Ir ao fundo do mar (e voltar) é um sonho

A que corresponderia hoje uma viagem no Titanic? Talvez dez minutos no espaço a ver brilhar as estrelas; um mergulho no ponto mais escuro do oceano; um cruzeiro transatlântico ou à volta do mundo. Um século após o naufrágio do “navio inafundável”, o sonho de uma vida continua a superar o medo da morte. (Ler mais | Read more…)

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Com os mecanismos de segurança que existem agora, desde satélites a GPS, a tragédia do Titanic talvez tivesse sido evitada. Hoje, o comandante de um navio de cruzeiro de luxo pode avistar a 30 km de distância o tamanho de uma onda
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Porque tem 44 anos e “a esperança de vida é cada vez maior”, Mário Ferreira não quer morrer sem ir à Lua e aqui ficar alojado “num resort”. Até lá, prepara-se para um voo suborbital – o primeiro cliente português entre os 86 pioneiros do projecto turístico espacial da Virgin Galactic.

Antes disso, aguarda a inauguração de um hotel subaquático no emirado árabe do Dubai, onde tenciona passar uma semana no interior de uma cápsula. Para o homem que fundou a empresa Caminho das Estrelas, estes planos “podem ser comparados” aos dos passageiros que há 100 anos embarcaram no Titanic: para os mais ricos, era um sonho; para os mais pobres, o meio de chegar a um sonho.

Com divisórias interiores semelhantes às do Palácio de Versalhes, o Titanic foi concebido para ser o mais luxuoso e superior paquete na época, dirigido em particular ao segmento das elites que precisavam de se deslocar da Europa à América pelo menos uma vez por ano.

A sua construção – avaliada em 7,5 milhões de dólares – começou em 1909 e ficou concluída três anos depois. A 10 de Abril de 1912, o colosso que a companhia White Star proclamara “inafundável”, partiu de Southampton (Inglaterra), com destino a Nova Iorque, levando a bordo mais de 2200 pessoas.

A primeira classe acomodava algumas das personalidades mais ricas e influentes do mundo; na segunda e terceira classe, estavam os menos abastados, centenas deles emigrantes.

No dia 14, cerca de 600 quilómetros a sul da Terra Nova (Canadá), às 23h40 locais, o navio colidiu com um icebergue. Duas horas e 40 minutos depois, partiu-se ao meio e afundou-se a partir da proa. Balanço: 1517 mortos (a maioria de hipotermia, não por afogamento) e 710 sobreviventes.

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A 10 de Abril de 1912, o Titanic partiu de Southampton com destino a Nova Iorque, levando a bordo mais de 2200 pessoas. A primeira classe acomodava algumas das personalidades mais ricas e influentes do mundo; na segunda e terceira, estavam os menos abastados, centenas deles emigrantes
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Com os mecanismos de segurança que existem agora, desde satélites a GPS, a tragédia do Titanic teria sido, provavelmente, evitada, diz-nos Fernando Borges, assessor de imprensa da Melair, representante internacional da Royal Caribbean International (22 navios) e da Celebrity Cruises (10 navios). “Só para ter uma ideia: um comandante pode avistar a 30 quilómetros de distância o tamanho de uma onda”.

Uma das jóias da coroa da Royal Caribbean e o que mais vezes visita Lisboa por ano (para 2012 estão programadas 12 escalas) é o Independence of the Seas, da classe Freedom que, a par do seu irmão gémeo Liberty of the Seas, é “o maior navio de cruzeiro do mundo a navegar na Europa”. Os maiores (40 por cento superiores) em estrutura operam só nas Caraíbas.

Com 268,8 metros de comprimento, 28,2 de largura, 41 mil toneladas e capacidade máxima de 899 tripulantes e 2208 passageiros, o Titanic jamais competiria com a “cidade flutuante” que é o Independence of the Seas: 339 metros de comprimento; 56 de largura; 160 mil toneladas; capacidade para 3634 passageiros e 1400 tripulantes (oriundos de 65 países); 733 camarotes interiores, 240 exteriores com vista de mar e 844 com varanda, alguns com 140m2, permitindo alojar uma família de 14 elementos.

O comprimento equivale a cinco Boeing 747 (só a Promenade, uma zona central de lojas, restaurantes e bares é do tamanho do novo Estádio de Wembley); pesa o equivalente a uma manada de 32 mil elefantes adultos; distribui-se por 15 decks com casino (com 308 slot machines e 19 mesas de jogo); tem teatro (1350 espectadores, mais do que o Piccadilly Theatre, em Londres).

Tem ainda pista de patinagem no gelo, ringue de boxe, discoteca com 2 pisos, piscina com simulador de ondas para prática de surf e bodyboard, 4 jacuzzis (dois suspensos a 34 m sobre o mar), campo de basquetebol, parede de escalada, campo de minigolfe de 9 buracos, solário, spa (com 17 salas de tratamento), fitness center, cabeleireiro, biblioteca, capela para casamentos, sete restaurantes, e ainda um infantário.

Photo 3 - Titanic

Com divisórias interiores semelhantes às do Palácio de Versalhes, o Titanic foi concebido para ser o mais luxuoso e superior paquete na época, dirigido em particular ao segmento das elites que precisavam de se deslocar da Europa à América pelo menos uma vez por ano
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Perante esta oferta, não admira que um cruzeiro se mantenha “um sonho agora ao alcance de muito mais pessoas, sejam casais, reformados ou grupos de jovens amigos, sem perder o glamour”, salienta Fernando Borges, exultante porque todas as viagens organizadas pela Melair têm 100 por cento da capacidade preenchida e, para 2013, já há reservas confirmadas.

Uma viagem transatlântica de 13 noites, com a Royal Caribbean ou a Celebrity Cruises oscila entre os 899 e os 1150 euros. Uma volta ao mundo, a vocação de 2 dos 3 três navios da Cunard (a companhia rival da defunta White Star) – o Queen Mary II e o Queen Victoria –, com escalas na Madeira e em Lisboa, respectivamente, vai dos 9870 euros (antes 24.036€) até 16.020euros (antes 34.420€).

Numa época em que não havia jactos nem aviões para ligar dois continentes, a White Star, do magnata J.P. Morgan (que não fez a fatídica viagem inaugural) quis competir com a Cunard, que dominava este mercado marítimo, mas o naufrágio do Titanic foi também o seu colapso.

Aos 20 anos de idade, na sua primeira volta ao mundo, Mário Ferreira, nascido em Matosinhos em 1968, lembra-se que quando trabalhava para a Cunard, “cada cliente pagava por 107 dias de viagem 200 mil dólares” ou mais de 150 mil euros – a mesma quantia que ele desembolsou para, em breve, contemplar o espaço, durante “dez minutos”, subindo a 5000 metros de altitude, a quase 4200 quilómetros por hora, mais de três vezes a velocidade do som – uma “sensação inimaginável”.

É uma quantia não acessível a todos e em tempos de crise, mas o futuro astronauta relativiza o preço, em declarações que nos fez, por telefone: “Hoje, sabe a quanto equivaleria um bilhete [de 4350 dólares] para um camarote de primeira classe no Titanic? Uns 70 mil euros ou mais!”

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A 14, de Abril de 1912, 600 quilómetros a sul da Terra Nova (Canadá), às 23h40 locais, o Titanic colidiu com um icebergue. Duas horas e 40 minutos depois, partiu-se ao meio e afundou-se a partir da proa. Balanço: 1517 mortos (a maioria de hipotermia, não por afogamento) e 710 sobreviventes
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“O espaço é o que de mais original temos em turismo”, salienta Mário Ferreira, atribuindo o fracasso do empreendimento do Titanic a vários factores, um deles a ambição irreflectida de querer bater o recorde da travessia ignorando os (6) avisos de aproximação de icebergues. “Só tem medo e se assusta quem confronta o desconhecido e é apanhado de surpresa; eu não deixo nada ao acaso.”

Sinal dessa confiança é o facto de embora a primeira nave, onde ele seguirá, ainda não ter descolado – talvez no próximo ano –, e já terem sido vendidas 500 viagens, cinco delas em Portugal.

“Posso dizer que ultrapassou as nossas expectativas”, adiantou Sérgio Figueira, presidente da Caminho das Estrelas-Turismo Espacial, S.A., que representa a Virgin Galactic, do multimilionário Sir Richard Branson.“Com a massificação do negócio – e está a aparecer concorrência – , é natural que os preços desçam até 10 por cento”, disse, recordando também que os primeiros voos comerciais transatlânticos, a seguir à II Guerra Mundial, custariam actualmente 50 mil euros. “Quem imaginaria que teríamos no presente várias companhias com ofertas low cost?”

Proprietário de Helitours (em pequeno, queria ser piloto de helicópteros) e da Douro Azul (que oferece passeios fluviais e terrestres junto ao rio que o deslumbra desde a infância), Mário Ferreira tem vindo a preparar-se para o primeiro voo suborbital já a pensar na próxima etapa: “a estadia em hotéis à volta da Terra, onde será possível, num só dia, ver 17 vezes o nascer e o pôr-do-Sol”.

Mário Ferreira faz parte de um primeiro grupo que se submete a testes “mais ou menos difíceis, mais ou menos agradáveis”, que servirão para “definir o perfil” dos futuros passageiros espaciais. É no Nastar Center, em Filadélfia (EUA), que ele e os companheiros de aventura (inicialmente eram 100) testam a saúde e resistência a “emoções fortes”.

O teste “mais interessante” até agora foi o da gravidade zero, uma “experiência que vale” os 4000 euros que o Caminho da Estrelas (também envolvida no merchandising de brinquedos temáticos) cobra e que, no seu site, descreve como um “voo parabólico”, a bordo de um Boeing 27 Zero G, entre 7 e 11 quilómetros de altitude. “

Cada parábola tem uma extensão de cerca de 16 quilómetros para percorrer e demora aproximadamente um minuto.” Trata-se de uma “manobra um pouco semelhante a uma montanha-russa”: o avião “inicia a trajectória a 45 graus e com ‘o nariz para cima’; de seguida, é ‘empurrado’ do topo para atingir o segmento da gravidade zero das parábolas.” Durante 25 a 30 segundos, “nada no interior do avião terá peso”.

Spa Terrace

Com 268,8 metros de comprimento, 28,2 de largura, 41 mil toneladas e capacidade máxima de 899 tripulantes e 2208 passageiros, o Titanic jamais competiria com a “cidade flutuante” que é o luxuoso navio de cruzeiro Independence of the Seas (na foto): 339 metros de comprimento; 56 de largura; 160 mil toneladas; capacidade para 3634 passageiros e 1400 tripulantes. O comprimento equivale a 5 aviões Boeing 747
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A cerca de 30 graus e “de nariz para cima”, começa a manobra de saída, que é “suave” e permite aos passageiros “estabilizar no chão”. A força G aumenta depois “gradualmente até cerca de 1.8” e o avião atinge uns oito quilómetros de altitude. É como uma “queda livre no pára-quedismo”, sendo que, neste caso, “o avião rodeia os passageiros e protege-os do vento”.

Os que não tiverem dinheiro (e/ou coragem) para um voo suborbital ou um de gravidade zero, a Caminho das Estrelas propõe visitas ao Centro Espacial Kennedy onde famílias podem simular voos ou ver como se constrói e lança um foguetão. Um passe de um dia custa 21 dólares por adulto e 15 por criança (excluindo a viagem para os EUA). Um pacote que inclui almoçar com um astronauta custará mais 25 dólares.

Apto, física e psicologicamente, para o voo suborbital, Mário Ferreira acredita que uma fase intermédia estará próxima: os aviões supersónicos, como o Concorde (extinto em 2003), onde viajou várias vezes. “A tecnologia avançada e eficiente da Virgin facilitará o desenvolvimento de jactos com plataforma de lançamento, descida no ângulo da partida, o que tornará possível, por exemplo, ir de Londres a Sydney (Austrália) em apenas duas horas.”

O caminho para a Lua será também mais fácil, quando “dentro de uns 20 anos”, for viável (e a Bigelow Aerospace, no Nevada, está a tratar disso) instalar bases à volta da Terra que sirvam para reabastecimento das naves. “O problema de momento é o do transporte, porque levar 30 por cento de carga útil para fora da atmosfera terrestre obriga a consumir 70 por cento do combustível”, acrescenta.

Photo 6 - Titanic

Em associação com a Virgin Galactic, de Richard Branson, a empresa portuguesa Caminho das Estrelas, propriedade de Mário Ferreira (candidato a astronauta) propõe aos que “não tiverem dinheiro (e/ou coragem)” para um voo suborbital ou de gravidade zero, visitas ao Centro Espacial Kennedy onde famílias podem simular voos ou ver como se constrói e lança um foguetão
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“Chegar à Lua é o meu limite”, salienta o empresário que, não obstante ser adepto do mergulho, não se imagina a seguir as pisadas de James Cameron, realizador do filme Titanic, que, este ano, num submersível em forma de torpedo, desceu sozinho à Fossa das Marianas, no Pacífico – “o ponto mais fundo de todos os oceanos, onde nunca brilha um único raio de sol”.

Demorou duas horas e 36 minutos e ficou com cerca de 11 quilómetros de água por cima da cabeça. Os últimos visitantes tinham sido o oceanógrafo suíço Jacques Piccard e o tenente Don Walsh, da Marinha dos EUA, em 1960.

Cameron antecipou-se à britânica Virgin Oceanic, de Richard Branson, que planeava levar um submersível ao Challenger Deep, como se chama o ponto mais fundo, uma “ranhura nas profundezas da fossa”, a sul da ilha norte-americana de Guam.

A aventura do cineasta fez reviver igualmente o interesse da Triton Submarines, que está a construir um veículo para transportar turistas por mais de 180 mil euros o bilhete; e da DOER Marine, empresa também norte-americana, que promete assistir a comunidade científica com novas tecnologias.

“Não me atrai o ponto mais fundo do mar, apesar de haver muito para descobrir, porque ali vivem diversas criaturas e espécies”, confessa Mário Ferreira. “É um lugar que só funciona com luz artificial, demasiado restrito e de uma escuridão absoluta. Prefiro o espaço. Quero ver o negro do infinito mas também o brilho das estrelas, e a Lua sem o filtro da atmosfera da Terra.”

Titanic in Cork harbour, 11 April 1912 © Direitos Reservados | All Rights Reserved

O Titanic no porto de Cork, em 11 de Abril de 1912
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Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 14 de Abril de 2012 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on April 14, 2012

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