O fim de Carlos foi o princípio de Bin Laden

O tempo de “glória” de Carlos, o Chacal chegou ao fim com a queda do Muro de Berlim, em 1989, para dar lugar à era de Osama bin Laden. Agora, que o chefe da al-Qaeda foi eliminado, pode uma “primavera árabe” vencer a “Jihad” global? O académico americano que escreveu a Enciclopédia do Terrorismo e um conselheiro de segurança do Governo de Israel explicam-nos o que une e distingue o venezuelano que matava para se financiar e o saudita que pagava para matar. (Ler mais | Read more…)

Carlos ficou indignado com o filme que tem o seu nome e escreveu uma carta ao protagonista (na foto): “Édgar, por que concordaste em ridicularizar uma verdade histórica? Por que participaste numa propaganda contra-revolucionária denegrindo o nome do mais famoso Ramírez? A lenda de Carlos é uma coisa e essa não me interessa nada. Podem atacar a lenda, mas há factos históricos que não devem ser transvestidos deste modo.” © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Carlos ficou indignado com o filme que tem o seu nome e escreveu uma carta ao protagonista (na foto): “Édgar, por que concordaste em ridicularizar uma verdade histórica? Por que participaste numa propaganda contra-revolucionária denegrindo o nome do mais famoso Ramírez?”
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Vladimir Ilich Ramírez Sanchez não gostou da forma como o realizador Olivier Assayas o retratou no filme Carlos. Nem mesmo o facto de o actor que lhe dá o corpo, o também venezuelano Édgar Ramírez, ter adicionado à lendária capacidade de sedução do outrora “terrorista mais perigoso do mundo” a beleza física que este jamais teve.

Da prisão de alta segurança de Clairvaux onde cumpre uma pena perpétua pelo assassínio, em 1975, de dois agentes secretos franceses e de um informador (ainda irá responder em tribunal por outros crimes que causaram quase 100 mortos até ser capturado em 1994), Carlos “O Chacal” (explicaremos adiante como surgiu e por que ele odeia este cognome), tentou primeiro influenciar o guião de 300 páginas.

Assayas recusou, alegando que jamais permitiria ingerência numa obra artística – neste caso, uma versão longa de cinco horas meia, exibida no recente Festival de Cannes, e outra com 2h45 que chegou às salas de cinema portuguesas [e entretanto já disponível em DVD].

Antes de instaurar um processo judicial contra os produtores, invocando “assassínio de carácter” e “violação do direito à presunção de inocência” (faltam vários julgamentos), Carlos interpelou o protagonista numa carta, citada pela AFP.

“Édgar, por que concordaste em ridicularizar uma verdade histórica? Por que participaste numa propaganda contra-revolucionária denegrindo o nome do mais famoso Ramírez? A lenda de Carlos é uma coisa e essa não me interessa nada. Podem atacar a lenda, mas há factos históricos que não devem ser transvestidos deste modo.”

Entre as imprecisões que Carlos denuncia, está a insinuação de que o sequestro de 11 ministros da OPEP, em Viena, em 1975 – a acção que mais lhe deu notoriedade – não foi ordenada pelo então Presidente do Iraque, Saddam Hussein, supostamente para obrigar os sauditas a aumentar o preço do petróleo e assim financiar uma campanha contra os curdos no Irão –, mas pelo coronel líbio Muammar Khadafi.

Carlos também não gostou de ver os seus guerrilheiros exibidos como “tipos histéricos de metralhadoras em riste a ameaçar pessoas”, porque “as coisas não aconteceram assim – eles eram profissionais, comandos de alta qualidade.” Outro erro inadmissível, em seu entender: “Desde 1969 que não fumo cigarros, só charutos [alguns deles, segundo um dos diálogos do filme, provenientes da ‘reserva pessoal de Fidel Castro’, em Cuba], e toda a gente sabe isso.”

Se Carlos pretendia poder de veto sobre a obra de Assayas (com a qual Édgar Ramírez ganhou um César), não se sabe se o que mais o irritou foi essa recusa ou outra impossibilidade: a de partilhar receitas de bilheteira que a sua história irá, eventualmente, render.

Esta é uma das exigências contida no processo que ele instaurou por intermédio da sua advogada e actual mulher, a francesa Isabelle Coutant-Peyre. “Sem Carlos, não havia filme”, justificou ela.

Quem é então esta figura que, desde os anos 1970, iludiu todos os serviços de espionagem até ser encontrado, em 1994, no Sudão, a recuperar de uma cirurgia aos testículos, enquanto se preparava para uma lipoaspiração, na mesma altura e no mesmo país onde Osama bin Laden já treinava milhares de jihadistas para desenvolver um terrorismo global?

Photo 2 - Carlos

Este é o homem que usava mil um disfarces até ser capturado em 1994, no Sudão. Recuperava de uma cirurgia aos testículos, enquanto se preparava para uma lipoaspiração
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Nascido em Caracas, em 12 de Outubro de 1949, filho de um influente advogado marxista e de uma católica devota, Ilich deve o nome ao pai, que quis deste modo homenagear o criador do Partido Comunista Soviético. Os dois irmãos mais novos de Carlos chamam-se, pelas mesmas razões, Vladimir e Lenine.

Criado num ambiente de fervor revolucionário na América do Sul, aos 10 anos, Ilich já fazia parte do movimento juvenil comunista na Venezuela. Aos 17, aprendia tácticas de sabotagem, manuseamento de armas e explosivos e métodos de guerrilha, num campo de treino próximo de Havana, sob a supervisão de “formadores” do KGB, a polícia política da URSS. Foi também em 1966 que os pais se divorciaram, ambos com objectivos diferentes para os filhos.

A mãe levou-os para Londres, onde os inscreveu na Stafford House College, em Kensington, e na London School of Economics. Em 1968, o pai tentou levá-los para a Sorbonne, em Paris, mas a decisão final foi a de os transferir para a Universidade de Patrice Lumumba, em Moscovo, de onde Carlos seria expulso dois anos depois.

Interrompemos aqui o percurso de Ilich pós-Moscovo, para reproduzir uma das passagens do “drama-acção-biopic” de Assayas que melhor define a personagem encarnada por Édgar Ramírez – um actor que se exprime em cinco línguas (castelhano, inglês, francês, alemão e árabe) e que engordou 13 quilos para uma maior parecença com Carlos, à medida que este se tornava mais alcoólico, mulherengo e ganancioso.

Namorada: Por que não apareceste na manifestação contra Pinochet [que derrubou o governo socialista de Salvador Allende no Chile]?.

Ilich: As manifestações não servem para nada. Há outros métodos. As palavras não nos levam a lado nenhum. Chegou a hora de agir.

Namorada: Que tipo de acção?

Ilich: Temos de nos comprometer.

Namorada: Com quê?

Ilich: Com a revolução!

Namorada: O que queres dizer? Acções clandestinas?

Ilich: Com a resistência. Formei um grupo.

Namorada: A luta contra o capitalismo pela via de guerrilha é romântica, mas está condenada ao fracasso. Não creio em combates desesperados. Não nos levam a lado nenhum. O equilíbrio de forças está contra nós.

Ilich: Isso é um mito.

Namorada. Não, é verdade! Olha para o Che [Guevara]. Acabou morto, apesar da sua experiência.

Ilich: Advogo uma luta internacionalista que una os revolucionários de todo o mundo. Olha como os vietcongs desgraçaram os gringos. Reduziram-nos a merda. Não digas que o equilíbrio de poderes está contra nós, porque não é verdade. A luta que proponho levar-nos-á à glória.

Namorada: À glória? É isso que queres? Ser admirado. Isso é arrogância burguesa escondida por trás de retórica revolucionária. És apenas um pequeno burguês egoísta.

Ilich: Refiro-me a uma glória verdadeira, ao prazer de fazer o nosso dever em silêncio. Por trás de cada bala que disparamos, haverá uma ideia, porque agiremos em harmonia com a nossa consciência. Dizes que sou arrogante? Acho que sim. Sou porque defendo os inocentes. Vais ouvir falar muito de mim. E mais: já não me chamo Ilich. Chamo-me Carlos.

O actor venezuelano Édgar Ramírez, "Carlos" no filme, ganhou um César, prémio do cinema francês. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

O actor venezuelano Édgar Ramírez, “Carlos” no filme, ganhou um César, prémio do cinema francês
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De Moscovo, em 1970, Carlos seguiu para Beirute, onde se ofereceu como voluntário à Frente Popular para a Libertação da Palestina, dirigida por George Habash, um médico cristão que, até à sua morte, em 2008, foi um dos maiores rivais de Yasser Arafat, o líder histórico da OLP, da qual a FPLP era a segunda maior facção, depois da Fatah.

A FPLP enviou Carlos para um campo de treino de fedayin (combatentes) na Jordânia e depois para uma escola militar iraquiana na fronteira com a Síria.

No filme, salvaguardado como “uma ficção”, devido às “zonas de sombra” que persistem, apesar de muito já se saber desde a abertura dos arquivos da antiga polícia secreta da Alemanha de Leste (a Stasi), o elo de ligação de Carlos com a FPLP era Wadie Haddad. Foi ele que o recrutou para, em 1973, matar Joseph Sieff, patrão dos armazéns Marks & Spencer e presidente da Federação Sionista Britânica.

Seria uma vingança pelo assassínio de Mohamed Boudia, o chefe da FPLP em Paris, cujo carro vai pelos ares logo na primeira cena – aparente retaliação da Mossad pelo massacre de atletas olímpicos israelitas em Munique, em 1972. Sieff ficou apenas ferido.

A FPLP, que queria “entrar na Europa para ser respeitada, porque os europeus também entraram no Médio Oriente”, ficou desiludida com Carlos. Isso não a impediu, todavia, de o encarregar de outras acções, como fazer explodir o Banco Hapoalim, em Londres, e as instalações de três jornais, todos ligados a Israel. Também terá sido chamado a participar em dois ataques falhados com rockets contra aviões da companhia aérea israelita El-Al, no Aeroporto de Orly, em 1975.

Foi precisamente em 1975, a 27 de Junho, que Carlos cometeu o crime pelo qual está agora na cadeia. Atraiçoado por um dos contactos da FPLP e, simultaneamente, informador dos serviços secretos franceses (DST), o venezuelano matou-o, juntamente com os agentes que, desarmados, o acompanhavam.

Conseguiu escapar, de novo para o Líbano, via Bruxelas, e assim começou, também, uma nova vida para o “playboy” (ou pin up, segundo Assayas). Uma vida de permanente fuga, disfarce e traição.

Magdalena Kopp mit Tochter Anna 1971 in Frankfurt

Carlos e Magdalena Kopp tiveram uma filha (ambas na foto), mas separaram-se. Ela, por quem ele travou uma “guerra privada”, não suportava uma vida de quase prisioneira
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Depois da matança em Paris, o namorado de uma ex-namorada de Carlos, Barry Woodhams, encontrou no apartamento de Londres do agora já famoso terrorista um saco de armas que entregou a um jornalista do Guardian, Peter Niesewand, por não confiar na polícia.

Ao inspeccionar o saco, o repórter viu um exemplar do livro O Dia do Chacal, de Frederick Forsyth, e julgou que era uma das leituras do perseguido. No dia seguinte, a primeira página do diário britânico referia-se, pela primeira vez, a “Carlos, o Chacal”.

Carlos irritou-se. O livro era de Woodhams, e “Chacal” era a alcunha de um impopular chefe da polícia na Venezuela. “Custou-me ter sido uma invenção do Guardian, o jornal que eu costumava comprar todos os dias”, admitiu posteriormente, ao Sunday Times.

De volta a Beirute, Carlos foi encarregado do ataque à sede da OPEP em Viena, em 21 de Dezembro de 1975, uma operação que na versão longa do filme dura uma hora. Envolveu seis atiradores e resultou em 60 reféns, três dos quais foram mortos.

Confrontado com a ameaça de execução de um cativo a cada 15 minutos, o Governo austríaco aceitou as exigências dos terroristas. Estes libertaram alguns dos sequestrados, mas levaram outros 42 para fora do país, a bordo de um DC-9.

Quando o avião aterrou em Argel e Carlos ouviu a proposta dos argelinos para poupar a vida do ministro saudita do Petróleo, Ahmad Zaki Yamani (contrariando a missão que a FPLP lhe confiara), a sua “solidariedade com os palestinianos” logo foi trocada por 20 milhões de dólares numa conta pessoal.

MIDEAST-ARAFAT-HABASH-HAWATMEH-PALESTINIAN

Carlos ofereceu-se como voluntário à FPLP, dirigida por George Habash (centro), um médico cristão que, até à sua morte, em 2008, foi um dos maiores rivais de Yasser Arafat (esq.), o líder histórico da OLP
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Ao justificar a decisão de não acatar as ordens, Carlos disse a Haddad: Eu sou um soldado e não um mártir. Quero manter-me um revolucionário vivo pela causa”. Haddad retorquiu: “Tu não tens causa. És a tua própria causa.” Em 1976, Carlos já não se juntaria ao Setembro Negro (um grupo da FPLP) que desviou um avião da Air France para Entebbe, no Uganda.

Este ataque marcou as primeiras cisões na entourage do Chacal quando um dos seus companheiros, o alemão Hans-Joachim Klein, ou Angie, decidiu abandonar a luta armada ao ver que dos 248 passageiros só foram libertados os que não eram judeus.

“Juntei-me à causa para lutar contra o sistema capitalista, não para semear o terror”, angustiou-se o apoiante da extinta organização de extrema-esquerda Baader-Meinhof. “Em Entebbe, os judeus foram separados como em Auschwitz. Anti-semitismo? Não contem mais comigo!”

Terminadas as ligações com a FPLP, Carlos deambulou pela Argélia, Líbia e Iémen, onde tentou fundar a Organização da Luta Armada, composta por libaneses, sírios e alemães da antiga RDA. A Stasi forneceu-lhe um escritório em Berlim com 75 funcionários, um carro particular e autorização para porte de arma em público.

Esta mordomia pagava uma série de atentados, um deles contra a Rádio Europa Livre, em Munique. (Fevereiro de 1981). Também vendeu os seus serviços ao ditador Ceausescu em Bucareste, que o encarregou de assassinar dissidentes romenos em França, e aos húngaros, que o deixaram viver num luxuoso bairro de Budapeste.

Em 1982, já casado com Magdalena Kopp, fotógrafa e activista alemã, Carlos levou a cabo “uma guerra privada” (incluindo a explosão de dois comboios) para forçar a libertação daquela que ela tratava por “minha vaca” (conta a própria na autobiografia, The Terror Years), quando as autoridades francesas a detiveram, num carro cheio de explosivos.

Carlos e Kopp tiveram uma filha, hoje com 25 anos, mas o casamento falhou. Ela não suportava uma vida de quase prisioneira, enquanto ele se divertia com outras mulheres, seduzindo-as, como era seu hábito com, revólveres e granadas, armas que ele considerava “extensões do corpo”.

Foi em Damasco, em 1989, que Carlos ficou a saber da queda do Muro de Berlim. Os anfitriões informaram-no: “Já não há um bloco socialista. O mundo mudou e a Síria quer encontrar o seu lugar na nova ordem mundial. Vocês tornaram-se demasiado visíveis e perigosos. Têm uma semana para deixar o país, depois não garantiremos mais a vossa segurança.” Um dos amigos de Carlos reconheceu: “Somos uma curiosidade histórica. A guerra acabou e nós perdemos.”

Da Síria, Carlos e a sua nova namorada, uma jovem estudante jordana, seguiram para o Sudão, na altura sob o domínio de Hassan Turabi, líder islamista protegido pelo Irão.

O facto de o país ser governado por um regime fundamentalista religioso não o impediu de continuar a dar festas extravagantes, com muito álcool e sexo. Mas o cerco apertava-se. A CIA descobriu o paradeiro do fugitivo e, não tendo ele agido contra alvos americanos, entregou-o aos franceses.

Da Síria, Carlos seguiu para o Sudão, em 1989, na altura sob o domínio do líder islamista Hassan Turabi (na foto). O facto de o país ser governado por um regime fundamentalista religioso não o impediu de continuar a dar festas extravagantes, com muito álcool e sexo © Reuters

Da Síria, Carlos seguiu para o Sudão, em 1989, na altura sob o domínio do líder islamista Hassan Turabi (na foto). O facto de o país ser governado por um regime fundamentalista religioso não o impediu de continuar a dar festas extravagantes, com muito álcool e sexo
© Reuters

Quanto é que o Sudão recebeu para que o seu hóspede indesejado fosse retirado abruptamente de uma cama de hospital em Cartum para uma prisão em França, em 1994? “Há muita coisa ainda por esclarecer”, diz-nos por telefone, Ely Karmon, conselheiro de segurança do ministro da Defesa de Israel e investigador em duas instituições de elite, o Institute for Counter-Terrorism e o Institute for Policy and Strategy no Interdisciplinary Center, em Herzilya.

“Certo é que o Sudão estava a ser muito pressionado, não só por acolher Carlos mas também Osama bin Laden que, naquela altura, já ali treinava milhares de jihadistas para a sua guerra global. O fim de Carlos foi como que o princípio de Bin Laden”.

“A grande diferença entre Carlos e Bin Laden é que o primeiro era, acima de tudo, um mercenário”, observou Ely Karmon. “Ele não era líder de nenhuma organização ou movimento. Os terroristas que se juntaram a ele também eram mercenários. Diziam que lutavam pela causa palestiniana, mas serviam sobretudo Estados. Bin Laden, pelo contrário, era o líder da al-Qaeda, uma união de islamistas, um herói para muitos muçulmanos que lhe reconheciam eficiência e legitimidade.”

A opinião do norte-americano C. Augustus “Gus” Martin, académico na California State University e autor da obra de referência The Encyclopedia of Terrorism, não é muito diferente da do israelita Karmon. “Carlos era uma personalidade excêntrica que adorava a atenção política e dos media. Embora cuidadoso em fugir às agências de segurança, usou a sua reputação de revolucionário clandestino para projectar uma imagem internacional de solidariedade revolucionária”, disse Gus Martin, por e-mail.

Bin Laden, por seu lado, “projectava-se como o rosto da resistência internacional para a sua causa e, ao contrário de Carlos, fê-lo como um organizador empenhado e comandante de um movimento revolucionário na clandestinidade. A personalidade e imagem de Bin Laden foram forjadas no campo de batalha, primeiro contra os soviéticos e depois contra os EUA e a NATO, enquanto as de Carlos eram o produto de uma escolha ideológica.”

“Esta é a diferença entre um símbolo da resistência nacionalista/marxista (Carlos) e um símbolo da jihad internacional (Bin Laden).”

Ideologicamente, adianta o académico, Carlos e Bin Laden “acreditavam que representavam a vanguarda de movimentos transnacionais que iriam mudar de forma indelével os equilíbrios de poderes mundiais – Carlos era um revolucionário internacionalista que se aliou a outros marxistas ocidentais e palestinianos nacionalistas que lutavam em nome dos ‘oprimidos do povo’.”

“Bin Laden organizou e comandou uma rede com o objectivo de impor a vontade de Deus aos governos no mundo islâmico. Os dois homens estavam convencidos de que a corrente da História estava do seu lado.”

Photo 7 - Carlos

Em termos tácticos, Carlos era um revolucionário que colaborava com “terroristas ideológicos, como a Fracção do Exército Vermelho, na Alemanha, ou terroristas nacionalistas, como a FPLP. Osama bin Laden não fazia alianças. Era um purista religioso que só colaborava com islamistas que partilhassem as ideias da al-Qaeda. O seu fundamentalismo era exclusivo e chauvinista.”
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Em termos tácticos, Carlos era “um revolucionário de coligações”, porque colaborava com “terroristas ideológicos como a Fracção do Exército Vermelho [na Alemanha] assim como com terroristas nacionalistas, como os da FPLP. Bin Laden não fazia coligações. Era um purista religioso que só colaborava com islamistas que partilhassem as suas ideias e as da al-Qaeda. O seu tipo de fundamentalismo era exclusivo e chauvinista.”

Inquirido sobre o tempo que demorou a encontrar estes dois maiores terroristas, Gus Martin lembra que Carlos, mercenário a contrato, e Bin Laden, um milionário que esbanjava dinheiro, operavam em ambientes que os protegiam. “Os seus apoiantes criaram redes insulares e ocultas que lhes permitiam desaparecer dos radares.”

“Carlos viveu entre camaradas marxistas durante o período histórico do confronto ideológico com o Ocidente e da revolução nacionalista num mundo em desenvolvimento. Bin Laden também beneficiava da solidariedade da internacional jihadista. Ambos podiam estar imersos nesses ambientes durante muitos anos.”

O ambiente protector de Carlos, acrescentou Martin, “desvaneceu-se quando as tensões ideológicas entre o Ocidente e o Leste desapareceram – o seu tipo de revolução só podia sobreviver enquanto os seus simpatizantes ocidentais fossem capazes de operar nos seus países respectivos (como a Itália e a Alemanha) e enquanto os seus aliados nacionalistas, como a FPLP, continuassem a ser viáveis na cena internacional.”

“Infelizmente, para Carlos, os revolucionários ocidentais foram derrotados por forças de segurança internas, e a FPLP perdeu credibilidade e força devido ao processo de paz entre Israel e a Fatah, e também devido à emergência de movimentos palestinianos religiosos, como o Hamas.”

“É possível que, com a morte de Bin Laden e a ‘Primavera Árabe’, o movimento jihadista internacional se encontre agora numa encruzilhada”, conclui Martin. “Nem Bin Laden nem a al-Qaeda previram que os seus piores inimigos – os governos autoritários do Médio Oriente – seriam desafiados por sublevações populares. É uma possibilidade remota, a de, no longo prazo, a ‘Primavera Árabe’ conduzir ao eclipse da al-Qaeda. No entanto, no curto prazo, o movimento jihadista internacional ainda é uma ameaça potente à estabilidade global.”

Ely Karmon concorda: “Politicamente, a al-Qaeda foi derrotada, mas o terrorismo não acabou, e o nosso mundo continua muito instável. Basta olhar para o Paquistão [potência nuclear] que tem partes do seu território sob controlo dos Taliban e dos jihadiistas.”

Carlos, notou o investigador israelita, percebeu a importância de Bin Laden quando, na prisão, se converteu à religião de Maomé: “Espanta-me que a autobiografia dele, Islão Revolucionário, só tenha sido publicada em francês, porque é um livro muito importante, no qual apela a todos os radicais, incluindo os de esquerda e ateus, que se juntem à al-Qaeda.”

“Carlos nunca foi um islamista [na Síria, Hafez al-Assad contratou-o para matar dirigentes da Irmandade Muçulmana, e isso vê-se no filme], mas entendeu muito rapidamente que os ventos estavam a mudar de direcção.”

Édgar Ramírez, venezuelano como Carlos, ganhou um César, prémio francês de cinema: no decurso do filme, exprime-se em cinco línguas (castelhano, inglês, francês, alemão e árabe); também engordou 13 quilos para uma maior parecença com o “mestre terrorista”, à medida que este se tornava mais alcoólico, mulherengo e ganancioso. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Édgar Ramírez, venezuelano como Carlos, ganhou um César, prémio francês de cinema: no decurso do filme, exprime-se em cinco línguas (castelhano, inglês, francês, alemão e árabe); também engordou 13 quilos para uma maior parecença com o “mestre terrorista”, à medida que este se tornava mais alcoólico, mulherengo e ganancioso
@DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Numa entrevista ao jornal pan-árabe Al-Hayat, o Chacal exprimiu “orgulho” pelas acções orquestradas pelo chefe da al-Qaeda, em particular os ataques de 11 de Setembro de 2010 nos Estados Unidos: “Segui os acontecimentos, sem interrupção, desde o início. Não consigo descrever o meu maravilhoso sentimento de alívio.” Em 2007, porém, em declarações ao Sunday Times, havia criticado os seguidores do “Sheikh Osama” como “amadores não organizados, sem alvos específicos, incapazes de fabricar explosivos de os fazer detonar.”

“Não sou sádico nem masoquista – não gosto do sofrimento dos outros”, adiantou depois dos atentados de Londres, a cidade onde viveu. “Quando tínhamos de eliminar alguém, era de uma maneira fria, simples e com o mínimo de dor possível.”

Em Maio último, quando a CIA eliminou o “inimigo número um da América”, próximo de Islamabad, Carlos emitiu um comunicado: “Osama bin Laden é um mártir que ganhou um lugar na História; será lembrado durante 100 anos, mas ninguém se recordará de Barack Obama”.

Por que foi do interesse da França prender e julgar Carlos e os EUA optaram por matar Bin Laden? “Carlos já não tinha a protecção nem a admiração de ninguém”, respondeu Ely Karmon. “Bin Laden, pelo contrário, contava com o apoio dos Taliban no Afeganistão, das tribos e, possivelmente, de uma parte do aparelho de segurança paquistanês.”

“A sua prisão seria um imbróglio jurídico na América. Seria julgado num tribunal militar ou civil? Iria para Guantánamo? Não haveria o risco de tomada de reféns para exigir a libertação de um mártir? Ainda hoje, no Japão, o autor de um atentado com gás sarin no metro de Tóquio, preso e três vezes condenado à morte, continua a atrair seguidores.”

Morte não era certamente o que Carlos desejava para si, e deixou isso bem claro numa rara entrevista que deu ainda no seu tempo de fugitivo e a qual é reproduzida no filme de Olivier Assayas: “Eu amo a vida e, por isso, gosto de a viver plenamente. Para mim, como para qualquer soldado, não há amanhã.”

Carlos pretendia poder de veto sobre o filme de Olivier Assayas mas este recusou, e ele instaurou um processo judicial, por intermédio da sua advogada e actual mulher, a francesa Isabelle Coutant-Peyre. “Sem Carlos, não havia filme”, justificou ela (na foto). @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Carlos pretendia poder de veto sobre o filme de Olivier Assayas mas este recusou, e ele instaurou um processo judicial, por intermédio da sua advogada e actual mulher, a francesa Isabelle Coutant-Peyre. “Sem Carlos, não havia filme”, justificou ela (na foto, ambos numa sessão do tribunal )
© Associated Press (AP)

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 3 de Junho de 2011 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on June 3, 2011 

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