A Síria de A a Z

O Governo sírio demitiu-se e o Presidente Bashar al-Assad fez [em Março de 2011] uma “grande comunicação ao país”, depois de dias manifestações a favor e contra o regime. Conseguirá ele manter-se no poder? Este é um guia para entender um dos mais importantes países do Médio Oriente. (Ler mais | Read more…)

Assad

A família Assad – Hafez, o patriarca, da esquerda para a direita: Maher, Bashar, Basel (ao centro) Majid e Bushra, Anisa (a mulher) e Hafez (o “patriarca”). @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

A família Assad – Hafez, o patriarca; Anisa, a mulher; e os filhos Maher, Bashar, Basel, Majid e Bushra (a única rapariga) da primeira dinastia republicana árabe
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Hafez al-Assad, o fundador da primeira “dinastia republicana” árabe, nasceu em Qardaha, aldeia montanhosa a sudeste de Latakia, a cidade onde iniciou a sua carreira militar e apurou o talento político que o levaria ao poder absoluto, em 1963.

Nessa caminhada, o homem cujo apelido significa “Leão” teve o apoio de Aniseh Makhlouf, uma garota por quem se apaixonou e com quem se casaria em 1958. Ela era filha de um distinto cirurgião; ele era filho de camponeses, nem ricos nem pobres mas respeitados.

O pai dela não aprovava esta união, mas ele foi buscá-la a casa e levou-a para Damasco. Ela fê-lo ascender ao topo do escalão social e tornou-se na sua melhor confidente – ainda hoje influencia as decisões do actual Presidente.

Tiveram cinco filhos (Basil, Bashar, Majid, Maher e Bushra – a única rapariga). Pertencem ao ramo xiita dos Alauitas, uma corrente do islão que a ortodoxia sunita vê como blasfemo por atribuir uma essência divina ao seu mais venerado líder espiritual, Ali ibn Abi Talib, genro de Maomé.

Muitos alauitas pertencem a uma de quatro grandes confederações tribais: os Haddadin, os Matawira, os Khaiyatin e os Kalbiya – e é a esta última que Assad está ligado. O nome “alauita” foi cunhado durante o Mandato Francês da Síria; antes da Primeira Guerra Mundial, a comunidade era conhecida como Nusairita, designação inspirada em Muhamad ibn Nusayr, um pregador do século IX.

Baas

Michel Aflaq (à esquerda) e Salah al-Bitar (à direita), os fundadores do partido Baas, recebidos pelo antigo Presidente egípcio Gamal Abdel Nasser (ao centro). © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Michel Aflaq (esq.) e Salah al-Bitar (dir.), os fundadores do partido Baas, recebidos pelo antigo Presidente egípcio Gamal Abdel Nasser (ao centro)
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Criado em Damasco, em 1947, pelos intelectuais sírios Michel Aflaq e Salah al-Bitar, o partido Baas/Ḥizb Al-Ba‘ath Al-‘Arabī Al-Ishtirākī (“Ressurreição” ou “Renascimento”, em árabe) definia-se como secular, nacionalista e marxista, “contra o imperialismo ocidental”. O seu lema era “unidade, liberdade e socialismo”.

Depois de um golpe de Estado em 1963, o Baas tornou-se no partido único na Síria. No Iraque, embora fosse uma facção rival, também deteve o monopólio de 1968 até 2003, quando foi dissolvido após a queda de Saddam Hussein.

Na sequência dos protestos populares em curso, o Presidente Bashar al-Assad prometeu agora autorizar a criação de outros partidos, além do Baas.

Curdos

Kurdish anti-Syrian government activists parade through the streets in celebration of the official declaration of liberation of the city of Derik, near Al-Malikiyah, on 15 November 2012. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Activistas curdos sírios desfilam pelas ruas de Derik, próximo de Al-Malikiyah, a 15 de Novembro de 2012, celebrando “a libertação” da cidade, depois de confrontos com as tropas de Assad
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Os curdos, a maior minoria étnica da Síria (10% da população), são predominantemente sunitas. Habitam a região Nordeste e são uma comunidade pequena, se comparada com a dos curdos no Irão, Iraque e Turquia, mas não deixam de ser rebeldes.

Em 1980-1990, envolveram-se em violentos confrontos com as autoridades dos quais resultaram inúmeras mortes e detenções. Em 2004 – já sob as ordens de Bashar al-Assad – novas batalhas com as forças de segurança resultaram em pelo menos 30 mortos, 160 feridos e centenas de detidos. Quando os protestos de 2011 eclodiram em Daraa, os curdos – ainda que divididos – estavam na linha da frente.

Daraa

Deraa, a cidade onde começou uma rebelião popular, inicialmente pacífica, visando forçar reformas políticas. O regime respondeu com força bruta e não demorou muito até que a revolta se transformasse numa guerra civil. Anti-government activists gather on the streets of Daraa, 100kms south of the capital Damascus on March 23, 2011. Syrian security forces fired on anti-regime protesters near a mosque, killing five and wounding scores, rights activists said as the government blamed a "gang" for the violence. AFP PHOTO/ANWAR AMRO (Photo credit should read © ANWAR AMRO/AFP/Getty Images)

Daraa, onde começou a rebelião popular, inicialmente pacífica, visando forçar reformas políticas. O regime respondeu com força bruta e não demorou até que a revolta se transformasse em guerra civil.  Nesta foto, de 23 de Março de 2011, activistas concentram-se nas ruas da cidade para protestar contra um ataque de forças leais ao Presidente contra um grupo que protegia uma mesquita local
© Anwar Amro | AFP | Getty 

Foi em Daraa, 100 quilómetros distante de Damasco, onde Lawrence da Arábia foi capturado durante a I Guerra Mundial, que começou a revolta contra a dinastia Assad, em 2011.

Situada no Sul da Síria, esta cidade tem sido vítima da negligência do regime, reconhece o jornalista britânico Patrick Seale, biógrafo do anterior Presidente, Hafez al-Assad.

Por ser fronteiriça com a Jordânia foi declarada “zona de segurança” o que faz com que a compra e venda de terras dependa muito do tráfico de influências. Aos protestos inicialmente pacíficos, as forças militares e policiais reagira com brutal violência.

Inicialmente, analistas consideravam que “o grande teste” consistiria em saber se o apoio popular à sublevação de Daraa se iria propagara outros centros urbanos e, em particular, a Damasco. E foi essa a realidade.

Exército

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O maior sonho da Síria era ter uma capacidade militar igual à de Israel, mas nunca conseguiu esse objectivo e ficou ainda mais longe de o atingir quando o seu principal fornecedor de armas, a URSS, se dissolveu em 1991.

O Exército dos Assad, que pode mobilizar até 400 mil homens, agora estará a tentar modernizar os seus obsoletos arsenais com a alegada ajuda da Coreia do Norte e do Irão.

Facebook

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A chegada à Presidência, em 2000, de um jovem educado em Londres e casado com uma engenheira de computação trouxe a promessa de uma abertura da sociedade síria.

De início, Bashar al-Assad permitiu uma “Primavera de Damasco”, com a proliferação de fóruns de diálogo democrático e cafés de Internet onde se discutia a necessidade de reformas.

No entanto, o isolamento externo do país, lutas internas pelo controlo do poder político e militar entre uma velha e uma nova guarda fizeram com que o sucessor de Hafez se retraísse.

Utilizadores das redes sociais, como o Facebook e o Twitter, começaram a ser perseguidos e presos, e só a recente revolta popular obrigou o chefe de Estado a reabrir estes canais de comunicação, no âmbito de uma série de concessões à oposição – como o levantamento do estado de emergência, em vigor desde 1963.

Golã

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Os Montes Golã foram conquistados por Israel na guerra de 1967 quando Hafez al-Assad era ministro da Defesa. Desde então, a recuperação total deste planalto estratégico, que os israelitas anexaram em 1981, tornou-se numa obsessão nacional.

O único pedaço de território restituído até agora foi a cidade de Quneitra – devolvida depois de bombardeada, num acto de vingança, quando Henry Kissinger forçou a mão de Israel, que, surpreendido por sírios e israelitas na chamada Guerra do Yom Kippur, em Outubro de 1973, só escapou de uma derrota graças à intervenção dos Estados Unidos.

Se posições intransigentes de ambas as partes em negociações para a troca dos Golã pela paz têm impedido um acordo [Israel não abdica e a Síria também não do controlo do Mar da Galileia], certo é que a fronteira com a Síria foi, apesar do “estado de guerra”, a mais segura de Israel – e uma mudança de regime em Damasco pode abalar essa tranquilidade.

Hama

Hama, bastião da Irmandade Muçulmana, depois de bombardeada, por ordem de Hafez al-Assad, em 1982; entre 30.00 e 70.000 mortos (este último número estimado por Rifaat, cunhado do antigo Presidente, que foi incumbido da missão de arrasar a cidade). @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Hama, bastião da Irmandade Muçulmana, depois de bombardeada e arrasada, por ordem de Hafez al-Assad, em 1982
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Em 1982, enquanto as atenções do mundo se concentravam na invasão israelita de Beirute, na Síria, o Presidente Hafez al-Assad, ordenou ao seu irmão, Rifaat, que arrasasse a cidade de Hama, reduto da Irmandade Muçulmana.

Hafez escapara por um triz a mais um atentado, e Rifaat seguiu à risca as suas directrizes. Aviões e carros de combate reduziram a cidade a escombros. Foram mortas entre 30 mil e 40 mil pessoas, segundo a Amnistia Internacional.

Ikhwan

@Associated Press /AP

© AP (Associated Press)

Fundada “entre os anos 1930 e 1940”, a Ikhwan al-Muslimun ou Irmandade Muçulmana, parte da maioria sunita, chegou a ser uma força parlamentar na Síria, em 1961, com dez deputados. Seria ilegalizada depois do golpe de 1963 que levou os laicos e socialistas do Partido Baas ao poder.

Com a ascensão dos Assad, em 1970, a Irmandade declarou guerra ao Presidente e tentou matá-lo várias vezes. Depois do massacre na cidade de Hama (ver H), em 1982, a liderança sobrevivente da organização refugiou-se em Londres e em Chipre.

Posteriormente, renegou a luta armada [entretanto retomada depois que a revolta popular de 2011 se transformou em guerra civil] , exortando à criação de um “sistema político democrático e pluralista”. A filiação na Irmandade continua a ser, porém, um crime punível com a pena de morte.

Judeus

A Jewish woman and a couple of Bedouins in Aleppo, 1873 ©

Uma judia (esq.) com um casal de beduínos, na cidade de Aleppo, em 1873
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Os judeus da Síria tinham duas origens: os que sempre habitaram o país e os que o país acolheu depois de terem sido expulsos de Espanha, em 1492. As suas principais comunidades ficavam em Aleppo, Damasco e Qamishli.

Com a criação do Estado de Israel, em 1948, muitos sentiram-se compelidos a emigrar, sobretudo para os Estados Unidos, América Central e do Sul.

Em 1992, o regime de Hafez al-Assad autorizou a que os 4000 judeus que restavam pudessem sair do país – na condição de não se instalarem em Israel. Actualmente, estima-se que  cerca de 750 mil judeus sírios vivam em Brooklyn; sendo desconhecido o número dos que ficaram em Damasco.

Kamal

Kamal Jumblatt, o líder druso do Líbano que Hafez al-Assad mandou assassinar, em 1977, quando ele se aliou a Yasser Arafat, da OLP, desobedecendo às ordens de Damasco, que controlou o país vizinho até 2004. @DR (Direitos Reservados| All Rights Reserved)

Kamal Jumblatt, que Hafez al-Assad mandou assassinar, em 1977, quando o líder dos drusos no Líbano se aliou ao palestiniano Yasser Arafat, desobedecendo às ordens de Damasco
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Em 1976, no auge da guerra civil no Líbano que durou até 1990, o líder druso Kamal Jumblatt decidiu afastar-se de Hafez al-Assad e aliar-se ao palestiniano Yasser Arafat. A fúria da “Esfinge de Damasco” aumentou quando o carismático Jumblatt criticou publicamente “a ingerência síria nos assuntos libaneses”.

Assad, que fazia e desfazia aliança com as 17 confissões religiosas libanesas à medida dos seus interesses, não tolerou a desobediência de Jumblatt e, a 16 de Março de 1977, o principal aliado de Arafat foi assassinado quando saía do seu castelo ancestral, em Mukhtara para Ba’qlin, a maior aldeia drusa nas Montanhas Shouf.

O filho de Kamal e actual líder druso, Walid Jumblatt, tem sido ora um aliado ora um crítico de Damasco, consoante a influência que o poderoso vizinho exerce no “País do Cedro”.

A Síria manteve cerca de 40 mil soldados e espiões no Líbano até 2005, quando protestos populares, após o atentado que matou o ex-primeiro-ministro Rafic Hariri, obrigaram Bashar al-Assad a uma retirada táctica.

Embora já tenha reconhecido oficialmente o Líbano como um Estado soberano, a Síria ainda é a ”potência dominante”, graças aos seus laços com o Hezbollah.

Latakia

@BBC

© BBC

Um dos sinais de alarme nos protestos populares na Síria foi quando a sublevação chegou a Latakia, a principal cidade portuária do país, com cerca de 400.000 habitantes.

Este é o bastião da dinastia Assad, habitado por 75% de todos os alauitas do país (até 1970 eles eram aqui a minoria, em relação aos sunitas e aos cristãos locais).

Mukhabarat

@ Cartoonist Ali Ferzat فنان الكاريكاتير علي فرزات

© Cartoonist Ali Ferzat فنان الكاريكاتير علي فرزات

Em 2005, cinco anos depois de Bashar al-Assad chegar ao poder, entregou a chefia dos temíveis serviços secretos sírios, conhecidos pela palavra árabe Mukhabarat, ao seu cunhado Assef Shawkat.

No mesmo ano, em Beirute, o ex-primeiro-ministro libanês Rafic Hariri, que se vinha distanciando de Damasco, foi assassinado num atentado bombista e as suspeitas (de planeamento, senão de execução) recaem, segundo a ONU, sobre o oficial sem posses que obrigou o Presidente a aceitar que ele se casasse com Bushra al-Assad a sua filha querida.

Em 2008, quando Imad Mugniyah, um dos mais perseguidos operacionais do Hezbollah, foi assassinado em Damasco – o sexagenário Shwakat ficou numa situação embaraçosa: o ataque foi uma indesculpável falha de segurança, mas isso não impediu que fosse nomeado vice-chefe das Forças Armadas e, em 2010, especulava-se que pudesse ser designado ministro da Defesa.

[Em 2011, quando começou a sublevação contra o regime que depois se transformou em guerra civil, Shawkat era, em conjunto com Maher al-Assad, um dos estrategas das ofensivas contra os rebeldes. Em Julho de 2012, Shawkat foi assassinado num atentado suicida que quase decapitou a cúpula do regime.]

Nasser

Gamal Abdel Nasser, o Presidente egípcio que era, simultaneamente, aliado e rival de Hafez al-Assad. Ambos foram os grandes derrotados da Guerra dos Seis Dias, contra Israel, em 1967. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Gamal Abdel Nasser, o Presidente egípcio que era, simultaneamente, aliado e rival de Hafez al-Assad. Ambos foram os grandes derrotados da Guerra dos Seis Dias, contra Israel, em 1967
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Em 1958, com o sentimento pan-árabe a crescer no Egipto e na Síria, os dois países, o primeiro liderado por Gamal Abdel Nasser, e o segundo por Shukri al-Quwatli, fundiram-se numa República Árabe Unida.

Não durou muito esta entidade, porque as ambições de Nasser eram incompatíveis com as de Hafez al-Assad, ambos interessados em dominar a região.

A maior aventura militar em que ambos se envolveram terminou num humilhante fracasso: na guerra de 1967, e em apenas seis dias, Israel conquistou à Síria todo os Montes Golã, e ao Egipto a Península do Sinai e a Faixa de Gaza.

Omíadas

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A mesquita omíada em Alepo, antes e depois (2013) de o seu minarete do século Xi ter sido destruído nos combates entre forças leais e hostis a Bashar al-Assad:s nenhum dos beligerantes assumiu responsabilidade. "Isto é o equivalente à explosão do Taj Mahal ou da Acrópole", lamentou Helga Seeden, professora de Arqueologia na American University of Beirut, citada pelo 'Mail Online'. @Getty Images

A mesquita omíada em Aleppo, Património da Humanidade, segundo a UNESCO, antes e depois de o seu minarete do século XI ter sido destruído durante combates, em 2013, entre forças leais e hostis a Bashar al-Assad. Nenhum dos beligerantes assumiu responsabilidade. “Isto é o equivalente à explosão do Taj Mahal ou da Acrópole”, disse Helga Seeden, professora de Arqueologia na American University of Beirut
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Primeira grande dinastia da histórica islâmica medieval, os Omíadas governaram a partir de Damasco, a sua capital, desde a morte do quarto califa sunita (primeiro imã xiita), Ali ibn Abi Talib, de 661 até 750.

Os Omíadas terão sido mais reis do que califas, devido ao seu alegado secularismo. Na Síria, esta dinastia dotou o Império Muçulmano de uma sólida estrutura administrativa, que lhe conferiu estabilidade. Desenvolveua urbanização e a vida social; foi a iniciadora da arquitectura muçulmana, como a esplendorosa Mesquita de Damasco.

Petróleo

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O petróleo era uma das principais indústrias e receitas (25%) Síria , que era o maior produtor (também de gás) no Mediterrâneo Oriental. Diariamente, o país produzia mais de 400 mil barris de petróleo, consumia 252 mil, exportava 115 mil e importava mais de 58 mil, segundo The World Factbook da CIA.

[Desde a guerra civil em 2011, refere a revista Forbes, a produção terá diminuído para 25.000 barris/dia. Os danos causados pelos combates às infra-estruturas foram avaliados em cerca de 20.000 milhões de dólares. O colapso é explicado neste relatório daU.S. Energy Information Administration.  

A maioria dos campos petrolíferos, designadamente os localizados em Homs e na região oriental junto às fronteiras com a Turquia e o Iraque, estarão sob controlo dos rebeldes. Estes estarão, supostamente, a exportar milhares de barris/dia para financiarem a luta armada, enquanto o regime, mesmo que tivesse esta capacidade operacional, não o poderia fazer por estar sujeito a sanções internacionais.]

Além disso, o Governo de Assad perdeu a maioria dos seus parceiros comerciais, como a Royal Dutch Shell ou a Total, da França. As únicas excepções, de acordo com a Forbes, parecem ser a Rússia e o Irão. Em Dezembro de 2013, a companhia SoyuzNefteGaz, de Moscovo, assinou um acordo com os Assad, com quem negoceia há mais de uma década, para explorar petróleo ao largo da costa síria. O maior accionista da empresa é o Banco Central da Rússia.  

O Irão, por seu lado, terá concedido à Síria crédito no valor de 3.000 milhões de dólares para facilitar a importação de petróleo e outros combustíveis. Aparentemente, Teerão venderá a Damasco cerca de 30.000 barris de petróleo, por dia, e ainda cerca de 10 milhões de barris, por ano, de gás liquefeito.]

Qabbani

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Nizar Tawfiq Qabbani continua a ser um dos maiores poetas, escritores e intelectuais árabes. Filho de um sírio e de uma turca, nasceu em 1923 em Damasco, onde fez todos os seus estudos.

Licenciou-se em Direito, em 1945, o que lhe permitiu também uma carreira de diplomata em várias cidades, de Madrid a Pequim. Frequentava ainda a faculdade quando publicou o seu primeiro livro de poemas, The Brunett Told Me, versos românticos com várias referências ao corpo feminino, o que abalou profundamente a sociedade da época.

A obra de Qabbani, muito centrada no amor e no erotismo, terá sido influenciada pelo suicídio da sua irmã, Wisal, aos 25 anos (tinha ele 15), depois de recusar um casamento arranjado. “O amor, no mundo árabe, é como um prisioneiro e eu quero libertá-lo – quero libertar o coração, a mente e o corpo árabes”, dizia.

Um revolucionário convicto e assumido (o pai, dono de uma fábrica de chocolates, participou na resistência contra o poder colonial francês), Qabbani deixou que a sua poesia fosse também impregnada de política.

Foi duramente crítico da “inferioridade” dos exércitos árabes face a Israel e solidário com os palestinianos. Morreu em 1998, de ataque cardíaco, em Londres, onde durante 15 anos escreveu poemas controversos, um deles, When Will They Announce the Death of Arabs? No final, cumpriram o seu desejo de ser sepultado em Damasco, a cidade que lhe ensinou “o alfabeto do jasmim”.

Refugiados

De país de acolhimento de refugiados palestinianos, a Síria tornou-se um país de onde a sua população foge agora para o Líbano, a Jordânia, o Iraque e a Turquia: a ONU calcula que o número de civis que procuraram refúgio nos territórios fronteiriços se aproximava do dois milhões em 2013. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

De país de acolhimento de refugiados palestinianos, a Síria tornou-se um país de onde a sua população foge agora para o Líbano (na foto), a Jordânia, o Iraque e a Turquia: a ONU calcula que o número de civis que procuraram refúgio nos territórios fronteiriços se aproximava do dois milhões em 2013
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A Síria era um dos países árabes que acolhia mais refugiados palestinianos do conflito com Israel e, desde a queda de Saddam Hussein, recebeu também milhares de iraquianos em fuga da guerra civil e confessional.

Se muitos palestinianos continuaram confinados a campos miseráveis e com direitos reduzidos, a presença dos iraquianos (uma minoria sunita que escapou de um país de maioria xiita) era uma permanente lembrança aos sírios do que lhes aconteceria se o regime alauita cair.

Sunitas

O casamento do alauita Bashar al-Assad e da sunita Asma Akhras foi visto como uma união de conveniência para reforçar a unidade de um país heterógeneo. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

O casamento do alauita Bashar al-Assad e da sunita Asma Akhras foi visto como uma união de conveniência para reforçar a unidade de um país heterógeneo
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A população síria (22,5 milhões de habitantes) é composta, predominantemente, por muçulmanos sunitas (74 por cento). Esta é também a corrente maioritária e ortodoxa do Islão a que pertence Asma (Akhras) Assad, a mulher do actual Presidente.

O casamento de Bashar al-Assad e Asma Akhras foi visto como uma união de conveniência para reforçar a unidade de um país heterógeneo. Asma, 35 anos (menos 10 que Bashar) nasceu em Londres, em 1975, filha de um cardiologista e de uma diplomata sírios.

Formou-se em Engenharia de Computação e trabalhava entre na firma de investimentos JP Morgan, prestes a concluir um MBA em Harvard, quando Bashar, estudante de Oftalmologia, foi chamado pelo pai, em 1994, para ocupar o lugar do seu irmão, Basel, um oficial militar e herdeiro designado que morreu num misterioso acidente de aviação na estrada Damasco-Beirute.

Como primeira-dama desde 2000, ano em que Hafez al-Assad morreu e Bashar lhe sucedeu, vencendo um “referendo” com 97 por cento dos votos, Asma tem adoptado um perfil discreto e ostentoso, dedicando-se a acções de caridade sem abdicar do luxo das vestes Chanel e imponentes sapatos Louboutin.

[Aparentemente, nem a guerra civil que eclodiu em 2011, depois de Bashar ter recusado reformas políticas, alterou os hábitos de luxo da primeira-dama. A sua insensibilidade face aos massacres atribuídos ao regime espantou muita gente e apanhou alguns desprevenidos. A revista ‘Vogue’  teve o azar de lhe dedicar uma capa, chamando-lhe “Rosa do Deserto”, quando a Síria estava já banhada em sangue.]

Telecomunicações

@ Cartoonist Ali Ferzat فنان الكاريكاتير علي فرزات

@ Cartoonist Ali Ferzat فنان الكاريكاتير علي فرزات

A corrupção no sector das telecomunicações é um dos factores de descontentamento que alimentou a revolta na Síria. Os tumultos em Deraa, por exemplo, visaram Rami Makhlouf, 41 anos, um primo do Presidente que, com a bênção do regime, retirou a um bilionário egípcio o controlo da Syriatel, o mais importante operador de telemóveis nacional.

Makhlouf é um empresário poderoso capaz de intimidar todos os potenciais concorrentes e obter contratos exclusivos que lhe permitiram erguer um império de negócios, extensivo aos sectores da banca, gás e petróleo (vinculado inclusive a companhias americanas, não obstante ter os bens congelados nos EUA).

União Soviética

O porto de Tartous (na foto, está atracado um navio iraniano) é a última base naval que a Rússia mantém no Médio Oriente. Isso, juntamente com contratos de vendas de armas de milhões de dólares tem explicado por que a Moscovo continua ao lado de Damasco apesar dos massacres atribuídos ao regime de Bashar al-Assad. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

O porto de Tartous (na foto, um navio iraniano) é a última base naval que a Rússia mantém no Médio Oriente. Isso, juntamente com contratos de vendas de armas de milhões de dólares tem explicado, em parte, por que a Moscovo faz tudo para segurar o regime de Bashar al-Assad
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Até ao fim da Guerra Fria, a Síria foi um dos principais aliados da União Soviética no Médio Oriente. No entanto, apesar de o colapso da URSS ter deixado Damasco em situação de orfandade, a Rússia ainda continua a fornecer-lhe o grosso do equipamento militar.

Em 2012, o valor dos contratos para a venda de armas russas à Síria ultrapassava os 4000 milhões de dólares. O porto de Tartous é também a última base naval que a Rússia mantém na região.

Vale dos Cristãos

Na Síria, o regime nacionalista tentou sempre evitar o uso de nomes geográficos que indicassem a origem religiosa dos habitantes de uma determinada região. Para realçar que “todos os árabes são iguais independentemente da sua fé”, o Vale dos Cristãos (Wadi al-Nasara) passou a designar-se Wadi al-Nadara (Vale em flor).

Aqui se situa uma das cidades mais emblemáticas, Maaloula, que foi, antes da guerra, um roteiro turístico obrigatório. O mesmo aconteceu com a Montanha dos Drusos (Jabal al-Duruz), mais conhecida por Jamal al’-Arab (Montanha dos Árabes).

Wannous

@Brahim El Guabli | Morocco World News

@Brahim El Guabli | Morocco World News

Dramaturgo sírio, Saadallah Wannous era um alauita com os Assad. Nasceu em 1941 e morreu em 1997. Estudou Jornalismo no Cairo e Teatro em Paris. No começo de carreira, início dos anos 1960, as suas peças, de um só acto, abordavam “a relação do indivíduo e da sociedade com o poder”.

Destroçado com a derrota árabe na guerra de 1967, na qual a Síria perdeu os Montes Golã, Wannous ajudou a fundar, em Damasco, o Festival Árabe das Artes do Teatro, introduzindo o conceito de “teatro da politização” em substituição do “teatro político”, com o objectivo de desencadear “um processo de mudanças sociais e políticas.

Em estado de choque depois da invasão israelita de Beirute em 1982, Wannous deixou de escrever durante uma década. Só voltou nos anos 1990 com uma peça sobre o conflito com Israel.

Em 1996, foi o primeiro árabe seleccionado pela UNESCO para assinalar o Dia Mundial do Teatro, que se celebra desde 1963, o ano em que a Síria instaurou o estado de emergência. A  sua peça  Elefante, o Rei de Todos os Tempos tem sido interpretada como uma profecia:

Actores em uníssono: esta é uma história. 

– Actor 5: e nós somos actores.

– Actor 3: representamos esta peça para aprendermos juntos as suas lições.

– Actor 7: sabem por que existem Elefantes?

– Actor 3: já sabam, agora, por que os elefantes se multiplicam?

– Actor 5: mas a nossa vida é só o início.

– Actor 4: quando os elefantes se multiplicam, outra história deve começar…

– Actores em uníssono: uma história sangrenta. Juntos, vamos representar essa história esta noite! 

Xiitas

Fatima Merhi, uma mãe xiita síria de 77 anos, deixa-se fotografar no seu refúgio no Líbani, junto de um quadro com a imagem do filho Radwan, um elementos das forças rebeldes morto em Damasco, em Maio de 2013. @Ruth Sherlock | The Telegraph

Fatima Merhi,  mãe xiita síria de 77 anos, deixa-se fotografar no seu refúgio no Líbano, junto de um quadro com a imagem do filho Radwan, um elemento das forças rebeldes morto em Damasco, em Maio de 2013
© Ruth Sherlock | The Telegraph

Os xiitas surgiram com o primeiro cisma do Islão, quando Maomé morreu sem deixar um herdeiro, deixando os crentes divididos entre o seu genro (Ali) e o seu sogro (Abu Bakr), que seria o primeiro califa. Ainda vistos como “hereges” pela maioria sunita, os xiitas cindiram-se em várias correntes, uma delas os alauitas.

Embora estejam mais próximos dos xiitas duodecimanos (que veneram 12 imãs) do Irão, a aliança entre Teerão e Damasco deve-se mais a considerações geopolíticas (são inimigos de Israel e aliados do Hezbollah no Líbano) e interesses económicos (dependência do petróleo) do que a motivos religiosos.

Em 1980-1988 quando o mundo árabe (à excepção do Sultanato de Omã, que se manteve neutral) decidiu apoiar Saddam Hussein na luta contra a República Islâmica do Ayatollah Khomeini, o então Presidente, Hafez al-Assad, optou por se aliar à teocracia dos Mullahs contra o Iraque secular e socialista.

Yasser

Trípoli (Líbia), 13 de Abril de 1980: os rivais Hafez al-Assad, Muammar Khadafi e Yasser Arafat, líderes da chamada Frente Árabe de Firmeza e Rejeição (criada contra Israel). @ CORBIS Images

Trípoli (Líbia), 13 de Abril de 1980: os rivais Hafez al-Assad, Muammar Khadafi e Yasser Arafat, líderes da chamada Frente Árabe de Firmeza e Rejeição (criada contra Israel)
© Corbis Images

Na luta pela liderança dos palestinianos destacaram-se dois grandes rivais: os defuntos Yasser Arafat e Hafez al-Assad que, juntamente, com o sobrevivente líbio Muammar Khadafi (os três na foto), formavam a chamada Frente Árabe de Firmeza e Rejeição.

A rivalidade entre Arafat e Assad era tão grande que o sírio não hesitou em usar os seus aliados xiitas da milícia Amal para travar uma guerra contra a OLP no Líbano.

A “guerra dos campos” em 1985 sacrificou tantas ou mais vidas (2500) do que os massacres de refugiados em Sabra e Shatila (entre 700 e 3000), depois da invasão israelita de Beirute em 1982.

Copiando as palavras de Golda Meir, o pai de Bashar al-Assad disse um dia a Arafat: “Não há um povo palestiniano, uma entidade palestina, há apenas a Síria e vocês são parte da Síria.” Várias facções dissidentes da OLP a direcção político-militar do movimento islâmico Hamas continuam a operar em Damasco, sob o beneplácito do regime.

Zabaniyah

Com o significado literal, em árabe, de “Guardas”, az-Zabaniyah foi como um grupo que se chamava a si próprio Mujahedin (Combatentes) classificava os prisioneiros sunitas que enchiam as cadeias sírias depois de uma série de tentativas de assassínio de líderes alauitas, após a intervenção síria no Líbano em 1976.

[Juan Cole, do blogue Informed Comment, refere-se a “Anjos encarregues do Inferno cujo líder se diz que é Malik”. E, com base no Hughes, Dictionary of Islam, cita um versículo do Corão ( xcvi, 17, 18): “Deixem-no reunir o seu Conselho: convocaremos os guardas do Inferno (az-Zahaniyah).”]

© Outside the Beltway

© Outside the Beltway

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 30 de Março de 2011 | This article, now revised and updated,  was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on March 30, 2011

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