May e Merkel: Líderes da nova “femocracia*”

São conservadoras e ambiciosas. Quebraram tabus sociais e políticos para chegar à liderança. O colapso do Muro de Berlim foi o início do poder de Angela Merkel na Alemanha. O Brexit, vaticinam alguns, poderá ser o fim do governo de Theresa May no Reino Unido. (Ler mais| Read more...)

© Bernd Von Jutrczenka | AFP | Getty Images | The Irish Times

Theresa May era ainda uma criança e já sonhava ser a primeira chefe de Governo do Reino Unido. Ficou irritada quando Margaret Thatcher ocupou esse lugar em 1979. Aos 30 anos, Angela Merkel planeava a reforma, aos 60, esperando que o regime comunista de Erich Honecker a deixasse viajar para a Califórnia. Hoje, a chanceler alemã é “a mulher mais poderosa do mundo”, enquanto a primeira-ministra britânica luta pela sobrevivência política.

Reeleita em Setembro para o seu quarto mandato desde 2000, a Bundeskanzlerin não só ultrapassou a década de poder da “Dama de Ferro” como a substituiu como modelo de referência. Quando May sucedeu a David Cameron, em 2016, foram mais os que a compararam a Merkel do que a Thatcher.

“Sempre que há duas mulheres em posições de liderança, automaticamente se presume que se tem de fazer uma comparação directa, mas não nos lembraria comparar os líderes francês e italiano, por exemplo”, observa Mónica Dias, professora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica de Lisboa. “Só se compreendem estas comparações porque, de facto, a nível de chefes de governo ou de Estado, a política continua a ser, predominantemente, plataforma dos homens.”

© AP |newindianexpress.com

Quase todas as biografias de May e Merkel enfatizam dois pontos em comum: são ambas filhas de clérigos e não têm filhos. Mas se a família moldou o que Mónica Dias define como “valores conservadores, de responsabilidade, austeridade e preocupação social”, não foram apenas os berços que ditaram as suas histórias de vida.

Angela Merkel, a mais velha dos três filhos do pastor luterano Horst Kasner, nasceu em Hamburgo em 1954, quando a Alemanha se dividia entre uma república federal (RFA) e uma república democrática (RDA). Contra a vontade da mãe, a professora Herlind, e fazendo o caminho inverso dos que fugiam para o ocidente, o pai mudou-se para Templin, no leste sob domínio soviético. Eram uma elite com alguns privilégios, olhada com desconfiança.

Rapariga trapalhona, sempre a tropeçar, roupas sem jeito nem cor, um “penteado impossível”, sem despertar interesses românticos, Angela evitava desafiar o sistema, “com medo dos danos que isso poderia causar”. Concentrou a energia nos estudos. Licenciou-se em Física e doutorou-se em Química Quântica. Ganhou três olimpíadas de língua russa.

A 9 de Novembro de 1989, quando caiu o Muro de Berlim, já divorciada do físico Ulrich Merkel e casada com o químico Joaquim Sauer, Angela manteve a rotina de quinta-feira, dia de sauna e de beber cerveja com os amigos. Só à noite se juntou à multidão que celebrava no checkpoint de Bornholmer Strasse. Mas não ficou por lá. Regressou a casa porque, no dia seguinte, tinha de voltar ao trabalho na Academia das Ciências.

© Getty Images | ibtimes.co.uk

Surpreende esta aparente indiferença, mas a realidade é que saberia tirar proveito da liberdade. Um mês após o colapso do muro, juntou-se ao novo partido Aurora Democrática, que a nomeou vice-porta-voz Lothar de Mazière, primeiro-ministro até à reunificação. Foi ele que a aconselhou a abandonar o “estilo típico de cientista da RDA: sandálias à Jesus Cristo, saias largueironas e cabelo cortado à tijela”. E foi ele que recomendou a Helmut Kohl, da CDU, em Bona, que a levasse para o seu governo, depois de eleita deputada, em 1990.

Kohl nomeou-a ministra da Mulher e da Juventude, e chamou-lhe mein Mädchen (“minha rapariga”). Não era um cargo que a entusiasmasse. Aceitou-o porque lhe interessava o poder. Em 1999, com o mentor envolvido num escândalo de contas secretas, ela fez o inimaginável. Publicou um artigo exortando a CDU a “seguir em frente sem o seu cavalo de batalha”. Em 2000, Wolfgang Schäuble, delfim do “chanceler eterno”, entregou-lhe a presidência do partido. Em 2005, ela derrotou Gerhard Schröder, o “vaidoso” social-democrata que tantas vezes a humilhara com “comentários machistas”.

Introduziu uma mudança geracional e de costumes numa sociedade onde, durante séculos, o papel da mulher se resumia a “três K”: Kinder (filhos), Kirche (igreja) e Küche (cozinha). Indiferente à moda, impôs os seus “power suits” em todas as cores, conjuntos de calça e casaco de três botões desenhados pela inseparável estilista Bettina Schoenbach, para grande desgosto de Karl Lagerfeld. O que faz ela com a roupa velha? Usa-a. Em 2014, apareceu no festival de Bayreuth com a mesma túnica que já havia envergado em 1996 e 2002. Só não repetiu o vestido decotado que, em 2008, levou à inauguração da nova ópera de Oslo (Noruega) e que suscitou títulos nos jornais, como “Merkel mostra o peito”.

Helmut Kohl e Angela Merkel, em 2005
© Tinkeres | http://www.berliner-kurier.de

David Cameron e Theresa May, em 2007
© AP | http://www.thequint.com

Ninguém verá Merkel com fatos de Vivienne Westwood, sapatos kitten heels de padrão tigresse, botas de cano alto e casacos artsy, imagem registada da fashionista Theresa May. Também não ostentará a T-shirt com que a líder britânica proclamou “This is what a feminist looks like”.

A chanceler não faz do feminismo uma bandeira, mas tem tomado medidas para diminuir a desigualdade, obrigando as empresas, por exemplo, a ter pelo menos 30% de mulheres nas administrações, embora o fosso salarial ainda seja de 21,3%.

À primeira-ministra britânica, que criou o grupo Women2Win, também é devido o mérito de ter encorajado maior participação das mulheres na política e no mercado de trabalho – o que Margaret Thatcher recusou fazer –, e de ter tomado medidas de combate à violência doméstica e ao tráfico sexual.

A grande força de Merkel reside, porém, no modo como, “desde o início, soube controlar o seu partido – antes de chefiar o governo já estava à frente da CDU”, salienta Mónica Dias. Angela “apunhalou” Kohl, esperou para ver a queda de Edmund Stoiber, o bávaro da CSU que perdeu as eleições em 2007, e manteve Schäuble por perto para não a prejudicar. Theresa, pelo contrário, tornou-se chefe dos Tories e primeira-ministra só após a demissão de Cameron.

“Não passou pela aprendizagem do jogo de bastidores que Angela Merkel domina com mestria, perita em eliminar ou domesticar os que lhe fazem frente. Nunca conseguiu silenciar os rivais. A decisão de avançar para eleições [em Junho], perdendo a maioria, foi um enorme fracasso. É líder por exclusão: Se Boris Johnson [ministro dos Negócios Estrangeiros e suposto instigador de uma rebelião interna] tivesse querido assumir a chefia, ela não estaria aqui.”

E, no entanto, a única filha de Zaidee Mary e Hubert Brasier, vigário da Igreja Anglicana, neta de serviçais domésticas, educada no “espírito do serviço público”, há muito que se preparava para chegar ao topo. “Que me lembre, ela sempre teve ambições políticas”, disse à BBC um ex-colega, Pat Frankland.

© tatic01.nyt.com/images

Theresa Brasier nasceu em 1956, dois anos depois de Merkel, em Eastbourne, sudeste de Inglaterra, mas cresceu no condado rural de Oxfordshire. Frequentou uma escola primária pública, um colégio feminino católico e uma gramar school, liceu onde os alunos são seleccionados por mérito, antes de ingressar na Universidade de Oxford. Foi aqui que conheceu o marido, Philip May, estrela em ascensão entre os jovens conservadores. Ele estudava História e foi presidente da Oxford Union Society, “o lugar onde se aprende a governar” e de onde saíram sete primeiros-ministros.

Concluída a licenciatura em em Geografia, Theresa foi trabalhar para Londres, primeiro no Banco de Inglaterra e depois na Unidade de Assuntos Europeus de uma instituição financeira. Ao contrário de Philip, que permaneceu na City, ela via o seu futuro apenas na política. Em 1986, foi eleita vereadora no conselho londrino de Merton, mas só chegou a deputada em 1997 – ano do triunfo do Labour de Tony Blair.

Em 2002, após integrar vários “governos sombra”, tornou-se na primeira presidente da bancada dos conservadores, exortando-os a modernizar-se e a deixar de ser um “nasty party”. Em 2010, quando os Tories voltaram ao governo, David Cameron deu-lhe a pasta do Interior. Ela não era parte do seu círculo restrito, mas também não constituía ameaça “num departamento que tinha sido o cemitério de muitas carreiras políticas”.

May quebrou o recorde de longevidade no cargo, fazendo do ministério reduto pessoal onde quem era desleal podia esperar vingança. Um antigo ministro chamou-lhe bloody difficult woman. Impôs políticas duras, umas elogiadas (contra o terrorismo) e outras censuradas (redução de efectivos da polícia).

Como primeira-ministra, o balanço é menos positivo. “Ainda não concretizou nada, não tem nenhum sucesso e já está há um ano no poder”, comenta a analista da Universidade Católica. Uma das críticas recorrentes, sobretudo desde que começaram as negociações do Brexit, é a de que Theresa May “arrasta os pés” até anunciar uma decisão. É um ponto em comum com a chanceler em Berlim. Os alemães inventaram até um verbo para definir a sua (in)acção: “merkeln”.

“Angela Merkel decide sempre no limite”, constata Mónica Dias. “Perante uma crise, vai partindo pedra, esperando que a situação se resolva. É mestre do jogo táctico. Só muda ou recua se não for possível outra coisa. Foi assim em relação ao nuclear [só desistiu após o acidente na central de Fukushima] ou à Grécia [que salvou in extremis]. É pragmática, mas isso tem muito a ver com a cultura alemã. Os alemães chamam-lhe mãezinha (Mutti).”

“Isto não é possível na Inglaterra. Theresa May nunca será ‘mãezinha’ dos britânicos”, mesmo que sobreponha os interesses nacionais aos da Europa. Angela Merkel, que abriu as fronteiras a um milhão de refugiados para não regressar aos tempos da Cortina de Ferro, “está a tornar-se melhor com o tempo. Theresa May não vai ter tempo.”

* O termo *femocracia”  foi usado por Von Mara Delius, num artigo publicado no jornal alemão “Die Welt” e citado pelo diário britânico “The Guardian“, para descrever três mulheres que, em seu entender, “vieram limpar a confusão gerada por homens”: Theresa May, Angela Merkel e Nicola Sturgeon, primeira-ministra escocesa”.

Eles não são donos de casa

Philip May, conservador como Theresa, trocou a política pelo mundo dos negócios
© Adam Gerrard | Daily Mirror

Joachim Sauer, segundo marido de Angela Merkel, é químico como ela
© Sean Gallup | Getty Images Europe

Dennis Thatcher dizia que não se importava de ficar em segundo plano, se necessário segurar até numa das famosas malas Asprey que acompanhava Margaret, a “Dama de Ferro”, em cerimónias oficiais e que ela descrevia como “armas secretas”. (Uma dessas malas foi leiloada pela Christie’s, em 2011, por o equivalente a 280 mil euros)
© AP | The Independent

A definição que Denis Thatcher dava de marido perfeito de uma primeira-ministra era “always present, never there”. E ser visto sem ser ouvido tem sido o lema de Philip May e Joachim Sauer. Philip conheceu Theresa Mary (Brasier) em 1976 na Universidade de Oxford, onde foram apresentados por Benazir Bhutto, que seria a primeira mulher na chefia do governo do Paquistão. Casaram-se em Setembro de 1980. Ele tinha 22 anos, ela 23. Philip desistiu da política para ser banqueiro. Como director executivo de uma das mais poderosas instituições financeiras, Capital Group, controla milhões de libras de fundos, incluindo as acções da Amazon e Starbucks.

Joachim Sauer, por seu turno, não deixou o mundo académico. É professor de química quântica na Universidade Humboldt de Berlim. Conheceu Angela Dorothea (Kasner) Merkel em 1981 na Academia de Ciências. Eram ambos casados. Ele, cinco anos mais velho e com dois filhos, divorciou-se em 1983; ela em 1985, mantendo o apelido do primeiro marido, Ulrich Merkel. Casaram-se em 1998, para silenciar os que criticavam a união de facto de uma líder democrata-cristã. Para a imprensa alemã, Joachim é “invisível como uma molécula” – apenas dá entrevistas como cientista. Também lhe chamam “fantasma da ópera”, porque quase só acompanha a mulher em público no festival de Bayreuth. É ele que compra os bilhetes com o seu cartão de crédito.

© Ingram Pinn | Financial Times

ANGELA MERKEL

  • Nasceu em 1954, em Hamburgo
  • É doutorada em Física Quântica
  • Foi deputada e duas vezes ministra até ganhar a liderança da CDU em 2000
  • Ganhou a chancelaria em 2005; foi reeleita em 2009, 2013 e 2017
  • Não falta às óperas de Wagner em Bayreuth, adora caminhadas, culinária (sopa de tomate e bolo de ameixa são especialidades) e futebol. Só tem medo de cães.

THERESA MAY

  • Nasceu am 1956, em Eastburn (Sussex)
  • Licenciou-se em Geografia em Oxford
  • Em 2016, assumiu a liderança dos Tories e a chefia do Governo após a vitória do Brexit e a demissão de David Cameron; foi reeleita sem maioria em 2017
  • É diabética, com necessidade de duas injecções diárias de insulina
  • Adora ouvir Mozart e Elgar, gosta de cozinhar (tem mais de 100 livros de receitas) e é fascinada por moda

© Stefan Rousseau | Pool | Getty Images

Este artigo, agora actualizado e com um título diferente, foi publicado originalmente na revista MÁXIMA, edição de Novembro de 2017 | This article, now updated and under a different title, was originally published in the Portuguese magazine MÁXIMA, November 2017 edition

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