primário (“porque era vontade dos pais”) até se mudar para Nova Iorque, onde descobriu a fotografia, “por acaso”, em 1978. Vindo de uma zona rural distante de Bruxelas, diz que “não sabia o que esperar da vida”. No entanto, ao mudar-se para os Estados Unidos, onde tinha familiares, as portas rapidamente se abriram a uma carreira fulgurante.

Deu os primeiros passos como “aprendiz de um artista comercial”, na área da publicidade, que o ensinou a “usar uma câmara e, com ela, fazer quase tudo”. Em 1992, mudou-se para Paris, mas cansou-se de fazer anúncios.

Em 1999, pôs em marcha o seu primeiro projecto: Evolution. Para o fazer usou esqueletos, a maioria expostos no Museu de História Natural de Paris. “Do mais pequeno ao maior vertebrado, Patrick Gries apresenta-os como esculturas, [oferecendo] uma abordagem atípica das ciências naturais e forçando-nos a reconsiderar as fronteiras entre objectos científicos e artísticos”, escreveu a rede de curadores de fotografia LensCulture.

O livro, publicado em 2008 e aclamado como obra-prima, contém mais de 25o fotografias a preto e branco, acompanhadas de um texto escrito pelo cientista e documentarista Jean-Baptiste de Panafieu. O editor é Xavier Barral.

“Foram dois anos de trabalho, dos quais seis meses para apurar a alta resolução e um ano de retoques pacientes para fazer desaparecer todos os fios metálicos e ligações que mantêm os ossos unidos”, segundo a descrição do jornal Libération. As exposições foram numerosas, da Itália ao Japão – e já integram algumas colecções privadas.

“Este livro elevou-me a outro nível”, reconhece Gries, agora residente em Copenhaga (Dinamarca). “Devido à minha estética de precisão e minimalismo, comecei a ser contratado por empresas como a Louis Vuitton e a Van Cleef & Arpels. Sou eu quem fotografa as suas colecções ou património (outros dedicam-se ao layout  e grafismo dos catálogos), e é isto que me permite financiar os meus projectos. Colaboro, também, com a Fundação Cartier para a Arte Contemporânea, além de vários museus.”

Evolution: Encomendado pelo Museu de História Natural de Paris e textos do biólogo Jean-Baptiste de Panafieu, o livro, publicado em 2008 e aclamado como obra-prima

Evolution: Livro que usou mais de 200 esqueletos expostos no Museu de História Natural de Paris. Com fotos de Patrick Gries e textos do biólogo Jean-Baptiste de Panafieu, foi publicado em 2008 e aclamado como obra-prima.

Estes dois artigos, entretanto actualizados, foram publicados originalmente na revista VISÃO em 22 de Outubro de 2015 | These two articles, now updated, were originally published by the Portuguese magazine VISÃO on October 22, 2015

The misfortune of being lucky charms

An expert in what concerns the brilliance of Cartier or Van Cleef & Arpels, Patrick Gries descended into the darkness to photograph the Albino of Tanzania. Here a genetic disease, which affects one in 1,400 people, limits the lifetime. Death becomes more likely during election time, with children and adults being victims of witch “doctors” and superstitious politicians. (Read more…)

© Courtesy of Patrick Gries

© Courtesy of Patrick Gries

Patrick Gries moved to Tanzania for six months accompanying his wife, an anthropologist, and their son and daughter ages seven and nine. In this Eastern Africa country “too wide and where travel is time and energy consuming” he decided to postpone the artistic projects that made him famous and dedicated himself to the reading of regional newspapers.

Every day he was fascinated with “the regional outlook of American and European policy, so different from the rest of the world” until one particular report left him speechless.

“A daily in Dar es Salaam had a story about a farmer who lived four and half hours distant from the capital,” says, in a Skype interview, the author of In/Visibility, a series of portraits of “people that nobody see” and to whom he wanted to return their identity and dignity.

“One night, strangers entered that man’s house, amputated both his arms and left him on the floor bleeding to death. He was an albino, and his arms were sold to witch doctors.”

“It was the first time I heard of it,” added Gries, whose project started in 2010 and took him several years to complete, from the selection of photos to the various exhibits from China to Argentina.

“I could never stop thinking about what I’ve read. Initially, I’ve tried to understand, but there was nothing to understand. It was then, while my wife, an Africanist, was investigating the mining sector in Tanzania, that I decided to photograph the Tanzanian albinos.”

© Courtesy of Patrick Gries

© Courtesy of Patrick Gries

“I started in Dar es Salaam, because it was easier. I contacted the [football] association Albino United. I explained them that I wanted to make some pictures. They asked me for money. I replied that I had no means to pay, and that any payment would negatively affect the nature of my project.”

“They let me ask the albinos if they would accept being photographed. I promised them that I would give the best of me, and that I would try the utmost to draw attention to their drama. All of them accepted. I photographed everyone. I at ease, just like they were dressed.”

Before moving on to the photographs, Gries had to learn what he did not know about albinism. That is a genetic disease characterized by partial or total lack of pigmentation in the skin, hair and eyes due to absence or a defect in an enzyme involved in the melanin production.

“Many of them go completely blind and only a few make it to live to 40 years of age,” the photographer said. “All sections of society are affected, whether rich and poor white or black.”

Tanzania is the country with the highest percentage of albinos: one in every 1,400 inhabitants, i.e. seven times more than in the rest of the world.

“In Europe, a person suffering from albinism would probably get their hair dyed or would wear makeup to disguise their condition,” noted Gries. “In Africa, it is very difficult for an albino to survive, because they lack education about the disease affecting them.”

© Courtesy of Patrick Gries

© Courtesy of Patrick Gries

When albinos die, their relatives “bury them in secret locations or in their own homes, under beds or trees, so that the bones of loved ones are not stolen,” Gries added. Although the current President Jakaya Kikwete has ordered the arrest of almost a hundred sorcerers involved in the “macabre trade of albinos”, many superstitious politicians still pay large sums – in a country where people live on less than two euros a day on average – every time elections are in the horizon, hoping to win their opponents.

This year [for the 25th October legislative and presidential elections], despite increased vigilance, the “hunting on the invisible” did not stop.

Patrick Gries regrets that Tanzania no longer has at the helm “a role political model as Julius Nyerere [1922-1999, he abandoned power in 1985], because he tried, after independence, “to end the tribalization of the country in order for it to become safe and peaceful”. The photographer gives a warning: “What we see is the beginning of a genocide of the albinos.”

In places he visited for his series of portraits – as a school for the blind in Tanga, shelters, private schools, homes and/or offices – Gries photographed “more than 200 people, some with higher social status and others less fortunate”.

He only selected around 20 images. “I have not done any casting. I had to be very careful with my selection, because some of the kids looked so fragile and vulnerable. I did not want to show my pictures in exhibitions as if those people were aberrations.”

© Courtesy of Patrick Gries

© Courtesy of Patrick Gries

“I’ve structured my project, a mixture of anthropology and politics, around three paradoxes. 1) A paradox of value: albinos are considered useless by a society that denies their existence – there are no birth registration and, therefore, it is very complicated to know their real numbers [between 8,000 and 50,000]. On the other hand, their organs and limbs cost fortunes;

2) A paradox of whiteness, or the ambivalence and the ambiguity of being born white of black parents; as white is seen as a legacy of colonization, albinos have been rejected by their physiognomy – many girls that I’ve met used to dye their hair and used a lot of make up to look ‘whiter’, the way they look themselves. It is less risky to look white than black when someone is albino;

3) A paradox of death: many people believe that they ‘do not die’ because albinos cannot be buried in cemeteries.”

One of the places visited by Patrick Gries really moved him: the school of Shinyanga, in the western region. “There were almost 120 kids. I began to photograph them. Everyone wanted his or her portrait. They felt as if they were stars. They did not need to pretend to be someone else. They just wanted to present themselves as they were. It was so powerful!”

“I’m not a historian or a photojournalist,” Gries clarified. “It was not my intention to explore the question of who feeds this damn business. There has been more pressure from the European Union and from the United States. This is good but, in order to be protected, the albinos have been placed in centers where they live segregated – they are refugees in their own country, not able to claim the same rights of refugee people.”

The photographer of the “invisible”

Patrick Gries, the author of In/Visibility © Courtesy of Patrick Gries

Patrick Gries, author of In/Visibility and Evolution
© Courtesy of Patrick Gries

Patrick Gries, 56, studied to be a schoolteacher (“because it was the will of my parents”) before moving to New York, where, in 1978, and “by chance”, he discovered photography.

Coming from a distant rural area of Brussels, he “did not know what to expect from life”. However, by settling in the United States, where he had relatives, the doors quickly opened to a brilliant career.

He took the first steps as “an apprentice to a commercial artist” involved in advertising, who taught him how to “use a camera and do almost everything with it”. In 1992, he moved again to Paris, but became tired of making publicity.

In 1999, emerged his first project: Evolution, a book for which he used skeletons, mostly at the Museum of Natural History in Paris. “From the smallest to the biggest vertebrate, Patrick Gries presents [them] as sculptures, [offering] an atypical approach to viewing natural science and forces us to reconsider the boundaries between artistic and scientific objects”, said the photography curator network LensCulture.

The book, published in 2008 and acclaimed as a masterpiece, features more than 250 black and white photographs, accompanied by a text written by scientist and documentarian Dr. Jean-Baptiste de Panafieu. The publisher is Xavier Barral.

It took “two years of work, six months of which to determine the high resolution, and one year of patiently tinkering to eliminate all the vestiges of wires that hold the bones together”, according to a description of the French newspaper Libération. The exhibitions were numerous, from Italy to Japan – and the photos are already part of some private collections.

“This book elevated me to another level,” recognizes Gries, who is now living in Copenhagen (Denmark). “Because of my aesthetic precision and minimalism, I began to be hired by companies such as Louis Vuitton and Van Cleef & Arpels.”

“I photograph their collections or patrimony (someone else do the layout and the graphics of the catalogs), and it is this work that allows me to finance my own projects. I also cooperate with the Cartier Foundation for Contemporary Art, and various museums.”

© Courtesy of Patrick Gries

© Courtesy of Patrick Gries

This article was originally published in the Portuguese news magazine VISÃO, on October 22,  2015

Os escritores da tragédia síria

Quem melhor do que a sobrinha de um poeta, o sírio Nizar Kabbani, e ex-mulher de outro, o palestiniano Mahmoud Darwish, para nos oferecer um guia do que ela considera serem as mais importantes figuras literárias do seu país? Conversa com Rana Kabbani, autora de Imperial Fictions: Europe’s Myths of the Orient. (Ler mais | Read more…)

The poem ‘Voice’ by Syrian poet, Rasha Omran, is written exactly once to write the word ‘Sawt’ meaning voice or noise, all written in the Diwani Jali Arabic Calligraphy script. Voice He didn’t say anything. It was I, who chose to listen to him ©everitte.files.wordpress.com

O poema Voice (“Voz”), da poeta síria Rasha Omran, escrito segundo a caligrafia árabe diwani jali 
VoiceHe didn’t say anything. / It was I, who chose to listen to him 
© everitte.files.wordpress.com

Adonis é um eterno candidato ao Nobel da Literatura, mas Rana Kabbani não o estima: “É um escritor sobrevalorizado e apoiante imoral do fascismo”.

Este parecer negativo é partilhado por outros opositores de Bashar al-Assad. Estão furiosos com o “profeta pagão” de 85 anos, louvado como “o expoente máximo da poesia árabe do século XX,” por não apoiar a revolta popular de 2011 que degenerou em guerra civil, com facções internas e externas.

Sobrinha do sírio Nizar Qabbani (1923-1988), “poeta do erotismo árabe”, e ex-mulher de Mahmoud Darwish, poeta nacional palestiniano, Rana foi também casada com Patrick Seale (1930-2014), jornalista britânico e biógrafo/amigo de Hafez al-Assad.

“Por gentileza, esqueça isso. Não me interessa comentar sobre esse shabbih [como são designados, no singular, os milicianos do regime]”, pediu. “Eu já o esqueci.” Quem nunca deixou de amar foi Darwish.

Rana era filha de um embaixador sírio nos Estados Unidos. Darwish tinha 34 anos e ela 18 quando foram apresentados numa festa. Ele pediu-a em casamento.

Ela aceitou, e a união consumou-se nessa mesma noite. Viveram juntos seis meses, em Beirute, em condições deploráveis num campo de refugiados – ele sempre em reuniões com dirigentes da OLP, a organização a que pertencia; ela, habituada ao conforto e luxo, cada vez mais sozinha.

Separaram-se e voltaram a casar-se seis meses depois. Instalaram-se em Paris. Sem filhos, sob ameaças de morte – e pressionado por Yasser Arafat a desligar-se da companheira –, ambos concordaram em divorciar-se.

Em Write Down, I am an Arab (“Escrevam, sou um Árabe”, inspirado no poema Bilhete de Identidade), documentário escrito, produzido e dirigido por Ibtisam Mara’ana, cineasta palestiniana de cidadania israelita, Rana emociona-se ao ler uma das cartas de Darwish que incluiu no livro que ela traduziu para inglês, “In Sand and Other Poems”:

As tuas palmas das mãos/ A minha voz / O teu amor / A minha espada / Os teus olhos / Dois rios / A tua presença/ Eu moribundo/ A tua ausência / A minha morte.

Nizar Qabbani e a sua mulher, Balqis al-Rawi, morta num atentado bombista que destruiu a Embaixada do Iraque em Beirute, em 1981
© moutarjam.com

Rana Kabbani nasceu em Damasco. Formou-se em História na Universidade Americana de Beirute e em Jesus College, em Cambridge. Foi crítica de arte em Paris e geriu uma editora em Londres. Aqui se tornou escritora a tempo inteiro, em 1986.

Nesse ano, publicou Europe’s Myths of the Orient: Devise and Rule, que haveria de se intitular, em 1994, Imperial Fictions: Europe’s Myths of the Orient. É cronista do diário britânico The Guardian, e também colabora com a BBC.

“O meu livro é sobre estereótipos, hoje mais presentes do que nunca”, especifica Rana Kabbani, após um primeiro contacto pelo Twitter a que se seguiu uma troca de mensagens por e-mail.

“A história da revolução síria, por exemplo, tem sido contada através de um prisma ideológico distorcido daqueles estereótipos [da cultura muçulmana], que muitos media ocidentais propagam de maneira fácil e absurda, não deixando margem para as histórias humanas mais simples.”

“Ignoram um povo corajoso que tenta libertar-se de um totalitarismo horrífico que há meio século acorrenta um país.”

O tio Nizar é idolatrado por Rana “como o maior poeta popular árabe”, cujos versos eróticos ainda hoje são cantados no Médio Oriente.

When I love/ the water gushes from my fingers/grass grows on my tongue/ when I love/ I become time outside all time. (In: “On Entering the Sea”).

Venera-o como “um dos maiores críticos dos regimes árabes”, com obras “premonitórias” da violência que está a conduzir ao êxodo de milhares de sírios. Há um poema, em particular, que prenuncia desgraça:

We reached the point/ Where we did not know what to say/All subjects became the same /The foreground merged with the background. /We reached the peak of despair/ Where the sky was a bullet,/ Embracing was retaliation, /Making love was the severest punishment. (In: “Arabian Love Poems”)

Nizar Qabbani, aclamado como “o poeta do erotismo árabe”
© syrianhistory.com

É inegável que Nizar Qabbani, também nascido em Damasco, em 1923, simbolizou a luta contra “as forças do mal”, influenciado pelo pai, dono de uma fábrica de chocolates, preso várias vezes por resistir às forças coloniais francesas.

Quanto ao filho, começou a escrever os primeiros poemas ainda na universidade – versos de sedução que aludiam a corpos femininos, fazendo estremecer uma sociedade conservadora.

Inspirou-se numa irmã que se suicidou tinha ele 15 anos, quando a obrigaram a casar-se com um homem que ela não amava. “O amor e o sexo são prisioneiros no mundo árabe e eu vou libertá-los”, prometeu, no dia do funeral.

Após concluir a licenciatura em Direito, em 1945, Kabbani foi designado cônsul e adido cultural em várias cidades, do Cairo a Madrid.

Quando o Egipto e a Síria se fundiram na República Unida Árabe, foi enviado para a China como secretário da embaixada daquela entidade que apenas durou de 1959 a 1961. Cinco anos depois, mudou-se para Beirute onde abriu uma editora a que deu o seu nome.

Em 1967, a derrota dos árabes na segunda guerra com Israel teve um impacto profundo na sua obra, que se tornou menos romântica e mais política. Excerto do poema Sultan (“Sultão”):

(…) You have lost two wars/ and no one tells you why. /Half your people have no tongues./ What good their unheard sigh?/

The other half, within these walls, /run like rabbits and ants,/ silently inside./ If I were given safety/ from the Sultan’s armed guards/

I would say, O Sultan,/ the reason you’ve lost wars twice/ was because you’ve been walled in from/ mankind’s cause and voice.

(In: “Notes on the Book of Defeat”)

O azedume de Nizar Kabbani foi crescendo a partir de 1981, quando a segunda mulher, a professora iraquiana Balqis al-Rawi, foi vítima de um atentado bombista, na capital libanesa. Dedicou-lhe um poema, Balqis (ver vídeo acima), no qual responsabiliza todo o mundo árabe pela morte da amada. Não voltou a casar-se.

Trocou Beirute por Londres, onde viveu os últimos 15 anos, sempre escrevendo poesia incómoda. Em 1994, publicou o provocador “When would they announce the death of the Arabs?”

For fifty years, I have been watching the state of the Arabs. /And they thunder, but never rain…/They enter wars, but never leave…/ They keep chewing scraps of wisdom /But never digest it…/

For fifty years, I have been trying to draw a land/ Called – remarkably – the land of the Arabs;/ I drew sometimes in the colour of arteries/And sometimes in the colour of anger. / And when the drawing was finished, I asked myself:/

If someday they announced the death of the Arabs…/ Then where would they be buried)/ And who would cry for them?/They have no daughters…/ They have no sons…/And there is no grieve!

Aos 75 anos, em 30 de Abril de 1997, Kabbani morreu, de ataque cardíaco, em Londres. No seu testamento, redigido na cama do hospital, pediu que fosse sepultado em Damasco, “o útero da [minha] poesia”. E assim aconteceu, quatro dias depois. Recebeu honras de Estado e milhões de árabes choraram a sua partida.

Perguntámos à musa de Darwish – o seu primeiro amor foi a judia Tamar Ben Ami, para quem ele escreveu um poema (Rita and the Rifle / “Rita e a espingarda”) que muitos julgavam ser dedicado à Palestina (Entre Rita e os meus olhos / há uma espingarda…), como é que Nizar e Mahmoud olhariam hoje para a tragédia da Síria:

-“Os dois abominavam e condenavam a máfia dos Assad”, garantiu Rana. “Se eles tivessem vivido para testemunhar os últimos quatro anos e meio, seriam vozes importantes ao lado desta sublevação admirável contra um ditador psicopata.”

Adonis, o poeta sírio que reescreveu e modernizou a literatura árabe, vive exilado entre Paris e Beirute desde 1956. Admirado pela sua obra, tem sido muito criticado por se ter distanciado da “revolução que sai das mesquitas”
© Middle East Eye

Voltemos, agora, a Adonis, natural da aldeia de Qassabin, no reduto xiita-alauita de Latakia. Foi um dos maiores entusiastas das sublevações na Tunísia e no Egipto. Também ele antigo prisioneiro político forçado ao exílio, em 1956, o sírio-libanês foi tímido nas críticas ao líder em Damasco. Profundamente secular, não se juntou aos protestos.

“Nunca aceitaria participar numa manifestação que saísse de uma mesquita”, justificou, invocando as seguintes razões: não há “Islão moderado” e a vida das minorias sírias será “muito pior” após a queda de Assad.

Aos ouvidos dos críticos, as palavras de Adonis reproduziam a oratória de Assad, que apostava no medo. A realidade daria, porém, razão a Ali Ahmad Said Esber, o filho de um camponês que foi obrigado a adoptar um pseudónimo para que os seus versos, escritos desde os 13 anos, fossem publicados.

O que ele temia aconteceu: a Síria fracturou-se em grupos confessionais outrora aliados e agora inimigos, e as milícias mais poderosas e extremistas emergiram do campo sunita.

Numa entrevista à Paris Review, em 2014, Adonis afirmou: “Há muito tempo que o mundo árabe vive uma era de escuridão. A Síria é parte dela. (…) Esta autoproclamada revolução tornou-se numa amálgama. Para destruir o regime é necessário destruir a Síria. A destruição de um país é um acto selvagem. A culpa é do fundamentalismo.”

“(…) Escrevi uma carta aberta a Bashar [nunca se encontrou com ele, nem com Hafez], porque queria que ele mudasse, ouvisse o povo, secularizasse a sociedade. Sou contra a violência, ingerências externas e uma religião politizada – não contra a fé individual.”

“(…) A religião é antidemocrática, porque ser democrata significa aceitar que ‘o outro’ é diferente. Sou contra a tolerância, porque oculta sentimentos racistas. A democracia exige igualdade, não tolerância.”

Um dos poemas mais simbólicos de Adonis, que pode ser lido como uma homenagem aos sírios que hoje fogem da morte nas águas do Mediterrâneo, chama-se “O Falcão”.

Os cavalos aproximaram-se e da margem chamaram-nos:/ Voltem para trás pois nada de mal vos acontecerá./ Mas eu nadava, e o meu irmão mais novo nadava igualmente./

Virei-me para o encorajar, mas ele não me ouviu./ E com medo de se afogar deixou-se encandear pela garantia/ daquela palavras. E nadou, à pressa, para trás, enquanto eu atravessava o Eufrates./

Então, eles correram na direcção do meu irmão, que de boa fé/ se dirigia para eles, e quando olhei para ele, decapitaram/ aquele jovem de treze anos e levaram-no. Eu, porém,/ corria, corria sempre em frente, sentia-me como um pássaro/ – assim tão rápido corriam as minhas pernas.

Colete Khoury que mais escandalizou a Síria, em 1959, tenha sido um romance, Ayyam Maahou (“Dias Com Ele”), inspirado num affair com Nizar Kabbani © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Colete Khoury, primeira embaixadora da Síria no Líbano, escandalizou a sociedade damascena, em 1959, com um romance, Ayyam Maahou (“Dias Com Ele”), inspirado num affair com o poeta Nizar Kabbani
© alchetron.com

Além de Adonis, na prateleira dos “proscritos”, Rana Kabbani coloca também a damascena de 84 anos Colete Khoury, autora de uma obra vasta centrada no “amor e erotismo das mulheres”.

A oposição síria não suporta que ela, neta de Faris al-Khoury, primeiro-ministro de 1944 até 1954, e deputada entre 1990 e 1995, se mantenha uma aliada de Bashar.

O Presidente designou-a “conselheira literária”, em 2006, e mais tarde embaixadora em Beirute, em 2008, quando Damasco reconheceu, pela primeira vez em seis décadas, a soberania do vizinho Líbano – até então os Assad nunca desistiram da ambição de incluir o “País do Cedro” numa “Grande Síria” (onde também integravam a Palestina).

Não deixa de ser irónico, face ao antagonismo de Rana, que um dos livros de Colete Khoury que mais escandalizou a Síria, em 1959, tenha sido um romance, Ayyam Maahou (“Dias Com Ele”), inspirado num affair com Nizar Kabbani.

A protagonista e narradora, Rim, é uma mulher hostil ao casamento, que “não se deixou cegar pelo amor”, porque isso enfraqueceria a sia identidade.

Dois anos depois, em 1961, foi publicado o ainda mais polémico Layla wahida (“Uma noite”), o encontro fugaz de Rasha, personagem principal, com um piloto francês durante a II Guerra Mundial. A controvérsia foi maior por introduzir o adultério na equação.

Hanna Mina: escritor do do realismo social. Os seus livros centram-se na luta de classes. Usou as experiências pessoais como sem-abrigo, estivador e barbeiro para descrever a existência de gente comum e analfabeta (ele tem apenas a instrução primária)
© The National

Rana Kabbani também não admira Hanna Mina, apesar do reconhecimento internacional como “decano dos romancistas sírios”, galardoado com o Prémio dos Escritores Árabes em 2005.

Os seus livros, catalogados como pertencendo ao movimento do realismo social, centram-se na luta de classes. Usou as experiências pessoais como sem-abrigo, estivador e barbeiro para descrever a existência de gente comum e analfabeta (ele tem apenas a instrução primária).

Em encontros com jornalistas no seu estúdio decorado com retratos de Gorki, Dostoeivski, Tchekov, Hemingway e Estaline, o nonagenário Mina conta a “infância atribulada, encontros com mulheres misteriosas, e mares distantes de ondas tumultuosas” – principal inspiração.

Recusa escrever a autobiografia, alegando que as suas memórias já polvilham todos os seus livros, desde Blue Lanterns a The Swamp.

Para Rana, as personalidades literárias e filosóficas sírias mais extraordinárias são Abd al-Ghani al-Nabulsi (1641-1731), “que escreveu Interpretação dos Sonhos – dois séculos antes de Freud”; Ahmad Budairi al-Hallaq, cronista do século XVIII, “das muitas invasões que Damasco sofreu até à data presente”; Abu Khalil al-Kabbani (1835-1902), “o criador do teatro musical e primeiro dramaturgo do mundo árabe”; e Ulfat Idilbi (1912-2007).

As primeiras histórias de Ulfat centravam-se no movimento de resistência sírio pela independência, mas depois dedicou-se a denunciar as pressões e obstáculos que as mulheres enfrentam para ocuparem o seu lugar devido na sociedade.

As primeiras histórias de Ulfat centravam-se no movimento de resistência sírio pela independência, mas depois dedicou-se a denunciar as pressões e obstáculos que as mulheres enfrentam para ocuparem o seu lugar devido na sociedade. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

As primeiras histórias de Ulfat Idilbi centravam-se no movimento de resistência sírio pela independência, mas depois dedicou-se a denunciar as pressões e obstáculos que as mulheres enfrentam para ocuparem o seu lugar devido na sociedade
© abracocultural.com

Ghada al-Samman descreveu assim o seu trabalho: “Sonhos, loucuras, alucinações são instrumentos literários que me ajudam a provar as profundezas da Humanidade. O que é mais importante num pesadelo é a obstinação do indivíduo em despertar do sono e acordar, para se livrar do pesadelo. Aos árabes falta essa vontade de despertar. © www.lorientlejour.com/

Ghada al-Samman descreveu assim o seu trabalho: “Sonhos, loucuras, alucinações são instrumentos literários que me ajudam a provar as profundezas da Humanidade. O que é mais importante num pesadelo é a obstinação do indivíduo em despertar do sono e acordar, para se livrar do pesadelo. Aos árabes falta essa vontade de despertar
© http://www.lorientlejour.com

Outra escritora recomendada por Rana é Ghada al-Samman (da família Kabbani), “a primeira escritora feminista síria”, nascida em Damasco em 1942. É autora de mais de 40 livros de géneros diversos.

Inovadora e controversa, com um estilo comparado ao do colombiano Gabriel García Màrquez, e admiradora de T. S. Eliot [curiosamente, Adonis, que Rana tanto detesta, é comparado a este escritor, por ter modernizado a literatura árabe, como Eliot fez com a literatura inglesa], sobretudo da sua Canção de Amor de J. Albert Prufrock (1917), tem atraído atenção mundial. As suas obras foram traduzidas para uma dezena de línguas, do italiano ao japonês, do russo ao farsi.

Em inglês e em prosa, estão disponíveis The Square Moon, The Night of the First Billion e uma trilogia sobre a guerra civil libanesa e a invasão israelita de 1982 – Beirut 75, Beirut Nightmares e The Night of The First Billion.

Aqui denuncia as “deploráveis condições sócio-económicas e políticas enraizadas num feudalismo machista e corrupto”. Podemos lê-la também nas antologias poéticas Opening the Gates: A Century of Arab Feminist Writing e Middle Eastern Muslim Women Speak.

[Em 2018, Ghada publicou Farewell Damascus e, em 2019, Capturing Freedom’s Cry: Arab Women Unveil Their Heart.]

Numa entrevista ao jornal Al Itihad, Ghada al-Samman descreveu assim o seu trabalho: “Sonhos, loucuras, alucinações são instrumentos literários que me ajudam a provar as profundezas da Humanidade. O que é mais importante num pesadelo é a obstinação do indivíduo em despertar do sono e acordar, para se livrar do pesadelo. Aos árabes falta essa vontade de despertar.”

Mustapha Khalifa (à dir.) habitou-se de tal modo a “viver numa concha” que optou por “erguer um muro” à sua volta, numa busca existencial
© gramha.net

Igualmente respeitado por Rana Kabbani é o escritor Mustapha Khalifa, autor de Al-Qawqa (“The Shell”/ A Concha, 2008), “a história verídica dos anos tortuosos que passou, de 1982 até 1994, na temível prisão de Tadmour, em Palmira” – cidade que seria depois destruída pelos terroristas do Daesh, ou autoproclamado “estado islâmico”.

Cristão acusado de colaborar com a Irmandade Muçulmana, os guardas prisionais consideravam-no “um traidor duplo”. Quando se declarou ateu, foi ostracizado pelos colegas de cela como apóstata. Também o olhavam com a suspeita de que ser “espião ao serviço de Assad”.

As memórias da prisão, onde o terror dominava todo o seu ser, incluem também o período pós-libertação. Habitou-se de tal modo a “viver numa concha” que optou por “erguer um muro” à sua volta, numa busca existencial.

Em 2013, o busto de Al-Ma’arri, um dos maiores poetas clássicos árabes, orgulhosamente ateu, foi “decapitado” por jihadistas da Frente al-Nusra, ou al-Qaeda no Levante, cujo desígnio é transformar a Síria num Estado islâmico. (Na foto, em 1944, a estátua intacta e o seu escultor, Fathi Muhammad)
© historyanswers.co.uk

No final da entrevista que me deu, Rana Kabbani identificou o seu autor favorito: o pensador ateu Abu’l-ala al-Ma’arri, poeta, filósofo e romancista, comparado a Tito Lucrécio Caro, autor do épico Sobre a Natureza das Coisas (“De Rerun Natura”), para quem “a alma é mortal”.

Nascido em 973 na aldeia que tem agora o nome de Maraat Al-Numan, nos arredores de Aleppo, Al-Ma’arri estudou aqui mas também em Trípoli (Líbano) e em Antioquia (actual Turquia)

Assumia-se como “pensador pessimista”, citando a razão como principal fonte da verdade. Via-se a si próprio como duplamente recluso: por ser cego e viver isolado. Atacava os dogmas de qualquer credo religioso (dos zoroastras aos cristãos) e rejeitou o Islão.

Defendia a justiça social e dava o exemplo vivendo como asceta. Vegetariano assumido, recusava alimentar-se com “a carne de animais sacrificados”. Ele, que nunca se casou até à sua morte aos 83 anos, desencorajava igualmente a natalidade, alegando que os filhos “deveriam ser poupados às agruras da vida”.

Entre as principais obras de Al-Ma’arri – que ele nunca quis vender – estão A Necessidade Desnecessária e A Epístola do Perdão – considerada “percursora da Divina Comédia, de Dante. Em 2013, a estátua deste que foi dos maiores poetas clássicos árabes, foi “decapitada” por jihadistas da Frente al-Nusra, ou al-Qaeda no Levante, cujo desígnio é transformar a Síria num Estado islâmico.

“Há um poema muito conhecido de Al-Ma’arri que aprendíamos na escola, e eu gostaria que um dos versos fosse o epitáfio no meu túmulo”, concluiu Rana Kabbani. “Pode ser traduzido mais ou menos assim: Life is but care, so nothing astounds as much as he longs for more.”

Embora o seu nome não conste do “guia” de Rana Kabbani, seria injusto não incluir Hani al-Rahib (1939-2000) entre os maiores vultos da literatura síria: dos pioneiros do romance no seu país, dizia que os livros o deixavam imune à loucura.

Durante quatro décadas, desde os anos 1960, Rahib (ou Raheb) confrontou os poderes políticos árabes, criticou a passividade dos intelectuais, protestou e revoltou-se contra a abundância de corrupção e a escassez de justiça social e democracia no Médio Oriente.

 

Hani al-Rahib (ou Raheb), à direita, e a capa do seu Al-Waba (“The Epidemic”/"A Epidemia"), considerado pela União dos Escritores Árabes (que o expulsou duas vezes) "um dos 105 melhores livros do século XX”. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Hani al-Rahib (ou Raheb), à direita, e a capa do seu Al-Waba (“The Epidemic”/ A Epidemia), considerado pela União dos Escritores Árabes (que o expulsou duas vezes) “um dos 105 melhores livros do século XX”

Nascido em Latakia, em 1939, Rahib só pôs fim às batalhas e combates pela liberdade quando um cancro lhe roubou a vida, em 2000. Uma das suas obras mais notáveis é Al-Waba (“The Epidemic”/ A Epidemia, título da tradução para inglês).

“É um dos 105 melhores livros do século XX”, proclamou a União dos Escritores Árabes, que o expulsou duas vezes. Retrato de três gerações em cem anos de história síria, os personagens são gente marginalizada e incapaz de confrontar quem os governa. Não admira que os presos políticos de Assad adulassem este romance como “uma bíblia”.

A descrição que, em Al-Waba, Rahib faz da sua aldeia em 1916, no final da I Guerra Mundial, quando os exércitos turcos em retirada semearam a destruição, é hoje, de certo modo, a imagem da Síria despovoada e despedaçada por múltiplos inimigos.

O lugar é lindo./ Talvez o lugar mais lindo de que há memoria,/ e seguramente o mais bonito (…). Ninguém se lembra quando é que o transformaram num lugar para os mortos./

(…) As pessoas vagueavam perdidas, tentando fugir da morte./ Dezenas de milhares./ Quanto mais pessoas, mais vítimas.

O primeiro romance de Rahib, Os Derrotados, foi publicado em 1961. Ele tinha 22 anos e ainda frequentava a Universidade de Damasco – onde daria aulas, até ser despedido e despromovido a professor de liceu, devido aos seus ideais.

O herói é aquele que perde. Uma escolha intencional pois só nos livros seria possível condenar ditaduras. Rahib aborda o “estado de confusão, desorientação e perda da juventude árabe”. E ataca “a traição dos nacionalistas apenas leais aos seus interesses”.

“Os meus romances tentam documentar a luta entre os elementos da derrota e a forças que procuram elevar a nossa humanidade”, disse o escritor à revista Al Jadid.

Uma das razões que levaram a União dos Escritores Árabes a excluir Rahib, foi ele ter defendido, alegadamente, a “normalização” dos laços com Israel.

Numa entrevista à publicação Al Wasat, defendeu-se: “Se falarmos com o inimigo como ignorantes acabaremos numa posição de submissão; mas se falarmos armados com o conhecimento poderemos encontrar uma solução.”

Outra declaração controversa, de apelo a estudantes para se rebelarem contra “valores decadentes”, forçou-o a sair da Universidade do Kuwait, onde também foi docente.

Não mencionou qualquer governante do emirado; lamentou apenas o marasmo que impede o desenvolvimento humano na região. Toda a sua obra – oito romances e três colectâneas de contos – reflecte um desalento infindável.

No livro, com marcas autobiográficas, Traçar uma Linha na Areia, Rahib insurge-se contra os três grandes tabus árabes: religião, sexo e política.

“Ao submetermo-nos continuamente a estas proibições temos dificuldade em erguer mais alto as nossas cabeças, para dizer ‘não’ e exigir novo começo. (…) Somos um povo mandrião com duas expressões predilectas: ‘amanhã’ [Bukra] e tanto faz’ [Maalesh]. A preguiça é responsável pelos nossos desaires.”

Em Mil e Duas Noites (1977), Rahib analisa sem piedade o modo como os exércitos árabes perderam, em seis dias (ou “seis horas”), na guerra de 1967, a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, a Península do Sinai, a Faixa de Gaza e os Montes Golã.

Não foi uma “catástrofe militar”, avaliou, mas um “cataclismo cultural”. Justificou assim o título: “A nossa sociedade está profundamente fracturada. Usa a linguagem do presente com a mentalidade do passado. O mundo árabe permanece onde Xerazade o deixou em Mil e Uma Noites.”

Rana Kabbani © arabexcellence.com/

Rana Kabbani
© arabexcellence.com

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente na revista LER, edição Outubro-Novembro-Dezembro de 2015 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese magazine LER, 2015 October-November-December edition

“Sou tão exótica que ultrapassei a barreira do preconceito”

Num país mais habituado ao biquíni do que à burka, Gisele Marie Rocha admite que o niqab, ocultando-a da cabeça aos pés, fez dela “atracção turística” no Brasil. Psicóloga de 42 anos, exímia no piano, que estudou desde os 8, e na guitarra, desde os 11, formou recentemente a sua própria banda de heavy metal. “O Islão é a minha religião e a música a minha profissão.” Entrevista por e-mail e Facebook. (Ler mais | Read more…)

Gisele Rocha converteu-se ao Islão em 2009, o ano em que o seu pai morreu. Ele era católico mas sempre se sentiu fascinado pelo "mundo árabe", como explicou ela numa outra entrevista. ©Direitos Reservados | All Rights Reserved

Conte-nos um pouco de si…

Sou brasileira, nascida em São Paulo, a cidade onde resido atualmente. Tenho 42 anos e estudei Psicologia. O meu pai era advogado e a minha mãe foi professora. Tenho irmãos, mas não gosto de misturar vida profissional com a pessoal. Dedico-me agora integralmente à música, que é o meu trabalho. Sou divorciada, e tenho filhos.

O que começou primeiro no seu caso: o Islão ou a música?

A música. Estudo música desde os 8 anos de idade, e só me tornei muçulmana em 2009.

Antes do Islão, pertenceu a outro grupo religioso…

Sempre estudei muito e sempre fui apaixonada por cultura, literatura e tudo que sobre estes assuntos. Entre os assuntos que  me despertam interesse, estão história e religião. Estudei muitas religiões também, como religiões antigas e a doutrina espírita.

Antes do Islam, integrava uma comunidade de praticantes da ‘Velha Religião’ ou ‘Bruxaria’. Os conceitos eram realmente interessantes e enriqueceram-me em termos de conhecimento, mas discordava deles, ao indagar se todas aquelas forças da natureza e divindades não poderiam ser diferentes aspectos da personalidade de um Deus Único.

Este aspecto também me fez distanciar do Cristianismo, porque eu não concordava – e queriam que eu não questionasse – o conceito de ‘Trindade’. Foi no Islam que reencontrei o conceito da Unicidade de Deus.

Foi por achar que você era “bruxa” que a sua mãe, católica, ficou contente por se ter convertido ao Islão?

Sim, a minha mãe ficou contente porque, assim, ela já poderia dizer-me coisas como: “Que Deus te abençoe”, que eu não ficaria brava. Isso era algo que ela pensava, porque na verdade nunca fiquei brava…

Como era sua vida antes da conversão, e por que escolheu este caminho?

Sempre trabalhei com música, apesar me ter licenciado em Psicologia. Durante algum tempo, pensei em dedicar-me exclusivamente à psicologia, mas acredito que a música é a minha vocação. Não me sinto bem quando estou longe. Tornei-me muçulmana porque li o Alcorão.

Com poucos meses de um curso de língua árabe, encontrei o Alcorão na Internet disponível para leitura. Como eu estudava a língua árabe, decidi ler o Alcorão, porque havia encontrado uma edição bilíngue (árabe-português).

Não conhecia nenhum muçulmano. Nunca havia estado antes numa mesquita. O Alcorão levou-me ao Islam [a forma que os muçulmanos consideram correcta de dizer “Islão”]. Sempre fui uma mulher religiosa, mesmo antes do Islam. Tinha fé em Deus. A minha família é católica, mas eu e os meus irmãos seguimos direções diferentes.

Gisele Marie Rocha durante um concerto com os Spectrus, sua anterior banda de heavy metal © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Disse, numa outra entrevista, que o seu pai era um católico “fascinado pela cultura árabe”. Até que ponto esse interesse influenciou a sua conversão? 

O meu pai era um homem muito culto, inteligente que procurava sempre a construção do conhecimento. Dentro destas características, uma das coisas que ele admirava era o grande número de cientistas, estudiosos, e sábios que apareceram na era da Expansão Islâmica.

Foi quando surgiram grandes descobertas nas áreas de hidráulica, física, química, astronomia, o resgate da cultura clássica, tudo isto foi realizado por muçulmanos.

O Renascimento na Europa só aconteceu porque grandes estudiosos árabes muçulmanos redescobriram e resgataram a cultura clássica greco-romana. O meu pai admirava tudo isto, entre outros assuntos.

Aprender a língua árabe e, por consequência, ler o Alcorão, teve provavelmente ligação com o falecimento do meu pai [em 2009]. Mas tornar-me muçulmana, não teve nada a ver com isto.

Há muitos convertidos ao Islão no Brasil? Pode fazer-nos um retrato desta comunidade muçulmana?

Há muito convertidos, e este número vem crescendo constantemente [cerca de 25%, entre 2001 e 2011, como indicou a revisto “Isto é”]. Existem diversas e diferentes estatísticas [um censo demográfico em 2010 contabilizou, neste ano, 35.167 fiéis], mas não ligo muito para isto.

Os últimos números apontam para mais de 1 milhão e meio de muçulmanos no Brasil [de acordo com uma reportagem da rede Globo]. Há muitas mesquitas [cerca de 115]. Só na minha cidade, há 4 grandes mesquitas e uma infinidade de mussalas [salas de oração]. A grande maioria, como no resto do mundo, é formada por sunitas. Eu sou sunita.

Rezam segregados?

Seguimos a tradição de separar homens e mulheres durante as nossas orações – e acho isto muito certo. Quando você vai orar para Allah [ou Alá, que quer dizer Deus, em árabe] não é hora de se distrair com outros assuntos. Isso acontece, sim. Já vi noutras religiões, noutros cultos religiosos.

Por que decidiu usar o niqab e não apenas o hijab, por exemplo? Uma activista egípcia, Mona Eltahawy, rejeitou o niqab, justificando: “Não posso aceitar que quanto mais perto estou de Deus menos Deus me vê”. Qual o seu comentário a este respeito?

Bem, respeito a opinião dela, mas não acredito que Deus não possa ver através de um simples pedaço de pano…

Não há, no Alcorão, qualquer descrição de roupas como sendo as mais adequadas para usarmos. E também é errado aquele que pensa que devemos usar as roupas da época do Profeta Muhammad [ou Maomé], já que ele e os seus contemporâneos não usavam as roupas que usamos hoje, sejam femininas ou masculinas.

O niqab é minha escolha. Começou simplesmente porque me ofereci para ajudar uma amiga a vencer o medo de o usar quando regressou ao Brasil depois de morar alguns anos no Egipto. Eu acompanhei-a. Senti-me bem, e comecei a aprender como o deveria usar. Foi fruto de muita reflexão.

Quando comprei o meu primeiro niqab, determinei que levaria isto a sério. Desde então, sempre o usei com muito respeito.

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Há várias interpretações sobre o que, para os muçulmanos, significa modéstia. Teoricamente, o objetivo é que as mulheres “não chamem a atenção”, mas num país como o Brasil, mais associado ao biquíni do que à burqa, uma mulher de niqab não chama muito mais a atenção sobre si própria do que o contrário?

Sim, é verdade, até certo ponto, mas, ao mesmo tempo, não me caracterizo por usar pouca roupa. O niqab é uma escolha pessoal, e usá-lo-ei até o fim dos meus dias, Insha’Allah [oxalá].

Embora sabendo que não se preocupa “nem um pouquinho” com a reacção dos outros, alguma vez se sentiu assediada devido ao niqab?

Algo de estranho acontece comigo e não sei explicar exactamente o motivo. Devo ser tão exótica que ultrapassei a barreira do preconceito. Tornei-me algo como uma atração turística, porque as pessoas, em geral, querem falar comigo.

Raramente presencio algum tipo de preconceito contra mim. Também acredito no factor individual como componente importante que modifica a relação da pessoa com o mundo que a rodeia.

Acredito que recebemos do mundo o que lhe damos. Como sou sempre atenciosa e simpática com todos, como gosto de conversar, as pessoas aproximam-se de mim. Os poucos casos em que fui vítima de preconceito mostraram-me que o problema não está em mim, mas nos preconceituosos. Em palco, a reacção é sempre positiva e óptima.

Só tenho experiências positivas. Nas ruas, lembro-me de uma ocasião em que eu passava em frente à famosa Galeria do Rock, em São Paulo e, de lá de dentro, três garotas roqueiras cercaram-me. Diziam que estavam muito felizes por conhecerem uma “mulher egípcia”!

Tiraram muitas fotos comigo, mas falavam tanto que foram embora sem que eu conseguisse explicar-lhes que sou muçulmana mas brasileira. Foi muito engraçado.

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Não é um paradoxo usar um tipo de vestuário dos primórdios do Islão, como se tivesse parado no tempo, enquanto a sua música e os instrumentos que toca representam uma vanguarda de modernidade?

Bem, como já expliquei, o meu vestuário não vem dos primórdios do Islam. Também não acho que o metal e a guitarra sejam vanguarda de modernidade.

A música, a grande música, que é o meu foco, é intemporal e universal. Esta mistura de vários elementos é algo que me fascina, e que está também presente na cultura do meu país.

Num país como o Brasil, não é desconfortável cobrir o corpo dos pés à cabeça? 

O segredo está no facto de a roupa ser exactamente larga, portanto confortável, e extremamente leve, já que os tecidos das roupas que eu uso são tradicionalmente muito leves e arejados. Desta forma, minhas roupas são muito mais confortáveis e arejadas do que calças jeans apertadas e camisetas e blusinhas justas.

Sobre a música, quando é que começou a tocar, e porquê heavy metal?

Comecei a estudar piano clássico aos 8 anos de idade. Sempre tive forte ligação com a música erudita, até hoje. Passei para o violão algum tempo depois de ter começado a estudar piano. Aos 11 anos, virei-me para a guitarra eléctrica. O heavy metal é o estilo que mais se aproxima da música erudita. Não é fácil tocar heavy metal. Estudo música durante 6 horas diárias, todos os dias.

Como sabe, muitos muçulmanos radicais, no Afeganistão ou na Arábia Saudita, por exemplo, renegam a música como haram, proibida no Islão. O que acha disto, e alguma vez se sentiu ameaçada?

Bem, em primeiro lugar eu sou muçulmana, e sigo o Islam tradicional, portanto, não tenho nada a ver com os Taliban e o wahhabitas. Em segundo lugar, e sinceramente, nem ligo para o que pessoas assim pensam. Não tenho medo.

Como escolheu a guitarra?

A Polka, a minha guitarra, é baseada na Karl Sandoval Polka Dot V, uma das principais guitarras de Randy Rhoads [1956-1982, tocou com Ozzy Osbourne e os Quite Riot], o músico que eu mais amo e que mais influência exerce sobre mim. Mas não é uma réplica da guitarra do Randy. É diferente em vários aspectos técnicos.

A guitarra do Randy é preta como com bolinhas brancas. A minha é preta com bolinhas rosas. A minha guitarra é uma das maiores homenagens a Randy Rhoads.

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Por que pintou a guitarra com bolinhas pretas e cor-de-rosa, iguais às suas sapatilhas?

As sapatilhas vieram bem depois. Um amigo disse-me: “Sei que você é muçulmana, mas vou dar-lhe um presente de Natal.” E foram as sapatilhas por combinarem com a minha guitarra.

Quais são os temas das suas canções? Os Slayer, banda de trash metal, abordam questões satânicas embora os seus membros sejam cristãos praticantes. Até que ponto se podem dissociar as convicções religiosas das performances artísticas sem cair na hipocrisia?

Não acho que os Slayer sejam hipócritas por os seus membros serem cristãos e as suas letras falarem de temas satânicos. A arte tem de ser livre.

A criatividade não pode ser limitada por temas determinados, ou por qualquer outra restrição. Como compositora, quero sentir-me sempre livre para falar sobre o que eu quiser.

Música e lírica são arte. Os temas são e serão variados. Mas eu e a minha banda não vendemos a morte. “Vender a morte” é uma expressão que li num artigo sobre os Iron Maiden. Evitamos temas satânicos, não por motivos religiosos, mas porque não nos atraem. Eu prefiro a vida, mesmo quando escrevemos canções de crítica social. Prefiro a luz, e não as trevas.

Como se juntou aos Spectrus, e que banda é esta que agora decidiu abandonar? Podem eles sobreviver depois de perderem a sua frontwoman?

Spectrus foi muito importante na primeira leva de bandas de heavy metal no Brasil, surgida na década de 1980 – uma era de verdadeiro pioneirismo por aqui, onde nada existia em termos de metal. Muitas bandas dessa época tocaram apenas no Brasil.

Algumas ganharam o mundo, como os Sepultura. Outras tornaram-se de culto, como os Sarcófago. Alguns dos meus irmãos tocaram nesta banda.

Spectrus já havia terminado a sua carreira há muitos anos quando a Metal Soldiers Records, de Portugal, lançou um álbum Tributo ao Spectrus, gravado pelos Prellude, banda aqui do Brasil.

O vocalista do Spectrus pensou em reactivar a banda e convidou-me para esse renascimento, em 2012. Naquela altura, eu dedicava-me à Psicologia e há seis anos que não tocava, mas aceitei o convite. Desejo toda a sorte do mundo para eles [um fiel do rito umbundu, outro espírita e um católico], e sou grata por eu ter voltado a tocar profissionalmente.

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Por que deixou o Spectrus e qual o seu novo projecto?

Diferenças profissionais levaram-me a sair. Toco agora numa nova banda [Eden Seed]. De momento, estamos concentrados nas músicas para o nosso primeiro álbum. Não posso falar muito mais do que isto até o lançamento. Esperamos tocar no mundo todo, especialmente em Portugal – me deixaria muito feliz.

Além de Randy Rhoads, quem são os seus artistas favoritos?

Randy Rhoads é, e sempre será, o Número Um. Foi o primeiro músico que me impressionou com a fusão entre música erudita e o heavy metal, como ele fazia.

Indirectamente, ele mudou a minha vida. É o músico que toca a minha alma mais profundamente, e isto transcende instrumentos e estilos musicais. Jimi Hendrix [1942-1970] é, também, uma forte influência, em especial pela interpretação enérgica, e pela liberdade que sinto na construção da sua música.

Paco de Lucía [1947-2014] é outra grande influência ligada à minha história pessoal. Ouço-o desde que eu era criança. Também está ligado a uma grande paixão pelo flamenco, e à minha atração por harmonias “arabescas”, já que o flamenco foi fortemente influenciado pela música árabe, em especial na Andalusia.

Yngwie Malmsteen [multi-instrumentista sueco nascido em 1963] é outra grande influência. E isto tem a ver com a minha ligação com a música erudita, sobretudo a música barroca, e compositores como Bach, Corelli, Handel, entre outros. Sou realmente eclética.

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Sendo muçulmana, como olha para a crise dos refugiados, a incapacidade de os países islâmicos se libertarem de regimes ditatoriais e a sua recusa em aceitarem a separação entre Estado e religião?

Olho para a crise dos refugiados como pessoa, não como muçulmana. Vejo a sociedade humana global a entrar numa convulsão que já era previsível porque o modo como esta sociedade se organizou é simplesmente insustentável e canibal.

A crise dos refugiados tem origem na extrema exploração da miséria, na violência e nos conflitos resultantes desta exploração. Um dia, isto teria que acontecer.

Na minha modesta opinião, a ligação entre Estado e religião nos países do Médio Oriente Médio é útil para a supremacia de um grupo político selecto que tenta perpetuar o poder nas suas mãos, já que verdadeiramente nenhum país da região tem qualquer tipo de governo islâmico.

As suas interpretações do Islam são sempre adaptadas às necessidades dos governantes. Regimes ditatoriais são excelentes em propiciar as relações entre corrompidos internos e corruptores externos.

Como define a sua prática religiosa – segue uma escola de pensamento conservadora ou mais progressista, como a que aceita mulheres imãs [líderes que podem conduzir as orações], por exemplo?

Eu sigo o Islam tradicional. O que foi determinado por Allah, ensinado pelo Profeta Muhammad e minuciosamente estudado pelas escolas de jurisprudência islâmica, das quais apenas quatro [hanafita, shafita malikita e hanbalita] sobreviveram até os nossos dias.

Procuro aprender sempre. Tornei-me muçulmana em 2009 e, até hoje, considero-me apenas uma estudante. Esta construção do conhecimento é fundamental para se entender o Islam. É isto o que eu sigo.

Este artigo, aqui na versão integral e actualizado, foi publicado originalmente na revista SÁBADO, em 15 de Outubro de 2015 | This article, here in in the expanded and updated version, was originally published in the Portuguese magazine SÁBADO, on October, 15, 2015.

“My journey from refugee to citizen”

A Palestinian writer, social media strategist and Huffington Post contributor, Chaker Khazaal grew up in the Bourj el-Barajneh refugee camp during the Lebanese Civil War. In an email interview, published in the Portuguese weekly EXPRESSO, he told me how he managed to find a new home in Canada and what are the expectations of thousands of people now trying to escape bloody conflicts in Syria and in other countries. (Read more…)

Chaker Khazaal: “As the world is now focused on Syrian refugees, the displaced Palestinians should not forgotten. They should be included in a solution our world works towards”
© arabianbusiness.com

Let us begin with your family background.

I was a third generation Palestinian refugee. I was born in Lebanon in 1987. Both my parents were born in Lebanon too. My grandparents were the ones who left Palestine in May 1948 and came to Lebanon. I inherited the refugee status from them.

You were born in a refugee camp during the Lebanese civil war [1975-1990]. How was your life in Bourj El Barajneh? 

Life for a refugee is a challenge: you live with very little (little water, little electricity, no access to jobs). We all know that, so Margarida I am not going to elaborate on that. You and I, and many people, know that a refugee’s life suck. It brings pain, uncertainty, fear and so many other horrific feelings. My life in Bourj El Barajneh had that.

I mean when you see your neighbor’s son without a job because Palestinians can’t work in Lebanon in many sectors, you get scared as a child and you start to worry about the future. You start dreaming of leaving, for the sake of living. But the refugee camp also had its many fun moments.

I loved the close relationships between people; after all, there were 20,000 people living in Bourj El Barajneh, and now there are over 25,000 in the 1 KM2 camp due to the Syrian refugee crisis. We celebrated birthdays, weddings, graduation parties, and other occasions.

During Eid [holiday after Ramadan and Al Hajj], we wore good clothes in celebration of the occasion. During easter, my grandfather would color eggs and bring it to us. Like I said in one of my Huffington Post articles, “refugees are ordinary people living in extra ordinary circumstances.”

A picture taken on April 21, 2018, shows smoke billowing from the Palestinian refugee camp of Yarmouk during regime strikes targeting the Islamic State group in the camp
© AFP

What news do you have of the Palestinian refugees in Syria? Do you have relatives and friends there? 

Well I don’t need to share with you news about Palestinian refugees in Syria, I think we all know about the situation of the people of Syria. It is heart breaking to see the people of Syria losing their country. Syria was one of the very few places in the world that I as a refugee can visit without visa. I knew that because we always went there to visit some family.

I know about Palestinian refugees in Syria that prior to the conflict in 2011, they lived with access to all social services.

Syria treated Palestinian refugees in Syria better than Palestinian were treated any elsewhere. I experienced it at first hand when we used to visit my mother’s family in Aleppo.

My aunt’s son worked as a dentist, and they were able to own property (they had an amazing apartment that was our summer gateway). On the contrary, a refugee in Lebanon is not allowed to own property, and was denied access to public schools, hospitals, or right to employment.

Now, my family in Syria is all over the place. My aunt is in Texas. Her son finally made it to Sweden. Her daughter just made it to Turkey. They are all displaced. They lost everything. I had many friends in Syria as well. Some remain in Damascus. The majority are all over the place. This breaks my heart.

You have been visiting refugee camps in the Middle East. What is your mission there? 

Well, I grew up in a refugee camp, so I have family and friends there. That’s why I visit. I also get inspired by so many stories to write my books and articles that raise awareness about the plight of Palestinian refugees in Lebanon.

There are four generations of Palestinians refugees, without any rights. As the world is now focused on Syrian refugees, the displaced Palestinians should not forgotten. They should be included in a solution our world works towards.

It is horrible what is going on. Overcrowded camps with electrical wires killing many people, horrible conditions, and on top of that, no economic empowerment. Palestinian refugees in Lebanon have no access to jobs as I said, so it is hard to make a living.

The president of the State of Palestine, Mahmoud Abbas, has done little to alleviate the dire circumstances of his displaced people. In 2014, he told a group of visiting Israelis that he did not wish to change Israel’s nature by “drowning it with millions of [Palestinian] refugees.”

Perhaps the worst part of Abbas’ statement is that while it expresses concern for himself and Israel, it does not in any way address how he plans to help the millions of suffering Palestinian refugees. Except for in title, Abbas seems to have all but abandoned his people.

For Palestinian refugees, I emphasise on education, employment and immigration. Education is important for every person in the world, whether a refugee or not. The right to have a job is important. This is what refugees lack. Worldwide, donations pour onto refugees; but mostly in form of means of survival. Refugees need an opportunity in life. They need to feel like contributing members of societies.

I don’t blame Lebanon, it is a small country with its own problems. But I do address Arab nations and other countries. Arab countries make it so difficult for Palestinians to even get a tourist visa. Why? These countries are already donating money to “help” Palestinian refugees (in form of traditional donations), so why not give them a second chance in life like Canada, for example, had given me?

Of all countries, the United States perhaps has the most to gain by providing a home to many Palestinians. The U.S. has been regularly spending over $130 million a year to help UNRWA maintain aid to the Palestinian refugees, and has now spent over $5 billion just to keep these people at the bare minimum standards of living.

An alleyway in the Bourj al-Barajneh Palestinian refugee camp in Beirut, Lebanon where jumbled electricity and water cables run over cramped streets. © Caroline Anning | The Washington Post

An alleyway in the Bourj al-Barajneh Palestinian refugee camp in Beirut, Lebanon, where jumbled electricity and water cables run over cramped streets
© Caroline Anning | The Washington Post

Regarding the Palestinian refugees are you in favor of the right of return or do you propose another strategy? 

I am not going to answer anything about the right of return. I grew up being told that “your life sucks here in Lebanon BUT you have the right to return”. My life would have been wasted, like many lives are today, if they held only to a promise. The right of return to any refugee is a dream, one of those that may not come to fruition the easy way.

For me, the solution for Palestinian refugees is not a promise that is given in words and speeches. It is a practical strategy to save generations from wasting their lives in poverty and lack of opportunity. The solutions to refugees is by giving them a home.

The international community can fairly absorb a number of refugees and include them in its own demographics.

This is the best method of aid for both ends: the receiving ends will have a second chance in life, and the host country would be redirecting donations into its own economy by enabling a new citizen to contribute in skills, lifestyle, and of course, taxes.

We need to start shifting from traditional aid to enabling aid of providing opportunities to refugees and not closing borders in their face.

Is it possible that the wave of Syrian “migrants” will have an even more negative impact  on the situation of the Palestinians scattered in the Middle East refugee camps?

It has already happened. Many Syrian refugees coming into Lebanon (country with most refugees in the world per capita) are moving to Palestinian refugee camps. The small camps (like the one I grew up in is 1 KM2) are now hosting an influx of people.

On another hand, the Syrian crisis is requesting more funds, therefore making less resources available to the Palestinian refugees. And unfortunately, international aid follows trends. What’s happening today is more important than what happened yesterday. That is the philosophy that is driving the aid system.

Now that the Syrian crisis is happening, most of the attention is on it (which is good, since Syrians need a lot of help). But on the other hand, there had been deficits in organisations that work with other refugees, like the Palestinian ones.

The first step to change is breaking silence. This is a pattern that humanity has always followed. What we’re seeing now with millions of Syrian migrants is an urgent need that the world had dismissed. We have focused on aid in the form of donations to allow refugees to survive.

This is not what refugees need. Refugees need a sustainable form of aid like settling in a new country, start a life where they are capable of economically empowering themselves and the countries they are in.

The wave of Syrian migrants is acting like a message for countries to facilitate entry for refugees in general, and of course, Palestinian ones who have been displaced since 1948.

Syrian refugee children stand outside their tents in Zahrani village, southern Lebanon, May 3, 2016 © Ali Hashisho | Reuters RTX2CNIX

Syrian refugee children stand outside their tents in Zahrani village, southern Lebanon, 2016
© Ali Hashisho | Reuters

From Lebanon you went to Canada to study, and then to live. At what extent did it mould your activism?

My journey from a refugee to a citizen is the title of my life, seriously. I always dreamt of leaving the refugee camp and immigrating somewhere where I would have rights like any other human being.

I applied for a scholarship at York University, and I got the Global Leader of Tomorrow Award. I studied, I worked, and Canada became my home. It is my home country.

Every refugee deserves a home, an opportunity, a second chance in life. Canada gave me that chance, I respected it, and I still do. I appreciate it, I feel proud to have a country to call my home. I wish more countries give that second chance to every refugee suffering these days.

Stephen Harper’s government allegedly refused the asylum’s application [after this interview, the authorities refuted the claim] of two little boys and their mother drowned in Turkey, exposing total insensitivity to their Canadian relatives’ guarantees that they would be financially supportive. How do you assess the Ottawa’s policies, and the ones of the rich Arab countries in the Gulf?  

I worked with a Canadian organisation called Nations United (not the United Nations) that raised awareness about many issues, including refugees. As a human being, I do not support any restrictions put on refugees from countries that can afford hosting them and giving them a second chance.

Look at most Arab countries, they do nothing for Syrian, Iraqi or Palestinian refugees when it comes to welcoming them and making them citizens who work for a better life.

As for my government of Canada, we are about to have elections [on October 19, 2015]. I am voting NDP because Tom Mulcair (running for Prime Minister) has been very sympathetic about refugees in general. I hope the party I am voting for, or any other party, see what works best for us as Canada and for other who could use our help while contributing to our economy.

Although I am not voting for him, Stephen Harper announced this month [of September 2015] his conservative party’s plans to launch a new program that would bring to Canada 10,000 refugees displaced by ISIS [the so-caleed ‘islamic state” or Daesh] from Iraq and Syria.

Harper’s plans set a model example for countries around the world who could do the same for Palestinians by providing a home, rather than spending money to keep them in run down, overcrowded camps.

As it stands, most Arab countries’ laws make it extremely difficult for refugees to obtain a work permit or visitor’s visa. Instead of helping them, these countries are cutting the last lifelines to society that these people have left.

Will the refugees’ drama be a turning point in the way foreign powers deal with Bashar al-Assad‘s regime? 

I am not at a position to answer this question. You will have to ask Syrian people. Assad is not my president and he never was. All I know is that when I was a Palestinian refugee, his country was one of the very few in the World that welcomed me and other refugees.

As for his regime, I am not qualified to speak about it or evaluate it in relation to the plight of refugees today. There is a mess going on in Syria right now. And Syrians are the ones who make the narrative of the situation.

Since the 1940s, millions of Palestinians have been living as refugees in areas of the occupied Palestinian territory (oPt) and in surrounding host countries – mostly in Jordan, Lebanon and Syria. The UN Refugee Agency (UNHCR) has described their plight as “by far the most protracted and largest of all refugee problems in the world today”
© Serene Assir | IRIN

Why did the picture of 3-years old Aylan Kurdi, the Syrian toddler on the shores of Turkey, generate so much debate on whether to share it or not, and why did it have more impact worldwide than the picture of the Palestinian boys killed by Israel in the Gaza beach during the recent military onslaught?

In tragedy, we should not compare. Every tragedy brings pain to the people involved. I would like to break your questions into two.

The toddler found dead on Turkey’s shores is the face of the Syrian refugees’ plight. A heart breaking reminder that many people have lost their homes, and are taking deadly risks to try and start a new, safer life.

The picture of the Palestinian boys killed by Israel in Gaza beach is the face of the Palestine-Israel conflict. There are casualties among civilians happening. I will not agree to compare, this is not a debate, these are two realities happening in our world that is witnessing many tragedies. We need to stop these tragedies. We need to hold accountable every country that can help and isn’t. Less blame, more action. This is what we need.

Confessions of a Child War – Sahara, published in July, is the third book of a trilogy that was apparently inspired in your experience as a refugee. Can you explain the stories of each one?

My Confessions of a War Child books are novels that tell stories that happen in wars, in conflict, in displacement, and in despair. The books are inspired by my upbringing, the history of the nation I come from (Arabia), and events happening mainly in the Middle East.

The three books are narrated by dead people, because there have been many dying and I wanted to imortalize them and make them narrate the stories of our world. I put the sequel in novel style so that people around the world can relate to them.

You will have to read them and tell me how the fiction in them reflects a reality we are all living. From refugee situation, to revolutions, to simply love and loss, the three books cover it all.

© arabianbusiness.com

Parts of this interview were included in an article published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on September 19, 2015