Os Guardas da Revolução são um Estado dentro do Estado

Os Guardas da Revolução estarão de novo nas ruas de Teerão a esmagar protestos populares. Serão uma força invencível? (Ler mais | Read more…)

Guardas da Revolução desfilam na capital iraniana. Disse Mohsen Sazegara, um fundador que se tornou dissidente: "Não conheço nenhuma organização como os Guardas da Revolução - é algo como um partido comunista, o KGB, um complexo de negócios e a máfia." © Direitos Reservados | All Rights Reserved

A força paramilitar Pasdaran desfila na capital iraniana. Disse Mohsen Sazegara, um fundador que se tornou dissidente: “Não conheço nenhuma organização como os Guardas da Revolução – é algo como um partido comunista, o KGB, um complexo de negócios e a máfia”
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Que força é esta que, no Dia do Estudante, 7 de Dezembro [2009], estará de novo nas ruas do Irão a reprimir os protestos populares contra o regime? Disse Mohsen Sazegara, um fundador que se tornou dissidente: “Não conheço nenhuma organização como os Guardas da Revolução – é algo como um partido comunista, o KGB, um complexo de negócios e a máfia.”

O Sepah-e Pasdaran-e Enghelab-e Islami ou Exército dos Guardas da Revolução Islâmica foi criado por um decreto do Ayatollah Khomeini a 5 de Maio de 1979, para substituir a tropa imperial do deposto Xá Mohammad Reza Pahlavi.

A sua missão tinha dois objectivos primordiais: 1) dizimar a oposição interna – os activistas de esquerda do pró-soviético Tudeh e dos Mujahedin-e Khalq, os insurrectos entre as minorias étnicas e os monárquicos; 2) exportar a nova ideologia que, pela primeira vez, dava aos religiosos xiitas o poder temporal.

Três décadas depois, os Pasdaran são o pilar de uma república que, segundo o académico iraniano Rasool Nafisi, deixou de envergar túnica e turbante para ser “um Estado islâmico que usa botas e desfila em uniforme militar”.

Esta transformação começou logo após a morte de Khomeini, em 1989. “Os Guardas da Revolução conseguiram impor-se porque o [Supremo] Líder Ali Khamenei dependia totalmente das forças de segurança, devido à sua fraca legitimidade”, disse-nos, por e-mail, o co-autor de The Rising of the Pasdaran (Rand Corp.), aludindo à falta de credenciais teológicas do sucessor de Khomeini.

Khamenei era apenas hojatoleslam, grau abaixo de ayatollah, o que gerou desconfiança nas elites religiosas. Hoje, sublinha o professor de Artes e Ciências da Universidade de Strayer, em Washington. “Khamenei é, acima de tudo, um líder da segurança militar, mais do que o vali-e faqhi ou jurista qualificado”, o posto que herdou do imã que derrubou o Xá.

A fusão dos militares e dos religiosos intensificou-se quando estes foram enviados para a frente de batalha e se tornaram comissários ideológicos do novo regime do Ayatollah Khomeini. (Na foto, um mural em Teerão exibe o rosto do fundador da República Islâmica e de elementos da força que ele ajudou a criar). © Getty Images

A fusão dos militares e dos religiosos intensificou-se quando estes foram enviados para a frente de batalha e se tornaram comissários ideológicos do novo regime do Ayatollah Khomeini. (Na foto, um mural em Teerão exibe o rosto do fundador da República Islâmica e de elementos da força que ele ajudou a criar)
© Getty Images

Ao analisar o levantamento popular que se seguiu à reeleição de Mahmoud Ahmadinejad nas presidenciais de Junho, Nafisi descreve-o como “o início de um longo e árduo processo para reformar ou mudar a ditadura dos Guardas da Revolução e dos mullahs“. Os iranianos confiavam que, “através de processos eleitorais regulares, pudessem introduzir mudanças, mas a aliança Khamenei-Ahmadinejad e a inequívoca fraude que organizaram mudaram essa percepção”.

“A sublevação”, acrescentou, “é a prova clara de que a classe urbana está desiludida com o regime islâmico. Esta é uma sublevação contra uma prolongada desilusão, e confronta uma mentira descarada. É tanto um protesto moral quanto um movimento político.”

“Por enquanto, este movimento popular não tem uma organização nem uma liderança efectiva, mas, se conseguir manter-se activo, creio que ambas emergirão, embora não sem derramamento de sangue e um longo sofrimento.”

Nafisi pensa que a República Islâmica “nunca foi, de facto, puramente clerical”, e a guerra com o Iraque (1980-88) acentuou a perda desse carácter. “É simbólico que os líderes religiosos pós-revolução apareçam armados nas orações de sexta-feira”, observou o académico.

“A fusão dos militares e dos religiosos intensificou-se quando estes foram enviados para a frente de batalha e se tornaram comissários ideológicos do novo regime”, adiantou.

“Eles inspiraram soldados com recitações da dor e do sofrimento dos imãs martirizados, ao mesmo tempo que espiavam oficiais e os tentavam converter a um novo islão politizado. O que aconteceu, na realidade, foi a conversão do clero num ethos militar-securitário, e não o contrário.”

O Supremo Líder, Ayatollah Ali Khamenei (à direita), usou os Guardas da Revolução para legitimar o seu poder político, depois de ter visto, inicialmente, contestadas as suas credenciais religiosas. . Nesta foto, ele assiste a uma cerimónia de graduação de cadetes pasdaran, acompanhando do comando desta força, Mohammad Ali Jafari (ao centro) do seu principal conselheiro militar, Yahya Rahim Safavi (segundo à esquerda), e do antigo ministro da Defesa Hossein Dehghan (Teerão, 5 de Outubro, 2013) © AP Photo

O Ayatollah Ali Khamenei (dir.) usou os Guardas da Revolução para legitimar o seu poder político, depois de ter visto, inicialmente, contestadas as suas credenciais religiosas. Nesta foto, ele assiste a uma cerimónia de graduação de cadetes pasdaran, acompanhando do comando desta força
© AP Photo

Inicialmente, os Guardas não tinham ascendência sobre outras forças também encarregues de eliminar “ameaças existenciais, reais ou imaginárias”, lê-se em The Rising of the Pasdaran.

Operavam em paralelo com os komitehs (vigilantes que faziam “justiça” nos seus bairros); os tribunais revolucionários (que executavam sumariamente milhares de suspeitos de “crimes contra-revolucionários”) e o Partido Revolucionário Islâmico/PRI (que tinha os seus próprios paramilitares).

Mais de 30 anos depois, o Irão está sob o domínio total dos Pasdaran que, desde 2008, integra também a milícia Sazman-e Moghavemat-e Basij ou Mobilização da Resistência Nacional. O [anterior] Presidente Ahmadinejad é um antigo oficial pasdar, tal como a maior parte dos membros do Governo e do Parlamento, numerosos governadores e outros responsáveis administrativos.

Os Guardas controlam vários órgãos de comunicação, da televisão estatal a websites, gerem escolas e universidades onde deram mais peso às aulas de religião e de onde afastaram os professores liberais; dirigem milionárias bonyads (fundações) que concedem empréstimos a famílias desfavorecidas; oferecem bolsas de estudo e empregos a jovens ao mesmo tempo que os treinam para mártires da “república da virtude”; mobilizam socorristas em situações de catástrofe, projectando uma imagem de generosidade, sobretudo nas áreas rurais, que contrabalança a má fama de repressores implacáveis nas áreas urbanas.

Apesar do seu esmagador domínio na vida política, social e cultural do Irão, é no mundo dos negócios que os Guardas ganham uma “natureza multidimensional”, constatou Nafisi. “Da cirurgia oftalmológica a laser ao fabrico de automóveis e imobiliário, os Guardas alargaram a sua influência a todos os sectores do mercado iraniano”, com monopólios que afastam qualquer concorrente, nacional ou estrangeiro.

A mais recente aquisição foi a do maior operador de telemóveis iraniano, privatizado no âmbito de um esquema obscuro.

O [antigo] Presidente Ahmadinejad é um antigo oficial pasdar, tal como a maior parte dos membros do seu Governo e do anterior Parlamento, numerosos governadores e outros responsáveis administrativos. © AFP | Getty Images

Mahmoud Ahmadinejad é um antigo oficial pasdar, tal como é a maior parte dos membros do seu Governo, numerosos deputados, governadores e outros responsáveis administrativos
© AFP | Getty Images

A principal companhia dos Pasdaran é a firma de engenharia Khatam al-Anbia, que “ganhou” mais de 750 contratos, “70%  dos quais relacionados com a indústria militar”, mas também com as do petróleo e do gás.

Além destas empresas “oficiais”, os Guardas estarão ainda envolvidos em redes de contrabando de tabaco e bebidas alcoólicas (produtos que posteriormente hão-de confiscar nas suas rusgas), graças ao controlo de vários portos.

Apesar do enriquecimento ilícito de muitos Guardas, com “villas no mar Cáspio e contas bancárias na Suíça”, a população em geral parece ainda não ter tomado consciência da crescente corrupção, estimam diplomatas com passagem por Teerão. Nafisi admite, porém, que o controlo absoluto da economia poderá agravar a “fraccionalização interna” na instituição.

Os Pasdaran “não são um corpo monolítico”, avisa o académico. “Eles têm os seus próprios reformistas e, nas fileiras médias, há numerosos dissidentes que podem até simpatizar com o povo.”

Exemplos de divisões: nas eleições de 2005, grande parte dos Guardas votou no “pragmático” ex-comandante Mohammad Bagher Qalibaf, actual presidente da Câmara de Teerão, e não no ultraconservador Ahmadinejad. Em 1994, durante distúrbios étnicos na cidade de Qazvin, os pasdaran locais recusaram disparar sobre amotinados desarmados, obrigando ao envio de unidades exteriores para neutralizar a rebelião.

“É importante notar que os Guardas emergiram das forças rasas que defenderam o Irão contra a invasão de Saddam Hussein”, realçou Nafisi. “Ainda há um grande sentimento de patriotismo entre alguns membros dos Pasdaran, o que, com o tempo, poderá revelar-se essencial para uma mudança no Irão. Se os protestos continuarem, o que parece ser bastante provável, os Guardas poderão colocar-se ao lado deste crescente movimento de iranianos desiludidos, e mudar o rumo dos acontecimentos.”

Inquirido sobre se foram os Pasdaran que [em 2009] impediram um acordo em Genebra sobre o programa nuclear, Nafisi respondeu: “Sim, pode ter sido o caso, porque [Saeed] Jalili, o chefe do Conselho de Segurança Nacional [e principal negociador] era favorável” à proposta da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), que previa o enriquecimento do urânio iraniano pela Rússia e França, para dissipar os receios de que a República Islâmica planeia fabricar a bomba.

“Jalili é um homem de confiança de Khamenei e de Ahmadinejad”, acentuou o professor. “Os Guardas têm interesse no desenvolvimento nuclear do Irão e são contra uma aproximação ao Ocidente, porque estando eles por detrás de um governo sombra e de uma economia paralela não beneficiarão, se houver transparência e abertura. Ora, relações com o Ocidente e sobretudo a adesão à Organização Mundial do Comércio exigem um certo nível de transparência.”

Members of the Iranian Revolutionary Guard perform the weekly Friday prayers at Tehran University in the Iranian capital on 16 July 2010. @ ATTA KENARE |AFP | Getty Images

Guardas da Revolução durante as preces islâmicas de sexta-feira, na Universidade de Teerão
© Atta Kenare  |AFP | Getty Images

Este artigo, agora revisto, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 6 de Dezembro de 2009 | This article, now revised, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on December 6, 2009

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