“Yeah, he can”, acredita Marissa

Niankoro Yeah Samaké confiava em que seria o primeiro chefe de Estado mórmon num país 90% muçulmano. Uma rebelião tuaregue e um golpe militar adiaram o sonho* A sua mulher, de origem indiana, diz que está susegad – isto é, “sossegada”, na língua Konkani, mistura de Goês e Português. (Ler mais | Read more…)

Oriundo de uma família pobre de Ouélessébougou, a sul de Bamako, capital do Mali, o mórmon Yeah é o oitavo dos 17 filhos de Tiecourafing Samaké e de uma das suas três mulheres. Entre passar fome e estudar, o pai optou pela educação, porque acreditava ser o único meio de escapar da miséria
© Niankoro Yeah Samaké

Há uma palavra que une a história passada e presente de Marissa Coutinho Samaké: “Rebelião”. O seu trisavó “fundou Cuncolim”, aldeia onde a população local se insurgiu, pela primeira vez, contra a administração portuguesa desde a conquista de Goa em 1510.

[Quando almejava tornar-se na primeira-dama do Mali, uma revolta tuaregue e um golpe de Estado neste país da África Ocidental adiaram o sonho do marido de ser presidente, após uma campanha sob o lema Yeah, we can.]

Niankoro Yeah Samaké, 43 anos, um cristão mórmon (culto que até há pouco tempo excluía os negros) num país maioritariamente muçulmano (90 por cento), era apontado como “o candidato favorito”, num total de 20, às suspensas eleições de 29 de Abril.

“Ele contou-me que quando a mãe estava grávida uma feiticeira previu que ele faria coisas grandiosas”, diz Marissa, numa troca de correspondência, via Facebook e e-mail.

“Por isso, a mãe, Sanamba Doumbia, criou o filho acreditando e fazendo-o acreditar nesse destino. Quando me confessou que iria candidatar-se à Presidência, pensei que apenas queria conquistar-me mas, depois de nos casarmos, percebi que tudo o que ele fazia o aproximava desse objectivo.”

[Os planos de Yeah sofreram um revés inesperado na sequência do golpe que, a 21 de Março [de 2012], destituiu Amadou Toumani Touré (A.T.T.), o homem que ascendera à chefia do Estado em 1991, após derrubar o predecessor, Moussa Traoré.]

“Os Estados Unidos já suspenderam a ajuda militar; o Banco Mundial e a União Europeia também interromperam a sua assistência”, lamenta Marissa Samaké, nascida no Bahrain, onde vivem e trabalham os pais, indianos e católicos de Goa.

“No Norte, os tuaregues progrediram e esperamos o pior; o Sul permaneceu calmo, com tudo a funcionar. Os militares têm insistentemente prometido que devolverão o poder aos civis assim que recuperarem o controlo do Norte, mas especula-se de que será preciso esperar seis a 12 meses, porque não foi marcada qualquer data.”

Niankoro Yeah Samaké não foi eleito presidente. Em 2015, assumiu as funções de embaixador do Mali na Índia, o país de onde é originária a família da sua mulher, Marissa Coutinho
© malijet.com

Amadou Touré, que não tenciona recandidatar-se ao posto para o qual foi reeleito em 2007, está em paradeiro desconhecido [até Abril de 2013, quando anunciou que pedira asilo ao vizinho Senegal]. O capitão golpista, Amadou Sanago, acusou-o de não ter equipado devidamente o exército para neutralizar os rebeldes, sob suspeita (que eles negam) de colaborarem com a al-Qaeda no Magreb.

Tradicionalmente pastores nómadas de dialectos tamazight (berberes), o povo que se define como “Os livres” e Tamust (Nação) para contrariar os que lhes chamam “Abandonados por Deus” totalizará entre 100 mil e 3,5 milhões. Habita os vastos desertos do Sahel e do Sara que se estendem da Líbia ao Burkina Faso.

Sentindo-se marginalizados e alvo de ataques por parte de milícias governamentais, os tuaregues no Mali (cerca de um milhão) desencadearam insurreições de 1962 a 1964; de 1990 a 1995; e de 2007 a 2009 (ano em que assinaram um acordo de paz).

A chave de ignição para a revolta em curso terá sido o regresso de cerca de 4000 combatentes que haviam servido em batalhões de Muammar Khadafi até à morte do ditador líbio.

Enfurecidos com este desfecho e perante a incapacidade de o governo de Touré os inserir na região que designam por Azawad, os mercenários em fuga instalaram-se em Kidal, “capital” do Norte.

Aqui, em conjunto com outros grupos separatistas, fundiram-se no Movimento Tuarege do Norte do Mali (MTNM), formando posteriormente o Movimento Nacional para a Libertação do Azawad (MNLA).

O MNLA, para o qual Azawad inclui também o Norte do Níger e o Sul da Argélia, terá sido reforçado com desertores do Exército maliano e controlará a estratégica Kidal, que abastece as duas maiores cidades do Norte: Gao e Timbuktu.

Ora, foi neste paraíso turístico, que a vida de Yeah Samaké se alterou radicalmente, quando conheceu um casal membro da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (SUD, Mórmones), que o levou para os Estados Unidos.

A ligação portuguesa “é tão profunda”, diz Marissa Samaké, “que é impossível imaginar Goa sem ela”. A língua konkani, por exemplo, tem influências do português, visíveis nos apelidos, como o dela – Coutinho
© Marissa Samaké

A história começa em Ouélessébougou, localidade de 35 mil residentes, 80 quilómetros a sul de Bamako, a capital do Mali, onde o oitavo dos 17 filhos de Tiecourafing Samaké e de uma das suas três mulheres nasceu em 1969.

A família era muito pobre – embora tivesse sido um dos antepassados, Ouelessee, quem estabeleceu a comunidade no século XIX –, mas entre passar fome e estudar, o pai optou pela educação, por considerar ser o único meio de escapar da miséria.

Em várias entrevistas que tem dado, Yeah Samaké relembra os tempos de infância em que ele e os seus irmãos “acordavam durante a noite com fome”, e como a mãe lhes “atava a barriga com lenços” para minorar as dores.

Agradece ao pai a “visão inspiradora”, porque hoje todos os filhos de Tiecourafing, rapazes e raparigas que foram para a escola e não para os campos, têm formação universitária. 

Terminada a licenciatura em Inglês, na École Normale Supérieure de Bamako, Yeah regressou à terra natal onde deu aulas durante três anos, ao mesmo tempo que ganhava dinheiro extra como guia e intérprete para a ONU e o Peace Corps.

Também colaborava com a Ouéléssébougou-Utah Alliance, organização fundada por personalidades norte-americanas.

Foi assim que conheceu Jeff e Gretchen Winston, mórmones do Colorado. Ambos “impressionados com a ética e a devoção” de Yeah, pagaram-lhe a viagem até à Brighton Young Univeristy (BYU), propriedade da Igreja LDS, onde concluiu um mestrado em Política Pública.

Mais tarde, já profissional experiente, criou a Mali Rising Foundation – plataforma para as aspirações presidenciais que lhe permitiu voltar à pátria.

Na BYU, Yeah conheceu Marissa.

Niankoro Yeah Samaké em campanha eleitoral, quando ainda havia esperança de vir a tornar-se “o Obama do Mali”
© desertnews.com

Esta é a história dela, como tal como ela a contou por e-mail:  “Nasci em 1983, na pequena ilha do Bahrain, no Médio Oriente, para onde emigraram os meus pais, quando a Índia ainda não oferecia boas oportunidades de emprego.

Eles são naturais de Goa, onde permanecem os restos mortais dos meus antepassados. Mantenho um passaporte indiano. A minha história em Goa remonta aos dias em que o meu trisavô fundou a aldeia de Cuncolim.”

Foi aqui, em 25 de Julho de 1583, que os habitantes de Goa desafiaram, pela primeira vez, a administração portuguesa, num incidente que a Igreja Católica Romana regista como o “Martírio de Cuncolim”: o assassínio de cinco padres jesuítas e outros 15 cristãos, em protesto contra a demolição de templos hindus e a conversão forçada ao catolicismo.

A contra-represália foi igualmente sangrenta: a execução, sem julgamento, da maioria dos líderes da casta dos Xástrias.

As memórias de Marissa Samaké não são dos “cinco séculos de Goa como colónia de Portugal”. Ela prefere recordar os vestígios da “música, comida, vestuário, arquitectura, com belas igrejas e capelas.”

Ou como ela sublinha: “A ligação portuguesa é tão profunda, que é impossível imaginar Goa sem ela – seria como imaginar a minha vida sem todas as coisas que fazem de Goa o estado belo e culturalmente rico que é.

A língua konkani, por exemplo, tem influências do português, visíveis nos apelidos, como o meu – Coutinho”. O mesmo acontece com a religião, que continua a ser maioritariamente católica entre os cristãos. “Durante 21 anos, fui católica”, revela. “Só me converti ao mormonismo no Utah, em 2004.”

© jacobscottphotography.com

No Bahrain, Marissa Coutinho viveu 20 anos na companhia dos pais. Frequentou primeiro uma escola católica britânica dirigida por freiras, e depois uma escola indiana.

Em 2002, a mãe, que trabalha para a Embaixada dos EUA no Bahrein, quis enviá-la para “a terra das oportunidades” e ela inscreveu-se em muitas universidades.

“No entanto, mesmo com uma bolsa, algumas das que me aceitaram estavam fora do alcance das capacidades financeiras dos meus pais, que já financiavam a educação do meu irmão no Florida Institute of Technology (FIT)”, explica. “Escolhi a BYU, por ser a mais acessível e porque me parecia uma boa universidade.”

Em 2003, Marissa mudou-se para o Utah e, desde logo, ficou “impressionada por as pessoas estarem sempre felizes”. Por esta altura, conheceu Yeah Samaké. “Veio ter comigo e disse-me que nunca tinha visto uma mulher tão linda; eu pensei que ele havia enlouquecido – já ninguém dizia essas coisas”, revela.

“Ele já pertencia à LDS. Eu comecei a estudar as escrituras mórmones e decidi também juntar-me à Igreja. Fui baptizada a 29 de Maio de 2004. Somos uma de raras famílias mórmones no Mali.”

A propósito de Mississipi Masala, realizado por Mira Nair, a história de uma família indiana forçada por Idi Amin a fugir do Uganda para a América, onde rejeita, por preconceito, o namoro da filha com um negro, Marissa responde, quando inquirida sobre se os pais, católicos de Goa, aceitaram o seu casamento com um africano?

“Vi esse filme antes de conhecer Yeah e sempre achei uma insanidade que aquela família indiana não conseguisse superar a sua agenda pessoal. Quem diria que, anos depois, eu me iria ver na mesma situação? Inicialmente, a minha família ficou furiosa.”

“Os indianos não gostam da mistura de sangue, embora isso esteja a mudar com as novas gerações. O tempo tudo cura e a minha decisão acabou por ser aceite.”

Marissa e Yeah Samaké com os filhos, no Mali
© firstladymali.files.wordpress.com

Também não foi fácil, para Marissa, mudar-se de uma das nações mais desenvolvidas para o segundo país mais pobre. “A vida aqui nunca é igual”, relata.

“Há dias de marasmo e outros em que os minutos são escassos. Na América, eu era gestora, por isso foi uma mudança drástica: ficar em casa a cuidar dos filhos e, simultaneamente, dirigir a campanha do meu marido.”

“Em todo o caso, a mudança para o Mali foi uma grande lição para os nossos filhos. Ensinou-os a ver o mundo de maneira diferente.”

Marissa acredita que os jovens do Mali, “ansiosos por um líder com novas ideias” olham para Yeah como um novo Obama, alguém que “veio do nada, mas marca a diferença”, desde que foi eleito presidente da Câmara de Ouélessébougou.

Aqui, encorajou a iniciativa privada, criou empregos, construiu escolas e um hospital, melhorou os sistemas de abastecimento de água e de esgotos, aperfeiçoou a colecta de impostos para prevenir a corrupção. Fazer isto e mais ainda é uma das suas promessas eleitorais.

“A esperança que ele desperta levou a que muitos jovens sugerissem como lema de campanha ‘Yeah, we can’, imitando o de Obama”, salienta Marissa Coutinho Samaké.

Quanto a ela, apesar da instabilidade no Mali, assegura que está susegad – ou sossegada, como se diz em Konkani, a língua que mistura o Goês e o Português, “palavras diferentes com sonoridades semelhantes”.

[As eleições de 29 de Abril de 2012 foram adiadas para 11 de Agosto de 2013. O vencedor (reconhecido pela comunidade internacional) foi Ibrahim Boubacar Keïta, 68 anos, chefe do Governo entre 1994 e 2000.

O seu mais directo adversário, que admitiu a derrota, era Soumaïla Cissé, antigo ministro das Finanças. Na primeira volta, nenhum dos 27 candidatos conseguira mais de 50% dos votos necessários – Yeah Samaké obteve apenas 0,56%.]

Os planos de Yeah Samaké de chegar à Presidência do Mali sofreram um revés inesperado na sequência de um golpe que, a 21 de Março de 2012, destituiu Amadou Toumani Touré, que ascendera à chefia do Estado em 1991
© Niankoro Yeah Samaké

Este artigo, agora actualizado, e com um título diferente, foi publicado originalmente pelo jornal PÚBLICO, em 30 de Março de 2012 | This article, now updated, and under a different headline, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on March 30, 2012

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