“A Turquia tem de enfrentar a História – com páginas em branco e actos criminosos”

Os turcos não gostaram de uma resolução aprovada por uma comissão da Câmara dos Representantes dos EUA que reconhece o genocídio arménio. Entrevista com o historiador Fikret Adanir, da Universidade Sabanci, em Istambul. (Ler mais | Read more…)

Refugiados arménios e sírios expulsos do território da actual Turquia, num campo da Cruz Vermelha nos arredores de Jerusalém, circa 1917-1919
© Library of Congress | The Wall Street Journal

Professor de História da Turquia na prestigiada Universidade de Sabanci, em Istambul, Fikret Adanir foi, em 2005, um dos organizadores de uma rara e ousada conferência, Os Arménios Durante o Colapso do Império Otomano, realizada na Universidade de Bogazici, também em Istambul. Nesta entrevista por telefone, confessa que “não tem medo” de usar a expressão “genocídio arménio”.

Como turco e como historiador, qual o significado da resolução aprovada pela Comissão dos Negócios Estrangeiros da Câmara dos Representantes dos EUA [reconhecendo o genocídio arménio]?

Nenhum país, nenhum povo gosta de aceitar que os seus antepassados cometeram um genocídio e, sobretudo, que parlamentos de outros países aprovem resoluções sobre isso quando ignoram os crimes cometidos por outros. Por outro lado, é importante afirmar que o Estado turco ainda não enfrentou a sua própria História.

O povo turco tem uma grande dificuldade em enfrentar a sua própria história, que tem muitas páginas em branco e também muitos actos criminosos. A maioria dos turcos não aceita e só uma minoria está preparada para o fazer.

Eu, pessoalmente, penso que a Turquia tem de fazer uma leitura correcta da sua história e aceitar que o que aconteceu aos seus arménios foi um crime contra a humanidade.

A Turquia deve reconhecer um crime contra a humanidade?

Sim, é o que eu acho. Acho que os turcos devem reconhecer isso. Mas também acho que nem os Estados Unidos ou qualquer outra nação têm o direito de dar lições aos turcos, porque os turcos não lhes reconhecem essa autoridade moral. Por que é que os EUA nunca aprovaram resoluções sobre os crimes da França e da Grã-Bretanha cometidos durante os seus períodos coloniais?

Por que é que o Congresso norte-americano não discute e aprova uma resolução sobre os crimes dos franceses na Argélia? Estas discussões e resoluções são selectivas. Se não se limitassem ao que os otomanos fizeram [entre 1915-17] seriam mais convincentes.

Na Turquia há um grande desapontamento, que se estende ao Estado turco, porque só há uns dez anos permitiu a discussão pública desta questão. Nas escolas estatais, os livros de História ainda não referem o que aconteceu aos arménios. É uma filosofia educativa errada. Há muito que devia ter sido mudada.

Retrato de duas famílias arménias, os Selian e os Gulbenkian, em Mersin, no antigo Império Otomano, actual Turquia, em 1906
© Project SAVE Armenian Photograph Archive, Watertown, Massachusetts (EUA) | ushmm.org

O que impediu a discussão?

Os turcos sempre se viram como vítimas das grandes potências e responsabilizam as grandes potências pelo que aconteceu aos arménios. Os arménios tentaram criar o seu próprio Estado num território que era maioritariamente habitado por muçulmanos e não por arménios.

A Arménia histórica é hoje o Curdistão. As pessoas que queriam criar uma Arménia não tiveram em conta o facto de que viviam entre uma maioria de muçulmanos, muitos deles curdos.

Sim, houve massacres e deportações, mas o conceito de genocídio é moderno. Começou a ser usado em 1948. A lei internacional não permite a aplicação de um veredicto, retroactivamente, a um tempo em que não existia esse conceito.

Os turcos receiam que os arménios na diáspora, sobretudo nos Estados Unidos e em França, reclamem território – o que, aliás, estão a fazer.

Os turcos aceitam pedir desculpas e até acolher e oferecer cidadania aos arménios que quiserem regressar, mas o Estado turco, enquanto existir na sua forma actual, jamais reconhecerá o genocídio arménio. Isso não quer dizer que a questão não seja discutida e que não procuremos uma melhor compreensão mútua.

Em 2005, tivemos uma conferência [Os Arménios Durante o Colapso do Império Otomano, realizada na Universidade de Bogazici, em Istambul] para a qual convidámos arménios. Eu uso o termo “genocídio” nas minhas aulas. Mas uso-o num sentido moral, não no sentido legal. Digo que foi cometido um grande crime, e compreendo a posição arménia.

Não tenho medo de usar o termo “genocídio”, e de o usar aqui, na Turquia. Mas eu pertenço a um grupo pequeno, porque a maioria ainda não aceita essa definição. E não aceitará se continuar a ser imposta por parlamentos estrangeiros.

Órfãos arménios que sobreviveram ao genocídio
© Arab News

Acha que a resolução vai prejudicar o processo de reconciliação em curso entre turcos e arménios?

Acho que sim. Os turcos e arménios estavam prestes a restabelecer laços diplomáticos. Estavam a negociar. Os turcos pediam algumas concessões quanto ao Nagorno-Karabach [enclave no Azerbaijão controlado pela Arménia] porque sentem que têm o dever de proteger os azeris [turcófonos e muçulmanos]; os arménios, por seu lado, também faziam as suas reivindicações. Este já era um processo difícil, mas esta resolução nos EUA pode ser interpretada como uma grande ingerência.

Quando se sentarem à mesa das negociações, os arménios já não se sentirão receptivos a ceder, porque sentem que têm os EUA do seu lado. Quanto aos turcos, vão tornar-se ainda mais racionalistas, porque os nacionalistas nunca aceitarão estas pressões, o que afecta o processo de reconciliação.

E qual será o impacto para as relações entre os Estados Unidos e a Turquia?

É óbvio que as relações vão continuar a existir, mesmo que os EUA reconheçam oficialmente o genocídio – embora eu não acredite que isso vá acontecer. Mesmo que todo o Senado aprovasse a resolução e que esta fosse subscrita pelo Presidente, as relações bilaterais não mudariam de um dia para o outro nem a Turquia abandonaria a NATO.

Mas há analistas a admitir que a Turquia poderá restringir o uso das bases norte-americanas ou rever a sua participação militar no Afeganistão.

Admito que, se o Presidente Obama reconhecer oficialmente o genocídio no seu discurso de 24 de Abril [a data assinalada pelos arménios], talvez os turcos limitem, ou até encerrem, a base militar de Incirlik. Mas os turcos que estão no Afeganistão não são tropas de combate. Estão lá para dar assistência, e vão lá continuar, mesmo que os EUA se retirem.

Não há dúvidas quanto a isso. Não creio que Obama vá longe de mais. E, mesmo que vá, não será uma catástrofe para os turcos, até porque a opinião pública já não é muito favorável aos EUA (se isso é certo ou errado, é outra coisa).

Também não acredito que a Turquia se vá aproximar mais do Irão, da Irmandade Muçulmana ou da Rússia… Isso não quer dizer que alguns círculos turcos não tentem atrair a opinião pública para estas posições.

Arménios no quartel de Marash aguardam a sua execução, em Abril de 1915. Acima deles, estão o governador otomano Haydar Pasha e os seus soldados
© Armenian Genocide Museum-Institute | The Guardian

Ou seja, mesmo que esteja desapontada com os EUA, a Turquia não se vai aproximar do Irão ou da Rússia…

… as relações turcas com os EUA já não são o que eram há dois ou cinco anos, mesmo antes desta resolução do genocídio se ter tornado realidade. É possível que esse afastamento tenha sido motivado por não termos dado acesso aos EUA à base de Incirlik na guerra do Iraque [em 2003], mas as relações bilaterais perduram.

A resolução foi aprovada na comissão da Câmara dos Representantes por uma maioria muito estreita e não acredito que passe no Senado. Isto é apenas um jogo diplomático.

Pela minha parte, espero que a Turquia mude as suas políticas culturais, mude as políticas face às suas minorias. A Turquia precisa de um olhar novo, de uma nova interpretação sobre a sua história. Tem de resolver os seus problemas sem se importar com as pressões externas.

Há quem diga que esta resolução se deve à pressão da diáspora arménia sobre os democratas em vésperas de eleições intercalares para o Congresso; outros apontam pressões do Azerbaijão sobre a Turquia para não se reaproximar da Arménia antes de resolver o conflito do Nagorno-Karabakh. Qual a sua opinião?

Há muitas pessoas de origem azeri a viver na Turquia e os partidos nacionalistas turcos que apoiam o Azerbaijão pressionam o Governo. Não é o Governo do Azerbaijão que exerce pressão sobre o turco – a oposição turca é que pressiona o Executivo [em Ancara] a favor do Azerbaijão.

A maioria da diáspora arménia nos EUA também usa, por seu turno, a questão do genocídio para exercer pressões. De um lado e do outro, tudo não passa de política interna.

Qual o impacto da resolução nos esforços de reconciliação que têm sido empreendidos por historiadores turcos e arménios?

Isto é um revés para o nosso grupo. O nosso trabalho é cada vez mais difícil, porque a atmosfera liberal que existia está a ser ameaçada por um clima mais e mais nacionalista, que se torna dominante.

É um revés irreversível?

Não, claro que não. Confio em que haverá uma melhoria de relações com os nossos vizinhos. A Arménia é muito importante, para nós, tendo em conta o contexto histórico.

Será uma reconciliação a longo prazo.

Sim, a muito longo prazo.

Fikret Adanir, historiador na Universidade Sabanci em Istambul: “Uso o termo ‘genocídio’ nas minhas aulas, mas num sentido moral, não legal. Digo que foi cometido um grande crime, e compreendo a posição arménia”
© Vimeo

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 5 de Março de 2010 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on March 5, 2010

Meir Dagan: Um espião sempre com o dedo no gatilho

“O povo de Israel confia em si – boa sorte!” Terá sido assim que Benjamin Netanyahu se despediu do chefe da Mossad no dia em que lhe deu luz verde para assassinar, no Dubai, o comprador de armas do Hamas. A missão cumpriu-se mas os agentes tiveram azar… expuseram identidades falsas. O embaraço não assusta o general que os egípcios elogiaram como “o único capaz de impedir o Irão de ter a bomba atómica”. (Ler mais | Read more…) 

Um outsider olhado com desconfiança pela comunidade de espionagem, Meir Dagan quis mostrar aos adversários internos (200 agentes demitiram-se quando ele entrou) e aos inimigos externos que poderia ser tão ferino na Mossad como foi no Exército
© Miriam Alster | The Times of Israel

O israelita Meir Dagan [1945-2016] dificilmente teria o fim do palestiniano Mahmoud al-Mabhouh, sufocado ou envenenado numa suite do luxuoso hotel Al-Bustan Rutana no Dubai. O director da Mossad escolhe sempre hotéis modestos quando viaja para o estrangeiro.

Já o fim do chefe do Hamas encarregue de comprar armas ao Irão só poderia ser o que foi, presumivelmente, traçado pelo general a quem Ariel Sharon terá ordenado que dirigisse, “com uma faca entre os dentes”, a agência de espionagem mais temível do mundo.

Talvez pelo facto de ter nascido, há 65 anos, num comboio de mercadorias em trânsito da Sibéria para a Polónia, este descendente de sobreviventes do Holocausto e apenas o décimo chefe da Mossad a ostentar o título de memune (“primeiro entre iguais”, em hebraico) nunca está parado.

É impressionante a “folha de serviços” de Meir Dagan desde que, em 2002, foi nomeado para suceder a Ephraim Levy, afastado por ter “amolecido” a agência, ao optar pela diplomacia em detrimento dos assassínios selectivos.

Uma das primeiras missões de Dagan para reactivar o “longo braço” da Mossad foi levada a cabo no Quénia, em Novembro de 2002, dois meses depois de Sharon o ter nomeado, e de ele ter estipulado duas únicas prioridades: extinguir o programa nuclear iraniano e a ameaça terrorista no exterior.

“A lista deve ser reduzida”, explicou Dagan ao ex-primeiro-ministro. “Se continuarmos a fingir que podemos fazer tudo, acabamos por não fazer nada.”

Meir Dagan (de pé e com boné), em Beirute, quando Israel invadiu o Líbano e cercou a primeira capital árabe, em 1982
© Jewish Journal

Seguindo o exemplo de Golda Meir, que ordenou a eliminação, “onde quer que se encontrassem”, de todos os membros do Setembro Negro envolvidos no massacre de atletas israelitas na aldeia olímpica de Munique em 1972, Meir Dagan mobilizou os operacionais mais experientes da Kidon, unidade ultra-secreta de assassínios da Mossad, para se vingarem de dois ataques em Mombaça.

O primeiro foi a explosão de um jipe armadilhado que destruiu o Paradise Hotel, propriedade de um israelita (15 mortos e 80 feridos graves); o segundo, o lançamento de dois mísseis, que quase abateram um avião de passageiros transportando mais de 270 turistas de regresso a Telavive.

Uma hora depois destes atentados, relatou Gordon Thomas, autor de Gideon’s Spies Mossad’s Secret Warriors – a única biografia autorizada da agência – os kidon de Dagan chegaram ao Quénia munidos com tudo o que era necessário para liquidar os seus alvos:

  • “Um pequeno laboratório de venenos, selados em ampulhetas para se manterem preservados até ao momento de serem usados; facas de várias dimensões; cordas de piano para estrangulamento; explosivos pequenos como uma pastilha elástica mas capazes de rebentar cabeças; um arsenal de armas, de pistolas com silenciadores a espingardas de snipers.”

Para não falharem, os agentes aprenderam a língua swahili e outros dialectos, que falavam entre si, de modo a serem confundidos com comerciantes árabes e indianos locais. Memorizavam rostos, infiltravam-se em quartos sem serem detectados para colocar aparelhos de escuta ou bombas.

Até as kidon (nome deriva do termo hebraico para baioneta) “iam para a cama com quem pudesse fornecer informações vitais”.

Thomas citou Meir Amit, “o mais inovador e inflexível director da Mossad” cujo “guia para matar”, delineado há mais de meio século, continua a ser distribuído aos katsas (espiões): “O sexo é a arma das mulheres. Conversa de cabeceira não é problema para elas, mas é preciso grande coragem, porque não se trata apenas de dormir com o inimigo.”

Foto 3

Do ponto de vista técnico, a missão para matar Mabhouh foi um êxito – o alvo foi eliminado e os operacionais não foram capturados. Do ponto de vista diplomático, foi um pesadelo. As pessoas nas fotos e  imagens de vídeo foram as que o mataram, mas viajaram sob identidades roubadas de  israelitas com dupla nacionalidade

O homem que trabalha 18 horas por dia raramente deixava o seu gabinete, tão obcecado estava em punir Osama bin Laden e Saddam Hussein, os seus suspeitos nos ataques em Mombaça.

Um avião da companhia El Al transportava, diariamente, para o Norte de Israel todas as provas recolhidas por cientistas, patologistas e agentes de campo da Mossad – vindos de todo o lado, da África do Sul, Nigéria, Roma, Malta e Chipre. Não se sabe se esta missão já terminou. Muitos dos perseguidos escaparam para as Filipinas, Paquistão e Afeganistão.

Certo é que Dagan não ficou de braços cruzados. Um outsider olhado com desconfiança pela comunidade de espionagem, quis mostrar aos adversários internos (200 agentes demitiram-se quando ele entrou) e aos inimigos externos que poderia ser tão ferino na Mossad como foi no Exército.

O facto de estar sempre “com o dedo no gatilho” reflecte as privações e perigos que enfrentou desde que nasceu no chão gelado de uma carruagem.

Em 1950, quando os pais fugiam da Rússia para a Palestina do mandato britânico, o menino Meir, de apenas 5 anos, estava a bordo de um navio que uma tempestade quase fez naufragar. Envergando um colete salva-vidas, foi para o convés comer uma laranja e rezar, sem esperança de sobreviver.

Para nunca se esquecer dos sacrifícios da família, pendurou no seu gabinete a foto de um velho judeu de pé numa trincheira, com a arma de um nazi SS apontada à sua cabeça. “Este velho judeu é o meu avô”, disse ao jornal britânico The Times. “Temos de ser fortes, usar o cérebro e defendermo-nos, para que o Holocausto nunca mais se repita.”

Os imigrantes Huberman, mais tarde Dagan, instalaram-se em Bat Yam, subúrbio a sul de Telavive. Já na faculdade, Meir abandonou os estudos (embora se licenciasse posteriormente em Ciência Política) para se candidatar à prestigiada unidade militar Sayeret Matkal, a que pertenceram Yitzhak Rabin e Ehud Barak.

Não foi admitido e, alegadamente, não superou o ressentimento. O Exército integrou-o numa brigada de pára-quedistas. Em 1967, na Guerra dos Seis Dias, foi promovido a comandante de uma companhia que combateu na Península do Sinai (Egipto) e nos Montes Golã (Síria).

Mahmoud al-Mabhouh foi sufocado (ou envenenado) numa suite do luxuoso Hotel Al-Bustan Rutana no Dubai, a 19 de Janeiro de 2010. Na casa da família, no campo de refugiados de Jabaliya, na Faixa de Gaza, o pai do palestiniano exibe uma foto do filho
© Mohammed Salem | Reuters

Em 1970, como chefe do Comando Sul das Forças Armadas, o general Sharon encarregou Dagan, então com 25 anos, de chefiar a unidade de elite Sayeret Rimon, cujos membros actuavam infiltrados na Faixa de Gaza.

Terá sido aqui que ficou coxo, ao tentar desactivar uma granada, numa luta corpo a corpo com um guerrilheiro palestiniano – evita, todavia, usar bengala “para não mostrar sinal de fraqueza”.

Terá sido também aqui, segundo a imprensa israelita, que alguns dos seus homens, disfarçados de árabes, mataram a sangue-frio um grupo de combatentes da OLP. Em 1971, o homem que é a antítese de James Bond (gordo calvo, apreciador de iogurtes naturais e não de martinis) obteve a sua primeira condecoração: a Medalha da Coragem.

Na guerra do Líbano de 1982, quando os tanques de Sharon cercaram a primeira capital árabe, Dagan estava à frente da Brigada de Blindados Barak.

Não receava percorrer as vielas estreitas de Beirute, por vezes acompanhado apenas do seu doberman Paco e de um revólver no bolso. Em 1995, passou à reserva. Um ano depois, estava a ser chamado por Shimon Peres para uma task force de combate ao terror.

Em 2002, quando assumiu a direcção da Mossad, Dagan procedeu a uma total reorganização da agência. Aumentou o número de agentes e de operações. Quanto mais êxitos, mais recursos recebia.

Tornou-se numa das figuras mais poderosas – foi eleito, em 2008, Man of the Year / “Homem do Ano” em Israel. Não era ele a ser recebido pelo primeiro-ministro, mas este é que ia ao seu encontro. Antes dele, nunca nenhum director-geral da Mossad havia visto o seu mandato renovado por mais de quatro anos.

Os kidon de Meir Dagan foram a Damasco matar Imad Mughniyeh. No dia do funeral, em Beirute, a mãe do comandante do Hezbollah dizia que o filho (ambos na imagem), planeava visitá-la no dia em que foi assassinado, e lamentava não ter uma foto dele para o recordar. “Dois dias depois, Umm Imad recebeu uma encomenda”, revelou o biógrafo oficial da Mossad. “Lá dentro estava uma fotografia. Tinha sido expedida de Haifa”, no Norte de Israel
© Al Akhbar

Em Janeiro de 2015, Jihad Mughniyeh (na foto), filho de Imad e comandante do Hezbollah no sector dos Montes Golã controlado pela Síria, foi morto com outros quatro combatentes do movimento libanês quando mísseis israelitas atacaram uma aldeia do Líbano na fronteira síria
© Twitter

Meir Dagan estava em funções há oito anos quando começaram a aparecer pedidos para a sua demissão depois do embaraço diplomático no Dubai. Se o fizesse nessa altura, seria o mesmo que confessar o envolvimento da Mossad no crime.

Além disso, Benjamin Netanyahu, o chefe do Governo que assinou a ordem para assassinar Mahmoud al-Mabhouh (no final de uma reunião na sede da agência, Mashrit, em Herzilya, ter-se-á despedido de Dagan, dizendo: “O povo de Israel confia em si, boa sorte”) estava convencido de que só o antigo confidente de Ariel Sharon poderia salvar Israel da ameaça iraniana.

Até os egípcios, num raro elogio árabe a um israelita, enaltecerem os esforços de Meir Dagan para conter as ambições do Irão xiita. “Sem este Super-Homem, o programa nuclear iraniano já estaria activo há muitos anos”, escreveu Ashraf Abu al-Haul, antigo correspondente em Gaza do jornal Al-Ahram, do Cairo. Recentemente, Dagan reviu para 2014 a data prevista para Teerão possuir a bomba.

Vejamos como o “Super-Homem”, casado e com três filhos, vegetariano, pintor amador e leitor de John le Carré (simpatiza com Smiley, o herói) tem agido na “guerra secreta” contra o Irão: no final de 2002, a Mossad descobriu que a República Islâmica estava a colaborar com o cientista nuclear paquistanês Abdel Qadir Khan para construir uma central de enriquecimento de urânio em Natanz.

A informação foi passada ao Conselho Nacional de Resistência, grupo de oposição iraniano, para que a divulgasse publicamente mantendo anónimas as fontes.

Não demorou muito a que começassem a ocorrer “incidentes inexplicáveis”, segundo a Newsweek, como o desaparecimento de cientistas ou incêndios em laboratórios. 

Pouco tempo antes de morrer, Meir Dagan fez um balanço demolidor da acção governativa do direitista Benjamin Netanyahu e do trabalhista Ehud Barak(à esq.). “Conheci muitos primeiros-ministros. Nenhum deles era puro e santo. Mas partilhavam uma qualidade: quando havia um conflito entre os interesses pessoais e interesses nacionais, todos colocavam sempre o Estado em primeiro lugar, à excepção de dois: ‘Bibi’ e Barak”
© The Times of Israel

Em 2007, a Mossad fez outra importante descoberta: a Síria estava a desenvolver um programa nuclear em colaboração com a Coreia do Norte. Em Setembro, aviões israelitas bombardearam o local que consideravam suspeito.

Em 2009, a agência de Dagan, colaborando com serviços secretos dos EUA, França e Grã-Bretanha, descobriu uma segunda central secreta iraniana, em Qom – a revelação humilhou as autoridade de Teerão, obrigadas a prestar contas à Agência Internacional de Energia Atómica.

De todas as operações – desde as que permitiram que caças israelitas entrassem no espaço aéreo sudanês, para bombardear uma coluna de 17 camiões transportando armas para o Hamas em Gaza, até às que facilitaram a intercepção de um navio, ao largo de Chipre, com arsenais para o Hezbollah –, a mais arrojada terá sido a que conduziu ao assassínio de Imad Mughniyeh, em Damasco.

O comandante do Partido de Deus e comanditário de um ataque contra o quartel-general dos Marines em Beirute, em 1983, de que resultaram 241 mortos, há muito que estava na clandestinidade.

Dagan conseguiu que os seus kidon entrassem na capital síria e seguissem Mughniyeh. Descobriram que iria participar nas celebrações da Revolução Islâmica no Centro Cultural Iraniano, e conseguiram armadilhar o Mitsubishi Pajero que ele havia alugado.

Por volta das 19h00 locais do dia 12, quando o “convidado de honra” chegava para os festejos, um telemóvel foi accionado e fez detonar os explosivos colocados num encosto de cabeça do veículo.

A potente deflagração fora concebida para decapitar Mughniyeh, tal como acontecera ao “mestre bombista” palestiniano Yahya Ayyash, em 1996, em Gaza.

Em 29 de Novembro de 2010, Meir Dagan foi afastado por Benjamin Netanyahu da direcção-geral da Mossad, para dar lugar a Tamir Pardo, que assumiu o comando em 1 de Janeiro de 2011. Assim que cessou funções, declarou publicamente, várias vezes, que não era favorável a um ataque militar contra as centrais nucleares iranianas
© welt.de

Há um dado curioso nesta história que Gordon Thomas detalhou no Daily Telegraph. No funeral de Mughniyeh, na capital libanesa, a sua mãe, Umm Imad, dizia que o filho, há anos fugitivo, planeava visitá-la no dia em que foi morto, e lamentava não ter uma foto dele para o recordar.

“Dois dias depois, ela recebeu uma encomenda”, revelou o biógrafo oficial da Mossad. “Lá dentro estava uma fotografia. Tinha sido expedida de Haifa”, no Norte de Israel.

O assassínio de Mahmoud al-Mabhouh, em 19 de Janeiro de 2010, foi um êxito, do ponto de vista técnico. O alvo foi eliminado e os operacionais abandonaram o país horas depois da missão cumprida. Do ponto de vista diplomático, foi “um pesadelo”, observou Ronen Bergman, analista de segurança do diário israelita Yedioth Ahronoth.

“É certo que os dados revelados pela polícia do Dubai não provam, inequivocamente, que as pessoas nas fotos e nas imagens de vídeo foram as que mataram Mabhouh, excepto que viajaram sob identidades roubadas de cidadãos israelitas com dupla nacionalidade.

As provas circunstanciais, porém, são fortes: um grupo de 12 – os 11 nas fotografias mais uma mulher não identificada – actuaram de uma forma altamente coordenada e eficaz. O mais surpreendente, contudo, foi a polícia do Dubai ter conseguido fazer uma reconstituição das imagens a uma velocidade extraordinária.”

“De uma certa maneira, é o fim de uma era de operações undercover”, comentou Bergman. “Já não é possível levar a cabo assassínios sem deixar rasto.” Em Israel, alguns continuam a pedir a cabeça de Meir Dagan.

Os que o conhecem avisam: “Ele não é o tipo de pessoa que se incomoda por ter enfurecido alguns.” Na sua porta deve estar pendurado o mesmo sinal que os agentes no Dubai deixaram no quarto de Mabhouh: Do not disturb!

[ Em 29 de Novembro de 2010, Meir Dagan foi afastado por Benjamin Netanyahu da direcção-geral da Mossad, para dar lugar a Tamir Pardo, que assumiu o comando em 1 de Janeiro de 2011. Assim que cessou funções, declarou publicamente, várias vezes, que não era favorável a um ataque militar contra as centrais nucleares iranianas. Usou mesmo a expressão “a ideia mais estúpida”, para classificar a opção que o primeiro-ministro israelita (seu antigo aliado) nunca retirou da mesa. Justificou Dagan: o actual regime em Teerão “é muito racional” – pode ser homicida, mas não é suicida; só lhe interessa garantir a sua sobrevivência.]

Em Janeiro de 2015, Jihad Mughniyeh, filho de Imad, e comandante do Hezbollah no sector dos Montes Golã controlado pela Síria, foi morto com outros quatro combatentes do movimento libanês quando mísseis israelitas atacaram uma aldeia do Líbano na fronteira síria.

Em Março de 2016, aos 71 anos, Dagan morreu após uma batalha com um inimigo invencível: um cancro. Numa entrevista que deu ao jornal “Yediot Aharonot”, pouco tempo antes de morrer, fez um balanço demolidor da acção governativa de Netanyahu e do trabalhista Ehud Barak. “Conheci muitos primeiros-ministros. Nenhum deles era puro e santo. (…) Mas partilhavam uma qualidade: quando havia um conflito entre interesses pessoais e interesses nacionais, todos colocavam sempre o Estado em primeiro lugar, à excepção de dois: ‘Bibi’ e Barak.”]

Funeral de Meir Dagan, em 20 de Março de 2016
© Kobi Gidon |GPO | The Jerusalem Post

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 1 de Março de 2010 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚLICO, on March 1, 2010

Os Guardas da Revolução são um Estado dentro do Estado

Os Guardas da Revolução estarão de novo nas ruas de Teerão a esmagar protestos populares. Serão uma força invencível? (Ler mais | Read more…)

A força paramilitar Pasdaran desfila na capital iraniana. Disse Mohsen Sazegara, um fundador que se tornou dissidente: “Não conheço nenhuma organização como os Guardas da Revolução – é algo como um partido comunista, o KGB, um complexo de negócios e a máfia”
© AFP | Middle East Eye

Que força é esta que, no Dia do Estudante, 7 de Dezembro [2009], estará de novo nas ruas do Irão a reprimir os protestos populares contra o regime? Disse Mohsen Sazegara, um fundador que se tornou dissidente: “Não conheço nenhuma organização como os Guardas da Revolução – é algo como um partido comunista, o KGB, um complexo de negócios e a máfia.”

O Sepah-e Pasdaran-e Enghelab-e Islami ou Exército dos Guardas da Revolução Islâmica foi criado por um decreto do Ayatollah Khomeini a 5 de Maio de 1979, para substituir a tropa imperial do deposto Xá Mohammad Reza Pahlavi.

A sua missão tinha dois objectivos primordiais: 1) dizimar a oposição interna – os activistas de esquerda do pró-soviético Tudeh e dos Mujahedin-e Khalq, os insurrectos entre as minorias étnicas e os monárquicos; 2) exportar a nova ideologia que, pela primeira vez, dava aos religiosos xiitas o poder temporal.

Três décadas depois, os Pasdaran são o pilar de uma república que, segundo o académico iraniano Rasool Nafisi, deixou de envergar túnica e turbante para ser “um Estado islâmico que usa botas e desfila em uniforme militar”.

Esta transformação começou logo após a morte de Khomeini, em 1989. “Os Guardas da Revolução conseguiram impor-se porque o [Supremo] Líder Ali Khamenei dependia totalmente das forças de segurança, devido à sua fraca legitimidade”, disse-nos, por e-mail, o co-autor de The Rising of the Pasdaran (Rand Corp.), aludindo à falta de credenciais teológicas do sucessor de Khomeini.

Khamenei era apenas hojatoleslam, grau abaixo de ayatollah, o que gerou desconfiança nas elites religiosas. Hoje, sublinha o professor de Artes e Ciências da Universidade de Strayer, em Washington. “Khamenei é, acima de tudo, um líder da segurança militar, mais do que o vali-e faqhi ou jurista qualificado”, o posto que herdou do imã que derrubou o Xá.

A fusão dos militares e dos religiosos intensificou-se quando estes foram enviados para a frente de batalha e se tornaram comissários ideológicos do novo regime do Ayatollah Khomeini. (Na foto, um mural em Teerão exibe o rosto do fundador da República Islâmica e de elementos da força que ele ajudou a criar). © Getty Images

A fusão dos militares e dos religiosos intensificou-se quando estes foram enviados para a frente de batalha e se tornaram comissários ideológicos do novo regime do Ayatollah Khomeini. (Na foto, um mural em Teerão exibe o rosto do fundador da República Islâmica e de elementos da força que ele ajudou a criar)
© Getty Images

Ao analisar o levantamento popular que se seguiu à reeleição de Mahmoud Ahmadinejad nas presidenciais de Junho, Nafisi descreve-o como “o início de um longo e árduo processo para reformar ou mudar a ditadura dos Guardas da Revolução e dos mullahs“.

Os iranianos confiavam que, “através de processos eleitorais regulares, pudessem introduzir mudanças, mas a aliança Khamenei-Ahmadinejad e a inequívoca fraude que organizaram mudaram essa percepção”.

“A sublevação”, acrescentou, “é a prova clara de que a classe urbana está desiludida com o regime islâmico. Esta é uma sublevação contra uma prolongada desilusão, e confronta uma mentira descarada. É tanto um protesto moral quanto um movimento político.”

“Por enquanto, este movimento popular não tem uma organização nem uma liderança efectiva, mas, se conseguir manter-se activo, creio que ambas emergirão, embora não sem derramamento de sangue e um longo sofrimento.”

Nafisi pensa que a República Islâmica “nunca foi, de facto, puramente clerical”, e a guerra com o Iraque (1980-88) acentuou a perda desse carácter. “É simbólico que os líderes religiosos pós-revolução apareçam armados nas orações de sexta-feira”, observou o académico.

“A fusão dos militares e dos religiosos intensificou-se quando estes foram enviados para a frente de batalha e se tornaram comissários ideológicos do novo regime”, adiantou.

“Eles inspiraram soldados com recitações da dor e do sofrimento dos imãs martirizados, ao mesmo tempo que espiavam oficiais e os tentavam converter a um novo islão politizado. O que aconteceu, na realidade, foi a conversão do clero num ethos militar-securitário, e não o contrário.”

O Supremo Líder, Ayatollah Ali Khamenei (à direita), usou os Guardas da Revolução para legitimar o seu poder político, depois de ter visto, inicialmente, contestadas as suas credenciais religiosas. . Nesta foto, ele assiste a uma cerimónia de graduação de cadetes pasdaran, acompanhando do comando desta força, Mohammad Ali Jafari (ao centro) do seu principal conselheiro militar, Yahya Rahim Safavi (segundo à esquerda), e do antigo ministro da Defesa Hossein Dehghan (Teerão, 5 de Outubro, 2013) © AP Photo

O Ayatollah Ali Khamenei (dir.) usou os Guardas da Revolução para legitimar o seu poder político, depois de ter visto, inicialmente, contestadas as suas credenciais religiosas. Nesta foto, ele assiste a uma cerimónia de graduação de cadetes pasdaran, acompanhando do comando desta força
© Associated Press

Inicialmente, os Guardas não tinham ascendência sobre outras forças também encarregues de eliminar “ameaças existenciais, reais ou imaginárias”, lê-se em The Rising of the Pasdaran.

Operavam em paralelo com os komitehs (vigilantes que faziam “justiça” nos seus bairros); os tribunais revolucionários (que executavam sumariamente milhares de suspeitos de “crimes contra-revolucionários”) e o Partido Revolucionário Islâmico/PRI (que tinha os seus próprios paramilitares).

Mais de 30 anos depois, o Irão está sob o domínio total dos Pasdaran que, desde 2008, integra também a milícia Sazman-e Moghavemat-e Basij ou Mobilização da Resistência Nacional. O [anterior] Presidente Ahmadinejad é um antigo oficial pasdar, tal como a maior parte dos membros do Governo e do Parlamento, numerosos governadores e outros responsáveis administrativos.

Os Guardas controlam vários órgãos de comunicação, da televisão estatal a websites, gerem escolas e universidades onde deram mais peso às aulas de religião e de onde afastaram os professores liberais; dirigem milionárias bonyads (fundações) que concedem empréstimos a famílias desfavorecidas; oferecem bolsas de estudo e empregos a jovens ao mesmo tempo que os treinam para mártires da “república da virtude”; mobilizam socorristas em situações de catástrofe, projectando uma imagem de generosidade, sobretudo nas áreas rurais, que contrabalança a má fama de repressores implacáveis nas áreas urbanas.

Apesar do seu esmagador domínio na vida política, social e cultural do Irão, é no mundo dos negócios que os Guardas ganham uma “natureza multidimensional”, constatou Nafisi. “Da cirurgia oftalmológica a laser ao fabrico de automóveis e imobiliário, os Guardas alargaram a sua influência a todos os sectores do mercado iraniano”, com monopólios que afastam qualquer concorrente, nacional ou estrangeiro.

A mais recente aquisição foi a do maior operador de telemóveis iraniano, privatizado no âmbito de um esquema obscuro.

O [antigo] Presidente Ahmadinejad é um antigo oficial pasdar, tal como a maior parte dos membros do seu Governo e do anterior Parlamento, numerosos governadores e outros responsáveis administrativos. © AFP | Getty Images

Mahmoud Ahmadinejad é um antigo oficial pasdar, tal como é a maior parte dos membros do seu Governo, numerosos deputados, governadores e outros responsáveis administrativos
© AFP | Getty Images

A principal companhia dos Pasdaran é a firma de engenharia Khatam al-Anbia, que “ganhou” mais de 750 contratos, “70%  dos quais relacionados com a indústria militar”, mas também com as do petróleo e do gás.

Além destas empresas “oficiais”, os Guardas estarão ainda envolvidos em redes de contrabando de tabaco e bebidas alcoólicas (produtos que posteriormente hão-de confiscar nas suas rusgas), graças ao controlo de vários portos.

Apesar do enriquecimento ilícito de muitos Guardas, com “villas no mar Cáspio e contas bancárias na Suíça”, a população em geral parece ainda não ter tomado consciência da crescente corrupção, estimam diplomatas com passagem por Teerão. Nafisi admite, porém, que o controlo absoluto da economia poderá agravar a “fraccionalização interna” na instituição.

Os Pasdaran “não são um corpo monolítico”, avisa o académico. “Eles têm os seus próprios reformistas e, nas fileiras médias, há numerosos dissidentes que podem até simpatizar com o povo.”

Exemplos de divisões: nas eleições de 2005, grande parte dos Guardas votou no “pragmático” ex-comandante Mohammad Bagher Qalibaf, actual presidente da Câmara de Teerão, e não no ultraconservador Ahmadinejad. Em 1994, durante distúrbios étnicos na cidade de Qazvin, os pasdaran locais recusaram disparar sobre amotinados desarmados, obrigando ao envio de unidades exteriores para neutralizar a rebelião.

“É importante notar que os Guardas emergiram das forças rasas que defenderam o Irão contra a invasão de Saddam Hussein”, realçou Nafisi. “Ainda há um grande sentimento de patriotismo entre alguns membros dos Pasdaran, o que, com o tempo, poderá revelar-se essencial para uma mudança no Irão.”

“Se os protestos continuarem, o que parece ser bastante provável, os Guardas poderão colocar-se ao lado deste crescente movimento de iranianos desiludidos, e mudar o rumo dos acontecimentos.”

Inquirido sobre se foram os Pasdaran que [em 2009] impediram um acordo em Genebra sobre o programa nuclear, Nafisi respondeu: “Sim, pode ter sido o caso, porque [Saeed] Jalili, o chefe do Conselho de Segurança Nacional [e principal negociador] era favorável” à proposta da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), que previa o enriquecimento do urânio iraniano pela Rússia e França, para dissipar os receios de que a República Islâmica planeia fabricar a bomba.

“Jalili é um homem de confiança de Khamenei e de Ahmadinejad”, acentuou o professor. “Os Guardas têm interesse no desenvolvimento nuclear do Irão e são contra uma aproximação ao Ocidente, porque estando eles por detrás de um governo sombra e de uma economia paralela não beneficiarão, se houver transparência e abertura. Ora, relações com o Ocidente e sobretudo a adesão à Organização Mundial do Comércio exigem um certo nível de transparência.”

Qassem Soleimani, comandante da Força Qods, corpo de elite dos Guardas da Revolução, peça central das políticas do Irão para a Síria, Iraque e Libano
© rferl.org

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 6 de Dezembro de 2009 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on December 6, 2009

Chipre: “A única opção é uma federação”

Mehmet Ali Talat, presidente da República Turca de Norte de Chipre, não admite um fracasso nas negociações para unir a ilha dividida. O único caminho é a reunificação de “dois Estados iguais”. Para isso, pede a ajuda da ONU e da UE. (Ler mais | Read more…)

Em Novembro de 1983, quando o líder histórico dos cipriotas turcos Rauf Denktash decidiu proclamar a RTNC, até agora só reconhecida por Ancara e pela Organização da Conferência Islâmica, Mehmet Ali Talat (na foto) opôs-se a esse novo Estado. Temia (e com razão) que fosse ostracizado pelo resto do mundo, mas de 2006 a 2010 seria ele o Presidente eleito. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Em Novembro de 1983, quando o líder histórico dos cipriotas turcos Rauf Denktash decidiu proclamar a RTNC, só reconhecida por Ancara e pela Organização da Conferência Islâmica, Mehmet Ali Talat (na foto) opôs-se a esse novo Estado. Temia (e com razão) que fosse ostracizado pelo resto do mundo, mas de 2006 a 2010 seria ele o presidente eleito

Há 26 anos, no dia 15 de Novembro de 1983, Mehmet Ali Talat votou contra a proclamação da República Turca do Norte de Chipre (RTNC), de que hoje é um “presidente com muito orgulho”.

Naquela época, o líder dos cipriotas turcos era Rauf Denktash, o arquitecto da independência, só reconhecida por Ancara e pela Organização da Conferência Islâmica. Mas Talat, dirigente do Partido Republicano Turco, que participou na reunião de dia 14 que antecedeu a criação da RTNC, opôs-se.

“Chorei quando cheguei a casa à noite, pela primeira vez na minha vida”, disse Talat a um jornalista turco, autor de um livro agora publicado.

No seu palácio em Lefkosia/Nicósia, que antes da independência de Chipre em 1960 foi uma mansão da potência colonial britânica, o antigo engenheiro de 57 anos explica-me, em entrevista*, com respostas telegráficas, a sua decisão do passado e as negociações do presente.

[Esta entrevista foi efectuada antes das eleições presidenciais na RTNC,  em 18 de Abril de 2010, das quais saiu vitorioso Dervis Eroglu, considerado um político de “linha dura, opositor de uma “federação comunal bizonal”. Talat era admirado pela comunidade internacional como a figura que poderia conseguir, mais facilmente, uma solução para o conflito.]

Uma recente sondagem mostra que quase 80% dos cipriotas turcos quer uma solução de dois estados, e não a reunificação da ilha. Por que é que o pessimismo do seu povo contraria o seu optimismo de que o compromisso é possível?

Depois de os cipriotas gregos terem chumbado o referendo da ONU em 2004, que previa a reunificação, é normal que os cipriotas turcos, que votaram a favor, se sintam pessimistas.

Eu olho para essas questões de uma forma mais vasta. Este é um problema da comunidade internacional, e os principais protagonistas são agora a favor de uma solução, incluindo a Turquia, a Grécia, a União Europeia e a ONU.

A minha opinião tem de ser diferente da opinião pública. Será que a solução de dois estados é uma opção? Será uma opção lógica ou racional? Eu digo que não é racional! A única opção é uma federação de dois estados iguais.

[Talat diria, mais tarde, que não há comparação entre Nicósia dividida e Berlim, que há 20 anos derrubou o seu muro. “Os alemães, adiantou, eram um só povo, nós somos duas comunidades distintas. A reunificação servirá para pôr fim ao nosso isolamento. Dou-lhe um exemplo: muitos cipriotas turcos vão trabalhar no Sul, mas à noite regressam ao Norte porque ainda têm medo [dos cipriotas gregos“).

Mehmet Ali Talat era amigo pessoal do anterior presidente da República de Chipre (único Estado reconhecido pela União Europeia), Demetris Christofias (dir.). Quando o cipriota turco perdeu as eleições em 2010, o cipriota grego renunciou a concorrer a um segundo mandato, em 2013, devido ao impasse permanente nas negociações
© Cyprus Mail

Esta e a última oportunidade para um acordo?

É a última oportunidade porque temos a coincidência de todos serem neste momento a favor de uma solução. As negociações decorrem numa atmosfera amigável, mas o ritmo é mais lento do que esperava. Os cipriotas gregos, sendo agora membros da UE, não querem partilhar o poder, e isso é um problema.

É preciso maior envolvimento da ONU porque e necessária arbitragem. O problema de Chipre foi arrastado pelo Sul para a UE, e a UE tem direito de pedir ao Sul que resolva o problema.

Pode um acordo ser conseguido antes da cimeira europeia de Dezembro?

Não tenho a certeza. Também não tenho a certeza de que possamos encontrar uma solução num futuro próximo.

Há um prazo para chegar a um acordo?

Não fixámos nenhum prazo, mas há sinais, datas a considerar. Uma é a cimeira da UE, porque a Turquia vai ser reavaliada. É um momento crucial, não o fim da vida.

O que espera da cimeira?

Não espero nada contra a Turquia [obrigada pelo protocolo de Ancara a reconhecer Chipre sob pena de ver as negociações de adesão suspensas].

A Turquia disse com toda a franqueza que está disposta a levantar as restrições ao lado cipriota grego, abrindo os seus portos e aeroportos se simultaneamente a UE puser fim ao isolamento dos cipriotas turcos.

No seu vocabulário não há, portanto, lugar para a palavra fracasso?

O fracasso é sempre possível. Se isso acontecer será a divisão permanente da ilha.

Acha que o novo Governo socialista de George Papandreou em Atenas, com boas relações com a Turquia, pode influenciar a decisão dos cipriotas gregos?

Essa é a nossa esperança.

© monocole.com

E o que espera da UE?

Vários países da UE reconhecem agora que foi um grande erro admitir os cipriotas gregos na União em 2004 [depois de terem chumbado o plano de reunificação de Kofi Annan]. Há uma atitude mais positiva mas o erro já está feito, não pode ser emendado.

O senhor é amigo pessoal de Dimitris Christofias, o Presidente da República de Chipre. Mas nota que os cipriotas gregos se mostram agora mais intransigentes. Porquê?

Christofias não negoceia sozinho. É claro que ele tem de promover os interesses dos cipriotas gregos. Mas os partidos da oposição, e alguns da sua coligação do Governo, não lhe facilitam a vida. Ele é muito vulnerável às críticas. Não se pode mostrar flexível.

Quantos encontros já teve com ele ?

Mais de 50! [Sobre o que conseguiram até ali, Talat já havia explicado, num briefing, que há acordo para um presidente e um vice-presidente eleıtos e rotativos, mas divergências sobre a composição do governo “porque os cipriotas gregos não aceitam um sistema equitativo”].

Mesmo sem prazo, em 2010 haverá presidenciais na RTNC. Qual será o impacto para o seu futuro político se falhar nas negociações?

É claro que o impacto não será positivo. Pode não haver acordo até 2010. Mas fracasso não é opção no curto prazo.

Há 26 anos, o senhor opôs-se à proclamação da RTNC. Continua a achar que foi um erro?

É verdade que me opus a esta proclamação, porque temia que a reacção da comunidade internacional seria muito negativa e prejudicial aos interesses dos cipriotas turcos.

Ainda hoje acho que, naquela altura, tinha razão. É claro que a RTNC se tornou numa realidade histórica e eu sou o presidente da república que tenta dar o melhor para servir os seus cidadãos.

© monocole.com

A jornalista viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Turca do Norte do Chipre 

Este artigo, agora revisto e actualizado, e com um título diferente, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 15 de Novembro de 2009 | This article, now revised and updated, and under a different headline, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on November 15, 2009

A história de Kibris não é igual à de Kypros

O trauma dos cipriotas gregos começou com a intervenção militar da Turquia em 1974; o dos cipriotas turcos começou em 1963-64, quando foram obrigados a viver em enclaves. (Ler mais | Read more…)

Uma mulher chora a morte do seu marido, assassinado por um extremista cipriota grego, quando os cipriotas turcos começaram a ser atacados e obrigados a refugiar-se em enclaves. A imagem é do britânico Don McCullin, considerado “um dos maiores fotógrafos de guerra da História”. De 1964 até 1984, esteve em Chipre, no Congo, no Biafra (antigo Estado separatista na Nigéria), no Vietname, no Camboja e no Médio Oriente. @Don McCullin | World Press Photo 1964

Uma mulher chora a morte do marido, assassinado por um extremista cipriota grego, quando os cipriotas turcos começaram a ser atacados e obrigados a refugiar-se em enclaves
© Don McCullin | World Press Photo 1964

Quando começou o conflito de Chipre – ilha do Mediterrâneo que os gregos chamam Kypros e os turcos Kibris?

Foi em 1963-64, quando os cipriotas gregos e Atenas “planearam a anexação e o extermínio” dos cipriotas turcos?

Ou em 1974, quando o exército da Turquia – o segundo maior da NATO – “invadiu e ocupou” o Norte do que viria a ser, três décadas depois, um Estado membro da União Europeia?

A resposta depende do lugar onde nos encontremos. Em 2007, no Sul, o cipriota grego Demetres Constantinides contou-me como se tornou num “refugiado” em Limassol depois de, em 1974, ter perdido todas as propriedades da sua família em Kyrenia, agora sob controlo de “mais de 40 mil soldados e uns cem mil colonos turcos”.

Em 2009, no Norte, o cipriota turco Turgut Vehbi levou-me ao Museu da Barbárie, em Lefkosa/Nicósia – última cidade dividida da Europa –, para nos mostrar o que aconteceu em Dezembro de 1963, a uma outra família.

O museu funciona na antiga residência de Nihat Ilhan, antigo major cipriota turco. Nas paredes estão fotos e artigos publicados em 25-26 de Janeiro de 1964, quando jornalistas estrangeiros furaram o isolamento de Kumsal, bairro turco de Nicósia, onde “200 a 300 pessoas” tinham sido mortas “em cinco dias”.

Sobre o incidente conhecido como Bloody Christmas, escreveram Rene MacColl e Daniel McGeachie, do Daily Express: “Na Rua de Irfan Bey, nº 2, entrámos numa casa com o chão coberto de vidros partidos. (…) No quarto de banho, parecendo um grupo de figuras de cera, estavam três crianças empilhadas sobre o corpo da sua mãe”. Foram assassinadas na banheira onde se haviam escondido.

“Não sou racista, mas odeio os turcos, porque arruinaram a minha vida”, disse-nos o agente alfandegário Demetris Constantinides.

“Se o exército turco não viesse salvar-nos, já não estávamos aqui”, disse-nos Turgut Vehbi, que agora pertence a uma comissão que procura os “desaparecidos” de um lado e do outro do conflito.

A história contada em Lefkosa – onde fomos convidados a assistir, no dia 15, às celebrações do 26º aniversário da autoproclamada República Turca do Norte de Chipre (RTNC), apenas legitimada por Ancara – não coincide com a história que é narrada no Sul, a República de Chipre, reconhecida por todos, excepto pela Turquia.

“O grande trauma dos cipriotas turcos começou em 1963-64, quando foram forçados a viver em enclaves” em condições de “humilhação e desumanização”, explica o psiquiatra Vamik Volkan, também ele um cipriota turco, fundador do Center for the Study of Mind and Human Interaction (CSMHI), na Universidade da Virgínia (EUA).

Para os cipirotas turcos foi em 1963 e em 1964 que o arcebispo-presidente cipriota grego Makarios (na foto) “planeou destruir o carácter binacional” de Chipre e anexar a ilha à Grécia
© Pinterest

Naquela altura, cerca de 25 mil a 30 mil cipriotas turcos tornaram-se deslocados internos – ou seja, um quinto da população turca da ilha, que totalizava apenas 120 mil.

Num primeiro período, de 1963 a 1968, especifica Volkan, em Trauma, Identity and Search for a Solution in Cyprus, os cipriotas turcos viveram “virtualmente prisioneiros em enclaves que abrangiam apenas 3% da ilha”.

Num segundo período, entre 1968 e o Verão de 1974, foram “autorizados” a sair desses enclaves para entrar em território cipriota grego e “visitar outros enclaves”. Em todo o caso, as terras de onde tinham sido forçados a fugir em 1963-64 já não as podiam povoar.

Como se chegou a esta deslocação forçada? Relata o historiador Andrew Mango, em The Turks Today: “O arcebispo Makarios III, que se tornara presidente de Chipre, e os grupos nacionalistas gregos à sua volta estavam determinados a rever o acordo que um governo conservador em Atenas o persuadira a aceitar em 1960, como única alternativa à divisão da ilha”, independente do Reino Unido.

Makarios e os seus aliados “contactaram o Governo britânico, uma das três Potências Garantes [as outras são a Turquia e a Grécia] e ficaram com a impressão de que Londres não objectaria, se Ancara também concordasse, a uma redução, ou à total abolição, dos direitos consagrados da comunidade cipriota.”

O arcebispo e o líder grego Andreas Papandreou estavam também convencidos de que os EUA impediriam a Turquia de intervir em Chipre.

Na véspera de Natal de 1963, “os [cipriotas] turcos começaram a ser atacados por toda a ilha”, escreveu Mango, aclamado biógrafo de Atatürk, o fundador da Turquia moderna. “Expulsos do governo, foram obrigados a refugiar-se em enclaves.”

Em Ancara, Ismet Inönü, sucessor de Atatürk, apelou à Grã-Bretanha para usar o seu direito intervir, de modo a restaurar a Constituição” que Makarios tentou rever em 30 de Novembro – uma tentativa, segundo os cipriotas turcos, de “destruição do carácter binacional da república”.

Os britânicos preferiram chamar a ONU, “que travou o massacre dos turcos mas não anulou os ganhos dos gregos”, adiantou Mango.

“Quando Inönü se preparava para intervir unilateralmente, como era também seu direito, o presidente Lyndon Johnson advertiu-o de que, se a URSS se insurgisse contra uma intervenção turca em Chipre, a NATO não ajudaria a Turquia”. Inönü conteve-se.

“Após ter falhado uma primeira tentativa para subjugar os cipriotas turcos, em 1963-64, o arcebispo Makarios conformou-se com um processo mais lento de os reprimir”, continua Mango, “Mas era demasiado lento para a junta grega em Atenas, agora dominada pelo impetuoso brigadeiro Dimitrios Ioannidis.”

Em 1974, “mais de 200 mil cipriotas gregos (na foto) – estimativas oficiais em Nicósia – terão sido forçados a abandonar as suas casas no Norte da ilha. De igual modo, “mais de 50.000 cipriotas turcos” foram obrigados a sair do Sul
© Wilimedia Commons

A 15 de Julho de 1974, a Grécia apoiou um golpe que derrubou Makarios. Inquieto, o primeiro-ministro turco, Bülent Ecevit, foi a Londres persuadir, em vão, o governo britânico a intervir juntamente com a Turquia.

“Receando que a Grã-Bretanha e a América aceitassem um regime em Nicósia liderado pelo terrorista Nicos Sampson [Nikos Giorgiades], Ecevit ordenou o desembarque das suas tropas em Chipre”, em 20 de Julho. Controlam agora um terço da ilha.

Que a “mãe-pátria” ainda é vista como garantia de sobrevivência ficou bem visível nas comemorações do aniversário da RTNC, em Kyrenia/Girne.

Quando os Turkish Stars, esquadrão de sete aviões supersónicos, entraram no espaço aéreo cipriota (vindos da Turquia, a dez minutos de distância), uma multidão ululou eufórica.

E quando os pilotos-acrobatas desenharam no céu um coração vermelho, que ficou a pairar sobre o histórico castelo junto ao porto, lágrimas rolaram em muitos rostos emocionados.

A Turquia ofereceu protecção, mas o trauma dos cipriotas turcos não desapareceu, notou o psiquiatra Vamik Volkan.

A partir de 1974, a opinião pública marginalizou-os como “agressores”, enquanto os cipriotas gregos foram tratados como “vítimas” e reconhecidos legalmente como um Estado. “Esta realidade criou um enclave invisível”, onde os cipriotas turcos se sentem “seres humanos de segunda classe”.

Tropas turcas festejam a invasão e ocupação do Norte de Chipre, em 1974
© Cyprus Mail

A jornalista viajou  a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Turca do Norte do Chipre 

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 15 de Novembro de 2009 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on November 15, 2009

Entrar no coração do regime iraniano e mostrar que “não há lado bom”

O arquitecto e cineasta iraniano Mehran Tamadon saiu do seu “pequeno mundo intelectual, burguês, classe média” para entender a milícia que protege a República Islâmica. Fez um filme sobre os basijis, mas as certezas deles, zelotas religiosos, não dissiparam as dúvidas dele, ateu e órfão de um comunista. (Ler mais | Read more…)

A milícia Basij, depende do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (Pasdaran), a força paramilitar que um dos principais pilares do regime iraniano
© Ebrahim Noroozi | AP | Washington Examiner

Num átrio da Culturgest, em Lisboa, Mehran Tamadon aparece sorridente e descontraído para a entrevista, que seria depois complementada por e-mail. Não há medo nas palavras, nem hesitação nos passos, sensações que o acompanharam, durante dois anos, na rodagem de Bassidji, filme em competição no DocLisboa 2009

Nascido em Teerão há 37 anos, Tamadon chegou a França aos 12. Não para fugir da guerra com o Iraque (1980-88), mas das “restrições sociais” que incomodavam a sua irmã e a sua mãe, viúva de um opositor comunista do Xá Mohammad Reza Pahlavi.

Em 2000, depois de concluir a licenciatura na École d’Architecture de Paris, regressou ao Irão e aqui começou a conviver com elementos da milícia Basij (Mobilização).

Convidou basijis para a sua casa, onde eles “comeram, dormiram e falaram com mulheres sem véu”. Através deles chegou a Nader Malek-kandi, 46 anos, e a Mohammad Pourkarim, de 28, os protagonistas do seu segundo documentário, depois de Mères de Martyrs.

Muitos dos seus amigos criticaram-no por ele ter “tentado humanizar gente que tortura e mata”. Ele diz que é importante “negociar e manter o diálogo”, para ajudar a reformar o sistema “a partir do seu interior”.

Como surgiu a ideia de fazer Bassidji?

Em 2002-2003, fiz um primeiro filme, “Mères de Martyres”, sobre as mães dos que morreram na guerra entre o Irão e o Iraque e que vão chorar os seus filhos.

Nesse cemitério, Behesht-e Zahra, apercebi-me da presença dos basijis. Tentei ser provocador e perguntei-lhes se era possível estabelecer um diálogo. O meu filme mostra desde o início uma visão antropológica. Eu queria compreender os seus rituais.

Desconhecia esses rituais?

Sim, eram novos. Por exemplo, quando eles ficam às escuras [há uma cena, durante a evocação do martírio do Imã Hussein, uma das maiores figuras do Islão xiita, em que os membros de uma associação religiosa se despem, batem nos seus corpos, choram e gritam], foi a primeira vez na vida que me vi num lugar assim.

Mas não conhecia os rituais da autoflagelação?

Esses eu conhecia. Mas não aquela cena no escuro em que, num acto instantâneo, todos os homens começam a chorar ao mesmo tempo. Bastava uma palavra para eles chorarem. Palavras-chave como “sede”. Vemos frequentemente cenas de flagelação nas ruas, mas estas, no escuro, são isoladas.

Crianças-soldado que os Basij enviaram para a frente de batalha durante a guerra Irão-Iraque (1980-1988)
© foursignposts.com

Como é que preparou este filme?

O meu objectivo era enfrentar o outro que é muito diferente de mim. O meu meio é muito pequeno, muito fechado, intelectual, burguês, de classe média. Foi a vontade de quebrar essa barreira que me fez fazer este filme.

Tornei-me amigo de alguns basijis. Convidei-os a vir até ao meu apartamento em Teerão onde vivi de 2000 até 2004 (de 1984 até 2000 vivi em França, depois conheci a minha mulher no Irão, uma francesa que estava de férias, e em 2004 fomos viver para Paris, onde nos casámos e temos dois filhos).

Alguns basijis comeram e dormiram na minha casa. Convidei amigos, incluindo raparigas sem véu, e tivemos discussões francas. Está a ver bassijis a falar com mulheres sem véu?

Os preconceitos caíram. Eu filmei-os, mas não os integrei na montagem final. Não os filmei para serem personagens, mas foi uma experiência singular.

Por que se concentrou em Nader Malek-kandi (46 anos) e Mohammad Pourkarim (28)?

O jovem Mohammad participou na repressão dos estudantes [em 1999] e Malek-kandi não, mas fez a guerra. Eles pertencem a dois tempos – o tempo da guerra e o tempo actual.

Acha que eles o aceitaram bem por ser um iraniano a viver no estrangeiro?

Não tendo sofrido sob o domínio dos basijis – como muitos dos meus amigos –, demonstrei um maior distanciamento e uma certa ingenuidade em relação aos que me permitiram entrar em contacto com eles. Sobretudo, poder ouvi-los sem ódio (mesmo que eu me mantivesse consciente do papel que eles desempenham no regime).

Dificilmente, os que, durante toda a sua infância e adolescência, sempre conheceram a propaganda do regime e sofreram a violência exercida pelos basijis  darão um passo na direcção deles, para tentar compreender quem são eles, o que se esconde por detrás de uma fachada aparentemente uniforme. Um dos meus amigos disse-me: “Só tu podias fazer este filme, e ainda bem que o fizeste. Eu não seria capaz de o fazer.”

Tamadon - 3

© Uma cena do filme Bassidji, de Mehran Tamadon

Mas reconhece que também teve amigos que o criticaram.

Criticaram-me, em debates posteriores à projecção do filme, de ter humanizado pessoas que defendem um regime opressor. Sim, efectivamente, isso aconteceu. São seres humanos que apoiam o regime.

A história das ditaduras e dos regimes sanguinários sempre mostrou isso: os algozes não são monstros mas indivíduos comuns incorporados num sistema, ou seja, somos todos pequenos algozes ou fascistas potenciais, e é preciso estarmos vigilantes para não nos tornarmos isso.

Muitas pessoas bem-intencionadas demonstram uma intolerância extrema porque pensam que fazem parte do “lado bom”.

Mas não há um “lado bom”. Não tenho problema por, no filme, os basijis parecerem humanizados (na montagem, não fiz qualquer esforço nesse sentido), porque se percebe que eles participam num sistema repressivo.

Não oculto a responsabilidade deles no sistema. Eles, aliás, assumem isso sem complexos (como na sequência de moto com Mohammad).

Ao fazer este filme, compreendi que as pessoas podem ser simpáticas e fraternas, individualmente, apesar de defenderem um sistema colectivo repressivo, e tudo isso em nome de uma crença que eles não questionam.

Como pessoa, senti que Malek-kandi simpatizava comigo [apesar de Tamadon se assumir como um ateu, filho de um comunista e casado com uma estrangeira que bebe álcool]. Mas isso não o impede de continuar a defender, categoricamente, o Guia [Ali Khamenei] e a repressão.

Filmou durante dois anos, de 2006 a 2008, nunca teve medo?

O medo está sempre presente. O medo do perigo. Sentimos que nunca saíamos de uma prisão. Dou passos tímidos, hesito muito, procuro as palavras certas. Vivi sempre inquieto, e isso vê-se em toda a rodagem do filme.

Mostrou o filme aos protagonistas antes da versão final?

Malek-kandi queria ver o filme e eu montei uma versão mais longa, de cerca de quatro horas, que ambos visionámos, porque ele está muito exposto. Aparece o mullah da sua associação religiosa, aparece o seu pai. Vemos o seu gabinete. Ele queria ter a certeza de que não iria ser manipulado. É compreensível.

[No visionamento], agiu como um censor. Queria que eu eliminasse palavras que o incomodavam. Recomendei-lhe que olhasse o projecto na globalidade, que visse se, apesar de pormenores de que não gostava, não teria vergonha de mostrar o filme ao seu pai e aos seus amigos. Acabou por aceitar.

Uma etapa foi ultrapassada e isso foi importante, para mim, porque tudo pode ser negociado. Penso que a democracia é uma negociação para partilhar o poder.

Tamadon- 4

Cena do filme Bassidji, de Mehran Tamadon

Por que defende tanto esta ideia de diálogo com o regime?

Devemos esforçar-nos por falar com os basijis, porque não há alternativa! É certo que a situação mudou um pouco depois das eleições [presidenciais de Junho último], mas, até então, vivíamos numa sociedade dominada por pessoas que têm um apoio popular importante e que, há 30 anos, estão agarradas ao poder.

Penso que a única maneira de as coisas mudarem no Irão é reformando o sistema a partir do seu interior. Se abandonarmos a cena pública aos mais conservadores, se permanecermos encerrados nos nossos bairros e meios mais ou menos privilegiados, não há qualquer razão para haver mudanças.

Considero este filme um espaço público em que tomei a liberdade de me mostrar tal qual sou, sem me censurar, e onde estabeleço um diálogo que não existe hoje na sociedade iraniana.

Você pergunta aos bassijis se há alternativa à religião e quando é que, depois de 30 anos, os iranianos vão deixar de se sentir vítimas. Conseguiu as respostas que procurava?

Não! As respostas deles eram preparadas. Não eram espontâneas. Eram as respostas do regime de que eles se apropriaram. Eles têm muitas certezas e eu tenho muitas dúvidas.

O Irão é um país fracturado onde há um campo que olha para o futuro e outro que quer manter-se no passado?

Bem, mesmo os que falam de mártires têm contacto e interessam-se pela modernidade. Eles usam as novas tecnologias para os seus próprios fins. Malek-kandi é um excelente informático, estudou Física na universidade, conhece bem poesia. É um letrado, não é inculto. Quando ele aceita entrar em debate comigo, está a reconhecer, implicitamente, que há um problema.

Os iranianos, de um modo geral, estão prontos para reformas. Até os basijis, mas é preciso primeiro que os decisores políticos evoluam. E eles não evoluem.

Os basijis funcionam como uma organização que é capaz de fazer coisas totalmente diferentes: são combatentes numa guerra e servem de socorristas quando há um tremor de terra; reprimem manifestações [como os protestos contra a reeleição do Presidente [Mahmoud] Ahmadinejad] e participam em campanhas de vacinação nacional contra a poliomielite. São polivalentes.

O seu filme obteve licença para ser distribuído no Irão?

Só em DVD e no mercado negro. Eles não gostam da parte em que eu digo que não acredito em Deus.

Qual será o seu próximo filme?

Eu planeava fazer um filme sobre a Revolução [Islâmica de 1979]. Queria falar com alguns protagonistas, mas, depois dos acontecimentos de Junho, vai ser muito mais difícil, porque muitos deles [agora no campo reformador] encontram-se na prisão.

Mehran Tamadon, o realizador de Bassidji, confessa que teve medo de fazer este documentário. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Mehran Tamadon, o realizador de Bassidji, confessa que teve medo de fazer este documentário

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 21 de Outubro de 2009 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on October 21, 2009

Bahman Ghobadi: “Sou obrigado a viver longe do meu país”

O “inventor do cinema curdo” mudou-se das montanhas na fronteira Irão-Iraque para os subterrâneos de Teerão. O regime não gostou das suas bandas de indie rock e heavy metal, e ele está agora underground, como os músicos de No One Knows About Persian Cats. (Ler mais | Read more…)

Bahman Ghobadi não é um realizador que agrade ao regime iraniano; os seus filmes só circulam no mercado negro e o seu irmão Behrouz esteve preso de Novembro de 2012 até Janeiro de 2013, por ser crítico do anterior Presidente, Mahmoud Ahmadinejad. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Bahman Ghobadi não é um realizador que agrade ao regime iraniano; os seus filmes só circulam no mercado negro e o seu irmão Behrouz esteve preso de Novembro de 2012 até Janeiro de 2013, por ser crítico do presidente Mahmoud Ahmadinejad

O aviso é invulgar: a partir da próxima semana [Outubro de 2009], No One Knows About Persian Cats  (“Os Gatos Persas”, em DVD, em Portugal) pode ser vendido no mercado negro iraniano, em versão original ou em cópias piratas. “Dei esta autorização por escrito, para contrariar a vontade do Governo, que o proibiu”, diz-me o realizador Bahman Ghobadi, numa entrevista por telefone, a partir de Nova Iorque.

Fazer este “falso documentário”, que o DocLisboa passa dia 20 [de Outubro de 2009] na Culturgest, foi um desafio. “Há três anos que preparava um outro filme [iria chamar-se 60 Seconds About Us] mas não obtive autorização. Toda a minha equipa ficou deprimida. Um amigo disse-me que eu não devia ficar assim, porque era isso mesmo o que o Governo queria. Levou-me a um estúdio de gravação clandestino, e fui ver músicos que tocam cheios de energia, sem dinheiro, quase sem instrumentos e sem licença.”

Assim nasceu, “em apenas dez dias, com um pequeno orçamento e nada planeado”, a quarta longa de Ghobadi, depois de “Um Tempo para Cavalos Bêbados” – que lhe valeu o título de “inventor do cinema curdo” –, As Tartarugas Podem Voar e Half Moon – filmes feitos na fronteira do Irão com o Iraque e onde ele narra “a imensa dor e o sofrimento” do seu povo.

A imagem de marca de Os Gatos Persas, já à venda em DVD em Portugal: um filme-documentário centrado num grupo de jovens músicos iranianos de rock-indie, que actua clandestinamente para sobreviver. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

A imagem de marca de Os Gatos Persas: filme-documentário centrado num grupo de jovens músicos iranianos de rock-indie, que actua clandestinamente para sobreviver

Não foi fácil de rodar a história de Ashkan (Koshanejad) e Negar (Shaghaghi), um casal de músicos que tenta formar uma banda de rock/heavy metal e, ao mesmo tempo, conseguir passaportes e vistos ilegais para deixar Teerão em busca de liberdade artística.

A pequena câmara S12K de Ghobadi (o equipamento de 35 mm é propriedade do Estado) segue os dois namorados num frenético sobe e desce de escadas, por caves e telhados da capital iraniana.

Acompanha-os Nader (Behdad), um incansável promotor musical que vive numa casa com periquitos chamados “Monica Bellucci”, “Scarlet” e “Rhett Butler”, e que usa todos os estratagemas para os ajudar.

Hilariante – e reveladora da hipocrisia das autoridades – a cena em que ele tenta convencer um polícia a reduzir-lhe a pena por ter sido apanhado na posse de DVD americanos e bebidas alcoólicas.

“Tentávamos ser rápidos, sempre a mudar de sítio”, conta Ghobadi. “Usávamos motos para ser mais ágeis e algumas vezes usámos o alvará de outros realizadores para poder filmar.” Porque havia um clima de medo, “os músicos que aceitaram participar podem não ser os melhores, mas são bons”.

Em Os Gatos Persas ficamos a saber que, no Irão, “há pelo menos 312 grupos de indie-rock” e “2000 grupos pop” – sejam curdos, khorasanis, lurs ou baluchis. “Estes grupos fazem música e quase ninguém os conhece, às vezes nem os seus próprios pais”, reconhece Ghobadi.

Também essa realidade é mostrada no filme, onde os músicos, arriscando penas até dois anos de cadeia, tocam às escondidas dos agentes da “prevenção do vício” (que os acusam de ser “adoradores do demónio” ou “bebedores de sangue”), mas também dos familiares.

Uma imagem do filme Half Moon, com paisagens do Curdistão iraniano, onde Ghobadi nasceu; chamam ao realizador (proscrito pelo regime) “o pai do cinema curdo”. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Uma imagem do filme Half Moon, com paisagens do Curdistão iraniano, onde Ghobadi nasceu; chamam ao realizador (proscrito pelo regime) “o pai do cinema curdo”

Em instalações tão improváveis como um curral de vacas ou um telheiro de zinco com o ruído abafado por cobertores, os jovens que Ghobadi dá a conhecer gostam de The Strokes e Joy Division, cantam tear down the fence, my words are not criminal/ there’s no room in your cage for me, perdem-se em labirintos três pisos abaixo do solo em busca de vozes celestiais, e sonham ir à Islândia ver os Sigur Ròs.

Ghobadi está feliz porque arranjou vistos para muitos que queriam deixar o Irão. “Foram para França ou para a Inglaterra. Sei que alguns estão bem, de outros não tenho notícias.”

Para Ghobadi, Os Gatos Persas é uma declaração de amor à música que o regime iraniano há 30 anos tenta silenciar.

“Sempre amei a música, na alegria e na tristeza – a música está presente sempre que faço um filme”, afirma o cineasta que não quis ser “discípulo” de Abbas Kiarostami ou de Mohsen Makhmalbaf, com os quais colaborou – “os trabalhos deles são diferentes dos meus”.

O próximo projecto será novamente uma declaração de amor ao Curdistão. “O meu novo filme, a rodar na Alemanha, será sobre um escritor obrigado a fugir do Irão”, revela. “Eu não fugi do Irão. Obrigaram-me a ir embora. Cada vez que me prendiam, eles diziam: ‘Sai daqui!'”.

“Os meus filmes não são políticos”, vinca, renegando a acusação de fomentar o separatismo curdo. “Os meus filmes são sobre questões sociais, contemporâneas, mas a sociedade está muito politizada.”

“O regime não suporta os meus filmes, porque quer controlar tudo. Não sou uma pessoa triste, por natureza, mas fizeram de mim uma pessoa triste. Venho de um lugar onde há muito sofrimento e dor. Tenho 39 anos, estou fora do meu país.”

“Tenho saudades. Sou obrigado a viver numa terra que não é a minha. Trabalho em condições muito difíceis, fora do meu ambiente natural, o que me entristece.”

Agora que a sua namorada, a jornalista irano-americana Roxana Saberi, foi libertada, após quatro meses na cadeia de Evin, em Teerão, Ghobadi garante que já não pensa em suicídio.

Confessou esse sentimento numa carta aberta em que pediu a sua libertação, mas admite: “Às vezes, a pressão é tanta que o suicídio parece ser a única solução. Enquanto a morte não vier buscar-me, quero continuar a batalhar, mesmo com dificuldades. Com este espírito, ninguém quer morrer”.

A jornalista agradece a preciosa colaboração de Maryam Sanai, que ajudou a traduzir, de farsi para português, a entrevista com Bahman Ghobadi.

Avaz Latif (Agrin), em As tartarugas também voam, um dos filmes mais comoventes de Bahman Ghobadi, que aqui aborda a situação das crianças na fronteira entre a Turquia e o Iraque, antes da invasão liderada pelos Estados Unidos da América para derrubar Saddam Hussein. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Avaz Latif (Agrin), em As tartarugas também voam, um dos filmes mais comoventes de Bahman Ghobadi, que aqui aborda a situação das crianças na fronteira entre a Turquia e o Iraque, antes da invasão liderada pelos Estados Unidos da América para derrubar Saddam Hussein

Este artigo foi originalmente publicado no jornal PÚBLICO, edição de 16 de Outubro de 2009 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on October 16, 2009

Hana Makhmalbaf: “Muitos abandonam a religião porque se mistura com política”

Aos 21 anos, a mais nova dos membros de uma famosa família de realizadores iranianos fez um filme, Green Days, para mostrar o rosto de uma ditadura que já os tentou matar. (Ler mais | Read more…)

Hana Makhmalbaf, realizadora de Green Days, confia em que o Irão terá “um governo secular” e, que, nesse dia, “a liberdade não será decapitada em nome de Deus, e a beleza não será aprisionada, nem [nos] cheirarão as bocas incessantemente para verem se alguma vez dissemos: ‘Gosto de ti’” [citação de versos do poeta Ahmad Shamloo]
© sansebastianfestival.com

Os filmes “levam-nos para o inferno”, sentenciava a avó de Hana Makhmalbaf ao seu pai, antes de ele se tornar num dos mais célebres realizadores do Irão.

“Ela era uma mulher simples, sem uma perspectiva política, mas se hoje fosse viva pegava num telemóvel e enviava mensagens para todo o mundo a mostrar as atrocidades dos Mullahs“, diz a filha de Mohsen e irmã de Samira.

“Ela era contra os filmes sem conteúdo feitos em Hollywood, mas, se estivesse viva, gostaria de ver os filmes que mostram as dores da sociedade iraniana.”

É o caso de  [DocLisboa, 22 Outubro 2009, Cinema S. Jorge]. “No Irão, o meu filme é como um espelho posto à frente da sociedade, que a faz ver nele a sua imagem”, explica-nos Hana, por e-mail.

“É um espelho que mostra a realidade, mas quando o filme é exibido fora do Irão é uma carta escrita. Felizmente, este filme foi exibido no Irão, duas vezes, pelo serviço persa da BBC.”

“O povo viu-o, para não esquecer qual era o seu sonho de democracia antes da eleição [presidencial de Junho]. E, vendo este filme fora do Irão, vocês conseguem ver a diferença entre um povo que quer a liberdade e um presidente ditador [Mahmoud Ahmadinejad, que deixou o poder após as eleições de Junho de 2013, ganhas pelo “pragmático” Hassan Rouhani].”

Ava, a protagonista do filme, “é um símbolo de um povo que havia perdido as suas esperanças e as recuperou com o ‘movimento verde'” da candidatura de Mir-Hossein Mousavi, adianta Hana, a cineasta de 21 anos que, aos 8, fez a sua primeira curta, The Day My Aunt Was Ill, aos 14 o documentário Joy of Madness e aos 17 ganhou notoriedade com a longa Buddha Collapsed Out of Shame. Em Green Days, Ava “não é uma pessoa, é o símbolo de uma nova geração sem esperança, porque não há mudanças”.

“Por ser jovem e mulher, percebo a situação destes dois grupos”, salienta Hana. “Há 30 anos, quando aconteceu a revolução, o Irão tinha 30 milhões de habitantes. Agora são 70 milhões, e 65 por cento têm menos de 30 anos. Os jovens precisam de amor e de liberdade, mas estas duas coisas são proibidas no Irão. Prendem as raparigas e os rapazes por se apaixonarem.”

“Um poeta iraniano [Ahmad Shamloo (1925-2000), autor de Ketab-e Koucheh/’O Livro das Ruas’] escreveu: ‘Eles cheiram a tua boca, não vás tu alguma vez ter dito: ‘Gosto de ti.’ / Matam as pessoas que defendem a liberdade, torturam-nas e violam-nas.’ As mulheres, nestes últimos 30 anos, sofreram o dobro da injustiça de qualquer homem – primeiro como qualquer iraniano injustiçado e depois por causa das leis do país, que são patriarcais.”

Sobre a sua experiência nos “dias verdes” de Junho conta: “Antes das eleições, quando ainda não tinham começado as detenções [em massa], fui várias vezes detida, e os meus filmes confiscados. Depois, expulsaram os jornalistas estrangeiros e começaram à procura dos iranianos que tinham visto a filmar. Para me apanharem, atacaram três sítios diferentes, mas eu mudava de sítio.”

“Além de filmar, cometi outra ‘infracção’: sou filha do meu pai, que havia por duas vezes falado no Parlamento Europeu contra as autoridades iranianas.”

Os sacrifícios sofridos pelo cinema não são uma novidade para o “clã” que em 1996 fundou a Makhmalbaf Film House.

“Desde os 13 anos que viajo para o Afeganistão para filmar”, lembra Hana. “Com esta idade, fui raptada duas vezes, mas fui salva pelo povo. Há dois anos, quando a minha irmã, Samira, estava a fazer Two-Legged Horse, atacaram-nos com uma bomba: 21 pessoas ficaram feridas e outra morreu. O indivíduo que detonou a bomba era um agente do Irão.”

“O Governo iraniano queria matar a nossa família e culpar os afegãos. O Governo faz estas coisas para não fazermos filmes contra a sua ditadura, mas estes actos só nos encorajam.”

“A nossa família sabe que todos iremos morrer um dia – esta morte pode ser provocada por uma bomba ou um acidente, mas o importante é que, enquanto estivermos vivos, façamos algo pelos sonhos da humanidade. Arriscamo-nos cada vez mais.”

Mohsen Makhmalbaf, dos mais célebres cineastas do Irão, esteve preso durante o regime do Xá Mohammad Reza Pahlavi. Ficou vários meses hospitalizado por ter sido torturado. Quando o libertaram, “cedo percebeu que a ditadura tem raízes na cultura iraniana”, diz a filha Hana
© brightwalldarkroom.com

Como é que os Makhmalbaf, que foram apoiantes da revolução de Khomeini, se tornaram opositores? “Quando o meu pai tinha 15 anos, iniciou a sua luta contra o Xá, e aos 17 levou um tiro no estômago, enquanto gritava contra a ditadura”, relata Hana.

“Ele e os jovens daquela geração lutavam por liberdade e justiça, e pensavam que com a queda do Xá a ditadura iria acabar.”

“O meu pai esteve preso durante quatro-cinco anos, após os quais ficou vários meses hospitalizado por ter sido torturado. Quando finalmente saiu, cedo percebeu que a ditadura tem as suas raízes na cultura iraniana.”

Foi então, continua, que Mohsen “optou por ser escritor e fazer filmes para ser capaz de mudar esta cultura”.

Desde há 25 anos, cinco dos quais no exílio, “todos os seus livros e filmes são para criticar o Governo islâmico e muitos desses filmes foram proibidos no Irão. Na Índia, no Afeganistão e no Tajiquistão, tem filmado contra os ayatollahs e os Taliban.”

“Na nossa opinião o governo ideal é um governo laico. A religião deve estar separada da política. Devemos ter o direito de eleger o nosso presidente da República com nossos votos a cada quatro anos.”

Hana insiste: “A religião é um assunto pessoal, e o governo um assunto colectivo. Numa sociedade pode haver várias religiões, mas não vários presidentes para várias circunscrições.”

“Nos últimos 30 anos, muita gente abandonou a religião por causa da mistura com a política. Com um governo religioso que insiste em obrigar o povo a ter a mesma religião, o povo perde a fé. Religião e política têm funções diferentes.”

“Tenho a certeza que um dia o Irão terá um governo secular”, conclui a filha de Mohsen. “Nesse dia, a liberdade não será decapitada em nome de Deus, e a beleza não será aprisionada, nem nos cheirarão as bocas incessantemente para verem se alguma vez dissemos: ‘Gosto de ti.'”

A jornalista agradece a preciosa colaboração de Maryam Sanai, que ajudou a traduzir, de farsi para português, a entrevista com Hana Makhmalbaf.

Os sacrifícios sofridos pelo cinema não são uma novidade para o “clã” (o pai Mohsen e as irmãs Hana e Samira) que, em 1996, fundou a Makhmalbaf Film House
© tbilisifilmfestival.ge

Este artigo foi originalmente publicado no  jornal PÚBLICO, em 16 de Outubro de 2009 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on October 16, 2009

O Irão tira o véu no DocLisboa

O Irão dos rockers e dos rappers. O Irão de Mousavi e dos Green Days. O Irão de Ahmadinejad e do Apocalipse Now. O Irão da esperança e da derrota. O Irão tira o véu no DocLisboa. Nunca o vimos assim. (Ler mais | Read more…)

Negar Shaghaghi e Ashkan Koshanejad (os actores) com Bahman Ghobadi (o realizador), na estreia de No One Knows About The Persian Cats, no 62º Festival de Cannes (França)
© zimbio.com

Em Karaj, arredores de Teerão, 600 iranianos assistiram, em Agosto de 2007, ao “primeiro e único” concerto de rock desde a Revolução Islâmica de 1979. Este evento, ilegal, foi organizado por Ashkan Koshanejad, que pagou com 21 dias de prisão “o melhor momento” da sua vida.

“Por uma noite, actuei para o povo do meu país e enchi-me de alegria”. Na cadeia, partilhando a cela com homicidas, interrogou-se: “Será que a música é um crime igual a assassínio? Fui acusado de criar um ambiente em que os jovens quisessem dançar e rir…”

A prisão não vergou Ashkan, o líder do “mais importante grupo de música alternativa iraniana”, como proclamou a imprensa britânica. Uma vez libertado, foi à procura de outros músicos e vocalistas que quisessem juntar-se numa banda que ele e a sua namorada, Negar Shaghaghi, estavam a formar.

Essa busca, arrojada e alucinante, resultou no filme No One Knows About the Persian Cats, de Bahman Ghobadi, que o DocLisboa exibe dia 20 [de Outubro de 2009], na Culturgest.

É de Londres, onde pediram asilo, que Ashkan e Negar nos contam, por e-mail, o que é pertencer a um grupo que não se conforma com as restrições impostas por um regime obtuso.

“No filme há cenas com gatos”, escreveu ele. “E porquê gatos? Porquê gatos persas? Porque os gatos persas são criaturas benignas que fazem o mínimo ruído. O título [do filme] sugere, no entanto, que estes gatos persas estão esquecidos e são frequentemente agredidos apesar do seu carácter calmo e bondoso.”

Não foi difícil ao realizador, Ghobadi, encontrar estes “felinos”. Explicou Negar: “Quem encontra um de nós, encontra o resto. A palavra espalhou-se. Eu e Ashkan fomos até ao escritório dele com a nossa música. Ele ouviu, falámos, sugeriu que entrássemos no seu filme, e assim fizemos. Tudo no filme é real, até as cenas com a polícia. Essas cenas ilustram uma realidade que continua a repetir-se todos os dias no Irão.”

Interrompemos aqui a conversa para dar alguns pormenores sobre a “realidade” que se tornou mais amarga depois de, em 2005, o ultraconservador Mahmoud Ahmadinejad ter substituído o reformista Mohammad Khatami na presidência da República.

Um dos primeiros actos de Ahmadinejad foi nomear para ministro da Cultura um ex-comandante do Exército dos Guardas da Revolução com passagem pelos serviços secretos, Saffar Harandi. A missão deste era impor uma “interpretação revolucionária das leis do Islão”: nada de vozes femininas e apenas “música clássica que desenvolve o espiritualismo”.

A “realidade” é que até mesmo concertos de música clássica persa se tornaram cada vez mais raros, porque o ministério não autoriza espectáculos ao vivo. Embora legal e com salários pagos pelo Governo, a Orquestra Sinfónica Nacional do Irão só excepcionalmente toca(va) no país. Músicos de diferentes tradições dão festas privadas para ganhar a vida.

A música popular, que conseguiu reemergir após o primeiro mandato de Khatami, no final dos anos 1990, foi forçada a ficar underground. Bandas pop e rock começaram a gravar às escondidas e a distribuir os seus CD através de redes de amigos e admiradores.

Se a música foi estrangulada, o mesmo aconteceu com a pintura e a escultura, o cinema e o teatro, os livros e os jornais. No Museu de Arte Moderna de Teerão há uma cave escura onde se guarda a mais valiosa colecção de arte fora da Europa e dos EUA.

As melhores pinturas e esculturas dos últimos dois séculos estão há três décadas escondidas dos iranianos – Renoir, Monet, Picasso, Pissarro, Magritte, Pollock, Bacon, Tolouse-Lautrec, Dali e Warhol. [Em 2012, os quadros, avaliados em mais de 2500 milhões de dólares, viram finalmente a luz do dia.]

A música popular, que conseguiu reemergir após o primeiro mandato do presidente reformista Mohammad Khatami, no final dos anos 1990, foi forçada a ficar underground. Bandas pop e rock começaram a gravar às escondidas e a distribuir os seus CD através de redes de amigos e admiradores
© filmcomment.com

Este tesouro, reunido pela ex-imperatriz Farah Diba Pahlavi nos últimos anos do reinado do Xá, representa, para o regime islâmico, a “decadência da cultura ocidental”.

Algumas das obras “menos problemáticas” chegaram a ser exibidas, temporariamente, sob a administração de Khatami, mas, assim que Ahmadinejad chegou ao poder, determinou que a única arte permitida é a que “glorifica o martírio na jihad“, ou guerra santa.

Ashkan e Negar estão mais interessados em correr do calvário do que em canonizá-lo. Têm sorte de pertencer a um meio que permite liberdade artística.

“A minha família é da classe média, intelectuais de mente aberta e muito receptivos à música e às artes, mas a coacção é inegável da parte de quem considera estas actividades uma violação dos valores morais da sociedade”, reconhece Negar. A minha família quer que eu realize a minha ambição, mas esta ambição não está isenta de riscos.”

A mãe de Ashkan, também ela ligada às artes, teve de deixar o Irão. Foi ela quem, da Alemanha, lhe fez chegar o dinheiro necessário para pagar o passaporte e o visto (ilegais) que ele precisava para sair do país. “Eu não escolhi a música”, declara o baixista que nasceu em 1985, antes da revolução do Ayatollah Khomeini.

“A música escolheu-me quando eu tinha 13 anos. Quando tocava a minha guitarra, a música tornava-se abrigo, o espaço onde posso dizer o que me apetece.”

Ashkan experimentou vários tipos de música, mas acabou envolvido no indie rock. “Fiz tudo sozinho, desde compor, gravar, misturar. É possível que o rock independente mundial tenha nascido de uma crise financeira na indústria mas, para mim, a independência foi a única alternativa para criar música.”

Negar concorda: “Graças à Net e à globalização, os músicos no Irão têm acesso a qualquer forma de música. Comecei por me interessar pelas artes performativas, fiz ballet, escrevi e representei peças na universidade.”

“Mas tinha também o desejo de me ligar a mais e mais pessoas, e a música é uma arte muito social. Tem o poder de fazer mover as pessoas, de as influenciar. Quando conheci Ash, decidimos unir esforços e criar algo para o mundo”. Assim nasceu o projecto Take It Easy Hospital, que está aqui:

“O Irão está cheio de histórias, e só algumas chegam aos media“, diz Negar Shaghaghi. “Esta nova geração de músicos canta histórias que não vemos na BBC”
© Human Rights Watch Film Festival

São a Net e a televisão por cabo que fazem chegar a música proibida aos iranianos. “A moderna comunidade musical do Irão não é muito grande”, nota Negar.

“Os estúdios de gravação são poucos. As pessoas conhecem-se umas às outras porque acabam a gravar no mesmo estúdio. Há um estúdio em Teerão onde a maior parte das bandas ensaia. O proprietário não só apoia e encoraja estas bandas como apresenta os músicos uns aos outros, e assim se vão formando bandas.” O filme de Ghobadi mostra essa cumplicidade na clandestinidade.

“É interessante como as pessoas conseguem contactos para fugir à polícia”, realça Ashkan. “Apesar de o Irão ser visto como um país estruturado e controlado, há muitos conflitos no seu interior.”

“Não é difícil encontrar pessoas – até dentro da Polícia – que são menos rigorosas. Afinal de contas, a música não é um crime. E é bom lembrar que quando existe conflito e contraste em vez de unidade, é sempre mais fácil conseguir escapar.”

“O Irão é um país complicado e isolado”, adianta Negar. “Este isolamento que sentimos torna-se fonte de muitas letras para canções. O Irão está cheio de histórias, e só algumas chegam aos media. Esta nova geração de músicos canta histórias que não vemos na BBC.”

“Muitos artistas são forçados a abandonar os seus sonhos – e o que acontece a um país quando os seus jovens [no Irão quase 70% dos cerca de 70 milhões de habitantes] deixam de sonhar?”, interroga-se Ashkan, que já estava em Londres nas turbulentas eleições presidenciais de Junho.

“Eu vi a esperança nos olhos das pessoas”, adianta, aludindo à mobilização a favor do candidato “derrotado” Mir-Hossein Mousavi.

“Um grande momento de mudança transformou-se no pior pesadelo que podia imaginar. Despertei com a imagem terrível de pessoas a ser espancadas e mortas, e só queria que aquilo parasse.”

“Os jovens merecem oportunidade de viver e ser felizes, não de ser torturados e mortos. Acredito no poder do povo. Somos os donos do nosso destino. A política é um jogo em qualquer parte do mundo. A mim, só me interessa a sociedade e o direito de vivermos em liberdade e em paz.”

Os “dias verdes” de Hana

Ava (na foto), a protagonista de Green Days, perde-se pelas ruas de Teerão, “uma cidade há cem anos em busca de um sorriso, que quase sempre termina em lágrimas”. Depois de cada eleição, “perdemos tudo”

A decepção de Ashkan e Negar é partilhada por Ava, a protagonista de Green Days, de Hana Makhmalbaf, que retrata o desencanto com as promessas não cumpridas por Khatami, nos seus dois mandatos de 1997 a 2005, e a vitória “usurpada” por Ahmadinejad a Mir-Hossein Mousavi nas eleições presidenciais de Junho de 2009.

“Onde fica este lugar cujas portas estão todas fechadas?”, assim começa o documentário de Hana, 21 anos, a filha mais nova de Mohsen Makhmalbaf, o cineasta que foi opositor da monarquia e defensor da teocracia para agora ser um dos seus maiores críticos. “Onde fica este lugar onde as pessoas chamam desesperadamente por Deus?”

Ouvem-se os gritos de Allahu Akbar nos telhados Teerão apinhados de antenas que o regime chama de “paradiabólicas”.

Uma Ava deprimida deixa-se perder pelas ruas de “uma cidade, há cem anos em busca de um sorriso, que quase sempre termina em lágrimas”. No consultório do psiquiatra, ela queixa-se. Depois de cada eleição, “perdemos tudo, só resta uma derrota.”

Desiludida com Khatami – “Por que perdemos? Não foi uma derrota política, foi uma derrota emocional”, – Ava deixa-se seduzir por Mousavi, arquitecto e pintor, o último primeiro-ministro do Irão, um tipo “não perfeito” e “parte do sistema” (zeloso discípulo de Khomeini), que transformou o verde do Islão no verde da esperança.

Ava há-de voltar a sorrir, até saber que “Ahmadinejad fez um golpe de Estado; centenas de pessoas foram mortas; milhares foram feridas; 11 mil foram presas, torturadas e violadas nas cadeias”. E, então, implora: “Não posso mais viver entre sonhos e pesadelos. Tenho medo de pesadelos, doutor.”

De Londres, Ashkan e Negar escrevem: “Nunca imaginámos Teerão com tiros e pneus a arder. Muitos dos nossos amigos saíram à rua para darem a sua opinião e foram castigados. Sentimos tristeza.”

“Choramos os que foram feridos e mortos. Inalámos a dor da perda e dos sonhos estilhaçados. Ainda exalamos esperança e vontade e fé no nosso poder. O nosso sonho? Bem, é o sonho de uma vida melhor. Cada tem a sua definição, mas o que tivemos à nossa frente foi a ideia de um país livre do medo.”

Em Dallas (Texas), Aryo B. Pirouznia, porta-voz do Student Movement Coordination for Democarcy in Iran (SMCDI), organização que há 20 anos atrai jovens dentro e fora do Irão a favor de um regime laico, acha que este sonho está próximo. Numa entrevista, por correio electrónico e telefone, justifica a sua confiança:

“Apesar da censura em todos os domínios, da literatura à moda, já vemos as luzes de um movimento progressista e renascença, que vai ter impacto no Irão e em toda a região. Podemos ter a certeza de que o regime islâmico vai cair e que uma democracia secular será o próximo sistema. Não podemos prever exactamente quando, mas a situação está em constante mudança”.

“Infelizmente”, salienta, “não há um líder corajoso e persistente capaz de acelerar as acções deste movimento social e político progressista – que colocou um milhão de pessoas na rua”.

Antigos estadistas da República Islâmica, como Mousavi, não parecem aptos, por convicção ou medo, a cortar os laços com o seu passado e um pesado legado. Há os que se apresentam, directa ou indirectamente, como potenciais líderes, mas nenhum deles tem a força necessária e o sentimento de dever e sacrifício para dar resposta a milhões de iranianos corajosos.”

Petr Lom e as cartas ao Presidente

Em Letters to the President, documentário de Petr Lom, vê-se Mahmoud Ahmadinejad em digressão pelo país, o que lhe permitiu alargar a sua base de apoio em regiões nunca antes visitadas pelos seus predecessores. “Não é por amor ao regime”. Os seus fiéis apenas “procuravam quem as salvasse da miséria”

O país com que Askan, Negar e Pirouznia sonham não é o de Ahmadinejad – e isso é visível em Letters to the President, documentário de Petr Lom, que nos faz entrar no círculo restrito do homem que queria apressar o retorno do Messias.

É certo que sem fraudes, em 2005 e em 2009, Ahmadinejad não teria chegado ao topo. Mas a primeira causa foi o desânimo dos partidários de Khatami, como Ava, que não foram votar, e deixaram o campo aberto aos ultraconservadores.

“Muitos iranianos chegaram à conclusão de que as duas facções do regime [radicais e pragmáticos] estavam mais interessados em salvar a sua ideologia e poder do que em materializar as aspirações populares, e boicotaram o escrutínio [que resultou na derrota do ‘moderado’ Ayatollah Rafsanjani]”, lamenta Pirouznia.

A abstenção dos jovens, das mulheres e dos intelectuais ajudou Ahmadinejad a consolidar a sua base nas províncias – antes dele, nenhum outro Presidente abandonara o conforto de Teerão para viajar pelo país.

“Não é por amor ao regime”, garante o porta-voz do movimento juvenil, que estas pessoas escrevem “umas dez milhões de cartas” ao Presidente, “incluindo SMS e e-mail, 76% das quais têm resposta”, segundo um responsável. “Elas só procuram quem as salve da miséria”.

Quando Ahmadinejad mandou erguer no centro de Teerão a foto de uma bombista suicida palestiniana com a legenda “Amo os meus filhos, mas amo mais o martírio”, os iranianos desventurados e analfabetos que deixaram as suas crianças explodir nos campos minados da guerra Irão-Iraque sentem que travam a mesma batalha, “do bem contra o mal”.

[Em 2013, Ahmadinejad saiu de cena, após as eleições presidenciais que deram a vitória a um “pragmático”, Hassan Rouhani, aparentemente, determinado a pôr fim ao isolamento do país, aceitando compromissos, sobretudo no que toca ao programa nuclear, que permitam o fim das sanções internacionais.]

Tamadon e os loucos por mártires

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Mohammad Pourkarim (em cima) e o veterano de guerra Nader Malek-kandi (aqui) são os guias que Mehran Tamadon usou em Bassidji, para entender a cultura do shahadat ou martírio. "Somos loucos por mártires!", diz uma voz no documentário, no qual o cineasta iraniano a viver em França, ateu e filho de um opositor comunista do Xá, consegue extraordinários diálogos com os representantes de dois pilares do regime - a milícia Bassij (Mobilização) e a força paramilitar Pasdaran (Guardas da Revolução). @DR (Direitos Reservados |All Rights Reserved)

Mohammad Pourkarim (foto 1) e o veterano de guerra Nader Malek-kandi (foto 2) são os guias que Mehran Tamadon usou para entender a cultura do shahadat ou martírio. “Somos loucos por mártires!”, diz uma voz no documentário, no qual o cineasta iraniano a viver em França, ateu e filho de um opositor comunista do Xá, consegue extraordinários diálogos com os representantes de dois pilares do regime – a milícia Basij (Mobilização) e a força paramilitar Pasdaran (Guardas da Revolução)

Os eleitores de Ahmadinejad não são Ashkan, Negar ou Pirouznia. São o jovem miliciano, Mohammad Pourkarim, e o veterano de guerra, Nader Malek-kandi, os guias que Mehran Tamadon usou em Bassidji, para entender a cultura do shahadat ou martírio.

“Somos loucos por mártires!”, diz uma voz no documentário, no qual o cineasta iraniano a viver em França, ateu e filho de um opositor comunista do Xá, consegue extraordinários diálogos com os representantes de dois pilares do regime – a milícia Basij (mobilização) e a força paramilitar Pasdaran (Guardas da Revolução).

Os vigilantes Mohammad e Nader protegem a teocracia porque dela são totalmente dependentes. Tal como os desesperados que escrevem cartas ao Presidente, pedindo empregos ou empréstimos, água potável ou estradas asfaltadas.

Mohammad e Nader não têm sede de arte, como Ashkan e Negar. Têm sede de vingança e por isso foram usados como instrumentos de repressão nos tumultos estudantis de 1999 e nos protestos dos “dias verdes” de Junho.

Há outro caminho que não a religião? Depois de 30 anos de revolução, o que é preciso fazer para que os iranianos deixem de dizer que são vítimas? As perguntas de Tamadon não têm resposta.

Muitas formas de arte na República Islâmica do Irão continuam censuradas
© The Washington Post

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 16 de Outubro de 2009 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on October 16, 2009