Guerra às crianças

O Dia Internacional da Criança – que se assinala a 1 de Junho – foi proclamado em 1950, após a II Guerra Mundial, para garantir protecção e direitos. Quase sete décadas depois, os mais pequeninos permanecem as maiores vítimas dos conflitos no mundo. Sobretudo, na Síria e no Iémen. (Ler mais | Read more…)

Em 2017, a UNICEF estimava que pelo menos 1400 crianças morreram vítimas da guerra no Iémen, mas este número, segundo outras fontes pode ser mais elevado
© Asharq al-Awsat

Batoul nasceu em Aleppo, na Síria. Em 2012, fugindo da guerra, os pais pegaram nela, nos três irmãos, nos avós e mudaram-se para os arredores da cidade. A paz não os encontrou.

No final de 2013, um morteiro interrompeu o passeio da família numa sexta-feira de oração. Morreram o pai, a mãe e os seus dois filhos mais velhos. Batoul e o irmão mais novo, com estilhaços por todo o corpo, sobreviveram debaixo das ruínas do que deveria ser um novo lar.

Batoul, hoje com 11 anos, é uma de vários milhares de crianças vítimas de um conflito que começou em 2011 com manifestações pacíficas contra o regime de Bashar al-Assad e que, cada vez mais brutal, envolvendo forças estrangeiras (russos, iranianos, libaneses, turcos, israelitas), parece não ter fim. Até Abril de 2014, terão sido mortas 8800 crianças (estatísticas das Nações Unidas) ou 19.800 (cálculos do Observatório Sírio para os Direitos Humanos, ligado à oposição).

“Acordei num hospital, envolta em ligaduras da cabeça aos pés”, recorda Batoul, a sua história contada pela UNICEF. “Eu queria tanto acreditar nos médicos quando eles garantiam que a minha família estava noutro hospital, mas o meu coração dizia-me que eles tinham partido.”

Uma menina ferida num hospital improvisado em Douma, um dos últimos bastiões dos rebeldes, a leste de Damasco, a capital síria, depois de um bombardeamento por tropas governamentais, em 22 de Agosto de 2015
© Abd Doumany | AFP | Getty Images

Nos cinco dias que Batoul esteve na unidade de cuidados intensivos, os médicos salvaram-lhe as duas pernas, mas tiveram de amputar a mão direita. Ficou internada cinco semanas até receber alta, e foram precisos mais 18 meses e cinco cirurgias para conseguir voltar a andar. Entrou na escola, aprendeu a escrever e a bordar com a mão esquerda, mas o trauma não a abandona. Basta ver outros miúdos à briga, e as lágrimas soltam-se.

Para a organização Save the Children, a Síria “é o país mais perigoso para ser criança”. Os seus direitos continuam a ser violados: são mortas, mutiladas, sujeitas a violência sexual, raptadas ou mobilizadas à força como soldados; sujeitas a casamentos e trabalhos forçados. As suas escolas são bombardeadas. É-lhes negado acesso à ajuda internacional. “Pelo menos 5,3 milhões precisam de assistência imediata”.

Para a UNICEF, 2017 foi “o pior ano” para as crianças sírias: 910 mortes. “A protecção das crianças que em todas as circunstâncias era uma garantia universal não está a ser respeitada por nenhuma das partes do conflito”, lamentou o director da organização para o Médio Oriente e Norte de África, Geert Cappelaere.

Em 2015, um terço dos combatentes das várias facções beligerantes no Iémen eram crianças, segundo responsáveis das Nações Unidas
© Mohammed Huwais/ | AFP | Getty Images

Dos cerca de 13 milhões sírios que necessitam de ajuda humanitária, mais de metade são crianças. Dos 6,1 milhões de deslocados internos, quase metade (2,8 milhões) são crianças. Dados recolhidos pela ONU em 2017 mostram que, a cada dia, uma média de 6550 pessoas perde a sua casa.

Pelo menos três milhões de crianças estão expostas à proliferação de explosivos, sejam minas ou engenhos improvisados (IED), informa a ONU. Mais de 1,5 milhões sofreram amputações permanentes.

Entre as que estão refugiadas no Líbano e na Jordânia, 80 por cento dos seus ferimentos são consequência directa da guerra. As crianças com deficiência e as que foram separadas dos seus cuidadores, em particular, estão muito mais expostas ao risco de violência, abuso e exploração. Enfrentam também maior dificuldade no acesso a cuidados de saúde e à educação.

Em 2018, apesar de sete anos de destruição humana e material, a violência na Síria intensificou-se: nas regiões de Idlib, de Afrin (com uma invasão da Turquia, para neutralizar milícias curdas) e de Ghouta Oriental (arredores de Damasco, dos últimos bastiões dos rebeldes). Aqui, na cidade de Douma, um ataque que se presume ser de armas químicas matou, a 7 de Abril, mais de 40 pessoas, muitas das quais crianças. A oposição acusou o governo, mas este negou responsabilidade.

Muitas crianças sírias vivem agora nas ruas, em parques e em jardins destruídos pela guerra, forçadas a mendigar e a trabalhar, sem acesso à escola
© YasinAkgul | AFP

Ninguém espera que afrouxem os combates e os bombardeamentos. Moscovo, que tem uma base militar na província ocidental de Latakia, quer manter a sua influência na região e só aceita negociações de paz que deixem Assad no poder.

Teerão, assistido pelo Hezbollah em Beirute, vê no actual regime de Damasco não apenas um aliado contra Israel e a Arábia Saudita, mas também o que lhe permite estabelecer um corredor terrestre estratégico que ligará o Irão ao Líbano, através da Síria e do Iraque.

Israel, que ocupa os Montes Golã sírios desde a guerra de 1967, está por seu turno determinado a impedir uma presença militar iraniana na que era a sua fronteira mais pacífica (porque o campo de batalha tem sido o Líbano).

No final de Abril, os israelitas destruíram um depósito de mísseis terra-terra na Síria, numa explosão com a magnitude de um sismo de 2,6 na escala de Richter. Pelo menos 25 combatentes pró-governamentais, incluindo iranianos, terão sido mortos.

Crianças iemenitas vendem produtos para o lar no Bazar de Salt, em Sanaa, a capital, em 22 de Janeiro de 2017, para poderem ajudar as suas famílias
© Mohammed Hamoud | Anadolu Agency

No Iémen, onde se trava outra guerra feroz desde 2015, Younis, tal como Batoul na Síria, vive “ansioso e cheio de medo”. Em 2017, rebeldes Houthis, apoiados pelo Irão, que combatem um governo sustentado pela Arábia Saudita, recrutaram à força este garoto de 13 anos para uma das frentes de batalha. Tinham reparado na sua perícia em disparar uma metralhadora, do telhado de casa, quando tentaram, em vão, prender o pai.

“Vi pessoas ao meu lado a serem mortas”, disse Younis à CNN. “Eram alvejadas na cabeça ou no peito. Assustei-me imenso. Quando um projéctil me atingiu [uma perna], pensei que também eu iria morrer. Fartei-me de chorar.”

O recrutamento de soldados entre crianças há muito que existe no Iémen, mas o número de casos triplicou nos últimos três anos. A ONU contabilizou 2369; as autoridades iemenitas não reconhecidas pelos Houthis suspeitam que sejam mais de 6000.

Se na Síria há uma infância roubada, no Iémen a situação é igualmente dramática. A ONU descreve-a como “a pior crise causada por seres humanos em todo o mundo”. E, tal como na Síria, ninguém vislumbra o fim deste “guerra por procuração” onde sauditas (sunitas) e iranianos (xiitas) disputam hegemonia regional.

Dos cerca de 13 milhões sírios que necessitam de ajuda humanitária, mais de metade são crianças. Dos 6,1 milhões de deslocados internos, quase metade (2,8 milhões) são crianças, segundo a ONU
© ABC

Dos 28 milhões de habitantes de um país que se chamou “Arábia Feliz” antes de se tornar no mais pobre do mundo, quase dez mil civis – entre eles 5000 crianças, numa média de cinco por dia – foram mortos ou feridos nos últimos três anos. Cerca de 2,2 milhões de crianças estão desnutridas.

Mais de dois milhões de crianças iemenitas não têm acesso a educação (no final do ano passado, 256 escolas estavam totalmente destruídas, 150 ocupadas por deslocados internos e 23 a servir de bases a grupos armados). Três quartos das meninas foram obrigadas a casar antes dos 18 anos.

Com as infra-estruturas de água potável e saneamento destruídas, e o colapso do sistema de saúde, uma epidemia de cólera afectou um milhão de pessoas – um quarto dos quais crianças com menos de 5 anos. No total, mais de dez milhões de crianças precisam de assistência humanitária.

Três milhões de bebés nasceram durante a guerra, 30% dos quais prematuros e outros 30% com peso abaixo dos valores normais (entre 2,5 e 4 quilos), anota a UNICEF no relatório Born Into War – 1,000 Days of Lost Childhood. Outras 25 mil crianças sobreviveram apenas um mês.

“Toda uma geração de crianças cresce a conhecer apenas um clima de violência”, alertou Meritxell Relano, director de operações da UNICEF no Iémen. “As que sobreviverem irão carregar as marcas físicas e psicológicas do conflito pelo resto das suas vidas.”

Crianças iemenitas numa escola danificada por um ataque da coligação liderada pela Arábia Saudita contra rebeldes Houthis, em Taez
© Ahmad al-Basha | AFP | Getty Images

Infância roubada

Nunca como hoje tantas crianças viveram em áreas de conflito, ameaçadas de violência e morte: são pelo menos 357 milhões, uma em cada seis em todo o mundo – mais 75% em relação aos anos 1990.

O alerta foi dado pela organização britânica Save the Children, que classifica a Síria, o Afeganistão e a Somália como os países mais perigosos. No Médio Oriente, 40% das crianças vivem em zonas de guerra. Em África, são 20%.

“Assistimos a um chocante aumento no número de crianças que crescem em regiões afectadas por conflitos e expostas às piores formas de violência que se pode imaginar”, disse Helle Thorning-Schmidt, presidente daquela ONG e ex-primeira-ministra da Dinamarca. “As crianças sofrem o que nenhuma criança deve sofrer – desde abusos sexuais a serem usadas como kamikazes em ataques bombistas; as suas casas, escolas e parques infantis tornaram-se campos de batalha.”

Os dados da ONU são também aterradores: mais de 73 mil crianças foram mortas ou mutiladas em 25 conflitos desde 2005, ano em que estas estatísticas começaram a ser compiladas. Desde 2010, o número de crianças assassinadas ou estropiadas subiu cerca de 300%.

Adi Hudea, uma menina síria, ergue os braços e fecha as mãos num gesto de rendição, confundindo a câmara fotográfica de Osman Sagirli com uma arma 
© Osman Sagirli

Venda de armas: negócio hipócrita

Para o Papa Francisco, “é uma contradição absurda falar de paz, negociar a paz e, ao mesmo tempo, promover ou permitir o comércio de armas”. Mas a realidade é que nunca como agora os “mercadores da morte” estiveram tão activos.

Entre 2013 e 2017, o Médio Oriente, por exemplo, “mais do que duplicou” a importação de armas, “uma subida de 103%” relativamente ao anterior período de cinco anos, segundo um estudo do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) divulgado em Março. O Médio Oriente representou também 32 por cento do total das importações de armas mundiais.

Entre os dez países com maiores gastos militares, cinco são membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas: EUA, Rússia, China, França e Reino Unido. Os outros são a Arábia Saudita, a Índia, o Japão, a Alemanha e a Coreia do Sul. Os sauditas, que há três anos travam uma guerra impiedosa no Iémen, são os segundos maior importadores, depois dos indianos. E os seus principais fornecedores são os americanos (61%) e os britânicos (23%).

Em Março, Londres assinou um acordo preliminar para vender a Riade mais uma série de caças 48 Eurofighter Typhoon, no valor de “muitos milhões de dólares”, o que levou a organização Save the Children a colocar em frente ao Parlamento um enorme placard do tamanho de uma criança, com o intuito de “chamar a atenção para a violência gerada pelas bombas de fabrico britânico”.

“Há tantos interesses obscuros – políticos, industriais e estratégicos – que resultam na morte de tantas vítimas inocentes”, lamentou o Papa, num vídeo que gravou em Junho de 2017, mês de oração dedicado à “eliminação do comércio de armas”.

Uma criança iemenita aguarda, à porta de casa, em Sanaa, a capital, para ser vacinada contra a poliomielite, em 15 de Agosto de 2015
© Hani Mohammed | Associated Press

Entre os melhores, Portugal

Portugal está em sexto lugar na lista dos melhores países para as crianças, à frente da Irlanda, Islândia, Itália, Bélgica, Chipre, Coreia do Sul e Alemanha, segundo a organização britânica Save the Children. Na primeira posição, estão a Noruega e a Eslovénia, seguindo-se a Finlândia, a Noruega e a Suécia.

Entre os países onde as crianças correm mais riscos de vida está o Níger, com 43% gravemente desnutridas, o que afecta o seu desenvolvimento, indica o relatório The End of Childhood Index (2017). Seguem-se Angola, Mali, República Centro Africana, Somália, Chade, Sudão do Sul, Burkina Faso, Serra Leoa e Guiné.

Na América Latina e nas Caraíbas, embora se tenha registado uma diminuição para metade, ainda se encontram os países com maiores taxas de homicídio infantil, resultado da violência gerada pelo tráfico de droga e pelos gangues.

Para o estudo de 172 países, a Save the Children definiu oito critérios com o mesmo grau de importância: mortalidade antes dos 5 anos, má nutrição, abandono escolar, mão de obra infantil, casamento precoce, gravidez na adolescência, deslocamento forçado por conflito e homicídio infantil.

O caso mais surpreendente foi o dos Estados Unidos, no 36º lugar da tabela, entre a Bósnia e a Rússia. A América “está a ficar atrás de países que enfrentaram crises económicas muito graves, como a Grécia e a Irlanda, e que, apesar disso, deram prioridade à infância”, salientou Richard Bland, director nacional de políticas, advocacia e desenvolvimento da Save the Children.

Amani al-Ibrahim, 9 anos, uma menina síria de Aleppo, exibe uma marioneta que ela fez num campo de férias na aldeia de Deir al-Ahmar, no Líbano, em 31 de Julho de 2015
© Catholic Relief Services

Este artigo foi originalmente publicado na revista ALÉM-MAR, edição de Junho 2018 | This article was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, June 2018 edition

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