O azar de serem amuletos da sorte

Habituado a dar brilho à Cartier ou a Van Cleef & Arpels, Patrick Gries desceu às trevas para fotografar os albinos da Tanzânia. Aqui, a doença genética que afecta um em cada 1400 habitantes já limita o tempo de vida. A morte aproxima-se ainda mais em eleições – 25 de Outubro – com crianças e adultos vítimas de feiticeiros e políticos supersticiosos. (Ler mais | Read more)

Kabula N. Masanja : 12 anos É uma sobrevivente. Perdeu o braço direito, cortado com um machado. até à axila. Os criminosos deixaram-na a sangrar e fugiram com uma parte do corpo dela para vender a feiticeiros. Kabula regressou há pouco tempo de Nova Iorque onde recebeu uma prótese que substitui o braço amputado. © Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

Kabula N. Masanja : 12 anos
É uma sobrevivente. Perdeu o braço direito, cortado com um machado, até à axila. Os criminosos deixaram-na a sangrar e fugiram com uma parte do seu corpo para venderem a feiticeiros. Kabula regressou há pouco tempo de Nova Iorque onde recebeu uma prótese que substitui o braço amputado
© Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

Patrick Gries foi viver para a Tanzânia durante seis meses, acompanhando a mulher, uma antropóloga, e os dois filhos (uma menina e um rapaz), de sete e nove anos. Neste país da África Oriental, “demasiado vasto e onde viajar consome muito tempo e energia”, adiou os projectos de arte que o tornaram famoso e dedicou-se à leitura dos jornais regionais. Todos os dias o fascinavam “as perspectivas da política americana e europeia, tão diferentes do resto do mundo”, até que uma notícia, em particular, o deixou atónito.

“Um diário em Dar-es-Salam narrava a história de um agricultor que vivia a quatro horas e meia da capital”, diz-me, numa entrevista por Skype, o autor de In/Visibility, série de retratos de “pessoas que ninguém vê” e a quem ele quis devolver a identidade e a dignidade. “Certa noite, estranhos entraram na casa daquele homem, amputaram-lhe os dois braços e deixaram-no no chão a esvair-se em sangue. Ele era albino e os seus braços foram vendidos a feiticeiros.”

Regina Matias : 9 anos O seu rosto já evidenciava sinais de melanoma devido ao sol. A maioria das crianças albinas pobres morre antes dos 30 anos. São muitas as que sofrem de cancro de pele por não usarem protectores solares, chapéus e óculos escuros. Regina está vestida com um uniforme escolar, mas provavelmente nunca chegará a frequentar as aulas. © Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

Regina Matias : 9 anos
O seu rosto já evidenciava sinais de melanoma devido ao sol. A maioria das crianças albinas pobres morre antes dos 30 anos. São muitas as que sofrem de cancro de pele por não usarem protectores solares, chapéus e óculos escuros. Regina está vestida com um uniforme escolar, mas provavelmente nunca chegará a frequentar as aulas
© Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

Foi a primeira vez que ouvi falar nisto”, adiantou Gries, cujo projecto, iniciado em 2010, demorou vários anos a concluir, desde a selecção das fotos até às várias exposições, da China à Argentina. “Nunca mais consegui deixar de pensar no que li. A princípio, tentei compreender, mas não havia nada para compreender. Foi nesse momento, enquanto a minha mulher, “uma africanista”, investigava sobre o sector mineiro na Tanzânia, que decidi fotografar os albinos deste país. Comecei em Dar-es-Salam, porque era mais fácil.”

“Contactei a associação [clube de futebolAlbino United [Albinos Unidos]”, relata. “Expliquei que pretendia fazer alguns retratos. Pediram-me dinheiro. Respondi que não tinha meios de pagar, e que qualquer pagamento afectaria negativamente a natureza do projecto. Fui, então, autorizado a perguntar aos albinos que ali se encontravam se algum aceitava ser fotografado. Prometi-lhes que daria o melhor de mim e, acima de tudo, que tentaria chamar a atenção para o drama deles. Todos aceitaram. Fotografei todos. Só usei a luz do dia, sem flash. Por vezes, procurava uma sombra. Eles pousavam com naturalidade, tal e qual como estavam vestidos.”

Shida e Semen Bahati : 12 e 17 anos Estas duas irmãs presenciaram o assassínio de uma outra irmã, no seu quarto em casa dos pais. Foram afastadas do ambiente familiar, para ficarem a salvo, graças à ajuda da organização não governamental Under The Same Sun (Sob o Mesmo Sol), que opera desde a área ocidental da Tanzânia até à zona costeira de Tanga. © Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

Shida e Semen Bahati : 12 e 17 anos
Estas duas irmãs presenciaram o assassínio de uma outra irmã, no seu quarto, em casa dos pais. Foram afastadas do ambiente familiar, para ficarem a salvo, graças à ajuda da organização não governamental Under The Same Sun (Sob o Mesmo Sol), que opera desde a área ocidental da Tanzânia até à zona costeira de Tanga
© Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

Antes de avançar para as fotografias, Gries teve de aprender o que não sabia sobre albinismo. Que é uma doença genética caracterizada pela ausência total ou parcial de pigmentação na pele, cabelo e olhos, devido à ausência ou defeito de uma enzima envolvida na produção de melanina. “Muitos cegam completamente e são raros os que conseguem chegar aos 40 anos”, refere o fotógrafo. “Todas as camadas da sociedade são afectadas, sejam pobres e ricos, brancos e pretos.”

A Tanzânia é o país com maior percentagem de albinos: um em cada 1400 habitantes, ou seja, sete vezes mais do que no resto do mundo. “Na Europa, uma pessoa que sofra de albinismo conseguirá, provavelmente, pintar o cabelo ou usar maquilhagem que disfarce a sua condição”, anotou Gries. “Em África, é muito difícil um albino sobreviver, porque falta educação sobre a doença que os afecta.”

Petro e Jenifer Paulo: 12 e 9 anos Irmão e irmã no uniforme da escola para deficientes visuais em Tanga. Era habitual percorrerem, a pé, cerca de cinco quilómetros por dia, ida e volta casa-escola. Vivem na área remota de Muanza. Estranhos começaram a segui-los e os pais entraram em pânico. Cristãos evangélicos decidiram dar-lhes apoio e lugar num internato em Muanza. © Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

Petro e Jenifer Paulo: 12 e 9 anos
Irmão e irmã no uniforme da escola para deficientes visuais em Tanga. Era habitual percorrerem, a pé, cerca de cinco quilómetros por dia, ida e volta casa-escola. Vivem na área remota de Muanza. Estranhos começaram a segui-los e os pais entraram em pânico. Cristãos evangélicos decidiram dar-lhes apoio e abrigo num internato em Muanza
© Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

O problema maior reside na crendice de que o corpo e o sangue dos albinos, também conhecidos como “tribo de fantasmas”, valem mais do que as suas vidas, porque “têm efeitos curativos” e auguram boa sorte. Além de vítimas de mutilação e assassínio, mulheres albinas têm sido também violadas e infectadas com o vírus HIV, porque muitos, influenciados por feiticeiros, acreditam que ter relações sexuais com elas é “a melhor cura para a sida”.

A pele branca dos albinos é, igualmente, muito procurada, não apenas na Tanzânia mas noutros países como Moçambique, Malawi e Zâmbia. Os órgãos genitais são usados como “remédio contra a impotência”. Os ossos são, frequentemente, triturados e enterrados por mineiros na expectativa de que se transformem em diamantes. A este respeito, Patrick Gries recorda que “os albinos começaram a temer pela vida a partir de 2005, com o desenvolvimento da indústria mineira.”

Pauline Julius e Kredo Samwey : 28 e 2 anos Mãe e filho em Dar-es-Salam, capital da Tanzânia © Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

Pauline Julius e Kredo Samwey : 28 e 2 anos
Mãe e filho em Dar-es-Salam, capital da Tanzânia
© Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

Quando os albinos morrem, os familiares “enterram-nos em locais secretos ou nas suas próprias casas, debaixo de camas ou de árvores, para que os ossos dos entes queridos não sejam roubados”, revela Gries.

Apesar de o actual Presidente, Jakaya Kikwete, ter ordenado a prisão de quase uma centena de feiticeiros envolvidos no “comércio macabro de albinos”, muitos políticos supersticiosos ainda pagam grandes quantias – num país que vive com menos de dois euros por dia – cada vez que se aproximam eleições, esperando vencer os adversários. Este ano, apesar de maior vigilância, “a caça aos invisíveis” continuou activa, porque haverá legislativas e presidenciais a 25 de Outubro.

Patrick Gries lamenta que a Tanzânia já não tenha ao leme “um político exemplar como Julius Nyerere [N:1922-M:1999, que se afastou do poder em 1985], porque, depois da independência, ele tentou acabar com a tribalização do país, para que se tornasse seguro e pacífico”. O fotógrafo deixa um alerta: “O que vemos é o princípio de um genocídio dos albinos.”

Monica John Kwgyir : 35 anos Bailarina, Monica vive com a família em in Dar-es-Salam. Tem um filho. Quando Patrick Gries lhe perguntou se tinha medo de sair à noite, respondeu: “Os vizinhos adoram-me porque pensam que sou uma branca europeia.” Conta o fotógrafo: “Quando a vi, pela primeira vez, parecia um travesti: demasiada maquilhagem cabelo pintado. Percebi então que ela estava a tentar transformar-se para ter o que ela crê ser a aparência de uma pessoa branca”. © Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

Monica John Kwgyir : 35 anos
Bailarina, Monica vive com a família em in Dar-es-Salam. Tem um filho. Quando Patrick Gries lhe perguntou se tinha medo de sair à noite, respondeu: “Os vizinhos adoram-me porque pensam que sou branca e europeia.” Conta o fotógrafo: “Quando a vi, pela primeira vez, parecia um travesti: demasiada maquilhagem, cabelo pintado. Percebi, então, que estava a tentar transformar-se para ter o que ela crê ser a aparência de uma pessoa branca”
© Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

Nos locais que visitou para a sua série de retratos – como uma escola para cegos em Tanga, abrigos, colégios privados, residências e/ou escritórios –, Gries fotografou “mais de 200 pessoas, uns com estatuto social superior e outros menos afortunados.” Só seleccionou 20 imagens. “Não fiz qualquer casting mas senti necessidade de uma escolha posterior, porque alguns dos miúdos estavam tão frágeis que não os poderia mostrar numa exposição – não queria que olhassem para eles como totós.”

“Estruturei o meu projecto, misto de antropologia e política, à volta de três paradoxos. 1) O paradoxo do valor: os albinos são considerados inúteis por uma sociedade que nega a sua existência – não estão registados e, por isso, é tão complicado conhecer os números reais (entre 8000 e 50.000), mas os seus órgãos e membros custam fortunas; 2) O paradoxo do branco, ou ambivalência e ambiguidade de nascer branco de pais pretos; como o branco é visto como herança da colonização, os albinos são rejeitados pela sua fisionomia – muitas raparigas que encontrei pintavam o cabelo e maquilhavam-se para parecerem ‘mais brancas, como elas se imaginam’. Não é tão arriscado parecer branco do que preto com albinismo; 3) O paradoxo da morte: negar que eles ‘não morrem’, porque não podem ser sepultados em cemitérios.

Sophia Mwhlammedi : 24 anos Já não se consegue perceber, de modo algum, se Sophia é branca ou preta, observou o fotógrafo. Mas é albina. Vive e trabalha nos escritórios da organização não governamental Under The Same Sun, em Dar-es-Salam. © Cortedia de | Courtesy of Patrick Gries

Sophia Mwhlammedi : 24 anos
Já não se consegue perceber, de modo algum, se Sophia é branca ou preta, observou o fotógrafo. Mas é albina. Vive e trabalha nos escritórios da organização não governamental (ONG) Under The Same Sun, em Dar-es-Salam
© Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

Um dos lugares que Patrick Gries visitou emocionou-o: a escola de Shinyanga, na região ocidental. “Havia uns 120 miúdos. Comecei a fotografá-los. Todos queriam o seu retrato. Sentiam-se como se fossem estrelas. Não precisavam de fingir. Queriam apenas mostrar-se como eram. Foi tão poderoso!”

“Não sou historiador nem fotojornalista”, esclarece Gries. “Não era minha intenção explorar a questão de quem alimenta este negócio maldito. Tem havido mais pressões da UE e dos EUA. Isso é bom mas, por outro lado, para serem protegidos, os albinos são colocados em centros onde vivem segregados – são refugiados no seu próprio país, mas não podem reclamar os mesmos direitos.”

O fotógrafo dos que “ninguém vê”

Patrick Gries © Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

Patrick Gries
© Cortesia de | Courtesy of Patrick Gries

Patrick Gries, 56 anos, estudou para ser professor primário (“porque era vontade dos pais”) até se mudar para Nova Iorque, onde descobriu a fotografia, “por acaso”, em 1978. Vindo de uma zona rural distante de Bruxelas, diz que “não sabia o que esperar da vida”. No entanto, ao mudar-se para os Estados Unidos, onde tinha familiares, as portas rapidamente se abriram a uma carreira fulgurante.

Deu os primeiros passos como “aprendiz de um artista comercial”, na área da publicidade, que o ensinou a “usar uma câmara e, com ela, fazer quase tudo”. Em 1992, mudou-se para Paris, mas cansou-se de fazer anúncios.

Em 1999, pôs em marcha o seu primeiro projecto: Evolution. Para o fazer usou esqueletos, a maioria expostos no Museu de História Natural de Paris. “Do mais pequeno ao maior vertebrado, Patrick Gries apresenta-os como esculturas, [oferecendo] uma abordagem atípica das ciências naturais e forçando-nos a reconsiderar as fronteiras entre objectos científicos e artísticos”, escreveu a rede de curadores de fotografia LensCulture.

O livro, publicado em 2008 e aclamado como obra-prima, contém mais de 25o fotografias a preto e branco, acompanhadas de um texto escrito pelo cientista e documentarista Jean-Baptiste de Panafieu. O editor é Xavier Barral.

“Foram dois anos de trabalho, dos quais seis meses para apurar a alta resolução e um ano de retoques pacientes para fazer desaparecer todos os fios metálicos e ligações que mantêm os ossos unidos”, segundo a descrição do jornal Libération. As exposições foram numerosas, da Itália ao Japão – e já integram algumas colecções privadas.

“Este livro elevou-me a outro nível”, reconhece Gries, agora residente em Copenhaga (Dinamarca). “Devido à minha estética de precisão e minimalismo, comecei a ser contratado por empresas como a Louis Vuitton e a Van Cleef & Arpels. Sou eu quem fotografa as suas colecções ou património (outros dedicam-se ao layout  e grafismo dos catálogos), e é isto que me permite financiar os meus projectos. Colaboro, também, com a Fundação Cartier para a Arte Contemporânea, além de vários museus.”

Evolution: Encomendado pelo Museu de História Natural de Paris e textos do biólogo Jean-Baptiste de Panafieu, o livro, publicado em 2008 e aclamado como obra-prima

Evolution: Livro que usou mais de 200 esqueletos expostos no Museu de História Natural de Paris. Com fotos de Patrick Gries e textos do biólogo Jean-Baptiste de Panafieu, foi publicado em 2008 e aclamado como obra-prima.

Estes dois artigos, entretanto actualizados, foram publicados originalmente na revista VISÃO em 22 de Outubro de 2015 | These two articles, now updated, were originally published by the Portuguese magazine VISÃO on October 22, 2015

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