O futebol na Líbia já não é um jogo de morte

Fosse a entrevista uma partida de futebol e Djamal Mahamat teria sido eleito o melhor médio-defensivo em campo. O jogador do Sp. Braga orgulha-se de integrar a “mais unida” selecção da Líbia, mas não condena Khadafi. (Ler mais | Read more…)

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© Paulo Pimenta

O porte altivo de Djamal Mahamat, 188 cm, combina com a majestade do estádio do Sporting de Braga, um dos mais belos do mundo. Na “Pedreira”, como é conhecida a obra de arte que ajudou o arquitecto Souto de Moura a ganhar o Pritzker, o jogador nascido em Trípoli mostra-se duro como uma rocha quando confrontado com a descrição de que só no Iraque de Saddam Hussein o futebol era um desporto mais sanguinolento do que na Líbia de Muammar Khadafi.

“Eu nunca tive medo de jogar na Líbia”, assegura Djamal, médio-defensivo que ajudou o Beira-Mar a subir à primeira divisão e depois foi levado pelo treinador Leonardo Jardim para o Sp. Braga, em 2011.

“Sim, no tempo do antigo presidente [Kadhafi], os jogadores recebiam presentes quando ganhavam, mas nunca foram castigados por perderem. Os jogos lá não eram muito diferentes do que são cá, e nem tudo o que se diz é verdade. Eu sei porque conheço bem o país!”

E o que é que se diz? Antes do encontro com Djamal, dois dias antes de ele completar 29 anos, a 26 de Abril, ouvimos James M. Dorseysenior fellow no National University of Singapore’s Middle East Institute, jornalista desportivo e autor do blogue The Turbulent World of Middle East Soccer.

“Na Líbia e no resto do Médio Oriente só havia dois lugares para libertar a fúria popular contra os ditadores: a mesquita e o estádio; e o futebol tornou-se numa segunda religião”, afirma o investigador.

“Na perspectiva do governante, era preciso controlar esses espaços, controlar a paixão que ali era expressa. Khadafi, que proibiu todos os desportos quando ascendeu ao poder em 1965, via o futebol como uma ameaça ao seu culto de personalidade. Os jogadores não podiam ser mais populares do que o líder, porque só este podia representar a identidade nacional líbia.”

Khadafi, adianta Dorsey, “só deu espaço ao futebol quando o seu terceiro filho, Al Sa’adi, se quis afirmar neste mundo. Mas era um mundo onde jogadores e árbitros se movimentavam com medo. Uma lei decretou que o único jogador que podia ser mencionado pelo nome era S’adi, os outros eram pelo número da camisola.

Por causa das ambições de Sa’adi, as vitórias ou derrotas do seu Al-Ahly SC [Clube do Povo] de Trípoli, e da selecção nacional, eram um barómetro do êxito ou fracasso do regime. Muitos jogos foram manipulados e árbitros subornados, para garantir que a equipa de Sa”adi ganhava. E porque um outro filho, Muhammad, apoiava o Al-Ittihad, o maior clube da capital, Khadafi usava muitas vezes os “clássicos” entre estas equipas para colocar um filho contra o outro, na procura do melhor sucessor.”

Dorsey lembra-se de um “jogo de alta tensão” em 1996, na final da taça, quando o Al-Ittihad e o Al-Ahly se defrontaram, com Muhammad e Sa’adi na bancada VIP a torcerem pelas respectivas equipas. O resultado final foi 1-0, a favor do Al-Ahly. Segundo o diário britânico Telegraph, o relvado encheu-se de milicianos pró-Saadi que começaram a disparar. Morreram 20 pessoas e os dois clubes foram suspensos.

Musbah Shengab, que era guarda-redes do Al-Ahly, fugiu para Malta e só regressou para a época de 1999-2000. Quando chegou, ficou surpreendido. “Sa’adi era um ala, embora jogasse em todas as posições que lhe permitissem estar em vantagem”, contou. “Ele era o filho do líder, jogar com ele não era jogar com qualquer outro. Não se pode dizer que jogasse em equipa.” Essa época terá sido gloriosa para Saadi. O Al-Ahly ganhou a liga e os jogadores foram recompensados com carros de luxo e dinheiro.

Em 2000, o descontrolo foi total quando o Al-Ahly de Trípoli jogou contra o Al-Ahly de Bengazi – a cidade-berço da revolução. Sa’adi assistia ao jogo na presença de dignitários estrangeiros, quando adeptos de Bengasi fizeram desfilar um burro com as cores da equipa do filho do coronel.

No mesmo ano, o estádio do Al-Ahly de Bengasi foi arrasado por escavadoras e o clube foi banido até 2005. Dorsey, o blogger, conta que houve rusgas casa a casa, pelo menos 80 pessoas foram presas e cinco condenadas à morte, embora nenhuma tenha sido executada, por ordem do “guia”, que afastou o filho da liderança da federação de futebol.

No Médio Oriente, Dorsey só compara o futebol líbio no domínio de Khadafi ao futebol iraquiano sob Saddam. Nessa altura, quando Uday Hussein, um dos filhos do tirano, monopolizava todos os cargos desportivos, incluindo o de presidente do comité olímpico, os jogadores que perdiam “arriscavam-se a ser decapitados em pleno relvado”.

Tanto no Iraque como na Líbia, “o prestígio do regime jogava-se em campo, por isso, não é de estranhar que a selecção nacional líbia tenha demorado tanto tempo a passar para o campo da resistência.”

Em Junho de 2011, 17 futebolistas, um deles o guarda-redes da selecção, Juma Gtat, juntaram-se aos rebeldes do Conselho Nacional de Transição, agora no poder, proclamando a vontade de criar “uma nova Líbia”. Essas deserções foram consideradas um duro revés para Khadafi.

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© Paulo Pimenta

Perante este retrato, Djamal Mahamat esboça um sorriso incrédulo, agitando nervosamente as pulseiras e o relógio: “Não acredito!”, sublinha o atleta, filho de um diplomata e de uma feirante naturais do Chade.

O jogador do Braga confirma que a selecção “estava dividida entre os que gostavam e os que não gostavam do presidente” e admite que as deserções se ficaram a dever à realidade de “alguns jogadores terem perdido familiares quando começou o problema” – o modo como se refere à revolução.

Mas ressalva: “Não foram só os que não gostavam do presidente que tiveram familiares mortos; também morreram familiares dos que gostavam do Presidente.”

Hoje, garante Djamal, a selecção “está unida”, cada um guardando para si as preferências políticas. “O futebol supera tudo. Os jogadores que eram a favor do antigo Governo escolheram o silêncio e continuam a jogar. Não vão mudar de lado. Vão acomodar-se.” Ele, por exemplo, não tem vergonha de dizer que “tolerava o regime”, mas logo vinca: “Sempre estive “no meio – o meu interesse era apenas o futebol”.

A Interpol emitiu um red notice para a captura de Saadi, neste momento refugiado no Níger depois de ter sido um implacável comandante militar em Bengazi, por alegada apropriação de bens pela força e intimidação quando dirigia a Federação Líbia de Futebol.

Segundo James Dorsey, o Conselho Nacional de Transição também está a investigar o filho de Khadafi pela morte de Basheer Al-Ryani. Conhecido como “jogador número 9”, terá sido torturado e deixado sem vida à porta de casa, em 2005, depois de, como treinador do clube de Sa”adi, o ter desafiado, acusando-o de fazer parte de “uma ditadura que corrompeu a Líbia”.

Djamal tem outras memórias: “Ele [Sa’adi] era um tipo normal. Conhecia-o, mas não era meu amigo pessoal. Falámos várias vezes nos treinos e nos jogos. Era uma pessoa correcta, que nos respeitava. Quando a selecção ganhava, oferecia-nos presentes, mas não nos castigava, se perdíamos. Não havia pressão para vencer. Jogávamos à vontade. Se eu fosse castigado, estaria aqui no Braga? Nunca um jogo foi uma derrota para o regime. Nunca joguei com medo de Khadafi.”

Quanto às qualidades desportivas do filho de Khadafi – Dorsey descreve Saadi como “o jogador que pagava para jogar” – Djamal não hesita na avaliação: “Era o número 10, esquerdino, e não era forte. Não era um [Lionel] Messi, não tinha grande nível, mas colocava dinheiro nos clubes, sobretudo em Itália.”

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© Paulo Pimenta

Khadafi escreveu no seu Livro Verde que qualquer desporto tinha de ser “uma actividade social para as massas” e mandou gravar no estádio de Bengazi a inscrição “O futebol e as armas pertencem ao povo”, mas Djamal nega que o líder considerasse os jogadores uma ameaça à sua popularidade.

“Um jogador famoso tem todo o mundo à sua volta, para tirar fotos, pedir autógrafos. Todos os miúdos querem ser futebolistas. Todo o mundo gostava do Presidente, ele não precisava do futebol para ser famoso.”

Se todo o mundo gostava, como justifica Djamal a revolução que derrubou e matou Khadafi? “Ele fez coisas boas. Construiu hospitais, por exemplo, com serviços gratuitos. As pessoas só pensam nas coisas más. O importante, agora, é que haja eleições para escolher quem vai governar. Não me interessa a política – só o futebol!”

O trinco do Braga, que havia jogado na selecção durante o reinado de Khadafi, voltou a ser convocado para o Campeonato Africano das Nações (CAN), em Janeiro deste ano. A Líbia perdeu o primeiro jogo contra a Guiné Equatorial, empatou o segundo (frente à Zâmbia) e ganhou o terceiro ao Senegal.

Ao regressar a Braga, em Fevereiro, Djamal viu o seu lugar ocupado por Custódio. Mas compreendeu a decisão do treinador: “A equipa estava a ganhar e ele não quis mexer.”

Foi Marcos Paquetá, o seleccionador da Líbia, quem percebeu as capacidades de Djamal para integrar a nova equipa nacional, ainda ele jogava no Beira-Mar. O brasileiro tem destacado a forma aguerrida com que os jogadores, agora com um equipamento branco, cantando um novo hino nacional perante uma nova bandeira, encaram os jogos.

“Estão inspirados pela revolução e sentem-se mais livres.” Djamal concorda que os jogadores líbios se sentem mais motivados, mas atribui o entusiasmo à nova metodologia que Paquetá introduziu.

“No passado, os jogadores eram mais individualistas, mas Paquetá está a fazer com que todos joguem como um colectivo. O facto de ele ter ido buscar jogadores à Europa também ajudou. A maioria nunca tinha saído da Líbia. Agora, está a mostrar o que é o futebol europeu e o brasileiro. E muitos jogadores querem ganhar para ver o povo feliz, depois de tantos mortos.”

Um rebelde líbio joga à bola num cenário de guerra, em 2012. © Philippe de Poulpiquet | Photographie.com

Um rebelde líbio joga à bola num cenário de guerra, em 2012
© Philippe de Poulpiquet | Photographie.com

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 1 de Maio de 2012 | This article was originally published in the newspaper PÚBLICO, on May 1, 2012

Ele perdeu quase tudo mas perdoou o “inimigo”

A ocupação israelita matou-lhe o avô, o pai e dois cunhados, mas o palestiniano Osama Abu Ayash, nascido um ano antes da guerra de 1967, recusou o caminho da vingança.  (Ler mais | Read more…)

Aos 46 anos, Abu Ayash é um dos membros mais activos do Parent Circle-Families Forum (PCFF), organização que junta palestinianos e israelitas que perderam familiares próximos num dos principais conflitos do Médio Oriente. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Abu Ayash é membro do Parent Circle-Families Forum (PCFF), organização que junta palestinianos e israelitas que perderam familiares próximos num dos principais conflitos do Médio Oriente
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Há um “momento especial” na vida do palestiniano Osama Taleb Abed El Magid Abu Ayash que o fez escolher a reconciliação e não a vingança, depois das mortes do seu avô, pai e dois cunhados, “mártires da ocupação”.

Há uns dez anos, estava ele em casa de uma irmã quando conheceu o judeu israelita Rami Elhanan. Ficou espantado ao ouvi-lo falar de paz depois de a sua filha de 14 anos ter sido vítima de um atentado bombista. “Abraçámo-nos um ao outro e chorámos.”

“Impressionou-me a força das suas ideias e do seu carácter”, disse-nos Abu Ayysah, numa entrevista por telefone, ajudado pelo amigo Ibrahim Salaoui, que serviu de intérprete, já que o motorista de camião com um mestrado em Psicologia é fluente em árabe e em hebraico mas não se exprime bem em inglês. “Achei que devia juntar-me a Rami na procura da coexistência. Tinha de me comprometer.”

Aos 46 anos, Abu Ayash é um dos membros mais activos do Parent Circle-Families Forum (PCFF – ver vídeo abaixo), organização que junta palestinianos e israelitas que perderam familiares próximos num dos principais conflitos do Médio Oriente.

A sua mais recente missão era ir a escolas dar a conhecer “o rosto dos árabes”, mas o Ministério da Educação, pressionado por grupos direitistas, proibiu-o há quatro meses de falar nos liceus e universidades, alegando que o seu discurso é “demasiado político” e que é “inadmissível a comparação entre o sofrimento de ‘terroristas’ e o dos civis israelitas”.

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O homem que modificou a vida do palestiniano Osama Abu Ayash é o israelita Rami Elhanan, que faz parte do PCFF e perdeu Smadar, a filha de 14 anos (ambos na foto) num atentado suicida. A menina era neta de Matti Peled, venerado como “general da paz”
© Rami Elhanan

Não sendo homem para baixar os braços — quando perdeu o emprego decidiu cultivar a pequena horta junto à sua casa, em Beit Ummar, perto de Hebron, na Cisjordânia, sobre- vivendo dos produtos agrícolas que vende —, Abu Ayyash não se importa de enfrentar diariamente longas filas de espera nos checkpoints, para dar a conhecer a sua história, agora só nas escolas primárias de Israel.

Orgulha-se de ter conseguido ir mais longe, ao entrar em quartéis, com a ajuda de dois amigos judeus israelitas do PCFF, tentando sensibilizar os jovens soldados que ser-vem nos territórios palestinianos.

Ser um pacifista não tem sido missão fácil para Osama Abu Ayash, nascido em 11 de Fevereiro de 1966, um ano antes da humilhante derrota imposta por Israel aos exércitos árabes ao conquistar, na Guerra dos Seis Dias, a Cisjordânia e Jerusalém Leste, aos jordanos, a Faixa de Gaza e a península do Sinai, aos egípcios, e os Montes Golã, aos sírios.

“Eu tinha apenas um ano quando fomos forçados a procurar refúgio numa gruta que havia na terra que os nossos antepassados habitavam desde há um século. Foi traumático, para mim, como tinha sido para o meu pai, quando o meu avô morreu, a 12 de Maio de 1948”, na guerra que se seguiu à criação do Estado de Israel.

De coração fraco, o pai de Abu Ayash nunca recuperou do choque. Em 1975, tinha o filho sete anos, sofreu um segundo ataque cardíaco, forçando a mulher a sustentar sozinha uma família de cinco filhos e três filhas. Em 1983, morreu a caminho do hospital, depois de o exército o ter retido num posto de controlo “durante horas num duro e inexplicável interrogatório”.

Seguindo o lema “Conhecer é o início”, membros do PCFF, judeus e muçulmanos, visitam o Yad Va Shem Memorial do Holocausto, em 2007 © mepeace.org

Seguindo o lema “Conhecer é o início”, membros do PCFF, judeus e muçulmanos, visitam o Yad Vashem Memorial do Holocausto, em 2007
© mepeace.org

Órfão aos 17 anos, Ayash teve de abandonar a escola para trabalhar e poder comprar uma máquina de costura eléctrica que permitisse à mãe um complemento financeiro. Voltou a estudar assim que lhe foi possível, combinando as aulas com um emprego em part-time. Concluiu com êxito um mestrado em Psicologia, mas nunca arranjou emprego na área da sua formação.

“A minha situação complicou-se quando fui preso sem julgamento, pelo menos três vezes, a última em 1990”, contou Ayyash. “Suspeitavam de que eu tinha disparado sobre colonos judeus mas eu era inocente, e até descobrirem isso os agentes do Shin Bet [segurança interna] usaram vários métodos de tortura, desde choques eléctricos a imersão em água quente e gelada, além da privação de ir à casa de banho, o que foi humilhante. Pediram-me desculpa mas não esqueço o sofrimento por que passei nesse período.”

Em 2002 e 2003, respectivamente, mais dois golpes foram desferidos: os cunhados Kamal, de 20 anos, e Tayseer, de 21, foram abatidos a tiro por soldados que os perseguiam por serem “militantes da resistência”. Eles haviam recorrido à violência depois de terem sido brutalmente espancados por militares quando eram crianças — um deles tinha apenas dez anos, “quando foi largado numa rua, sem sentidos”.

Embora revoltado, Ayash empenhou-se para que a sua mulher, Sara, com quem se casou em 1992, não albergasse o mesmo sentimento de vingança que levou os cunhados a andarem armados. Isso não impediu, porém, que um dia, ao visitar uma irmã, tivesse reagido mal ao ver à porta um carro com matrícula israelita [amarela, para se distinguir das que circulam nos territórios palestinianos].

Como é que ela “ousara acolher judeus que derramaram sangue da nossa família?”, indagou Abu Ayyash, pai de um rapaz e quatro raparigas. A irmã convidou-o a entrar e explicou-lhe que o visitante, Rami Elhanan, tinha perdido a sua filha num ataque terrorista. “Ele apresentou-me ao PCFF. Foi muito gentil. Percebi que a minha dor não era maior do que a dele. Convenci a minha mulher de que também havia judeus israelitas bons.”

O PCFF, do qual fazem parte actualmente mais de 600 famílias, foi criado em 1988 por Yitzhak Frankenthal. As primeiras reuniões, lê-se no site da organização, começaram em 1988 depois de um grupo de palestinianos de Gaza ter aceitado o desafio de procurar alívio junto de famílias israelitas enlutadas, “através do diálogo e da tolerância”.

"Knowing is the Beginning" - PCFF members visiting a village which existed before 1948 , called Ekbeba. (2007) © mepeace

Projecto Knowing is the Beginning (Conhecer é o início): Membros do PCFF, incluindo o fundador, Yitzhak Frankenthal (dir.), visitam uma aldeia palestiniana que deixou de existir após a criação do Estado de Israel em 1948
© mepeace.org

A ligação a Gaza foi interrompida depois da segunda intifada em 2000, ano em que este processo lenitivo passou a incluir palestinianos da Cisjordânia e Jerusalém Leste. A associação, registada oficialmente, tem dois escritórios- sede: em Al-Ram, na Cisjordânia e em Ramat E’fal (Telavive).

“A princípio, quando comecei a ir às escolas, havia alunos que ficavam espantados”, revela Abu Ayash. “Um rapaz disse-me que pensava que os árabes tinham caudas como os burros — nunca tinha visto um árabe! Aos poucos, estes miúdos entendem o sofrimento dos palestinianos, e vêem que não há alternativa à paz e à coexistência; o mesmo se passa nas escolas palestinianas visitadas pelos judeus israelitas do PCFF.”

Inquirido sobre se esta pertença ao PCFF não faz com que em Hebron e em Nablus (onde estudam as suas quatro filhas, a 120 quilómetros de distância de casa), cidades de grande fervor revolucionário, seja olhado como “colaboracionista”, Abu Ayash assegura que não. E Ibrahim, o amigo que assiste na tradução, enfatiza: “Todos o respeitam, e muita gente aqui tem amigos israelitas; também sou a favor de uma solução de dois Estados.”

Das “aulas” nas escolas israelitas, Ayash evita falar das más experiências. Prefere concentrar-se nas que lhe deixam boas recordações. Lembra-se, por exemplo, de estar num liceu em Sderot, na “fronteira” com a Faixa de Gaza, em 2007, quando milicianos do Hamas começaram a lançar rockets sobre a cidade.

“De repente, apercebi-me de que os alunos gritavam uns para os outros uma password, que eu não entendia, e começaram a correr, deixando-me sozinho no pátio. Estava eu ali perdido, quando um grupo veio ter comigo, agarrou-me e conduziu-me para o abrigo. Perguntei o que estavam eles a fazer, e responderam-me: ‘Temos de te proteger. Não vês que podes morrer?’ Fiquei muito emocionado.”

“A minha tarefa não é fácil mas também não é impossível”, conclui. “Acredito na paz e agarro a oportunidade de a construir.”

Este artigo, revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 22 Abril de 2012 | This article, revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on April 22, 2012

Ir ao fundo do mar (e voltar) é um sonho

A que corresponderia hoje uma viagem no Titanic? Talvez dez minutos no espaço a ver brilhar as estrelas; um mergulho no ponto mais escuro do oceano; um cruzeiro transatlântico ou à volta do mundo. Um século após o naufrágio do “navio inafundável”, o sonho de uma vida continua a superar o medo da morte. (Ler mais | Read more…)

O Titanic tinha a dimensão de quase três campos de futebol e pesava 52.310 toneladas
© britannica.com

A construção do Titanic – que envolveu 3000 trabalhadores dos estaleiros Harland & Wolff, em Belfast, Irlanda – custou 7,5 milhões de dólares (a título de curiosidade o filme de James Cameron de 1997, com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, teve um orçamento de 200 milhões)
© Getty Images

Mais de 100 mil pessoas assistiram ao lançamento ao mar do Titanic, em Belfast, Irlanda, no dia 31 de Maio de 1911
© Getty Images

Porque tem 44 anos e “a esperança de vida é cada vez maior”, Mário Ferreira não quer morrer sem ir à Lua e aqui ficar alojado “num resort”. Até lá, prepara-se para um voo suborbital – o primeiro cliente português entre os 86 pioneiros do projecto turístico espacial da Virgin Galactic.

Antes disso, aguarda a inauguração de um hotel subaquático no emirado árabe do Dubai, onde tenciona passar uma semana no interior de uma cápsula.

Para o homem que fundou a empresa Caminho das Estrelas, estes planos “podem ser comparados” aos dos passageiros que há 100 anos embarcaram no Titanic: para os mais ricos, era um sonho; para os mais pobres, o meio de chegar a um sonho.

Com divisórias interiores semelhantes às do Palácio de Versalhes, o Titanic foi concebido para ser o mais luxuoso e superior paquete na época, dirigido em particular ao segmento das elites que precisavam de se deslocar da Europa à América pelo menos uma vez por ano.

A sua construção – avaliada em 7,5 milhões de dólares – começou em 1909 e ficou concluída três anos depois. A 10 de Abril de 1912, o colosso que a companhia White Star proclamara “inafundável”, partiu de Southampton (Inglaterra), com destino a Nova Iorque, levando a bordo mais de 2200 pessoas.

A primeira classe acomodava algumas das personalidades mais ricas e influentes do mundo; na segunda e terceira classe, estavam os menos abastados, centenas deles emigrantes.

No dia 14, cerca de 600 quilómetros a sul da Terra Nova (Canadá), às 23h40 locais, o navio colidiu com um icebergue.

Duas horas e 40 minutos depois, partiu-se ao meio e afundou-se a partir da proa. Balanço: 1517 mortos (a maioria de hipotermia, não por afogamento) e 710 sobreviventes.

A 10 de Abril de 1912, o Titanic partiu com destino a Nova Iorque, levando a bordo, segundo várias estimativas, mais de 2200 pessoas – só 32% sobreviveram. Tinha 835 tripulantes, apenas 23 dos quais mulheres. A primeira classe acomodava algumas das personalidades mais ricas e influentes do mundo; na segunda e terceira, estavam os menos abastados, centenas deles emigrantes
© National Museum of Northern Ireland

Com divisórias interiores semelhantes às do Palácio de Versalhes em França, e inspirado no Hotel Ritz em Londres (inaugurado em 1906, ainda está em funcionamento), o Titanic foi concebido para ser o mais luxuoso e superior paquete na época. Dirigia-se, em particular, às elites que precisavam de se deslocar da Europa à América pelo menos uma vez por ano
© Getty Images

Com os mecanismos de segurança que existem agora, desde satélites a GPS, a tragédia do Titanic teria sido, provavelmente, evitada, diz-nos Fernando Borges, assessor de imprensa da Melair, representante internacional da Royal Caribbean International (22 navios) e da Celebrity Cruises (10 navios).

“Só para ter uma ideia: um comandante pode avistar a 30 quilómetros de distância o tamanho de uma onda”.

Uma das jóias da coroa da Royal Caribbean e o que mais vezes visita Lisboa por ano (para 2012 estão programadas 12 escalas) é o Independence of the Seas, da classe Freedom que, a par do seu irmão gémeo Liberty of the Seas, é “o maior navio de cruzeiro do mundo a navegar na Europa”. Os maiores (40 por cento superiores) em estrutura operam só nas Caraíbas.

Com 268,8 metros de comprimento, 28,2 de largura, 41 mil toneladas e capacidade máxima de 899 tripulantes e 2208 passageiros, o Titanic jamais competiria com a “cidade flutuante” que é o Independence of the Seas.

Tem 339 metros de comprimento; 56 de largura; 160 mil toneladas; capacidade para 3634 passageiros e 1400 tripulantes (oriundos de 65 países); 733 camarotes interiores, 240 exteriores com vista de mar e 844 com varanda, alguns com 140m2, permitindo alojar uma família de 14 elementos.

O comprimento equivale a cinco Boeing 747 (só a Promenade, uma zona central de lojas, restaurantes e bares é do tamanho do novo Estádio de Wembley).

Pesa o equivalente a uma manada de 32 mil elefantes adultos. Distribui-se por 15 decks com casino (com 308 slot machines e 19 mesas de jogo). Tem teatro (1350 espectadores, mais do que o Piccadilly Theatre, em Londres).

Tem ainda pista de patinagem no gelo, ringue de boxe, discoteca com 2 pisos, piscina com simulador de ondas para prática de surf e bodyboard, 4 jacuzzis (dois suspensos a 34 m sobre o mar), campo de basquetebol, parede de escalada, campo de minigolfe de 9 buracos, solário, spa (com 17 salas de tratamento), fitness center, cabeleireiro, biblioteca, capela para casamentos, sete restaurantes, e ainda um infantário.

O Titanic tinha o seu próprio jornal, The Atlantic Daily Bulletin, que era impresso todas as noites na Sala das Máquinas da primeira classe
© Getty Images | googhousekeeping.com

Perante esta oferta, não admira que um cruzeiro se mantenha “um sonho agora ao alcance de muito mais pessoas, sejam casais, reformados ou grupos de jovens amigos, sem perder o glamour”, salienta Fernando Borges, exultante porque todas as viagens organizadas pela Melair têm 100 por cento da capacidade preenchida e, para 2013, já há reservas confirmadas.

Uma viagem transatlântica de 13 noites, com a Royal Caribbean ou a Celebrity Cruises oscila entre os 899 e os 1150 euros. Uma volta ao mundo, a vocação de 2 dos 3 três navios da Cunard (a companhia rival da defunta White Star) – o Queen Mary II e o Queen Victoria –, com escalas na Madeira e em Lisboa, respectivamente, vai dos 9870 euros (antes 24.036€) até 16.020euros (antes 34.420€).

Numa época em que não havia jactos nem aviões para ligar dois continentes, a White Star, do magnata J.P. Morgan (que não fez a fatídica viagem inaugural) quis competir com a Cunard, que dominava este mercado marítimo, mas o naufrágio do Titanic foi também o seu colapso.

Aos 20 anos de idade, na sua primeira volta ao mundo, Mário Ferreira, nascido em Matosinhos em 1968, lembra-se dos tempos em que trabalhava para a Cunard.

Cada cliente “pagava por 107 dias de viagem 200 mil dólares” ou mais de 150 mil euros – a mesma quantia que ele desembolsou para, em breve, contemplar o espaço, durante “dez minutos”, subindo a 5000 metros de altitude, a quase 4200 quilómetros por hora, mais de três vezes a velocidade do som – uma “sensação inimaginável”.

É uma quantia não acessível a todos e em tempos de crise, mas o futuro astronauta relativiza o preço, numa conversa que tivemos por telefone: “Hoje, sabe a quanto equivaleria um bilhete [de 4350 dólares] para um camarote de primeira classe no Titanic? Uns 70 mil euros ou mais!”

O último jantar a bordo do Titanic, em primeira classe, foi um grande banquete. O menu (exemplar do qual foi leiloado em 2015) incluía várias entradas, como ostras frescas com molho de vodka, limão, raiz forte e cebolinho; sopa temperada com uísque; posta de salmão cozida com molho holandês batido com creme; e Chicken Lyonnaise (frango cozido em molho de cebola, alho, vinho branco e tomilho). Entre os dez pratos principais, havia fillet-mignon, assado com molho à base de cogumelos, vinho e cebola; pato assado com glacê à base de Calvados (bebida alcoólica destilada) e puré de maçã . Uma das sobremesas era gelado de baunilha e chocolate
© Getty Images

“O espaço é o que de mais original temos em turismo”, salienta Mário Ferreira, atribuindo o fracasso do empreendimento do Titanic a vários factores, um deles a ambição irreflectida de querer bater o recorde da travessia ignorando os (6) avisos de aproximação de icebergues. “Só tem medo e se assusta quem confronta o desconhecido e é apanhado de surpresa; eu não deixo nada ao acaso.”

Sinal dessa confiança é o facto de embora a primeira nave, onde ele seguirá, ainda não ter descolado – talvez no próximo ano –, e já terem sido vendidas 500 viagens, cinco delas em Portugal.

“Posso dizer que ultrapassou as nossas expectativas”, adiantou Sérgio Figueira, presidente da Caminho das Estrelas-Turismo Espacial, S.A., que representa a Virgin Galactic, do multimilionário Sir Richard Branson.

“Com a massificação do negócio – e está a aparecer concorrência – , é natural que os preços desçam até 10 por cento”, disse, recordando também que os primeiros voos comerciais transatlânticos, a seguir à II Guerra Mundial, custariam actualmente 50 mil euros. “Quem imaginaria que teríamos no presente várias companhias com ofertas low cost?”

Proprietário de Helitours (em pequeno, queria ser piloto de helicópteros) e da Douro Azul (que oferece passeios fluviais e terrestres junto ao rio que o deslumbra desde a infância), Mário Ferreira tem vindo a preparar-se para o primeiro voo suborbital já a pensar na próxima etapa: “a estadia em hotéis à volta da Terra, onde será possível, num só dia, ver 17 vezes o nascer e o pôr-do-Sol”.

Mário Ferreira faz parte de um primeiro grupo que se submete a testes “mais ou menos difíceis, mais ou menos agradáveis”, que servirão para “definir o perfil” dos futuros passageiros espaciais.

É no Nastar Center, em Filadélfia (EUA), que ele e os companheiros de aventura (inicialmente eram 100) testam a saúde e resistência a “emoções fortes”.

O teste “mais interessante” até agora foi o da gravidade zero, uma “experiência que vale” os 4000 euros que o Caminho da Estrelas (também envolvida no merchandising de brinquedos temáticos) cobra e que, no seu site, descreve como um “voo parabólico”, a bordo de um Boeing 27 Zero G, entre 7 e 11 quilómetros de altitude. “

Cada parábola tem uma extensão de cerca de 16 quilómetros para percorrer e demora aproximadamente um minuto.”

Trata-se de uma “manobra um pouco semelhante a uma montanha-russa”: o avião “inicia a trajectória a 45 graus e com ‘o nariz para cima’; de seguida, é ‘empurrado’ do topo para atingir o segmento da gravidade zero das parábolas.” Durante 25 a 30 segundos, “nada no interior do avião terá peso”.

A 14, de Abril de 1912, 600 quilómetros a sul da Terra Nova (Canadá), às 23h40 locais, o Titanic colidiu com um icebergue, depois de inundado com 400 toneladas de água por minuto. Duas horas e 40 minutos depois, partiu-se ao meio e afundou-se a partir da proa. Balanço estimado: 1517 mortos (a maioria de hipotermia, não por afogamento) e 710 sobreviventes. O navio só tinha 20 botes salva-vidas. Quando chegou a terra a informação do naufrágio, vários jornais noticiaram que não tinha havido vítimas. Assim que se começaram a conhecer os números da tragédia, inúmeras pessoas se juntaram a recolher donativos para ajudar ps sobreviventes
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A cerca de 30 graus e “de nariz para cima”, começa a manobra de saída, que é “suave” e permite aos passageiros “estabilizar no chão”. A força G aumenta depois “gradualmente até cerca de 1.8” e o avião atinge uns oito quilómetros de altitude.

É como uma “queda livre no pára-quedismo”, sendo que, neste caso, “o avião rodeia os passageiros e protege-os do vento”.

Os que não tiverem dinheiro (e/ou coragem) para um voo suborbital ou um de gravidade zero, a Caminho das Estrelas propõe visitas ao Centro Espacial Kennedy onde famílias podem simular voos ou ver como se constrói e lança um foguetão.

Um passe de um dia custa 21 dólares por adulto e 15 por criança (excluindo a viagem para os EUA). Um pacote que inclui almoçar com um astronauta custará mais 25 dólares.

Apto, física e psicologicamente, para o voo suborbital, Mário Ferreira acredita que uma fase intermédia estará próxima: os aviões supersónicos, como o Concorde (extinto em 2003), onde viajou várias vezes.

“A tecnologia avançada e eficiente da Virgin facilitará o desenvolvimento de jactos com plataforma de lançamento, descida no ângulo da partida, o que tornará possível, por exemplo, ir de Londres a Sydney (Austrália) em apenas duas horas.”

O caminho para a Lua será também mais fácil, quando “dentro de uns 20 anos”, for viável (e a Bigelow Aerospace, no Nevada, está a tratar disso) instalar bases à volta da Terra que sirvam para reabastecimento das naves. “O problema de momento é o do transporte, porque levar 30 por cento de carga útil para fora da atmosfera terrestre obriga a consumir 70 por cento do combustível”, acrescenta.

Menos de um mês depois do naufrágio e muito antes da produção de James Cameron, foi realizado um filme, mudo, Saved From the Titanic, que se estreou em Maio de 1912. Tinha como protagonista Dorothy Gibson, uma actriz que foi um dos sobreviventes
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“Chegar à Lua é o meu limite”, salienta o empresário que, não obstante ser adepto do mergulho, não se imagina a seguir as pisadas de James Cameron, realizador do filme Titanic, que, este ano, num submersível em forma de torpedo, desceu sozinho à Fossa das Marianas, no Pacífico – “o ponto mais fundo de todos os oceanos, onde nunca brilha um único raio de sol”.

Demorou duas horas e 36 minutos e ficou com cerca de 11 quilómetros de água por cima da cabeça. Os últimos visitantes tinham sido o oceanógrafo suíço Jacques Piccard e o tenente Don Walsh, da Marinha dos EUA, em 1960.

Cameron antecipou-se à britânica Virgin Oceanic, de Richard Branson, que planeava levar um submersível ao Challenger Deep, como se chama o ponto mais fundo, uma “ranhura nas profundezas da fossa”, a sul da ilha norte-americana de Guam.

A aventura do cineasta fez reviver igualmente o interesse da Triton Submarines, que está a construir um veículo para transportar turistas por mais de 180 mil euros o bilhete; e da DOER Marine, empresa também norte-americana, que promete assistir a comunidade científica com novas tecnologias.

“Não me atrai o ponto mais fundo do mar, apesar de haver muito para descobrir, porque ali vivem diversas criaturas e espécies”, confessa Mário Ferreira.

“É um lugar que só funciona com luz artificial, demasiado restrito e de uma escuridão absoluta. Prefiro o espaço. Quero ver o negro do infinito mas também o brilho das estrelas, e a Lua sem o filtro da atmosfera da Terra.”

[Esta é a fonte da maioria dos textos das legendas.]

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Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 14 de Abril de 2012 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on April 14, 2012

Tuaregues: Guia dos “homens livres”

Eles querem ser chamados Tamasheq, o nome da sua língua, porque recusam ser os “Abandonados por Deus”. No Norte do Mali, tentaram proclamar uma pátria. Quem são estes guerreiros de véu e turbante azul? (Ler mais | Read more…)

Awazad

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Situada nos vastos desertos do Sara e do Sahel, Azawad ou Azaouad é uma região na qual os Tuaregues incluem o Norte do Mali (mas também o Norte do Níger e o Sul da Argélia). Na quinta-feira, 5 de Abril [de 2012], o Movimento Nacional para a Libertação do Azawad (MNLA) declarou um cessar-fogo após a rápida conquista ao Exército maliano das cidades de Timbuctu, Kidal e Gao – “território suficiente para proclamar um Estado independente”.

Uma área que é supostamente um centro de tráfico de cocaína, Azawad tem sido também cenário de várias rebeliões: em 1962-1964; em 1990-1995 e em 2007-2009.

A revolta deste ano derrotou facilmente um exército, com poucas munições e muitos generais corruptos, incapaz de enfrentar milhares de antigos soldados e mercenários tuaregues que regressaram ao Mali bem treinados, financiados e armados, depois de terem servido Muammar Khadafi na Líbia, até à queda e morte do coronel em 2011.

O êxito da luta separatista do “laico e democrático” MNLA dependerá da sua vontade e capacidade de derrotar os radicais salafistas do Ansar Dine e da Al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI), que querem islamizar todo o país.

Berbere

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O termo “berbere” advirá do latim barbarus (bárbaro), mas os berberes tuaregues – cerca de um milhão – preferem chamar-se Imazighen (homens livres). Originalmente brancos do Mediterrâneo, foram-se misturando com as populações do Sara e do Sahel e, hoje, podem ser louros ou ruivos (nas montanhas Atlas de Marrocos) ou de pele negra (na região subsariana).

Não é possível determinar como os Tuaregues chegaram ao Norte de África, mas confirma-se que são um grupo berbere com a sua própria língua (Tamashek) e alfabeto (Tifinagh). Quem primeiro registou a existência destes nómadas terá sido Heródoto, no século V a.C., na Líbia.

Guerreiros de espada (takoba), lança (allagh) e escudo (aghar), os Tuaregues controlaram durante séculos as grandes rotas comerciais que atravessavam o Sara. Só em 1917 é que a Legião Estrangeira (Francesa) – depois de anos de combates e massacres – conseguiu “pacificar” os Tuaregues.

Findo o período colonial, nos anos 1960, o território dos nómadas foi artificialmente dividido em países independentes: Argélia, Burkina Faso, Líbia, Mali e Níger.

Charles de Foucauld

© Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América

Descendente de cruzados e oriundo de uma família aristocrata e próspera, Charles Eugène de Foucauld nasceu em Estrasburgo em 1858. Aos 26 anos, depois de “uma vida de luxúria e aventuras amorosas” como geógrafo e oficial de cavalaria do Exército francês, deixou de ser agnóstico e tornou-se padre eremita.

Em 1905, foi viver entre os Tuaregues, na região argelina de Ahaggar ou Hoggar. Recentemente beatificado pelo Vaticano [em 2005] , foi durante muito tempo olhado como “espião disfarçado de monge”, mas todos lhe reconhecem, agora, a divulgação, local e internacional, da língua e cultura tuaregues.

A 1 de Dezembro de 1916, salteadores atacaram o seu refúgio e um deles matou-o a tiro. O “irmão universal” morreu aos 58 anos, mas tem agora 15 mil discípulos, entre eles a Fraternidade das Irmãzinhas de Jesus, que chegou em 1939 a Portugal, onde as suas religiosas, que não são missionárias, vivem e trabalham com os mais pobres, em bairros degradados, fábricas ou prisões.

Dassine

© azawakh-nation.blogspot.com/

Sultana do Deserto, Rainha do Amor ou Mensageira da Paz, é assim que os tuaregues reverenciam a sua grande poeta Dassine Oult Yemma. Dois versos que eles repetem: “A água murmura ‘Eu amo-te’ quando toca os nossos lábios com o mais suave dos beijos”; “Que interessa esses véus sob os quais te escondes – eu afasto-os tal como o sol desvia as nuvens”.

A poesia ocupa um espaço fundamental na cultura tuaregue, e um tema recorrente é os dos corações destroçados. Na língua Tamasheq, a palavra “calor” (tuksé) deriva de “sofrimento”.

Veja-se este poema, composto em 1890: En ce jour que j’ai quitté Tella/ elle tenait une réunion galante pour les personnes présentes ; je suis parti/ l’âme brûlée de douleur, le cœur embrasé/ semblable à un tison enflammé/ sur lequel souffle le vent et qui brûle de tous côtés. / Je prie Dieu de me faire voire celle que j’aime/ pour que je ne meure pas ici de la douleur de son absence.

Feudal

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Os Tuaregues mantêm um sistema hierárquico feudal de clãs (tawshet), que consiste num pequeno número de famílias nobres e tribos de marabus (“homens santos, com poderes de abençoar, proteger e curar, mesmo depois da morte”); uma maioria de vassalos e três “classes inferiores” de antigos escravos.

Os Iklan apascentam o gado, cozinham (a alimentação básica dos Tuaregues é queijo e manteiga de cabra com tâmaras – a carne é limitada a ocasiões festivas) e fazem outras tarefas domésticas; os Inaden são sobretudo artesãos e ferreiros; os Harratin, de pele negra, trabalham nos campos onde se cultiva milho, centeio e trigo.

Islão

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Muçulmanos mas não árabes, os Tuaregues preservam rituais animistas, rezando a divindades do deserto, como pedras, água, fogo e montanhas.

Na prática islâmica de lavar as mãos, a água, cada vez mais escassa, é substituída pela areia. No Norte do Mali, onde os Tuaregues tentam proclamar um Estado independente, predomina a escola teológica maliquita do Sufismo, corrente mística e, tradicionalmente, mais tolerante da religião “revelada” a Maomé.

Kel Tamasheq

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Ainda que divididos em várias tribos e clãs, os Tuaregues fazem questão de afirmar a sua identidade única chamando-se a si próprios Kel Tamasheq, ou “Os que falam Tamasheq”.

Há uma campanha em curso para que sejam designados como Tamasheq e não Tuaregues – termo cuja origem tem suscitado várias interpretações: uns alegam que provém do árabe Tawariq, com o significado de “Abandonados por Deus”; outros ligam-no a Targa, em Fezzan, actual Líbia.

Os Tuaregues/Tamasheq têm o seu próprio alfabeto, Tifinagh, composto por símbolos geométricos, um total de 24, na forma de linhas, pontos, círculos e formas. Este alfabeto escreve-se da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, de cima para baixo ou de baixo para cima – por isso é de difícil leitura.

A origem do Tifinagh é indefinida. Alguns sugerem que não há nada de implicitamente Amazigh (língua berbere), mas os Tuaregues insistem em que é indígena. Para eles, Tifinagh é um termo composto por “Tifi”, que significa “descoberta”, e pelo adjectivo possessivo “nnagh”, com o significado de “nosso”.

Assim sendo, Tifinagh quererá dizer “a nossa descoberta”. Outras teorias referem que o alfabeto provém do Egipto ou do Sul da Arábia; do Grego ou do Latim; dos Cartagineses ou dos Fenícios.

Mulheres

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As mulheres tuaregues gozam de grande respeito e liberdade, participam nas decisões da família e da tribo, e podem manter relações com homens antes do casamento, rompendo a tradição ortodoxa islâmica. Um dos provérbios deste povo diz: “As mulheres e os homens são, uns e outros, para os olhos e para o coração; não apenas para a cama”.

Sendo uma sociedade matrilínia (a liderança, descendência e a herança são definidas pela linha da mãe), mas não matriarcal (o poder é detido pelos homens).

São as mães que ensinam às filhas o alfabeto Tifinagh e arte de tocar o violino imzad – arte exclusiva das mulheres. Diz-se que, nos combates, os homens faziam tudo para demonstrar coragem, com medo que as noivas os privassem dos sons do imzad. O desejo de ouvir este instrumento incutia-lhes valentia e incitava-os a derrotar os inimigos.

Nómadas

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Se inicialmente eram nómadas errantes do deserto, muitos tuaregues foram obrigados, para sobreviver, a render-se ao sedentarismo. Em todo o caso, muitos ainda vagueiam errantes em tendas móveis, um apertado círculo de 5 ou 6.

Uma tenda é composta de 30 a 40 peles curtidas, tingidas de vermelho e cosidas umas às outras. As peles são suportadas por uma estrutura de estacas de madeira, fixadas ao solo. Cada tribo é governada por um chefe e uma assembleia de homens adultos.

As tribos agrupam-se em três confederações, cada uma com um xeque e um conselho de responsáveis de clãs. As confederações, por seu turno, têm um líder máximo (amenokal) e um conselho de nobres. Entre as tribos mais importantes estão as de Kel Rhela, Dag Rhali, Issaqqamaren e Ait Laoin.

Oy ik

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Os Tuaregues têm uma forma muito particular de cumprimentar os outros. No dialecto regional Air, por exemplo, começam por perguntar Oy ik? (Como está?) seguindo com Mani egiwan? (Como está a sua família?) e depois por Mani echeghel? (Como vai o seu trabalho?). A resposta mais educada a todas estas interpelações será Alkher ghas (Está tudo de boa saúde).

Sedução

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Os tuaregues têm um ritual a que chamam “código de sedução”. No silêncio do deserto, de manhã até ao meio-dia, antes do pôr-do-sol, ou à noite, sob um céu estrelado, juntam-se para tocar o violino imzad e cantar poemas.

Depois de recolherem o leite dos rebanhos e antes de irem para a cama, os homens pedem às organizadoras destas reuniões sociais ou encontros românticos (djalsa) se os voltam a convidar. Para saberem, discretamente, a resposta das mulheres que querem conquistar, usam linguagem gestual. Desenhar um círculo na palma da mão de uma jovem e depois apontar para lá com o dedo indicador é uma declaração de amor.

Se a jovem pega na mão direita do pretendente e com o seu indicador traça uma linha diagonal para a frente e depois para trás, isto significa: “Deixa o resto das pessoas e vem para junto de mim.”. Se ela traça a linha diagonal numa só direcção, a mensagem é: “Vai-te embora, e não voltes.” Se um homem notar que a rapariga é disputada por um rival, tem de recuar.

Se dois pretendentes gostam da mesma mulher, o mais novo deve ceder o lugar ao mais velho – excepto se a rapariga fizer a escolha contrária.

Tin Hinan

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Venerada pelos tuaregues como a sua primeira Tamenokalt (rainha), Tin Hinan ainda hoje é designada, por eles, como “Mãe de todos nós”. Dizem lendas que, viajando com a sua dama de companhia, Takamat, deixou Tafilalet, nas montanhas Atlas de Marrocos, para se instalar no território desértico de Hoggar ou Ahaggar, no Sul da Argélia.

Aqui, não hesitando em recorrer às armas, Tin Hinan uniu vários clãs dispersos e fez deles uma “nação”. O seu túmulo terá sido encontrado, em 1920, por arqueólogos, em Abalessa, na Argélia.

Véu

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Entre os Tuaregues são os homens, e não as mulheres, que ocultam o rosto. Há três tipos de véu-turbante, com um comprimento que oscila entre os 3 e os 5 metros, deixa à vista apenas os olhos, cobrindo a cabeça, a testa, quase todo o nariz e a boca – “uma zona de poluição e de desrespeito se exposta perante outros”.

Assim, temos o tagelmoust ou alechcho (azul índigo), hoje quase exclusivo das classes mais altas; o khent, que pode ser usado em todas as ocasiões e no dia-a-dia; e o agora mais comum echchach (branco, negro ou azul escuro, de custo e qualidade inferior).

Não há dados concretos sobre quando é que os tuaregues começaram a usar o tagelmoust, porque até 1920, segundo várias fontes, era mais visível o tekerheit, véu-turbante de lã branca e riscas de cor, originário da Líbia.

Só os homens de classe elevada podem deixar escorregar o véu-turbante, e apenas os que fizeram a peregrinação a Meca o podem remover completamente. De um modo geral, os homens jamais o abandonam desde que o começam a usar aos 18 anos, início da idade adulta, nem mesmo quando dormem.

A tinta que caracteriza a maioria dos tagelmoust não é diluída em água, um bem cada vez mais escasso, mas aplicada com pedras em tecido de algodão. A pressão emite partículas ligeiramente metálicas que depois se transferem do véu para o rosto – daí os tuaregues terem ganhado o cognome de “Homens Azuis”.

Símbolo de masculinidade, protecção contra as tempestades de areia e os “maus espíritos” – mas também, dizem, forma de impedir o inimigo de ler o pensamento –, o véu-turbante nunca é lavado e é usado até que se rasgue.

As mulheres, por seu turno, depois de se casarem, apenas tapam o cabelo com um lenço (ekahei). Envergam saias rodadas e blusas bordadas de várias cores, colares e brincos de ouro e prata, e ostensiva maquilhagem que realça sensualidade dos olhos e da boca.

[Fontes: ‘The Tuareg of the Sahar’a’ (Bradshaw Foundation); ‘Sahara Man: Travelling With the Tuareg’, de Jeremy Keenan; ‘Le Voile chez les Touare’g  (‘Revue de l’Occident musulman et de la Méditerranée’); ‘La Solitude du Poète Touareg’ (Dominique Casajuz, in: ‘Sentiments doux-amers dans les musiques du monde’); Association Sauver l’Imzad; Toumast Press]

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Este artigo, agora revisto, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 7 de Abril de 2012 | This article, now revised, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on April 7, 2012

O Egipto de Nawal El Saadawi e Bothaina Kamel

A primeira mulher a disputar a Presidência em 2005 não votou na única candidata em 2012 “Sem programas políticos, seria como escolher entre um pénis e um clítoris”, disse a feminista. “Recuar equivaleria à autodestruição”, declarou, por seu turno, a antiga celebridade da televisão nacional. (Ler mais | Read more…)

“Todos os dias a guarda prisional chegava ao pé de mim e dizia: ‘É mais perigoso, para si, eu encontrar na cela papel e caneta do que uma arma'”, conta Nawal El Sadawi. “Não me rendi. Pedi ajuda a uma prostituta (muitas leram os meus livros), que assistia a guarda que nos trazia o pão. No dia seguinte e durante três meses, ela apareceu com rolo de papel e o seu eyeliner. Assim escrevi Memórias da Prisão
© El Periodico

Em Setembro de 2005, Nawal El Saadawi abriu um precedente e tornou-se na primeira mulher a disputar o lugar de Mubarak em eleições presidenciais.

A ousadia forçou-a ao exílio. Seria, pois, de esperar que, este ano, derrubado o ditador, ela apoiasse Bothaina Kamel, única mulher candidata à chefia do Estado, mas a psiquiatra, escritora e destacada feminista, a quem chamam “Simone de Beauvoir do Egipto”, decidiu boicotar o que designa por “um jogo sujo”.

“Ela não deveria participar neste jogo, mas está a acomodar-se a ele”, diz Nawal El Saadawi, numa entrevista, por telefone, criticando a decisão de Bothaina Kamel, 50 anos, antiga celebridade televisiva venerada pelos seus partidários como “a mulher que vale 100 homens”.

Para a octogenária sem tabus que militou contra o Rei Farouk, a ocupação britânica do Egipto e o Raïs Anwar el-Sadat, “a corrida presidencial é como uma corrida de cavalos, e os concorrentes não estão lá pelo povo, e sim para garantir os seus interesses, poder e dinheiro. Em seu entender, Bothaina deveria afastar-se”.

Quando a inquirimos sobre a sua própria candidatura em 2005, Saadawi justificou: “Acima de tudo, eu queria desafiar [Hosni] Mubarak, expor a sua corrupção. Era também minha intenção denunciar a hipocrisia da democracia. A polícia andou sempre atrás de mim assim que registei o meu nome.”

“Da minha parte, foi um gesto simbólico com o intuito de encorajar outras mulheres. Acabei por boicotar as eleições devido à perseguição policial, que impediu todos os meus comícios. Não desisti, porque cumpri os meus objectivos. Nunca quis ser presidente, apenas provar que, com Mubarak, a democracia era uma mentira. E, hoje, a democracia no Egipto continua a ser uma mentira.”

Em 1998, o programa de rádio Confissões Nocturnas, de Bothaina Kamel foi cancelado, sob a acusação de “manchar a reputação do país e dos seus jovens”, por abordar questões como homossexualidade e relações extraconjugais. Em 2005, durante um referendo, a locutora da televisão estatal andou pelas ruas e constatou que as secções de voto estavam quase vazias. Ao chegar ao estúdio, teria de anunciar afluência maciça. Era mentira e ela demitiu-se
© National Public Radio

“Sejamos francos: nenhum dos candidatos, homens e mulheres, apresentaram um programa político e estas eleições não são livres”, insurgiu-se a destemida Saadawi, cuja volumosa cabeleira branca e olhar cintilante ajudaram a colorir os protestos na Praça Tahrir, no Cairo, em 2011. “A minha escolha não pode ser entre um pénis e uma vagina, mas entre um e outro programa.”

“Respeito muito a Dra. Saadawi e concordo com ela quanto à possibilidade de fraude eleitoral, mas tenho um programa detalhado, redigido por pessoas qualificadas”, respondeu Bothaina Kamel, em declarações por e-mail, sem especificar os pontos mais importantes do seu projecto.

“Temos de lutar, porque permitir que o antigo regime se mantenha no poder seria equivalente a uma autodestruição. Este não é o momento de tomar posição e depois recuar.”

Quando é que Bothaina Kamel decidiu deixar de ser “a Oprah Winfrey do Egipto”, como a designaram os media americanos, para se dedicar à política?

Não foi em 1998, quando o seu programa de rádio Confissões Nocturnas foi cancelado ao fim de seis anos, acusado pelas autoridades religiosas de “manchar a reputação do país e dos seus jovens”, por abordar questões como homossexualidade e relações extraconjugais.

A mudança aconteceu em 2005 – ano em que Saadawi concorreu – durante o referendo que emendou o Artigo 76 da Constituição, permitindo pela primeira vez eleições presidenciais directas com vários candidatos.

A famosa feminista Nawal El Saadawi, na apresentação de um dos seus livros, em Londres
© yearofwomenshistory.blogspot.com

A 25 de Maio de 2005, a locutora da televisão estatal andou pelas ruas e constatou que as secções de voto estavam quase vazias. Quando chegou ao estúdio, ao ver o alinhamento das notícias à sua frente, reparou que teria de anunciar uma afluência maciça às urnas. “Sabia que me estavam a pedir para ler uma mentira, por isso demiti-me”, relembra.

Logo após o referendo, Bothaina Kamel ajudou a fundar um grupo para supervisionar as legislativas. Chamou-lhe Shayfeeen.com, que significa, em árabe coloquial, “Estamos de olho em vós”. Isso não impediu os donos sauditas do canal por cabo Orbit de a convidarem para ser a estrela de um talk show,, designado Por Favor Entende-me.”

Este manteve-se no ar durante dez anos até à queda de Mubarak, quando ela resolveu investigar “o dinheiro roubado” pelo Presidente deposto. Os executivos da estação, temendo que viesse a público o alegado envolvimento da Casa de Saud na transferência de fundos do aliado e protegido, cancelaram a emissão meia hora antes de ir para o ar.

Acampadas dia e noite na Praça Tahrir até Mubarak ser forçado a sair de cena, em 11 de Fevereiro de 2011, Bouthaina Kamel e Nawal El Saadawi continuam a marcar presença nos protestos contra o Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), que agora detém o poder.

O que correu mal para que uma junta militar tenha substituído um ditador e 70% dos deputados do novo Parlamento sejam islamistas e salafistas? “Bem, isto acontece em todas as revoluções, tanto no Oriente como no Ocidente – há sempre uma contra-revolução”, afirma Saadawi.

“O poder da contra-revolução no Egipto é interno e externo, porque o Egipto está colonizado pelos Estados Unidos, e desde Sadat que não é um país independente, mas uma colónia americana”, acusa Saadawi.

“É verdade que o Exército se virou contra Mubarak, mas precisava do corpo do regime para sobreviver, e nós estávamos tão extasiados por o ditador sair de cena que nos deixámos iludir.”

“Os EUA, o CSFA, a Irmandade Muçulmana e a Arábia Saudita colaboram para fazer abortar a revolução. Não é verdade que a América esteja contra os fundamentalistas! Sempre disse que [Osama] Bin Laden e George W. Bush eram gémeos.”

“As pessoas conhecem-me por estar ombro a ombro com elas nos protestos”, afirma Bothaina Kamel. “Diziam-me sempre: ‘De todos os candidatos, só ela está connosco nas ruas.’ A diferença é que os outros estão melhor organizados e têm mais fundos”
© acelebrationofwomen.org

Para a mais famosa feminista do mundo árabe, os islamistas e salafistas obtiveram uma maioria no Parlamento, “porque as eleições foram uma fraude”. Nawal El Saadawi boicotou as legislativas e vai boicotar as presidenciais, “porque os resultados já estão definidos”.

Isso significa que está pessimista? “Nunca estou pessimista!”, sublinha. “Sou sempre optimista, porque a esperança é poder. Cito um ditado: “O sucesso significa ir de fracasso em fracasso sem perder a esperança.” Se começarmos com 50% de esperança, já percorremos metade do caminho. Tenho confiança na revolução. Sei que vamos vencer.”

A confiança na vitória envolve, porém, risco de vida. “Todos nós estamos sob ameaça; podemos ser levados para a cadeia a qualquer momento, porque não temos protecção, mas eu, que posso viver em qualquer parte e tenho os meus [quase 50] livros traduzidos em mais de 30 línguas, decidi ficar no Egipto, ainda que me proíbam de dar aulas na universidade, de praticar Medicina e de aparecer na televisão, e onde só posso escrever para um jornal da oposição”, disse Saadawi, que Sadat condenou por “crimes contra o Estado”, em 1981.

“Ser colocada numa prisão foi sufocante”, recordou. “Todos os dias a guarda prisional chegava ao pé de mim e dizia: ‘É mais perigoso, para si, eu encontrar na cela papel e caneta do que uma arma.’ Não me rendi. Pedi ajuda a uma prostituta (muitas leram os meus livros) que era assistente da guarda e nos trazia o pão.”

“No dia seguinte e durante três meses, ela apareceu com rolo de papel e o seu eyeliner. Foi deste modo que escrevi Memórias da Prisão. Escondi tudo numa marmita colocada num buraco fundo escavado no chão. Os inspectores nunca descobriram. Salvei a minha vida. Três meses sem escrever uma linha e eu teria morrido.”

Um “cérebro patriarcal” é inaceitável para Nawal El Saadawi, a mulher que, aos 6 anos, foi submetida ao que descreve como a “ferida perpétua” da mutilação genital – tradição contra a qual se tornou activista acérrima
© en.qantara.de

Exibindo um colar com o crescente do Islão e a cruz dos cristãos, uma pregadeira com a inscrição “Sou egípcia”, um pin proclamando “Contra a corrupção” e uma pulseira com a legenda “Fazer da pobreza história”, Bothaina Kamel admite que também ela corre perigo.

“Já fui detida duas vezes, tive de comparecer perante um tribunal militar, fui apedrejada e o meu motorista agredido com um objecto cortante que se destinava a perfurar a minha cabeça, fui espancada e tenho sido vítima de insultos por parte de soldados.”

Os slogans que a ornamentam servem para “demonstrar que tudo é possível”, refere a candidata muçulmana, consciente de que goza de maior simpatia entre as minorias como os coptas, os núbios e os beduínos, por denunciar publicamente o incitamento ao ódio religioso e confessional.

Bothaina Kamel negou que a sua campanha, comparada à de Amr Moussa, antigo secretário-geral da Liga Árabe, tenha mais visibilidade externa do que interna. “As pessoas conhecem-me por estar ombro a ombro com elas nos protestos. Diziam-me sempre: “De todos os candidatos, só ela está connosco nas ruas.” A diferença é que os outros estão melhor organizados e têm mais fundos.”

Nawal Saadawi está a concluir um livro sobre os acontecimentos na Praça Tahrir pelos quais esperou “70 anos”. Embora os problemas “sejam agora diferentes”, será uma obra “cheia de esperança”. Porque ela se define como “uma escritora internacional”, uma “cidadã do mundo” que não acredita em “identidades restritas, seja de nacionalidade, classe, género ou religião.”

Bothaina Kamel: “Temos de lutar, porque permitir que o antigo regime se mantenha no poder seria equivalente a uma autodestruição. Este não é o momento de tomar posição e depois recuar”
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No exílio forçado por Mubarak, enquanto dava aulas em universidades prestigiadas como Harvard, separou-se do terceiro marido (e um dos seus tradutores) há quatro anos, porque ele, apesar de quatro décadas de vida em comum, “insistia em ser superior”.

Um “cérebro patriarcal” é inaceitável para Saadawi, a mulher que aos 6 anos foi submetida à “ferida perpétua” da mutilação genital – uma tradição contra a qual se tornou uma activista acérrima; aos 10 travou um casamento forçado usando “um de muitos truques” (enegrecer os dentes e derramar café a ferver, por exemplo) para afugentar pretendentes; tomou a iniciativa de se divorciar do primeiro marido, quando ele se entregou à droga, e do segundo, quando ele lhe lançou um ultimato: ou és dona de casa ou médica.

“Não tenho problemas com os homens – o meu problema é com a instituição do casamento!”, declarou, com sonora gargalhada, a autora de Women and Sex, obra em que afronta o establishment religioso.

“Ser psiquiatra influenciou o meu pensamento feminista. Foi importante conhecer e dissecar o corpo, descobrir os órgãos genitais, a sexualidade. Eduquei-me a mim própria.”

Bothaina Kamel também exulta com a sua transformação: “Já não me reconheço. Costumava ser uma “senhora da sociedade” que cuidava do cabelo, da maquilhagem, das unhas, ia ao ginásio e praticava ioga, conhecia a arte da boa vida. Agora, uso jeans, deixei de me pintar e como de tudo. A revolução derreteu as classes sociais – e isso foi uma das suas maravilhas.”

[Mohamed Morsi, que seria o candidato da Irmandade Muçulmana, venceu a segunda volta das eleições e, em 30 de Junho de 2012, tomou posse.

Em 3 de Julho de 2013, foi afastado pelo Exército depois de gigantescos protestos populares como o Egipto nunca vira – nem quando começou a revolta que forçou à demissão do ditador Hosni Mubarak.

O país é agora dominado pelo general Abdel Fattah al-Sisi. Morsi morreu em 17 de Junho de 2019, durante uma audiência no tribunal, supostamente de ataque cardíaco.]

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Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 4 de Abril de 2012 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on April 4, 2012

“Yeah, he can”, acredita Marissa

Niankoro Yeah Samaké confiava em que seria o primeiro chefe de Estado mórmon num país 90% muçulmano. Uma rebelião tuaregue e um golpe militar adiaram o sonho* A sua mulher, de origem indiana, diz que está susegad – isto é, “sossegada”, na língua Konkani, mistura de Goês e Português. (Ler mais | Read more…)

Oriundo de uma família pobre de Ouélessébougou, a sul de Bamako, capital do Mali, o mórmon Yeah é o oitavo dos 17 filhos de Tiecourafing Samaké e de uma das suas três mulheres. Entre passar fome e estudar, o pai optou pela educação, porque acreditava ser o único meio de escapar da miséria
© Niankoro Yeah Samaké

Há uma palavra que une a história passada e presente de Marissa Coutinho Samaké: “Rebelião”. O seu trisavó “fundou Cuncolim”, aldeia onde a população local se insurgiu, pela primeira vez, contra a administração portuguesa desde a conquista de Goa em 1510.

[Quando almejava tornar-se na primeira-dama do Mali, uma revolta tuaregue e um golpe de Estado neste país da África Ocidental adiaram o sonho do marido de ser presidente, após uma campanha sob o lema Yeah, we can.]

Niankoro Yeah Samaké, 43 anos, um cristão mórmon (culto que até há pouco tempo excluía os negros) num país maioritariamente muçulmano (90 por cento), era apontado como “o candidato favorito”, num total de 20, às suspensas eleições de 29 de Abril.

“Ele contou-me que quando a mãe estava grávida uma feiticeira previu que ele faria coisas grandiosas”, diz Marissa, numa troca de correspondência, via Facebook e e-mail.

“Por isso, a mãe, Sanamba Doumbia, criou o filho acreditando e fazendo-o acreditar nesse destino. Quando me confessou que iria candidatar-se à Presidência, pensei que apenas queria conquistar-me mas, depois de nos casarmos, percebi que tudo o que ele fazia o aproximava desse objectivo.”

[Os planos de Yeah sofreram um revés inesperado na sequência do golpe que, a 21 de Março [de 2012], destituiu Amadou Toumani Touré (A.T.T.), o homem que ascendera à chefia do Estado em 1991, após derrubar o predecessor, Moussa Traoré.]

“Os Estados Unidos já suspenderam a ajuda militar; o Banco Mundial e a União Europeia também interromperam a sua assistência”, lamenta Marissa Samaké, nascida no Bahrain, onde vivem e trabalham os pais, indianos e católicos de Goa.

“No Norte, os tuaregues progrediram e esperamos o pior; o Sul permaneceu calmo, com tudo a funcionar. Os militares têm insistentemente prometido que devolverão o poder aos civis assim que recuperarem o controlo do Norte, mas especula-se de que será preciso esperar seis a 12 meses, porque não foi marcada qualquer data.”

Niankoro Yeah Samaké não foi eleito presidente. Em 2015, assumiu as funções de embaixador do Mali na Índia, o país de onde é originária a família da sua mulher, Marissa Coutinho
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Amadou Touré, que não tenciona recandidatar-se ao posto para o qual foi reeleito em 2007, está em paradeiro desconhecido [até Abril de 2013, quando anunciou que pedira asilo ao vizinho Senegal]. O capitão golpista, Amadou Sanago, acusou-o de não ter equipado devidamente o exército para neutralizar os rebeldes, sob suspeita (que eles negam) de colaborarem com a al-Qaeda no Magreb.

Tradicionalmente pastores nómadas de dialectos tamazight (berberes), o povo que se define como “Os livres” e Tamust (Nação) para contrariar os que lhes chamam “Abandonados por Deus” totalizará entre 100 mil e 3,5 milhões. Habita os vastos desertos do Sahel e do Sara que se estendem da Líbia ao Burkina Faso.

Sentindo-se marginalizados e alvo de ataques por parte de milícias governamentais, os tuaregues no Mali (cerca de um milhão) desencadearam insurreições de 1962 a 1964; de 1990 a 1995; e de 2007 a 2009 (ano em que assinaram um acordo de paz).

A chave de ignição para a revolta em curso terá sido o regresso de cerca de 4000 combatentes que haviam servido em batalhões de Muammar Khadafi até à morte do ditador líbio.

Enfurecidos com este desfecho e perante a incapacidade de o governo de Touré os inserir na região que designam por Azawad, os mercenários em fuga instalaram-se em Kidal, “capital” do Norte.

Aqui, em conjunto com outros grupos separatistas, fundiram-se no Movimento Tuarege do Norte do Mali (MTNM), formando posteriormente o Movimento Nacional para a Libertação do Azawad (MNLA).

O MNLA, para o qual Azawad inclui também o Norte do Níger e o Sul da Argélia, terá sido reforçado com desertores do Exército maliano e controlará a estratégica Kidal, que abastece as duas maiores cidades do Norte: Gao e Timbuktu.

Ora, foi neste paraíso turístico, que a vida de Yeah Samaké se alterou radicalmente, quando conheceu um casal membro da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (SUD, Mórmones), que o levou para os Estados Unidos.

A ligação portuguesa “é tão profunda”, diz Marissa Samaké, “que é impossível imaginar Goa sem ela”. A língua konkani, por exemplo, tem influências do português, visíveis nos apelidos, como o dela – Coutinho
© Marissa Samaké

A história começa em Ouélessébougou, localidade de 35 mil residentes, 80 quilómetros a sul de Bamako, a capital do Mali, onde o oitavo dos 17 filhos de Tiecourafing Samaké e de uma das suas três mulheres nasceu em 1969.

A família era muito pobre – embora tivesse sido um dos antepassados, Ouelessee, quem estabeleceu a comunidade no século XIX –, mas entre passar fome e estudar, o pai optou pela educação, por considerar ser o único meio de escapar da miséria.

Em várias entrevistas que tem dado, Yeah Samaké relembra os tempos de infância em que ele e os seus irmãos “acordavam durante a noite com fome”, e como a mãe lhes “atava a barriga com lenços” para minorar as dores.

Agradece ao pai a “visão inspiradora”, porque hoje todos os filhos de Tiecourafing, rapazes e raparigas que foram para a escola e não para os campos, têm formação universitária. 

Terminada a licenciatura em Inglês, na École Normale Supérieure de Bamako, Yeah regressou à terra natal onde deu aulas durante três anos, ao mesmo tempo que ganhava dinheiro extra como guia e intérprete para a ONU e o Peace Corps.

Também colaborava com a Ouéléssébougou-Utah Alliance, organização fundada por personalidades norte-americanas.

Foi assim que conheceu Jeff e Gretchen Winston, mórmones do Colorado. Ambos “impressionados com a ética e a devoção” de Yeah, pagaram-lhe a viagem até à Brighton Young Univeristy (BYU), propriedade da Igreja LDS, onde concluiu um mestrado em Política Pública.

Mais tarde, já profissional experiente, criou a Mali Rising Foundation – plataforma para as aspirações presidenciais que lhe permitiu voltar à pátria.

Na BYU, Yeah conheceu Marissa.

Niankoro Yeah Samaké em campanha eleitoral, quando ainda havia esperança de vir a tornar-se “o Obama do Mali”
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Esta é a história dela, como tal como ela a contou por e-mail:  “Nasci em 1983, na pequena ilha do Bahrain, no Médio Oriente, para onde emigraram os meus pais, quando a Índia ainda não oferecia boas oportunidades de emprego.

Eles são naturais de Goa, onde permanecem os restos mortais dos meus antepassados. Mantenho um passaporte indiano. A minha história em Goa remonta aos dias em que o meu trisavô fundou a aldeia de Cuncolim.”

Foi aqui, em 25 de Julho de 1583, que os habitantes de Goa desafiaram, pela primeira vez, a administração portuguesa, num incidente que a Igreja Católica Romana regista como o “Martírio de Cuncolim”: o assassínio de cinco padres jesuítas e outros 15 cristãos, em protesto contra a demolição de templos hindus e a conversão forçada ao catolicismo.

A contra-represália foi igualmente sangrenta: a execução, sem julgamento, da maioria dos líderes da casta dos Xástrias.

As memórias de Marissa Samaké não são dos “cinco séculos de Goa como colónia de Portugal”. Ela prefere recordar os vestígios da “música, comida, vestuário, arquitectura, com belas igrejas e capelas.”

Ou como ela sublinha: “A ligação portuguesa é tão profunda, que é impossível imaginar Goa sem ela – seria como imaginar a minha vida sem todas as coisas que fazem de Goa o estado belo e culturalmente rico que é.

A língua konkani, por exemplo, tem influências do português, visíveis nos apelidos, como o meu – Coutinho”. O mesmo acontece com a religião, que continua a ser maioritariamente católica entre os cristãos. “Durante 21 anos, fui católica”, revela. “Só me converti ao mormonismo no Utah, em 2004.”

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No Bahrain, Marissa Coutinho viveu 20 anos na companhia dos pais. Frequentou primeiro uma escola católica britânica dirigida por freiras, e depois uma escola indiana.

Em 2002, a mãe, que trabalha para a Embaixada dos EUA no Bahrein, quis enviá-la para “a terra das oportunidades” e ela inscreveu-se em muitas universidades.

“No entanto, mesmo com uma bolsa, algumas das que me aceitaram estavam fora do alcance das capacidades financeiras dos meus pais, que já financiavam a educação do meu irmão no Florida Institute of Technology (FIT)”, explica. “Escolhi a BYU, por ser a mais acessível e porque me parecia uma boa universidade.”

Em 2003, Marissa mudou-se para o Utah e, desde logo, ficou “impressionada por as pessoas estarem sempre felizes”. Por esta altura, conheceu Yeah Samaké. “Veio ter comigo e disse-me que nunca tinha visto uma mulher tão linda; eu pensei que ele havia enlouquecido – já ninguém dizia essas coisas”, revela.

“Ele já pertencia à LDS. Eu comecei a estudar as escrituras mórmones e decidi também juntar-me à Igreja. Fui baptizada a 29 de Maio de 2004. Somos uma de raras famílias mórmones no Mali.”

A propósito de Mississipi Masala, realizado por Mira Nair, a história de uma família indiana forçada por Idi Amin a fugir do Uganda para a América, onde rejeita, por preconceito, o namoro da filha com um negro, Marissa responde, quando inquirida sobre se os pais, católicos de Goa, aceitaram o seu casamento com um africano?

“Vi esse filme antes de conhecer Yeah e sempre achei uma insanidade que aquela família indiana não conseguisse superar a sua agenda pessoal. Quem diria que, anos depois, eu me iria ver na mesma situação? Inicialmente, a minha família ficou furiosa.”

“Os indianos não gostam da mistura de sangue, embora isso esteja a mudar com as novas gerações. O tempo tudo cura e a minha decisão acabou por ser aceite.”

Marissa e Yeah Samaké com os filhos, no Mali
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Também não foi fácil, para Marissa, mudar-se de uma das nações mais desenvolvidas para o segundo país mais pobre. “A vida aqui nunca é igual”, relata.

“Há dias de marasmo e outros em que os minutos são escassos. Na América, eu era gestora, por isso foi uma mudança drástica: ficar em casa a cuidar dos filhos e, simultaneamente, dirigir a campanha do meu marido.”

“Em todo o caso, a mudança para o Mali foi uma grande lição para os nossos filhos. Ensinou-os a ver o mundo de maneira diferente.”

Marissa acredita que os jovens do Mali, “ansiosos por um líder com novas ideias” olham para Yeah como um novo Obama, alguém que “veio do nada, mas marca a diferença”, desde que foi eleito presidente da Câmara de Ouélessébougou.

Aqui, encorajou a iniciativa privada, criou empregos, construiu escolas e um hospital, melhorou os sistemas de abastecimento de água e de esgotos, aperfeiçoou a colecta de impostos para prevenir a corrupção. Fazer isto e mais ainda é uma das suas promessas eleitorais.

“A esperança que ele desperta levou a que muitos jovens sugerissem como lema de campanha ‘Yeah, we can’, imitando o de Obama”, salienta Marissa Coutinho Samaké.

Quanto a ela, apesar da instabilidade no Mali, assegura que está susegad – ou sossegada, como se diz em Konkani, a língua que mistura o Goês e o Português, “palavras diferentes com sonoridades semelhantes”.

[As eleições de 29 de Abril de 2012 foram adiadas para 11 de Agosto de 2013. O vencedor (reconhecido pela comunidade internacional) foi Ibrahim Boubacar Keïta, 68 anos, chefe do Governo entre 1994 e 2000.

O seu mais directo adversário, que admitiu a derrota, era Soumaïla Cissé, antigo ministro das Finanças. Na primeira volta, nenhum dos 27 candidatos conseguira mais de 50% dos votos necessários – Yeah Samaké obteve apenas 0,56%.]

Os planos de Yeah Samaké de chegar à Presidência do Mali sofreram um revés inesperado na sequência de um golpe que, a 21 de Março de 2012, destituiu Amadou Toumani Touré, que ascendera à chefia do Estado em 1991
© Niankoro Yeah Samaké

Este artigo, agora actualizado, e com um título diferente, foi publicado originalmente pelo jornal PÚBLICO, em 30 de Março de 2012 | This article, now updated, and under a different headline, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on March 30, 2012

Shenouda III morreu e os coptas querem sair do “gueto”

O Papa de Alexandria e patriarca de toda a África deixou órfãos milhões de fiéis. A sua comunidade agradece-lhe 41 anos de protecção, mas, na era pós-Mubarak, a defesa dos cristãos passa agora por maior participação política individual. (Ler mais | Read more…)

Oração de um copta junto ao corpo do Papa Shenouda III, líder da Igreja Copta Ortodoxa do Egipto, exposto ao público para as devidas homenagens, na catedral de Abbasiya no Cairo (18 de Março de 2012). © Esam Al-Fetori | Reuters

Oração junto ao corpo do Papa Shenouda III, líder da Igreja Copta Ortodoxa do Egipto, exposto para as devidas homenagens, na Catedral de Abbasiya no Cairo (18 de Março de 2012)
© Esam Al-Fetori | Reuters

Os funerais no Egipto costumam ser um barómetro da popularidade de figuras públicas. Em 1975, quando a inigualável cantora Umm Kulthum morreu, muitos notaram que ao seu enterro acorreu uma maré humana – quatro milhões de admiradores – muito superior à que homenageou o venerado pai do pan-arabismo, Gamal Abdel Nasser.

Os mesmos cálculos foram feitos agora, nas exéquias de Shenouda III, o 118.º Papa de Alexandria e patriarca de toda a África: nem Muhammad Sayyid Tantawi, grande xeque da Mesquita de Aal-Azhar, suprema entidade do Islão sunita, teve tanta gente a chorar a sua perda [em 2010].

Tantawi morreu de ataque cardíaco, aos 81 anos, na Arábia Saudita, e foi sepultado na cidade de Medina; Shenouda III morreu no Cairo, aos 88, de cancro e outras complicações. O seu corpo repousa num mosteiro no Delta do Nilo, conforme desejo expresso num testamento e no mesmo lugar onde viveu um exílio sem precedentes, imposto pelo Presidente Anwar el-Sadat após recusar-se a legitimar o tratado de paz com Israel porque excluía os palestinianos.

O mais extraordinário é que o velho clérigo de barbas brancas e sorriso matreiro conseguiu na morte o que sempre tentou fazer em vida: a harmonia de cristãos e muçulmanos em igrejas e mesquitas por todo o país.

Os coptas, para Shenouda III, não podiam ser tratados como minoria (foram a maioria nos séculos IV a VI d.C.), ainda que representem só 10% de 80 milhões de habitantes. O seu lema era: “Nós não vivemos no Egipto; o Egipto vive em nós”.

Fiéis coptas despedem-se do líder espiritual. Mãos tocam a foto do Papa Shenouda III, erguida numa igreja no Cairo, durante as exéquias fúnebres, a 18 de Março de 2012. © Nasser Nasser |AP

Fiéis coptas despedem-se do líder espiritual. Mãos tocam a foto do Papa Shenouda III, erguida numa igreja do Cairo, durante as exéquias fúnebres, a 18 de Março de 2012
© Nasser Nasser |AP

Carismático e visionário, Shenouda III reprovava a atitude de Sadat de encorajar os grupos islamistas como contra-poder aos nacionalistas de esquerda que contestavam a sua política. Durante esse período, os coptas foram alvo de ataques brutais, mas o raïs ignorou os avisos – quase proféticos – do antigo monge Nazeer Roufail.

Em 1981, um mês depois de ter colocado sob detenção domiciliária o homem que foi professor e repórter antes de descobrir a sua vocação religiosa, o Presidente foi assassinado por um muçulmano extremista.

O confronto com Sadat foi o primeiro em dois séculos entre um Papa copta e um governante egípcio. No entanto, desiludiram-se os que esperavam de Shenouda III, insultado e ofendido, um apelo à vingança, quando Hosni Mubarak o recolocou no trono de São Marcos.

A 2 de Janeiro de 1985, véspera do Natal copta, Shenouda subiu ao púlpito da catedral no Cairo que deve o nome ao evangelista fundador da Igreja e disse: “Abrimos o coração aos nossos irmãos, os muçulmanos. Sentimos que eles são a nossa carne e o nosso sangue nesta nação adorada.”

A atitude ecuménica foi a marca do seu papado, e muitos crentes temem não apenas um vazio de poder mas que o sucessor não seja suficientemente firme para evitar hostilidades. Por outro lado, há também os que vêem uma oportunidade de sair do “gueto” protector a que foram confinados, defendendo agora o direito de participarem na vida social e política, como indivíduos e não como parte de uma instituição.

“O Papa Shenouda III era um homem extremamente complexo e presidiu à Igreja Copta durante o seu período provavelmente mais turbulento na História contemporânea”, reconhece, em entrevista que me deu, por e-mail, Adel Iskandar, britânico de origem egípcia, professor na Universidade de Georgetown, nos EUA.

“A tensão com Sadat foi um momento difícil para os coptas e a Igreja fechou-se em si própria. Como o Estado deixou de proteger os cristãos, o Papa e a Igreja tornaram-se os seus únicos defensores; a comunidade desapareceu praticamente da vida pública.”

Shenouda III com o Xeque Muhammad Sayyid Tantawi (à esq.), grande Mufti e Imã da Mesquita de al-Azhar que morreu. na Arábia Saudita, em 10 de Março de 2010 © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Shenouda III com o Xeque Muhammad Sayyid Tantawi (esq.), grande Mufti e Imã da Mesquita de Al-Azhar que morreria, na Arábia Saudita, em 10 de Março de 2010

Desfiando o legado do Papa cuja fotografia ornamentava muitos lares e lojas, Iskandar refere que “Shenouda III será lembrado por muitas acções contraditórias – o apoio [na candidatura às presidenciais] que deu a [Hosni] Mubarak e ao seu filho, Gamal; os apelos aos cristãos para não protestarem na Praça Tahrir, no Cairo, durante a revolução de Janeiro de 2011; mas também a atitude apaziguadora e as relações calorosas com líderes religiosos muçulmanos.”

Durante este último ano, adianta Iskandar, alguns definirão a sua posição como “intransigência”; outros como “sabedoria”. Na própria Igreja, “gerou-se mal-estar” por Shenouda III não ter condenado abertamente o Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), na sequência do “infame incidente”, conhecido como “massacre de Maspero“, em 9 de Outubro de 2011, no Cairo, quando carros de combate avançaram sobre manifestantes coptas, causando 27 mortos e mais de 300 feridos.

Sem Shenouda III, muitos coptas temem perder um porta-voz para as suas reivindicações. Nenhuma das 26 universidades no Egipto tem um reitor copta; só cinco coptas foram eleitos para o Parlamento e outros cinco escolhidos para cargos menores nas forças de segurança.

Não é raro os coptas serem julgados por “difamar o islão”, mas acusações de “infiéis” dirigidas contra eles são frequentes nos media estatais. Os templos coptas, ocasionalmente profanados e incendiados, têm dificuldade em obter licenças para serem renovados, e muito menos para que novos sejam construídos.

Adianta o académico Adel Iskandar: “Não se pode negar que os desafios para a comunidade aumentaram na era pós-Mubarak, mas, a par disso, há também uma crescente visibilidade e uma maior audácia da parte dos coptas. A identidade cristã foi suprimida durante décadas e agora está, gradualmente, a ocupar o seu espaço na nova identidade revolucionária do Egipto.”

“Muitos coptas estão mais conscientes de que foram usados como trunfos políticos pelo CSFA e por grupos islamistas com capacidade para galvanizar a população em termos sectários”, adiantou o académico Iskandar. “A dimensão da comunidade copta e a sua ligação profunda à sociedade egípcia exigem que os seus anseios sejam ouvidos.”

“Após terem sido silenciados e forçados à submissão, os coptas ganharam voz, desafiando o Estado e as forças políticas islamistas. Quem quer que venha a governar o Egipto, terá de lidar com esta nova realidade ou enfrentar agitação e instabilidade.”

Shenouda III com Anwar el-Sadat (assassinado em 1981), que o forçou ao exílio num mosteiro depois de ter criticado a sua política face aos islamistas e a Israel. À direita, Hosni Mubarak, o sucessor do Presidente que o Papa copta haveria de apoiar, mesmo quando o povo clamava na Praça Tahrir pela queda do ditador, em 2011. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Shenouda III com Anwar Sadat (assassinado em 1981), que o forçou ao exílio num mosteiro depois de ter criticado a sua política face aos islamistas e a Israel. À direita, Hosni Mubarak, o sucessor do presidente que o Papa copta haveria de apoiar, mesmo quando o povo clamava na Praça Tahrir pela queda do ditador, em 2011

O médico copta Atef Eskander, de 61 anos, residente no Cairo, concorda. Num breve depoimento que nos deu, por e-mail, escreveu: “O Papa Shenouda III será lembrado como um guerreiro da paz e herói da Igreja. Agora, chegou o momento de os egípcios coptas se juntarem à onda liberal no renascimento político do país para criar uma II República depois da revolução de 2011. O CSFA e os partidos islamistas têm de aceitar a nova realidade ou arriscam-se a que a anarquia tome conta do país.”

Com Shenouda III, a Igreja Copta expandiu-se para além das fronteiras do Egipto, sobretudo em África, na América do Norte e do Sul, onde ele próprio inaugurou várias congregações.

Na diáspora (cerca de um milhão de pessoas em 2008), um dos mais fervorosos seguidores do defunto Papa é Morcos Boulos. Nasceu há 44 anos no Cairo e aqui tem ainda familiares. Há duas décadas a residir em Brick, Nova Jérsia, nos EUA, onde é engenheiro especialista em inspecção de edifícios, diz-nos, numa troca de correspondência electrónica, que a emigração foi uma escolha pessoal, “em busca de um futuro melhor”.

O emigrante não se sentiu obrigado a fugir, ainda que seja “difícil a um cristão ter uma vida normal sem perseguições no Egipto”. Em Nova Jérsia, há uma grande congregação de coptas. “Todas as semanas, frequento os serviços religiosos”, exulta. “Adoro a Igreja Ortodoxa Copta, porque é a que melhor interpreta a Bíblia, de uma forma equilibrada e não extrema.”

Morcos Boulos só tem palavras para elogiar Shenouda III: “Sua Santidade era um grande pregador. O Espírito Santo falava pelos seus lábios. Há milhares de gravações dos seus sermões, e ele foi também autor de centenas de livros. Inteligente e erudito [licenciado em História da Arte], conseguiu o amor e o respeito de todos.”

“Ordenou 120 bispos e 800 padres; aumentou 20 vezes o número de igrejas coptas no mundo, em particular nos EUA, Austrália e Europa. Manteve intactas a fé ortodoxa copta e as tradições, tal como foram transmitidas por São Marcos.”

“Nenhuma biografia lhe fará justiça. Os coptas amam-no porque vêem Jesus nele. Era um santo. Tinha a sabedoria de Salomão, o coração de David, a filosofia de Paulo e o temor de Moisés a Deus.”

Se Moulos Boulos se regozija com o facto de Shenouda III “não ter permitido que as escrituras fossem contaminadas”, a realidade é que as restrições doutrinais que impôs em 2008, como a proibição do divórcio, excepto em caso de adultério, estão a levar discípulos para outros cultos cristãos e a encorajar até a conversão ao Islão.

O sucessor de Shenouda III como líder espiritual dos coptas ortodoxos, Papa Tawadros II (à esquerda) e o chefe da Igreja Católica Romana, Papa Francisco, durante uma audiência privada, no Vaticano, em 10 de Maio de 2013. Foi o primeiro encontro em 40 anos, e serviu de celebração da assinatura de uma declaração para melhorar os laços entre as duas igrejas, quando Paulo VI estava na Santa Sé. © Andreas Solaro | AP

O sucessor de Shenouda III como líder espiritual dos coptas ortodoxos, Papa Tawadros II (esq.) e o chefe da Igreja Católica Romana, Papa Francisco, durante uma audiência privada, no Vaticano, em 10 de Maio de 2013
© Andreas Solaro | AP

Até 1938, os coptas podiam invocar nove razões para se separarem dos cônjuges, uma delas “diferenças inconciliáveis”. Shenouda revogou essa prática e provocou um pequeno “cisma”, quando um movimento, O Direito a Viver, se afastou da ortodoxia, atraindo 4000 membros.

Uma cristã que se juntou a uma igreja evangélica é Samar Naguib, de 42 anos, casada e mãe de dois filhos, residente no Cairo. Em declarações que me deu, por e-mail, afirmou: “Shenouda III era sapiente e bondoso, mas eu não concordava com muitos dos rituais coptas nem com a ênfase que ele dava às tradições.”

“Isso agravou o fosso com outros cristãos. Ele ensinava as pessoas a História da Bíblia, mas não valorizava a relação pessoal com Jesus. Encorajava a oração através dos Salmos, mas não ajudava as pessoas a rezar com o coração.”

O que une Samar Naguib aos coptas é a preocupação de ver “74% do Parlamento nas mãos dos fanáticos da Irmandade Muçulmana. Eles vão escolher um novo presidente, em eleições previstas para Maio [de 2012 ]. As pessoas rezam para que o sucessor de Shenouda seja hábil, porque serão duros os tempos que se avizinham.”

O papel político da Igreja também “gera atritos”, observa Adel Iskandar: “Tudo está agora sobre a mesa. Haverá uma frente política copta? Devem os coptas aderir a partidos políticos e elevar a sua participação?”

“Deve a sua participação ser ditada pela Igreja? Muitos estão receptivos a reformas, de modo a confinar a da Igreja apenas a questões de religião, doutrina e escrituras, e já não a questões políticas, legais e socioculturais.”

“A Igreja tentará manter o monopólio sobre as vidas dos coptas, mas, ao contrário dos dias pré-revolucionários, não há garantia de que os coptas irão agir obedientemente apenas de acordo com as directrizes da instituição”, continuou Iskandar.

“Os cristãos reconhecem que são vulneráveis, sob o regime militar e islamista, mas não lhes interessa determinar qual destes dois poderes desfavoráveis é o mais aceitável. É improvável que os coptas voltem ao silêncio e à obediência – embora isso facilitasse mais o seu futuro.”

Egyptian Muslim women hold a cross in support of Christians during a memorial march in Cairo for Christians who were killed during deadly clashes with Muslims in April. ©Amr Nabil / AP file

Egípcias muçulmanas erguem crucifixos durante uma manifestação no Cairo de protesto contra ataques de que resultaram vários mortos na comunidade copta, em Abril de 2013
© Amr Nabil | AP

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 24 de Março de 2012 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on March 24, 2012

Antes de Simin nenhuma mulher havia escrito um romance no Irão

Aos 90 anos, morreu uma figura lendária que revolucionou a literatura persa do século XX. Deixa uma obra-prima, Savushun / ”Requiem”. Até o regime islâmico que ela criticou a homenageou. (Ler mais | Read more…)

 

Aos 27 anos, Simin Daneshvar publicou a sua primeira colectânea de contos. Chamou-lhe Atash-e Khamush / “Extinguished Fire”. Foi também em 1948 que começou a ganhar notoriedade como tradutora de inglês para persa, dando a conhecer aos compatriotas Anton Chekhov, George Bernard Shaw, Alan Paton, Nathaniel Hawthorne e outros. (Na foto, a escritora em 2007)
© rferl.org

Sabia que nós, as aves migratórias, continuaríamos a voar para o infinito, com raios de luar trespassando-nos as asas para irem tocar as penas do nosso peito *

A grandeza de Simin Daneshvar (1922-2012) está no tributo que a televisão estatal em Teerão prestou à autora da primeira antologia de contos (Atash-e Khamush / “Extinguished Fire”, 1948) e do primeiro romance (Savushun / ”Requiem”, 1969) alguma vez escritos por uma mulher no Irão.

No sábado [17 de Março de 2012], dia em que foi anunciada a sua morte, o site da Press TV homenageou “a pioneira entre as escritoras de ficção persa”, que nunca temeu abordar nos seus livros o modo como a Revolução Islâmica de 1979 afectou as várias classes sociais do país, em particular os intelectuais.

Morreu “serenamente”, na sua casa em Teerão, a 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, em consequência de uma gripe, segundo familiares e amigos. As filhas estavam na rua, a protestar contra a repressão interna e a ameaça externa de uma guerra contra o Irão.

Entre os romances mais críticos e que, surpreendentemente, a Press TV não se inibiu de enunciar, estão a antologia Whom Should I Greet? (1980) e a trilogia Island of Bewilderment, The Dazed Camel Driver e The Mountain of Bewilderment (este último volume ainda não publicado).

Em Ask the Migrating Birds (“Pergunta às aves migratórias”, 1997), um conto sobre a vida e morte de uma rapariga na República Islâmica, e incluído numa outra antologia com o mesmo nome, compôs Simin Daneshvar:

Estávamos a ordenar-nos para seguirmos para as aulas, depois das orações. A reitora agarrou-me o braço e retirou-me da fila. Ficámos as duas à frente das outras. A reitora tirou-me o lenço da cabeça. Primeiro cortou-me o cabelo ao meio com uma tesoura. Furiosamente, sem mais nem menos. A minha cabeça devia parecer o continente africano, ou então apresentava a forma do meu país. As zonas peladas eram os desertos.

Simin Daneshvar nasceu na cidade de Shiraz, berço dos grandes poetas persas Hafez e Sa’adi. Foi a a primeira directora da Associação de Escritores Iranianos
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Nascida em 28 de Abril 1921 em Shiraz, berço de dois venerados poetas persas, Hafez e Sa’adi, e o cenário de Savushun / ”Requiem”, a sua obra-prima traduzida em 17 línguas (na qual narra a história da ocupação do Irão pelos Aliados durante a II Guerra Mundial), a primeira directora da Associação de Escritores Iranianos descendia de uma importante família daquela cidade.

O pai, Mohammad Ali Daneshvar, era médico e a mãe, Qamar al-Saltaneh Hekmat, pintora e reitora na faculdade de artes.

Aos 27 anos, Simin Daneshvar publicou a sua primeira colectânea de contos. Chamou-lhe Atash-e Khamush / “Extinguished Fire”. Foi também em 1948 que começou a ganhar notoriedade como tradutora de inglês para persa, dando a conhecer aos compatriotas Anton Chekhov, George Bernard Shaw, Alan Paton, Nathaniel Hawthorne e outros.

O ano de 1950 foi marcante para esta contadora de histórias. Obteve o seu PhD, com uma tese sobre A Beleza na Literatura Persa, na Universidade de Teerão (ao mesmo tempo que trabalhava na Rádio Teerão para sustentar a família, após a morte do pai).

Casou-se com Jalal Al-e-Ahmad, um dos mais brilhantes escritores iranianos, militante de esquerda e crítico social. E foi para os Estados Unidos completar um pós-doutoramento na Universidade de Stanford (Califórnia), com uma bolsa Fullbright.

Em 1959, estava de regresso ao Irão para dar aulas de História da Arte e “sair da sombra do marido”, dez anos depois, com a monumental saga familiar Savushun / ”Requiem”.

Um livro que “revolucionou a literatura iraniana e ajudou a mudar o modo como os iranianos se vêem a si próprios, de um povo derrotado a um povo independente e com auto-estima”, elogiou, no New York Times, Stephen Kinzer, biógrafo do nacionalista Mohamed Mossadegh (derrubado pela CIA em 1952).

Savushun / ”Requiem”, a obra-prima de Simin, é um livro que “revolucionou a literatura iraniana e ajudou a mudar o modo como os iranianos se vêem a si próprios, de um povo derrotado a um povo independente e com auto-estima”
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O Xá Mohammad Reza Pahlavi considerava-a “potencialmente perigosa” e impediu a sua admissão plena nos quadros da Universidade de Teerão, anotou Kinzer. Só em 1980, porém, um ano após a queda da monarquia, ela aceitou a reforma da vida académica, sem abandonar o trabalho literário.

Num obituário publicado no site da estação televisiva Al-Jazeera, Hamid Dabashi, professor de Estudos Iranianos e Literatura Comparada na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, afirma que Simin Daneshvar “foi crucial para a ascensão da literatura persa”. E cita uma história que ela própria contava, de um jovem que um dia foi de Teerão até à sua casa em Shiraz.

O pai encorajou-a a levá-lo a um café nas redondezas para lhe dar a conhecer um herói local, Dash Akol. O jovem de Teerão, refere Dabashi, foi “o pai fundador da ficção persa e ‘Dash Akol’ tornou-se no protagonista de uma das suas maiores obras literárias”.

Acrescenta o autor de Masters and Masterpieces of Iranian Cinema (2007): “Ela estava lá quando se faziam lendas – e ela tornou-se uma delas.”

Embora Simin Daneshvar tenha vivido numa “sociedade profundamente patriarcal e intelectualmente egocêntrica”, observou Dabashi, ela “emergiu, graças ao mérito pessoal, como uma figura luminária da cena literária persa, quando um país inteiro estava enfeitiçado pelo seu marido. Sobreviveu-lhe 40 anos e a ele sobreviverá por uma eternidade.”

*Do conto ‘Ask the Migrating Birds’ (“Pergunta às aves migratórias”), incluído na antologia “Strange Times My Dear”, traduzida para português sob o título “Um Bom escritor é um escritor morto”(Ed. Nova Vega, 2009)

Simin Daneshvar and Jalal Al-e Ahmad in an undated photo, possibly from the early 1960s. @ Windows on Iran

Simin Daneshvar e o marido, Jalal Al-e Ahmad, um dos mais brilhantes escritores iranianos, militante de esquerda e crítico social, numa foto, possivelmente, do início dos anos 1960
© Windows on Iran

Este artigo, aqui na íntegra, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 20 de Março de 2012 | This article, here in the expanded version, was originally published in the Portuguese daily newspaper PÚBLICO, on March 20, 2012.

Líbia: Federação, união ou separação – eis a questão

Cirenaica ou Barqa, onde começou a revolução contra Kadhafi e jaz 80% do petróleo, ambiciona ser província autónoma. Os que se opõem defendem a unidade do país, com um sistema descentralizado. (Ler mais | Read more…)

Muammar Kadhafi foi deposto e assassinado, mas os que o derrubaram ainda não unificaram o país nem restabeleceram a identidade nacional, muito enfraquecida durante o regime do ditador
© Majid Saeedi | Getty Images | The Atlantic

Num país onde a mesquita e o futebol eram as únicas válvulas de escape para as frustrações acumuladas sob o domínio de Muammar Kadhafi, há um episódio que os habitantes de Cirenaica não esquecem nem perdoam: o dia em que Al Saadi, terceiro dos sete filhos do coronel, proibiu o principal clube da maior cidade do Leste da Líbia, Al Ahly Sc (Benghazi), de jogar na Liga Nacional.

Quem viu as ruínas do estádio, totalmente demolido, não se admira que a província berço da revolução reclame agora autonomia num sistema federal.

Comandante das Forças Especiais do pai (tal como os irmãos Mutassim e Khamis), presidente da Federação Nacional de Futebol, proprietário e capitão do Al Ahly SC (Tripoli), rival da equipa homónima em Bengazi, Al Saadi Khadafi ainda ambicionava ser aclamado como “jogador de elite”.

Os que não lhe reconheciam esse atributo eram reprimidos, e assim aconteceu em 2000, depois de, na presença de dignitários estrangeiros que assistiam à final do campeonato líbio, os fervorosos adeptos do Al Ahly SC (Benghazi) terem vaiado e troçado de Al Saadi, vestindo um burro com as cores do Al Ahly SC (Tripoli).

Seguiu-se uma ofensiva que levou a várias detenções, mas o pior estava para vir, quando Al Saadi ordenou que o Al Ahly SC (Benghazi) fosse relegado para a segunda divisão, após um penálti duvidoso a favor do Al Akhdar. O jogo foi suspenso. Os fãs foram para o centro da cidade insultar Saadi e queimar efígies de Muammar.

Os mukhabarat (serviços secretos) foram chamados a intervir. O estádio e outras instalações do Al Ahly SC (Benghazi) foram reduzidos a escombros.

Rusgas policiais às casas dos manifestantes resultaram em 80 detidos; 30 julgados por “vandalismo, destruição de propriedade pública e laços com dissidentes no estrangeiro”; e três condenados à morte.

O Leste da Líbia apenas quer recuperar a glória do passado, e uma das suas exigências é voltar a ser a capital económica do país
© albawaba.com

Bengazi pagou um preço elevado por ter desafiado um regime onde os relatores de futebol só podiam identificar os jogadores pelos números nas camisolas e não pelos nomes – excepto no caso de Saadi.

Naqueles tempos, sempre que o Al Ahly SC (Tripoli) jogava era como se a legitimidade do “Guia da Jamahiriya” (República de Massas) fosse posta à prova.

Al Saadi ingressaria, posteriormente, em vários clubes estrangeiros, em Malta e Itália, ora suspenso ou desterrado no banco de suplentes, dando azo a uma anedota, entre os habitantes de Bengasi, de que o homem agora nas mãos de uma milícia que o capturou juntamente com o irmão Saif al-Islam era “o único futebolista que pagava e não era pago para jogar”.

[Em Maio de 2012], quando cerca de 3000 líderes tribais e chefes de milícias da Cirenaica proclamaram uma região semi-autónoma no Leste, Adel Mekraz, um activista líbio que em 1982 se exilou nos EUA, onde obteve cidadania americana e é professor de Engenharia na Universidade de Wisconsin-Stout, não ficou surpreendido.

“Durante quase 40 anos, Bengazi, com um milhão de habitantes, a segunda maior cidade depois de Trípoli, não teve água potável e rede de esgotos, estradas e auto-estradas”, disse-nos. “O contrário de Sirte, mais pequena, favorecida por ser a terra-natal do ditador.”

“Muitas pessoas no Leste” – onde se encontra 80% do petróleo do país -, adianta Mekraz, numa entrevista por e-mail, “sentem que foram punidas porque muitos destacados opositores eram desta região.

Agora, já não toleram ser negligenciadas e aspiram a ter um governo regional em Bengazi que possa responder rapidamente às suas necessidades; que não sejam obrigadas a percorrer centenas de quilómetros até à capital só para carimbar um documento.”

“Tendo em conta a lentidão de progressos por parte do Conselho Nacional de Transição [CNT], a paciência esgotou-se”, referiu Mekraz. “Quatro décadas depois, demonstraram que não podem continuar à espera, sobretudo depois de a Líbia se ter libertado de um ditador por uma revolução iniciada em Bengazi.”

Um dos maiores factores de desestabilização na Líbia continua a ser a proliferação de milícias rivais em todas as regiões do país
© Agence France-Presse | The National

Mekraz discerne uma razão para o interesse num sistema federal, englobando as províncias de Cirenaica (Barqa, em árabe), Tripolitânia e Fezzan, porque era este que vigorava quando a Líbia se tornou independente em 1951.

“Não há nada de errado na pressão para que seja adoptado o federalismo”, refere o académico que ainda tem familiares e amigos na Líbia, e mantém contactos com o CNT.

“O problema está no facto de o grupo que proclamou a autonomia ter tomado uma decisão unilateral, sem esperar pelos resultados de um referendo. Convém dizer também que as 3000 pessoas que participaram na conferência não são delegados do povo, apenas se representam a si próprias.”

Opinião semelhante é expressa por Hoda Abdel-Hamid, repórter da cadeia de televisão Al Jazeera, recém-regressada da região: “O Leste apenas quer recuperar a glória do passado, e uma das suas exigências é voltar a ser a capital económica da Líbia.” Uma das pretensões é a de que o Ministério do Petróleo e o Banco Central se mudem para Bengazi”.

“Do que me apercebi, creio que muito poucas pessoas concordam com uma separação”, acrescenta a jornalista, numa troca de correspondência, via e-mail e Facebook.

“As pessoas estão conscientes de que uma nova guerra civil não beneficiará ninguém e de que a NATO não voltará a ajudar. As memórias dos combates recentes e de Kadhafi ainda estão muito frescas. O que a Líbia discute agora é a descentralização e como a conseguir.”

“A decisão [em Bengazi]”, adianta Hoda Abdel-Hamid, “tem sobretudo a ver com a partilha de poderes. O Leste, geograficamente longínquo de Trípoli, quer ter a certeza de que vai ter a sua parte do bolo.

Os habitantes locais têm protestado contra o CNT acusando-o de não ser suficientemente transparente e de ser ineficaz, por isso formaram o seu próprio conselho de governo”, dirigido por Ahmed al-Zubair al-Sanoussi, sobrinho-neto do deposto Rei Idris, o mais antigo dos ex-prisioneiros políticos, galardoado em 2011 com o Prémio Sakharov.

“Tudo irá depender da definição de federalismo. Mas se a Cirenaica se tornar independente, outras regiões vão clamar por um acordo semelhante”, acrescenta Hoda Abdel-Hamid.

Um dos maiores dramas do conflito na Líbia é o de milhares de refugiados que tentam chegar às fronteiras (fechadas) da Europa, muitos deles morrendo na travessia do Mediterrâneo
© Mahmud Turkia | AFP | Getty Images| The Intercept

Hoda Abdel-Hamid e Adel Mekraz crêem que os opositores de um sistema federal são a maioria neste momento. O professor líbio recorda que “pelo menos 120 organizações da sociedade civil no Leste” manifestaram-se, este mês, contra uma federação.

E, embora ele reconheça “os muitos benefícios e vantagens” de um sistema como o dos EUA, onde reside, insiste em que “é preciso primeiro unificar o país e restabelecer a identidade nacional, muito enfraquecida durante o regime de Kadhafi”.

Porque a Líbia é um país onde “uma elevada percentagem da população ainda se sente mais confortável quando associada à sua localidade ou tribo”.

Larbi Sadiki, professor de Política do Médio Oriente na Universidade de Exeter (Reino Unido), está convencido, por seu lado, de que “a única maneira de manter a Líbia unida” é adoptando um sistema federal.

“A História fornece provas claras no que concerne a este facto: o federalismo permitiu estabilidade durante 12 anos”, sublinha, numa entrevista que nos deu, por e-mail.

“Numa primeira fase da sublevação, quando parecia que o statu quo seria um empate entre as tropas de Kadhafi e as forças rebeldes, alguns responsáveis do CNT discutiram a possibilidade de uma divisão: o CNT administraria o Leste e Kadhafi controlaria o Oeste.”

Especialista em temas do Norte de África, autor de Arab Democratization: Elections without Democracy, Sadiki salienta que “uma conferência capaz de reunir 3000 personalidades de Barqa indicia uma tendência regional a favor da autonomia”.

A sociedade líbia, acentua, “é uma rede de entidades tribais num milieu urbano. Permanecem clivagens históricas. Cada região tem a sua própria experiência política dos períodos otomano, colonial, monárquico e republicano.”

Explosão num oleoduto no sul da cidade de Aidabiyah, em Abril de 2013: o petróleo está nas mãos do governo que controla o leste; o Banco Central está sob controlo do governo em Trípoli
© Esam Al-Fetori | Reuters

Sadiki admite que a proclamação de autonomia na Cirenaica/Barqa “possa incentivar a Tripolitânia e Fezzan [as outras duas províncias] a procurar uma representação viável no CNT para também serem autónomas. Um processo bem ou mal sucedido, desintegração ou guerra civil, tudo vai depender do modo como os actores políticos se envolvem.”

“Na conferência em Bengazi, os participantes concordaram em que a política externa, o exército nacional e as reservas de petróleo ficariam sob a alçada de uma autoridade federal, enquanto a habitação ou educação seriam da responsabilidade do estado regional. É significativo que tenha sido defendida uma divisão de funções e não do país”.

“Há novas esferas de influência e de poder – formas de organização localizadas, para garantir a segurança e administrar áreas onde o CNT não chegou. A separação tem sido, de facto, o statu quo, sobretudo quando as instituições de um Estado moderno estão ausentes do terreno.”

A proclamação de autonomia em Bengazi foi vista como prova da fragilidade do governo transitório, de certa maneira refém de milícias (thwar). Mekraz comenta: “Há um grupo de pessoas que conquistou poder político por ter chefiado milícias, e o desarmamento destas significa abdicarem dos poderes que exercem.”

Hoda Abdel-Hamid, a jornalista da Al Jazeera, considera que pior do que os milicianos zintanis são os de Misurata: agem como polícias, juízes e carrascos.

“As milícias são a ameaça mais desestabilizadora. Outra questão a definir é a das armas; sem uma contagem oficial de quem tem o quê será impossível avaliar se todas foram entregues. Zintan e Misurata ocupam cargos ministeriais [Defesa e Interior], e esse era um dos seus objectivos.”

“As milícias tornaram-se trunfo político, tal como o petróleo. Este problema está ligado à proximidade de eleições, redacção de nova Constituição e formação de um Exército nacional.”

Numa Líbia com dois governos rivais, a esperança de um futuro melhor, após o desaparecimento de Kadhafi, extingue-se a cada dia que passa
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Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 14 de Março de 2012 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on March 14, 2012