“Em Chipre, a solução de dois Estados não é opção”

Mehmet Ali Talat, presidente da República Turca de Norte de Chipre [Abril 2005-Abril 2010, ano em que perdeu as eleições], não admite um fracasso nas negociações para unir a ilha dividida. O único caminho é a reunificação. Mas pede a ajuda da ONU e da UE. (Ler mais | Read more…)

Em Novembro de 1983, quando o líder histórico dos cipriotas turcos Rauf Denktash decidiu proclamar a RTNC, até agora só reconhecida por Ancara e pela Organização da Conferência Islâmica, Mehmet Ali Talat (na foto) opôs-se a esse novo Estado. Temia (e com razão) que fosse ostracizado pelo resto do mundo, mas de 2006 a 2010 seria ele o Presidente eleito. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Em Novembro de 1983, quando o líder histórico dos cipriotas turcos Rauf Denktash decidiu proclamar a RTNC, só reconhecida por Ancara e pela Organização da Conferência Islâmica, Mehmet Ali Talat (na foto) opôs-se a esse novo Estado. Temia (e com razão) que fosse ostracizado pelo resto do mundo, mas de 2006 a 2010 seria ele o Presidente eleito
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Há 26 anos, no dia 15 de Novembro de 1983, Mehmet Ali Talat votou contra a proclamação da República Turca do Norte de Chipre (RTNC), de que hoje é um “presidente com muito orgulho”.

Naquela época, o líder dos cipriotas turcos era Rauf Denktash, o arquitecto da independência, só reconhecida por Ancara e pela Organização da Conferência Islâmica. Mas Talat, dirigente do Partido Republicano Turco, que participou na reunião de dia 14 que antecedeu a criação da RTNC, opôs-se. “Chorei quando cheguei a casa à noite, pela primeira vez na minha vida”, disse Talat a um jornalista turco, autor de um livro agora publicado.

No seu palácio em Lefkosia/Nicósia, que antes da independência de Chipre em 1960 foi uma mansão da potência colonial britânica, o antigo engenheiro de 57 anos explica-e, em entrevista, com respostas telegráficas, a sua decisão do passado e as negociações do presente.

[Esta entrevista foi efectuada antes das eleições presidenciais na RTNC,  em 18 de Abril de 2010, das quais saiu vitorioso Dervis Eroglu, considerado um político de “linha dura”. Talat era admirado pela comunidade internacional como a figura que poderia conseguir, mais facilmente, uma solução para o conflito. Eroglu opõe-se a uma “federação comunal bizonal”, base do diálogo entre as duas comunidades da ilha desde 1977. 

Ao contrário de Talat, que era amigo pessoal do Presidente da República de Chipre (no Sul, e o Estado que a União Europeia reconhece como único), Eroglu conhecia mal Demetris Christofias. Este, por seu turno, anunciou, em Maio de 2012, que não estava interessado num segundo mandato, devido ao impasse permanente nas negociações com os cipriotas turcos.

Demitiu-se em 28 de Fevereiro de 2013 após as eleições deste ano nas quais não participou, como prometera. A Christofias sucedeu Nicos Anastasiades, que derrotou Stavros Malas, apoiado pelos comunistas, na oposição.]

Uma recente sondagem mostra que quase 80% dos cipriotas turcos quer uma solução de dois estados, e não a reunificação da ilha. Por que é que o pessimismo do seu povo contraria o seu optimismo de que o compromisso é possível?

Depois de os cipriotas gregos terem chumbado o referendo da ONU em 2004, que previa a reunificação, é normal que os cipriotas turcos, que votaram a favor, se sintam pessimistas.

Eu olho para essas questões de uma forma mais vasta. Este é um problema da comunidade internacional, e os principais protagonistas são agora a favor de uma solução, incluindo a Turquia, a Grécia, a União Europeia e a ONU.

A minha opinião tem de ser diferente da opinião pública. Será que a solução de dois estados é uma opção? Será uma opção lógica ou racional? Eu digo que não é racional! A única opção é uma federação de dois estados iguais.

[Talat diria, mais tarde, que não há comparação entre Nicósia dividida e Berlim, que há 20 anos derrubou o seu muro. “Os alemães, adiantou, eram um só povo, nós somos duas comunidades distintas. A reunificação servirá para pôr fim ao nosso isolamento. Dou-lhe um exemplo: muitos cipriotas turcos vão trabalhar no Sul, mas à noite regressam ao Norte porque ainda têm medo [dos cipriotas gregos“).

Talat era amigo pessoal do anterior Presidente da República de Chipre (único Estado reconhecido pela União Europeia), Demetris Christofias. Quando o cipriota turco perdeu as eleições em 2010, o cipriota grego renunciou a concorrer a um segundo mandato, em Fevereiro de 2013, devido ao impasse permanente nas negociações. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Mehmet Ali Talat era amigo pessoal do anterior Presidente da República de Chipre (único Estado reconhecido pela União Europeia), Demetris Christofias (dir.). Quando o cipriota turco perdeu as eleições em 2010, o cipriota grego renunciou a concorrer a um segundo mandato, em Fevereiro de 2013, devido ao impasse permanente nas negociações
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Esta e a última oportunidade para um acordo?

É a última oportunidade porque temos a coincidência de todos serem neste momento a favor de uma solução. As negociações decorrem numa atmosfera amigável, mas o ritmo é mais lento do que esperava. Os cipriotas gregos, sendo agora membros da UE, não querem partilhar o poder, e isso é um problema.

É preciso maior envolvimento da ONU porque e necessária arbitragem. O problema de Chipre foi arrastado pelo Sul para a UE, e a UE tem direito de pedir ao Sul que resolva o problema.

Pode um acordo ser conseguido antes da cimeira europeia de Dezembro?

Não tenho a certeza. Também não tenho a certeza de que possamos encontrar uma solução num futuro próximo.

Há um prazo para chegar a um acordo?

Não fixámos nenhum prazo, mas há sinais, datas a considerar. Uma é a cimeira da UE, porque a Turquia vai ser reavaliada. É um momento crucial, não o fim da vida.

O que espera da cimeira?

Não espero nada contra a Turquia [obrigada pelo protocolo de Ancara a reconhecer Chipre sob pena de ver as negociações de adesão suspensas].

A Turquia disse com toda a franqueza que está disposta a levantar as restrições ao lado cipriota grego, abrindo os seus portos e aeroportos se simultaneamente a UE puser fim ao isolamento dos cipriotas turcos.

No seu vocabulário não há, portanto, lugar para a palavra fracasso?

O fracasso é sempre possível. Se isso acontecer será a divisão permanente da ilha.

Acha que o novo Governo socialista de George Papandreou em Atenas, com boas relações com a Turquia, pode influenciar a decisão dos cipriotas gregos?

Essa é a nossa esperança.

Nicos Anastasiades (do Sul, à esquerda) e Dervis Eroglu (do Norte), que sucederam a Christofias e a Talat, respectivamente, encontraram-se num jantar oferecido pelas Nações unidas, pela primeira vez, em Maio de 2013. O cipriota grego exprimiu interesse em fazer progredir as negociações, mas a sua maior preocupação actual é reconstruir o sistema bancário para evitar a bancarrota do seu país. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Nicos Anastasiades (do Sul, à esquerda) e Dervis Eroglu (do Norte) sucederam a Christofias e a Talat, respectivamente. O cipriota grego exprimiu interesse em fazer progredir as negociações, mas a sua maior preocupação parece ser a de reconstruir o sistema bancário para evitar a bancarrota do país
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E o que espera da UE?

Vários países da UE reconhecem agora que foi um grande erro admitir os cipriotas gregos na União em 2004 [depois de terem chumbado o plano de reunificação de Kofi Annan]. Há uma atitude mais positiva mas o erro já está feito, não pode ser emendado.

O senhor é amigo pessoal de Dimitris Christofias, o Presidente da República de Chipre. Mas nota que os cipriotas gregos se mostram agora mais intransigentes. Porquê?

Christofias não negoceia sozinho. É claro que ele tem de promover os interesses dos cipriotas gregos. Mas os partidos da oposição, e alguns da sua coligação do Governo, não lhe facilitam a vida. Ele é muito vulnerável às críticas. Não se pode mostrar flexível.

Quantos encontros já teve com ele ?

Mais de 50! [Sobre o que conseguiram até ali, Talat já havia explicado, num briefing, que há acordo para um presidente e um vice-presidente eleıtos e rotativos, mas divergências sobre a composição do governo “porque os cipriotas gregos não aceitam um sistema equitativo”].

Mesmo sem prazo, em 2010 haverá presidenciais na RTNC. Qual será o impacto para o seu futuro político se falhar nas negociações?

É claro que o impacto não será positivo. Pode não haver acordo até 2010. Mas fracasso não é opção no curto prazo.

Há 26 anos, o senhor opôs-se à proclamação da RTNC. Continua a achar que foi um erro?

É verdade que me opus a esta proclamação, porque temia que a reacção da comunidade internacional seria muito negativa e prejudicial aos interesses dos cipriotas turcos.

Ainda hoje acho que, naquela altura, tinha razão. É claro que a RTNC se tornou numa realidade histórica e eu sou o presidente da república que tenta dar o melhor para servir os seus cidadãos.

Mehmet Ali Talat @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Mehmet Ali Talat
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A jornalista viajou a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Turca do Norte do Chipre 

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 15 de Novembro de 2009 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on November 15, 2009

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