Terror em Cabo Delgado

Com a descoberta de abundantes reservas de gás natural no Norte, Moçambique esperava a bonança. Mas em vez de prosperidade veio o pesadelo de um grupo armado islamista que alguns comparam ao Boko Haram. (Ler mais | Read more…)

Esta mulher e centenas dos seus vizinhos viram as suas casas queimadas durante um ataque terrorista em Naunde, na província de Cabo Delgado, em 5 de Junho de 2018. Ela não fugiu porque não tinha outro lugar que a abrigasse
© Zeinada Machado | HRW 

Depois de cinco séculos de colonialismo, uma década de luta armada e dezasseis anos de guerra civil, Moçambique enfrenta agora um novo conflito. O campo de batalha é a província de Cabo Delgado, no extremo norte, onde jovens muçulmanos radicais semeiam o terror.

“É um inimigo oculto”, diz D. Luís Fernando Lisboa, Bispo de Pemba, a capital provincial. “Ninguém sabe exactamente quem é e o que quer. Não tem rosto nem interlocutor com que se possa dialogar.”

“A única coisa que percebemos é que ele é bem claro ao expressar a sua fúria, o seu descontentamento, a sua maneira de gritar e de chamar a atenção.”

O inimigo a que o bispo se refere, num comunicado, identifica-se como Ahlu Sunnah Wa-Jamâ (os que seguem a tradição profética) ou al-Shabaab (Juventude), não por ligações ao movimento jihadista com o mesmo nome na Somália mas por ser assim designado pelas gentes locais.

As suas tácticas de guerrilha – assassínios, incluindo decapitações, raptos e destruição de aldeias – evocam métodos de outra organização islamista, o Boko Haram, na Nigéria. O objectivo será impor a sua presença pelo medo, provocando reacções desproporcionadas das autoridades e virar contra estas as populações.

O primeiro ataque, com catanas, facas e armas de fogo, foi cometido contra três postos da Polícia em Mocímboa da Praia, em 5 de Outubro de 2017, de que resultaram 16 mortos. A violência intensificou-se desde Maio último, e o número de vítimas, dez delas degoladas, não pára de aumentar.

Um comerciante em Mocímboa da Praia fecha a sua loja, em 7 de Março de 2018, depois de ataques de presumíveis islamistas que obrigaram as autoridades moçambicanas a reforçar a segurança na região
© AFP

Ahlu Sunnah Wa-Jamâ ou al-Shabaab surgiu primeiro como um “grupo religioso”, provavelmente em 2011, para contestar as autoridades muçulmanas em Cabo Delgado que “não praticavam um Islão da linha do profeta Maomé”.

Só em finais de 2015 é que passou a “incorporar células militares”, revela o estudo Radicalização Islâmica no Norte de Moçambique: O Caso de Mocímboa da Praia, da autoria do xeque Saide Habibe e dos académicos Salvador Forquilha e João Pereira.

Segundo estes investigadores, o grupo é constituído por jovens muçulmanos, a maioria da etnia Mwani, oriundos de Mocímboa da Praia e de distritos vizinhos. Muitos dos seus líderes têm ligações a “círculos religiosos, comerciais e militares de grupos islâmicos radicais na Tanzânia, Somália, Quénia e região dos Grandes Lagos.”

Para se distinguirem dos muçulmanos que criticam, os Shabaab usam “turbante branco à volta da cabeça, cabelo rapado, barba grande, bata e calças curtas de cor preta, apenas um pouco abaixo do joelho”.

Embora tenham afrontado os líderes muçulmanos locais (entrando calçados e armados nas mesquitas tradicionais, e depois criando os seus próprios templos), os jovens insurrectos têm um conhecimento rudimentar do Islão e uma doutrina pouco elaborada.

Vagamente, querem impor a Sharia (lei islâmica), desmantelar as estruturas do Estado, impor uma educação corânica e um maior controlo sobre as vestes e comportamentos das mulheres.

O financiamento do grupo provém, sobretudo, de “actividades ilícitas” que envolvem tanzanianos, chineses, vietnamitas e outros no tráfico de madeira, (que renderá cerca de 3 milhões de dólares por semana), carvão vegetal, marfim e rubis (extraídos de minas ilegais, são vendidos por mais de 20 milhões de dólares por ano).

O dinheiro angariado serve para “sustento pessoal e das famílias”, mas também para “aliciar novos membros, financiar propaganda do grupo e comprar armas em redes informais, internas e externas.”

O governo moçambicano mandou destruir a mesquita de Nanduadua, em Mocímboa da Praia (na foto), depois de um ataque de jovens radicais muçulmanos que usavam este templo, alegadamente, para propagar ideias extremistas
© AFP | The Daily Mail

O grupo, com 350 a 1500 membros, estrutura-se em “múltiplas células autónomas, unidades, divisões e figuras com poder diverso”, capazes de rapidamente superar a morte ou captura dos seus chefes, sem afectar a sua operacionalidade.

Tem bases internas (em Macomía, Mocímboa da Praia e Montepuez, onde são treinados por antigos polícias e guardas fronteiriços expulsos das corporações) e externas (na Tanzânia e Grandes Lagos, treinados por chefes de milícias contratados no Quénia e na Somália).

Importante salientar que todos o membros do grupo são “socialmente marginalizados, sem emprego formal e sem escolarização”. Entre eles há, também, jovens imigrantes, tanzanianos, somalis e outros, que chegam a Cabo Delgado “em busca de oportunidades”.

Os líderes do grupo receberam formação fora do país por “não terem espaço nas mesquitas locais”. Outros membros são vendedores que antes controlavam o comércio de produtos de primeira necessidade ou materiais de construção.

A pobreza, o desemprego, a exclusão social e política (sentimento de marginalização dos mwanis, maioritariamente muçulmanos, em relação aos macondes, predominantemente católicos) e a carência de serviços básicos (educação e saúde) são as principais razões apontadas para a adesão ao grupo. Mas há outras: “a busca de aventura e camaradagem, a oportunidade de realizar sonhos”.

Para os jovens rebeldes, o grupo é como que “uma nova família”, que lhes oferece “segurança e solidariedade, reconhecimento e valorização pessoal”. Representa, também, “uma forma de desafiar as autoridades locais e uma oportunidade de construir uma nova ordem social e política”.

Três décadas de austeridade, ajustamento estrutural e transferência de riqueza para os muito ricos agravaram as condições económicas da maioria das pessoas, que vêem o crescente enriquecimento no topo. Em Moçambique, os camponeses querem produzir mais, mas não tem autorização para lhes garantir mercados
© AFP | The Daily Mail

O aparecimento de al-Shabaab coincidiu com o início dos contratos para a exploração de gás natural liquefeito na Bacia do Rovuma – Moçambique tem as 12ªas maiores reservas confirmadas do mundo – num investimento inicial de 30 mil milhões de dólares [25.800 milhões de euros].

Um estudo macroeconómico conduzido pelo South African Standard Bank calculou em 600 mil o potencial de empregos que podem ser criados até 2035, o gás natural a representar 56% do PIB de Moçambique até à mesma data.

O problema é que os grandiosos projectos das petrolíferas estrangeiras não estão a beneficiar as populações do Norte. “Em Mocímboa da Praia, em Palma, etc… temos famílias cada vez mais pobres, que tentam desenrascar a vida com o comércio de rua”, diz-me, em entrevista por e-mail, Joseph Hanlon, especialista em desenvolvimento e autor de dois livros sobre Moçambique, o mais recente Galinhas e cerveja: uma receita para o crescimento.

“Os jovens e as famílias vêem os trabalhadores das companhias que exploram o gás chegarem com muito dinheiro, em grandes carros. Querem, por isso, desafiar o Estado, os xeques e a mesquitas locais. Pelo que se vê, estão a ser bem sucedidos.”

“Tudo isto faz parte de um fenómeno global – Itália, Brexit, Trump…”, comenta Hanlon, que foi conselheiro político da campanha Jubileu 2000 para cancelar a dívida dos países mais pobres.

“Três décadas de austeridade, ajustamento estrutural e transferência de riqueza para os muito ricos (1% ou 0,1%) agravaram as condições económicas da maioria das pessoas, que vêem o crescente enriquecimento no topo.”

“Os jovens e as famílias em Cabo Delgado vêem os trabalhadores das companhias que exploram o gás chegarem com muito dinheiro, em grandes carros. Querem, por isso, desafiar o Estado, os xeques e a mesquitas locais
© AFP | The Daily Mail

Em Moçambique, adianta Hanlon, “estas políticas têm sido impostas pelo FMI e pelos doadores. Os camponeses querem produzir mais, mas Moçambique não tem autorização para lhes garantir mercados. Dezenas de milhares de camponeses não podem, por exemplo, vender os seus feijões boér por falta de mercados.

(Segundo um estudo da ONG britânica International Growth Centre, 1,2 milhões de produtores nos distritos das províncias de Nampula, no Norte, e Zambézia, no Centro, enfrentam uma grave crise económica devido à superprodução de feijão boér na Índia – seu único mercado internacional – que fez cair em mais de 50% o preço.)

“Moçambique não pode obrigar as companhias que vão extrair petróleo e gás a dar formação profissional e empregos aos locais, nem sequer exigir que os alimentos básicos sejam cultivados em Cabo Delgado”, lamenta Hanlon, antigo jornalista da BBC e do diário britânico The Guardian.

É uma situação dramática num país onde 15 milhões (quase 60%) dos seus 28 milhões de habitantes (dados de 2016) vivem em pobreza extrema, ou seja, com menos 1,90 dólares/0,84 cêntimos de um euro por dia.

Sobre a acção das forças de segurança moçambicanas, que já efectuaram centenas de detenções e encerraram as mesquitas do al-Shabaab, Hanlon acha que só “uma mão pesada não ajuda”, mas admite que elas “enfrentam “o dilema clássico de que a guerrilha está em vantagem – neste caso, um pequeno grupo ataca, mata e desaparece no espaço de uma hora, antes de aparecer a polícia. É muito difícil proteger os aldeões.”

Aisha, residente em Naunde, Cabo Delgado, diz que, no dia 5 de Junho de 2018, acordou às 2h da madrugada ouvindo tiros e gritos
© Human Rights Watch

A instabilidade, de que se estarão a aproveitar mercenários como o americano Erik Prince (da infame empresa Blackwater responsável por atrocidades do Iraque), que a troco de muitos milhões de dólares terá “oferecido “protecção” a Moçambique, está a provocar um êxodo. Centenas de pessoas em pânico fogem de aldeias costeiras, muitas delas abandonando os campos antes das colheitas.

A companhia de gás Anadarko suspendeu parte dos seus trabalhos e retirou funcionários. As embaixadas de Portugal, EUA e Reino Unido recomendaram aos seus cidadãos que evitem deslocações aos Norte.

Até que ponto, esta crise terá impacto nas eleições autárquicas de Outubro próximo, e nas legislativas, presidenciais e provinciais em 2019? “Na prática, a resposta política tem sido quase nula – da Frelimo ou Estado, da oposição ou da sociedade civil”, contata Joseph Hanlon.

“Desde há três anos que os habitantes em Cabo Delgado vinham alertando para a situação, mas o Governo e a Frelimo não reagiram – é como se o pessoal intermédio tivesse receio de dar más notícias aos seus superiores. Esta região costeira [e os mwanis, em particular] deu votos significativos à Renamo nas anteriores eleições em 2014, mas a Renamo não soube tirar partido.”

O presidente da Comunidade Islâmica de Moçambique, Abdul Rachid, recusa-se a acreditar que os rebeldes em Cabo Delgado sejam muçulmanos moçambicanos e que a motivação deles seja religiosa.

“São forças externas que vêm explorar um solo com riquezas”, acusa. “O Governo não deve recorrer apenas à força, mas também tentar entender as razões que levam às acções terroristas.”

Numa cerimónia que, em 15 de Junho, assinalou o fim do Ramadão, o Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, fez um apelo à comunidade islâmica: “É essencial que as mesquitas continuem a incutir na nossa camada juvenil crenças e valores de maneira a evitar que façam uso da sua própria religião para promover o ódio e a violência.”

“A imagem do Islão é a de uma religião profundamente pacífica de valores nobres. Uma religião comprometida com o bem.”

O Bispo de Pemba, D. Luís Fernando Lisboa, deixou igualmente um conselho: “Não nos deixemos cegar por preconceitos religiosos, étnicos e políticos (…) para que a paz, que é sempre fruto de justiça, volte a reinar entre nós.”

“Uma seita que quer criar uma contra-sociedade”

Eric Morier-Genoud, professor na Queen’s University de Belfast, Irlanda do Norte, é especialista em história, política, religião, guerra e resolução de conflitos na África Austral. O seu último livro, publicado este ano, é The War Within: New Perspectives on the Civil War in Mozambique, 1976-1992. O próximo [publicado em 2019] abordará o Catolicismo e a política na região central de Moçambique. Deu-me esta entrevista, por e-mail:

Habitações queimadas no distrito de Macomía, província de Cabo Delgado, depois de um ataque atribuído a muçulmanos radicais

Como explica o aparecimento de um grupo islamista em Moçambique, país onde coexistem várias confissões religiosas?

Moçambique é um país onde as relações entre as várias religiões são bastante harmoniosas e positivas. Dito isto, tem havido uma radicalização de alguns sectores religiosos nos últimos vinte anos, em particular cristãos protestantes e muçulmanos.

Em meios islâmicos cresceu uma corrente que quer aplicar a Sharia, rejeitando o Estado secular que existe. Em 2014, nasceu na cidade de Mocímboa da Praia uma seita chamada Ahlu Sunnah Wa-Jamâ [seguidores da tradição profética] ou al-Shabaab [Juventude, como os locais designam os membros do grupo], que tentou estabelecer uma contra-sociedade, à volta das mesquitas que foi criando.

O objectivo é viver segundo os princípios da lei islâmica, sem interacção com o Estado e o resto da sociedade, proibindo os seus membros de frequentarem escolas e hospitais públicos, ou de interagirem com a administração central.

Como é que descreve o Islão em Moçambique, e como é que a comunidade islâmica nacional está a reagir a esta insurreição?

O censo de 2007 revela que 17,8% da população em Moçambique segue o Islão – a percentagem é provavelmente mais alta, porque em certas zonas apenas foram contados como muçulmanos os que rezavam nas mesquitas cinco vezes por dia. No Norte de Moçambique, esta religião é dominante.

Em Cabo Delgado, 58% dos habitantes são muçulmanos, sobretudo ao longo da costa. Todas as organizações provinciais e nacionais reagiram duramente contra esta insurreição. Todas condenaram a violência e denunciaram as interpretações religiosas radicais e heterodoxas da rebelião.

As autoridades em Cabo Delgado têm colaborado com a Policia desde o início, porque estão muito preocupadas que o bom nome do Islão possa vir a ser manchado por esta minoria violenta cujos princípios a maioria não reconhece.

Esta é uma rebelião de carácter fundamentalmente religioso ou a ambição é controlar os recursos de petróleo e gás numa província pobre de maioria muçulmana? E é um fenómeno circunscrito ao Norte?

A rebelião é um fenómeno, por enquanto, limitado ao Norte de Moçambique. Os ataques têm sido cometidos apenas em Cabo Delgado, em seis distritos, de Pemba [a capital da província] até à fronteira com a Tanzânia.

Há um debate sobre as causas desta insurreição. Alguns analistas acham que o terrorismo islâmico internacional já se infiltrou em Moçambique. Outros acham que há uma ligação às riquezas descobertas na zona, mais precisamente jazigos gigantes de gás e petróleo.

Dizem também que há ligação a uma economia criminosa na região, seja a exploração ilegal de madeira e de pedras preciosas, ou a caça furtiva e contrabando com a Tanzânia.

Na minha opinião, com base em informação e pesquisa a que tive acesso, esta rebelião é, principalmente, um fenómeno religioso.

Existem ligações à sociedade e economia locais e ao mundo islâmico internacional, mas os insurrectos querem, acima de tudo, estabelecer uma sociedade regulada pelo Direito islâmico.

Há também elementos que apontam para a ambição de restaurar os xeicados e sultanatos swahilis que existiram na região antes da efectiva colonização portuguesa.

Há analistas que relacionam este fenómeno islamista com “tensões etno-raciais, religiosas, políticas, geracionais” e outras, referindo que a chegada de companhias estrangeiras para explorar os hidrocarbonetos no Norte alterou a relação de forças entre as etnias Mwani e Maconde. Concorda?

A insurreição emergiu num meio particular, feito de tensões sociais, económicas, políticas e religiosas muito fortes. Havia expectativas de desenvolvimento que não se concretizaram. Há tensões geradas pela posse da terra.

Há tensões comunitárias fortes entre mwanis e macondes. Embora haja, aparentemente, muitos mwanis que aderiram al-Shabaab, há também pessoas de outras etnias e de outras regiões de Cabo Delgado, homens de Nampula e alguns estrangeiros. A questão é complicada e vai precisar de muito mais estudos.

Mas parece certo que a insurreição beneficia ou poderá aproveitar-se destas frustrações, destes sentimentos de marginalização e das tensões sócio-religiosas existentes, para ganhar mais apoios e se expandir.

Não é automático nem garantido, mas é possível. Vai depender, em parte, da resposta à situação que o Estado moçambicano e as multinacionais do gás e petróleo que trabalham em Cabo Delgado estão a dar e irão dar.

Mesquita em Pemba, capital de Cabo Delgado: O presidente da Comunidade Islâmica de Moçambique, Abdul Rachid, recusa-se a acreditar que os rebeldes na província sejam muçulmanos moçambicanos e que a motivação deles seja religiosa
© Mercedes Saiagues | irinnews.org

Como é que as forças de segurança estão a lidar com a situação? Têm os meios necessários para resolver a crise?

Os comunicados da administração do Estado e das Forcas de Defesa são muito limitados e por vezes contraditórios. Não é, por isso, muito claro o que está ou não a ser feito.

O que sabemos é que o Estado organizou [em Junho] um comando regional para Cabo Delgado e tem vindo a estabelecer parcerias com países da região que enfrentam o mesmo tipo de problemas.

Moçambique firmou já um acordo com a Tanzânia para, em conjunto, lidarem com esta insurreição que tem ligações transfronteiriças. Também assinou um acordo com a República Democrática do Congo e com a Uganda, assim como com outros países, como a Rússia, para a partilha de informações e treino de tropas.

A Polícia tem meios e unidades adequadas para este tipo de trabalho. A minha preocupação tem mais a ver com a resposta do Estado em matéria social, política e religiosa – o ‘psicossocial’, como dizem os militares.

Líderes muçulmanos queixam-se que a Polícia está a reprimir indiscriminadamente, e avisam que isso pode criar ressentimentos entre a maioria dos crentes. É, pois, necessário uma acção que impeça a insurreição de explorar o sentimento de marginalização e as tensões sociais.

Este é um fenómeno circunscrito ou poderá alastrar-se a outras regiões de Moçambique a e a países vizinhos?

O fenómeno está circunscrito, por enquanto, mas parece que ganhou algum terreno, em Maio e em Junho, afectando agora seis distritos de Cabo Delgado.

Muita gente receia que a insurreição se alastre ao sul desta província, ou que possa chegar à muito populosa província de Nampula onde mais de 38% da população é muçulmana e de onde são originários alguns membros da seita.

Como disse antes, não é garantido: vai depender das escolhas estratégicas da insurreição, assim como da resposta militar, social e psicossocial do Estado moçambicano e dos seus parceiros.

Há laços entre o grupo islamista e a Renamo [que os mwanis têm apoiado, ao contrário dos macondes, mais próximos da Frelimo]?

Não há e não creio que possa haver. A Renamo é um movimento secular, tal como a Frelimo. É interessante que muitos elementos da Renamo olhem de forma negativa para esta insurreição, como uma conspiração, uma criação da Frelimo, ou que a Frelimo a esteja a usar para atrasar as negociações entre o Governo e a Renamo, para deste modo se manter no poder.

A prazo, todavia, considero que a rebelião poderá vir a aproximar os dois partidos para, juntos, a combaterem.

Uma província rebelde

O Governo de Moçambique foi obrigado a mobilizar tropas para tentar travar a insurreição islamista na província de Cabo Delgado
© Schalk van Zuydam | AP

Cabo Delgado, onde células de muçulmanos radicais semeiam o terror desde Outubro de 2017, foi onde a secular Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) começou a luta armada, a partir da vizinha Tanzânia, contra o poder colonial português, em 25 de Setembro de 1964.

A independência chegou em 1975, mas a paz foi interrompida de 1977 até 1992, quando a Renamo, criada pela antiga Rodésia (actual Zimbabwe), se revoltou contra a Frelimo, ex-partido único.

O conflito causou, por todo o país, cerca de um milhão de mortos, cinco milhões de deslocados internos e milhares de amputados. As cicatrizes desta guerra civil ainda não cicatrizaram.

Com 2,3 milhões de habitantes, 58% dos quais fiéis ao Islão, distribuídos por três principais grupos étnicos (Maconde ou Makonde, Macwa e Mwani), Cabo Delgado é uma das regiões mais pobres de Moçambique.

Os macondes, maioritariamente católicos, serão a base da Frelimo, que detém a Presidência da República e uma maioria no Parlamento desde as eleições gerais de 2014.

Os mwanis, predominantemente muçulmanos, pobres, marginalizados e excluídos dos projectos de desenvolvimento (gás e petróleo), estarão mais próximos da Renamo, a oposição que não reconheceu a derrota e não tem sabido capitalizar a sua popularidade local.

“Terras de Mussa ibn Bique”

Mesquita Verde, na Ilha de Moçambique
© littlegreenglobetrotter.com

* Moçambique deve o nome ao seu primeiro governante, um emir árabe muçulmano chamado Mussa bin Bique (Moisés filho de Ambique). Os portugueses, que aqui chegaram com Vasco da Gama em 1498, referiam-se à região como “Terras de Mussa bin Bique”, expressão posteriormente simplificada para Moçambique.

* O Cristianismo continua a principal religião de Moçambique nas suas várias denominações. Os muçulmanos, na maioria sunitas, representam 17,9% da população, menos do que os católicos (28,4%), ateus e agnósticos (18,7%), mas mais do que os cristãos protestantes sionistas (15,5%), os cristãos protestantes evangélicos (10,9%), as crenças tradicionais (7,3%) e os cristãos anglicanos (1,3%);

* Os povos de Moçambique pertencem ao grupo dos Bantu, que habita toda a África a sul do Saara e que, por sua vez, tem várias etnias. Em Cabo Delgado destacam-se duas: Maconde e Mwani. Os macondes são maioritariamente católicos e os mwanis predominantemente muçulmanos.

Os muçulmanos, na maioria sunitas, representam 17,9% da população de Moçambique
© RFI

Estes artigos, agora actualizados, foram originalmente publicados na revista ALÉM-MAR, edição de Julho-Agosto de 2018 | These articles, now updated, were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, July-August 2018 edition

Guerra às crianças

O Dia Internacional da Criança – que se assinala a 1 de Junho – foi proclamado em 1950, após a II Guerra Mundial, para garantir protecção e direitos. Quase sete décadas depois, os mais pequeninos permanecem as maiores vítimas dos conflitos no mundo. Sobretudo, na Síria e no Iémen. (Ler mais | Read more…)

Em 2017, a UNICEF estimava que pelo menos 1400 crianças morreram vítimas da guerra no Iémen, mas este número, segundo outras fontes pode ser mais elevado
© Asharq al-Awsat

Batoul nasceu em Aleppo, na Síria. Em 2012, fugindo da guerra, os pais pegaram nela, nos três irmãos, nos avós e mudaram-se para os arredores da cidade. A paz não os encontrou.

No final de 2013, um morteiro interrompeu o passeio da família numa sexta-feira de oração. Morreram o pai, a mãe e os seus dois filhos mais velhos. Batoul e o irmão mais novo, com estilhaços por todo o corpo, sobreviveram debaixo das ruínas do que deveria ser um novo lar.

Batoul, hoje com 11 anos, é uma de vários milhares de crianças vítimas de um conflito que começou em 2011 com manifestações pacíficas contra o regime de Bashar al-Assad e que, cada vez mais brutal, envolvendo forças estrangeiras (russos, iranianos, libaneses, turcos, israelitas), parece não ter fim.

Até Abril de 2014, terão sido mortas 8800 crianças (estatísticas das Nações Unidas) ou 19.800 (cálculos do Observatório Sírio para os Direitos Humanos, ligado à oposição).

“Acordei num hospital, envolta em ligaduras da cabeça aos pés”, recorda Batoul, a sua história contada pela UNICEF. “Eu queria tanto acreditar nos médicos quando eles garantiam que a minha família estava noutro hospital, mas o meu coração dizia-me que eles tinham partido.”

Uma menina ferida num hospital improvisado em Douma, um dos últimos bastiões dos rebeldes, a leste de Damasco, a capital síria, depois de um bombardeamento por tropas governamentais, em 22 de Agosto de 2015
© Abd Doumany | AFP | Getty Images

Nos cinco dias que Batoul esteve na unidade de cuidados intensivos, os médicos salvaram-lhe as duas pernas, mas tiveram de amputar a mão direita. Ficou internada cinco semanas até receber alta, e foram precisos mais 18 meses e cinco cirurgias para conseguir voltar a andar.

Entrou na escola, aprendeu a escrever e a bordar com a mão esquerda, mas o trauma não a abandona. Basta ver outros miúdos à briga, e as lágrimas soltam-se.

Para a organização Save the Children, a Síria “é o país mais perigoso para ser criança”. Os seus direitos continuam a ser violados: são mortas, mutiladas, sujeitas a violência sexual, raptadas ou mobilizadas à força como soldados; sujeitas a casamentos e trabalhos forçados. As suas escolas são bombardeadas. É-lhes negado acesso à ajuda internacional. “Pelo menos 5,3 milhões precisam de assistência imediata”.

Para a UNICEF, 2017 foi “o pior ano” para as crianças sírias: 910 mortes. “A protecção das crianças que em todas as circunstâncias era uma garantia universal não está a ser respeitada por nenhuma das partes do conflito”, lamentou o director da organização para o Médio Oriente e Norte de África, Geert Cappelaere.

Em 2015, um terço dos combatentes das várias facções beligerantes no Iémen eram crianças, segundo responsáveis das Nações Unidas
© Mohammed Huwais/ | AFP | Getty Images

Dos cerca de 13 milhões sírios que necessitam de ajuda humanitária, mais de metade são crianças. Dos 6,1 milhões de deslocados internos, quase metade (2,8 milhões) são crianças. Dados recolhidos pela ONU em 2017 mostram que, a cada dia, uma média de 6550 pessoas perde a sua casa.

Pelo menos três milhões de crianças estão expostas à proliferação de explosivos, sejam minas ou engenhos improvisados (IED), informa a ONU. Mais de 1,5 milhões sofreram amputações permanentes.

Entre as que estão refugiadas no Líbano e na Jordânia, 80 por cento dos seus ferimentos são consequência directa da guerra. As crianças com deficiência e as que foram separadas dos seus cuidadores, em particular, estão muito mais expostas ao risco de violência, abuso e exploração. Enfrentam também maior dificuldade no acesso a cuidados de saúde e à educação.

Em 2018, apesar de sete anos de destruição humana e material, a violência na Síria intensificou-se: nas regiões de Idlib, de Afrin (com uma invasão da Turquia, para neutralizar milícias curdas) e de Ghouta Oriental (arredores de Damasco, dos últimos bastiões dos rebeldes). Aqui, na cidade de Douma, um ataque que se presume ser de armas químicas matou, a 7 de Abril, mais de 40 pessoas, muitas das quais crianças. A oposição acusou o governo, mas este negou responsabilidade.

Muitas crianças sírias vivem agora nas ruas, em parques e em jardins destruídos pela guerra, forçadas a mendigar e a trabalhar, sem acesso à escola
© YasinAkgul | AFP

Ninguém espera que afrouxem os combates e os bombardeamentos. Moscovo, que tem uma base militar na província ocidental de Latakia, quer manter a sua influência na região e só aceita negociações de paz que deixem Assad no poder.

Teerão, assistido pelo Hezbollah em Beirute, vê no actual regime de Damasco não apenas um aliado contra Israel e a Arábia Saudita, mas também o que lhe permite estabelecer um corredor terrestre estratégico que ligará o Irão ao Líbano, através da Síria e do Iraque.

Israel, que ocupa os Montes Golã sírios desde a guerra de 1967, está por seu turno determinado a impedir uma presença militar iraniana na que era a sua fronteira mais pacífica (porque o campo de batalha tem sido o Líbano).

No final de Abril, os israelitas destruíram um depósito de mísseis terra-terra na Síria, numa explosão com a magnitude de um sismo de 2,6 na escala de Richter. Pelo menos 25 combatentes pró-governamentais, incluindo iranianos, terão sido mortos.

Crianças iemenitas vendem produtos para o lar no Bazar de Salt, em Sanaa, a capital, em 22 de Janeiro de 2017, para poderem ajudar as suas famílias
© Mohammed Hamoud | Anadolu Agency

No Iémen, onde se trava outra guerra feroz desde 2015, Younis, tal como Batoul na Síria, vive “ansioso e cheio de medo”. Em 2017, rebeldes Houthis, apoiados pelo Irão, que combatem um governo sustentado pela Arábia Saudita, recrutaram à força este garoto de 13 anos para uma das frentes de batalha. Tinham reparado na sua perícia em disparar uma metralhadora, do telhado de casa, quando tentaram, em vão, prender o pai.

“Vi pessoas ao meu lado a serem mortas”, disse Younis à CNN. “Eram alvejadas na cabeça ou no peito. Assustei-me imenso. Quando um projéctil me atingiu [uma perna], pensei que também eu iria morrer. Fartei-me de chorar.”

O recrutamento de soldados entre crianças há muito que existe no Iémen, mas o número de casos triplicou nos últimos três anos. A ONU contabilizou 2369; as autoridades iemenitas não reconhecidas pelos Houthis suspeitam que sejam mais de 6000.

Se na Síria há uma infância roubada, no Iémen a situação é igualmente dramática. A ONU descreve-a como “a pior crise causada por seres humanos em todo o mundo”. E, tal como na Síria, ninguém vislumbra o fim deste “guerra por procuração” onde sauditas (sunitas) e iranianos (xiitas) disputam hegemonia regional.

Dos cerca de 13 milhões sírios que necessitam de ajuda humanitária, mais de metade são crianças. Dos 6,1 milhões de deslocados internos, quase metade (2,8 milhões) são crianças, segundo a ONU
© ABC

Dos 28 milhões de habitantes de um país que se chamou “Arábia Feliz” antes de se tornar no mais pobre do mundo, quase dez mil civis – entre eles 5000 crianças, numa média de cinco por dia – foram mortos ou feridos nos últimos três anos. Cerca de 2,2 milhões de crianças estão desnutridas.

Mais de dois milhões de crianças iemenitas não têm acesso a educação (no final do ano passado, 256 escolas estavam totalmente destruídas, 150 ocupadas por deslocados internos e 23 a servir de bases a grupos armados). Três quartos das meninas foram obrigadas a casar antes dos 18 anos.

Com as infra-estruturas de água potável e saneamento destruídas, e o colapso do sistema de saúde, uma epidemia de cólera afectou um milhão de pessoas – um quarto dos quais crianças com menos de 5 anos. No total, mais de dez milhões de crianças precisam de assistência humanitária.

Três milhões de bebés nasceram durante a guerra, 30% dos quais prematuros e outros 30% com peso abaixo dos valores normais (entre 2,5 e 4 quilos), anota a UNICEF no relatório Born Into War – 1,000 Days of Lost Childhood. Outras 25 mil crianças sobreviveram apenas um mês.

“Toda uma geração de crianças cresce a conhecer apenas um clima de violência”, alertou Meritxell Relano, director de operações da UNICEF no Iémen. “As que sobreviverem irão carregar as marcas físicas e psicológicas do conflito pelo resto das suas vidas.”

Crianças iemenitas numa escola danificada por um ataque da coligação liderada pela Arábia Saudita contra rebeldes Houthis, em Taez
© Ahmad al-Basha | AFP | Getty Images

Infância roubada

Nunca como hoje tantas crianças viveram em áreas de conflito, ameaçadas de violência e morte: são pelo menos 357 milhões, uma em cada seis em todo o mundo – mais 75% em relação aos anos 1990.

O alerta foi dado pela organização britânica Save the Children, que classifica a Síria, o Afeganistão e a Somália como os países mais perigosos. No Médio Oriente, 40% das crianças vivem em zonas de guerra. Em África, são 20%.

“Assistimos a um chocante aumento no número de crianças que crescem em regiões afectadas por conflitos e expostas às piores formas de violência que se pode imaginar”, disse Helle Thorning-Schmidt, presidente daquela ONG e ex-primeira-ministra da Dinamarca.

“As crianças sofrem o que nenhuma criança deve sofrer – desde abusos sexuais a serem usadas como kamikazes em ataques bombistas; as suas casas, escolas e parques infantis tornaram-se campos de batalha.”

Os dados da ONU são também aterradores: mais de 73 mil crianças foram mortas ou mutiladas em 25 conflitos desde 2005, ano em que estas estatísticas começaram a ser compiladas. Desde 2010, o número de crianças assassinadas ou estropiadas subiu cerca de 300%.

Adi Hudea, uma menina síria, ergue os braços e fecha as mãos num gesto de rendição, confundindo a câmara fotográfica de Osman Sagirli com uma arma 
© Osman Sagirli

Venda de armas: negócio hipócrita

Para o Papa Francisco, “é uma contradição absurda falar de paz, negociar a paz e, ao mesmo tempo, promover ou permitir o comércio de armas”. Mas a realidade é que nunca como agora os “mercadores da morte” estiveram tão activos.

Entre 2013 e 2017, o Médio Oriente, por exemplo, “mais do que duplicou” a importação de armas, “uma subida de 103%” relativamente ao anterior período de cinco anos, segundo um estudo do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) divulgado em Março. O Médio Oriente representou também 32 por cento do total das importações de armas mundiais.

Entre os dez países com maiores gastos militares, cinco são membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas: EUA, Rússia, China, França e Reino Unido. Os outros são a Arábia Saudita, a Índia, o Japão, a Alemanha e a Coreia do Sul.

Os sauditas, que há três anos travam uma guerra impiedosa no Iémen, são os segundos maior importadores, depois dos indianos. E os seus principais fornecedores são os americanos (61%) e os britânicos (23%).

Em Março, Londres assinou um acordo preliminar para vender a Riade mais uma série de caças 48 Eurofighter Typhoon, no valor de “muitos milhões de dólares”, o que levou a organização Save the Children a colocar em frente ao Parlamento um enorme placard do tamanho de uma criança, com o intuito de “chamar a atenção para a violência gerada pelas bombas de fabrico britânico”.

“Há tantos interesses obscuros – políticos, industriais e estratégicos – que resultam na morte de tantas vítimas inocentes”, lamentou o Papa, num vídeo que gravou em Junho de 2017, mês de oração dedicado à “eliminação do comércio de armas”.

Uma criança iemenita aguarda, à porta de casa, em Sanaa, a capital, para ser vacinada contra a poliomielite, em 15 de Agosto de 2015
© Hani Mohammed | Associated Press

Entre os melhores, Portugal

Portugal está em sexto lugar na lista dos melhores países para as crianças, à frente da Irlanda, Islândia, Itália, Bélgica, Chipre, Coreia do Sul e Alemanha, segundo a organização britânica Save the Children. Na primeira posição, estão a Noruega e a Eslovénia, seguindo-se a Finlândia, a Noruega e a Suécia.

Entre os países onde as crianças correm mais riscos de vida está o Níger, com 43% gravemente desnutridas, o que afecta o seu desenvolvimento, indica o relatório The End of Childhood Index (2017). Seguem-se Angola, Mali, República Centro Africana, Somália, Chade, Sudão do Sul, Burkina Faso, Serra Leoa e Guiné.

Na América Latina e nas Caraíbas, embora se tenha registado uma diminuição para metade, ainda se encontram os países com maiores taxas de homicídio infantil, resultado da violência gerada pelo tráfico de droga e pelos gangues.

Para o estudo de 172 países, a Save the Children definiu oito critérios com o mesmo grau de importância: mortalidade antes dos 5 anos, má nutrição, abandono escolar, mão de obra infantil, casamento precoce, gravidez na adolescência, deslocamento forçado por conflito e homicídio infantil.

O caso mais surpreendente foi o dos Estados Unidos, no 36º lugar da tabela, entre a Bósnia e a Rússia. A América “está a ficar atrás de países que enfrentaram crises económicas muito graves, como a Grécia e a Irlanda, e que, apesar disso, deram prioridade à infância”, salientou Richard Bland, director nacional de políticas, advocacia e desenvolvimento da Save the Children.

Amani al-Ibrahim, 9 anos, uma menina síria de Aleppo, exibe uma marioneta que ela fez num campo de férias na aldeia de Deir al-Ahmar, no Líbano, em 31 de Julho de 2015
© Catholic Relief Services

Este artigo foi originalmente publicado na revista ALÉM-MAR, edição de Junho 2018 | This article was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, June 2018 edition

O obreiro católico da reconciliação coreana

Na “Terra da Manhã Calma”, o devoto da Senhora de Fátima Moon Jae-in mandou benzer a sua residência presidencial a 13 de Maio, pouco depois de ser eleito. Em seguida, pediu o conselho do Papa Francisco. Ele acredita que a visão cristã de uma “paz justa” pode evitar um “Armagedão nuclear”. (Ler mais | Read more…)

Kim Jong-un e Moon Jae-in (à direita), encontraram-se em 27 de Abril, numa cimeira histórica na zona desmilitarizada que divide os seus países
© Getty

Em Setembro de 2017, nas suas habituais diatribes no Twitter, Donald Trump não hesitava em criticar a “conversa de apaziguamento” de Moon Jae-in em relação a Kim Jong-un. “Dialogar não é a resposta!”, admoestava o presidente dos EUA.

Menos de um ano depois, a América e as duas Coreias quase formam um “eixo do bem” – mérito, em grande parte, do novo presidente em Seul.

Em 27 de Abril, numa cimeira histórica na zona desmilitarizada que divide os seus países, Moon e Kim prometeram a “cessação de todos os actos hostis”, o início de “uma nova era de paz” e a “desnuclearização completa da península”.

O compromisso ficou selado na Declaração de Panmunjom, entreabrindo a porta a outro encontro, entre Kim e Trump, agendado para 12 de Junho, em Singapura.

“Não esperava este avanço diplomático [entre Moon e Kim], dada a ferocidade da retórica apenas semanas antes, mas a história do relacionamento entre as duas Coreias está cheia de reviravoltas, e quando as coisas acontecem na região, acontecem muito rapidamente”, diz-me, em entrevista por e-mail, Kirsteen Kim, autora de A History of Korean Christianity.

“Quando dialogam, mútua e directamente, as Coreias incomodam outras potências que têm interesses na península – os Estados Unidos, a China, o Japão e a Rússia”, afirma a professora de Teologia e Cristianismo Global no Seminário Fuller, em Pasadena (Califórnia).

“É, por isso, vantajoso que avancem rapidamente e declarem um fait accompli [facto consumado], porque as outras potências raramente estão de acordo.”

O pacifista Moon sempre foi adepto do diálogo, mas o que levou o homem a quem Trump chamou Little Rocket Man a mudar a sua atitude belicosa? “É difícil dizer”, admite Kirsteen Kim.

“Talvez tenha sido a pressão das sanções”, em vigor desde o primeiro teste nuclear do Norte em 2006, ou talvez o excêntrico dirigente de Pyongyang sinta que o seu arsenal atómico lhe deu poder negocial.

Kim Jong-Un assina o seu nome num livro de visitantes, antes da cimeira inter-coreana com Moon Jae-in (de pé), na Casa da Paz, no lado sul da aldeia de Panmunjom, na zona desmilitarizada
© Aflo

Trump assegurou que foi a sua “política dura” que levou Kim à mesa das negociações, mas Kim indignou-se. A menos de um mês da cimeira de Singapura, ameaçou não comparecer, acusando Washington de o querer “encurralar”, como fez com Khadafi, na Líbia, ao exigir-lhe uma ambígua “desnuclearização unilateral” que ele considera “indigna”.

Foram tantos os protestos de Kim, que seria Trump a desistir do encontro, a 24 de Maio [para depois o reconfirmar, oferecendo ao ditador norte-coreano a legitimidade que ele procurava.]

As “boas intenções” do líder em Pyongyang, apesar do entusiasmo gerado pela cimeira intercoreana de abril, não convencem Kirsteen Kim: “É difícil imaginar Kim a abdicar das suas armas porque foram elas, acima de tudo, que lhe permitiram ser ouvido pelo presidente dos EUA. Não vejo qualquer razão para confiar em Kim. A Coreia do Norte já antes renegou incontáveis promessas.”

“Quando dialogam, mútua e directamente, as Coreias incomodam outras potências que têm interesses na península – os Estados Unidos, a China, o Japão e a Rússia”, afirma a professora de Teologia e Cristianismo Global no Seminário Fuller, em Pasadena (Califórnia). “É, por isso, vantajoso que avancem rapidamente e declarem um fait accompli, porque as outras potências raramente estão de acordo.”

O encontro entre Kim e o “igualmente imprevisível e pouco confiável Trump” envolve muitos riscos. “Nos últimos 70 anos, por várias vezes, os EUA tentaram livrar-se dos seus compromissos para com a Coreia do Sul” [na cimeira em Singapura, Trump prometeu pôr fim aos exercícios militares conjuntos com Seul] e, por isso, o encontro Trump-Kim era “uma ideia atractiva”. No entanto, “fiscalizar a destruição de armas numa Coreia do Norte montanhosa e secreta é quase [uma missão] impossível.”

Donald Trump e Kim Jong-un acabariam por se reunir numa cimeira, em Singapura, em 12 Junho 2018, depois de, inicialmente, o presidente americano ter desistido do encontro
© Evan Vucci | AP

O Sul “não poderia ficar de fora” quando o Norte está em contacto directo com os EUA, mas teria esta reaproximação sido possível se na presidência em Seul não estivesse Moon Jae-in, um católico praticante, fiel seguidor da “diplomacia do encontro” promovida pelo Papa Francisco?

“Sim, a defesa do diálogo por parte de Moon deve muito ao seu Catolicismo, mas é uma convicção anterior ao Papa Francisco e muito em linha com a Sunshine Policy do antigo presidente Kim Dae-jung, que também era católico e permitiu as primeiras conversações directas [com Pyongyang] em 2000”, salienta Kirsteen Kim.

“Um outro presidente, Roh Moo-hyun, que facilitou a segunda reunião com o Norte, em 2007, era igualmente muito influenciado pela doutrina social católica.”

“A Sunshine Policy tem como propósito mudar a retórica na península, reconhecendo a humanidade e dignidade do povo norte-coreano, e suavizando posições através do estabelecimento de relações mais calorosas”, explica a académica britânica na Califórnia.

É uma política que “rejeita qualquer solução militar ou a anexação de uma Coreia pela outra, propondo um período de coexistência pacífica dos dois Estados numa federação, antes da eventual reunificação.”

“Com esta finalidade, e independentemente de progressos nos laços intergovernamentais, tem sido possível encorajar acordos económicos bilaterais e o reencontro de famílias separadas.”

Num país secular como a Coreia do Sul, Moon Jae-in é um católico devoto que mandou abençoar o palácio presidencial logo após a sua eleição
© fsspx.news/en

Moon Jae-in, 64 anos, eleito em Maio de 2017 com 41% dos votos entre 13 candidatos, não poderia ser mais diferente da antecessora, Park Geun-hye, condenada a 24 anos de prisão, a 6 de Abril, sob acusações de “abuso de poder, aceitação de subornos e revelação de segredos de Estado.”

Moon, pelo contrário, tem uma carreira sem mácula de corrupção e uma vida dedicada à democracia. Foi preso em 1975 durante protestos contra dois ditadores militares, Park Chung-hee, pai da predecessora, e Chun Doo-huan.

Impedido de exercer funções de juiz ou procurador, decidiu trabalhar “fora do sistema”, como advogado de direitos humanos.

De 2003 a 2008, foi chefe de gabinete do antigo presidente Roh Moo-hyun, também ele católico, cujo governo fomentou relações harmoniosas com o Norte. A ele se deve a Região Industrial de Kaesong, onde uns 500 mil norte-coreanos trabalhavam com engenheiros e administradores sul-coreanos.

Este complexo de fábricas foi encerrado em 2016, porque Pyongyang estaria a desviar os salários dos operários para financiar as ambições nucleares. Moon prometeu que o irá reabrir, e retomar as suspensas reuniões de 60 mil famílias separadas pela guerra de 1950-53, se houver progressos nas negociações.

O suicídio de Roh, em 2009, depois de alegações de que recebeu “luvas” de milhões de dólares, abalou profundamente Moon.

“Ele definiu a minha vida”, escreve o actual presidente nas suas memórias. “Ele foi o meu destino”. Em 2012, Moon candidatou-se à chefia do Estado, perdendo por um triz a favor de Park, mas ganhando um lugar no Parlamento.

Park Geun-hye prometera melhorar as relações com os vizinhos do outro lado da “fronteira mais perigosa do mundo”, mas nada avançou. Por isso, durante a campanha eleitoral, Moon fez da paz e reconciliação com o Norte uma prioridade política. A esta determinação não será alheia a sua origem familiar.

Moon nasceu num casebre na ilha de Geoje, na costa sudeste da Coreia, três anos depois de a mãe escapar do Norte a bordo de um navio de carga americano.

Com eles fugiram outras 14 mil pessoas, no âmbito do plano “Evacuação [do porto] de Hungnam” ou “Milagre de Natal”, que permitiu a retirada de civis norte-coreanos e funcionários da ONU, entre 15 e 24 de Dezembro de 1950.

Kim Yo Jong (à esq.) acompanhou o irmão, Kim Jong-un, ao encontro com Moon Jae-in, na sede do Partido dos Trabalhadores, em Pyongyang, em 18 Setembro 2018
© Associated Press

Um dos primeiros actos de Moon após ser eleito foi pedir ao padre da sua paróquia que benzesse a Casa Azul, residência presidencial. E numa data simbólica: 13 de Maio, em sinal de devoção à Senhora de Fátima.

E duas semanas depois da tomada de posse, o sucessor de Park enviou um emissário a Roma, para se encontrar com o Papa e o secretário do Vaticano, cardeal Pietro Parolin.

Envolver a Santa Sé no esforço de reconciliação “foi mais do que simbólico”, observa Viktor Gaetan, correspondente do jornal National Catholic Register, num artigo publicado na revista Foreign Affairs.

“Esta aliança permite a Moon uma rede ampla e discreta de recursos para explorar opções não militares, incluindo um grupo de bispos coreanos e a japoneses, assim como obter o apoio dos responsáveis católicos em Taiwan e em Hong Kong.”

“Francisco e Parolin abriram canais de comunicação de alto nível com Pequim e, graças a estes, têm fornecido a Seul informação e análises que não dependem de Washington.”

Ao aliar-se ao Papa, adianta Gaetan, “Moon ganha também uma narrativa alternativa”, diferente da do “eixo do mal” no qual, “em termos demoníacos”, George W. Bush, incluiu a Coreia do Norte em 2002, e da caricatura que Trump fez de Kim Jong-un “como um maníaco suicida”.

O Papa tem uma posição muito diferente da dos EUA em relação às Coreias. Opõe-se, por exemplo, à “máquina de guerra” que é o sistema antimísseis THAAD (Terminal de Defesa Aérea para Grandes Altitudes).

Discorda da imposição de sanções económicas, porque “penalizam mais o povo do que as elites”. E encoraja o diálogo como “única estratégica viável – e moral”.

No país a que um imperador da dinastia Ming, fascinado com a serenidade da paisagem, deu o nome de “Terra da Manhã Calma”, a visão cristã de Moon por uma “paz justa” é bem-vinda. Sondagens indicam que 77% dos sul-coreanos querem reaproximar-se do Norte, convencidos de que a península pode superar uma “divisão artificial” e evitar um “Armagedão nuclear”.

© CNS photo | Korea Summit Press Pool via Reuters

Uma comunidade criada por leigos

Encontro de oração em Paju, perto da zona desmilitarizada que separa as duas Coreias. De 1987 a 1995, era habitual os católicos do Sul realizarem aqui uma missa anual pela reconciliação
© Reuters

Os católicos na Coreia do Sul são apenas 11% dos 52 milhões de habitantes, mas a sua Igreja é a que regista o maior crescimento na Ásia.

Nos últimos 20 anos, o número de católicos na Coreia do Sul mais do que duplicou: 5,8 milhões ou 11% da população de um país onde há 30% de cristãos. Só as Filipinas têm mais fiéis na Ásia.

O Catolicismo é, segundo uma sondagem de 2015, “a religião mais respeitada” do país, depois do Budismo. O Presidente, Moon Jae-in, é católico, tal como são 25% dos membros do Parlamento e cerca de 35% das chefias militares, além da elite económica, juízes, jornalistas e intelectuais em vários cargos de topo.

A Igreja sul-coreana não foi criada por missionários, como aconteceu noutras regiões da Ásia. Foram coreanos que, inspirados pela doutrina cristã propagada na China, levaram a Bíblia para a Coreia.

“Os ensinamentos do Catolicismo desafiaram muitas normas sociais coreanas e a filosofia de Confúcio”, explica-me, em entrevista por e-mail, Kirsteen Kim, professora de Teologia no Seminário Fuller, em Pasadena (Califórnia).

“O país abriu-se a uma prática ritual heterodoxa e à modernidade, sobretudo à promoção da língua coreana e à alfabetização para as mulheres e o cidadão comum.”

Católicos sul-coreanos assistem a uma missa, pela paz e reconciliação, celebrada pelo Papa Francisco na Catedral de Myongdong, em Seul, a 18 de de Agosto de 2014
© CNS photo | Paul Haring

Entre os primeiros cristãos estava Yi Seung-hun, baptizado por um jesuíta francês numa igreja de Pequim, em 1784. Quando regressou à pátria, Yi baptizou outros coreanos, e juntos formaram a primeira comunidade cristã local – um caso único no mundo, que precedeu o Decreto Apostolicam Actuositatem, sobre o Apostolado dos Leigos, promulgado pelo Papa Paulo VI em 1965.

Embora os primeiros cristãos fossem aristocratas, a Igreja rapidamente se abriu a todas as classes. O primeiro padre coreano foi Kim Dae-geon, conhecido como Santo André Kim, ordenado em 1845 em Xangai, após ter estudado num seminário em Macau, para onde foi aos 15 anos e onde ainda hoje se reza uma missa semanal em coreano em sua honra.

O preço a pagar pelas conversões na Coreia foi “uma severa perseguição, durante quase um século até aos anos 1870”, refere a autora de A History of Korean Christianity.

Um dos primeiros perseguidos foi André Kim. Quando as autoridades descobriram que ele tinha em sua posse textos e imagens cristãs, e se preparava para fazer entrar no país sacerdotes franceses, foi preso e decapitado, em 1846.

Alarmado com as notícias de incursões estrangeiras, o Governo intensificou a repressão em 1866: entre 8000 e dez mil pessoas, “metade da comunidade católica”, terão sido mortas.

André e outros 102 mártires foram canonizados por João Paulo II na sua visita à Coreia do Sul em 1984. Em 2014, quando esteve em Seul, também o Papa Francisco beatificou outros 124 mártires.

Fiéis católicos na Catedral de Myeong-dong, em Seul, durante a visita do Papa Francisco, em 8 de Agosto de 2014, durante a qual canonizou vários mártires coreanos
© Wonsuk Choi | Getty

A Igreja Católica (sobretudo a dos EUA), adianta Kirsteen Kim, foi crucial no apoio ao líder sul-coreano Syngman Rhee (casado com uma católica) e à causa de uma Coreia do Sul separada do Norte. “No contexto de uma perceptível ameaça comunista global, a Santa Sé foi a primeira a reconhecer a nova república em 1948.”

Na década de 1980, a Igreja “desempenhou igualmente “um papel importante no movimento de democratização que pôs fim a 30 anos de poder militar”. O cardeal Kim Su-hwan, em particular, foi uma “figura destemida que desafiou o regime em nome dos oprimidos”.

Hoje, com uma “abundância de vocações” (10.170 freiras e 1560 frades), a Igreja Católica assume um papel missionário global, enviando padres e irmãos para vários países, de Moçambique à Nova Zelândia.

Este movimento contemporâneo “é o resultado da expansão da própria Igreja e do crescimento da economia”, avalia Kirsteen Kim.

“A riqueza e elevados níveis de educação permitiram aos coreanos explorarem o mundo e deixar nele a sua marca. A grande diáspora coreana (fruto de anos de conflito na península) facilita este movimento missionário. Desde os anos 1990, pelo menos, o Vaticano tem encorajado a Coreia do Sul a afirmar-se como o centro nevrálgico católico para a Ásia do Leste.”

O primeiro padre coreano foi Kim Dae-geon, conhecido como Santo André Kim

Apesar do revigoramento católico, Kirsteen Kim constata que uma grande parte dos sul-coreanos se vai afastando da religião. “Enquanto sob a ditadura militar as igrejas eram das poucas organizações da sociedade civil, hoje a Coreia é uma enorme praça de liberdade.”

“Os jovens têm mais escolhas e recursos do que as anteriores gerações. Muito cultos e menos submissos, são mais cépticos do que os pais. E a Igreja tem dificuldade em atrair esta juventude.”

Sobre a situação na Coreia do Norte, “é impossível obter dados fiáveis”, esclarece a académica britânica. “Todas as religiões foram eliminadas pelo regime [comunista]. As pessoas religiosas são olhadas com suspeição e relegadas para os mais baixos estratos da sociedade. São perseguidas e presas em campos de trabalhos forçados, por períodos indefinidos.”

“Há cristãos na clandestinidade, mas insistir na prática religiosa numa sociedade altamente vigiada é penoso e arriscado. A partir dos anos 1990, o Governo achou benéfico construir templos de oração, sobretudo para serem usados por visitantes estrangeiros, e foi construída uma catedral católica [de Changchung, em Pyongyang].”

“Não há padres norte-coreanos, embora sacerdotes estrangeiros possam celebrar missa”, se pagarem. O último bispo foi detido em 1949 e depois despareceu.”

Estatísticas oficiais, não validadas pelo Vaticano, apontam para uma congregação de 3000 fiéis. Antes da divisão da península, seriam mais de 50 mil no território que hoje é a Coreia do Norte.

Elogio do Papa

Sul-coreanos festejam a visitam do Papa Francisco em 2014; uma das primeiras visitas do Presidente Moon Jae-in após a sua eleição, em 2017, foi ao Vaticano
© Li Jin-Man | Reuters

Um acordo entre as Coreias do Sul e do Norte prometendo reconciliação e desnuclearização só poderia ser saudado pelo Papa Francisco que, com a sua “diplomacia espiritual”, exalta a prioridade de encontros face a face entre adversários políticos.

“Acompanhei com orações a bem sucedida Cimeira Inter-Coreana e o compromisso corajoso assumido pelos líderes de ambas as partes, no sentido de seguirem um caminho de diálogo sincero, com vista a uma Península Coreana livre de armas nucleares”, disse o Bispo de Roma a 29 de Abril, três dias depois de o presidente Moon Jae-in, do Sul, e o “supremo líder” do Norte, Kim Jong-un, terem prometido “o fim do estado de guerra”.

A “diplomacia do encontro”, para uma “paz justa”, defendida por Francisco já deu frutos noutras regiões.

Na América Latina, por exemplo, onde a Igreja Católica encorajou, em 2016, um acordo entre o Governo e os rebeldes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

Ou em Cuba, onde a Santa Sé se envolveu directamente para quebrar um impasse de muitos meses e reaproximar negociadores de Havana e dos EUA, em 2014.

O Papa Francisco presta homenagem a Santo André Kim, na terra onde este nasceu, durante a sua visita à Coreia do Sul, em 15 de Agosto de 2014
© Issei Kato | Reuters

Este artigo, agora revisto e actualizado, fo publicado na revista ALÉM-MAR, edição de Junho de 2018 | This article, now revised and updated, was published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, June edition 2018

Trump em rota de colisão

Obcecado em desmantelar o legado de Obama e em mudar o regime em Teerão, o actual presidente dos EUA deixou o Médio Oriente à beira de nova guerra, ao repudiar o acordo nuclear com o Irão. Enfraqueceu também a aliança transatlântica, ao abandonar mais um compromisso internacional, ameaçando empresas europeias com sanções. (Ler mais | Read more...)

© spectator.co.uk

Por que motivo está Donald Trump ansioso por se reunir com Kim Jong-un, orgulhoso do seu arsenal atómico, e acaba de renegar um acordo que demorou vários anos a negociar e impediria o Irão de desenvolver armas nucleares?

“Primeiro, porque Barack Obama nunca chegou a um entendimento com a Coreia do Norte e, por isso, não há qualquer legado para o actual presidente dos EUA desfazer”, diz-me, em entrevista por e-mail, Rouzbeh Parsi, professor de Estudos de Direitos Humanos na Universidade de Lund, na Suécia e director do European Iran Research Studies.  “Segundo, porque não há qualquer animosidade ideológica em relação à Coreia do Norte nos círculos que rodeiam Trump, tanto quanto a que nutrem pelo Irão.”

Trump e Kim insultaram-se várias vezes publicamente. O primeiro ofendeu o segundo como “maníaco”, “Little Rocket Man numa missão suicida”; o segundo injuriou o primeiro como “lunático” e “psicopata”. Estes vitupérios mútuos não impediram que fosse agendada uma cimeira bilateral para 12 de Junho, em Singapura.

Mas “o estilo de Trump impossibilita qualquer encontro” entre o presidente iraniano, Hassan Rouhani, “independentemente [de ter ou não luz verde de [Ali] Khamenei”, o Supremo Líder em Teerão, salienta Parsi. “Trump acha-se superior e emite ultimatos – os iranianos nunca aceitariam isso como princípio de conversa.”

© Financial Times

Horas depois de ter condenado o “regime assassino” em Teerão, no seu discurso de 19 de Setembro de 2017 na Assembleia Geral das Nações Unidas, Trump terá convidado Rouhani para jantar em Nova Iorque. O presidente francês, Emmanuel Macron, tentou convencê-lo a aceitar; Khamenei não autorizou. Para alguns foi uma oportunidade perdida, mas a revista The American Conservative anota que Trump não pretendia cessar hostilidades e sim reforçar a ameaça de que “a janela dourada de oportunidade aberta por Obama chegara ao fim”.

“Trump está, acima de tudo, empenhado em desfazer tudo o que se relaciona com a presidência de Obama”, sublinha Rouzbeh Parsi. “E rodeou-se de pessoas como Mike Pompeo [ex-chefe da CIA e actual secretário de Estado] e John Bolton [conselheiro nacional de segurança] que, por razões várias (Israel, supremacia americana, antipatia geral para com a República Islâmica), têm como única finalidade mudar o regime em Teerão.”

Ao renunciar ao chamado Joint Comprehensive Plan of Action (JCPoA), de que sempre desdenhou, (re)impondo duras sanções, Trump quer firmar um acordo alternativo – não especificado –, que inclua “o programa de mísseis balísticos de Teerão, o seu apoio a grupos extremistas e outras actividades malignas no Médio Oriente – Síria, Líbano e Iémen”. Mas por que não aceitou a sugestão de Macron de negociar um acordo complementar ao já existente, sem violar o que estava em vigor desde 2015?

E como vão os iranianos, que têm respeitado os seus compromissos, validados por rigorosos inspectores de armas da ONU, voltar à mesa das negociações com um presidente que tem revogado vários compromissos internacionais – do Tratado Transpacífico ao Acordo de Paris – para agradar à sua base eleitoral?

© chappatte.com

O Irão só se manterá no acordo, acredita Rouzbeh Parsi, se os dividendos que dele obtém (relações e comércio com a Europa) se mantiverem substanciais, e não apenas promessas num pedaço de papel”.

Para já, “Teerão está em modo de esperar, para ver se a União Europeia irá salvaguardar o JCPoA e aplicar contra-medidas que neutralizem sanções secundárias dos EUA – o principal instrumento legal com que a América penaliza as empresas de outros países que fazem negócios com o Irão.”

Depois de tentar, em vão, apaziguar Trump, a UE parece agora disposta a aprovar legislação para amparar as empresas europeias que venham a ser penalizadas pelo sistema financeiro americano, como aconteceu em 1996, quando os EUA impuseram um embargo a Cuba. Neste caso, os europeus recorreram à Organização Mundial do Comércio e acabaram por forçar Washington a um acordo político.

Na quinta-feira, 3 de Maio, na cerimónia de atribuição do Prémio Carlos Magno a Macron, a chanceler Angela Merkel reafirmou que “a Europa já não pode contar com os EUA para a proteger e deve tomar o seu destino em mãos – esse é o desafio do futuro.”

Desde a assinatura do JCPoA, os europeus beneficiaram em várias áreas de negócios com o Irão, da venda de aviões comerciais até ao maior contrato de petróleo e gás assinado com o gigante francês Total.

A companhia estatal IranAir tinha encomendado 200 aviões de passageiros (100 à Airbus SE, 80 à Boeing e 20 ao consórcio franco-italiano ATR), mas dependentes de licenças americanas, uma vez que 10% das peças sobressalentes e mão-de-obra provém de empresas nos EUA, todos estas transacções estão sujeitas a sanções. A decisão de Trump significa prejuízos de 40 mil milhões de dólares para a Boeing e a Airbus.

© Financial Times

“A UE não está unida”, lamenta Rouzbeh Parsi. “O [grupo] E3 [composto por Alemanha, França e Reino Unido] tentou tudo para que Trump mudasse de ideias. A Itália, a Espanha e a Suécia não acreditavam no sucesso destes esforços, mas a Polónia, a Hungria e a República Checa estão ideologicamente muito próximas de Trump. É, pois, uma incógnita saber até que ponto haverá uma posição comum europeia para instituir contra-medidas” às sanções americanas.

Se americanos (e europeus) viram as costas à segunda maior economia do Médio Oriente e Norte de África, com mais de 300 milhões de consumidores, um dos grandes beneficiários será a China. Desde 2016, mais do que duplicou o seu comércio com o Irão, para 28 mil milhões de dólares.

Também a Rússia será favorecida: duas companhias aéreas iranianas assinaram recentemente contratos para comprar 40 aparelhos Sukhoi Superjet-100s, num total de 2000 milhões de dólares.

Uma das consequências imediatas do que a jornalista iraniana-americana Christiane Amanpour descreveu como “o maior acto deliberado de auto-sabotagem em política geoestratégica na era moderna” foi deixar Teerão e Telavive à beira de uma guerra total.

Na sexta-feira, 4 de Maio, Israel atacou praticamente toda a infra-estrutura militar iraniana na Síria, na maior ofensiva desde 2011. Estes bombardeamentos seguiram-se ao lançamento de 20 rockets, por forças iranianas, contra posições israelitas nos Montes Golã ocupados.

Israel saudou a decisão de Trump, tal como a Arábia Saudita, países que consideram o Irão “uma ameaça existencial”. Telavive e Riade, diz Rouzbeh Parsi, “não aceitam que Teerão exerça qualquer influência regional, e esta exigência nunca será aceite em negociações – daí o risco de guerra. Duvido que haja um Plano B.”

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“Estamos todos deprimidos”, diz Samira

Em Isfahan, a cidade iraniana que ainda acredita ser “a metade do mundo”, Samira (nome fictício, para garantir a sua segurança) geóloga, 28 anos, não ficou surpreendida com a decisão de Donald Trump de romper o acordo nuclear.

“Sabíamos que seria esse o desfecho desde que ele foi eleito”, diz-me, numa entrevista por telefone. “Sabíamos que a nossa vida iria piorar.”

A atmosfera era diferente quando o acordo foi assinado em 2015. “Começámos finalmente a ter esperança num futuro melhor. Fomos para as ruas celebrar. Muitos de nós estávamos felizes porque a nossa relação com o Ocidente iria melhorar”, depois de mais de três décadas de isolamento.

Samira notou que “mais países europeus estavam a investir no Irão e que o turismo começou a desenvolver-se.” Sobre o efeito que as sanções anunciadas por Trump poderá ter numa economia que vinha crescendo gradualmente, ela diz que “ainda é cedo para avaliar”, embora se note uma acentuada desvalorização do rial face ao dólar americano. “Estamos todos deprimidos”, este foi o “impacto imediato”.

Trump confia em que as sanções precipitarão o colapso de um regime que enfrenta protestos populares contra o desemprego e o empobrecimento, e pressões para uma maior abertura social, como o fim do uso do hijab imposto às mulheres.

Samira diz que não sabe se o governo teocrático vai reformar-se ou se a reforma ditará o seu óbito. “Não tenho capacidade para prever isso, mas temo que o fim do acordo nuclear venha a reforçar a linha dura” em detrimento dos pragmáticos.

“Não tenho grandes expectativas”, conclui. “Muitos de nós receamos uma nova guerra, como a que matou o irmão da minha mãe, mártir do conflito com o Iraque [em 1980-1988]. Eu só gostava que o Ocidente percebesse que está a arruinar as vidas do cidadão comum iraniano, não as dos políticos.”

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Este artigo foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO, em 12 de Maio de 2018 | This article was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on May 12, 2018

Igrejas que sofrem

Os muçulmanos Rohingya são o mais oprimido dos grupos étnicos na Birmânia/Myanmar. Não as únicas vítimas. A lei reconhece as “raças” das minorias cristãs, mas não lhes tem garantido existência pacífica. (Ler mais | Read more...)

Missa na igreja católica da aldeia de Htaykho no estado de Kayah. Os cristãos birmaneses também são perseguidos num país onde o Budismo é cada vez mais uma “religião de Estado”
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O Cristianismo é a segunda maior religião (6,2%) na Birmânia/ Myanmar, um país de 51,5 milhões de habitantes, predominantemente budista. Os seus fiéis (protestantes, católicos, metodistas, anglicanos e outros) pertencem sobretudo às minorias Chin, Kachin e Kayin/Karen, grupos étnicos incluídos numa lista de “135 raças nacionais”, em 2014, e que têm assegurada a cidadania, segundo uma lei aprovada em 1982.

É um estatuto de privilégio, se comparado com o dos muçulmanos Rohingya no estado de Rakhine, apátridas e privados de todos os direitos básicos, alvos de “limpeza étnica”, em risco de genocídio.

A dos cristãos, não tem sido, porém, uma existência livre de discriminação, perseguições e outros abusos.

Porque, não obstante mais de 500 anos de presença católica (desde 1510, quando chegaram missionários e mercenários portugueses), o Cristianismo, é ainda visto por muitos – de responsáveis militares a monges ultranacionalistas – como “uma religião importada pelo poder colonial”. Uma fé de “estrangeiros”, como os Rohingya, que traçam as suas origens aos séculos XV e XVI.

Os Chin

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Na maioria (70-80%) cristãos evangélicos baptistas, graças à influência de missionários americanos, os cerca de 1,5 milhões de Chin vivem num estado homónimo, no noroeste. Administrado por chefes locais, o território Chin manteve-se durante séculos livre de ingerência estrangeira, mas a ocupação britânica (1824-1948) desestabilizou a região.

Aliados dos ingleses contra os japoneses na II Guerra Mundial, os Chin combateram, em 1942, o exército nacionalista de Aung San, gerando ressentimentos que perduram, apesar de, em 1943, terem sido uma das minorias que o pai de Aung San Suu Kyi convenceria a assinar o Acordo de Panglong, que lhes garantia o direito de cisão dez anos depois de integrarem a secular União da Birmânia.

Aung foi assassinado em 1947, em vésperas da independência, as promessas inscritas na Constituição não foram cumpridas e os Chin revoltaram-se. Criaram um movimento político, Frente Nacional Chin (FNC), e dotaram-no de um braço armado, Exército Nacional Chin (ENC), que se tornaria, em 1988, num dos núcleos da luta contra a ditadura militar (1962-2011).

Os cristãos Chin têm sido vítimas de perseguição religiosa (conversões forçadas, igrejas vandalizadas ou restrições à construção de locais de culto e cemitérios) extorsão, expropriação de terras e trabalho escravo, detenções arbitrárias, tortura, violência sexual e execuções extrajudiciais. Mais de 60 mil estão refugiados na Índia e outros 20 mil na Malásia.

Os Kachin

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Entre 75 e 97% dos habitantes do estado de Kachin são cristãos que se converteram durante a ocupação britânica da Birmânia (1824-1948), o que contribuiu para a sua marginalização. Além da fé, os Kachin são conhecidos por extraordinárias capacidades militares.

Durante a II Guerra Mundial, juntaram-se aos Aliados contra os japoneses, ganhando o epíteto de “assassinos amigos”.

Em 1961, descontentes com as políticas discriminatórias do Governo central e a imposição do Budismo como religião de Estado, criaram o Exército de Independência Kachin (KIA), que se transformaria numa das maiores forças étnicas de resistência armada.

Após meio século de conflito, financiado pelo comércio mundial de jade, que controlavam, os Kachin assinaram um cessar-fogo com a antiga junta militar, em 1994.

A trégua foi rompida pelo regime em 2011, ao exigir que o KIA se tornasse numa Guarda Fronteiriça e cedesse o controlo estratégico de áreas com barragens hidroeléctricas e oleodutos de gás e petróleo.

Os Kachin recusaram e o exército lançou uma violenta ofensiva, causando cerca de cem mil deslocados internos (alguns ainda se abrigam em igrejas) e dez mil refugiados, na China e na Tailândia.

Em Kachin, que permanece um estado militarizado e onde o cultivo de ópio e uma epidemia de HIV abalam as estruturas da sociedade, continuam os abusos de direitos humanos, incluindo violência sexual, trabalho forçado e expropriação de terras.

Os Karen

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O cerca de sete milhões de Karen (ou Kayin, nome do seu estado) clamam o estatuto de nação, e não apenas de minoria, que se estabeleceu na Birmânia por volta de 3000 a.C., talvez proveniente da Mongólia.

Uns 70% dos Karen têm origem em dois grandes grupos de animistas convertidos: os Sgaw, na maioria cristãos; e os Pow, predominantemente budistas. Os missionários protestantes americanos que começaram a chegar em 1813 definiriam uma identidade cristã entre os Karen e ajudaram-nos a criar, em 1881, a sua primeira organização política: a Associação Nacional Karen (KNA).

Nas três Guerras Anglo-Birmanesas e na II Guerra Mundial, os Karen aliaram-se aos britânicos esperando que a paz se traduzisse em independência, mas o fim da colonização não foi, para eles, a libertação esperada.

Tendo boicotado o Acordo de Panglong, os Karen criaram, em 1947, a União Nacional Karen (KNU) e, dois anos depois, o seu braço armado, KNLA, iniciou uma das “mais longas guerras civis do mundo”, reivindicando o estado soberano de Kawthoolei.

Tal como outros grupos étnicos, os Karen continuam a ser vítimas de abusos. São usados, por exemplo, como escudos humanos em operações de desminagem ou expulsos das suas aldeias, muitas das quais têm sido queimadas.

Em 2011, findo o regime militar, uma KNU dilacerada por lutas internas e dividida em sete facções assinou o cessar-fogo com o novo Governo.

Em Março, o exército quebrou a trégua e as hostilidades recomeçaram. Pelo menos dois milhões de Karen são deslocados internos em Kayin e outros dois milhões são refugiados em países vizinhos, sobretudo na Tailândia.

Fontes:

Asia Times, burmacampaing.org.uk, Burma Link, International Crisis Group, Human Rights Watch, Oxford Burma Alliance, U.S. Commission on International Religious Freedom, World Directory of Minorities and Indigenous People – Myanmar/Burma

O mosaico birmanês

  • A República da União de Myanmar (assim designada desde 2010) situa-se no Sul da Ásia, limitada a norte e nordeste pela China, a leste pelo Laos, a sudeste pela Tailândia, a sul pelo Mar de Andamão e pelo Canal do Coco, a oeste pelo Golfo de Bengala e a noroeste pelo Bangladesh e pela Índia.
  • O país tornou-se independente do Império Britânico em 4 de Janeiro de 1948 como “União da Birmânia”. Foi governado por uma junta militar desde o golpe de 1962 até à sua dissolução em 2011. O poder civil regressou após as eleições de 2015.
  • Numa área de 678.500 km2, a antiga Birmânia é constituída por sete estados, dominados por minorias étnicas (Chin, Kachin, Kayah, Kayin, Mon, Rakhine/Aracão e Shan) e sete regiões administrativas, onde se concentra a maioria Bamar (Ayeyarwady, Bago, Magway, Mandalay, Sagaing, Tanintharyi e Yangon)
  • Não há estatísticas fiáveis sobre a composição demográfica. O último censo, em 2014, calculou em 51,5 milhões o número total de habitantes, mas mais de um milhão de muçulmanos Rohingya foram excluídos, classificados como “outros”, assim como muitos milhões de birmaneses que vivem foram do país.
  • Oficialmente, são reconhecidas 135 “raças nacionais” integradas em oito grandes grupos étnicos: Bamar/Birmaneses (68%, com nove “raças”), Chin (53), Kachin (12), Kayin/Karen (11), Kayah/ Karenni (nove), Mon (uma), Rakhine/Aracaneses (sete) e Shan (com 33).

Francisco: O construtor de pontes

Foi uma viagem histórica que alguns compararam à travessia de um campo minado. Em Myanmar e no Bangladesh, o Papa teve de ir ao encontro da esperança dos católicos, da expectativa dos budistas e das aspirações dos muçulmanos. 

O Papa em Yangon, na Birmânia
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O Papa Francisco seguiu à risca o conselho de Charles Bo na sua visita oficial a Myanmar – a primeira de um chefe da Igreja Católica a este país de maioria budista.

Evitou pronunciar a palavra “Rohingya” nos quatro dias da viagem (27 a 30 de Novembro de 2017), fosse nas audiências com a chefe do Governo, Aun Sang Suu Kyi, e outros responsáveis políticos e militares, diplomáticos e religiosos, como nas duas missas que celebrou ou na visita que fez a um lar das Missionárias da Caridade de Madre Teresa.

Alguns ficaram desapontados, porque Francisco sempre defendeu a perseguida minoria muçulmana do estado de Rakhine, e porque Bo, o primeiro cardeal birmanês, tem sido um “porta-voz” dos Rohingya e crítico dos “mercadores da morte”, envolvidos numa “campanha de limpeza étnica”.

Mas nem o Bispo de Roma nem o arcebispo de Yangon poderiam hostilizar os anfitriões numa altura em que procuram robustecer a minoria católica de Myanmar (600 mil pessoas ou 1% dos 51,5 milhões de habitantes) e consolidar o processo democrático depois de meio século de ditadura militar.

Tradicionalmente, os católicos birmaneses (90% dos quais pertencentes às etnias Karen, Kachin, Chin, Shan e Kaw) não se envolviam em questões políticas.

Talvez por serem frequentemente considerados “cidadãos de segunda classe”, explica Jean Auffray, correspondente do site francês la-croix.com. Muitos não tinham sequer cartão de cidadão, “o que os impedia de beneficiar de direitos associados à nacionalidade”.

Uma freira do estado de Kachin, na Birmânia, mostra a fotografia do Papa Francisco no écrã do seu telemóvel, durante a viagem de comboio de dois dias que a levou de Mytikyna a Yangon para ver o chefe da Igreja Católica
© Ann Wang | Reuters

Depois de anos a perder terreno para as comunidades evangélicas em ascensão, há agora sinais de mudança. Mais jovens católicos aspiram ao sacerdócio e mostram-se interessados na acção social. Segundo Auffray, nas últimas eleições em 2015, “99% dos estudantes do Grande Seminário de São José [em Rangun] votaram no Partido Nacional para a Democracia [de Suu Kyi], embora, em teoria, os religiosos não tenham esse direito”.

Na visita a Myanmar, o Papa encorajou padres e seminaristas a contribuírem para o fim dos conflitos que perduram sete décadas após a independência.

Em Naypyidaw, a nova capital, deixou uma mensagem ressonante: “O futuro de Myanmar deve ser a paz, uma paz baseada no respeito pela dignidade e direitos de cada membro da sociedade, respeito por todos os grupos étnicos e pela sua identidade, respeito pelo estado de direito, e respeito pela ordem democrática que permite a cada indivíduo e a cada grupo – nenhum deles excluído – oferecer o seu contributo legítimo para o bem comum. (…) O árduo processo de reconciliação só pode avançar com justiça e respeito pelos direitos humanos.”

O encontro com os Rohingya, organizado pelo cardeal Bo e com carácter inter-religioso, aconteceu durante a visita papal ao Bangladesh, de 27 de Novembro a 2 de Dezembro, uma nação predominantemente muçulmana onde os católicos representam apenas 0,2% da população (350 mil).

Na sede da arquidiocese em Daca, 18 refugiados de três famílias – homens, mulheres e crianças – foram recebidos por um emocionado Francisco, que prometeu não esquecer o sofrimento deles. “A presença de Deus hoje também se chama Rohingya”, disse o Papa. “Em nome de todos os que vos perseguiram, vos magoaram, peço perdão.”

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Este artigo foi publicado originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Janeiro de 2018 | This article was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, January 2018 edition

Birmânia: Guerras de sobrevivência

No estado de Rakhine, ressentimentos etno-demográficos alimentam um brutal conflito entre duas comunidades. É real a ameaça existencial aos muçulmanos Rohingya. É também real o medo existencial dos budistas Aracaneses. (Ler mais | Read more…)

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Em apenas três meses, entre Agosto e Novembro [de 2017], mais de 600 mil Rohingya fugiram da costa ocidental de Myanmar/ Birmânia para o Bangladesh, vítimas de uma campanha que as Nações Unidas não hesitam em qualificar de “limpeza étnica”. Até ao final de 2017, serão mais de um milhão, alertam agências internacionais de auxílio.

A confirmar-se, este número significa o êxodo quase total dos muçulmanos Rohingya (estimados entre 900 mil e 1,1 milhões) do estado de Rakhine, desde que uma Lei da Nacionalidade os tornou apátridas em 1982.

Além de expulsões forçadas, os Rohingya têm sido também sujeitos às piores políticas de terra queimada, violações em massa, detenções arbitrárias e assassínios sumários. Refugiados em campos no Bangladesh, onde lhes é igualmente negada cidadania, vivem em pobreza extrema.

O total de mortes poderá ultrapassar os 3000, segundo várias fontes. “São crimes contra a humanidade”, denunciam a ONU e a Human Rights Watch.

O Governo birmanês defende-se destas alegações, justificando uma contra-ofensiva lançada depois de uma série de ataques coordenados e reivindicados pelo Exército de Salvação dos Rohingya de Aracão (ARSA), em 24 de Agosto, contra 30 postos da polícia e uma base do exército em Rakhine. Nos confrontos, foram mortos 59 rebeldes e 12 membros das forças de segurança.

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A violência recente, que já não se limita ao norte de maioria muçulmana e se alastra ao sul, de maioria budista, marca uma escalada no conflito em Rakhine desde Outubro de 2016, quando emboscadas semelhantes por parte do ASRA, que antes se chamava as-Harakah al-Yaqin (Movimento da Fé, HaY) desencadearam uma resposta militar que provocou a fuga de mais de 85 mil civis.

Num país que reconhece 135 “raças nacionais” – uma lista da qual os Rohingya estão excluídos – por que se tornaram eles “a minoria mais perseguida do mundo”? Uma das razões é a de que os budistas de Rakhine, eles próprios uma minoria que foi reprimida pela antiga junta militar, embora partilhem a fé da maioria Bamar (88%) do país, “estão assustados” com o crescimento demográfico dos Rohingya.

“Graças a uma elevada taxa de fertilidade, a população Rohingya tem aumentado a um ritmo 1,5 vezes superior ao de outros grupos [étnicos], constata Rachel Blomquist, autora de um estudo sobre o conflito em Rakhine, publicado em 2016 pelo Journal of Asian Studies, da Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos.

“Os budistas de Rakhine receiam a extinção, em termos relativos e absolutos, porque num estado com escassos recursos têm de competir por limitadas oportunidades sócio-económicas.”

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Rakhine é o estado menos desenvolvido da Birmânia, atesta o Banco Mundial. Tem uma taxa de pobreza de 78%, superior à média nacional (37,5%). A falta de infra-estruturas e de oportunidades de emprego aumenta as tensões intercomunitárias.

Para entender este conflito é preciso recuar a 1825, quando os britânicos se apoderaram de Aracão e aqui fizeram entrar centenas de milhares de trabalhadores provenientes de Chittagong, no sul do que é hoje o Bangladesh, ou de Bengala Ocidental, na Índia.

Os Aracaneses ficaram ressentidos com o maciço fluxo migratório, que expandiu a economia colonial, porque deixaram de ter controlo sobre os postos de trabalho e as terras.

Os recém-chegados passaram então a ser tratados como “imigrantes ilegais” ou, pejorativamente, como “bengalis” (ou bengaleses). E a palavra “Rohingya”, significando “natural de Rohang”, o termo muçulmano para Aracão, passou a ser maldita.

Hoje, para terem cidadania, os Rohingya têm de provar existência legal na Birmânia desde 1923, antes da Primeira Guerra Anglo-Birmanesa.

As relações bilaterais degradaram-se ainda mais durante a II Guerra Mundial, quando Rakhine se tornou numa espécie de “linha da frente” entre as forças invasoras japonesas e as tropas aliadas. A maioria dos muçulmanos permaneceu ao lado os britânicos enquanto os budistas apoiaram os japoneses.

As duas comunidades formaram também unidades armadas e atacaram-se uma à outra, havendo relatos de massacres, num campo e noutro, em 1942-1943. Foi nesta altura que os muçulmanos fugiram para o norte, e os budistas para sul.

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Em Abril de 1948, três meses depois de criada a União da Birmânia, os muçulmanos propuseram anexar o norte de Rakhine ao Paquistão Oriental, actual Bangladesh. A ideia foi rejeitada e eles exigiram uma região autónoma. A partir daqui, não mais foi possível a conciliação.

Uns 13 mil muçulmanos que haviam fugido durante a guerra e viviam em campos de refugiados na Índia e no Paquistão Oriental foram impedidos de regressar. Rebeldes atacaram interesses do governo e até a comunidade budista, expulsando muitos dos seus aldeões.

Além destes mujahedin que passaram a controlar a maior parte do norte de Rakhine, apareceram também, no sul, dois grupos insurrectos comunistas (Bandeira Vermelha e Bandeira Branca) e movimentos nacionalistas, como o Partido de Libertação Popular de Aracão (marxista).

O exército birmanês, enfrentando revoltas étnicas noutros estados, praticamente só controlava Sittwe, a capital de Rakhine. Foi o colapso da lei e da ordem. Muitos líderes muçulmanos moderados rejeitaram a insurreição dos mujahedin, e até chegaram a pedir ao governo que lhes desse armas para ripostar. Em vão.

Em 1954, os militares lançaram a Operação Monção, que conquistou aos rebeldes os seus bastiões na fronteira. Em 1961, foi declarado um cessar-fogo, mas ao chegar o poder, no ano seguinte, o exército rompeu a trégua.

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Em 1974, emergiu um novo grupo armado, a Frente Patriótica Rohingya (RPF), que se dividiria em várias facções. A mais radical, Organização de Solidariedade Rohingya (RSO), foi em 1982, transformando-se numa espécie de “marca registada” da resistência, mesmo quando perdeu capacidade operacional nos anos 1990.

A repressão intensificara-se em 1978, com a Operação Nagamin (“Rei Dragão”), que provocou o primeiro grande êxodo dos Rohingya. Mais de 200 mil fugiram nessa altura para o Bangladesh. Seguiram-se outros progrom: em 1992 (cerca de 250 mil) e em 2012 (uns 140 mil), na sequência de rumores de que três muçulmanos tinham violado uma budista.

O ano de 2016 marcou uma perigosa escalada, com a entrada em acção do HaY, agora rebaptizado ARSA, que confessou a autoria de dois ataques arrojados: em 9 de Outubro, matou quatro guardas de fronteira; a 12 de Novembro, assassinou um oficial do exército.

Liderado por Ata Ullah, um nativo de Carachi, no Paquistão, que foi educado em Meca, para onde emigrou o pai, muçulmano de Rakhine, o ARSA será financiado pelo reino saudita e por outros países árabes. Tem dinheiro suficiente para “comprar” informadores que antes apenas serviam o exército.

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Ao contrário do RSO, que operava a partir de áreas remotas do Bangladesh, os combatentes do ARSA estão infiltrados na Birmânia, misturando-se entre os civis, a quem fornecem treino em modernas tácticas de guerrilha.

São admirados por uma geração mais nova e desesperada. Os mais velhos, que antes se resignavam, deram também as boas-vindas aos novos guardiões, embora alguns considerem os ataques contraproducentes.

Porque os insurrectos atraíram não apenas a fúria dos budistas Aracaneses e do resto da Birmânia, mas também de outros muçulmanos em Rakhine, como os Kaman, que não têm sido poupados a uma orgia de terror.

O think-tank International Crisis Group (ICG) considera que o ARSA “não é ainda uma organização terrorista global”, mas avisa que o contínuo uso desproporcionado da força militar “irá criar condições para uma maior radicalização dos Rohingya e para que grupos jihadistas explorem as suas próprias agendas”.

Esse risco poderá ser evitado com “uma resposta moderada, uma estratégia política bem delineada e maior cooperação e troca de informações com os países vizinhos da Birmânia.”

Com o resto do mundo pouco interessado em reimpor sanções, agora que o governo em Naypyidaw é chefiado pela Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, não parece que o Tatmadaw (Exército) esteja a seguir esta recomendação.

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O ARSA, beneficiando da visibilidade mediática do drama dos refugiados, também não se mostra interessado em abrandar a pressão.

Os ataques em 24 de Agosto foram levados a cabo precisamente um dia depois de a líder de facto do país ter aceitado o relatório de uma comissão chefiada por Kofi Annan, ex-secretário-geral da ONU, que sugeria uma revisão da Lei da Nacionalidade e mais direitos para os Rohingya.

Segundo Bertil Lintner, jornalista sueco que há quatro décadas estuda a Birmânia e é autor de vários livros sobre o país, mais de 70 batalhões militares, ou seja entre 30 mil e 35 mil homens, foram enviados para Rakhine.

“O seu objectivo estratégico não é apenas suprimir o novo grupo insurrecto, mas equilibrar a composição demográfica das localidades de maioria muçulmana”, escreveu ele no Asia Times.

“Para isso, irá realojar budistas e outros grupos étnicos nas aldeias dos Rohingya que têm sido abandonadas e/ou queimadas. Os muçulmanos que forem autorizados a regressar, como aconteceu em 1978 e 1991, após acordos de repatriamento assinados com o Bangladesh, enfrentarão um processo de ‘verificação’ tortuoso.”

Lintner está pessimista: mesmo que aumentem as pressões internacionais, “Rakhine será futuramente um estado com menos muçulmanos e mais budistas, onde os militares exercerão o controlo absoluto.”

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A letra “R”

O termo “Rohingya” terá sido registado pela primeira vez em 1799, quando o físico escocês Francis Buchanan publicou A Comparative Vocabulary of Some Languages Spoken in The Burma Empire, (“Vocabulário Comparativo de Algumas Línguas Faladas no Império Birmanês”.

Escreveu ele: “Devo incluir três dialectos […] derivados evidentemente da língua da nação hindu. O primeiro é o que é falado pelos Maometanos [muçulmanos], que há muito se estabeleceram em Aracão e se chamam a si próprios ‘Rooinga’, ou nativos de Aracão”.

Rooinga ou Rohingya provirá, assim, de “Rohang”, palavra da língua Bengali, usada (no Bangladesh e no estado indiano de Bengala Ocidental) para referir Aracão.

Os vários rostos do Islão

Os Rohingya, que garantem ter chegado ao antigo reino de Aracão, hoje estado de Rakhine, nos séculos XV e XVI, não são os únicos habitantes muçulmanos de Myanmar/Birmânia, onde o Islão segue a ortodoxia sunita.

O grupo mais antigo, o dos Muçulmanos Bamar ou Birmaneses, faz remontar as suas origens ao século VIII. Os antepassados terão aqui chegado como mercadores, servos da corte ou mercenários.

São conhecidos como Pathi ou Zerbadi, isto é, “filhos de mãe birmanesa e pai muçulmano”, indiano ou persa. Consideram-se integrados na sociedade e mais próximos dos budistas birmaneses, étnica, linguística e culturalmente, do que dos restantes muçulmanos.

Há também uma pequena comunidade de Muçulmanos Chineses, os Panthay, que reside sobretudo em Mandalay, a segunda maior cidade e última capital real da Birmânia, no norte.

Uns chegaram no século XIII, mas a maior parte é descendente dos que, no século XIX, escaparam para a Birmânia após o colapso do Sultanato de Yunnan.

Dois outros grupos são os Kaman ou Kamein, que vivem em Rakhine, e os Pashu ou Muçulmanos Malaios, que habitam maioritariamente em Kawthaung, no sul.

Os Rohingya, apátridas desde a Lei da Cidadania de 1982 e os únicos excluídos da lista de 135 “raças nacionais” em vigor desde o censo de 2014, concentram-se em cinco povoações do norte de Rakhine: Maungdaw, Buthidaung, Akyab, Sandaway, Tongo, Shokepro, Bashong e Kyauktaw.

O Papa Francisco e a líder de facto da Birmânia, Aung San Suu Kyi, durante a sua visita a Naypyidaw, em Novembro de 2017
© AFP

A difícil visita de Francisco

Cerca de 700 mil católicos vivem em Myanmar (Birmânia), país que, de 27 a 30 de Novembro [de 2017], recebeu a primeira visita de sempre de um papa. “Quero confirmar esta comunidade na fé em Deus e no testemunho do Evangelho, que ensina a dignidade de cada homem e mulher, e nos exige abrir os corações aos outros, sobretudo os pobres e necessitados”, disse Francisco, antes de partir para a viagem pastoral que incluiu também o Bangladesh (de 30 de Novembro a 2 de Dezembro).

A comunidade católica birmanesa, pequena mas importante, foi fundada por missionários portugueses vindos de Goa (Índia) em 1510. Representa cerca de 1,4% da população dos mais de 55 milhões de habitantes deste Estado do Sudeste Asiático, onde 89% são budistas, 6% cristãos (a maioria protestantes), 4% muçulmanos e 1% hindus.

Os descendentes dos portugueses são conhecidos como Bayingyi, termo derivado do persa farenji ou “estrangeiro” e ainda muito usado na região do Oceano Índico. Noventa por cento dos católicos birmaneses pertencem aos grupos étnicos Karen, Chin, Kachin, Chin, Shan e Kaw. Segundo o Vaticano, há em Myanmar 16 dioceses, quase 900 padres e 2000 religiosas.

“A Igreja tem [aqui] vivido pacificamente com todas as religiões, e tem sido muito activa na construção da nossa nação, sobretudo através da assistência na educação e na saúde”, disse, numa entrevista ao site cruxnow.com, Charles Maung Bo, o primeiro cardeal de Myanmar, nomeado pelo Papa em Fevereiro de 2015.

Porque a situação é “incendiária”, Bo aconselhou o Bispo de Roma a evitar o termo “Rohingya” durante a sua visita, e convenceu-o a incluir na agenda dois encontros não previstos inicialmente. Um, “de natureza privada”, com o chefe do poderoso Exército birmanês, em Yangon. Outro, com um grupo de refugiados, numa reunião inter-religiosa no Bangladesh.

O encontro com Ming Aung Hlaing foi interpretado como sinal de que as operações militares que o general supervisiona pessoalmente contra os Rohingya são vistas, pela Santa Sé, como “distintas da vontade política” da chefe do Governo birmanês, Aun San Suu Kyi.

O cardeal Bo descreveu a Nobel da Paz 1991 como “a única capaz de salvar a democracia” no país.

Refugiados Rohingya rezam com o Papa Francisco durante um encontro inter-religioso em Daca, no Bangladesh, em 1 de Dezembro de 2017. O chefe da Igreja Católica não falou deles na Birmânia, mas aqui ouviu as suas histórias e pediu perdão. “A presença de Deus também se chama Rohingya”, disse o Bispo de Roma
© Vincenzo Pinto | AFP

Este artigo foi  publicado originalmente na revista ALÉM-MAR, Edição de Dezembro de 2017 | This article was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, December 2017 edition

May e Merkel: Líderes da nova “femocracia*”

São conservadoras e ambiciosas. Quebraram tabus sociais e políticos para chegar à liderança. O colapso do Muro de Berlim foi o início do poder de Angela Merkel na Alemanha. O Brexit, vaticinam alguns, poderá ser o fim do governo de Theresa May no Reino Unido. (Ler mais| Read more...)

© Bernd Von Jutrczenka | AFP | Getty Images | The Irish Times

Theresa May era ainda uma criança e já sonhava ser a primeira chefe de Governo do Reino Unido. Ficou irritada quando Margaret Thatcher ocupou esse lugar em 1979.

Aos 30 anos, Angela Merkel planeava a reforma, aos 60, esperando que o regime comunista de Erich Honecker a deixasse viajar para a Califórnia. Hoje, a chanceler alemã é “a mulher mais poderosa do mundo”, enquanto a primeira-ministra britânica luta pela sobrevivência política.

Reeleita em Setembro para o seu quarto mandato desde 2000, a Bundeskanzlerin não só ultrapassou a década de poder da “Dama de Ferro” como a substituiu como modelo de referência. Quando May sucedeu a David Cameron, em 2016, foram mais os que a compararam a Merkel do que a Thatcher.

“Sempre que há duas mulheres em posições de liderança, automaticamente se presume que se tem de fazer uma comparação directa, mas não nos lembraria comparar os líderes francês e italiano, por exemplo”, observa Mónica Dias, professora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica de Lisboa.

“Só se compreendem estas comparações porque, de facto, a nível de chefes de governo ou de Estado, a política continua a ser, predominantemente, plataforma dos homens.”

© AP |newindianexpress.com

Quase todas as biografias de May e Merkel enfatizam dois pontos em comum: são ambas filhas de clérigos e não têm filhos.

Mas se a família moldou o que Mónica Dias define como “valores conservadores, de responsabilidade, austeridade e preocupação social”, não foram apenas os berços que ditaram as suas histórias de vida.

Angela Merkel, a mais velha dos três filhos do pastor luterano Horst Kasner, nasceu em Hamburgo em 1954, quando a Alemanha se dividia entre uma república federal (RFA) e uma república democrática (RDA).

Contra a vontade da mãe, a professora Herlind, e fazendo o caminho inverso dos que fugiam para o ocidente, o pai mudou-se para Templin, no leste sob domínio soviético. Eram uma elite com alguns privilégios, olhada com desconfiança.

Rapariga trapalhona, sempre a tropeçar, roupas sem jeito nem cor, um “penteado impossível”, sem despertar interesses românticos, Angela evitava desafiar o sistema, “com medo dos danos que isso poderia causar”.

Concentrou a energia nos estudos. Licenciou-se em Física e doutorou-se em Química Quântica. Ganhou três olimpíadas de língua russa.

A 9 de Novembro de 1989, quando caiu o Muro de Berlim, já divorciada do físico Ulrich Merkel e casada com o químico Joaquim Sauer, Angela manteve a rotina de quinta-feira, dia de sauna e de beber cerveja com os amigos.

Só à noite se juntou à multidão que celebrava no checkpoint de Bornholmer Strasse. Mas não ficou por lá. Regressou a casa porque, no dia seguinte, tinha de voltar ao trabalho na Academia das Ciências.

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Surpreende esta aparente indiferença, mas a realidade é que saberia tirar proveito da liberdade. Um mês após o colapso do muro, juntou-se ao novo partido Aurora Democrática, que a nomeou vice-porta-voz Lothar de Mazière, primeiro-ministro até à reunificação.

Foi ele que a aconselhou a abandonar o “estilo típico de cientista da RDA: sandálias à Jesus Cristo, saias largueironas e cabelo cortado à tijela”. E foi ele que recomendou a Helmut Kohl, da CDU, em Bona, que a levasse para o seu governo, depois de eleita deputada, em 1990.

Kohl nomeou-a ministra da Mulher e da Juventude, e chamou-lhe mein Mädchen (“minha rapariga”). Não era um cargo que a entusiasmasse. Aceitou-o porque lhe interessava o poder.

Em 1999, com o mentor envolvido num escândalo de contas secretas, ela fez o inimaginável. Publicou um artigo exortando a CDU a “seguir em frente sem o seu cavalo de batalha”.

Em 2000, Wolfgang Schäuble, delfim do “chanceler eterno”, entregou-lhe a presidência do partido. Em 2005, ela derrotou Gerhard Schröder, o “vaidoso” social-democrata que tantas vezes a humilhara com “comentários machistas”.

Introduziu uma mudança geracional e de costumes numa sociedade onde, durante séculos, o papel da mulher se resumia a “três K”: Kinder (filhos), Kirche (igreja) e Küche (cozinha).

Indiferente à moda, impôs os seus “power suits” em todas as cores, conjuntos de calça e casaco de três botões desenhados pela inseparável estilista Bettina Schoenbach, para grande desgosto de Karl Lagerfeld.

O que faz ela com a roupa velha? Usa-a. Em 2014, apareceu no festival de Bayreuth com a mesma túnica que já havia envergado em 1996 e 2002. Só não repetiu o vestido decotado que, em 2008, levou à inauguração da nova ópera de Oslo (Noruega) e que suscitou títulos nos jornais, como “Merkel mostra o peito”.

Helmut Kohl e Angela Merkel, em 2005
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David Cameron e Theresa May, em 2007
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Ninguém verá Merkel com fatos de Vivienne Westwood, sapatos kitten heels de padrão tigresse, botas de cano alto e casacos artsy, imagem registada da fashionista Theresa May. Também não ostentará a T-shirt com que a líder britânica proclamou “This is what a feminist looks like”.

A chanceler não faz do feminismo uma bandeira, mas tem tomado medidas para diminuir a desigualdade, obrigando as empresas, por exemplo, a ter pelo menos 30% de mulheres nas administrações, embora o fosso salarial ainda seja de 21,3%.

À primeira-ministra britânica, que criou o grupo Women2Win, também é devido o mérito de ter encorajado maior participação das mulheres na política e no mercado de trabalho – o que Margaret Thatcher recusou fazer –, e de ter tomado medidas de combate à violência doméstica e ao tráfico sexual.

A grande força de Merkel reside, porém, no modo como, “desde o início, soube controlar o seu partido – antes de chefiar o governo já estava à frente da CDU”, salienta Mónica Dias.

Angela “apunhalou” Kohl, esperou para ver a queda de Edmund Stoiber, o bávaro da CSU que perdeu as eleições em 2007, e manteve Schäuble por perto para não a prejudicar. Theresa, pelo contrário, tornou-se chefe dos Tories e primeira-ministra só após a demissão de Cameron.

“Não passou pela aprendizagem do jogo de bastidores que Angela Merkel domina com mestria, perita em eliminar ou domesticar os que lhe fazem frente. Nunca conseguiu silenciar os rivais. A decisão de avançar para eleições [em Junho], perdendo a maioria, foi um enorme fracasso.”

“É líder por exclusão: Se Boris Johnson [ministro dos Negócios Estrangeiros e suposto instigador de uma rebelião interna] tivesse querido assumir a chefia, ela não estaria aqui.”

E, no entanto, a única filha de Zaidee Mary e Hubert Brasier, vigário da Igreja Anglicana, neta de serviçais domésticas, educada no “espírito do serviço público”, há muito que se preparava para chegar ao topo. “Que me lembre, ela sempre teve ambições políticas”, disse à BBC um ex-colega, Pat Frankland.

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Theresa Brasier nasceu em 1956, dois anos depois de Merkel, em Eastbourne, sudeste de Inglaterra, mas cresceu no condado rural de Oxfordshire.

Frequentou uma escola primária pública, um colégio feminino católico e uma gramar school, liceu onde os alunos são seleccionados por mérito, antes de ingressar na Universidade de Oxford.

Foi aqui que conheceu o marido, Philip May, estrela em ascensão entre os jovens conservadores. Ele estudava História e foi presidente da Oxford Union Society, “o lugar onde se aprende a governar” e de onde saíram sete primeiros-ministros.

Concluída a licenciatura em em Geografia, Theresa foi trabalhar para Londres, primeiro no Banco de Inglaterra e depois na Unidade de Assuntos Europeus de uma instituição financeira. Ao contrário de Philip, que permaneceu na City, ela via o seu futuro apenas na política.

Em 1986, foi eleita vereadora no conselho londrino de Merton, mas só chegou a deputada em 1997 – ano do triunfo do Labour de Tony Blair.

Em 2002, após integrar vários “governos sombra”, tornou-se na primeira presidente da bancada dos conservadores, exortando-os a modernizar-se e a deixar de ser um “nasty party”.

Em 2010, quando os Tories voltaram ao governo, David Cameron deu-lhe a pasta do Interior. Ela não era parte do seu círculo restrito, mas também não constituía ameaça “num departamento que tinha sido o cemitério de muitas carreiras políticas”.

May quebrou o recorde de longevidade no cargo, fazendo do ministério reduto pessoal onde quem era desleal podia esperar vingança. Um antigo ministro chamou-lhe bloody difficult woman. Impôs políticas duras, umas elogiadas (contra o terrorismo) e outras censuradas (redução de efectivos da polícia).

Como primeira-ministra, o balanço é menos positivo. “Ainda não concretizou nada, não tem nenhum sucesso e já está há um ano no poder”, comenta a analista da Universidade Católica.

Uma das críticas recorrentes, sobretudo desde que começaram as negociações do Brexit, é a de que Theresa May “arrasta os pés” até anunciar uma decisão. É um ponto em comum com a chanceler em Berlim. Os alemães inventaram até um verbo para definir a sua (in)acção: merkeln.

“Angela Merkel decide sempre no limite”, constata Mónica Dias. “Perante uma crise, vai partindo pedra, esperando que a situação se resolva. É mestre do jogo táctico. Só muda ou recua se não for possível outra coisa.”

“Foi assim em relação ao nuclear [só desistiu após o acidente na central de Fukushima] ou à Grécia [que salvou in extremis]. É pragmática, mas isso tem muito a ver com a cultura alemã. Os alemães chamam-lhe mãezinha (Mutti).”

“Isto não é possível na Inglaterra. Theresa May nunca será ‘mãezinha’ dos britânicos”, mesmo que sobreponha os interesses nacionais aos da Europa. Angela Merkel, que abriu as fronteiras a um milhão de refugiados para não regressar aos tempos da Cortina de Ferro, “está a tornar-se melhor com o tempo. Theresa May não vai ter tempo.”

[No dia 24 de Julho de 2019, Boris Johnson substituiu Theresa May na chefia do Governo. A primeira-ministra perdeu a batalha do Brexit.]

* O termo *femocracia”  foi usado por Von Mara Delius, num artigo publicado no jornal alemão “Die Welt” e citado pelo diário britânico “The Guardian“, para descrever três mulheres que, em seu entender, “vieram limpar a confusão gerada por homens”: Theresa May, Angela Merkel e Nicola Sturgeon, primeira-ministra escocesa”.

Eles não são donos de casa

Philip May, conservador como Theresa, trocou a política pelo mundo dos negócios
© Adam Gerrard | Daily Mirror

Joachim Sauer, segundo marido de Angela Merkel, é químico como ela
© Sean Gallup | Getty Images Europe

Dennis Thatcher dizia que não se importava de ficar em segundo plano, se necessário segurar até numa das famosas malas Asprey que acompanhava Margaret, a “Dama de Ferro”, em cerimónias oficiais e que ela descrevia como “armas secretas”. (Uma dessas malas foi leiloada pela Christie’s, em 2011, por o equivalente a 280 mil euros)
© AP | The Independent

A definição que Denis Thatcher dava de marido perfeito de uma primeira-ministra era “always present, never there”.

E ser visto sem ser ouvido tem sido o lema de Philip May e Joachim Sauer. Philip conheceu Theresa Mary (Brasier) em 1976 na Universidade de Oxford, onde foram apresentados por Benazir Bhutto, que seria a primeira mulher na chefia do governo do Paquistão.

Casaram-se em Setembro de 1980. Ele tinha 22 anos, ela 23. Philip desistiu da política para ser banqueiro. Como director executivo de uma das mais poderosas instituições financeiras, Capital Group, controla milhões de libras de fundos, incluindo as acções da Amazon e Starbucks.

Joachim Sauer, por seu turno, não deixou o mundo académico. É professor de química quântica na Universidade Humboldt de Berlim. Conheceu Angela Dorothea (Kasner) Merkel em 1981 na Academia de Ciências.

Eram ambos casados. Ele, cinco anos mais velho e com dois filhos, divorciou-se em 1983; ela em 1985, mantendo o apelido do primeiro marido, Ulrich Merkel. Casaram-se em 1998, para silenciar os que criticavam a união de facto de uma líder democrata-cristã.

Para a imprensa alemã, Joachim é “invisível como uma molécula” – apenas dá entrevistas como cientista. Também lhe chamam “fantasma da ópera”, porque quase só acompanha a mulher em público no festival de Bayreuth. É ele que compra os bilhetes com o seu cartão de crédito.

© Michele Tantussi | Getty Images

ANGELA MERKEL

  • Nasceu em 1954, em Hamburgo
  • É doutorada em Física Quântica
  • Foi deputada e duas vezes ministra até ganhar a liderança da CDU em 2000
  • Ganhou a chancelaria em 2005; foi reeleita em 2009, 2013 e 2017
  • Não falta às óperas de Wagner em Bayreuth, adora caminhadas, culinária (sopa de tomate e bolo de ameixa são especialidades) e futebol. Só tem medo de cães.

THERESA MAY

  • Nasceu am 1956, em Eastburn (Sussex)
  • Licenciou-se em Geografia em Oxford
  • Em 2016, assumiu a liderança dos Tories e a chefia do Governo após a vitória do Brexit e a demissão de David Cameron; foi reeleita sem maioria em 2017
  • É diabética, com necessidade de duas injecções diárias de insulina
  • Adora ouvir Mozart e Elgar, gosta de cozinhar (tem mais de 100 livros de receitas) e é fascinada por moda

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Este artigo, agora actualizado e com um título diferente, foi publicado originalmente na revista MÁXIMA, edição de Novembro de 2017 | This article, now updated and under a different headline, was originally published in the Portuguese magazine MÁXIMA, November 2017 edition

Arábia Saudita: Conduzir sim, comemorar não

Um decreto real reconhece um direito há muito negado às mulheres. Mas as pioneiras que esperavam clamar vitória após duas décadas de luta estão a ser forçadas ao silêncio. Ninguém pode tirar protagonismo a MBS, o príncipe herdeiro. (Ler mais | Read more…)

Rauza Khan, amiga de Loujain al-Hathloul, uma activista presa e torturada por ordem do príncipe herdeiro MBS, exibe uma camisola com a inscrição “Libertem Loujain” durante uma sessão de fotografias para parodiar a imagem da capa da revista Vogue Arabia, em Junho de 2018, que exibia uma princesa ao volante do seu automóvel
© Doaa Jamal | NPR

A cientista biomédica Hala Al-Dosari tinha todas as razões para festejar quando o rei da Arábia Saudita “deu licença” às mulheres para conduzirem. Há 27 anos que ela e outras activistas reivindicam este direito, algumas arriscando a vida, mas o que exprimiu foi um “sentimento ambivalente”.

“Fico feliz por as mulheres poderem agora movimentar-se sem se preocupar com logística e custos desnecessários, e que possam beneficiar de autonomia, ainda que relativa, na forma como gerem as necessidades do dia a dia fora de casa”, diz-me, numa entrevista por e-mail.

“Mas não estou feliz com o modo como tem sido tratada a questão dos direitos das mulheres. É terrível que activistas estejam a receber telefonemas da Casa Real para não se envolverem em política.”

“Foram os esforços de sensibilização dessas activistas que colocaram na agenda as reivindicações das mulheres, e que despertaram a consciência pública para a urgência de reformas. O Estado e os seus representantes estão a anular o protagonismo e o contributo delas para que só eles possam decidir em nome das mulheres e da sociedade.”

A denúncia de Hala Al-Dosari, investigadora no Radcliff Institute for Advanced Studies da Universidade de Harvard, foi implicitamente reconhecida pela académica Hatoon Al-Fassi, que também aceitara dar-nos uma entrevista mas, no dia seguinte, como combinado, não respondeu às perguntas.

Na sua página de Facebook justificou e reprovou: “Infelizmente, estamos proibidas de exprimir a nossa alegria. (…) Silenciar-nos não interessa a ninguém”.  Al-Dosari vive nos EUA; Al-Fassi, na Arábia Saudita [onde, à semelhança de outras activistas, seria presa, no verão de 2018, por ordem do príncipe herdeiro, Mohammed Bin Salman (MBS), avesso a críticas, e só seria libertada em Maio de 2019.]

Só em 2019 é que a Arábia Saudita começou a desmantelar a infame lei do “guardião masculino”. As mulheres, tratadas como “segunda classe”, já não precisam de licença do pai, marido, irmão ou filho para requerer passaporte e viajar, registar casamento, divórcio ou nascimento de um filho. E as mães já podem ter também a custódia dos filhos
© The Guardian

Censura e repressão têm sido a resposta das autoridades desde que, em 1990, as sauditas se ousaram revoltar-se, exigindo os mesmos direitos das mulheres do exército americano que, para proteger o Kuwait do Iraque de Saddam, circulavam livremente nos seus jipes pelas ruas de Riade, a capital.

As 48 mulheres do primeiro grupo a desafiar uma convenção social, que só então se tornaria fatwa (édito religioso), perderam os seus empregos e foram proibidas de deixar o país. Seguiram-se outras campanhas em 2003, 2011 e 2013.

Os protestos ganharam visibilidade nas redes sociais. Pioneiras como Manal al-Sharif, um dos principais símbolos deste movimento de desobediência civil, foram ameaçadas, insultadas, presas e/ou empurradas para um “exílio voluntário”. A mais recente detenção, em 4 de Junho, foi a de Loujain Al-Hathloul, que já tinha passado pela cadeia em 2014.

O decreto real, anunciado no final de Setembro, só entrará em vigor a partir de Junho de 2018.   Talvez nessa altura já esteja no trono Mohammad bin Salman (MbS), o príncipe herdeiro que lançou o ambicioso programa Visão 2030, para modernizar o “pior dos piores” Estados repressivos do mundo segundo a Freedom House.

[Em 15 de Dezembro, as autoridades anunciaram que as mulheres seriam também autorizadas a conduzir camiões e motociclos. Não haverá matrículas especiais para os veículos que elas conduzam, mas as mulheres envolvidas em acidentes de viação ou que desrespeitem as regras de trânsito terão de comparecer em “centros especiais criados e geridos por outras mulheres”.]

O principal argumento para afastar as mulheres do volante era o de que esta liberdade, a que se opunham príncipes e pregadores poderosos, contrariava a rígida doutrina islâmica (wahhabita) que está na base da criação da Casa de Saud.

Em Janeiro de 2018, as mulheres sauditas foram autorizadas a entrar nos estádios de futebol. Na foto, uma fã celebra essa liberdade durante o jogo entre as equipas Al-Ahli e Al-Batin, em Jidá, a mais liberal das cidades do reino
© Reem Baeshen | Reuters

Hala Al-Dosari, estudiosa da dinâmica de género como determinante de saúde na Arábia Saudita, esclarece: “A família real nunca foi refém da religião. A religião é que tem sido refém do Estado. A família real controla o acesso, a filiação e a narrativa dos teólogos.”

Com MbS, o Estado teve de deixar de invocar a religião e passar citar a economia, “porque precisa de legitimidade para, acima de tudo, eliminar da cena política movimentos islâmicos concorrentes, como a Irmandade Muçulmana, distanciando-se dos fundamentalistas radicais.”

Não é possível alcançar a necessária “parceria global para atrair investimentos” sem mobilizar os jovens e as mulheres, salienta Al-Dosari. É por isso que MbS, o arquitecto da guerra do Iémen e do boicote ao Qatar, aliado de Trump e inimigo do Irão, está a abrir portas que sempre estiveram aferrolhadas.

Antes dele, as mulheres já tinham sido autorizadas a competir nos Jogos Olímpicos (2012) e a participar em eleições locais (2015). Mas ele foi mais longe: num país onde a segregação de sexos é obrigatória e o divertimento é haram (ilegal), organizou uma festa nacional sem precedentes no 87º aniversário da unificação do reino.

A princesa Reema bint Bandar Al Saud tornou-se, em Fevereiro de 2019, a primeira embaixadora saudita. Chefia a missão diplomática em Washington
© CNN

As mulheres entraram pela primeira vez num estádio de futebol e uma delas, de rosto descoberto, juntou-se em palco a dezenas de homens que cantavam e dançavam. Muitos súbditos mostraram-se horrorizados, mas os dissidentes, nas mesquitas e media, que podiam ameaçar o futuro rei já haviam sido neutralizados.

Para diversificar uma economia até agora dependente do petróleo – a Arábia Saudita é o maior produtor mundial –, MbS precisa de facilitar o acesso das mulheres (52% dos licenciados nas universidades) ao mercado de trabalho. Em 2016, o recrutamento de motoristas estrangeiros custou às famílias mais de 3700 milhões de dólares.

“Precisamos de mais mulheres na força activa e ajudará se elas puderem conduzir”, afirma Hala Al-Dosari. “A presença de mulheres no mercado de trabalho irá, seguramente, melhorar a sua situação em todos os sectores, encorajando reivindicações de mais autonomia no que diz respeito ao sistema do ‘guardião masculino’. As universidades já começaram a autorizar que as mulheres deixem as instalações sem necessidade de autorização do guardião, e espero que o mesmo aconteça noutros lugares.”

Até isso acontecer, as mulheres continuarão a precisar que o pai, o irmão, o marido ou até o filho menor lhes dê licença para acções tão simples como requerer um passaporte ou abrir uma conta bancária.

Em Abril de 2018, a Arábia Saudita realizou a sua primeira Fashion Week, em Riade – uma cerimónia só para mulheres em que participaram criadores como Jean Paul Gaultier
© Kristy Sparow | Arab Fashion Council

Estrangeiros, só os carros

A sorte das mulheres sauditas, autorizadas a conduzir, será o azar dos seus motoristas, cerca de 800 mil, a maioria do Sul da Ásia.

Com os preços do petróleo em baixa (de 100 para 30 dólares o barril) e os custos da guerra no Iémen em alta (6000 milhões de dólares por mês), a sobrevivência do reino depende do fim da dependência de trabalhadores estrangeiros. Estes começaram a chegar no final dos anos 1930, quando se iniciou a prospecção nas primeiras jazidas, e em 2013 (censo mais recente) ascendiam a uns 9 milhões.

Os motoristas ao serviço de 8 milhões de mulheres dos 15 aos 54 anos ganham cerca de 400 dólares por mês, salário complementado com alojamento, refeições, saúde e seguros gratuitos. Estes condutores, mas também os dos táxis e da Uber, maioritariamente procurados por uma clientela feminina, não serão os únicos penalizados pela Visão 2030 do príncipe herdeiro, Mohammad bin Salman, de “nacionalizar” e diversificar a economia.

Em Maio e Julho, milhares de indianos, paquistaneses e bangladeshis foram despedidos por dois dos maiores conglomerados no Golfo Pérsico, Saudi Oger e o grupo Bin Laden. Sem salário e a passarem fome nas ruas, precisaram de ajuda externa de emergência porque as autoridades nacionais não intervieram.

Na Arábia Saudita, segundo o sistema kafala, um trabalhador não pode mudar de emprego nem voltar à pátria sem permissão do patrão, que geralmente confisca os seus passaportes à chegada. Para a Organização Mundial do Trabalho, esta prática equivale a “uma forma contemporânea de escravatura”.

O infortúnio dos motoristas e de outros cujas famílias pobres dependem das suas remessas será, por outro lado, a fortuna dos fabricantes de automóveis estrangeiros num país que já é o maior importador de veículos da região. Com 9 milhões de potenciais condutoras, incluindo mulheres não residentes, espera-se um aumento de 50% das vendas, e de carros de luxo em particular, que já totalizam 600 mil unidades anuais.

Amirah al-Turkistani, designer gráfica saudita em Riade, a fazer o que até 2017 era impensável: uma mulher andar de bicicleta
© Reem Baeshen | financetime.org

Este artigo, agora actualizado, foi originalmente publicado no jornal EXPRESSO, edição de 7 de Outubro de 2017 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, October 7, 2017 edition

Mulheres nas autarquias: Uma luta (ainda) desigual

Nos 308 municípios de Portugal, a lei da paridade progride muito lentamente. Mas há mudanças significativas desde as históricas eleições locais de 1976. Maria Odete Isabel e Maria de Lurdes Breu, duas das cinco primeiras presidentes de câmara, contam como foi chegar ao poder executivo, na Mealhada e em Estarreja. (Ler mais | Read more…)

Em 1976, na “muito conservadora” Mealhada, cidade do distrito de Aveiro “que a estrada nacional ainda divide entre uma zona proleta e uma burguesa”, Maria Odete Isabel decidiu concorrer às primeiras eleições locais, em 12 de Dezembro. “Para saber o que conseguiria realizar com o poder.”

Farmacêutica, “a segunda ou terceira” mulher da sua terra a licenciar-se, era membro do então Conselho de Gerência do Centro Hospitalar de Coimbra.

O primeiro a quem comunicou a decisão foi o presidente, Santana Maia, futuro bastonário da Ordem dos Médicos. “Nem pense nisso, menina!”, sentenciou ele. “Deixe as autarquias para outros.”

O pai, “que era do [então] PPD, porque se dizia que o Sá Carneiro segurava o dinheiro”, teve uma reacção ainda mais desencorajadora.

“Sentado à mesa da cozinha, pôs as mãos na cabeça e exclamou: ‘Oh meu Deus, o que vou fazer com esta filha? Aqui só vais arranjar inimigos, e eu não te reconhecerei presidente da câmara”, conta-me Maria Odete Isabel, numa entrevista, por telefone.

A mãe, “que gostava do Mário Soares, porque ele tinha lutado contra Salazar, que a impedira de saber ler e escrever”, afastou-lhe o medo. “Por que não? Diz às pessoas [sobre a candidatura] e vai para a frente.”

Um relutante Santana Maia convenceu-se: “A menina vai, mas com bilhete de ida e volta. Se ganhar, faz um mandato e volta para os hospitais.”

“Fui eleita e, mesmo que as outras [candidatas] não gostem, afirmo, sem presunção, que fui a primeira mulher presidente de câmara”, sublinha Maria Odete. “A primeira, por mérito das circunstâncias.” O PS foi o partido que ficou em primeiro lugar a nível nacional, mas não no distrito de Aveiro.

As “outras” foram as “aveirenses” Maria de Lurdes Breu, do PSD, presidente em Estarreja durante cinco mandatos, até 1993, e Alda Santos Victor, que governaria Vagos durante três mandatos, os dois primeiros pelo CDS e o último pelo PPM; a independente, na lista do PS, Judite Mendes Abreu, em Coimbra (morreu aos 91 anos, em 2007); e Maria Francelina Chambel, que venceu em Sardoal (Santarém) o primeiro de cinco mandatos.

Estas cinco eleitas foram as únicas mulheres que se candidataram em 1976. Há 41 anos, Portugal tinha menos um milhão de habitantes e menos quatro municípios – não tinham ainda sido criados os de Santa Maria da Feira, em Aveiro, Amadora e Odivelas, em Lisboa, e Vizela, em Braga.

O PPD mudara de nome (para PSD) em Outubro. O PCP criara de propósito a coligação FEPU (Frente Eleitoral Povo Unido), de que fazia parte o MDP-CDE e a FSP.

Nas  autárquicas de 1 de Outubro, 246 mulheres disputa(ra)m a presidência de 308 câmaras. Em 2013, conquistaram apenas 23 – e só em duas sedes distritais (Portalegre e Setúbal). Uma das eleitas, em Odivelas, cedeu funções para ser deputada.

No entanto, outras duas fizeram o caminho inverso, em Alvaiázere/Leiria e em Lagoa/Açores. Em 2015, substituíram os predecessores eleitos e agora [em 2017]  procuram legitimar o poder pelo voto popular.

“Não sou adepta de quotas, porque não quero ser igual aos homens”, declara Maria Odete Isabel. “Sou diferente. Reclamo os mesmos direitos e deveres para fazer as coisas à minha maneira, embora reconheça que sem a muito útil lei da paridade nem estas candidatas teríamos. Evoluímos, mas a progressão tem sido muito lenta”.

Basta ver os números. Entre 1976 e 2013 foram eleitos, no continente e nas regiões autónomas, 3249 homens e 121 mulheres presidentes de câmara (4 em 1979; seis em 1982; quatro em 1985; cinco em 1989; cinco em 1993; doze em 1997; 17 em 2001; 19 em 2005; e 24 em 2009).

[Em 2017, foram eleitas 32 mulheres, apenas duas em capitais de distrito – Portalegre e Setúbal.]

A lei da paridade, aprovada em 2006, só a partir de 2018 obrigará à representação mínima de 33,3% de cada um dos sexos na composição das listas para os órgãos de freguesia com 750 ou menos eleitores e para os de municípios com 7500 ou menos.

Maria Odete Isabel, 77 anos, considera que “as mulheres são, parcialmente, responsáveis por o direito à igualdade, consagrado na Constituição”, não ser respeitado.

“Muitas mulheres ainda continuam a criar os filhos para o serviço público e as filhas para a maternidade. Quando nasce uma menina, dão-lhe bonecas e tachos para brincar; quando nasce um menino, dão-lhe carros e motas.”

Ela foi “sempre uma mulher livre”. Nasceu na pequena aldeia de Montouro, freguesia de Covões, concelho de Cantanhede.

“Os meus pais, comerciantes de peixe, ambos analfabetos, instalaram-se na Mealhada quando eu tinha mais ou menos 2 anos. Era um tempo de pobreza em que as crianças eram criadas na rua. O meu espaço era um recinto enorme junto ao mercado.”

“A mãe desejava que eu e a minha irmã mais nova aprendêssemos a ler. Fui uma aluna estudiosa. Acabada a 4ª classe, o pai opôs-se à minha admissão ao liceu. Precisava de braços para trabalhar. A professora fez um pacto: se eu não chumbasse, ele não me retirava da escola.”

Entrou num dos raros liceus mistos na época. Aos 11 anos, o pai deu-lhe “um arraial de porrada à frente de todos”, quando a viu jogar à bola com rapazes. Enviou-a para um colégio interno em Famalicão. “Tive a sorte de encontrar freiras que não me domavam.”

Quando saía, “levava uma tesoura nas cuecas, para matar e dissecar as rãs” de um riacho da quinta nas redondezas.

Descobriu assim “a vocação para cirurgiã”, criticada por um médico amigo da família: “Desgraçados dos teus pais, sem possibilidades para pagarem o curso. Além disso, és mulher e não tens mãos para operar.”

Maria Odete Isabel aceitou a sugestão de seguir Farmácia, desde que pudesse completar a licenciatura (5 anos) e não apenas o bacharelato, indo directamente para o Porto, sem passar por Coimbra.

Foi viver para um lar de freiras, mas “gostava de tudo o que fosse agitar” e inscreveu-se logo na Juventude Operária Católica (JUC), presidida por Maria de Lourdes Pintasilgo. “Devo-lhe muito as linhas orientadoras da minha vida.”

Em 1964, terminado o curso, com Maria Odete abrigada na casa da madrinha em Lisboa, o pai fizera um ultimato: “Tens um mês para organizar a vida, ou regressas.” Em busca de emprego, perdida nos corredores do Hospital de São José, foi parar ao gabinete do administrador, que aceitou contratá-la.

Começou a trabalhar no dia seguinte e aqui esteve seis anos. Seguiria depois para Coimbra, onde foi, durante 35, directora dos serviços farmacêuticos do Centro Hospitalar e dos Hospitais da Universidade.

Tão importante como esta carreira profissional, embalada pelo fervor revolucionário do 25 de Abril, foi a presidência da câmara bairradina.

Só exerceu um mandato de 3 anos (são 4 desde 1989), como prometera, embora em 2001, “revoltada com um desvio de ética” do PS, se tivesse candidato à frente do Movimento Odete Isabel (MOI). Sem êxito. O partido expulsou-a, mas depois pediram-lhe desculpas e homenagearam-na publicamente.

De 1976, recorda-se bem da campanha, “rua a rua”, e da sua equipa, que integrava “um pedreiro, um médico, o dono de um restaurante e um agricultor.”

Na primeira reunião pós-eleições, o secretário da anterior Comissão Administrativa criada após o 25 de Abril após a demissão forçada dos responsáveis municipais nomeados pelo Estado Novo, deixou clara a sua posição: “Vou pedir a transferência. Não concordo com as ideias da senhora.” Ela objectou: “Não autorizo! O senhor é fascista e nós [somos] socialistas, mas percebe de leis e eu não. Será o meu braço direito”.

A farmacêutica Maria Odete Isabel, do PS, foi eleita presidente da Câmara da Mealhada em 1976- Só exerceu um mandato (de três anos)

Sobre o seu legado, Maria Odete Isabel não tem dúvidas de que o mesmo se traduz “na cobertura total do [então denominado] ensino pré-primário [no seu concelho], algo que, naquela altura, só a Fundação Calouste Gulbenkian fazia”.

Nas primeiras décadas do Estado Novo, foram extintos os jardins de infância oficiais, preferindo as autoridades incentivar “a função educativa na família o apoio a instituições particulares”. Só a partir de 1977 são criadas as escolas de superiores de educação, e apenas em 1978/79 são inaugurados novos jardins de infância pertencentes à rede oficial do Ministério da Educação.

A ideia de Maria Odete incentivar a criação de infantários surgiu durante uma acção de campanha, na aldeia de Barcouço, quando viu crianças “a chorar em cestas, enquanto as mães faziam as vindimas”.

Eram tempos de desafio, concorda Maria de Lurdes Breu, 77 anos, nascida na freguesia de Lamede (Cantanhede) e eleita em Estarreja pelo PSD, a que aderiu em 1975, vindo a ocupar cargos em todos os seus órgãos locais, regionais e nacionais.

“Se, por um lado, reinava algum temor pelas inevitáveis escaramuças político-partidárias que iam surgindo, aqui e além, perante o desencontro dos vários projectos, [por outro], as eleições locais apareciam como um factor de reconciliação”, diz-me, em entrevista por e-mail.

“As mulheres foram, sem dúvida, as que mais contribuíram para o equilíbrio. Nas reuniões, em manifestações, nos sindicatos, no nascer dos partidos, na divulgação e defesa das grandes linhas que se ansiavam para um país acomodado à indiferença pela coisa pública.”

Os homens “tinham a primazia da intervenção” e não queriam aceitar “a intromissão e disputa de poder por parte das mulheres”, atesta Maria de Lurdes, que se candidatou “por mero acaso”, embora já militasse no sindicato dos professores.

Dera aulas até 1976, com passagens por Moçambique e África do Sul, onde coordenou a instalação do ensino primário na Associação da Colónia Portuguesa de Pretória.

A professora Maria de Lurdes Breu, do PSD, foi presidente da Câmara de Estarreja durante cinco mandatos, de 1976 até 1993

Em Estarreja, a estrutura do partido “não conseguiu convencer nenhum homem” a concorrer em 1976. “Fui convidada quando acompanhava o grupo encarregado de organizar o processo autárquico que acabava de receber mais uma nega. Talvez o cepticismo do convite me tenha perturbado, mas [também] empurrado com força para uma aventura fascinante que nunca esquecerei.”

As mulheres não foram, porém, as suas “grandes aliadas”, anota. “Depois sim, noutras campanhas, nos cinco mandatos [hoje só poderia exercer três], já era bem diferente, nomeadamente nas camadas jovens, cheias de alegria e vivacidade.”

Mesmo “sem tecnologias novas, Lei de Finanças Locais, fundos comunitários”, a autarca que Ramalho Eanes condecorou com a Ordem do Infante faz um balanço positivo. “Não tivemos facilidades, mas lançámos os alicerces, criámos as pontes, abrimos os horizontes de desenvolvimento, inovação e modernidade.”

Mais de quatro décadas após as primeiras autárquicas, “a intervenção feminina é mais robusta, informada e acutilante”, avalia Maria de Lurdes. Não graças ao “princípio paritário”, que ela considera “uma estratégia” e não “um meio” de conquista do poder. Mas porque as mulheres assumiram as “rédeas do futuro”.

Mais preparação, menos oportunidadesPorquê votar numa mulher para as autarquias? Maria Antónia Pires de Almeida, investigadora* e autora de dois importantes estudos sociológicos** em torno do poder local, dá-nos a resposta.

A desigualdade tem raízes profundas. Só em 1933, por exemplo, é que as mulheres foram autorizadas a ser membros dos concelhos municipais. Durante o Estado Novo, nunca o Ministério do Interior, com a prerrogativa de nomear os presidentes de Câmara, escolheu uma mulher.

Foi preciso chegar a 1974 para que fosse nomeada a primeira vice-governadora civil, porque havia “mais facilidade em ocupar posições secundárias do que posições primordiais”, esclarece Maria Antónia Pires de Almeida.

Apenas em 1980 é que tomou posse a primeira governadora civil (em Évora). Após o 25 de Abril, os antigos presidentes de Câmara – membros de elites económicas e sociais, a maioria dos quais não remunerados – foram demitidos por decreto, sendo substituídos por comissões administrativas integradas por “personalidades independentes, grupos e tendências políticas identificadas com o Movimento das Forças Armadas”.

O paradigma mudou radicalmente: desaparecia o “latifundiário administrativo” e emergiam novas profissões. No entanto, só nove mulheres (1,9%) foram incumbidas de presidir a estas comissões, embora já aqui se constatasse que elas tinham habilitações superiores às dos homens: 55,5% contra 49,2%.

Esta tendência foi aumentando a partir de 1976, ano das primeiras autárquicas: 55,3% desempenham, agora, “profissões intelectuais e científicas que exigem estudos universitários, sendo a maioria professoras”.

Ora, se elas estão mais bem preparadas, como explicar que só 24 dos 308 municípios tenham  mulheres na liderança executiva? “As estruturas partidárias, que continuam a ser clubes só para homens, são uma das principais barreiras”, explica Maria Antónia de Almeida.

Na Assembleia da República, onde se conseguiu, pela primeira vez, um terço de deputadas, em 2015 , “há mais cuidado em pôr as mulheres em lugares elegíveis”. A nível local, “as mulheres entram no jogo político quando as listas estão já concluídas.”

Outras razões: mulheres que, em várias regiões, continuam a depender de baixos salários para sobreviver e não arriscam perder o emprego por uma carreira política; mulheres que “não sacrificam a família”, porque cuidar dos filhos continua a ser uma “tarefa feminina” e sem apoios; e mulheres que, desiludidas com a “corrupção associada às autarquias”, não querem “manchar a sua imagem”.

A Lei da Paridade, aprovada em 2006, forçará partidos e poderá incentivar grupos de cidadãos a candidatar mais mulheres, mas ainda há muitos para quem as quotas “desvalorizam o mérito”. Os jovens, que poderiam ser uma força transformadora, “são os que mais sofrem com o desemprego e, desinteressados, optam pela abstenção.”

Vencidos os obstáculos, como é que as mulheres se podem distinguir no poder local? Não serão clichés sexistas dizer que “os homens governam com a razão e a mulher com o coração” ou que “as mulheres não têm ambições políticas, como os homens, apenas querem melhorar a sociedade?”.

Maria Antónia Pires de Almeida conclui: “Acredito que as mulheres têm maior sensibilidade para determinadas questões, como pôr em prática políticas contra a discriminação, de género ou de outra; proteger sectores mais vulneráveis da sociedade; e investir na educação e na saúde.

Comparar estilos ainda não é possível porque temos, primeiro, de provar que as mulheres têm valor. E essa oportunidade tem-lhes sido negada.”

* Centro de Investigação e Estudos de Sociologia-ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa

**O Poder Local do Estado Novo à Democracia: Presidentes de Câmara e Governadores Civis, 1936-2012; e Grupos de Cidadãos nas Autarquias Portuguesas.

As eleitas em 2017

© Diana Tinoco | ionline.sapo.pt

Maria das Dores Meira, em Setúbal, e Maria Adelaide Teixeira, em Portalegre (em baixo), primeira candidata por um grupo de cidadãos e a segunda pelo PCP/PEV, foram as únicas mulheres eleitas presidentes de câmara em capitais de distrito
© João Porfírio | ionline.sapo.pt

Das 246 mulheres candidatas a presidente da câmara em 1 de Outubro, foram eleitas 32, mais oito do que em 2009, mas só duas (re)conquistaram a liderança executiva de capitais de distrito: em Portalegre e em Setúbal. (Fonte: Ministério da Administração Interna)

AVEIRO: 2

Anadia: Maria Teresa Belém Cardoso: MIAP

Arouca: Margarida Correia Belém : PS

BEJA: 0

BRAGA: 0

BRAGANÇA: 3

Alfândega da Fé: Berta Ferreira Milheiro Nunes: PS

Freixo de Espada à Cinta: Maria do Céu Quintas: PPD/PSD

Mirandela: Júlia Maria de Almeida Rodrigues: PS

CASTELO BRANCO: 0

COIMBRA: 2

Cantanhede: Maria Helena Gomes de Oliveira: PPD/PSD

Góis: Maria de Lurdes de Oliveira Castanheira: PS

ÉVORA : 3

Arraiolos: Sílvia Cristina Tirapicos Pinto: PCP/PEV

Montemor-o-Novo: Hortênsia Menino: PCP/PEV

Mourão: Maria Clara Martins Safara: PS

FARO: 4

Lagos: Maria Joaquina de Matos : PS

Portimão: Isilda Maria Gomes : PS

Silves: Rosa Cristina da Palma: PCP/PEV

Vila Real de Sto. António : Mª da Conceição Cabrita: PPD/PSD

GUARDA: 0

LEIRIA: 0

Alvaiázere: Célia Margarida Gomes Marques: PPD/PSD

Castanheira de Pêra: Alda Maria de Carvalhos : PPD/PSD

Marinha Grande: Cidália Maria Rosa Ferreira : PS

LISBOA: 1

Amadora: Carla Maria Nunes Tavares : PS

PORTALEGRE: 3

Arronches: Fermelinda de Jesus Carvalho : PPD/PSD

Nisa : Maria Idalina Alves Trindade : PS

Portalegre: Maria Adelaide Teixeira : CLIP

PORTO: 3

Marco de Canaveses: Cristina Lasalete Cardoso Vieira : PS

Matosinhos: Luísa Maria Neves Salgueiro : PS

Vila do Conde: Maria Elisa de Carvalho Ferraz: NAU

SANTARÉM: 4

Abrantes: Maria do Céu Albuquerque: PS

Alcanena: Fernanda Maria Asseiceira : PS

Rio Maior: Isaura Maria Crisóstemo Morais : PPD/PSD-CDS/PP

Tomar: Anabela Gaspar de Freitas : PS

SETÚBAL: 2

Almada: Inês de Medeiros Victorino de Almeida : PS

Setúbal: Maria das Dores Meira : PCP/PEV

VIANA DO CASTELO: 0

VILA REAL: 0

VISEU: 0

MADEIRA: 1

Ponta do Sol: Célia Maria Pecegueiro : PS

AÇORES: 1

Lagoa: Cristina de Fátima Calisto : PS

As mayors do mundo

A primeira presidente de câmara do mundo, Susanna Madora Salter, de Argonia (Kansas), foi também a primeira mulher eleita para um cargo político nos Estados Unidos

Susanna Madora Salter (1860-1961), de Argonia, uma cidade que tem hoje cerca de 500 habitantes no estado americano do Kansas, terá sido a primeira presidente de câmara. Escolhida em 1887 pelo Partido Proibicionista, que se opunha à venda e consumo de bebidas alcoólicas, foi também a primeira mulher a desempenhar um cargo político nos Estados Unidos.

Aparentemente, ninguém esperava que fosse eleita. Um grupo de homens inscrevera o seu nome numa lista que só foi conhecida no dia da votação, apenas para “humilhar e desencorajar” as mulheres de concorrerem. Venceu com maioria de dois terços.

Seguiu-se Elizabeth Yates (1845-1918), a primeira mayor do Império Britânico, em Onehunga, agora um subúrbio de Auckland, na Nova Zelândia.

Estava aberto o caminho a outras, da Bélgica ao Brasil, do Quénia às Filipinas, mas só em 1939 é que uma mulher chegou ao governo de uma capital: Kathleen Clarke, Lord Mayor de Dublin (República da Irlanda).

Hoje, ainda são apenas 14: Zekra Alwach, em Bagdad (Iraque); Gabriela Firea, em Bucareste (Roménia); Karin Wanngard, em Estocolmo (Suécia); Marta Hernández Romero, em Havana (Cuba); Manuela Carmena, em Madrid (Espanha); Daisy Torres, em Manágua (Nicarágua); Anne Hidalgo, em Paris (França); Adriana Krnácová, em Praga (República Checa); Virginia Raggi, em Roma (Itália); Yordanka Asenova Fandakova, em Sófia (Bulgária); Clover Moore, em Sydney (Austrália); Yuriko Koike, em Tóquio (Japão); Hanna Beata Gronkiewicz-Waltz, em Varsóvia (Polónia); e Muriel Bowser, em Washington D.C. (EUA).

Apesar de tudo, é visível que o “tecto de vidro” se vai quebrando. Vastas áreas urbanas, como Surat, na Índia (4,46 milhões de habitantes), Surabaya, na Indonésia (3,45 milhões), Rosário, na Argentina (1,19 milhões), ou Rostov on Don, na Rússia (1,15 milhões), são hoje administradas por mulheres.

Só em 1939 é que uma mulher chegou ao governo de uma capital: Kathleen Clarke, Lord Mayor de Dublin (República da Irlanda)

Este artigo, agora revisto e actualizado, e com um título diferente, foi publicado originalmente na revista MÁXIMA, edição de Outubro de 2017 | This article, now revised and updated, and under a different headline, was originally published in the Portuguese magazine MÁXIMA, October 2017 edition