Eles votam em Cristo, não em Mitt Romney

O republicano que aspirava tornar-se, oficialmente, o adversário de Barack Obama nas eleições presidenciais americanas [em 2012] é membro e financiador da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Em Lisboa, os elders Perkins, Phillips, Rodrigues e Wilder garantem desconhecer o programa do ex-missionário que se tornou milionário. Apenas sabem de cor a Bíblia e o Livro de Mórmon. Se lhe baterem à porta, não lhes ofereça chá nem café. (Ler mais | Read more…)

Inseparável dos missionários SUD, O Livro de Mórmon é apresentado oficialmente como “a tradução de placas de ouro contendo a história de um antigo povo religioso”, que Joseph Smith, o fundador, “encontrou e mandou publicar, em 1830, sob o nome do profeta que o compilou
© Nuno Ferreira Santos

Com uma chapa preta ao peito que o identifica como Elder Wilder, o rapaz de 20 anos, natural do Utah, contrai o sorriso até então reluzente, compõe a gravata e hesita quando inquirido sobre se votaria no republicano Mitt Romney para Presidente da América.

De súbito, ganha coragem e clarifica: “Não o escolheria só por ser mórmon, porque o mais importante são os valores – além disso, não tenho seguido a campanha eleitoral, porque não vemos tv.”

Não ver televisão é um dos requisitos para a missão de 24 meses dos rapazes missionários (as raparigas cumprem 18) da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (SUD). Também só podem enviar um e-mail por semana à família, e apenas têm direito a fazer dois telefonemas por ano.

Com fácil acesso à Internet pelas ruas que calcorreiam diariamente, eles até podem ser tentados a quebrar as regras, mas Wilder e os três companheiros da “área geográfica de Sacavém” garantem que “evitam o pecado”.

É por isso que os Elders – termo que significa “ancião” ou “sábio e não é traduzido, em nenhum país, para manter o sentido bíblico – andam sempre aos pares. Outra razão é a “necessidade de ter uma testemunha” na difusão das principais Escrituras, Bíblia e O Livro de Mórmon (que contém registos de profetas antigos).

Os Elders também se concentram em cativar apenas adultos, encaminhando “as mulheres sem chefe de família” para as Sisters ou “irmãs” – que, tal como os rapazes, devem manter-se castos até ao matrimónio.

Só podem namorar após a missão, e enquanto esta durar vigora o conselho: “Mantém os olhos abertos mas o coração fechado”. Os Elders são, no entanto, encorajados a desposarem as “irmãs”, porque “estatísticas mostram que serão mais felizes” se escolherem cônjuges que partilhem a fé.

O casamento, “para a eternidade, não apenas até que a morte os separe”, e famílias numerosas, com muitos filhos e não com muitas mulheres (a poligamia foi abolida em 1890), são pilares deste movimento religioso fundado nos EUA, em 1820, por Joseph Smith, que diz ter visto Deus e Jesus. Esta denominação religiosa conta, actualmente, com 14 milhões de membros em todos os continentes. 

Em círculo, a partir da esquerda: o inglês Phillips, o dinamarquês Perkins, o brasileiro-americano Rodrigues, e Wilder, natural do Utah (o estado onde a Igreja SUD tem a sua “sede”, em Salt Lake City). Nas lapelas de casacos “sóbrios para não chamar a atenção”, uma chapa negra identifica-os como Elders
© Nuno Ferreira Santos

Num sábado à tarde, quando se encontraram connosco numa moradia alugada que serve de capela (o templo ainda há-de ser construído) entre a Rotunda do Relógio e o Areeiro, em Lisboa, não foi apenas Wilder, olhos de um azul intenso, quem aparentou desagrado com a pergunta sobre Romney.

Os Elders Rodrigues, brasileiro-americano de 20 anos; Perkins, dinamarquês de 22; e Phillips, inglês de 20, todos impecáveis nos seus fatos “sóbrios para não [sermos] o centro da atenção”, tentaram igualmente desfazer a percepção de que o antigo governador do Massachusetts possa ser um porta-voz da Igreja a que todos pertencem; um ónus e não mais-valia.

Tal como Wilder, Rodrigues, Perkins e Phillips, também Romney foi missionário. Tinha 21 anos quando o enviaram para França. Chegou a Paris, vindo de Bordéus, na Primavera de 1968, semanas antes da revolta de Maio.

Vivia numa mansão de luxo, mas não terá sido fácil pregar uma doutrina que interdita, por exemplo, o consumo de chá e café, num período revolucionário em que “era proibido proibir”.

Registou apenas duas conversões. Isso é irrelevante, explica Elder Philips: “Não importa quantas pessoas trazemos, só queremos ajudar as que aceitam seguir o exemplo de Cristo. Não procuramos convencer ninguém a mudar de religião; fazemos um convite a que mudem de hábitos. Interessa-nos apenas mostrar as bênçãos que recebemos.”

Um anel com a inscrição CTR – Choose The Right (“Escolhe a Tua Rota”) – é usado pelos Elders como um dos símbolos da sua fé
© Nuno Ferreira Santos

Phillips não se alonga sobre que bênçãos que colheu. “É o meu relacionamento pessoal com Deus, mas noto diferença na minha vida.” Wilder limita-se a dizer que deixou de ser “orgulhoso”. Rodrigues exalta “a união e felicidade” da sua família. Perkins anuiu ser difícil enumerar “as graças” recebidas.

Nos esforços para atraírem novos membros para a Igreja SUD – antes de abordarem alguém pedem “um sinal divino” que lhes indique “quem precisa de auxílio” –, os quatro Elders, têm histórias de rejeição, mas não muitas, asseguram.

“O pior que nos aconteceu foi levar com a porta na cara”, ironiza Wilder. E o melhor? “Foi entrar na Quinta do Mocho, onde temos muitos amigos, e conseguir que um traficante deixasse de vender e consumir drogas.”

“Sinceramente, se eu estivesse agora nos EUA, não saberia em quem votar”, confessa o extrovertido Rodrigues. “Cristo seria o nosso candidato”, sublinha Wilder, o altivo rapaz do Utah, onde os “santos” têm a sua sede, em Salt Lake City. Os restantes Elders fitam-no em silêncio, todos acenando com a cabeça, em sinal de concordância.

Mesmo que Romney tivesse sido eleito para a Casa Branca e seguisse políticas contrárias à sua crença, em nada prejudicaria os “santos”, vinca o antigo missionário Dinis Adriano, responsável pelas Relações Públicas em Portugal – o país que tem a quinta maior comunidade SUD da Europa (de 30 mil a 39 mil), depois da Inglaterra, Alemanha e Espanha.

“Ele não é representante da Igreja – há mórmones entre republicanos e democratas. Digam mal ou bem, o mais importante é que falem de nós.”

Na Igreja SUD há uma hierarquia – mas não um clero remunerado, explica Dinis Adriano (na foto), responsável pelas Relações Públicas em Portugal
© Nuno Ferreira Santos

Sobre a actual polémica envolvendo baptismos póstumos de vítimas do Holocausto – designadamente dos pais do célebre caçador de nazis Simon Wiesenthal, violando um pacto firmado em 1995 com os judeus ­–, mas também da mãe de Obama ou de Elvis Presley, o antigo missionário Adriano é veloz no desagravo.

“A Igreja já pediu desculpas publicamente. Todas as entradas na nossa base de dados foram anuladas, e quem voltar a incluir nomes que não sejam os da sua família arrisca-se a sanções disciplinares. Se não se arrepender, pode ser excomungado.”

Adriano valida os baptismos “por procuração”, em que, tal como os dos vivos, membros da Igreja são imersos em água em nome dos mortos, para “expiar os pecados e os aproximar do Pai Celestial”. Ele acredita que “também numa outra vida há livre arbítrio – os defuntos podem recusar esta oferta da Igreja.”

Na capela onde se juntaram, com vários aposentos decorados com quadros de cenas bíblicas mas sem qualquer imagem na Sala Sacramental (“porque acreditamos num Cristo vivo”), os Elders de Sacavém preferem falar deles mais do que de Romney.

Desde miúdo que o franzino Wilder quer ser nutricionista; o mais gordinho Phillips está determinado a ser realizador de cinema; Rodrigues alimenta o sonho de seguir um curso de Neurociências na Brigham Young University (BYU), propriedade da Igreja, em Provo-Utah; Perkins pretende formar-se em Economia. 

Solas gastas são sinal dos muitos quilómetros que os Elders percorrem por dia. Eles acordam por volta das 6/7 da manhã e deitam-se às 23h00, depois de completarem as tarefas domésticas e as obrigações religiosas
© Nuno Ferreira Santos

Estará Rodrigues preparado para o momento em que Ciência venha a pôr em causa a sua fé? “Acho que sim, mas não penso nisso”, responde, evasivo. E Perkins, aspira a ser um CEO como Romney? “Talvez, porque os negócios sempre me interessaram”, balbucia timidamente, num português quase fluente, com treino linguístico prévio de 9 semanas e outras 2 de prática no terreno.

Para a Igreja SUD, não se aplica a sentença bíblica “é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha do que um rico no reino dos céus”.

Perkins elucida: “Não é o dinheiro que nos impede de chegar ao céu, mas sim colocar o dinheiro à frente de Deus. Buscamos a prosperidade. Se vivemos agora uma vida confortável, também a teremos no céu.” Phillips afiança: “Se você tem, você dá.” Dinis Adriano acrescenta: “Claro que um rico não entrará no reino dos céus se o dinheiro for o seu deus.”

Não se estranhe, pois, quando Mitt Romney se mostra orgulhoso da sua fortuna calculada em 250 milhões de dólares – 2 milhões dos quais doados anualmente à Igreja SUD. O contributo financeiro, ou dízimo, é uma obrigação dos mórmones, chamados a oferecer a décima parte dos ganhos anuais, “para ajudar a edificar o reino de Deus na Terra”.

Maria José perdeu “muitos amigos” por ser mórmon

Maria José Gonçalves na capela mórmon em Lisboa; atrás de si está uma imagem com grande significado a SUD. O pintor terá mostrado a obra ao fundador da Igreja, Joseph Smith, que, depois de “visões de Deus e de Jesus”, lhe disse: “Não estás longe do rosto verdadeiro”
@ Nuno Ferreira Santos

A mãe obrigava-a a levantar-se cedo para ir à missa, mas quando leu o Livro de Mórmon a católica Maria José Gonçalves sentiu que a sua Igreja era outra. Hoje filhas, genros e netos são todos “Santos dos Últimos Dias”.

A Sociedade do Socorro é uma das organizações femininas mais antigas do mundo, criada em 1842 por Joseph Smith, o fundador da Igreja dos mórmones, e Maria José Gonçalves é presidente de um dos seus ramos.

Na sala onde se reúne com as companheiras de fé, na capela da Avenida Gago Coutinho, em Lisboa, a antiga telefonista que agora é também directora do Centro de História da Família dos Santos dos Últimos Dias, exulta ao relatar a sua conversão.

“Fui educada como católica”, conta. “A minha mãe obrigava-nos a acordar muito cedo para ir à missa. Afastei-me porque saí de casa muito cedo. Fui para Angola em 1969, e só em 1975 voltei a Portugal, quando o meu marido adoeceu.”

“Ele era ateu, mas quando precisou de fazer um transplante renal, pediu a Deus mais dez anos de vida para ver as filhas criadas.”

“Uma das minhas cunhadas começou a falar-me na Igreja SUD, a que ela já pertencia. ‘És maluca’, disse-lhe, mas numa ocasião aceitei ir a uma das actividades, a Festa da Primavera. Fiquei fascinada.”

“Além de orações, havia lanche – há sempre comida –, cânticos, hinos e baile. Umas missionárias perguntaram-me se podiam ir lá a casa. Concordei e a minha [filha] Gina foi a primeira a ser baptizada, a 2 de Fevereiro de 1986.”

No mês seguinte do mesmo ano, seguiram-se a própria Maria José (“senti que o Livro de Mórmon era mesmo verdadeiro’) e a outra filha. “Já o meu marido foi mais difícil”, admite. “Bebia álcool e café e fumava muito, três maços por dia, mas conseguiu encontrar vontade para abandonar os vícios”.

Foi baptizado em Maio de 1986. Morreu em 1993, após cumprir um sonho: “O de nos selarmos para toda a eternidade.” Para se casar num templo SUD, na Suíça, a mulher juntou “moedinhas de 20 escudos durante quase dois anos de muitos sacrifícios”.

A conversão de Maria José não incluiu apenas o baptismo mas também “a selagem para a eternidade” de pais, filhos e netos.

E porque ela acredita que até os mortos precisam de “expiar os pecados e serem salvos”, enviou para a Igreja SUD “cerca de mil e tal nomes” de antepassados mortos para serem também baptizados postumamente, por intermédio de voluntários que aceitam ser totalmente imersos em água, umas 10 ou 15 vezes cada um.

Esta é uma “ordenança”, a par do casamento e da selagem, que só pode ser efectuada nos templos (fechados ao domingo, totalmente interdito a estranhos “é o mais próximo que estamos de Deus e não podem ser profanados”, e sem qualquer ligação a redes de Internet por questões de segurança).

Sala de microfilmes no Centro de História da Família dos Santos dos Últimos Dias, dirigido por Maria José, ex-telefonista oriunda de uma família católica; o marido era ateu mas ela ajudou-o na conversão a mórmon antes de ele morrer
© Nuno Ferreira Santos

O baptismo das crianças só é possível a partir dos 8 anos – “a idade da responsabilidade”, mas os jovens dos 12 aos 18 já podem fazer baptismos póstumos. “A minha neta Andreia está ansiosa pelos 12 anos para ser baptizada” em nome de familiares falecidos, regozija-se Maria José. Nesta cerimónia, todos vão vestidos e calçados de branco, incluindo as solas dos sapatos, sem relógio e outros adornos, em sinal de pureza

Reformada do grupo Salvador Caetano, Maria José confessa que tentou, sem êxito, converter antigos colegas. “Quantas vezes não falei com o Martinho, o Castilho e a Helena Oliveira, porque gostava de me encontrar com eles no reino celestial”.

Eles ouviam-na sempre, mas nunca foram ter com ela aos locais para onde ela os convidava. “E os malandros do Benfica e do Sporting que, quando o meu FC Porto ganhava, diziam palavrões só para me irritarem? Não me esqueço do que me disse o Carlos Santos: ‘Mulher séria não tem ouvidos’ ”, lembra divertida. Linguagem obscena é proibida entre os mórmones.

“Também havia momentos em que, no meu gabinete, enquanto eu lia as Escrituras ou fazia crochet, se aproximavam, de mansinho, o Anselmo e o Vítor Ribeiro só para expelirem o fumo do cigarro para cima de mim – e eles sabiam que a minha religião proíbe o tabaco.” Em todo o caso, Maria José guarda desses tempos memórias felizes. Já fora do emprego, teve outros dissabores.

“Custou-me muito, mas perdi muitos amigos quando me converti”, lamenta. “Havia pessoas tão chegadas, como a madrinha da minha Gina, que depois se afastaram – nem sequer foram ao funeral do meu marido, e isso entristeceu-me.” Mas não se arrepende: “Ganhei muitos irmãos e irmãs de fé”.

Tem orgulho neles e realça o exemplo daqueles que “vendem casas e móveis”, para se poderem casar num templo SUD no estrangeiro, uma vez que em Portugal ainda não existe nenhum, embora já haja licença desde 2010 para o construir.

Maria José exibe uma espécie de cartão plastificado que tem de ser revalidado de 2 em 2 anos, depois de duas entrevistas, primeiro com o “presidente de ramo ou bispo” e depois com o “presidente da estaca” (diocese).

Qual exame de consciência, ela tem de confirmar que “guarda os mandamentos, cumpre a lei da castidade, paga o dízimo, aceita as responsabilidades e os líderes.”

Maria José (dir.) com a filha Gina – a primeira a converter-se –, o genro e duas netas, antes de um dos encontros de famílias organizado pela SUD em Lisboa
© Nuno Ferreira Santos

Às quartas, quintas e sextas-feiras à tarde, a “jóinha”, como os colegas a tratavam, passa os dias na sala de microfilmes a apoiar os que vão consultar (gratuitamente) cópias dos registos familiares que integram a maior base de dados genealógica do mundo – guardada debaixo de uma montanha rochosa, “à prova de tudo”, nos EUA.

Ela domina bem as máquinas e até decifra caligrafias ilegíveis do Centro de História da Família a que preside, e onde podem ser consultados documentos até ao ano de 1500. Todo este trabalho minucioso de arquivo, aprovado pelo Ministério português da Cultura, foi levado a cabo por voluntários mórmones.

Aos sábados, Maria José não perde as múltiplas actividades da capela de Sacavém, a sua área, e aos domingos participa activamente nas três horas de celebração religiosa e festividades, que incluem preparar e distribuir refeições na sua casa ou na cozinha comunitária.

Outro dia bom é segunda-feira, quando a família, seguindo a tradição mórmon de “reforçar a união e as crenças de pais e filhos para serem mais felizes”, se junta num encontro de uma hora, para ler o Evangelho mas também para brincar com as crianças (“não somos muito de sermões”).

Nesta reunião, a música (“um deleite para o coração, porque acreditamos que estamos a orar a Deus”) está sempre presente.” Será, talvez, por isso que o Utah, onde a Igreja SUD tem a sede, em Salt Lake City, é o estado norte-americano onde se vendem mais pianos e harpas.

Uma sondagem Pew Forum on Religion in Public Life concluiu que uma percentagem mais elevada de mórmones votou em George W. Bush em 2004 do que em Mitt Romney (na foto) em 2012. Mais: embora 78% dos fiéis tenham votado neste político republicano que partilha a sua fé, mais de 20% votaram em Barack Obama
© Charles Krupa | AP

Estes dois artigos, agora revistos e actualizados, foram publicados no jornal PÚBLICO em 6 de Março de 2012 | These two articles, now revised and updated, were published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on March 6, 2012

Já nem os “mullahs” gostam de Ahmadinejad

Presidente e Supremo Líder confrontam-se em legislativas que, não mudando a política interna e externa, são um teste à legitimidade do regime. (Ler mais | Read more…)

O Supremo Líder, Ayatollah Ali Khamenei, protegeu Ahmadinejad, mas depois foi retirando gradualmente o seu apoio ao presidente que contribuiu para maior isolamento do Irão
© Radio Free Europe

Os documentos oficiais iranianos começam, invariavelmente, com a frase “Em nome de Deus, o misericordioso e compassivo”, mas estas não parecem ser virtudes de Seyyed Ali Khamenei. O Supremo Líder da República Islâmica não perdoou Mahmoud Ahmadinejad pela ingratidão com que retribuiu a protecção oferecida após as controversas eleições presidenciais de 2009 e hoje tenta vingar-se.

Enfrentando a maior crise política das últimas três décadas, desde a queda da monarquia, Khamenei colocara todas as suas forças ao dispor de Ahmadinejad, para o apoiar mas, sobretudo, salvar o regime que uma parte da oposição queria reformar e outra derrubar.

Agora [em 2012], com 48 milhões de iranianos chamados a escolher (entre 3444 candidatos) os 290 deputados do novo Majlis, o ayatollah e o ex-guarda da revolução que nunca foi mullah estão em campos opostos.

É um confronto entre grupos de “linha dura” que o “movimento verde”, silenciado e violentamente reprimido, optou por boicotar. A opinião unânime de três analistas que ccontactámos, via e-mail, é a de que triunfarão os fiéis do vali-e faqhi, guia político e espiritual.

“O Irão passou a ter um sistema de partido único: o partido de Khamenei”, diz-nos Karim Sadjadpour, investigador do Carnegie Endowment for International Peace (EUA), onde ingressou depois de ter sido o principal analista para questões iranianas no International Crisis Group em Teerão e Washington. “A maior qualificação para os aspirantes a membros do Parlamento é a lealdade total ao Supremo Líder”.

Autor da biografia Reading Khamenei: The World View of Iran”s Most Powerful Leader, Sadjadpour salienta que “Khamenei gosta de dividir e reinar e, para isso, equilibra habitualmente diferentes facções umas contra as outras, sendo que por essa razão é agora do seu interesse enfraquecer a facção de Ahmadinejad, embora mantendo-a ligada a um ventilador.”

“O afastamento de Khamenei tem a ver, em particular, com o estilo (abrasivo, conflituoso) e as ambições” de Ahmadinejad, explica o analista iraniano Rouzbeh Parsi
© Behrouz Mehri | AFP | Getty Images

O Presidente “tem demonstrado uma capacidade única de perder amigos e afastar pessoas”, constata o analista. “Ao ser insubordinado e intransigente, ele incomodou os escalões mais altos.”

“Estas eleições são importantes porque nos dirão algo sobre a capacidade de as diferentes facções conservadoras trabalharem em conjunto (ou não – o mais provável), mas também porque serão uma espécie de ensaio para as presidenciais em 2012”, afirma Rouzbeh Parsi, especialista em Irão, Iraque e Golfo Pérsico no European Union Institute for Security Studies (EUISS, Paris), think tank que foi [2007-2012] dirigido pelo português Álvaro de Vasconcelos.

Ahmadinejad precisa de dominar o Majlis (Parlamento)para escolher um candidato presidencial que o mantenha ao leme, mas Khamenei fará tudo para não perder essa prerrogativa.

Não é muito diferente a opinião de Hooman Majd, neto de um ayatollah (Seyyed Mohammad Kazem Assar), escritor nascido em Teerão mas que reside nos Estados Unidos, onde é colunista de vários media, da New Yorker ao Daily Beast, e “tradutor temporário” de Ahmadinejad quando este discursou, em 2008, perante a Assembleia-Geral da ONU, em Nova Iorque.

“Ainda que sem candidatos liberais ou reformistas, estas eleições não deixam de ser relevantes para a legitimidade da “democracia islâmica”. Independentemente de quem ganhe, ninguém mais se atreverá a desafiar o Supremo Líder”, frisa Majd.

Qual foi, afinal, o detonador da ruptura entre o mestre e o discípulo? “O afastamento de Khamenei tem a ver, em particular, com o estilo (abrasivo, conflituoso) e as ambições do Presidente”, explica Rouzbeh.

“Quando Ahmadinejad tentou demitir o ministro dos Serviços Secretos e nomear o seu próprio homem, pisou um risco e tornou-se ameaça potencial ao equilíbrio frágil de um sistema que Khamenei tentara restabelecer depois de 2009. O Ministério dos Serviços Secretos é um posto sensível cujo titular responde directamente perante Khamenei, não perante o Presidente.”

Ahmadinejad “tem demonstrado uma capacidade única de perder amigos e afastar pessoas: ao ser insubordinado e intransigente, ele incomodou os escalões mais altos”, comenta Karim Sadjadpour, do Carnegie Endowment for International Peace
© AFP

Majd, autor de livros como The Ayatollah Begs to Differ e The Ayatollahs’ Democracy: An Iranian Challenge, aponta este e outros motivos para a discórdia. “O principal terá sido o facto de o Presidente, logo imediatamente após a sua reeleição, ter nomeado Esfandiar Mashaei como 1.º vice-presidente contra as ordens de Khamenei. A linha dura, que despreza Mashaei [supostamente defensor de “menos Islão e mais nacionalismo”], ficou horrorizada.”

Em privado, o Supremo Líder exortou Ahmadinejad a recuar, mas este só cedeu depois de Khamenei divulgar uma carta exigindo que afastasse Mashaei. Ahmadinejad voltaria a desafiar Khamenei, ao nomear Mashaei seu chefe de gabinete e principal conselheiro.

Em 2011, afrontou de novo o Supremo Líder ao demitir o ministro dos Serviços Secretos, forçando mais uma vez Khamenei a “envolver-se publicamente em questões comezinhas, o que ele odeia, para que [Gholam-Hossein Mohseni-Eje’i] fosse readmitido”.

No entender de Hooman Majd, o (anterior) Presidente iraniano sabia que Khamenei não poderia dispensá-lo depois de o ter amparado face a gigantescos protestos populares em 2009 e quis tirar partido desse apoio.

Todavia, ainda que o Supremo Líder “não possa (sem se embaraçar a si próprio e ao regime) livrar-se de Ahmadinejad antes de este terminar o segundo mandato de quatro anos, tentará reduzi-lo a uma figura insignificante, basicamente o que tem feito desde Abril de 2011.”

Quanto ao boicote da oposição reformista, Rouzbeh Parsi admite que “terá consequências”, mas realça que, provavelmente, será o impasse político a gerar maior apatia do eleitorado.

“Se a afluência às urnas for espectacularmente baixa, isso vai abalar a legitimidade já enfraquecida do regime, mas este ficará satisfeito com uma taxa de participação de apenas 40%”, considera o investigador do EUISS.

Karim Sadjadpour, do Carnegie Endowment, sublinha que os iranianos “já não se entusiasmam com eleições parlamentares – são cada vez menos os que acreditam ser possível mudar o seu destino pelo voto”.

Hooman Majd, que se desloca frequentemente ao Irão, confirma que “não há um grande entusiasmo” e que “um largo segmento da classe média” não participará.

“Não é fácil prever se o voto rural e não urbano será suficiente para chegar aos 60 por cento – o patamar ambicionado pelo regime”, observa.

À pergunta sobre se a coacção internacional pode influir no desfecho eleitoral, Majd é veemente: “Não, de todo! No Irão, toda a gente reconhece que a segurança nacional e a política nuclear estão nas mãos do Supremo Líder e, como o programa nuclear se mantém muito popular, a pressão estrangeira não afectará os resultados.”

Rouzbeh Parsi anota que, embora as sanções estejam a abalar seriamente a economia e a população iranianas, “só afectarão directamente os resultados se for possível determinar duas coisas: a) Quem é que os mais prejudicados responsabilizam? b) Onde podem eles encontrar uma alternativa em quem votar?”

“A política de sanções/negociações é altamente problemática por várias razões, mas agora sofre de um problema de credibilidade porque, sendo as sanções mais rigorosas, talvez sejam vistas no Irão como um esquema de mudança de regime”, acentua Parsi, criticando a “posição maximalista” de Israel de tentar impedir todo o enriquecimento de urânio em solo iraniano, “para preservar o seu monopólio de armas nucleares.”

“Não se pode forçar a República Islâmica a negociar o fim do seu programa nuclear e, ao mesmo tempo, lamentar que o regime ainda não tenha sido derrubado”, avisa Parsi.

“Para possibilitar um compromisso, a realidade presente tem de ser reconhecida e aceite; de outro modo não há razão para a República Islâmica se sentar à mesa das negociações e abdicar do seu trunfo mais importante.”

Karim Sadjadpour, que sempre repete ser o regime “homicida” mas não “suicida”, conclui: “Mais do que as eleições, o que vai ser determinante no comportamento nuclear iraniano é o preço do petróleo – quando os preços sobem todos são de linha dura; se os preços descem, os duros podem tornar-se moderados.” 

"Ahmadinejad afrontou o Supremo Líder ao demitir o ministro dos Serviços Secretos, forçando mais uma vez Khamenei a "envolver-se publicamente em questões comezinhas, o que ele odeia", disse Hooman Majd, escritor e analista, neto de um ayatollah e próximo do regime. @Ben Ferrari

“Ahmadinejad afrontou o Supremo Líder ao demitir o ministro dos Serviços Secretos, forçando Khamenei a “envolver-se publicamente em questões comezinhas, o que ele odeia”, diz Hooman Majd, escritor e analista, neto de um ayatollah
© Ben Ferrari

“Khamenei gosta de dividir e reinar e, para isso, equilibra habitualmente diferentes facções umas contra as outras”, diz Karim Sadjadpour, investigador do Carnegie Endowment for International Peace

“Mahmoud Ahmadinejad tornou-se uma ameaça potencial ao equilíbrio frágil de um sistema que Khamenei tentara restabelecer” diz Rouzbeh Parsi, que foi investigador no European Union Institute for Security Studies
© JOHAN BÄVMAN

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2 de Março de 2012 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on March 2, 2012

O Atlas Oriente-Ocidente de Natacha

Natacha Atlas traz o velho e o novo Médio Oriente a Lisboa com o seu nono álbum a solo, Mounqaliba – In a State of Reversal. (Ler mais | Read more…)

A última vez que Natacha Atlas veio a Portugal foi em 2006, quando cantou e dançou o seu sublime Ana Hina (“Estou aqui”, em árabe) na Casa da Música, no Porto.

Amanhã [26 de Fevereiro de 2012], a artista que tem servido de ponte entre o Oriente e o Ocidente, regressa para mais um concerto único, agora no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Vem promover o nono álbum a solo em mais de 20 anos de carreira, Mounqaliba – In a State of Reversal.

Convertida ao Islão na sua corrente mais mística (sufismo), filha de um judeu de Jerusalém (de origem egípcia) e de uma católica inglesa, Natacha Atlas continua a entrelaçar raízes familiares que se estendem do bairro marroquino de Marolle, em Bruxelas, onde nasceu a 20 de Março de 1964, até Northampton, no Reino Unido, onde ganhou fama no circuito da world music.

Antiga vocalista e bailarina dos Transglobal Underground (TU), Atlas deixou-se influenciar pelo cocktail da cultura DJ, clássicos indianos, reaggae, bhangra e hip hop dos velhos companheiros daquele grupo electro-étnico, adicionando-lhe o raï da Argélia e o sha’abi do Egipto.

O virtuosismo das suas composições, aliado ao exotismo que emana de um rosto carregado de maquilhagem, roupas coloridas e coleantes mas, sobretudo, da sua sempre exuberante raqs sharki (dança do ventre) facilitaram o êxito daquela a quem chamaram “Rosa Púrpura do Cairo”.

Inspirado nos versos de um poeta, filósofo e dramaturgo indiano Rabindranath Tagore, que, em 1913, se tornou no primeiro Nobel não europeu (Prémio da Literatura), e pontuado por registos sonoros dos intelectuais Peter Joseph e Jacques Fresco, o álbum Mounqaliba contém uma nova evocação da grande diva libanesa Fairouz (Muwashah Ozkourini), oferecendo ainda dois inspiradores covers de Françoise Hardy (La nuit est sur ville) e de Nick Drake (River Man).

Tal como Mounqaliba, os temas Batkalim, Lawzat Nashwa, Ghorous, TaaletNafourat el Anwar destacam-se pela sonoridade inconfundivelmente oriental, ora festiva ora melancólica, com extraordinário requinte vocal e instrumental.

E como em toda a restante obra a solo da autora de Diaspora, Fun does not exist, Halim, Gedida, Ayestheni e Foretold in the Language of Dreams, o mais recente álbum é cantado em árabe, inglês e francês, línguas que Atlas domina na perfeição, a par do hebraico e do espanhol.

É por isso que esta mulher controversa (Bastet, um rap que ataca os sistemas políticos árabes e Mahlabeya, pela sensualidade da frase “quero beber o amor dos teus lábios”, são melodias proibidas do seu repertório) gosta de se definir como “uma nómada”.

A partir deste disco, gravado em Londres e na Turquia, com um excelso Egypt Interlude em que se ouve um muezzim a apelar os fiéis de Alá à oração, Natacha Atlas e Samy Bishai (director musical) decidiram homenagear o povo que na Praça Tahrir derrubou Hosni Mubarak. A remistura do material de Mounqaliba deu lugar ao vídeo Egypt: Rise to Freedom.

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 25 de Fevereiro de 2012 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on February 25, 2012

Este homem governou a Líbia como “uma plantação de escravos”

Diz um provérbio árabe: “Teme aqueles que têm medo de ti”. Muammar Kadhafi foi morto numa batalha em Sirte, anunciaram comandantes do governo de transição da Líbia. Aos 27 anos, quando derrubou a monarquia, compatriotas admiravam-no como oficial corajoso – e “bonitão”. Esperavam que  fosse um herói árabe, da estatura do egípcio Nasser. Mas, após quatro décadas de uma brutal “república de massas”, a figura excêntrica que acumulava todos os poderes, só com a patente de coronel, também caiu do trono. Chegou ao fim o que um opositor  descreveu como “a pior das ditaduras”. (Ler mais | Read more…)

© John Redman | AP

Mohamed Berween deixou a Líbia em 24 de Março de 1977, o ano em que Muammar Kadhafi proclamou a Jamahiriya Árabe Líbia Popular e Socialista. Nunca mais voltou à pátria, mas, agora que o Qa’id at-tawra (“Guia da Revolução”) foi morto, numa batalha com as forças que há oito meses o tentavam derrubar, este dirigente da oposição no exílio já comprou o bilhete de regresso.

“Estou tão feliz – chego a Trípoli no dia 16 de Novembro [de 2011]”, diz-nos, por telefone, o professor de Ciência Política e Administração na Texas A&M International University, nos Estados Unidos.

“Só não viajo imediatamente porque precisei de obter, antes, um documento que me permitisse sair do país que me deu asilo político”, explica Berween, acrescentando que, sem passaporte líbio nem cidadania americana, se sentia “um apátrida”.

Ele não esquece, porém, e agradece “a grandeza da América” que, “graças a um green card”, lhe permitiu ser professor a tempo inteiro numa prestigiada universidade. A universidade que agora lhe concede também uma licença sem vencimento, caso a sua nova vida – “Vou para ficar”, garante – não lhe permita sustentar financeiramente a família.

Berween, que nasceu em Misurata, a terceira cidade líbia situada menos de 200 quilómetros a leste de Trípoli e submetida a vários meses de cerco, foi forçado a exilar-se devido a “actividades no movimento estudantil”, que não especificou. Nunca se encontrou pessoalmente com Kadhafi.

Evoca apenas as visitas do coronel, entre 1973 e 1976, à Universidade de Ghar-Yunis, em Bengazi, antiga capital da província de Cirenaica, onde o seu pai era um homem de negócios. “Os discursos de Khadafi serviam para nos amedrontar”, recordou. “Ele fiava-se na política do medo, no princípio de Maquiavel de que ‘é melhor ser temido do que ser amado’.”

Depois da chegada a Trípoli, Berween seguirá logo para Misurata, onde vai rever o seu pai. Só após esta visita tenciona envolver-se activamente na política, oferecendo-se como conselheiro às novas autoridades, com as quais tem mantido contactos, mas “sem ambições” de integrar qualquer futuro governo.

“Por ser formado em Ciência Política, acho que posso contribuir para a construção de uma nova Líbia, preparar uma eficaz transição, apresentar ideias, projectos e soluções”, confia.

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Que soluções vai propor? “Para já”, responde, “a criação de uma assembleia-geral de onde sairá um governo interino para organizar administrativamente o país e redigir uma Constituição. Tenho ideais republicanos e defendo um Estado de direito. Advogo um sistema político parecido com o dos EUA, onde quem faz as leis é o Congresso, quem as interpreta é o Supremo Tribunal e quem as aplica é o Presidente.”

“Para o Governo, porque a Líbia é um país muito vasto, três vezes maior do que a França, seria bom adoptar o sistema federal da Alemanha, com estados regionais – deste modo, estaremos a dar mais poderes às instituições e não aos indivíduos, como aconteceu até agora.”

A transição, adianta Berween “não deveria exceder um prazo de 18 meses, tolerando-se uma prorrogação por mais seis meses. Não mais. Não podemos esquecer que os ditadores adoram períodos de transição – Khadafi viu sempre os seus 42 anos de poder como uma revolução, um período de transição.”

A Constituição, por outro lado, “tem de garantir eleições livres e justas, com a presença de observadores estrangeiros. Devíamos seguir o modelo francês, segundo o qual todos se podem candidatar – a presidenciais e legislativas – mas com um limiar mínimo de votos.”

“Para eleger um Presidente, por exemplo, será necessário mais de 50 por cento – se não, submete-se a uma segunda volta”, adiantou.

“Para o Parlamento, se não quisermos correr o risco de ter mais de 100 partidos, é preciso adoptar o modelo alemão de representação proporcional. A Líbia não tem um só povo. Tem os Imazighen [berberes], os africanos, os árabes… a maioria, à qual pertenço, mas que não deve sobrepor-se aos outros.”

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Qual o papel da religião no novo Estado? “A Líbia é um país islâmico e não creio que deva haver separação entre religião e Estado – era assim que pensava Ronald Reagan, o antigo Presidente dos EUA”, esclarece Berween. “Não podemos, de modo algum, ser um novo Afeganistão, um país de extremistas.”

“A nossa revolução, cooperando com a NATO, serviu de exemplo, e acho que, doravante, seremos também um novo modelo de país muçulmano, democrático, federal e pacífico. Tenho a certeza de que não seremos um Estado falhado!”

Na primeira entrevista que nos deu, quando a revolução começou em Fevereiro (15-16/2011), Berween mostrava-se confiante numa vitória rápida e na união dos líbios contra o ditador. Seis meses depois, quando o voltámos a contactar, explicou assim por que demorou tanto o desfecho pelo qual ansiava. “A crise prolongou-se por várias razões:

a) os combatentes [rebeldes] não estavam preparados para este tipo de guerra – são apenas pessoas comuns que estavam determinadas a lutar pela sua liberdade;

b) a falta de armas adequadas para que os combatentes defrontassem as forças de Khadafi e a recusa da comunidade internacional em fornecer-lhes armamento;

c) a falta de confiança da NATO nos revolucionários e o facto de a NATO estar à espera que o círculo de fiéis de Kadhafi o derrubasse num golpe, mais do que numa vitória dos combatentes pela liberdade.”

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Berween rejeitou sempre a ideia de que a Líbia não se livrará de uma guerra civil mesmo após a morte do déspota, anunciada ontem pelos comandantes do governo de transição depois de uma batalha, em Sirte, onde Kadhafi foi capturado e ferido. “Esse cenário é um papão que jamais se materializará”, vincou.

“O mesmo se aplica ao tribalismo, um argumento que foi usado por Kadhafi para manter o seu controlo sobre a Líbia, sem sucesso. Sim, na Líbia há muitas tribos, mas todas acreditam na unidade do país e querem a liberdade. A Líbia não será dividida, entre leste e oeste, e manter-se-á um país uno, porque não pode existir de outro modo.”

O líder que Berween tanto desprezava – “um dos piores governantes da história da humanidade, um ser desumano e cruel” – nasceu Muammar ibn Abi al-Minyar al-Kadhafi, em Junho de 1942, numa tenda no deserto de Sirte, de uma família de pastores nómadas, membros de uma das 140 tribos da Líbia, a Khadadhafa.

Berbere e arabizada, pequena e insignificante, a Khadadhafa considera-se, porém, murabitoun (bendita), porque faz remontar as suas origens a Sid Khdafaddan, um wali (santo), enterrado em Al-Gharyan, a sul de Trípoli, refere o site GlobalSecurity.org.

Os Khadadhafa foram conduzidos para as zonas desérticas de Sirte pela Confederação de Sa’adi, liderada, entre outras tribos, pela dos Bara’sa, a que pertence Safiya (nascida Farkash al-Hadda), a mulher de Khadafi, que não se mostrava em público, mas “viajava pela Líbia em jactos privados e em colunas de Mercedes”, segundo dados divulgados pela controversa WikiLeaks.

Khadafi, que só tinha irmãs, terá suportado bem este ambiente severo e asceta. Será que isso influenciou a personalidade excêntrica e enigmática do “vilão da moda”, segundo a descrição da revista Vanity Fair, “com influências de Lacroix, Liberace, Phil Spector, Snoopy e Idi Amin”, vaidoso nos seus uniformes medalhados e túnicas de peles de animais?

“A resposta curta é ‘NÃO’”, vincou Berween. “Há pessoas com o mesmo background e são extraordinárias. Sem rodeios, digo que ele é um político psicopata. Infelizmente, a comunidade internacional não se importa de conviver com este tipo de dirigentes enquanto eles oferecem estabilidade política, e só quando constituem ameaça é que impõe sanções e os coloca em listas negras.”

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O norte-americano Ronald Bruce St. John, autor de vários livros sobre o Magrebe, o mais recente, Libya: Continuity and Change, não exclui que o comportamento de Kadhafi tenha sido moldado pelo isolamento rigoroso em que foi criado.

“Modelou pelo menos a sua predilecção por viver em tendas”, seja no interior do forte de paredes triplas de Baba al-Azaziya, em Trípoli, ou nos jardins dos Campos Elísios, em Paris, observou St.John.

“Já não sei explicar por que é que ele adora usar vestes extravagantes e tem um corpo de [400] guarda-costas virgens, [maioritariamente etíopes].”

De uma breve biografia escrita por Taoufik Monastiri para a Encyclopaedia Universalis, sabe-se que Kadhafi tardou a frequentar o ensino primário e que estudou numa escola preparatória em Sebha, quando se mudou em 1956 para esta cidade, que é capital de Fezzan, uma das três províncias líbias (juntamente com a Cirenaica e a Tripolitânia).

No liceu, aos 17 anos, inspirado pelos ideais pan-arabistas do egípcio Gamal Abdel Nasser, criou com seis colegas uma primeira “célula política”. Mais tarde, na Universidade de Bengasi, interrompeu um curso de Geografia, três anos após a inscrição, para entrar na Academia Militar.

Em 1964, à semelhança dos Oficiais Livres que, liderados por Nasser, destronaram o Rei Farouk no Egipto, Khadafi formou o Comité dos Oficiais Unionistas Livres, cujo objectivo era derrubar a monarquia líbia e instaurar um Estado “revolucionário e nacionalista”.

A 1 de Setembro de 1969, aos 27 anos, o capitão que os amigos tratavam por al-jamil (o bonitão) aproveitou a “ausência excepcional” do velho Rei Idris al-Sanussi (em tratamento na Turquia) e tomou o poder – sem derramar sangue. O príncipe herdeiro, o sobrinho Hassan, foi obrigado a abdicar.

Segundo Monastiri, só semanas depois do golpe os líbios ficaram a saber quem era o chefe dos conspiradores, quando Khadafi fez um primeiro discurso na qualidade de “presidente do governo, presidente do Conselho do Comando da Revolução, comandante-chefe dos exércitos e ministro da Defesa”.

O seu programa político assentava no “nacionalismo árabe, no socialismo inspirado no Corão, no anti-imperialismo e na revolução do povo pelo povo”.

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Kadhafi defendeu a destituição do rei como uma resposta à corrupção da dinastia Sanussi e “subserviência” às potências estrangeiras, que continuavam a dominar a antiga colónia italiana independente desde 1951.

Não tardou, pois, a que o “Líder Irmão” entretanto promovido a coronel (recusou a patente de general) ordenasse o encerramento das bases e a retirada das tropas do Reino Unido e dos EUA. Fez aprovar também uma lei de “protecção da revolução”, para reprimir toda a oposição, e criou a União Socialista Árabe, cópia do partido de Nasser.

Começou a dar sinais da sua excentricidade, quando, subitamente, comunicou que abandonava a vida política, para depois reaparecer, em 15 de Abril de 1973, em Zuwarah, onde inaugurou “uma nova era”, lembra Monastiri.

“Declarou uma revolução cultural, suspendeu leis, mandou eliminar dissidentes, deu armas ao povo e proibiu teorias importadas contrárias ao islão.”

Em 1976, Kadhafi publicou o primeiro volume do Livro Verde, uma espécie de Constituição nacional, onde explicita o seu conceito de “democracia” e justifica a criação de (temíveis) “comités populares” ou “comités revolucionários” – que haveria de mobilizar, entre 1980 e 1982, como esquadrões da morte para assassinar os opositores no estrangeiro a que chamava “cães vadios”.

Em 7 de Abril de 1977, proclamou a Jamahiriya Árabe Líbia Popular e Socialista – um “Estado das massas” sem Presidente, sem governo e sem Parlamento.

Em 1978, no segundo volume do Livro Verde, enunciou o sistema económico “kadhafiano” e, em 1979, no terceiro volume, definiu a “Terceira Teoria Internacional” – nem capitalismo nem comunismo.

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O Livro Verde passou a reger a vida de todos os líbios, mesmo depois de o coronel, também autor da ficção Escape to Hell and Other Stories (“Fuga para o Inferno e Outras Histórias”), ter trocado o socialismo por uma economia de mercado, a partir de 1986, ao privatizar uma grande parte da indústria e do comércio do país.

Se a sua política interna era singular, a externa era igualmente peculiar. Tentando sempre emular Nasser, procurou formar várias uniões com países vizinhos, mas todos os planos fracassaram (chegou a travar um conflito armado com o Egipto em Julho de 1977). Os árabes começaram a olhar para ele como um louco.

Desiludido, Kadhafi trocou o pan-arabismo pelo pan-islamismo, competindo com os sauditas pela influência muçulmana em África. Tinha muito dinheiro para gastar, proveniente dos imensos recursos energéticos do país (reservas confirmadas que ascendem a 41,5 mil milhões de barris e 1490 biliões de metros cúbicos de gás natural).

Em África, contudo, os fiascos também ocorreram. Depois de apoiar o ditador canibal Idi Amin no Uganda, numa tentativa de “expansão ideológica”, envolveu-se em 1980 numa guerra de milhares de mortos com o Chade após ter anexado, cinco anos antes, a Faixa de Aouzou, rica em urânio, na altura necessário ao seu programa atómico. O contencioso só terminou no Tribunal Internacional de Haia, em 1994, com um veredicto a favor dos chadianos.

O dinheiro do petróleo serviu também para apoiar rebeldes na Libéria e na Serra Leoa, e ainda a OLP, de Yasser Arafat, a Frente Polisário no Sara Ocidental, o Exército Republicano Irlandês (IRA), e os mercenários venezuelano Carlos, o Chacal, e palestiniano Abu Nidal.

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Foi nos anos 1980 que Ronald Reagan amaldiçoou Kadhafi como o Mad Dog (“Cão Raivoso”) do Médio Oriente, após dois atentados brutais: um, em 1986, na discoteca La Belle, em Berlim (três mortos e 200 feridos, alguns deles soldados norte-americanos); e outro, em 1988, na cidade escocesa de Lockerbie (270 mortos na explosão de um avião da PanAm). Reagan ripostou, mandando bombardear Trípoli e Bengazi. Morreram 60 militares e civis, incluindo uma filha adoptiva de Khadafi.

No final dos anos 1990, submetido a quase uma década de sanções internacionais e enfrentando uma oposição islamista, o beduíno, que, ainda segundo a WikiLeaks, tinha medo das alturas e era hipocondríaco, desfigurou os músculos faciais com botox e não viajava sem uma enfermeira ucraniana, “loura e voluptuosa”, chamada Galina (uma das primeiras a desertar do seu círculo, quando a rebelião progredia), decidiu mudar o seu próprio rumo.

Kadhafi foi o primeiro a emitir um mandado de captura contra Osama bin Laden, em 1998. O Presidente Bill Clinton ignorou a sua proposta de cooperação, mas George W. Bush não lhe virou as costas.

A 12 de Setembro de 2001, um dia depois dos ataques da Al-Qaeda contra o World Trade Center, o então chefe dos serviços secretos líbios, Musa Kusa, contactou a CIA e disse-lhes: “Esta é a nossa lista de suspeitos.” Em troca, teve autorização para os seus agentes interrogarem presos líbios em Guantánamo.

Antes, em 1998, Kadhafi já havia concordado em entregar os dois suspeitos do atentado de Lockerbie para serem julgados e aceitara “responsabilidade” (mas não culpa) pelo ataque.

Pagou 2,7 mil milhões de dólares em indemnizações às famílias das vítimas. No ano seguinte, após a suspensão das sanções, os investimentos estrangeiros na Líbia atingiram os 8000 milhões de dólares.

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A 20 de Agosto, Kadhafi conseguiu a libertação do único condenado, Abdelbasset al-Megrahi [que morreu de cancro em Maio de 2012] membro de uma tribo, a Megraha, que sempre fora leal ao regime.

Os britânicos invocaram “razões humanitárias” para Megrahi não cumprir 27 anos de uma pena perpétua (sofria de cancro na próstata e tinha “menos de três meses de vida”). Especulou-se que foi trocado por lucrativos acordos comerciais [mas ele acabaria por morrer, em sua casa, depois de ter deixado um hospital em Trípoli, a 20 de Maio de 2012].

Em 2003, o imprevisível Kadhafi tomou a mais inesperada das decisões: anunciou o fim do programa de armas químicas e nucleares.

Seguiram-se cimeiras com Tony Blair (e um contrato, em 2007, com a British Petroleum/BP no valor de 900 milhões de dólares); com Nicolas Sarkozy (que assegurou acordos de 10 mil milhões, a maioria no sector da defesa); e com Silvio Berlusconi (que garantiu negócios de 5000 milhões e o controlo da imigração clandestina – entretanto perdido –, após ter pedido perdão pelo período colonial italiano).

Com 6,5 milhões de habitantes (dados de 2010), a Líbia – terceiro maior país de África depois da divisão do Sudão e o terceiro maior produtor de petróleo do continente – atrai os europeus, porque o custo de transportar este recurso vital pelo Mediterrâneo é inferior ao dos países exportadores do Golfo Pérsico.

Os líbios, por seu turno, a darem os primeiros passos para uma economia de mercado (reduziram subsídios, privatizaram mais de cem empresas desde 2003 e pediram adesão à Organização Mundial do Comércio/OMC), estavam sedentos de capitais para modernizar as suas obsoletas infra-estruturas e fazer face a um elevado desemprego.

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O “rei dos reis de África” (título que deu a si próprio – e que em 2012 foi atribuído ao Presidente do Zimbabwe, Robert Mugabe) estava a colher os frutos de ter mudado de campo.

A Líbia chegou a membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU – dois anos de mandato iniciado em Janeiro de 2009 –, ano em que assumiu também a presidência da Assembleia Geral das Nações Unidas, tendo ainda integrado o conselho de governadores da Agência Internacional de Energia Atómica. 

O que fez então cair esta “raposa do deserto”? Sobre ele um psiquiatra, depois de ouvir um dos seus discursos de longas horas, terá dito a Brian Whitaker, do diário The Guardian: “Recebo pacientes como ele todos os dias no meu consultório.”

Uma observação que condiz bem com uma passagem do seu livro Escape to Hell, onde Khdhafi escreve: “Boas notícias para os doentes mentais, sejam homens ou mulheres. Foi descoberta uma erva nas planícies de Bengazi e está agora à venda na loja de Hajj Hassan. (…) Quanto aos que ainda não são doentes mentais, [o comerciante] Hajj Hassan nada disse [sobre estes pacientes].”

A revolta popular, iniciada na noite de 15 para 16 de Fevereiro, “foi motivada pelo descontentamento generalizado com a corrupção e o clientelismo do regime”, respondeu-nos a, a partir do Novo México, Ronald Bruce St. John, que, por ser especialista em Norte de África, é consultor de algumas das 500 maiores empresas da revista Fortune e de agências governamentais dos EUA.

“A Líbia Oriental sempre foi um centro problemático, em parte porque Kadhafi castigou a região pelo apoio que antes deu à monarquia”, disse St. John, autor de Libya: From Colony to Independence.

“A província de Cirenaica é rica em petróleo, mas sentiu-se sempre expropriada das receitas que Khadafi distribuía pelos seus feudos na Tripolitânia.”

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Uma das grandes questões que os analistas ainda se colocam é sobre o que vai acontecer no pós- Kadhafi. O coronel jamais permitiu uma alternativa ao seu poder num país que, como Berween relembrou, foi “o primeiro Estado-nação ao qual a ONU deu a independência depois de 40 anos de ocupação italiana” e onde a religião tem ocupado “uma posição ambígua”.

Durante mais de quatro décadas, “Kadhafi destruiu sistematicamente a sociedade civil na Líbia”, constatou Bruce St. John. “Criou a chamada ‘democracia popular’, mas, na realidade, sempre liderou o país de uma forma brutal e ditatorial.”

“A relação com os seus sete filhos e uma filha é muito estreita. Ele queria que um deles fosse seu sucessor, mas não fez uma escolha e sempre lançou uns contra os outros, para ver qual seria o mais forte e o mais capaz.”

St. John concorda que “a Líbia é uma sociedade tribal e regional”, onde os Khadadhafa ocupavam um lugar-chave no regime, em associação com as poderosas tribos Warfalla e Megraha, a primeira das quais renegou  Khadafi assim que começou o massacre por ele ordenado na sequência da sublevação popular.

Uma outra, a Zuwaya, que habita as cidades petrolíferas do golfo de Sirta, ameaçou interromper as exportações de crude, se a violência não cessasse, mas foi impotente perante o avanço das tropas e mercenários contratados pelo regime.

Apesar deste sistema de tribos e clãs, St. John notou “o desenvolvimento de um certo sentimento de nacionalismo desde a independência em 1951”.

Os líderes tribais, disse o especialista norte-americano, ainda antes de Kadhafi ter lançado uma guerra total contra os que o desafiaram, “irão unir-se a outras forças para encontrar uma forma pacífica de fazer a transição para uma sociedade mais livre”.

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Desde os primeiros dias da sublevação iniciada em Bengazi, o ódio a Kadhafi era palpável nas bandeiras do Reino da Líbia pós-independência, preservadas pelas confrarias sufis e erguidas pelos manifestantes – um sinal de memória de um tempo de normalidade.

Era também audível no lema do mítico combatente anti-italiano Omar al-Mukhtar que os revoltosos entoavam nas ruas: “Viver em dignidade ou morrer em dignidade!”

O regime agora decapitado é assim descrito por Mohamed Berween: “Um dos seus principais pilares era a ‘lealdade tribal’. E, baseada nesta, Kadhafi enfraqueceu e descentralizou as forças de segurança, organizando-as segundo linhas tribais. Também usava subornos e favoritismo.”

“Dividia para reinar. Nunca confiou em ninguém – nem nos seus filhos, embora quisesse manter o poder na família. Sofre da ‘mentalidade da plantação’. Vê a Líbia como uma plantação política, os líbios como seus escravos e os seus parentes como proprietários.”

“Seguindo este raciocínio”, continua Berween, Khadafi “conferiu aos filhos papéis e tarefas diferentes. Por exemplo, a Khamis e Hannibal ofereceu a liderança das milícias especiais que substituíram o exército profissional; a Mutassin [morto em combates com os rebeldes em 2011] deu a chefia da segurança nacional líbia; a Mohamed entregou o controlo das comunicações; e a Saif al-Islam encarregou das questões políticas e de ‘direitos humanos’, apresentando-o ao mesmo tempo como sucessor.”

Morto o coronel, o professor de Misurata é implacável na avaliação: “Kadhafi destruiu a Líbia. O balanço do seu regime, a nível interno, é opressão, pobreza e corrupção; a nível externo, prejudicou a imagem do nosso maravilhoso país e de um grande povo, devido às suas acções bizarras e caprichosas. A sua foi a pior das ditaduras.”

© Ben Curtis | Associated Press

De Kadhafi ao “estado islâmico”

2011 — A 17 de Março, o Conselho de Segurança da ONU aprova a Resolução 1973, com 10 votos a favor, nenhum contra e cinco abstenções, com o propósito de estabelecer uma no-fly zone e usar “todos os meios necessários” para proteger os civis na Líbia, alvo de bombardeamentos por parte da aviação de Muammar Kadhafi; a 19 de Março, caças franceses entram em território líbio em “missão de reconhecimento”, visando ataques contra ‘alvos inimigos’; a 22 de Agosto, rebeldes que (a 17 de Fevereiro) iniciaram a sublevação no Leste da Líbia entram em Trípoli, a capital, e mudam o nome da Praça Verde para Praça dos Mártires, em homenagem aos cerca de 30.000 mortos da guerra civil; a 23 de Outubro, os rebeldes anunciaram a “libertação da Líbia”.

2012 —  A 7 de Julho, realizam-se as primeiras eleições legislativas após a queda/morte de Kadhafi; a 8 de Agosto, o Conselho de Transição Nacional entrega o poder a um Congresso Nacional Geral (CNG, Parlamento), com a missão de formar um governo interino e redigir uma nova Constituição, a aprovar num referendo nacional; a 11 de Setembro, o grupo islamista Ansar al-Sharia mata o embaixador dos EUA na Líbia, J. Christopher Stevens, num ataque coordenado contra dois edifícios governamentais americanos em Bengasi; a 7 de Outubro, o primeiro-ministro eleito Mustafa A. G. Abushagur demite-se após o fracasso de uma segunda tentativa para formar governo; a 14 de Outubro, o Congresso Nacional escolhe para chefe do Executivo Ali Zeidan, um dos seus antigos membros e activista dos direitos humanos.

2013 — Em Junho, o CNG elege para presidente um deputado independente, Nuri Abu Sahmein, membro da minoria berbere, muito discriminada durante o regime de Khadafi.

2014 — A 11 Janeiro, o vice-ministro da Indústria Hassan al-Darouei, 42 nos, é morto a tiro, durante uma visita a Sirte, terra-natal de Kadhafi – o primeiro assassínio político desde que o ditador foi afastado do poder; Em Junho, depois da demissão de dois primeiros-ministros, Ali Zeidan e Ahmed Maiteg, depois de legislativas em que os islamistas sofrem uma derrota pesada, forças leais ao parlamento cessante (que passa a governar a partir de Tobruk) e ao parlamento eleito (também conhecido como “Governo de Salvação Nacional”, com sede em Trípoli)  envolvem-se em confrontos; a maior parte de Bengazi fica sob controlo do Ansar al-Sharia, um grupo leal ao chamado “estado islâmico” (Daesh).

2015/2016 — A guerra civil iniciada em 2014 continua: o número de mortes ultrapassa os 4000; mais de um terço da população terá fugido da Líbia.

Mohamed Berween
© archive.libya-al-mostakbal.org

Ronald Bruce St. John
© education.mei.edu

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 21 de Outubro de 2011 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on October 21, 2011

Líbia: “Os combatentes pela liberdade cometeram muitos erros”

Após seis meses de uma sublevação transformada em guerra civil, o académico e activista político Adel Mekraz explica por que se prolongou o conflito para derrubar Kadhafi, o que o distingue da revolta síria e qual o futuro do seu país sem o excêntrico coronel que há quatro décadas o governava. (Ler mais | Read more…)

An anti-Qaddafi fighter uses a picture of Muammar Qaddafi as a floor mat in his vehicle at El-Khamseen gate, the eastern gate of Sirte, on September 25, 2011. @ Reuters/Asmaa Waguih)

Fotografia de Muammar Kadhafi usada como tapete de um veículo, em Sirte (2011)
© Asmaa Waguih | Reuters

Adel Mekraz, professor de Engenharia na Universidade de Wisconsin-Stout, é um  influente activista político líbio exilado nos Estados Unidos. Natural de Trípoli, tem cidadania americana desde 1996.

Mekraz deixou a pátria em 1979, aos 19 anos, para estudar em Londres e revisitou-a em 1982 [regressou depois da queda e assassínio de Muammar Kadhafi em 2011] , ano em que tomou conhecimento de que o seu melhor amigo tinha sido executado pelo regime. Deu-me esta entrevista por e-mail:

A resistência líbia já terá entrado em Trípoli [a cidade caiu em poder dos rebeldes em Agosto de 2011], depois da conquista de várias cidades estratégicas e deserção de figuras de peso do regime, como o antigo “número dois”, Abdel Salam Jalloud, que ajudou Kadhafi a derrubar a monarquia no golpe de 1969, e os ministros do Interior e do Petróleo. Apesar de avanços e recuos, vários analistas prevêem o fim iminente de 41 anos de poder de Muammar Khadafi. Por que se prolonga este conflito há seis meses?

Em relação à deserção de Jalloud, é preciso dizer que ele não era, desde há 19 anos, uma figura popular ou influente, porque tinha sido marginalizado. É mais importante agora, porque encorajou a sua própria tribo e a de Khadafi, assim como os habitantes de Trípoli [um quarto dos mais de seis milhões de habitantes] a juntar-se à revolução. Quanto ao arrastamento do conflito, há várias razões.

A primeira é que o ditador, obcecado com a sua segurança, se preparou a si próprio e às suas forças leais para qualquer tentativa de o derrubarem, num golpe militar ou numa sublevação. As suas forças leais fizeram nos últimos 25 anos exercícios militares para manter o controlo de Trípoli na eventualidade de uma guerra de milícias, de uma invasão de forças estrangeiras ou de uma sublevação.

Os acontecimentos na Tunísia e no Egipto alimentaram ainda mais essa paranóia, e ele começou a aprontar-se para o cenário de uma insurreição, contratando mercenários enquanto ainda decorriam as revoluções na Tunísia e no Egipto.

Segunda razão: A transformação de uma sublevação civil num confronto militar. Este será um tópico interessante de estudo para académicos e investigadores. Será que a rebelião líbia estava destinada a ser um confronto militar ou isso ficou a dever-se à inexperiência dos líderes da sublevação? Será que o regime teria esmagado totalmente a rebelião se o povo tivesse continuado a resistir pacificamente sem ter de recorrer às armas?

Há unanimidade entre os líbios que apoiam a revolução de que não tinham alternativa a não ser usar armas contra o ditador porque ele jamais cederia às reivindicações civis, nem tem a personalidade para ser um negociador. Certo ou errado, transformar uma revolta civil numa confrontação armada foi uma boa notícia para o déspota porque ele estava preparado para ela.

Terceira razão: A oposição não possuía armas pesadas sofisticadas, treino e outras capacidades. Era preciso muito tempo para criar um novo exército com estrutura, hierarquia e generais – e este esforço foi sendo feito enquanto se lutava para ganhar a guerra no campo de batalha.

Mohammed Sayad, 18 anos, exibe o seu colar com uma bandeira anterior à da República Popular proclamada por Khadafi. @Alexandre Meneghini | AFP

Mohammed Sayad, 18 anos, exibe o seu colar com uma bandeira anterior à da República Popular proclamada por Kadhafi
© Alexandre Meneghini | AFP

Quarta razão: Embora o apoio à revolução fosse esmagador, não houve vontade política, sobretudo no Ocidente, para dar armas aos combatentes líbios nos primeiros meses da sublevação.

Quinta razão: o Chade e a Argélia desempenharam um papel significativo na assistência a Khadafi e também isso fez arrastar a guerra. Aqueles dois Estados ajudaram o regime líbio no recrutamento e transporte de mercenários, fornecimento de armas e petróleo. O governo chadiano até enviou algumas das suas próprias forças para lutarem ao lado do ditador.

Sexta razão: A Líbia é um país muito vasto, com uma linha costeira de quase 2000 quilómetros e um gigantesco deserto. A distância entre Bengazi, sede do Conselho Nacional de Transição [CNT], e Trípoli, é de cerca de mil quilómetros. Bengasi é significativa porque aqui começou a organizar-se a revolta contra o regime. Estar a grande distância da capital dificultou o esforço para influenciar o que acontece em Trípoli, e foi um grande desafio para a oposição.

O cenário de uma guerra civil sangrenta depois da queda de Kadhafi nunca foi excluído. Esse risco permanece, uma vez que a Líbia tem sido definida como uma sociedade dividida entre tribos e clãs rivais?

Uma guerra civil sangrenta é o que temos vindo a assistir, embora muitos líbios não lhe queiram chamar “guerra civil”. Mas é uma guerra que opõe líbios a outros líbios. O risco de, no pós-Kadhafi, vermos o país cindir-se é muito baixo. Cidadãos de várias regiões da Líbia têm combatido ombro a ombro contra as forças de Kadhafi.

Rivalidades de tribos e clãs foram estratégia do regime para dividir e governar. Ainda que a Líbia tenha algumas estruturas tribais, eu que nasci em Trípoli, nunca tive uma vida tribal e os meus pais nunca me falaram em lealdades tribais. A maior parte da Líbia urbana [concentrada em Trípoli e Bengasi; 88% da população] não é tribal.

A woman suspected of being a Qaddafi loyalist, behind bars inside a detention facility in Misrata, Libya, on September 22, 2011. Muammar Qaddafi's former prime minister has been arrested in Tunisia, officials said, as Libya's new rulers and NATO warned the fugitive leader and his loyalists that they are running out of places to hide. @AP Photo/ Manu Brabo)

Uma mulher “suspeita de lealdade” a Kadhafi, esconde-se por detrás das grades de um centro de detenção na cidade de Misurata (2011), antes do assassínio do ditador por uma milícia local
© Manu Brabo | Associated Press

Há quem atribua uma grande relevância à tribo de Zintan, que se revoltou em Março contra Khadafi mas que não manterá boas relações com o Conselho Nacional de Transição (CNT), em Bengasi, onde não terá representação. Pode esta tribo fazer descarrilar uma solução pacífica após a queda do coronel?

Zitan é uma pequena localidade de cerca de 25 mil pessoas. Não é muita expressiva se a compararmos à escala nacional.

Contudo, o seu contributo para a sublevação da população Amazigh [berbere] que reside nas montanhas ocidentais da Líbia tem sido bastante significativa, já que os Zitan combateram as forças de Khadafi de uma forma muito aguerrida e libertaram aquela região. Nunca ouvi dizer que os líderes de Zintan têm más relações com o CNT.

Zintan tem recebido muita assistência do CNT nos últimos meses: armas, munições, alimentos, medicamentos e dinheiro. Ficaria muito surpreendido se Zintan obstruísse uma transição pacífica.

Creio que muitos dos líderes das vilas e aldeias, assim como os movimentos políticos emergentes na Líbia, depois de viverem sob uma ditadura durante tanto tempo querem afirmar a sua dissidência e exprimir os seus próprios pontos de vista e divergências. A maioria das pessoas compreende, porém, que a situação no país é delicada e que é necessário preservar alguma unidade.

Apresenta um retrato do CNT como um grupo unido, mas o recente assassínio do general Abdul Fatah Younis, ex-ministro de Kadhafi, foi interpretado como sinal de caos entre a oposição. Como explica este suposto “ajuste de contas pessoal e político”?

Parece-me que existem dois factores de desestabilização em Bengazi, a base da oposição, no Leste da Líbia.

O primeiro relaciona-se com as várias milícias que se formaram no início da revolução; e o segundo é a existência de elementos clandestinos pró-Kadhafi na cidade. Embora as milícias que foram criadas tenham proclamado a sua lealdade e apoio ao CNT, algumas delas querem, ao que parece, destacar a sua independência.

Talvez o CNT tenha cometido um erro ao não integrar atempadamente essas milícias sob seu comando. Isso estará a ser feito agora. As forças em Bengazi confrontaram, mataram e prenderam entre 100 e 150 combatentes que eram apoiantes de Kadhafi. Foi, de novo, mais um erro do CNT.

Estes indivíduos eram suspeitos devido à sua anterior associação ao regime, e o CNT deu-lhes o benefício da dúvida, na convicção de que poderiam mudar de ideias. Mas esses indivíduos perderam muito poder e prestígio, por isso, decidiram combater a mudança fingindo ser apoiantes da revolução.

Não há dúvida que o CNT cometeu muitos erros, dos quais resultou o assassínio de Younis. Uns dizem que o general foi morto por forças de Kadhafi; outros que foi vítima de combatentes desiludidos. Eu aguardo os resultados de uma investigação que está a ser conduzida.

Uma menina líbia enverga um traje tradicional durante um evento, em Trípoli, para angariar fundos de solidariedade com os combatentes do Conselho Nacional de Transição (2011)
© Leon Neal | AFP | Getty Images

Muammar Kadhai foi assassinado em Outubro de 2011. @Daniel Morgenstern

Muammar Kadhafi foi assassinado em Outubro de 2011
© Daniel Morgenstern

Como avalia a colaboração da oposição com a NATO? E, em particular, as declarações (sob anonimato) de alguns responsáveis da Aliança de que uma vitória dos rebeldes criará um “cenário catastrófico” de vazio de poder porque eles “não estão preparados para governar”?

A NATO está na Líbia para fornecer apoio aéreo [mais de 7000 ataques contabilizados até ao momento] e reduzir a capacidade de o regime bombardear cidades e civis. A batalha no terreno é da responsabilidade dos combatentes pela liberdade.

A NATO abre caminho aos combatentes da revolução e retira qualquer vantagem ou superioridade às forças de Kadhafi – é só isso o que os combatentes pela liberdade querem.

Sobre a alegada desconfiança da NATO em relação aos lideres do CNT, o que sei é que, no início da revolução, havia preocupação por parte dos aliados americanos e europeus de que alguns membros da oposição estivessem ligados à Al-Qaeda.

Depois de várias visitas a Bengazi e reuniões com dirigentes do CNT, creio que esses receios já se tenham dissipado.

Se nos referirmos às preocupações dos EUA e aliados de que o CNT não tem experiência e duvida da capacidade deste poder gerir o país na sequência da queda de Kadhafi, então posso dizer que essas preocupações são legítimas. Mas, mesmo neste caso, pensemos no que aconteceu na Europa de Leste após o colapso do comunismo.

A Polónia e a Checoslováquia tinham dois presidentes: um era líder de um movimento sindical [Lech Walesa, do Solidariedade], o outro era um poeta e académico [Vaclav Havel] sem experiência em política. Estes dois países têm percorrido desde então um longo percurso.

Depois da queda de Kadhafi alguém poderá emergir como líder de um governo de transição ou haverá uma direcção colectiva?

O CNT [que, à data desta entrevista, preparava um roteiro prevendo eleições num prazo de oito meses após a queda do regime, de modo a garantir a manutenção do apoio militar ocidental, que dura há quatro meses, e de uma maciça assistência financeira internacional] vai continuar a liderar no período de transição.

Na Líbia, a maioria da população apoia este Conselho. Há unidade suficiente, porque as pessoas sentem que esta é a oportunidade de ouro, pela qual sempre ansiaram, para resgatarem o seu país.

Treino da oposição sobre como usar armas, na cidade de Bengazi, em Setembro de 2011: Kadhafi tinha um corpo feminino de guarda-costas que o protegiam no estrangeiro, mas as mulheres nunca tiveram um papel central na sociedade, que permaneceu conservadora e religiosa
© Rami al-Shaheibi |AP Photo

O que distingue a revolução líbia de outras no mundo árabe, sobretudo na Síria de Bashar al-Assad?

A Líbia não tinha partidos políticos ou sociedade civil porque tudo isso foi banido pelo ditador. A sublevação foi espontânea, desorganizada, mas também foi uma revolta para recuperar a liberdade e a dignidade, pelas quais o povo estava disposto a morrer.

A Tunísia e o Egipto tinham partidos políticos e sociedade civil, ainda que marginalizada pelos respectivos regimes. A Síria é muito parecida com a Líbia.

Até agora, a oposição síria tenta passar a imagem de um conflito de civis contra o gigantesco exército dos Assad, mas não sei por quanto tempo mais as pessoas vão resistir a não usar armas.

A oposição síria preocupa-se com uma intervenção estrangeira porque, estrategicamente, a Síria é mais importante para o Ocidente do que a Líbia, sobretudo devido ao papel que a Síria tem desempenhado no conflito com Israel e devido às suas relações com o Irão.

Os sírios querem ver-se livres da ditadura, mas apoiam a posição de Bashar face a Israel, e temem que uma intervenção exterior possa mudar o rumo do conflito com Israel. Quanto à hesitação de as potências estrangeiras interferirem na Síria é sinal de recursos limitados.

Os Estados Unidos e os seus aliados europeus já se envolveram demasiado no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e em muitos outros países pelo mundo.

Acrescentemos a isto a recessão mundial que dura há três anos e a falta de vontade de investir mais dinheiro nestes conflitos a que se opõem os cidadãos americanos e europeus, e ainda como estas intervenções podem afectar tentativas de reeleição.

Muammar Kadhafi foi assassinado em Outubro de 2011
© Daniel Morgenstern

A Líbia conseguirá entrar num processo democrático pacífico, como está a acontecer na Tunísia, e de justiça, como vemos no Egipto [antes da intervenção militar em 2013 para depor e prender o chefe de Estado eleito, Mohamed Morsi]?

Sim, acredito que a Líbia conseguirá paz e justiça. No entanto, muito dependerá do que o CNT fizer e disser. O Conselho de Transição tem de aconselhar as pessoas a acalmarem-se; tem de garantir que os antigos dirigentes contra os quais há acusações serão julgados. Será importante que o CNT assegure que ninguém pode ajustar contas com as suas próprias mãos.

E Kadhafi? Terá o mesmo destino do tunisino Ben-Ali, que se refugiou no luxo da Arábia Saudita, ou o de Hosni Mubarak, que não escapou à humilhação pessoal de um julgamento público?

Com base no que entendo da personalidade e pensamento do ditador, creio que ele vai, muito provavelmente, fugir do país, assim que pressentir que perdeu Trípoli. Não temos a certeza de que ele ainda esteja na capital.

Pessoalmente, desconfio que já não esteja em Trípoli e que apenas aguarde o resultado da batalha final. Assim que souber que perdeu a cidade, fugirá via Argélia ou Chade, e daqui encontrará outro país, em África, que não seja membro do Tribunal Criminal Internacional e onde possa ficar. Se for capturado, será durante a sua tentativa de fuga da Líbia.

[Seria mais trágico o destino de Khadafi: foi brutalmente atacado, depois de capturado por milicianos de Misurata, “centro da rebelião”, a cena em que o sodomizaram filmada com um telemóvel. Morreu, desfigurado, à chegada ao hospital, em 20 de Outubro de 2011.]

Como define o legado de Kadhafi?

Foi um ditador brutal, que se serviu apenas a si próprio. Um homem excêntrico que acreditava ser um presente que Deus ofereceu ao povo. Sairá de cena como um dos piores ditadores da história moderna.

Adel Mekraz, numa foto tirada na Praça dos Mártires, em Trípoli, em Julho de 2012. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Adel Mekraz, numa foto tirada na Praça dos Mártires, em Trípoli, em Julho de 2012

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 22 de Agosto de 2011 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on August 22, 2011

O fim de Carlos foi o princípio de Bin Laden

O tempo de “glória” de Carlos, o Chacal chegou ao fim com a queda do Muro de Berlim, em 1989, para dar lugar à era de Osama bin Laden. Agora, que o chefe da Al-Qaeda foi eliminado, pode uma “primavera árabe” vencer a “Jihad” global? O académico americano que escreveu a Enciclopédia do Terrorismo e um conselheiro de segurança do Governo de Israel explicam-nos o que une e distingue o venezuelano que matava para se financiar e o saudita que pagava para matar. (Ler mais | Read more…)

Carlos ficou indignado com o filme que tem o seu nome e escreveu uma carta ao protagonista (na foto): “Édgar, por que concordaste em ridicularizar uma verdade histórica? Por que participaste numa propaganda contra-revolucionária denegrindo o nome do mais famoso Ramírez? A lenda de Carlos é uma coisa e essa não me interessa nada. Podem atacar a lenda, mas há factos históricos que não devem ser transvestidos deste modo.” © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Carlos ficou indignado com o filme que tem o seu nome e escreveu uma carta ao protagonista (na foto): “Édgar, por que concordaste em ridicularizar uma verdade histórica? Por que participaste numa propaganda contra-revolucionária denegrindo o nome do mais famoso Ramírez?”

Vladimir Ilich Ramírez Sanchez não gostou da forma como o realizador Olivier Assayas o retratou no filme Carlos. Nem mesmo o facto de o actor que lhe dá o corpo, o também venezuelano Édgar Ramírez, ter adicionado à lendária capacidade de sedução do outrora “terrorista mais perigoso do mundo” a beleza física que este jamais teve.

Da prisão de alta segurança de Clairvaux onde cumpre uma pena perpétua pelo assassínio, em 1975, de dois agentes secretos franceses e de um informador (ainda irá responder em tribunal por outros crimes que causaram quase 100 mortos até ser capturado em 1994), Carlos “O Chacal” (explicaremos adiante como surgiu e por que ele odeia este cognome), tentou primeiro influenciar o guião de 300 páginas.

Assayas recusou, alegando que jamais permitiria ingerência numa obra artística – neste caso, uma versão longa de cinco horas meia, exibida no recente Festival de Cannes, e outra com 2h45 que chegou às salas de cinema portuguesas [e entretanto já disponível em DVD].

Antes de instaurar um processo judicial contra os produtores, invocando “assassínio de carácter” e “violação do direito à presunção de inocência” (faltam vários julgamentos), Carlos interpelou o protagonista numa carta, citada pela AFP.

“Édgar, por que concordaste em ridicularizar uma verdade histórica? Por que participaste numa propaganda contra-revolucionária denegrindo o nome do mais famoso Ramírez? A lenda de Carlos é uma coisa e essa não me interessa nada. Podem atacar a lenda, mas há factos históricos que não devem ser transvestidos deste modo.”

Entre as imprecisões que Carlos denuncia, está a insinuação de que o sequestro de 11 ministros da OPEP, em Viena, em 1975 – a acção que mais lhe deu notoriedade – não foi ordenada pelo então Presidente do Iraque, Saddam Hussein, supostamente para obrigar os sauditas a aumentar o preço do petróleo e assim financiar uma campanha contra os curdos no Irão –, mas pelo coronel líbio Muammar Khadafi.

Carlos também não gostou de ver os seus guerrilheiros exibidos como “tipos histéricos de metralhadoras em riste a ameaçar pessoas”, porque “as coisas não aconteceram assim – eles eram profissionais, comandos de alta qualidade.”

Outro erro inadmissível, em seu entender: “Desde 1969 que não fumo cigarros, só charutos [alguns deles, segundo um dos diálogos do filme, provenientes da ‘reserva pessoal de Fidel Castro’, em Cuba], e toda a gente sabe isso.”

Se Carlos pretendia poder de veto sobre a obra de Assayas (com a qual Édgar Ramírez ganhou um César), não se sabe se o que mais o irritou foi essa recusa ou outra impossibilidade: a de partilhar receitas de bilheteira que a sua história irá, eventualmente, render.

Esta é uma das exigências contida no processo que ele instaurou por intermédio da sua advogada e actual mulher, a francesa Isabelle Coutant-Peyre. “Sem Carlos, não havia filme”, justificou ela.

Quem é então esta figura que, desde os anos 1970, iludiu todos os serviços de espionagem até ser encontrado, em 1994, no Sudão, a recuperar de uma cirurgia aos testículos, enquanto se preparava para uma lipoaspiração, na mesma altura e no mesmo país onde Osama bin Laden já treinava milhares de jihadistas para desenvolver um terrorismo global?

Este é o homem que usava mil um disfarces até ser capturado em 1994, no Sudão. Recuperava de uma cirurgia aos testículos, enquanto se preparava para uma lipoaspiração
© The Telegraph

Nascido em Caracas, em 12 de Outubro de 1949, filho de um influente advogado marxista e de uma católica devota, Ilich deve o nome ao pai, que quis deste modo homenagear o criador do Partido Comunista Soviético. Os dois irmãos mais novos de Carlos chamam-se, pelas mesmas razões, Vladimir e Lenine.

Criado num ambiente de fervor revolucionário na América do Sul, aos 10 anos, Ilich já fazia parte do movimento juvenil comunista na Venezuela.

Aos 17, aprendia tácticas de sabotagem, manuseamento de armas e explosivos e métodos de guerrilha, num campo de treino próximo de Havana, sob a supervisão de “formadores” do KGB, a polícia política da URSS. Foi também em 1966 que os pais se divorciaram, ambos com objectivos diferentes para os filhos.

A mãe levou-os para Londres, onde os inscreveu na Stafford House College, em Kensington, e na London School of Economics. Em 1968, o pai tentou levá-los para a Sorbonne, em Paris, mas a decisão final foi a de os transferir para a Universidade de Patrice Lumumba, em Moscovo, de onde Carlos seria expulso dois anos depois.

Interrompemos aqui o percurso de Ilich pós-Moscovo, para reproduzir uma das passagens do “drama-acção-biopic” de Assayas que melhor define a personagem encarnada por Édgar Ramírez – um actor que se exprime em cinco línguas (castelhano, inglês, francês, alemão e árabe) e que engordou 13 quilos para uma maior parecença com Carlos, à medida que este se tornava mais alcoólico, mulherengo e ganancioso.

Namorada: Por que não apareceste na manifestação contra Pinochet [que derrubou o governo socialista de Salvador Allende no Chile]?.

Ilich: As manifestações não servem para nada. Há outros métodos. As palavras não nos levam a lado nenhum. Chegou a hora de agir.

Namorada: Que tipo de acção?

Ilich: Temos de nos comprometer.

Namorada: Com quê?

Ilich: Com a revolução!

Namorada: O que queres dizer? Acções clandestinas?

Ilich: Com a resistência. Formei um grupo.

Namorada: A luta contra o capitalismo pela via de guerrilha é romântica, mas está condenada ao fracasso. Não creio em combates desesperados. Não nos levam a lado nenhum. O equilíbrio de forças está contra nós.

Ilich: Isso é um mito.

Namorada. Não, é verdade! Olha para o Che [Guevara]. Acabou morto, apesar da sua experiência.

Ilich: Advogo uma luta internacionalista que una os revolucionários de todo o mundo. Olha como os vietcongs desgraçaram os gringos. Reduziram-nos a merda. Não digas que o equilíbrio de poderes está contra nós, porque não é verdade. A luta que proponho levar-nos-á à glória.

Namorada: À glória? É isso que queres? Ser admirado. Isso é arrogância burguesa escondida por trás de retórica revolucionária. És apenas um pequeno burguês egoísta.

Ilich: Refiro-me a uma glória verdadeira, ao prazer de fazer o nosso dever em silêncio. Por trás de cada bala que disparamos, haverá uma ideia, porque agiremos em harmonia com a nossa consciência. Dizes que sou arrogante? Acho que sim. Sou porque defendo os inocentes. Vais ouvir falar muito de mim. E mais: já não me chamo Ilich. Chamo-me Carlos.

O actor venezuelano Édgar Ramírez, "Carlos" no filme, ganhou um César, prémio do cinema francês. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

O actor venezuelano Édgar Ramírez, “Carlos” no filme, ganhou um César, prémio do cinema francês e que muito foi criticado pelo “Chacal”

De Moscovo, em 1970, Carlos seguiu para Beirute, onde se ofereceu como voluntário à Frente Popular para a Libertação da Palestina, dirigida por George Habash, um médico cristão que, até à sua morte, em 2008, foi um dos maiores rivais de Yasser Arafat, o líder histórico da OLP, da qual a FPLP era a segunda maior facção, depois da Fatah.

A FPLP enviou Carlos para um campo de treino de fedayin (combatentes) na Jordânia e depois para uma escola militar iraquiana na fronteira com a Síria.

No filme, salvaguardado como “uma ficção”, devido às “zonas de sombra” que persistem, apesar de muito já se saber desde a abertura dos arquivos da antiga polícia secreta da Alemanha de Leste (a Stasi), o elo de ligação de Carlos com a FPLP era Wadie Haddad.

Foi ele que o recrutou para, em 1973, matar Joseph Sieff, patrão dos armazéns Marks & Spencer e presidente da Federação Sionista Britânica.

Seria uma vingança pelo assassínio de Mohamed Boudia, o chefe da FPLP em Paris, cujo carro vai pelos ares logo na primeira cena – aparente retaliação da Mossad pelo massacre de atletas olímpicos israelitas em Munique, em 1972. Sieff ficou apenas ferido.

A FPLP, que queria “entrar na Europa para ser respeitada, porque os europeus também entraram no Médio Oriente”, ficou desiludida com Carlos. Isso não a impediu, todavia, de o encarregar de outras acções, como fazer explodir o Banco Hapoalim, em Londres, e as instalações de três jornais, todos ligados a Israel.

Também terá sido chamado a participar em dois ataques falhados com rockets contra aviões da companhia aérea israelita El-Al, no Aeroporto de Orly, em 1975.

Foi precisamente em 1975, a 27 de Junho, que Carlos cometeu o crime pelo qual está agora na cadeia. Atraiçoado por um dos contactos da FPLP e, simultaneamente, informador dos serviços secretos franceses (DST), o venezuelano matou-o, juntamente com os agentes que, desarmados, o acompanhavam.

Conseguiu escapar, de novo para o Líbano, via Bruxelas, e assim começou, também, uma nova vida para o “playboy” (ou pin up, segundo Assayas). Uma vida de permanente fuga, disfarce e traição.

Carlos e Magdalena Kopp tiveram uma filha (ambas na foto), mas separaram-se. Ela, por quem ele travou uma “guerra privada”, não suportava uma vida de quase prisioneira

Depois da matança em Paris, o namorado de uma ex-namorada de Carlos, Barry Woodhams, encontrou no apartamento de Londres do agora já famoso terrorista um saco de armas que entregou a um jornalista do Guardian, Peter Niesewand, por não confiar na polícia.

Ao inspeccionar o saco, o repórter viu um exemplar do livro O Dia do Chacal, de Frederick Forsyth, e julgou que era uma das leituras do perseguido. No dia seguinte, a primeira página do diário britânico referia-se, pela primeira vez, a “Carlos, o Chacal”.

Carlos irritou-se. O livro era de Woodhams, e “Chacal” era a alcunha de um impopular chefe da polícia na Venezuela. “Custou-me ter sido uma invenção do Guardian, o jornal que eu costumava comprar todos os dias”, admitiu posteriormente, ao Sunday Times.

De volta a Beirute, Carlos foi encarregado do ataque à sede da OPEP em Viena, em 21 de Dezembro de 1975, uma operação que na versão longa do filme dura uma hora. Envolveu seis atiradores e resultou em 60 reféns, três dos quais foram mortos.

Confrontado com a ameaça de execução de um cativo a cada 15 minutos, o Governo austríaco aceitou as exigências dos terroristas. Estes libertaram alguns dos sequestrados, mas levaram outros 42 para fora do país, a bordo de um DC-9.

Quando o avião aterrou em Argel e Carlos ouviu a proposta dos argelinos para poupar a vida do ministro saudita do Petróleo, Ahmad Zaki Yamani (contrariando a missão que a FPLP lhe confiara), a sua “solidariedade com os palestinianos” logo foi trocada por 20 milhões de dólares numa conta pessoal.

Carlos à chegada a um tribunal de Paris num processo que instaurou ao juiz antiterrorista Jean Louis-Bruguière, a quem acusa de ter “violado o segredo de justiça” do seu caso, quando deu uma entrevista a um jornalista francês, da revista Figaro, a propósito de uma investigação conduzida na Roménia sobre um atentado bombista que ele cometeu em 1982, na Rua Marbeouf, na capital francesa. O Chacal exigiu uma indemnização simbólica de 15 cêntimos de dólar americano
© theglobeandmail.com

Ao justificar a decisão de não acatar as ordens, Carlos disse a Haddad: Eu sou um soldado e não um mártir. Quero manter-me um revolucionário vivo pela causa”. Haddad retorquiu: “Tu não tens causa. És a tua própria causa.”

Em 1976, Carlos já não se juntaria ao Setembro Negro (um grupo da FPLP) que desviou um avião da Air France para Entebbe, no Uganda.

Este ataque marcou as primeiras cisões na entourage do Chacal quando um dos seus companheiros, o alemão Hans-Joachim Klein, ou Angie, decidiu abandonar a luta armada ao ver que dos 248 passageiros só foram libertados os que não eram judeus.

“Juntei-me à causa para lutar contra o sistema capitalista, não para semear o terror”, angustiou-se o apoiante da extinta organização de extrema-esquerda Baader-Meinhof. “Em Entebbe, os judeus foram separados como em Auschwitz. Anti-semitismo? Não contem mais comigo!”

Terminadas as ligações com a FPLP, Carlos deambulou pela Argélia, Líbia e Iémen, onde tentou fundar a Organização da Luta Armada, composta por libaneses, sírios e alemães da antiga RDA. A Stasi forneceu-lhe um escritório em Berlim com 75 funcionários, um carro particular e autorização para porte de arma em público.

Esta mordomia pagava uma série de atentados, um deles contra a Rádio Europa Livre, em Munique. (Fevereiro de 1981). Também vendeu os seus serviços ao ditador Ceausescu em Bucareste, que o encarregou de assassinar dissidentes romenos em França, e aos húngaros, que o deixaram viver num luxuoso bairro de Budapeste.

Em 1982, já casado com Magdalena Kopp, fotógrafa e activista alemã, Carlos levou a cabo “uma guerra privada” (incluindo a explosão de dois comboios) para forçar a libertação daquela que ela tratava por “minha vaca” (conta a própria na autobiografia, The Terror Years), quando as autoridades francesas a detiveram, num carro cheio de explosivos.

Carlos e Kopp tiveram uma filha, hoje com 25 anos, mas o casamento falhou. Ela não suportava uma vida de quase prisioneira, enquanto ele se divertia com outras mulheres, seduzindo-as, como era seu hábito com, revólveres e granadas, armas que ele considerava “extensões do corpo”.

Foi em Damasco, em 1989, que Carlos ficou a saber da queda do Muro de Berlim. Os anfitriões informaram-no: “Já não há um bloco socialista. O mundo mudou e a Síria quer encontrar o seu lugar na nova ordem mundial.”

“Vocês tornaram-se demasiado visíveis e perigosos. Têm uma semana para deixar o país, depois não garantiremos mais a vossa segurança.” Um dos amigos de Carlos reconheceu: “Somos uma curiosidade histórica. A guerra acabou e nós perdemos.”

Da Síria, Carlos e a sua nova namorada, uma jovem estudante jordana, seguiram para o Sudão, na altura sob o domínio de Hassan Turabi, líder islamista protegido pelo Irão.

O facto de o país ser governado por um regime fundamentalista religioso não o impediu de continuar a dar festas extravagantes, com muito álcool e sexo. Mas o cerco apertava-se. A CIA descobriu o paradeiro do fugitivo e, não tendo ele agido contra alvos americanos, entregou-o aos franceses.

Da Síria, Carlos seguiu para o Sudão, em 1989, na altura sob o domínio do líder islamista Hassan Turabi (na foto). O facto de o país ser governado por um regime fundamentalista religioso não o impediu de continuar a dar festas extravagantes, com muito álcool e sexo
© The Independent

Quanto é que o Sudão recebeu para que o seu hóspede indesejado fosse retirado abruptamente de uma cama de hospital em Cartum para uma prisão em França, em 1994?

“Há muita coisa ainda por esclarecer”, diz-nos por telefone, Ely Karmon, conselheiro de segurança do ministro da Defesa de Israel e investigador em duas instituições de elite, o Institute for Counter-Terrorism e o Institute for Policy and Strategy no Interdisciplinary Center, em Herzilya.

“Certo é que o Sudão estava a ser muito pressionado, não só por acolher Carlos mas também Osama bin Laden que, naquela altura, já ali treinava milhares de jihadistas para a sua guerra global. O fim de Carlos foi como que o princípio de Bin Laden”.

“A grande diferença entre Carlos e Bin Laden é que o primeiro era, acima de tudo, um mercenário”, observou Ely Karmon. “Ele não era líder de nenhuma organização ou movimento. Os terroristas que se juntaram a ele também eram mercenários.”

“Diziam que lutavam pela causa palestiniana, mas serviam sobretudo Estados. Bin Laden, pelo contrário, era o líder da al-Qaeda, uma união de islamistas, um herói para muitos muçulmanos que lhe reconheciam eficiência e legitimidade.”

A opinião do norte-americano C. Augustus “Gus” Martin, académico na California State University e autor da obra de referência The Encyclopedia of Terrorism, não é muito diferente da do israelita Karmon.

“Carlos era uma personalidade excêntrica que adorava a atenção política e dos media. Embora cuidadoso em fugir às agências de segurança, usou a sua reputação de revolucionário clandestino para projectar uma imagem internacional de solidariedade revolucionária”, disse Gus Martin, por e-mail.

Bin Laden, por seu lado, “projectava-se como o rosto da resistência internacional para a sua causa e, ao contrário de Carlos, fê-lo como um organizador empenhado e comandante de um movimento revolucionário na clandestinidade.”

“A personalidade e imagem de Bin Laden foram forjadas no campo de batalha, primeiro contra os soviéticos e depois contra os EUA e a NATO, enquanto as de Carlos eram o produto de uma escolha ideológica.”

“Esta é a diferença entre um símbolo da resistência nacionalista/marxista (Carlos) e um símbolo da jihad internacional (Bin Laden).”

Ideologicamente, adianta o académico, Carlos e Bin Laden “acreditavam que representavam a vanguarda de movimentos transnacionais que iriam mudar de forma indelével os equilíbrios de poderes mundiais – Carlos era um revolucionário internacionalista que se aliou a outros marxistas ocidentais e palestinianos nacionalistas que lutavam em nome dos ‘oprimidos do povo’.”

“Bin Laden organizou e comandou uma rede com o objectivo de impor a vontade de Deus aos governos no mundo islâmico. Os dois homens estavam convencidos de que a corrente da História estava do seu lado.”

Em termos tácticos, Carlos era um revolucionário que colaborava com “terroristas ideológicos, como a Fracção do Exército Vermelho, na Alemanha, ou terroristas nacionalistas, como a FPLP. Osama bin Laden não fazia alianças. “Era um purista religioso que só colaborava com islamistas que partilhassem as ideias da Al-Qaeda. O seu fundamentalismo era exclusivo e chauvinista”
© pbs.org

Em termos tácticos, Carlos era “um revolucionário de coligações”, porque colaborava com “terroristas ideológicos como a Fracção do Exército Vermelho [na Alemanha] assim como com terroristas nacionalistas, como os da FPLP. Bin Laden não fazia coligações.”

“Era um purista religioso que só colaborava com islamistas que partilhassem as suas ideias e as da Al-Qaeda. O seu tipo de fundamentalismo era exclusivo e chauvinista.”

Inquirido sobre o tempo que demorou a encontrar estes dois maiores terroristas, Gus Martin lembra que Carlos, mercenário a contrato, e Bin Laden, um milionário que esbanjava dinheiro, operavam em ambientes que os protegiam.

“Os seus apoiantes criaram redes insulares e ocultas que lhes permitiam desaparecer dos radares.”

“Carlos viveu entre camaradas marxistas durante o período histórico do confronto ideológico com o Ocidente e da revolução nacionalista num mundo em desenvolvimento. Bin Laden também beneficiava da solidariedade da internacional jihadista. Ambos podiam estar imersos nesses ambientes durante muitos anos.”

O ambiente protector de Carlos, acrescentou Martin, “desvaneceu-se quando as tensões ideológicas entre o Ocidente e o Leste desapareceram.”

“O seu tipo de revolução só podia sobreviver enquanto os seus simpatizantes ocidentais fossem capazes de operar nos seus países respectivos (como a Itália e a Alemanha) e enquanto os seus aliados nacionalistas, como a FPLP, continuassem a ser viáveis na cena internacional.”

“Infelizmente, para Carlos, os revolucionários ocidentais foram derrotados por forças de segurança internas, e a FPLP perdeu credibilidade e força devido ao processo de paz entre Israel e a Fatah, e também devido à emergência de movimentos palestinianos religiosos, como o Hamas.”

“É possível que, com a morte de Bin Laden e as ‘primavera árabes’, o movimento jihadista internacional se encontre agora numa encruzilhada”, conclui Martin. “Nem Bin Laden nem a al-Qaeda previram que os seus piores inimigos – os governos autoritários do Médio Oriente – seriam desafiados por sublevações populares.”

“É uma possibilidade remota, a de, no longo prazo, a ‘Primavera Árabe’ conduzir ao eclipse da al-Qaeda. No entanto, no curto prazo, o movimento jihadista internacional ainda é uma ameaça potente à estabilidade global.”

Ely Karmon concorda: “Politicamente, a al-Qaeda foi derrotada, mas o terrorismo não acabou, e o nosso mundo continua muito instável. Basta olhar para o Paquistão [potência nuclear] que tem partes do seu território sob controlo dos Taliban e dos jihadiistas.”

Carlos, notou o investigador israelita, percebeu a importância de Bin Laden quando, na prisão, se converteu à religião de Maomé: “Espanta-me que a autobiografia dele, Islão Revolucionário, só tenha sido publicada em francês, porque é um livro muito importante, no qual apela a todos os radicais, incluindo os de esquerda e ateus, que se juntem à Al-Qaeda.”

“Carlos nunca foi um islamista [na Síria, Hafez al-Assad contratou-o para matar dirigentes da Irmandade Muçulmana, e isso vê-se no filme], mas entendeu muito rapidamente que os ventos estavam a mudar de direcção.”

Édgar Ramírez, venezuelano como Carlos, ganhou um César, prémio francês de cinema: no decurso do filme, exprime-se em cinco línguas (castelhano, inglês, francês, alemão e árabe); também engordou 13 quilos para uma maior parecença com o “mestre terrorista”, à medida que este se tornava mais alcoólico, mulherengo e ganancioso. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

No filme, Édgar Ramírez exprime-se em cinco línguas (castelhano, inglês, francês, alemão e árabe); também engordou 13 quilos para uma maior parecença com o “mestre terrorista”, à medida que este se tornava mais alcoólico, mulherengo e ganancioso

Numa entrevista ao jornal pan-árabe Al-Hayat, o Chacal exprimiu “orgulho” pelas acções orquestradas pelo chefe da al-Qaeda, em particular os ataques de 11 de Setembro de 2010 nos Estados Unidos: “Segui os acontecimentos, sem interrupção, desde o início. Não consigo descrever o meu maravilhoso sentimento de alívio.”

Em 2007, porém, em declarações ao Sunday Times, havia criticado os seguidores do “Sheikh Osama” como “amadores não organizados, sem alvos específicos, incapazes de fabricar explosivos de os fazer detonar.”

“Não sou sádico nem masoquista – não gosto do sofrimento dos outros”, adiantou depois dos atentados de Londres, a cidade onde viveu. “Quando tínhamos de eliminar alguém, era de uma maneira fria, simples e com o mínimo de dor possível.”

Em Maio último, quando a CIA eliminou o “inimigo número um da América”, próximo de Islamabad, Carlos emitiu um comunicado: “Osama bin Laden é um mártir que ganhou um lugar na História; será lembrado durante 100 anos, mas ninguém se recordará de Barack Obama”.

Por que foi do interesse da França prender e julgar Carlos e os EUA optaram por matar Bin Laden? “Carlos já não tinha a protecção nem a admiração de ninguém”, respondeu Ely Karmon.

“Bin Laden, pelo contrário, contava com o apoio dos Taliban no Afeganistão, das tribos e, possivelmente, de uma parte do aparelho de segurança paquistanês.”

“A sua prisão seria um imbróglio jurídico na América. Seria julgado num tribunal militar ou civil? Iria para Guantánamo? Não haveria o risco de tomada de reféns para exigir a libertação de um mártir? Ainda hoje, no Japão, o autor de um atentado com gás sarin no metro de Tóquio, preso e três vezes condenado à morte, continua a atrair seguidores.”

Morte não era certamente o que Carlos desejava para si, e deixou isso bem claro numa rara entrevista que deu ainda no seu tempo de fugitivo e a qual é reproduzida no filme de Olivier Assayas: “Eu amo a vida e, por isso, gosto de a viver plenamente. Para mim, como para qualquer soldado, não há amanhã.”

Carlos pretendia poder de veto sobre o filme de Olivier Assayas mas este recusou, e ele instaurou um processo judicial, por intermédio da sua advogada e actual mulher, a francesa Isabelle Coutant-Peyre. “Sem Carlos, não havia filme”, justificou ela (na foto). @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Carlos pretendia poder de veto sobre o filme de Olivier Assayas mas este recusou, e ele instaurou um processo judicial, por intermédio da sua advogada e actual mulher, a francesa Isabelle Coutant-Peyre
© Associated Press 

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 3 de Junho de 2011 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on June 3, 2011 

A guerrilha móvel do engenheiro Ousama

Kadhafi cortou as telecomunicações no Leste da Líbia e os comandantes rebeldes passaram a dirigir os combates com bandeiras: verde para avançar; vermelha para recuar. Foi assim durante um mês, até que um jovem de 31 anos se “infiltrou” numa das operadoras estatais e permitiu a dois milhões de pessoas a ligação ao mundo exterior. (Ler mais | Read more…)

O regime de Khadafi dera ordens à empresa estatal de correios e telecomunicações para cortar, “física e electronicamente”, algures entre as cidades de Misurata e Khomas, o principal cabo de fibra óptica que ligava, debaixo de água, ao longo da costa, os serviços de telefone e Internet no Leste aos servidores centrais no Oeste. © Getty Images

O regime de Kadhafi dera ordens à empresa estatal de correios e telecomunicações para cortar, “física e electronicamente”, algures entre as cidades de Misurata e Khomas, o principal cabo de fibra óptica que ligava, debaixo de água, ao longo da costa, os serviços de telefone e Internet no Leste aos servidores centrais no Oeste
© Getty Images | TIME

Em Fevereiro último, quando acompanhava a segunda missão da sua organização humanitária, Tawasil, na distribuição de medicamentos e leite para crianças na Líbia, Ousama Abushagur ficou sem rede. Muhammad, o filho mais velho de Muammar Kadhafi e administrador de uma das duas operadoras de telemóveis no país, tinha cortado todas as comunicações com o Leste, bastião dos rebeldes contra o regime.

“As pessoas ficaram sem meios de comunicar com as suas famílias, dentro e fora da Líbia, e era urgente encontrar uma solução”, disse-nos, numa entrevista conduzida por Facebook, email e telefone o engenheiro que nasceu em Huntsville (Alabama, EUA) há 31 anos e há quatro reside no Dubai (Emirados Árabes Unidos).

“Tive uma ideia num voo de regresso a casa, proveniente de Malta. Já tínhamos enviado tantos telefones de satélite e hardware e, no entanto, o impacto na população era mínimo – tínhamos de ‘libertar’ uma das redes móveis.”

“A ideia foi desenhada, no dia 6 de Março, num guardanapo do avião – mas não, não o guardei”, refere Abushagur, sem lamentar não o ter guardado como recordação.

“A ideia do que fazia falta era bem clara. Só precisava de fazer uma lista de como montar tudo. OK: Preciso de capacidade de satélite, preciso de fundos, preciso disto e daquilo para que tudo funcione no terreno…, e então desenhei um diagrama.”

Toda a operação demorou cerca de um mês a montar, “com a ajuda de vários engenheiros da Libyana em Bengazi”, onde os rebeldes ficaram só com dois meios de comunicar. Um rudimentar, com bandeiras – verde para avançar e vermelha para recuar –; outro sofisticado, com telefones de satélite, mas pouquíssimos, de custo elevado e com sinal apenas em áreas desprotegidas e inseguras, à mercê da aviação de Kadhafi.

Libyana é uma das operadoras estatais da Líbia. A outra é a Al-Madar Al-Jadid. Ambas foram montadas pela Huawei Technologies Ltd., companhia chinesa que recusou financiar o projecto de Abushagur, forçando-o a encontrar uma solução híbrida que compatibilizasse o hardware de outras empresas com o sistema já existente.

Um jovem lê mensagens no seu telemóvel, em Trípoli, 28 de Outubro de 2011. A Líbia planeia lançar em 2014 um concurso para o funcionamento da primeira operada privada de telecomunicações. © AFP

Um jovem lê mensagens no seu telemóvel, em Trípoli, 28 de Outubro de 2011. A Líbia planeia lançar [em 2014] um concurso para o funcionamento da primeira operada privada de telecomunicações
© AFP

Foi a 17 de Fevereiro quando começou a rebelião que Kadhafi ordenou que as comunicações do Leste da Líbia com o resto do mundo fossem cortadas. Observou a Al Jazeera que “as notícias de uma ofensiva em larga escala estavam a sair do país através das raras ligações por satélite que permitiam aos residentes fazer chamadas intermitentes por Skype, participar nos chats do MSN e, por vezes, fazer upload de vídeos realizados com telemóveis”. Por sorte ou acaso, a Libyana permaneceu activa, mas Al-Madar deixou de funcionar.

O regime deu ordens à empresa estatal de correios e telecomunicações para cortar, “física e electronicamente”, algures entre as cidades de Misurata e Khomas, o principal cabo de fibra óptica que ligava, debaixo de água, ao longo da costa, os serviços de telefone e Internet no Leste (desde Tobruk) aos servidores centrais no Oeste (até Ras Adjir).

Esta ordem superior cortou o acesso do Leste à Madar à Libya Telecom and Technology (LTT), o principal servidor de Internet do país, mas não perturbou a Libyana que, explicou a Al-Jazeera, fundada em 2004, depois da Madar, “estava menos centralizada e menos controlada pelo regime em Trípoli”. Para grande satisfação dos engenheiros em Bengazi, tinha também a sua própria HLR, que regista os subscritores.

Quando um utilizador da Libyana digita um número, o HLR reconhece o identificador (ID) do aparelho e liga-o à rede.  A base de dados da Madar continuava em Trípoli mas a Libyana manteve um back-up em Bengasi.

Esta era a brecha que Abushagur, o líbio-americano que iniciou a carreira na Netscape, um dos primeiros browsers na Internet, precisava para realizar a sua ideia para a qual angariou “vários milhões de dólares” (que não quantifica) junto de generosos investidores seus compatriotas (que não identifica) no Golfo Pérsico.

A partir daqui, na companhia de três engenheiros líbios, quatro ocidentais e uma equipa de guarda-costas do Qatar pôs-se caminho da Líbia para coordenar a sua nova “missão humanitária” – tentando não levantar suspeitas.

A operação demorou cerca de um mês a montar, “com a ajuda de engenheiros da Libyana em Bengazi”, onde os rebeldes ficaram só com dois meios de comunicar. Um rudimentar, com bandeiras – verde para avançar e vermelha para recuar –; outro sofisticado, com telefones de satélite, mas pouquíssimos, de custo elevado e com sinal só em áreas desprotegidas e inseguras, à mercê da aviação de Kadhafi (na foto, combatentes usam os telemóveis para jogos de vídeo)
© middle-east-online.com

Uma parte do equipamento para “piratear” a Libyana foi transportado por via aérea e o restante seguiu em contentores, através do Egipto, por onde a Tawasil já havia canalizado ajuda no valor de um milhão de dólares, e servido de intermediário no trânsito de médicos e jornalistas estrangeiros.

A viagem de Abushagur e dos seus companheiros hackers, comparada a uma “operação de espionagem”, enfrentou alguns percalços.

Ficaram retidos “durante mais de uma semana” nos serviços alfandegários da fronteira egípcia. Chegaram a Bengasi a 23 de Março, mas bastaram quatro dias para copiar a base de dados da Libyana, e mais um par de semanas até activar o sistema.

“Não tínhamos um HLR [Home Location Register], não tínhamos uma gateway internacional que permitisse chamadas para o exterior, não tínhamos nenhum SMSC [Short Message Service Center] e, por isso, fomos obrigados a reconfigurar tudo, adicionando elementos da rede do Leste para não mais depender de Trípoli, usando a infra-estrutura da Libyana mas ao mesmo tempo independente dela”, explicou Abushagur.

“Os engenheiros líbios trabalharam arduamente, juntamente com os quatro estrangeiros que estavam connosco. Separámos as duas redes, adquirimos capacidade de satélite no Intelsat 15 e ligámo-nos à rede da IDT Corporation para o serviço de voz internacional. A IDT fornece os cartões pré-pagos para as ligações feitas a partir do Leste da Líbia para a Telehouse, em Londres e daqui para o resto do mundo.”

Os fundos angariados por Abushagur permitiram comprar um HLR à Tecore Networks. Cada telemóvel tem um HLR que localiza o aparelho e permite saber para onde as chamadas devem ser direccionadas.

No dia 2 de Abril, os engenheiros em Bengazi conseguiram estabelecer o acesso a um VLR (Visitor Location Register), e estes dados foram depois usados para o novo HLR.

A eficácia da nova rede móvel na Líbia foi testada numa primeira chamada que Ousama Abushagur fez para a mulher, Aisha Gataani
© al.com

Assim surgiu a Lybiana Al Hurra ou Libyana Livre.

Não sendo ainda possível a cobrança de chamadas – as locais são grátis, mas as internacionais, com cartões pré-pagos, estão reservadas apenas aos dirigentes do governo rebelde de transição – Ousama Abushagur sabe que o seu trabalho não está terminado.

No entanto, dois milhões de líbios dentro e fora do país já podem comunicar graças à Libyana Livre, a nova rede cuja eficácia foi testada numa primeira chamada que o engenheiro do Alabama fez para a sua mulher Aisha Gataani.

“Foi ela quem mais me incentivou”, orgulha-se Abushagur. A mulher com quem se casou em 2005 e de quem tem um filho de dois anos e dez meses também nasceu nos Estados Unidos. Esta filha de refugiados líbios, tal como o marido (a família dela do Leste; a dele do Oeste), também está envaidecida – a ponto de ter adoptado o nome de Aisha FreeLibya Gataani na sua página do Facebook.

A fama que Abushagur conquistou com a sua proeza valeu-lhe a admiração de muitos mas também o ressentimento de alguns.

We are proud of you Ousama (Estamos orgulhosos de ti, Ousama), escreveu Majdi El Tajoury, um admirador, no mural do Facebook do engenheiro.

Um outro, Saleh Ali, deixou esta mensagem: Salamu alykum Ousama, may Allah save it to you to the final day, Ameen. (Que a paz esteja contigo Ousama, que Deus te salve até ao último dia, Ámen.)

Entre os mais melindrados, por outro lado, está Ahmed el-Mahdawi, principal engenheiro da Libyana em Bengazi. Em declarações à Al Jazeera, atribuiu a si próprio o mérito de ter reconfigurado o sistema que permitiu ao Leste voltar a comunicar – com chamadas locais gratuitas e com minutos ilimitados.

O fluxo de utilizadores fez o sistema entrar em colapso, forçando Mahdawi a repará-lo, garantiu ele, através de um computador pessoal na sua casa. Não ficou perfeito, e muitas ligações continuam a ser cortadas devido a uma sobrecarga de chamadas, sobretudo das que duram “mais de uma hora e meia, oito vezes por dia”.

Mahdawi queixou-se à Al Jazeera de que “não foi justa” a cobertura mediática dada a Absushagur, sobretudo o modo como o Wall Street Journal transformou numa estrela o filho mais velho de um professor de tecnologia na Universidade do Dubai e antigo executivo de uma multinacional do sector.

“Graças aos nossos esforços, os telemóveis nunca deixaram de funcionar no Leste – honestamente, Ousama nem chegou a tocar num teclado. O que ele nos ofereceu foi um canal para fazer chamadas internacionais porque, nesse campo, tínhamos mais dificuldade na configuração.”

Muftah el-Athrm, outro engenheiro, na companhia fornecedora de Internet LTT, também se mostrou surpreendido. “Até agora, não sei bem que papel é que ele [Abushagur] desempenhou. “Ele e o resto da sua equipa trouxeram uma enorme antena de satélite, um modem, routers e outro equipamento, no valor de milhões de dólares e essencial para ligar a rede existente da Libyana ao resto do mundo – só isso.”

A Libyan uses his cell phone to picture fireworks amid celebrations at Saha Kish Square in Benghazi, Libya, Sunday Oct. 23, 2011 as Libya's transitional government declared the liberation of Libya after months of bloodshed that culminated in the death of longtime leader Moammar Gadhafi. © Francois Mori | AP

Fotografar o fogo-de-artifício durante celebrações na Praça de Saha Kish Square, em Bengazi, em 23 de Outubro de 2011, depois de o governo de transição ter declarado “a libertação” do país 
© Francois Mori | AP

Ousama Abushagur não respondeu ao nosso pedido de reagir a estas vozes de descontentamento. Nas várias conversas mantidas ao longo de uma semana, insistiu em que a acção que ajudou a desenvolver teve apenas “motivos humanitários – ajudar famílias receosas com o que se passa na Líbia”.

E acrescentou: “Não me interessa sequer saber se o que fizemos está a ter impacto na frente de batalha”, assegurou. “A minha preocupação é com os civis”.

No entanto, ao website Everything Alabama, Abushagur foi mais longe nos comentários pessoais: “Tornámo-nos nómadas. Por isso é que estamos a fazer isto. Quero um país ao qual possamos chamar o país da nossa origem. Quero que o meu filho, Ahmed, possa viver no país de onde os seus antepassados fugiram.”

Ele estava num tribunal em Bengazi, numa sexta-feira de oração que uniu os fiéis locais quando aviões americanos e europeus começaram a bombardear as forças de Kadhafi depois de o Conselho de Segurança das Nações Unidas ter aprovado uma zona de exclusão aérea.

“As bombas cessaram e os tanques pararam a poucas horas de a cidade ser destruída. As pessoas ergueram bandeiras dos EUA e da França para agradecer. Se não tivesse havido uma intervenção, seria cometido um massacre. Estamos muito, muito reconhecidos por este apoio. Precisamos que [a NATO] ataque mais no Oeste e era bom que o Governo norte-americano reconhecesse o novo Governo líbio. Kadhafi tem de sair.”

Abushagur garante-nos que o sistema que ajudou a montar, ainda que não encriptado, “é seguro, totalmente de confiança”. Para diferenciar a Libyana da Libyana Livre basta marcar mais um algarismo: “Em vez de 218 apenas, acrescenta-se a estes o número 9”.

“Fomos toda a nossa vida uma família de activistas”, frisou. “Não me considero um herói. Os verdadeiros heróis estão na Líbia. Não quero especular sobre a situação no terreno, mas estou optimista. Tenho a certeza de que vamos ganhar, só não consigo definir um prazo. Estamos a lutar por uma causa justa e sei que, ao fim de tantos anos de injustiça, este regime estará acabado.”

A ideia de Ousama Abushagur (na foto, numa conferência TED) de cortar a rede a Khadafi foi ganhou forma, a 6 de Março de 2011, no guardanapo do avião. Não o guardou como recordação. mas não se arrepende . “Só precisava de fazer uma lista de como montar tudo. OK: Preciso de capacidade de satélite, preciso de fundos, preciso disto e daquilo para que tudo funcione no terreno…, e então desenhei um diagrama.” @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

A ideia de Ousama Abushagur (aqui, numa conferência TED) de cortar a rede a Kadhafi ganhou forma a 6 de Março de 2011, no guardanapo de um avião. “Só precisava de fazer uma lista de como montar tudo. OK: Preciso de capacidade de satélite, preciso de fundos, preciso disto e daquilo para que tudo funcione no terreno… e então desenhei um diagrama”

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 10 de Maio de 2011 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 10, 2011

Osama bin Laden não sabia voar

O chefe da Al-Qaeda, assassinado por ordem de Barack Obama, não era apenas o “inimigo número um da América”, mas do Islão. Muçulmanos foram a maioria das suas vítimas. (Ler mais | Read more…)

 

Oriundo de uma família natural de Hadramaut, região do Iémen cujo significado é “A morte está entre nós”, Osama bin Mohammed bin Awad bin Laden foi o fundador e líder da aA

Nasceu em 1957, em Riad, na Arábia Saudita, um dos 25 filhos e 29 filhas de Mohammed bin Laden, descendente dos Kenda, tribo de governantes e guerreiros que remonta ao período pré-islâmico, uma poderosa federação do século XVII que ficou reduzida a um clã de 400 a 500 pessoas, devido a guerras e secas.

O pai de Osama fugiu da miséria e foi parar à Casa de Saud, mais ou menos na altura em que o reino descobria jazidas de petróleo.

Começou por trabalhar, em Jidá, como carregador no comércio ligado aos que faziam a peregrinação a Meca. Montou depois um negócio de venda de grelhados no mercado. Ele e o irmão Abdullah eram tão pobres, refere Steve Coll, no livro Os Bin Ladens – Uma Família Árabe no Século Americano (Ed. Tinta da China), que, “no início, dormiam numa vala cavada na areia e cobriam-se com sacos”.

Em 1931, quando Jidá registava um “boom” na construção civil, Mohammed abriu a sua própria empresa. Um tipo de 1,72m de altura e um olho de vidro, brincalhão e bem-humorado, o pai de Osama não teve dificuldade em recrutar as pessoas certas para reparar e renovar edifícios, refere Coll.

Mais importante: “Ele tinha a capacidade de construir e executar trabalho de empreitada rapidamente e de uma forma que agradava às personalidades caprichosas e exigentes da classe rica” – um deles o ministro das Finanças, que o terá recomendado ao Rei Abdulaziz.

 

 

A Grande Depressão, no início da década de 1930 forçou o analfabeto Mohammad a mudar-se de novo, desta vez para Dhahran, onde foi assentador de tijolos e pedreiro até vender os seus serviços à ARAMCO, consórcio petrolífero americano-saudita.

Uma das primeiras obras de Mohammed bin Laden, quase a pedra angular do que seria o seu vasto e opaco império de negócios, foi a construção de uma rampa que permitia a Abdulaziz subir, dignamente, na sua cadeira de rodas, até à sala do palácio onde recebia os súbditos.

Nunca rejeitando contratos – da instalação da rede telefónica nacional ao restauro das mesquitas de Al-Aqsa, em Jerusalém, e de Meca –, mesmo quando os pagamentos estavam em atraso, Mohammed foi ganhando o favor da realeza, e acumulando uma fortuna incalculável.

Osama bin Laden, filho de Mohammed e da última das suas 22 mulheres, a síria Alia, foi um dos que herdaram esta imensa riqueza quando o pai morreu, em Setembro de 1967.

Milionário, o jovem tímido, formado em Economia na Universidade do Rei Abulaziz em Jidá, cumpriu o sonho de ser o financiador dos Mujahedin (combatentes) afegãos que lutaram contra os invasores comunistas soviéticos, em 1979-89.

No Afeganistão, foi mais patrono do que combatente, mas regressou a Riad com aura de herói. Quando o Iraque invadiu o Kuwait, em 1990, cobiçando os poços de petróleo sauditas, Bin Laden ofereceu à família real os seus “árabes da jihad afegã”, para impedir que tropas estrangeiras entrassem no país que é guardião dos dois lugares mais sagrados do Islão.

Os príncipes, conscientes do poderio militar de Saddam Hussein, olharam para ele como um ingénuo, recusaram a sua oferta e aceitaram a dos americanos. Ficou assim consumado o divórcio entre ele a Casa de Saud, cuja legitimidade começou a contestar.

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Em 1994, já a viver no Sudão desde o ano anterior, Bin Laden perdeu a cidadania. Em 1996, regressou ao Afeganistão para apoiar o regime dos Taliban e do Mullah Moahmmed Omar.

Por esta altura, o apátrida a quem os discípulos chamavam Sheikh, emitiu uma fatwa (édito) frisando que uma “guerra santa” contra os americanos e os sionistas “é um dever de todos os muçulmanos”, porque os EUA mantinham a sua presença na Arábia Saudita e apoiavam Israel.

Em 1998, Osama, Ayman al-Zawahiri e outros companheiros das grutas afegãs fundaram, na cidade paquistanesa de Peshawar, a rede terrorista Al-Qaeda.

Os primeiros ataques contra interesses dos Estados Unidos foram na Somália e em Nova Iorque, em 1993. Seguiram-se outros na Arábia Saudita, em 1995, na Tanzânia e no Quénia, em 1998, e no Iémen, em 2000.

Em 11 de Setembro de 2001, a Al-Qaeda cometeu o que foi, até agora, a sua acção, mais bárbara. Quase 3000 pessoas de uns 90 países foram mortas, quando 19 pilotos suicidas – 15 deles sauditas – atacaram Nova Iorque (destruindo as Torres Gémeas) e Washington, fazendo explodir quatro aviões comerciais que haviam desviado.

Ironia histórica, Mohammed bin Laden foi o primeiro a ter um avião particular na Arábia Saudita, e morreu quando o seu aparelho, pilotado por um americano, se despenhou numa arrojada descolagem.

O acontecimento que nos EUA ficou conhecido como “11/9” nada teve a ver com aquele acidente, em 1967. O 11 de Setembro expôs o fracasso de Osama (um dos poucos filhos de Mohammed que não aprendeu a voar) na luta que a sua família ­– “99,999999 por cento de variante não maléfica, segundo um analista da CIA, e ainda hoje um dos maiores conglomerados na Arábia Saudita –, continua a travar para conciliar tradição, religião e modernidade, num mundo vertiginoso e sem fronteiras.

 

O poder pessoal de Bin Laden há muito estava em declínio devido a uma eficaz coordenação dos serviços antiterroristas de vários países – sobretudo do Paquistão, onde ele foi morto.

A sua morte, supostamente numa mansão e não numa cave do Afeganistão onde em tempos se refugiara, poderá não ser o fim da Al-Qaeda, que ainda tem muitos discípulos, mas o princípio do fim da “rede” terá começado quando, em 2007, o ideólogo, Sayyed Imam Bin ‘Abd Al-‘Aziz Al-Sharif, conhecido na clandestinidade por “Dr. Fadl”, renegou a organização, 20 anos depois da sua criação

O homem que ajudou Osama bin Laden e Ayman al-Zawahiri a criar a Al-Qaeda e se tornou no primeiro teórico da guerra santa disse, num novo manifesto, que “é proibido cometer actos de agressão, mesmo que os inimigos do Islão o façam”. A revisão da sua doutrina criou ondas de choque dentro e fora do movimento islamista.

Uns avaliaram que a organização ficou ferida de morte, porque foi abandonada pelo guru que legitimava o terrorismo.

Outros desvalorizaram a influência de um veterano jihadista sobre uma nova geração da Internet que talvez nunca tenha ouvido falar nele. Outros ainda distinguiram entre uma crítica à estratégia e o (não) abandono dos objectivos finais.

A “deserção” de Dr. Fadl tornou-se conhecida, em Maio de 2007, quando fez chegar um fax ao jornal árabe Asharq al-Awsat exortando a que as operações da jihad fossem levadas a cabo segundo a Shariah (lei islâmica). E a Shariah, assegura este cirurgião de 58 anos, não aprova o assassínio de civis e de estrangeiros, o uso de escudos humanos (raptos), o roubo e destruição de propriedades.

Estes crimes são contraproducentes e devem cessar, sentenciou, citando o Corão: “Combatam pela causa de Deus os que vos combatem, mas não ultrapassem os limites, porque Deus não ama os transgressores”.

 

Como a sua mensagem foi enviada da prisão de Tora no Egipto, onde cumpre uma pena perpétua, desde que foi extraditado do Iémen em 2004, o Dr. Fadl avisou: “Não é legítimo rejeitar este documento alegando que foi escrito na cadeia, e que um cativo não tem autoridade sobre outros. Não pretendo exercer autoridade sobre ninguém.”

“Não exijo que ninguém aceite o meu ponto de vista em nome da obediência ao líder. A liderança não existe. Não me considero qualificado para emitir éditos religiosos nem estou a redigir novas regras de jurisprudência. Sou apenas um transmissor de conhecimento religioso. Há uma forma de obediência que é maior do que a obediência a qualquer líder, é a obediência a Deus e ao seu Mensageiro [o profeta Maomé].”

Consciente do valor de um texto, subscrito por centenas de outros jihadistas, Zawahiri teve uma primeira reacção, sarcástica, numa mensagem de vídeo colocada na Internet. “Será que agora têm máquinas de fax nas prisões egípcias? Estarão ligadas aos mesmos aparelhos que aplicam choques eléctricos [aos reclusos]?”, perguntou, insinuando que a mensagem do Dr. Fadl fazia parte de uma campanha de propaganda do regime do deposto Presidente, Hosni Mubarak.

Certo é que o fax fez com que vários jornais árabes lutassem pela publicação do Documento para a Correcta Orientação da Actividade Islâmica no Egipto e no Mundo (Wathiqt Trashid Al-‘Ami Al-Jihadi fi Misr w’Al-‘Alam).

A corrida foi ganha por Al-Jarida, no Kuwait, e Al-Masri Al-Yawm, no Egipto, que publicaram as 100 páginas das “revisões” de Dr. Fadl numa série de 15 artigos, em Novembro de 2007.

 

Khalil al-Anani, analista egípcio e investigador da Brookings Institution, disse-nos que a Al-Qaeda se tornou mais numa “ideia” e menos numa “organização”. Numa entrevista por e-mail, referiu que a rede de Bin Laden “se assemelha cada vez mais a uma ‘marca registada’, ou seja, qualquer grupo jihadista que queira lutar contra o Ocidente e os regimes árabes diz que é uma ramo da Al-Qaeda”.

Por isso, acrescenta, é difícil atestar que a Al-Qaeda ‘original’ ainda existe depois dos duros combates e acusações” de que tem sido alvo. Em seu entender, os ataques que têm sido cometidos no Iraque, na Argélia e no Afeganistão “não têm nada a ver com a al-Qaeda ‘original’, mas sim com grupos violentos locais que usam a cobertura da al-Qaeda para atraírem jovens.”

Sobre a “revisões” de Dr. Fadl, o autor de Muslim Brothers in Egypt, considerou-as “verdadeiras e genuínas”, mas colocou uma questão: “Até que ponto irão afectar as novas gerações de jihadistas? Neste caso, tenho muitas dúvidas e por várias razões. A primeira é a de que não há relação directa entre Dr. Fadl e a terceira geração de jihadistas pós-11 de Setembro no Afeganistão e no Iraque. Muitos nem sequer leram os seus livros.”

“Segundo, há novos líderes e teóricos da jihad que podem preencher o vazio da literatura de Dr. Fadl, como Abu Moahmmed al-Maqdesi, que escreveu mais de 50 livros, mais literais e extremistas do que os de Al-Sharif.

Outro é o palestiniano Abu Qatada (Omar Muhammed Othman), cujas fatwas [éditos religiosos] há muito inflamam a violência jihadista na Argélia. Terceiro, a situação doméstica e regional encoraja uma propagação das ideias jihadistas e salafistas mais do que no passado.”

Anani não considerou as “revisões” de Al-Sharif/Dr. Fadl uma rebelião ou uma revolução. “É uma coisa boa mas não é suficiente”, frisa.

“Não creio que estas revisões venham a afectar muito a velha geração da Al-Qaeda, porque esta pagou um preço elevado pelas suas ideias e não permitirá que ninguém, nem mesmo Dr. Fadl, a prejudique. Além disso, muitos [dessa velha geração] têm dúvidas sobre as revisões do Dr. Fadl. Acham que ele foi obrigado a fazê-las.”

 

A opinião de Raouf Ebeid, director de Political Islam Online, um site norte-americano especializado em questões de militância islâmica, não são muito diferentes da de Khalil al-Anani. O novo manifesto de Dr. Fadl “terá provavelmente algum impacto entre os ‘verdadeiros crentes

’, assim como um efeito desmoralizador numa organização central já desmoralizada”, disse-nos, numa troca de e-mails e conversas telefónicas.

“Não é porém, o livro de Dr. Fadl o responsável pelo recuo da Al-Qaeda. O ponto de viragem surgiu quando líderes tribais e a população iraquiana sunita se viraram contra [o assassinado dirigente Abu Mussab] Zarqawi e outros no Iraque. O efeito negativo de uma luta fratricida muçulmanos-muçulmanos espalhou-se por todo o mundo árabe/islâmico.”

Sheikh Salman al-Odah, um teólogo que Bin Laden muito admirava, apareceu numa das mais populares estações de televisão árabes (MBC) a ler-lhe uma carta: “Irmão Osama, quanto mais sangue tem de ser derramado? Quantas mais crianças, mulheres e idosos inocentes serão mortos, mutilados e expulsos das suas casas em nome da al-Qaeda?”

Peter Bergen e Paul Cruickshank, autores de The Unravelling, extensa reportagem publicada em The New Republic, também evocaram a mensagem de Sheikh Odah (famoso pelos seus sermões contra a presença das tropas norte-americanas no reino saudita, que o prendeu em 1984) e o manifesto de Dr. Fadl como “sinais de repúdio que apressam a implosão” do movimento terrorista. E citaram Winston Churchill, depois da batalha de El Alamein, em 1942, que ele considerou o ponto de viragem na II Guerra Mundial:

“Isto não é o fim. Não é sequer o princípio do fim. Mas é, talvez, o fim do princípio.”

 

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2 de Maio de 2011 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 2, 2011

A Síria de A a Z

O Governo sírio demitiu-se e o presidente, Bashar al-Assad, fez uma “grande comunicação ao país”, depois de dias manifestações a favor e contra o regime. Conseguirá ele manter-se no poder? Este é um guia para entender um dos mais importantes países do Médio Oriente. (Ler mais | Read more…)

Assad

A família Assad – Hafez, o patriarca, da esquerda para a direita: Maher, Bashar, Basel (ao centro) Majid e Bushra, Anisa (a mulher) e Hafez (o “patriarca”). @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

A família Assad – Hafez, o patriarca; Anisa, a mulher; e os filhos Maher, Bashar, Basel, Majid e Bushra (a única rapariga) da primeira dinastia republicana árabe

Hafez al-Assad, o fundador da primeira “dinastia republicana” árabe, nasceu em Qardaha, aldeia montanhosa a sudeste de Latakia, a cidade onde iniciou a sua carreira militar e apurou o talento político que o levaria ao poder absoluto, em 1963.

Nessa caminhada, o homem cujo apelido significa “Leão” teve o apoio de Aniseh Makhlouf, uma garota por quem se apaixonou e com quem se casaria em 1958. Ela era filha de um distinto cirurgião; ele era filho de camponeses, nem ricos nem pobres mas respeitados.

O pai dela não aprovava esta união, mas ele foi buscá-la a casa e levou-a para Damasco. Ela fê-lo ascender ao topo do escalão social e tornou-se na sua melhor confidente – ainda hoje influencia as decisões do actual Presidente.

Tiveram cinco filhos (Basil, Bashar, Majid, Maher e Bushra – a única rapariga). Pertencem ao ramo xiita dos Alauitas, uma corrente do islão que a ortodoxia sunita vê como blasfemo por atribuir uma essência divina ao seu mais venerado líder espiritual, Ali ibn Abi Talib, genro de Maomé.

Muitos alauitas pertencem a uma de quatro grandes confederações tribais: os Haddadin, os Matawira, os Khaiyatin e os Kalbiya – e é a esta última que Assad está ligado. O nome “alauita” foi cunhado durante o Mandato Francês da Síria; antes da Primeira Guerra Mundial, a comunidade era conhecida como Nusairita, designação inspirada em Muhamad ibn Nusayr, um pregador do século IX.

Baas

Michel Aflaq (à esquerda) e Salah al-Bitar (à direita), os fundadores do partido Baas, recebidos pelo antigo Presidente egípcio Gamal Abdel Nasser (ao centro). © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Michel Aflaq (esq.) e Salah al-Bitar (dir.), os fundadores do partido Baas, recebidos pelo antigo presidente egípcio Gamal Abdel Nasser (ao centro)

Criado em Damasco, em 1947, pelos intelectuais sírios Michel Aflaq e Salah al-Bitar, o partido Baas/Ḥizb Al-Ba‘ath Al-‘Arabī Al-Ishtirākī (“Ressurreição” ou “Renascimento”, em árabe) definia-se como secular, nacionalista e marxista, “contra o imperialismo ocidental”. O seu lema era “unidade, liberdade e socialismo”.

Depois de um golpe de Estado em 1963, o Baas tornou-se no partido único na Síria. No Iraque, embora fosse uma facção rival, também deteve o monopólio de 1968 até 2003, quando foi dissolvido após a queda de Saddam Hussein.

Na sequência dos protestos populares em curso, o Presidente Bashar al-Assad prometeu agora autorizar a criação de outros partidos, além do Baas.

Curdos

Kurdish anti-Syrian government activists parade through the streets in celebration of the official declaration of liberation of the city of Derik, near Al-Malikiyah, on 15 November 2012. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Activistas curdos sírios desfilam pelas ruas de Derik, próximo de Al-Malikiyah, a 15 de Novembro de 2012, celebrando “a libertação” da cidade, depois de confrontos com as tropas de Assad

Os curdos, a maior minoria étnica da Síria (10% da população), são predominantemente sunitas. Habitam a região Nordeste e são uma comunidade pequena, se comparada com a dos curdos no Irão, Iraque e Turquia, mas não deixam de ser rebeldes.

Em 1980-1990, envolveram-se em violentos confrontos com as autoridades dos quais resultaram inúmeras mortes e detenções.

Em 2004 – já sob as ordens de Bashar al-Assad – novas batalhas com as forças de segurança resultaram em pelo menos 30 mortos, 160 feridos e centenas de detidos. Quando os protestos de 2011 eclodiram em Daraa, os curdos – ainda que divididos – estavam na linha da frente.

Daraa

Deraa, a cidade onde começou uma rebelião popular, inicialmente pacífica, visando forçar reformas políticas. O regime respondeu com força bruta e não demorou muito até que a revolta se transformasse numa guerra civil. Anti-government activists gather on the streets of Daraa, 100kms south of the capital Damascus on March 23, 2011. Syrian security forces fired on anti-regime protesters near a mosque, killing five and wounding scores, rights activists said as the government blamed a "gang" for the violence. AFP PHOTO/ANWAR AMRO (Photo credit should read © ANWAR AMRO/AFP/Getty Images)

Daraa, onde começou a rebelião popular, inicialmente pacífica, visando forçar reformas políticas. O regime respondeu com força bruta e não demorou até que a revolta se transformasse em guerra civil.  Nesta foto, de 23 de Março de 2011, activistas concentram-se nas ruas da cidade para protestar contra um ataque de forças leais ao presidente contra um grupo que protegia uma mesquita local
© Anwar Amro | AFP | Getty

Foi em Daraa, 100 quilómetros distante de Damasco, onde Lawrence da Arábia foi capturado durante a I Guerra Mundial, que começou a revolta contra a dinastia Assad, em 2011.

Situada no Sul da Síria, esta cidade tem sido vítima da negligência do regime, reconhece o jornalista britânico Patrick Seale, biógrafo do anterior Presidente, Hafez al-Assad.

Por ser fronteiriça com a Jordânia foi declarada “zona de segurança” o que faz com que a compra e venda de terras dependa muito do tráfico de influências. Aos protestos inicialmente pacíficos, as forças militares e policiais reagira com brutal violência.

Inicialmente, analistas consideravam que “o grande teste” consistiria em saber se o apoio popular à sublevação de Daraa se iria propagara outros centros urbanos e, em particular, a Damasco. E foi essa a realidade.

Exército

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O maior sonho da Síria era ter uma capacidade militar igual à de Israel, mas nunca conseguiu esse objectivo e ficou ainda mais longe de o atingir quando o seu principal fornecedor de armas, a URSS, se dissolveu em 1991.

O Exército dos Assad, que pode mobilizar até 400 mil homens, agora estará a tentar modernizar os seus obsoletos arsenais com a alegada ajuda da Coreia do Norte e do Irão.

Facebook

 

A chegada à Presidência, em 2000, de um jovem educado em Londres e casado com uma engenheira de computação trouxe a promessa de uma abertura da sociedade síria.

De início, Bashar al-Assad permitiu uma “Primavera de Damasco”, com a proliferação de fóruns de diálogo democrático e cafés de Internet onde se discutia a necessidade de reformas.

No entanto, o isolamento externo do país, lutas internas pelo controlo do poder político e militar entre uma velha e uma nova guarda fizeram com que o sucessor de Hafez se retraísse.

Utilizadores das redes sociais, como o Facebook e o Twitter, começaram a ser perseguidos e presos, e só a recente revolta popular obrigou o chefe de Estado a reabrir estes canais de comunicação, no âmbito de uma série de concessões à oposição – como o levantamento do estado de emergência, em vigor desde 1963.

Golã

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Os Montes Golã foram conquistados por Israel na guerra de 1967 quando Hafez al-Assad era ministro da Defesa. Desde então, a recuperação total deste planalto estratégico, que os israelitas anexaram em 1981, tornou-se numa obsessão nacional.

O único pedaço de território restituído até agora foi a cidade de Quneitra – devolvida depois de bombardeada, num acto de vingança, quando Henry Kissinger forçou a mão de Israel, que, surpreendido por sírios e israelitas na chamada Guerra do Yom Kippur, em Outubro de 1973, só escapou de uma derrota graças à intervenção dos Estados Unidos.

Se posições intransigentes de ambas as partes em negociações para a troca dos Golã pela paz têm impedido um acordo [Israel não abdica e a Síria também não do controlo do Mar da Galileia], certo é que a fronteira com a Síria foi, apesar do “estado de guerra”, a mais segura de Israel – e uma mudança de regime em Damasco pode abalar essa tranquilidade.

Hama

Hama, bastião da Irmandade Muçulmana, depois de bombardeada, por ordem de Hafez al-Assad, em 1982; entre 30.00 e 70.000 mortos (este último número estimado por Rifaat, cunhado do antigo Presidente, que foi incumbido da missão de arrasar a cidade). @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Hama, bastião da Irmandade Muçulmana, depois de bombardeada e arrasada, por ordem de Hafez al-Assad, em 1982

Em 1982, enquanto as atenções do mundo se concentravam na invasão israelita de Beirute, na Síria, o Presidente Hafez al-Assad, ordenou ao seu irmão, Rifaat, que arrasasse a cidade de Hama, reduto da Irmandade Muçulmana.

Hafez escapara por um triz a mais um atentado, e Rifaat seguiu à risca as suas directrizes. Aviões e carros de combate reduziram a cidade a escombros. Foram mortas entre 30 mil e 40 mil pessoas, segundo a Amnistia Internacional.

Ikhwan

@Associated Press /AP

© Associated Press

Fundada “entre os anos 1930 e 1940”, a Ikhwan al-Muslimun ou Irmandade Muçulmana, parte da maioria sunita, chegou a ser uma força parlamentar na Síria, em 1961, com dez deputados. Seria ilegalizada depois do golpe de 1963 que levou os laicos e socialistas do Partido Baas ao poder.

Com a ascensão dos Assad, em 1970, a Irmandade declarou guerra ao Presidente e tentou matá-lo várias vezes. Depois do massacre na cidade de Hama (ver H), em 1982, a liderança sobrevivente da organização refugiou-se em Londres e em Chipre.

Posteriormente, renegou a luta armada [entretanto retomada depois que a revolta popular de 2011 se transformou em guerra civil] , exortando à criação de um “sistema político democrático e pluralista”. A filiação na Irmandade continua a ser, porém, um crime punível com a pena de morte.

Judeus

A Jewish woman and a couple of Bedouins in Aleppo, 1873 ©

Uma judia (esq.) com um casal de beduínos, na cidade de Aleppo, em 1873

Os judeus da Síria tinham duas origens: os que sempre habitaram o país e os que o país acolheu depois de terem sido expulsos de Espanha, em 1492. As suas principais comunidades ficavam em Aleppo, Damasco e Qamishli.

Com a criação do Estado de Israel, em 1948, muitos sentiram-se compelidos a emigrar, sobretudo para os Estados Unidos, América Central e do Sul.

Em 1992, o regime de Hafez al-Assad autorizou a que os 4000 judeus que restavam pudessem sair do país – na condição de não se instalarem em Israel. Actualmente, estima-se que  cerca de 750 mil judeus sírios vivam em Brooklyn; sendo desconhecido o número dos que ficaram em Damasco.

Kamal

Kamal Jumblatt, o líder druso do Líbano que Hafez al-Assad mandou assassinar, em 1977, quando ele se aliou a Yasser Arafat, da OLP, desobedecendo às ordens de Damasco, que controlou o país vizinho até 2004. @DR (Direitos Reservados| All Rights Reserved)

Kamal Jumblatt, que Hafez al-Assad mandou assassinar, em 1977, quando o líder dos drusos no Líbano se aliou ao palestiniano Yasser Arafat, desobedecendo às ordens de Damasco

Em 1976, no auge da guerra civil no Líbano que durou até 1990, o líder druso Kamal Jumblatt decidiu afastar-se de Hafez al-Assad e aliar-se ao palestiniano Yasser Arafat. A fúria da “Esfinge de Damasco” aumentou quando o carismático Jumblatt criticou publicamente “a ingerência síria nos assuntos libaneses”.

Assad, que fazia e desfazia aliança com as 17 confissões religiosas libanesas à medida dos seus interesses, não tolerou a desobediência de Jumblatt e, a 16 de Março de 1977, o principal aliado de Arafat foi assassinado quando saía do seu castelo ancestral, em Mukhtara para Ba’qlin, a maior aldeia drusa nas Montanhas Shouf.

O filho de Kamal e actual líder druso, Walid Jumblatt, tem sido ora um aliado ora um crítico de Damasco, consoante a influência que o poderoso vizinho exerce no “País do Cedro”.

A Síria manteve cerca de 40 mil soldados e espiões no Líbano até 2005, quando protestos populares, após o atentado que matou o ex-primeiro-ministro Rafic Hariri, obrigaram Bashar al-Assad a uma retirada táctica.

Embora já tenha reconhecido oficialmente o Líbano como um Estado soberano, a Síria ainda é a ”potência dominante”, graças aos seus laços com o Hezbollah.

Latakia

 

Um dos sinais de alarme nos protestos populares na Síria foi quando a sublevação chegou a Latakia, a principal cidade portuária do país, com cerca de 400.000 habitantes.

Este é o bastião da dinastia Assad, habitado por 75% de todos os alauitas do país (até 1970 eles eram aqui a minoria, em relação aos sunitas e aos cristãos locais).

Mukhabarat

@ Cartoonist Ali Ferzat فنان الكاريكاتير علي فرزات

© Cartoonist Ali Ferzat فنان الكاريكاتير علي فرزات

Em 2005, cinco anos depois de Bashar al-Assad chegar ao poder, entregou a chefia dos temíveis serviços secretos sírios, conhecidos pela palavra árabe Mukhabarat, ao seu cunhado Assef Shawkat.

No mesmo ano, em Beirute, o ex-primeiro-ministro libanês Rafic Hariri, que se vinha distanciando de Damasco, foi assassinado num atentado bombista e as suspeitas (de planeamento, senão de execução) recaem, segundo a ONU, sobre o oficial sem posses que obrigou o Presidente a aceitar que ele se casasse com Bushra al-Assad a sua filha querida.

Em 2008, quando Imad Mugniyah, um dos mais perseguidos operacionais do Hezbollah, foi assassinado em Damasco – o sexagenário Shwakat ficou numa situação embaraçosa: o ataque foi uma indesculpável falha de segurança, mas isso não impediu que fosse nomeado vice-chefe das Forças Armadas e, em 2010, especulava-se que pudesse ser designado ministro da Defesa.

[Em 2011, quando começou a sublevação contra o regime que depois se transformou em guerra civil, Shawkat era, em conjunto com Maher al-Assad, um dos estrategas das ofensivas contra os rebeldes. Em Julho de 2012, Shawkat foi assassinado num atentado suicida que quase decapitou a cúpula do regime.]

Nasser

Gamal Abdel Nasser, o Presidente egípcio que era, simultaneamente, aliado e rival de Hafez al-Assad. Ambos foram os grandes derrotados da Guerra dos Seis Dias, contra Israel, em 1967. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Gamal Abdel Nasser, o Presidente egípcio que era, simultaneamente, aliado e rival de Hafez al-Assad. Ambos foram os grandes derrotados da Guerra dos Seis Dias, contra Israel, em 1967

Em 1958, com o sentimento pan-árabe a crescer no Egipto e na Síria, os dois países, o primeiro liderado por Gamal Abdel Nasser, e o segundo por Shukri al-Quwatli, fundiram-se numa República Árabe Unida.

Não durou muito esta entidade, porque as ambições de Nasser eram incompatíveis com as de Hafez al-Assad, ambos interessados em dominar a região.

A maior aventura militar em que ambos se envolveram terminou num humilhante fracasso: na guerra de 1967, e em apenas seis dias, Israel conquistou à Síria todo os Montes Golã, e ao Egipto a Península do Sinai e a Faixa de Gaza.

Omíadas

A mesquita omíada em Alepo, antes e depois (2013) de o seu minarete do século Xi ter sido destruído nos combates entre forças leais e hostis a Bashar al-Assad:s nenhum dos beligerantes assumiu responsabilidade. "Isto é o equivalente à explosão do Taj Mahal ou da Acrópole", lamentou Helga Seeden, professora de Arqueologia na American University of Beirut, citada pelo 'Mail Online'. @Getty Images

A mesquita dos Omíadas em Aleppo, Património da Humanidade, segundo a UNESCO, antes e depois de o seu minarete do século XI ter sido destruído durante combates, em 2013. “Isto é o equivalente à explosão do Taj Mahal ou da Acrópole”, disse Helga Seeden, arqueóloga na Universidade Americana de Beirute
© Getty Images

Primeira grande dinastia da histórica islâmica medieval, os Omíadas governaram a partir de Damasco, a sua capital, desde a morte do quarto califa sunita (primeiro imã xiita), Ali ibn Abi Talib, de 661 até 750.

Os Omíadas terão sido mais reis do que califas, devido ao seu alegado secularismo. Na Síria, esta dinastia dotou o Império Muçulmano de uma sólida estrutura administrativa, que lhe conferiu estabilidade. Desenvolveua urbanização e a vida social; foi a iniciadora da arquitectura muçulmana, como a esplendorosa Mesquita de Damasco.

Petróleo

 

O petróleo era uma das principais indústrias e receitas (25%) Síria , que era o maior produtor (também de gás) no Mediterrâneo Oriental. Diariamente, o país produzia mais de 400 mil barris de petróleo, consumia 252 mil, exportava 115 mil e importava mais de 58 mil, segundo The World Factbook da CIA.

[Desde a guerra civil em 2011, refere a revista Forbes, a produção terá diminuído para 25.000 barris/dia. Os danos causados pelos combates às infra-estruturas foram avaliados em cerca de 20.000 milhões de dólares. O colapso é explicado neste relatório da U.S. Energy Information Administration.  

A maioria dos campos petrolíferos, designadamente os localizados em Homs e na região oriental junto às fronteiras com a Turquia e o Iraque, estarão sob controlo dos rebeldes. Estes estarão, supostamente, a exportar milhares de barris/dia para financiarem a luta armada, enquanto o regime, mesmo que tivesse esta capacidade operacional, não o poderia fazer por estar sujeito a sanções internacionais.]

Além disso, o Governo de Assad perdeu a maioria dos seus parceiros comerciais, como a Royal Dutch Shell ou a Total, da França. As únicas excepções, de acordo com a Forbes, parecem ser a Rússia e o Irão. Em Dezembro de 2013, a companhia SoyuzNefteGaz, de Moscovo, assinou um acordo com os Assad, com quem negoceia há mais de uma década, para explorar petróleo ao largo da costa síria. O maior accionista da empresa é o Banco Central da Rússia.  

O Irão, por seu lado, terá concedido à Síria crédito no valor de 3.000 milhões de dólares para facilitar a importação de petróleo e outros combustíveis. Aparentemente, Teerão venderá a Damasco cerca de 30.000 barris de petróleo, por dia, e ainda cerca de 10 milhões de barris, por ano, de gás liquefeito.]

Qabbani

 

Nizar Tawfiq Qabbani é um dos maiores poetas, escritores e intelectuais árabes. Filho de um sírio e de uma turca, nasceu em 1923 em Damasco, onde fez todos os seus estudos.

Licenciou-se em Direito, em 1945, o que lhe permitiu também uma carreira de diplomata em várias cidades, de Madrid a Pequim. Frequentava ainda a faculdade quando publicou o seu primeiro livro de poemas, The Brunett Told Me, versos românticos com várias referências ao corpo feminino, o que abalou profundamente a sociedade da época.

A obra de Qabbani, muito centrada no amor e no erotismo, terá sido influenciada pelo suicídio da sua irmã, Wisal, aos 25 anos (tinha ele 15), depois de recusar um casamento arranjado. “O amor, no mundo árabe, é como um prisioneiro e eu quero libertá-lo – quero libertar o coração, a mente e o corpo árabes”, dizia.

Um revolucionário convicto e assumido (o pai, dono de uma fábrica de chocolates, participou na resistência contra o poder colonial francês), Qabbani deixou que a sua poesia fosse também impregnada de política.

Foi duramente crítico da “inferioridade” dos exércitos árabes face a Israel e solidário com os palestinianos. Morreu em 1998, de ataque cardíaco, em Londres, onde durante 15 anos escreveu poemas controversos, um deles, When Will They Announce the Death of Arabs? No final, cumpriram o seu desejo de ser sepultado em Damasco, a cidade que lhe ensinou “o alfabeto do jasmim”.

Refugiados

De país de acolhimento de refugiados palestinianos, a Síria tornou-se um país de onde a sua população foge agora para o Líbano, a Jordânia, o Iraque e a Turquia: a ONU calcula que o número de civis que procuraram refúgio nos territórios fronteiriços se aproximava do dois milhões em 2013. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

De país de acolhimento de refugiados palestinianos, a Síria tornou-se um país de onde a sua população foge agora para o Líbano (na foto), a Jordânia, o Iraque e a Turquia: a ONU calcula que o número de civis que procuraram refúgio nos territórios fronteiriços se aproximava do dois milhões em 2013

A Síria era um dos países árabes que acolhia mais refugiados palestinianos do conflito com Israel e, desde a queda de Saddam Hussein, recebeu também milhares de iraquianos em fuga da guerra civil e confessional.

Se muitos palestinianos continuaram confinados a campos miseráveis e com direitos reduzidos, a presença dos iraquianos (uma minoria sunita que escapou de um país de maioria xiita) era uma permanente lembrança aos sírios do que lhes aconteceria se o regime alauita cair.

Sunitas

O casamento do alauita Bashar al-Assad e da sunita Asma Akhras foi visto como uma união de conveniência para reforçar a unidade de um país heterógeneo. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

O casamento do alauita Bashar al-Assad e da sunita Asma Akhras foi visto como uma união de conveniência para reforçar a unidade de um país heterógeneo

O casamento de Bashar al-Assad e Asma Akhras foi visto como uma união de conveniência para reforçar a unidade de um país heterógeneo. Asma, 35 anos (menos 10 que Bashar) nasceu em Londres, em 1975, filha de um cardiologista e de uma diplomata sírios.

Formou-se em Engenharia de Computação e trabalhava entre na firma de investimentos JP Morgan, prestes a concluir um MBA em Harvard, quando Bashar, estudante de Oftalmologia, foi chamado pelo pai, em 1994, para ocupar o lugar do seu irmão, Basel, um oficial militar e herdeiro designado que morreu num misterioso acidente de aviação na estrada Damasco-Beirute.

Como primeira-dama desde 2000, ano em que Hafez al-Assad morreu e Bashar lhe sucedeu, vencendo um “referendo” com 97 por cento dos votos, Asma tem adoptado um perfil discreto e ostentoso, dedicando-se a acções de caridade sem abdicar do luxo das vestes Chanel e imponentes sapatos Louboutin.

[Aparentemente, nem a guerra civil que eclodiu em 2011, depois de Bashar ter recusado reformas políticas, alterou os hábitos de luxo da primeira-dama. A sua insensibilidade face aos massacres atribuídos ao regime espantou muita gente e apanhou alguns desprevenidos. A revista ‘Vogue’  teve o azar de lhe dedicar uma capa, chamando-lhe “Rosa do Deserto”, quando a Síria estava já banhada em sangue.]

Telecomunicações

@ Cartoonist Ali Ferzat فنان الكاريكاتير علي فرزات

@ Cartoonist Ali Ferzat فنان الكاريكاتير علي فرزات

A corrupção no sector das telecomunicações é um dos factores de descontentamento que alimentou a revolta na Síria. Os tumultos em Deraa, por exemplo, visaram Rami Makhlouf, 41 anos, um primo do Presidente que, com a bênção do regime, retirou a um bilionário egípcio o controlo da Syriatel, o mais importante operador de telemóveis nacional.

Makhlouf é um empresário poderoso capaz de intimidar todos os potenciais concorrentes e obter contratos exclusivos que lhe permitiram erguer um império de negócios, extensivo aos sectores da banca, gás e petróleo (vinculado inclusive a companhias americanas, não obstante ter os bens congelados nos EUA).

União Soviética

O porto de Tartous (na foto, está atracado um navio iraniano) é a última base naval que a Rússia mantém no Médio Oriente. Isso, juntamente com contratos de vendas de armas de milhões de dólares tem explicado por que a Moscovo continua ao lado de Damasco apesar dos massacres atribuídos ao regime de Bashar al-Assad. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

O porto de Tartous (na foto, um navio iraniano) é a última base naval que a Rússia mantém no Médio Oriente. Isso, juntamente com contratos de vendas de armas de milhões de dólares tem explicado, em parte, por que a Moscovo faz tudo para segurar o regime de Bashar al-Assad

Até ao fim da Guerra Fria, a Síria foi um dos principais aliados da União Soviética no Médio Oriente. No entanto, apesar de o colapso da URSS ter deixado Damasco em situação de orfandade, a Rússia ainda continua a fornecer-lhe o grosso do equipamento militar.

Em 2012, o valor dos contratos para a venda de armas russas à Síria ultrapassava os 4000 milhões de dólares. O porto de Tartous é também a última base naval que a Rússia mantém na região.

Vale dos Cristãos

 

Na Síria, o regime nacionalista tentou sempre evitar o uso de nomes geográficos que indicassem a origem religiosa dos habitantes de uma determinada região. Para realçar que “todos os árabes são iguais independentemente da sua fé”, o Vale dos Cristãos (Wadi al-Nasara) passou a designar-se Wadi al-Nadara (Vale em flor).

Aqui se situa uma das cidades mais emblemáticas, Maaloula, que foi, antes da guerra, um roteiro turístico obrigatório. O mesmo aconteceu com a Montanha dos Drusos (Jabal al-Duruz), mais conhecida por Jamal al’-Arab (Montanha dos Árabes).

Wannous

 

Dramaturgo sírio, Saadallah Wannous era um alauita como os Assad. Nasceu em 1941 e morreu em 1997. Estudou Jornalismo no Cairo e Teatro em Paris. No começo de carreira, início dos anos 1960, as suas peças, de um só acto, abordavam “a relação do indivíduo e da sociedade com o poder”.

Destroçado com a derrota árabe na guerra de 1967, na qual a Síria perdeu os Montes Golã, Wannous ajudou a fundar, em Damasco, o Festival Árabe das Artes do Teatro, introduzindo o conceito de “teatro da politização” em substituição do “teatro político”, com o objectivo de desencadear “um processo de mudanças sociais e políticas.

Em estado de choque depois da invasão israelita de Beirute em 1982, Wannous deixou de escrever durante uma década. Só voltou nos anos 1990 com uma peça sobre o conflito com Israel.

Em 1996, foi o primeiro árabe seleccionado pela UNESCO para assinalar o Dia Mundial do Teatro, que se celebra desde 1963, o ano em que a Síria instaurou o estado de emergência. A  sua peça  Elefante, o Rei de Todos os Tempos tem sido interpretada como uma profecia:

Actores em uníssono: esta é uma história. 

– Actor 5: e nós somos actores.

– Actor 3: representamos esta peça para aprendermos juntos as suas lições.

– Actor 7: sabem por que existem Elefantes?

– Actor 3: já sabem, agora, por que os elefantes se multiplicam?

– Actor 5: mas a nossa vida é só o início.

– Actor 4: quando os elefantes se multiplicam, outra história deve começar…

– Actores em uníssono: uma história sangrenta. Juntos, vamos representar essa história esta noite! 

Xiitas

Fatima Merhi, uma mãe xiita síria de 77 anos, deixa-se fotografar no seu refúgio no Líbani, junto de um quadro com a imagem do filho Radwan, um elementos das forças rebeldes morto em Damasco, em Maio de 2013. @Ruth Sherlock | The Telegraph

Fatima Merhi,  mãe xiita síria de 77 anos, deixa-se fotografar no seu refúgio no Líbano, junto de um quadro com a imagem do filho Radwan, um elemento das forças rebeldes morto em Damasco, em Maio de 2013
© Ruth Sherlock | The Telegraph

Os xiitas surgiram com o primeiro cisma do Islão, quando Maomé morreu sem deixar um herdeiro, deixando os crentes divididos entre o seu genro (Ali) e o seu sogro (Abu Bakr), que seria o primeiro califa. Ainda vistos como “hereges” pela maioria sunita, os xiitas cindiram-se em várias correntes, uma delas os alauitas.

Embora estejam mais próximos dos xiitas duodecimanos (que veneram 12 imãs) do Irão, a aliança entre Teerão e Damasco deve-se mais a considerações geopolíticas (são inimigos de Israel e aliados do Hezbollah no Líbano) e interesses económicos (dependência do petróleo) do que a motivos religiosos.

Em 1980-1988 quando o mundo árabe (à excepção do Sultanato de Omã, que se manteve neutral) decidiu apoiar Saddam Hussein na luta contra a República Islâmica do Ayatollah Khomeini, o então Presidente, Hafez al-Assad, optou por se aliar à teocracia dos Mullahs contra o Iraque secular e socialista.

Yasser

Trípoli (Líbia), 13 de Abril de 1980: os rivais Hafez al-Assad, Muammar Khadafi e Yasser Arafat, líderes da chamada Frente Árabe de Firmeza e Rejeição (criada contra Israel). @ CORBIS Images

Trípoli (Líbia), 13 de Abril de 1980: os rivais Hafez al-Assad, Muammar Khadhafi (Líbia) e Yasser Arafat (Palestina), líderes da chamada Frente Árabe de Firmeza e Rejeição (criada contra Israel)
© Corbis

Na luta pela liderança dos palestinianos destacaram-se dois grandes rivais: os defuntos Yasser Arafat e Hafez al-Assad que, juntamente, com o sobrevivente líbio Muammar Kadhafi (os três na foto), formavam a chamada Frente Árabe de Firmeza e Rejeição.

A rivalidade entre Arafat e Assad era tão grande que o sírio não hesitou em usar os seus aliados xiitas da milícia Amal para travar uma guerra contra a OLP no Líbano.

A “guerra dos campos” em 1985 sacrificou tantas ou mais vidas (2500) do que os massacres de refugiados em Sabra e Shatila (entre 700 e 3000), depois da invasão israelita de Beirute em 1982.

Copiando as palavras de Golda Meir, o pai de Bashar al-Assad disse um dia a Arafat: “Não há um povo palestiniano, uma entidade palestina, há apenas a Síria e vocês são parte da Síria.” Várias facções dissidentes da OLP a direcção político-militar do movimento islâmico Hamas continuam a operar em Damasco, sob o beneplácito do regime.

Zabaniyah

Com o significado literal, em árabe, de “Guardas”, az-Zabaniyah foi como um grupo que se chamava a si próprio Mujahedin (Combatentes) classificava os prisioneiros sunitas que enchiam as cadeias sírias depois de uma série de tentativas de assassínio de líderes alauitas, após a intervenção síria no Líbano em 1976.

[Juan Cole, do blogue Informed Comment, refere-se a “Anjos encarregues do Inferno cujo líder se diz que é Malik”. E, com base no Hughes, Dictionary of Islam, cita um versículo do Corão ( xcvi, 17, 18): “Deixem-no reunir o seu Conselho: convocaremos os guardas do Inferno (az-Zahaniyah).”]

© Outside the Beltway

© Outside the Beltway

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 30 de Março de 2011 | This article, now revised and updated,  was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on March 30, 2011