Adonis: “O medo é banal. A morte é banal. O maior problema é defender a vida”

O mais famoso refugiado sírio vive, desde 1956, entre o Líbano e a França. O poeta que modernizou a literatura árabe, candidato perene ao Nobel da Literatura, descreve como “horror absoluto” os ataques terroristas que, em Novembro, abalaram Paris. O bairro onde vive, La Defense, era um dos alvos potenciais. Ele não tem medo: “O maior problema é a vida, não a morte”, disse nesta entrevista, a dois tempos, por telefone, e na sua casa e escritório. “Talvez agora me levem a sério, quando insisto em separar Estado e religião”. (Ler mais | Read more)

Adónis, numa foto da sua filha Nina Esber © www.ninaresber.com

Adonis, numa foto da sua filha Nina Esber
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É numa torre de betão e vidro, de 104 metros de altura e 308 apartamentos, La Tour Gambetta, em La Defense, que o ilustre poeta árabe Adonis vive e trabalha. E era aqui, no maior centro financeiro de Paris – e da Europa –, que o terrorista de 27 anos responsável pelos piores ataques na capital francesa desde a II Guerra Mundial (130 mortos e 350 feridos) planeava fazer-se explodir.

O atentado suicida em La Defense estaria programado para os dias 18 ou 19 de Novembro e seria cometido por Abdelhamid Abaaoud, o “cérebro” e financiador dos massacres de sexta-feira 13, informou o procurador François Molins.

De nacionalidade belga e origem marroquina, o operacional do autoproclamado “estado islâmico” (Daesh) regressado da Síria foi morto, precisamente no dia 18, durante um cerco policial num apartamento na zona de Saint Denis.

A 13, Adonis estava em casa quando tomou conhecimento, primeiro pela televisão, e depois em telefonemas de amigos, dos ataques coordenados, com bombas e metralhadoras, em seis locais de Paris, do Estádio de França ao teatro Bataclan. Aqui, onde decorria um concerto com 1500 pessoas, registou-se o maior número de vítimas, algumas executadas a sangue frio.

“Fiquei horrorizado – foi um horror absoluto”, disse o escritor sírio, numa conversa telefónica, que completou uma entrevista que me deu em Setembro, a primeira (assegurou ele) a uma publicação portuguesa. “Estes criminosos podem até nem ser crentes, e admito que há uma maioria de muçulmanos a renegá-los, mas eles reclamam o direito de matar invocando o nome de Deus, e não podemos ignorar essa realidade.”

“Talvez agora me dêem razão quando insisto em separar rapidamente Estado e religião. Sem isso não avançaremos em direcção ao futuro.”

“Cada vez mais me convenço de que a religião organizada é uma colonização interior do ser humano”, enfatizou Adonis. “Continuo o meu combate contra o fundamentalismo, o islamismo e as leis religiosas que a todos oprimem, e as mulheres, em particular. Enquanto as mulheres não forem livres, não progrediremos.”

Adonis acusa a Europa de ter reagido tarde à guerra na Síria © Getty Images

Adonis acusa a Europa de ter reagido tarde à guerra na Síria
© Getty Images

Os ataques em Paris em 2015 marcaram, para Adonis, "o princípio do fim do Daesh" © Los Angeles Times

Os ataques em Paris em 2015 marcaram, para Adonis, “o princípio do fim do Daesh”
© Los Angeles Times

O Presidente François Hollande prometeu “uma resposta implacável”, e Adonis confessou que ficou “muito feliz” quando começaram os bombardeamentos da França contra o Daesh. “Temos de ser realistas: a política ocidental na Síria faliu completamente. Há muito que deveria ter havido uma intervenção militar, como a que empreendeu a Rússia, que tem todo o meu apoio.”

“A Europa agiu tardiamente. Não defendo o regime de Bashar al-Assad, que é um dos grandes responsáveis pela destruição do país, mas os seus opositores também não são inocentes. De modo algum! Não interessa derrubar apenas um homem se não rompermos com as estruturas do passado.”

“Os ataques de Paris foram o princípio do fim do Daesh, estou convencido e podemos todos dormir descansados a este respeito”, frisou o poeta. “Não, não tenho medo de sair à rua. O medo é banal. A morte é banal. Toda a gente morre. O problema é viver e defender a vida. O problema não é a morte.”

A residência de Adonis e o escritório, que ele designa por “a desordem mais bem organizada”, ficam em dois pisos diferentes da Tour Gambetta onde, na portaria, funciona um centro de segurança permanente. Enquanto esperamos por um dos vários elevadores, são muitas as mulheres muçulmanas que sobem e descem, a maioria com os cabelos cobertos por um lenço sugerindo devoção religiosa, o hijab.

Parece ironia que este lugar, frequentado por “ricaços do Golfo Pérsico”, seja o segundo exílio (depois de Beirute) do poeta que quer secularizar o mundo árabe.

É sábado, 18 de Setembro, 9:30 da manhã, quando tocamos à campainha de casa. Abrem-se a porta e o sorriso de um homem de cabelos brancos, mais aprumados do que é hábito, calças de ganga, casaco de bombazina preta a combinar com uma camisa de riscas e um cachecol de vários de tons de rosa. Somos convidados a sentar-nos num dos sofás de uma sala-de-estar com centenas de livros, paredes revestidas de pinturas pessoais e de amigos.

Na mesa em frente desalinham-se revistas, cartas, papéis diversos, canetas e lápis e uma caixa de baklava, doce tradicional turco. O anfitrião acaba de chegar de Ancara e Esmirna, e já tem as malas prontas para uma conferência nos EUA. A sua mulher, a crítica literária Khalida Esber, fora hospitalizada no dia anterior. Ele permanece sereno, como a música que se ouve de um pequeno rádio e o sol que entra, radiante, por uma de duas janelas.

“Você conhece a minha história, não preciso de a repetir, certo?”, avisa, desde logo, o filho de camponeses a quem os pais deram o nome de Ahmed Said Esber quando nasceu, em 1930, em Qassabin, aldeia encravada entre a cidade de Latakia e o reduto da família Assad em Qardaha, na Síria.

“Adonis” foi o nome que, apesar de não acreditar em divindades, deu a si próprio aos 17 anos, inspirado no mito do deus greco-fenício da fertilidade.

Sentia-se frustrado por nenhuma publicação aceitar os seus versos e artigos. Como explicar que o ignorassem, ele que, aos 13, comovera o primeiro Presidente da República pós-independência ao declamar o primeiro poema, recompensado com uma bolsa de estudos no Liceu Francês de Tartous?

Ainda não foi em 2015 que Adonis, que já havia lido a poesia árabe clássica e pré-islâmica, e também as obras de Baudelaire, Rilke, Char e Michaux, quando se licenciou em Filosofia na Universidade de Damasco em 1954, ganhou o Nobel da Literatura.

Está sempre na lista de favoritos. Mas, em 2011, recebeu o não menos prestigiado Prémio Goethe (um de vários de uma carreira de sete décadas), por ser “o mais importante poeta árabe do nosso tempo”.

Adónis, na sua sala de visitas, na entrevista que me deu na sua casa em Paris. © Margarida Santos Lopes

Adonis na sala de visita da sua casa em Paris, durante a entrevista que me deu em 2015
© Margarida Santos Lopes

A nosso lado está uma personalidade, simultaneamente, delicada e indómita. Eis o socialista sírio que fugiu, primeiro, para o Líbano em 1956, depois de onze meses preso, acusado de subversão por se opor “à ideologia de ideias únicas” do Partido Baas, e que, em 1985, durante uma guerra civil, procurou abrigo em França.

Este é o amigo do poeta nacional palestiniano Mahmoud Darwish (1942-2008) que, nas revistas que dirigiu, Chiir e Mawáqif, apresentou ao mundo os novos talentos das letras árabes. O escritor que abençoou a “primavera tunisina” de 2011, mas recusou apoiar “a revolução que sai das mesquitas” no seu país. Porque todas as ditaduras árabes, e não apenas uma, têm de ser derrubadas – pacificamente e não pela força.

Chegámos com um dos seus livros mais emblemáticos, Chants de Mihyar le Damascène (Gallimard) e regressámos, após quase cinco horas de conversa, com dois presentes especiais: um das suas pinturas, que ele considera “indecifrável”, e Adonis [poemas], antologia em português do Brasil, selecção e tradução do árabe de Michel Sleiman, com apresentação de Milton Haitoum.

Uma das mesas de trabalho de Adónis, na sala de visitas. © Margarida Santos Lopes

A “desordem organizada” de Adonis
© Margarida Santos Lopes

Aos 85 anos, a sua energia parece inesgotável. Ainda agora veio da Turquia e já prepara outra viagem. Como é a sua rotina diária?

Tenho esta energia porque sinto que tenho qualquer coisa para dizer. Devo viver a trabalhar. Não tenho regras. Sou totalmente livre. Há dias em que trabalho de manhã; noutros dias não consigo. Não sigo qualquer disciplina, como outros escritores.

Surpreendem-me aqueles que têm a vida organizada: uma hora para escrever, outra para comer, outra para ler… Sou contra qualquer planeamento. De vez em quando gosto de nada fazer. Fico apenas quieto, a ouvir música…

Estava a ouvir música quando abriu a porta…

Sim, estava a ouvir música clássica, a minha favorita. Quando estou um pouco perdido, adoro ouvir Beethoven. Mozart para quando estou triste… ou alegre. Também gosto muito de Bach.

Da música para a palavra: qual é a que o define melhor?

Não encaixo em nenhuma definição. As definições deformam as coisas. As coisas estão em aberto; defini-las é fechá-las. Só duas palavras pretendem ser definitivas: “religião” e “ideologia”. E eu oponho-me a isso, porque a palavra é uma busca do infinito.

Mas não se define como poeta?

Oh, sim, sou poeta! E falo como poeta. Mas a poesia não consiste apenas em escrever versos. A poesia fala dos problemas mas não oferece soluções. A poesia é um pensamento. Todos os grandes poetas foram ou são grandes pensadores. A começar pelo vosso poeta português Fernando Pessoa. A poesia de Pessoa é a de um pensador.

Adónis junto a uma composição de algumas das suas pinturas, na sua sala de visitas. © Margarida Santos Lopes

Adonis junto a uma composição de algumas das suas colagens
© Margarida Santos Lopes

“Morremos se não acreditarmos em deuses/ morremos se não os matarmos”. O que quis dizer quando escreveu isto?

O dever do pensador é criar deuses e matá-los, logo a seguir. Para que haja uma renovação perpétua. A mentalidade religiosa satura o corpo…

É esse o pensamento subjacente a outra das suas afirmações: “As ditaduras militares controlam o espírito e as ditaduras religiosas controlam o espírito e o corpo”?

Sim, as ditaduras religiosas matam todo o ser humano.

Não acha possível conciliar religião e poesia? Em Portugal, temos um grande poeta, José Tolentino de Mendonça, que é padre e pensador, admirado por crentes e ateus…

Na sua poesia, ele é certamente uma pessoa aberta. Tem uma crença que lhe pertence. Eu respeito a fé individual. Não aceito é que alguém me imponha, pela força, as suas convicções. A religião é pessoal, como o amor. Sou contra a religião institucionalizada.

Recuso que toda a gente tenha de pensar da mesma forma. Se quisermos uma “religião social” então que seja a dos direitos humanos, a da liberdade, a da fraternidade.

A religião tem sido usada como instrumento de guerra, e o seu país – com mais de 20.000 mortos e uns dez milhões de refugiados e deslocados internos – é um desses campos de batalha. Que memórias guarda da Síria?

Tenho muitas memórias: a da minha aldeia, a da minha infância e a da infância da Síria, o país da Europa. Há uma lenda, na qual acredito, que este continente deve o seu nome à deusa fenícia Europa. Zeus transformou-se num touro e raptou-a.

Cadmo, o irmão de Europa, foi à procura dela e trouxe com ele o alfabeto. Não trouxe a guerra. A Síria é o berço de grandes civilizações e das três religiões monoteístas. Embora não seja monoteísta, respeito essas religiões. Sou apenas contra os aspectos totalitaristas das religiões.

Mas, na sua infância, estudou numa escola corânica…

Sim, nasci num meio religioso [a família de Adónis é alauita, uma subseita do xiismo que mistura rituais secretos judeus, cristãos e muçulmanos, e que é olhada com suspeição pela maioria sunita], mas com o tempo fui-me afastando. A partir dos meus 14-15 anos.

O meu pai foi bastante condescendente e amigo. Nunca me impôs as suas ideias. O seu conselho era este: “Pensa meu filho e depois decide.” Tenho três irmãos e duas irmãs (uma delas já morreu). Respeitámos sempre a liberdade de cada um. A minha mãe, que morreu aos 107 anos, era uma mulher livre. Ainda tenho familiares na Síria mas, infelizmente, não os vejo desde há cinco anos.

Não mais regressou?

Não. Escrevi um livro sobre o que lá se passa, Printemps Arabes: Religion et Révolution [“Primaveras Árabes: Religião e Revolução”]. Não me canso de repetir que não podemos criar uma revolução que tenha como base a religião. A humanidade precisa de uma revolução que separe totalmente a religião do Estado, da política, da cultura e da sociedade.

A religião só deve comprometer o indivíduo. É necessário devolver a liberdade à criatividade. As pessoas têm o direito de mudar de ideias. Um muçulmano ainda não pode mudar de religião. Se mudar, é condenado à morte.

Insisto no meu manifesto: não aceito participar numa manifestação cujo ponto de partida seja uma mesquita. Muitos, de início, criticaram-me duramente por esta posição, mas agora começam a dar-me razão.

O mundo de Adónis: livros e pinturas © Margarida Santos Lopes

Parte do mundo de Adonis: livros e rakaim, o que ela chama às suas “imagens, caligrafia árabe, cor e gestos figurativos
© Margarida Santos Lopes

Em 2011, quando começaram os protestos contra Bashar al- Assad, a faceta religiosa parecia ausente. Os sírios pediam reformas, não o derrube do regime. No entanto, as forças de segurança reprimiram vigílias pacíficas…

Sempre houve oposição na Síria. Eu sou opositor desde 1956! Condenei as políticas do Baas [partido único em Damasco e em Bagdad, durante o regime de Saddam Hussein]. A esquerda árabe, incluindo os comunistas, nunca foi verdadeiramente radical – interessa-lhe o poder mais do que mudar a sociedade. Veja o caso do Egipto: Gamal Abdel Nasser foi um grande líder, mas não deixou qualquer instituição moderna.

Uma das raras excepções foi Habib Bourguiba [1903-2000], na Tunísia, que mudou leis e deu mais direitos às mulheres. A Tunísia é, talvez, o único país onde o tecido social não é religioso; onde os fundamentalistas sabem que podem ser afastados a qualquer momento. Não se pode, contudo, fazer uma revolução apenas para derrubar um ditador.

Uma revolução – pela via pacífica e não pela violência (sou mais Gandhi do que Che Guevara) – tem de servir para mudar toda a sociedade. Desde há dois séculos que os árabes nada mais fazem do que mudar regimes – e não mudam mais nada.

Mas mudar o regime não é o primeiro passo?

Temos mudado muitos regimes, mas não construímos universidades…

… bem, na Arábia Saudita, reduto de uma versão rígida do Islão, o anterior rei fundou uma universidade sem segregação de sexos; no Qatar, foram criados pólos de universidades de elite inglesas e americanas.

Quando falo em universidades é no sentido moderno do termo. Não em instituições onde a religião permanece dominante nos currículos. Voltemos ao que se passa na Síria. O que acontece aqui é que em vez de um povo unido para derrubar o regime temos mercenários que usurparam e estão a destruir um país.

Esta revolução não é independente. Pelo contrário, está totalmente ligada a forças estrangeiras. Assistimos a uma invasão, a uma servidão.

Os que são revolucionários verdadeiros defendem novos princípios para o futuro. Os actuais “revolucionários”, sejam eles a Frente al-Nusra, aliada da al-Qaeda, ou o “estado islâmico” [Daesh], jamais falam das mulheres, por exemplo. É como se elas não existissem, mas é fundamental libertar a mulher do jugo religioso. Também nunca falam de laicidade.

Ora, como se pode fazer uma revolução sem questionar a religião? O objectivo das forças estrangeiras é mudar um regime cuja cor política lhes desagrada, e substituí-lo por outro mais favorável. Isto é um golpe de Estado – não me interessa!

Adónis no seu escritório, onde pinta e faz as suas colagens, mas onde os livros - sobretudo em árabe e em francês - estão também em toda a parte. © Margarida Santos Lopes

Adonis no seu escritório, onde pinta e faz as suas colagens, mas onde os livros – sobretudo em árabe e em francês – estão também em toda a parte
© Margarida Santos Lopes

No passado, as revoluções árabes eram mais ideológicas do que religiosas…

Sim, é verdade. Na minha juventude, quando havia esperança, a religião não tinha uma componente ideológica, ou era praticamente invisível. Nunca ninguém me perguntava: “Qual é a sua religião?” Hoje é o contrário.

A geração das “primaveras árabes” ainda pode inverter este declínio?

A “Primavera Árabe” fracassou devido às forças da regressão (Arábia Saudita, Qatar, etc…) e devido aos interesses estrangeiros. Mas, ainda acredito que há uma geração que não desistiu. Ser democrata significa reconhecer e aceitar que “o outro” é diferente. Não me refiro a tolerância – a tolerância camufla um sentimento racista.

A democracia exige liberdade, não tolerância. Um cristão tem de ter os mesmos direitos de um muçulmano, e isso só pode acontecer quando a religião se tornar apenas escolha individual. A democracia não pode ser um mero slogan.

“O criador deve apoiar sempre o que é revolucionário mas nunca ser como os revolucionários”. Pode explicar?

Um revolucionário praticante é o que aplica tácticas, estratégias… Eu estou na órbita dos revolucionários genuínos. Um criador está empenhado em mudar a sociedade, e não apenas o poder. Não me exprimo, porém, na linguagem dos revolucionários. Não repito jamais o que um revolucionário praticante diz, porque um escritor tem de ser totalmente livre.

Sou solidário com os revolucionários verdadeiros mas estou solitário nessa revolução. A ideologia é contra a arte. Sou militante, não partisan.

Essa solidão exige de si alguma força interior, porque as suas posições são controversas e muitos o criticam…

Sim. Quando não somos partisans, corremos o risco de ter muita gente contra nós. Muitos criticaram-me porque não usei as palavras deles. Recusei repetir os mesmo slogans. Permaneci um militante. Na nossa cultura, lamentavelmente, tudo se baseia na unidade – de Deus, da política, do povo. Mas não é possível chegar à democracia com esta mentalidade. Ninguém pode declarar que é o único dono da verdade.

Em 2011, quando recebeu o Prémio Goethe, avisou que se os homens do poder não ouvissem os clamores das populações seria inevitável uma catástrofe. É isso que está a acontecer na Síria. Um Presidente que não faz concessões, apesar de o povo estar a ser massacrado e de o património da humanidade estar a ser destruído…

É algo sem precedentes… Nunca, na minha vida imaginei que isto seria possível. Todos são responsáveis – não é apenas o regime, embora este seja o principal culpado.

Escrevi uma carta aberta a Bashar [publicada no jornal libanês “As-Safir”, em 2011], pedindo-lhe que ouvisse o povo, que não recorresse à violência e que permitisse as condições para a secularização do país. Ele ignorou-me. No entanto, também não compreendo que se possa combater um regime déspota em benefício de outro, como o islamismo.

Adónis, poeta do erotismo e do amor, tem pelo duas imagens de A Origem do Mundo, de Courbet, em lugar de destaque no seu escritório. © Margarida Santos Lopes

Adonis, poeta do erotismo e do amor, tem pelo duas imagens de A Origem do Mundo, de Courbet, em lugar de destaque no seu escritório
© Margarida Santos Lopes

Se Assad tivesse aceitado os pedidos de reformas, não teria sido possível uma transição pacífica?

Se julgarmos os regimes árabes, o sírio – no que toca ao desenvolvimento da sociedade – era, relativamente, quase o melhor deles todos. Se quisermos libertar os árabes, temos de nos insurgir contra todas as ditaduras árabes, sem excepção!

O Ocidente é muito hipócrita. Não escolhe o campo dos direitos humanos, mas o da colonização. Ainda há monarquias na Europa – mas são constitucionais e meramente simbólicas. Não são dinastias absolutas e hereditárias como as árabes.

É demasiado cedo para julgar os acontecimentos actuais. Apesar de tudo, muito já compreenderam que, na Síria, não está em marcha a revolução com que sonharam. E a triste realidade é que o regime está mais forte do que nunca.

Porquê?

Porque as pessoas fazem uma comparação. O regime era ditatorial – não há dúvidas quanto a isso. Mas não se está a combater a ditadura e sim a destruir um país. A oposição tem de se fortalecer.

Durante muito tempo a única oposição que parecia disposta a morrer era a da Irmandade Muçulmana. Os laicos, como Adónis, procuraram o exílio…

Não, não! Eu estive preso, e não fui o único. Mas é verdade que a ditadura oprimiu tudo o que era laico, cívico, humano. O regime favoreceu os religiosos.

Damasco é, hoje, uma floresta de mesquitas. E foi o regime que as construiu. No entanto, oprimiu todos os que defendiam a laicidade e a liberdade. O regime sabia que podia usar os crentes, porque os laicos eram uma ameaça maior.

Até que ponto a escolha do exílio favoreceu a ascensão dos religiosos?

Talvez, talvez tenha favorecido. Só posso falar de mim: não sou, repito, um partisan. Não sou político. Sou um homem da cultura. Sou poeta. [A conversa é interrompida para atender um telefonema de um amigo.] Desculpe, mas estamos a preparar a publicação de Islam et Violence (“Islão e Violência”), que deverá sair em Novembro deste ano, e o III volume de Al-Kitâb [“O Livro” – considerada obra-prima]. É uma comédia como a de Dante, mas a dele centra-se no céu e a minha é terrena. É o inferno da história árabe.

Ainda se lembra do seu primeiro poema?

Essa parte da minha história já é quase lendária. Ainda hoje me interrogo como tudo aquilo foi possível. O que me levou a escrever aquele poema; a certeza de que o presidente iria gostar e me iria perguntar: “O que queres em troca?”; eu responder: “Quero ir para a escola”; ele aceitar. Este diálogo imaginário realizou-se exactamente como eu o idealizei. Por isso, posso dizer que nasci na poesia. Nasci na poesia clássica.

Adónis no escritório onde, numa das paredes, colocou duas fotografias o casal José Saramado e Pílar. Não porque tenha lido algum livro do Nobel português da Literatura, mas porque o encantou "a imagem do amor". © Margarida Santos Lopes

Numa das paredes do escritório, Adonis colocou duas fotografias do casal José Saramago e Pílar. Não porque tenha lido algum livro do Nobel português da Literatura (uma das filhas até prefere António Lobo Antunes, diz ele), mas porque o encantou “a imagem do amor”
© Margarida Santos Lopes

O que inspira a sua poesia?

Não há inspiração. Há trabalho e há vida. A relação com as pessoas e com as coisas. É como se tivesse recebido uma revelação… Sou um profeta pagão.

Há temas sempre presentes: a amizade, o amor, o erotismo, a natureza…

Escrevo sobre o universo. O ser humano é uma criatura extraordinária e complicada. É, ao mesmo tempo, selvagem e divino. Um homem que decapita outro homem; um homem que também se abre à humanidade.

Amo toda a minha poesia. Se não a amasse não a escreveria. Escrevo sobre os males dos árabes, não de uma perspectiva externa mas interna. Vivemos numa cultura que não deixa espaço a perguntas. Nem Deus tem direito de resposta. (Risos)

A sua poesia nasce onde?

Nasce em casa e na rua, de dia e de noite… Não há um tempo para a poesia nem para o amor. Todo o meu tempo é para a poesia a para o amor. Não interessa quando, onde, como.

Tem sido influenciado por outros poetas?

É essencial termos uma luz pessoal e particular. Até podemos adicionar isto ou aquilo, mas a poesia é vertical. Não é linear. É preciso vir do interior. Só a partir daí se constroem todas as palavras. Cada poeta tem o seu espaço.

Só os maus poetas imitam frases ou imagens. Por exemplo, se gosto de Goethe ou de Dante, não vou fazer como eles. A sua influência impele-me a criar um mundo totalmente diferente do deles; um mundo só meu. Essa é a minha a única influência poética. Imitar uma cultura é banal.

É por isso que reescreveu toda a literatura e poesia árabes?

Não poderia ser poeta de outra forma. Rompi com o passado. Revolucionei a ordem das coisas. É isso que me importa. Os árabes não são iguais na sua língua, e não têm essa consciência.

Digo muitas vezes que o Islão se tornou numa religião sem linguagem e sem cultura. São mais os que ouvem do que os que lêem o Corão, mas a língua árabe não tem apenas música: tem corpo, voz, sonhos, imaginação…

Outro problema que enfrentamos: não há filosofia nem filósofos no mundo árabe. Não há psicanalistas, e nós precisamos mais de Freud do que de Marx. Os árabes são consumidores da modernidade ocidental, mas recusam o seu princípio racional.

Que poetas lê?

O meu primeiro poeta foi um filósofo, Heráclito [535-475 a.C., aproximadamente]. Foi ele quem disse que não podemos mergulhar duas vezes no mesmo rio. Amo muito os poetas que não o são no sentido clássico do termo. Nietzsche foi um grande poeta.

Adoro os textos antigos de poetas latinos, romanos e gregos. Da modernidade, amo Rimbaud, Baudelaire [que Adónis traduziu para árabe], porque eram ambos críticos da ordem estabelecida, sobretudo da religião.

Não quero falar dos que ainda estão vivos, mas gosto imenso dos poetas árabes clássicos como Ibn-Arabi, Abu Nuwas e al-Níffari, que foram muito mais revolucionários no seu tempo do que Baudelaire foi para os europeus. No entanto, foi com Baudelaire que redescobri Abu Nuwas.

Foi a ler os surrealistas que compreendi a grandeza de al-Níffari, um revoltado contra as instituições religiosas. Nawas e Níffari mudaram a estética e beleza da língua árabe. Alargaram a concepção da poesia. Revolucionaram a língua árabe a linguagem poética árabe.

Escreve sempre em árabe?

Sim. E a minha língua mãe. O árabe é a pele. Mais: é o corpo. Não se pode traduzir um poema clássico árabe – porque traduzir é destruir. A tradução é como uma nova criação. E, todavia, mesmo que seja “uma traição”, é preciso traduzir.

Adónis e uma das suas pinturas mais recentes (ainda inacabada), dedicada à Síria. © Margarida Santos Lopes

Adonis e uma colagem/rakima (singular de rakaim), ainda inacabada, dedicada à sua Síria
© Margarida Santos Lopes

Escreve os versos no computador?

De modo algum! Nunca! A minha mulher é que passa o que eu escrevo à mão para o computador. Não sou capaz de imaginar uma máquina a separar o poema do corpo.

Tenho tantos, mas tantos blocos de notas, que é impossível dizer quantos. Quando me sinto cansado, escrevo prosa em vez de poesia. Desde há dez anos que me dedico também ao desenho e a colagens.

Como é que isso começou?

Por acaso. Há momentos em que não consigo ler nem escrever. Tenho muitos amigos pintores e alguns desafiaram-me: por que não fazes qualquer coisa que esteja no prolongamento e no espírito da poesia? Tentei fazer algo em vez de nada fazer, porque houve um tempo em que parei tudo. Mas, depois, tive de recomeçar.

Um amigo que já morreu, Michel Camus [1929-2003], viu as minhas colagens e perguntou-me: “Quem fez isto?” Eu respondi: “Foi um outro amigo.” E ele replicou: “Posso conhecer esse amigo?” Tive de confessar: “Fui eu.” Ele encorajou-me e organizou exposições.

O que significa, para Adónis, o exílio?

Somos todos exilados – porque viver neste mundo não foi uma escolha nossa. Não escolhemos os nossos pais nem o lugar onde nascemos. O criador estabelece sempre uma distância entre si próprio e os outros. Quando nos distanciamos, entendemos melhor o nosso país.

Somos exilados na nossa própria língua. O exílio, para um criador, é um estado natural. Não poderia escrever e viver sem esse distanciamento. É como o amor: só dois corpos solitários podem fazer amor.

Não há pátria?

Não. A pátria é onde escrevemos – não é uma geografia. O que é essencial é o ser humano. É por isso que os poetas se consideram irmãos, independentemente da sua língua, da sua nacionalidade, do seu país. Entre os meus exílios de Beirute e Paris, há apenas uma diferença de grau.

Em França, é um ambiente mais repousante e aberto. No Líbano, é mais íntimo e natural. Talvez, num certo sentido, Fernando Pessoa esteja mais próximo de mim do que um poeta árabe.

O que é que conhece da poesia portuguesa?

Conheço Miguel Torga e Nuno Júdice, mas não muito bem. Quanto a Fernando Pessoa, leio-o como um homem incompleto que anda em busca de si próprio. Sinto que se repete muito. Diz em duas páginas o que poderia ter dito em duas linhas. Os árabes também são assim. Eu só mudei isso um pouquinho. Creio que viver e amar ajudam a que não precisemos de usar muitas palavras. Isto não é uma crítica. Não gosto de julgar, nem de insultar.

[Nuno Júdice seleccionou, traduziu e assina o prefácio da primeira antologia poética de Adonias publicada em Portugal, em 2016, “O arco-íris do instante”]

Eu, pelo contrário, adoro ter inimigos, desde que não sejam ignorantes. Um grande inimigo é como um grande amigo. Vê o que não está bem em nós, mas respeita-nos. Só as pessoas mesquinhas, as que nada têm para dizer, gostam de enxovalhar os outros. Os maus poetas condenam; os grandes esquecem.

Adónis e uma das colagens: uma nova forma de arte que tem merecido exposições em vários países. © Margarida Santos Lopes

Adonis e uma das rakaim mais recentes: nova forma de arte que tem merecido exposições em vários países, do Reino Unido aos Emirados Árabes Unidos
© Margarida Santos Lopes

Para um poeta que já recebeu tantos prémios, sente-se magoado por ainda não lhe terem dado o Nobel da Literatura? Só um árabe, o egípcio Naguib Mahfouz o ganhou no ano [1988] em que se esperava que fosse Adonis.

Mahfouz foi um grande escritor e eu gostava muito dele. Não me interessa falar do Nobel. Para ser sincero, não busco essa glória. Já o dinheiro do prémio poderia ajudar-me a ter uma vida menos difícil – porque sou obrigado a escrever e a viajar muito.

[Estamos agora no estúdio, duas assoalhadas – uma para as pinturas e colagens, e outra para guardar estes trabalhos, em fase de aperfeiçoamento ou eliminação; mais livros, fotografias, jornais, molduras, dossiers, relíquias… Temos de ter cuidado com os pés. Um passo em falso e podem perder-se preciosidades.]

Tem aqui nesta parede duas fotografias de José Saramago, o escritor português que ganhou o Nobel da Literatura em 1998. Leu algum dos livros que ele escreveu?

Nenhum! Para ser sincero, uma das milhas filhas admira mais [António] Lobo Antunes, que eu também nunca li. Coloquei estas fotos de Saramago abraçado à sua mulher [em Lanzarote, Espanha] porque são belas, e exprimem uma relação de amor.

[Apontando para um postal] É como esta reprodução de A Origem do Mundo, de Courbet, um quadro que, por mostrar a genitália de uma mulher, escandalizou tanta gente quando foi pintado [em 1865]. Eu gosto de escrever sobre o corpo – marginalizado, oprimido, escondido pelas religiões. Se não conhecemos o nosso corpo, como chegaremos ao “outro”?

Tem medo da morte?

Muitas vezes é preciso morrer para viver. Não tenho medo da morte, apenas de morrer deixando um poema incompleto.

Como espera ser recordado pelos árabes?

Não me interessa como sou visto e serei lembrado. Só me interessa criar o que os árabes não conhecem ou nunca conheceram.

Um grande poeta não escreve para os outros. Escreve para se compreender melhor a si próprio e compreender melhor o mundo. Não escreve para transmitir uma mensagem. Escrevo para ser um lugar de encontro com os outros.

Adónis, numa foto da sua filha Nina Esber © www.ninaresber.com

Adonis, numa foto da sua filha Nina Esber
© http://www.ninaresber.com

Este artigo, aqui na versão integral e actualizado, foi publicado na revista VISÃO em 3 de Dezembro de 2015 | This article, here the uncut version and updated, was originally published in the Portuguese news magazine VISÃO, on December 3, 2015

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