Entre os perigos do presente e os traumas do passado, ele escolheu a vida

Enquanto escrevia Até ao Fim da Terra, o mundo de David Grossman ruiu. Terminar o romance foi a maneira que o escritor israelita teve de reconstruir a sua vida – tijolo a tijolo, palavra a palavra – depois da morte do filho, num país às vezes errado. (Ler mais | Read more…)

© Times of Israel

Quase conseguimos vislumbrar o sorriso tímido no rosto de David Grossman quando ouvimos a voz ternurenta do outro lado da linha.

O escritor – que uns veneram como “consciência de Israel” (ele prefere a expressão hebraica yafeh nefesh, significando “alma bonita” ou “coração que sangra”) e outros depreciam como “esquerdista ingénuo” – não esconde o quanto está feliz com a publicação de Até ao Fim da Terra.

Já traduzido para mais de 30 línguas, e agora em português, o livro começou a ser escrito em Maio de 2003, seis meses antes do fim do serviço militar do filho mais velho, Yonatan, e seis meses antes da incorporação do mais novo, Uri.

Em busca de inspiração para este romance, centrado naquela que é, provavelmente, a mais intensa das suas personagens ficcionais, Grossman caminhou durante 500 quilómetros ao longo do Israel Trail, do extremo Norte, na fronteira com o Líbano, até Jerusalém.

Era uma prenda que queria dar a si próprio ao completar 50 anos em 2004: impregnar-se do cheiro da terra e da cor do céu da “única casa do povo judaico”.

Mais importante, como refere na página 683: “Nessa época eu tinha o sentimento – ou, mais exactamente, o desejo – de que o livro que estava a escrever protegesse [Uri].” A história seria centrada numa mulher, determinou Grossman.

Porque ele considera o género feminino “mais resistente”. Ou como disse à New Yorker: se Deus tivesse pedido a Sara, e não ao submisso Abraão, que sacrificasse Isaac, ela teria respondido Fuck off!

E é assim que Ora, a protagonista, decide tornar-se na “primeira objectora da notícia” (p. 115) quando o filho Ofer se oferece como voluntário – do mesmo Corpo de Blindados a que pertenceram Yonatan e Uri – para uma operação militar nos territórios palestinianos ocupados, desistindo de acampar com ela na Galileia.

“Desceu as escadas à pressa, como uma fugitiva, as mesmas escadas que, daí a um dia ou a uma semana, ou talvez nunca, mas sabia que sim, não tinha dúvidas sobre isso, os mensageiros [do Exército] subiriam, em geral são três, é o que dizem, sim, subiriam em silêncio, seria possível acreditar que isso iria acontecer (…).”

“Quantas vezes se levantou para abrir a porta ao toque da campainha, ao mesmo tempo que dizia para si própria, já está, acabou-se tudo, mas agora aquela porta vai ficar fechada no próximo dia ou dois, e na próxima semana ou duas, e a notícia não será comunicada, porque para haver notícia são necessárias duas pessoas, pensou Ora, aquela que a entrega e aquela que a recebe, e essa notícia não terá quem a receba e por isso não será entregue.” (p. 114)

David Grossman confessa que “tinha o desejo” de o seu livro vir a proteger Uri (na foto), O filho morreu na chamada "Segunda Guerra do Líbano". © Direitos Reservados | All Rights Reserved

David Grossman confessa que “tinha o desejo” de o seu livro vir a proteger Uri (na foto), O filho morreu na chamada “Segunda Guerra do Líbano”

Há algo de premonitório nestes excertos de Até ao Fim da Terra – ou não fosse o autor aclamado como o “profeta secular de Israel”. A caminhada de Grossman durou 28 dias.

Também Ora planeou lutar: “Durante alguns dias, não muitos, 28, menos do que um mês, para não receber a notificação” (p. 116). E às 2h40 de domingo, 13 de Agosto de 2006, também a campainha de David e Michal tocou. Pelo intercomunicador, uma voz anunciou: “É do gabinete do major”. Quando Grossman se encaminhava para a porta, disse para si próprio: “E pronto, a nossa vida acabou.”

O sargento Uri e a unidade que comandava foram mortos quando um míssil do Hezbollah atingiu o carro de combate em que seguiam, numa aldeia do Sul do Líbano. Faltavam duas semanas para que ele festejasse 21 anos e três meses para deixar a tropa. Planeava viajar pelo mundo e ser actor.

A 11 de Agosto, uma sexta-feira à noite, tinha telefonado à irmãzinha Ruti prometendo que passaria o Shabat com a família. Estava entusiasmado com a possibilidade de tréguas.

Na véspera, o pai e os escritores amigos Amos Oz e A.B. Yehoshua, que haviam apoiado o direito de Israel a defender-se após o ataque de Julho do Partido de Deus (cinco soldados mortos, dois raptados), exortaram publicamente o primeiro-ministro Ehud Olmert a aceitar um cessar-fogo negociado pela ONU. No fim-de-semana, porém, Olmert expandiu a frente de batalha.

No dia do funeral, David Grossman não aceitou as condolências do primeiro-ministro. Em 2007, quando recebeu um dos maiores prémios nacionais, recusou apertar-lhe a mão, mas fitou-o nos olhos e exigiu-lhe que reconhecesse o sofrimento dos palestinianos.

Na altura, Ari Shavit, editorialista do jornal Ha’aretz, enalteceu-o como “o Martin Luther King de Israel”.

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

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Disse numa entrevista (The Paris Review) que leva “muito a sério” a literatura porque “é como lidar com explosivos”, e que os livros “podem e devem mudar não só a vida dos leitores mas do próprio autor”. Este livro, Até ao Fim da Terra, mudou a sua vida?

Se mudou a minha vida? (Um longo suspiro) Sim, acho que mudou a minha vida… (Suspiro) Esta é uma pergunta tão pessoal. Bem, quase todos os livros que escrevi mudaram-me um pouco, ensinaram-me coisas, amadureceram-me. E naturalmente que este livro, cujo título em hebraico é Uma mulher que foge das notícias, é muito íntimo. (Suspiro) Podemos avançar para a próxima pergunta? Voltamos aqui depois.

Fale-nos então do que se está a passar em Israel, porque este livro, depois de um longo hiato que a si próprio impôs, aborda claramente “a situação”. Dois homens (um deles veterano deficiente das forças armadas) imolaram-se pelo fogo; a paz com os palestinianos está moribunda; uma comissão oficial recomendou a legalização dos colonatos judaicos nos territórios ocupados; os imigrantes negros estão a ser alvo de agressões e comparados a cancro. Como vê a “situação”?

Eu vejo que Israel se encontra num estádio muito perigoso, por todos os aspectos que mencionou mas também porque permanece o perigo real de uma guerra com o Irão. Nesta região, a opção da guerra está sempre presente.

De momento, identifico dois problemas principais: o primeiro é a nossa relação com os palestinianos que se encontra num impasse muito bizarro. Há a ilusão de que nada acontece; parece que os palestinianos estão, de certo modo, a colaborar com a ocupação israelita, mas não há diálogo entre nós e os palestinianos.

Israel continua a expandir os colonatos nos territórios ocupados – ainda recentemente foi construída uma universidade [no colonato de Ariel], o que é perturbador.

O segundo problema é a situação económica, que é também um mistério porque, por um lado, Israel tem uma economia que prospera e escapou à crise mundial, e, no entanto, há tantas pessoas em Israel que são pobres e não têm meios de sustento; e as pessoas não estão a ver a relação entre a pobreza e o gigantesco investimento que é feito na colonização dos territórios ocupados.

Israel comporta-se como um lunático que, ignorando o perigo, caminha à beira de um telhado e aqui adormece, sem saber como vai despertar. Espero sinceramente que este despertar não surja sob a forma de um ataque ao Irão.

Porque isso terá graves consequências durante vários anos, não só para Israel mas para toda a nossa região, e para o futuro da paz entre nós e os nossos vizinhos. Mas sim, tentei desligar-me desta situação política. Sentia que não podia misturar a minha ficção com “a situação”, porque escrevi sobre ela durante muito tempo.

Fiquei com a sensação de que nada mudava e de que tudo o que eu escrevia soava a coisas que eu já dissera centenas de vezes. Cada palavra era como um cliché do discurso político. Não tive outra escolha a não ser seguir uma via só literária.

David Grossman, A.B. Yeoshua (ao centro) e Amos Oz (1939-2018) – três dos maiores escritores e referências morais de Israel
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Claro que me mantive activo na política, assinando petições, participando em manifestações, em conferências, nos Acordos de Genebra… Fiz muita coisa. Mas não quis misturar isto com a literatura.

Uma parte tão grande da nossa vida interior já é confiscada pela “situação”, as nossas energias são tão esgotadas pelo conflito… Havia muitas outras coisas sobre as quais eu queria escrever para poder entender, como as relações entre homens e mulheres, ou entre país e filhos, ou entre amantes.

Por isso, durante anos concentrei-me em escrever livros sobre temas diversos, como adolescentes sem-abrigo em Jerusalém [‘Someone to run with’]; sobre ciúmes [‘Be my knife’]; sobre um herói banal [‘O Mel do Leão: O Mito de Sansão’]…

Escrevia sobre tudo isto mas nunca deixei de procurar uma maneira de integrar as duas componentes: reflectindo sobre o dia-a-dia e, ao mesmo tempo, sobre “a situação”.

Como é que este conflito irradia para a vida de um indivíduo ou de uma família, e como é que os muda; como é que afecta as suas relações, os laços entre pais e filhos quando estes entram no Exército, a intimidade; como é que se lida com a negação da realidade, as verdades e as mentiras nos casais?

Ora, a protagonista do meu livro, é uma mulher que personifica isso e recusa colaborar com “a situação”. Eu tinha de escrever este livro quando a ideia surgiu.

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E como é que a ideia surgiu?

Eu demoro sempre imenso tempo a escrever. A história já existia, eu só tinha de me esforçar mais para ir desmontando as várias camadas, uma a uma, até à minha própria rendição. Às vezes, as personagens são difíceis e contraditórias para mim, mas eu tenho ceder perante elas. E quando isso acontece, é um prazer imenso.

No caso deste livro, por exemplo, eu sabia desde o início que a figura principal teria de ser mulher. E gostava da ideia de uma caminhada por Israel.

Queria fazer essa imersão e escrever sobre ela. Precisamos deste contacto físico com o país, porque é a maneira mais autêntica de apresentar a tragédia da nossa existência, a dificuldade, o perigo, a necessidade, como povo judeu, de preservar este lugar.Este é o país que amamos, mas não temos a certeza de que sobreviverá.

Queremos que este país seja a nossa casa porque é o único a que podemos chamar casa, mas somos incapazes, talvez devido a certas deformações históricas, de dar os passos necessários a transformá-lo numa verdadeira casa.

Uma grande parte do processo de escrita deste livro foi a minha caminhada pelo chamado Israel Trail. Andei cerca de 500 quilómetros, desde o extremo Norte de Israel até à minha casa em Jerusalém.

Andou durante quantos dias?

Toda a caminhada terá durado uns 28 dias. Caminhava todos os dias entre 15 e 20 quilómetros. Foi um prazer e uma experiência que nunca antes tivera, a de andar sozinho. Costumava passear com a minha mulher, mas é diferente quando se está sozinho.

A companhia de outra pessoa faz com que nos centremos nela, não nos dá a oportunidade de apreciar o que está à nossa volta.

Nessa caminhada encontrei muitas pessoas e, entre nós, surgiu desde logo um sentimento de companheirismo. É engraçado que, desde a publicação do livro, várias pessoas vão pelo Israel Trail com o livro e, às vezes, telefonam-me e dizem: ‘Hei David, estamos aqui no Monte Meron, de que falas na página X…”

Na natureza, até quando encontramos pessoas com diferentes posições políticas das nossas as discussões têm uma temperatura amena – o contrário do que acontece em Israel, onde o debate político é agressivo e hostil.

© berkleycenter.georgetown.edu

Escolheu uma mãe e não um pai por achar que as mulheres “são mais resistentes do que os homens” e que se Deus pedisse a Sara, e não a Abraão, que sacrificasse o seu filho, ela talvez tivesse respondido Fuck off!. Ora, a protagonista, também caminha “até ao fim da terra”, mas acompanhada. Quanto é que de David Grossman existe em Ora?

(Uma gargalhada) De início, nem sempre compreendo porque me sinto tão atraído por algumas personagens, homens ou mulheres. No final, entendi o quanto de mim há em Ora; e também o contrário: o que há de Ora em mim. Escrever sobre ela permitiu que eu me tornasse nela.

Não foi fácil. Debati-me com ela durante mais de um ano. Depois, rendi-me – a partir daí foi mais fácil. Senti-me em casa com outro ser humano, o que é um deleite. Até as posições políticas de Ora, que são muito mais flexíveis do que as minhas, ela dá-se ao luxo de as exprimir de uma forma que eu jamais me permitiria. Ela tanto pode dizer as coisas mais ultrajantes de extrema-direita como coisas totalmente esquerdistas.

O que gosto nela é o facto de ser uma pessoa normal presa numa situação anormal. Portanto, ela age em conformidade. Não se prepara previamente. E isso foi uma parte do que ela me ensinou, porque tendo sempre a preparar as minhas posições.

É preciso sermos flexíveis, agir segundo as nuances da situação, porque a situação está repleta de contradições internas, de sombras, de dúvidas. Ora permite-se essas dúvidas, deixa-se atormentar e, por isso, ela é uma womensh – uma mulher autêntica.

Ora não deixa ninguém indiferente. O amor que ela exprime pelo filho Ofer faz com que olhemos para os soldados israelitas não apenas como “máquinas de matar o inimigo”, mas como jovens que deixam para trás famílias angustiadas e destroçadas…

Obrigado.

Será que Ora, cuja história é atravessada por conflitos pessoais interiores e exteriores, não apenas guerras, é um dos retratos de Israel?

De certo modo, sim. Mas não a escrevi para ser um símbolo. Se assim fosse, ela não seria uma pessoa real, muito concreta. Mas agora que o livro foi traduzido para 32 línguas apercebo-me de que, através dela, talvez seja mais fácil compreender Israel e entender a complexidade do conflito; ver o que acontece a um ser humano decente quando se vê prisioneiro dele.

© Michael Lionstar | mondoweiss.net

Quando estava a escrever este livro, nas suas caminhadas, costumava falar com o seu filho [“Uri conhecia bem o enredo (…). Sempre que falávamos ao telefone, e sobretudo quando vinha de licença, perguntava o que havia de novo na história e nas vida dos personagens. (‘O que é que lhes fizeste esta semana?’, era a pergunta invariável.) – p. 683] Depois dessas conversas, que partes adicionou ou alterou seguindo os conselhos de Uri?

Bem, isto é mesmo privado. Uri cumpriu serviço militar nos territórios ocupados e estava a par de toda a terminologia profissional e do que se passava nos checkpoints. Ele partilhava a dificuldade que era manter a humanidade ali, enfrentando camaradas mais agressivos para quem os palestinianos só eram inimigos.

Esteve em contacto com as contradições do conflito, e debatia-se para não ceder às pressões dos comandantes, ou dos seus próprios medos e suspeições. Tudo isto aprendi com Uri.

No início desta entrevista, perguntou-me se este livro mudou a minha vida e percebeu como foi difícil, para mim, responder.

Agora já posso dizer-lhe que (pausa), depois de Uri cair [morrer], há seis anos, voltei a pegar no livro para o acabar. E fi-lo porque para mim escrever é sempre uma maneira de compreender a minha vida e de exprimir o que eu sinto e como devo agir.

Há seis anos, só me restava uma opção: acabar este livro. Tinha de permanecer leal à história, sem a alterar devido ao que acontecera.

Havia uma lógica na história – uma lógica no final. E eu já tinha definido o final. Lembro-me de, após a partida do meu filho, eu estar sentado no meu estúdio à procura da palavra certa e, de repente, interpelar-me: ‘Estás doido? Todo o teu mundo está a ruir, a partir-se, e tu estás à procura de uma palavra?’

Depois, percebi que estava certo – é necessário insistir na fiabilidade das palavras. O mundo parecia um erro terrível, mas se eu encontrasse a palavra certa, então encontraria uma coisa certa num mundo que tem sido errado. Insisti em fazer estas pequenas coisas no caos que me rodeava.

Senti-me como uma pessoa cuja casa é destruída por um sismo, e que vai até aos destroços e tenta reconstruir a casa, colocando um tijolo sobre outro tijolo, sobre outro tijolo…

Para mim, cada palavra era um tijolo. Foi a maneira de eu regressar à vida. Após algumas semanas ou meses, eu já era capaz de fantasiar de novo, de infundir vida, amor e paixão nas minhas personagens. De sentir como elas estavam vivas.

Para mim, foi como escolher a vida, a partir da gravidade do desespero e da dor. Esta é a resposta à sua primeira pergunta.

Há uma parte do seu livro que parece reflectir os conselhos e a humanidade que atribui a Uri, quando Ora contrata Sami, o taxista árabe e amigo da família, para levar Ofer, o seu filho, ao ponto de encontro dos soldados que vão, provavelmente, matar palestinianos. Quem a desperta para a dolorosa realidade é o filho (“O que é que te deu? (….) E não pensaste nos sentimentos dele ao transportar-me para aqui? Imaginas o que isto significa para ele?” – p. 80)…

Sim é verdade. E há também a parte [pp. 163-167] em que, quando começam as operações militares, Sami e Ora estão no carro a ouvir duas estações de rádio, uma israelita e uma palestiniana, cada uma com a sua diferente narração dos acontecimentos. E, subitamente, vemos como duas pessoas gentis, que gostam uma da outra, se transformam em lobos.

Sei isto pela minha experiência: quando deixamos de ser nós próprios, tornamo-nos representantes de algo maior do que nós, seja uma posição política, religiosa ou nacional. Deixamos de ser humanos para nos tornarmos panfletos. E os panfletos são terríveis. Deixamos de ser nós próprios. “A situação” confisca-nos, usa-nos e abusa-nos.

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A amizade e a confiança entre Ora e Sami sofrem um duro abalo, quando ela o “força” a transportar Ofer com uma arma que lhe rasga os estofos do táxi. Isso leva-nos a perguntar-lhe se a coexistência, uma das suas causas, não é uma ilusão, um sonho, uma fantasia? Um activista palestiniano disse que recusava “continuar a ser vítima do medo dos israelitas”. Até que ponto é que o sentimento de vitimização, de um lado e do outro, inviabiliza a paz?

Eu quero distinguir entre sonhos e ilusões, porque as ilusões são perigosas na nossa região; os sonhos são legítimos e podem ser frutíferos. O Estado de Israel começou por ser um sonho em que muito poucas pessoas acreditavam.

Eu acredito em sonhos realistas. Neste momento, a realidade é que o movimento a favor da paz é muito fraco. Há grande apatia nas pessoas, que não sentem que algo possa mudar.

A culpa é lançada toda para o outro lado. “Paz” é uma palavra que desapareceu totalmente do vocabulário político. Já ninguém fala de paz, excepto algumas organizações marginais. “Paz’ tornou-se sinónimo de entregar Israel aos seus piores inimigos.

Precisaremos de muitos anos para de novo legitimar a palavra. É muito duro separar os perigos reais que Israel actualmente enfrenta e que não se podem ignorar, como o Irão – e isto não é uma paranóia, porque Israel ainda não é aceite no Médio Oriente onde muitos Estados árabes negam a legitimidade da sua existência -, dos ecos dos traumas do passado.

O senhor Netanyahu [primeiro-ministro] tem sido uma mestre de manipulação ao misturar ambos. Este nó é muito difícil de desatar. Mas se não soubermos desatá-lo vamos continuar a combater, a matar e a ser mortos.

É preciso distinguir ambos: sim, sofremos traumas no passado; sim, Israel não pode confiar na boa vontade dos árabes para sobreviver; sim, Israel precisa de um Exército forte para se defender – desculpe ser tão explícito, mas esta é a situação, e até os meus amigos árabes reconhecem isto. No entanto, a força e o poder militar não podem ser os únicos meios de garantir o nosso futuro aqui.

É preciso dialogar com os nossos vizinhos. Actualmente, a paz não tem agentes na nossa região; só a guerra e a beligerância têm agentes. Temos de criar uma atmosfera em que floresça a confiança mútua, para não nos rendermos aos estereótipos, aos preconceitos, ao ódio.

É tão tentadora esta rendição, porque torna tudo tão fácil, porque resolve os nossos dilemas morais. Mas é preciso encontrar uma forma de combater o fanatismo – religioso ou nacionalista. As pessoas estão confusas, e o fanatismo fornece-lhes respostas rápidas que satisfazem as suas frustrações. Infelizmente, o nosso governo está a seguir o caminho errado.

A situação em Israel está a deteriorar-se: não podemos ter um sistema de apartheid nos territórios ocupados (não tão severo como na antiga África do Sul, mas apartheid ainda assim) e democracia aqui. Não resulta – e estamos assim há 45 anos.

Isto vai explodir, se continuarmos na ilusão de que podemos ter ocupação e democracia. O que me aterroriza é que as pessoas estão a habituar-se. Este meu livro, Até ao Fim da Terra, pode ser um sinal de alarme que obrigue as pessoas a inverter a marcha.

Não lhe parece que um dos problemas entre israelitas e palestinianos é que uns e outros tendem a concentrar-se demasiado nos seus próprios traumas e recusam reconhecer o sofrimento do “outro”? A protagonista do seu livro, Ora, quando é conduzida por Sami para socorrer uma criança árabe (pp. 111-140), tenta compreender a dor de que está a ser testemunha; na vida real, todavia, parece imperar a cegueira. Sem este reconhecimento mútuo do sofrimento, a paz é possível?

Quando as pessoas se sentem aterrorizadas não têm a generosidade para ver os problemas dos outros. Isto é mútuo. O primeiro passo para a reconciliação tem de ser reconhecer o sofrimento do outro – e pedir desculpa. É um processo psicológico que tem de ser empreendido.

No final do seu livro, Ora pergunta a Avram: “Será que cometemos um erro? Que não percebemos nada desde o início? Todo este caminho, toda esta caminhada.” Para David Grossman, valeu a pena?

Os livros de que gosto mais são aqueles que são inevitáveis – e este era.

© Tiago Miranda | Expresso

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 1 de Agosto de 2012 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 1, 2012

O Egipto de Mahfouz na pensão de Mariana

Em Miramar, o único árabe Nobel da Literatura conduz-nos a duas revoluções que mudaram o Egipto. Uma história com 4 versões que homenageia um país agora numa nova encruzilhada. (Ler mais | Read more…)

© historytorday.com

Em 1919, aos 7 anos, testemunhou da sua janela a revolução contra a ocupação britânica, vendo soldados ingleses a dispararem sobre manifestantes. Em 1952, sentiu-se “feliz” com a revolução de Nasser que derrubou a monarquia, “ainda que não tenha oferecido a democracia”.

Como é que Naguib Mahfouz, o único árabe Nobel da Literatura, olharia para o Egipto governado por um Presidente da Irmandade Muçulmana e uma “junta militar”?

Várias vezes esta pergunta emerge ao longo das 188 páginas de Miramar (Ed. Civilização), romance em que o “Balzac do Cairo” aloja numa pensão de Alexandria a velha e a nova geração de um país cobiçado por diversas forças, no final dos anos 1960.

Miramar foi publicado, originalmente, em 1967, data humilhante no calendário árabe, quando Israel triunfou na “guerra dos seis dias” (ou 6 horas), ocupando a Península do Sinai (restituída ao Egipto em 1981), a Faixa de Gaza, a Cisjordânia, Jerusalém Leste e os Montes Golã.

A guerra não entra na outrora elegante a agora decadente hospedaria de Mariana, madame de 65 anos a quem o “esplendor não desamparou”, apesar das “costas arqueadas, mãos descarnadas e comissuras dos lábios” (pág. 6). Mas nos quartos da grega de olhos azuis albergam-se intensos conflitos, que terminarão numa misteriosa morte.

A história, dividida em cinco capítulos, tem quatro versões e, como é distintivo de Mahfouz, mestre da linguagem, cada um dos narradores usa um vocabulário próprio, realçando as suas diferentes origens sociais, culturais e políticas.

A apresentação é feita por Amer Wagdi, repórter reformado, membro do Partido Wafd – a personagem mais próxima do autor.

Mahfouz era um assumido defensor deste movimento nacionalista, liderado por Saad Zaghlul (1860-1927), cujo exílio forçado incentivou a revolução de 1919 – e obrigou os britânicos a reconhecerem a independência do Egipto em 1922.

Em várias entrevistas, Mahfouz confessou que, de tudo quanto fez na vida, o seu envolvimento com o Wafd (Partido da Delegação) “foi o mais importante”, ainda que tenha recusado ser um militante filiado, porque queria manter “ liberdade total”.

Não se estranhe também que Miramar tenha o aroma de uma novela policial – Mahfouz revelou que a sua maior influência literária foi Hafiz Najib, autor de mais de 20 livros com estórias de detectives.

E nós detectamos facilmente a admiração e ódio pelo Wafd (dissolvido em 1952, após a revolução dos Oficiais Livres que pôs fim ao poder dinástico do rei de Farouk I) em dois personagens: o grandriloquente Amer Wagdi, e o ressentido Tolba Marzuq.

© The National

Interpelado sobre os erros políticos de Zaghlul, primeiro-ministro de Janeiro a Novembro de 1924, Wagdi defende-o: “Tinha estudado em al-Azhar [centro do islão ortodoxo sunita], assim não era de admirar que desempenhasse as funções de mazoun [celebrava e registava contratos de casamento] cuja missão na vida é realizar um compromisso, uma aliança legítima entre o Oriente e o Ocidente.”

E quando confrontado com o combate que Zaghlul travou, simultaneamente, contra os comunistas e os Irmãos Muçulmanos, replicou: “Foi um período de indecisão. Depois deu-se a revolução que soube apoderar-se do que de melhor havia em cada um destes grupos.” (Página 40).

Marzuq, um bey, título de cortesia mas inferior ao de effendi, ostentado por Wagdi, não suporta o Wafd. Tinha sido subsecretário do Ministério do Wafq” (que geria fundos para fins de caridade), membro de “uma das mais insignes famílias” e de um dos partidos ligados à família real.

As suas terras foram confiscadas: “Perdi toda a minha riqueza por causa de uma brincadeira momentânea! (…) Necessitavam pura e simplesmente do meu dinheiro. (…) Há uma causa longínqua na extremidade da corda enrolada em torno dos nossos pescoços.”

“Saad Zaghlul! Ao semear a discórdia entre as pessoas, ao se revoltar contra o rei, ao lisonjear o povo, plantou uma erva daninha que não mais parou de proliferar e de crescer qual cancro incurável que nos destruiu a todos.” (Páginas 21-23)

Ainda que figura secundária, Marzuq é importante para o enredo genialmente imaginado por Mahfouz – o escritor que já publicara 80 livros quando começou a ser pago (graças à brilhante Trilogia do Cairo, em 1957), que escrevia à noite até se reformar da função pública aos 60 anos.

Na pensão da viúva Mariana, “contra-existem” ainda Hosni Allam, jovem rico, depravado e reacionário, cujos bens foram poupados à expropriação; Mansour Bahi, 25 anos, locutor da Rádio de Alexandria e ex-comunista que só escapa à prisão porque o irmão é chefe da polícia (vivendo atormentado com a ideia de que é um traidor); Sarhan al-Biheiri, militante socialista e defensor da revolução de Nasser, mas também um hipócrita e oportunista; e finalmente Zohra Salama, linda fallaha (camponesa) do Delta do Nilo que chega a Miramar fugida de um casamento forçado e determinada a instruir-se.

© Qantara

Todos se apaixonam por ela, mas a ela só interessa o fallah Sarhan, ainda que ele apenas queira ser amante, para se casar com a professora de Zohra, de mais elevada condição social e económica.

Zohra é o Egipto. E que melhor palavra poderia Mahfouz escolher para definir a sua pátria que não “a variante dialetal do árabe clássico zahra, com o significado de ‘flor’”?, como revela Badr Hassanein, o exímio tradutor da obra original. Sem as suas múltiplas e primorosas notas de rodapé, quase um dicionário, o leitor sentir-se-ia perdido.

Por exemplo, quantos fãs da cantora Umm Kulthum (ou Kalthoum ou Qulthoum), mais que diva, uma divindade no Médio Oriente, sabem que ela era tratada carinhosamente como Thouma?

E por que é que Zohra simboliza o Egipto? Porque rejeita o chauvinismo da sociedade (é cortejada pelos quatro narradores: Amer, Hosni, Mansur e Sarhan), mas preserva o seu carácter obstinado e independente. Ninguém a verga.

O Egipto de Mahfouz, destacou o académico palestiniano Edward Said, num ensaio publicado em 2011, “é um cúmulo imenso de história, que remonta há milhares de anos e que, apesar da surpreendente variedade dos seus governantes, regimes, religiões e raças, ainda consegue manter a coerência da sua identidade.

Mais importante: o Egipto detém uma posição única entre as nações. Objecto de atenção de conquistadores [Alexandre, César, Napoleão], aventureiros, pintores, escritores, cientistas e turistas, este país é incomparável na posição que assumiu na história da humanidade, e a visão quase intemporal que granjeou.”

Ou como constatou Eça de Queirós, em O Egipto, “Ali, as coisas imensas têm a perfeição das coisas delicadas: o mar lembra uma pervinca; o céu uma ametista… aquela região é a pátria das almas.”

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Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 27 de Julho de 2012. | This article was originally publish in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on July 27, 2012

“Esta é uma guerra contra civis, não uma guerra civil”

Após um terceiro veto da Rússia na ONU para salvar Bashar al-Assad, o investigador e politólogo Salam Kawakibi quer acreditar que “Moscovo não só perdeu a Síria como todo o Médio Oriente”.  (Ler mais | Read more…)

© Getty Images | metro.co.uk

Uma explosão que quase decapitou a liderança síria [em 18 de Julho de 2012], “não anunciou a morte do regime, mas marca o fim da sua legitimidade, porque a barreira do medo caiu”, disse-nos, por e-mail, o investigador Salam Kawakibi.

“Foi um ponto de viragem muito importante na evolução dos acontecimentos”, acrescentou o director em exercício da Arab Reform Initiative, rede de institutos árabes independentes que com o apoio dos EUA e Europa, tem sede em Paris.

“É inegável que o regime ainda possui forças, reais e imaginárias, que pode vir a usar” para continuar a reprimir revolta popular desencadeada há 16 meses, reconheceu o sírio Kawakibi, que é também cientista político na Universidade de Amesterdão (Holanda).

O Presidente, Bashar al-Assad, “está ainda a ser apoiado pelos russos [que, com a China, vetaram hoje mais sanções a Damasco na ONU] e pelos iranianos. Também não há dúvida de que tentará aproveitar-se do medo que o mundo tem da instabilidade regional”.

As mortes de várias figuras centrais do círculo restrito de Assad, no coração de Damasco, incluindo o seu poderoso cunhado, Assaf Shawkat, foram um duro golpe, mas “o regime sírio foi concebido para que ninguém seja insubstituível”, salientou Kawakibi, próximo da oposição.

“O ministro da Defesa Daoud Rajiha, por exemplo, era um cristão escolhido só para aprofundar a fissura no tecido social – um processo empreendido desde o início da sublevação com a finalidade de estigmatizar as comunidades e semear o terror entre as minorias.”

© Muzaffar Salman | Reuters

© Muzaffar Salman | Reuters

Desde a ascensão de Hafez al-Assad ao poder, em 1970, notou kawakibi, “a pasta da Defesa tem sido meramente protocolar – porque o pai de Bashar sabia que foi como ministro da Defesa, poderoso e influente, que conseguiu fazer um golpe de Estado. Desde então, tornou o cargo irrelevante.”

Quanto ao ministro do Interior, Mohammad Ibrahim al-Shaar [que ficou ferido mas sobreviveu] era, era sobretudo conhecido, segundo Kawakibi, “pelos seus actos cruéis contra civis”.

A morte mais significativa, referiu, foi a de Assef Shawkat, cunhado de Bashar e um homem implacável, encarregado de vários dossiers muito importantes [como as relações com o Irão e o Hezbollah], desde há vários anos, e era um dos responsáveis mais discretos e ‘eficazes’ na máquina de opressão.”

Sobre o receio de uma espiral de ataques sectários, na sequência do que aconteceu às portas do palácio presidencial, Kawakibi é peremptório, desvalorizando a nova classificação dado ao conflito pela Cruz Vermelha Internacional: “A guerra na Síria é uma guerra contra civis – não é uma guerra civil! O regime sequestrou as minorias como reféns, fazendo crer às que nele queriam acreditar que era o seu protector.”

“Desde o início dos confrontos e da sucessão de massacres cometidos contra povoações civis, em nome da comunidade alauita, só raramente se têm registado represálias com bases confessionais”, assegurou Kawakibi. “Os sírios, de todos os credos religiosos, estão conscientes de que o regime quer dividi-los, mas eles serão capazes de gerir a transição sem vingança. Um sistema de justiça num período de transição é fundamental para garantir a segurança da Síria no futuro.”

©DIMITAR DILKOFFDIMITAR

© Dimitar Dilkoffdimitar | AFP

Inquirido sobre o Exército Livre Sírio, composto na sua maioria por desertores das forças armadas, Kawakibi justifica assim a união e audácia dos rebeldes face às fracturas que paralisam os grupos de dissidentes no exílio: “Os sírios não se têm envolvido em actividades políticas normais desde há 50 anos. É compreensível ver divergências. Em todo o caso, a visão e os objectivos são os mesmos entre todas as tendências [do Movimento Nacional Sírio, principal movimento da oposição].”

No entender do investigador sírio, “falar de unificação da oposição tem sido o pretexto por excelência do Ocidente, para evitar intervir e para abandonar os sírios à sua sorte.”

Kawakibi garante que “já existem projectos para aplicar no dia seguinte” à queda de Assad. “Especialistas em vários sectores têm trabalhado intensamente para redigirem textos técnicos no que concerne a reformas necessárias à economia, à Constituição, às leis eleitorais, à justiça, à segurança…”

Quanto a Moscovo, que acaba de usar – pela terceira vez – o seu direito de veto no Conselho de Segurança em defesa de Assad, Kawakibi não hesita na avaliação: “A Rússia perdeu toda a sua credibilidade. E não perdeu apenas a Síria [seu último aliado no Médio Oriente], mas também toda a região.”

Os libaneses, por outro lado, “observam com muita inquietação o que se está a passar em Damasco; enquanto os iranianos ainda usam o trunfo sírio para reforçar a posição negocial com o Ocidente quanto ao seu programa nuclear.”

O que estamos a assistir na Síria, concluiu o director interino da Arab Reform Initiative, “é uma nova guerra fria com múltiplas frentes.”

Salam Kawakibi @Arab Reform Initiative

Salam Kawakibi
© Arab Reform Initiative

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 19 de Julho de 2012 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on July 19, 2012

Síria: O colapso do medo

Uma explosão quase decapitou o círculo restrito do regime sírio, em Julho de 2012. “Mais importante do que saber quem morreu é a estocada desferida à reputação de Bashar al-Assad, que se apresentava como um deus, rodeado de líderes intocáveis – essa imagem foi totalmente desfeita”, diz um dissidente. (Ler mais | Read more…)

© Giulio Petrocco | AFP | Getty Images

© Giulio Petrocco | AFP | Getty Images

Em Damasco, Mohamed Hamdan, jornalista residente em Damasco, foi testemunha do que Ayman Abdel-Nour, analista político obrigado a exilar-se no Canadá, descreveu como “o colapso do medo nos corações dos sírios” após uma explosão que quase decapitou o círculo restrito do regime, no centro da capital [em 18 de Julho de 2012].

“Muitas pessoas celebraram nas ruas, a cantar e a dançar; outras estão a festejar no Facebook e no Twitter”, diz-me Hamdan, numa entrevista por e-mail, fazendo questão de ser identificado, porque já não teme represálias.

“O ataque ocorreu no bairro de al-Rawdeh, onde vivem os mais ricos, e nas proximidades da residência do Presidente, Bashar al-Assad, na área de Moujajereen”, precisou. “Também ouvimos dizer que foi atacado o quartel-general da 4º Divisão do Exército, liderada por Maher al-Assad, irmão do Presidente, mas não há confirmação.”

“A Guarda republicana isolou totalmente o Hospital de Shami, para onde foram enviados os feridos, alguns em estado grave”, adiantou Hamdan. “A televisão estatal deu a notícia, mas não mostrou imagens. Oficialmente, foi tudo apresentado como um ‘atentado terrorista, levado a cabo por gangues criminosos’, mas ninguém acredita.”

“A mobilização de reservistas e das tropas que estavam nos Montes Golã [a Síria só controla a cidade de Quneitra] mostrou que, para o regime, o principal inimigo não é Israel mas o seu próprio povo, bombardeado com canhões, artilharia e carros de combate.”

Na explosão de ontem foram confirmadas [por vários ‘media’ e fontes sírias cuja fiabilidade é impossível de verificar] as mortes do ministro da Defesa, general Daoud Rajiha; do titular da pasta do Interior, Mohammad Ibrahim al-Shaar [mais tarde, surgiu o esclarecimento de que ficou ferido mas sobreviveu]; do seu “vice” e cunhado do Presidente, general Assef Shawkat; do chefe da “célula de crise” e adjunto do vice-presidente, general Hassan Turkmani; e do director dos serviços secretos e primo do chefe de Estado, general Hafez Makhlouf [outras versões referem que ficou apenas ferido].

“Mais importante do que saber quem morreu é a estocada desferida à reputação de Bashar al-Assad, que se apresentava como um deus, rodeado de líderes intocáveis – essa imagem foi totalmente desfeita”, disse Nour, também por e-mail.

Filho de um médico cristão que aderiu ao Partido Baas (no poder) aos 14 anos, o autor do influente blogue all4Syria teve de abandonar a pátria quando percebeu que o regime socialista e pan-arabista que fascinou o seu pai não podia ser reformado, apenas derrubado.

© Khalil Ashawi | Reuters

© Khalil Ashawi | Reuters

A morte do principal conselheiro de segurança de Bashar, elo de ligação com o Irão e o Hezbollah no Líbano, foi um duro revés para o Presidente, mas Nour, ao contrário de outros, não considera Shawkat o “cérebro da repressão”.

Em seu entender, “há três figuras piores: Maher, Jamil Hassan [chefe da espionagem militar] e Ali Mamlouk”, outro consultor presidencial, alegadamente, encarregado de infiltrar sírios em grupos terroristas.

Certo é que, embora o ministro da Defesa fosse Daoud Rajiha, um cristão “nomeado à pressa em 2011 para dar a aparência de abertura multiconfessional”, segundo o diário britânico The Guardian, o verdadeiro detentor do cargo era Shawkat, de 62 anos.

A reputação de implacável ganhou-a quando, depois de se divorciar da primeira mulher, ousou ir ao palácio do defunto Presidente Hafez al-Assad buscar a única filha deste, Bushra, “a solteira mais cobiçada da Síria”, para se casar com ela.

Inicialmente, toda a família e, em particular, Basil, o primogénito, se opunha a este enlace: Shawkat era mais velho do que “a menina querida da Esfinge de Damasco” e, embora alauita e militar de carreira, tinha origens humildes e demasiada ambição.

Basil, a ser preparado para suceder ao pai, morreu num misterioso acidente na estrada para Beirute em 1994 – foi a única vez que alguém viu Hafez chorar em público. Shawkat, que desposou Bushra no ano seguinte, esteve na lista de suspeitos mas provou a sua lealdade.

Quando chegou a altura de Bashar ocupar o lugar do irmão, o cunhado ajudou-o. E Bashar foi grato, oferecendo-lhe o controlo da espionagem militar, em 2001, e o domínio sobre o vizinho Líbano.

Após o assassínio, em 2005, do ex-primeiro-ministro libanês Rafic Hariri, e para afastar as desconfianças internacionais de que Shawkat ordenara o crime, Bashar “despromoveu-o” temporariamente. No entanto, nos últimos 16 meses de sublevação, foi encarregue de supervisionar directamente os massacres.

Shawkat tornou-se de tal modo num “pilar do regime” que, segundo a Reuters, era já notória uma certa rivalidade com o cunhado: Bushra e o marido achavam-se mais merecedores do título de “casal presidencial” do que Bashar e a sua mulher, Asma, membro da elite sunita.

© Javier Manzano | AFP | Getty Images

© Javier Manzano | AFP | Getty Images

Para Iyas Maleh, activista sírio de direitos humanos que divide o seu tempo entre a Bélgica e os EUA, a morte de Shawkat “foi o golpe mais duro” depois da deserção de importantes personalidades, como o amigo Manaf Tlas, o antigo embaixador no Iraque e vários generais, que se refugiaram na Turquia.

“Também foram grandes perdas as mortes do primo Hafez Makhlouf [que pertence ao clã de Anisa al-Assad, a mãe de Bashar], e de Hassan Turkmani, o chefe da força de intervenção encarregue de reprimir a revolução”, diz-me, por e-mail, o filho de Haitham Maleh, um dos mais respeitados dissidentes que abandonou o Conselho Nacional Sírio (CNS, principal movimento da oposição), por este não armar a insurreição.

Iyas Maleh deu ainda conta de “uma fuga maciça de soldados em várias regiões do país, abandonando equipamento militar – em mais uma prova do caos que assola as tropas presidenciais e de que estas estão a perder terreno para o Exército Sírio Livre”.

Sem referir a ajuda logística que os rebeldes têm recebido de países como a Arábia Saudita e o Qatar, Iyas Maleh salienta que o avanço do Exército Livre até Damasco indicia “mais confiança para enfrentar as forças de Assad a quem a Rússia tem vendido arsenais.” Chegar às portas do Presidente “é o sinal mais claro de que o regime está fraco e vai cair subitamente quando menos se esperar.”

© Hussein Malla | AP Photo

© Hussein Malla | AP Photo

“A diferença entre os revolucionários e as tropas de Assad é a sua vontade e a sua causa justa – eles são destemidos enquanto as forças do regime são criminosos obstinados”, adiantou Maleh.

“Serão estes revolucionários no terreno que vão acabar com o regime – não a oposição no exílio! Serão aqueles que defendem o país com o seu sangue que vão governar depois de Assad, não os que têm vivido no estrangeiro nos últimos 40 anos e que perderam a noção do sofrimento do povo sírio sob um déspota.”

Opinião igual é a de Ayman Abdel-Nour: “O Exército Livre revelou-se muito organizado e com uma hierarquia bem estruturada. Vai seguramente desempenhar um papel importante na governação futura do país, em conjunto com um conselho de transição civil.”

Nem Maleh nem Nour receiam ataques vingativos contra as minorias que se aliaram aos Assad na assunção de que estes eram o guardião da sua sobrevivência face a uma maioria sunita (70 por cento dos 22 milhões de habitantes da Síria). “Vivemos uma revolução pela dignidade e liberdade contra uma ditadura”, sublinhou Iyas. “Não é uma guerra contra cristãos, alauitas ou outra comunidade.”

Nour acredita que Bashar, “desligado da realidade”, não se vai render porque ainda espera, “com a ajuda da Rússia, criar um Estado separatista alauita em Latakia”, o bastião dos Assad.”

Maleh, por seu turno, acha que Moscovo “já perdeu o seu único aliado no Médio Oriente” – o país onde controla uma importante base naval e que é o seu principal comprador de armas.

Haitham al-Maleh (à direita) e o seu filho Iyas al-Maleh, líderes da oposição aos Assad, durante uma passagem pelo Egipto, em 2011. @Sharif Abdel Kouddous

Haitham al-Maleh, mais de 40 anos em luta contra os Assad – e o seu filho Iyas al-Maleh (esq.), líderes da oposição, durante uma passagem pelo Egipto, em 2011
© Sharif Abdel Kouddous

Ayman Abdel Nour, um cristão, director do blogue All4Syria e antigo membro do Partido Baas, hoje no exílio
© CNN

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 19 de Julho de 2012 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on July 19, 2012

Mohamed Morsi: Da prisão para o palácio

Com a idade de Hosni Mubarak – 84 anos –, a Irmandade Muçulmana deixou de ser sociedade secreta para ocupar a chefia do Estado no Egipto.  (Ler mais | Read more….)

Mohamed Morsi, no palácio presidencial, aprova uma Constituição renegada por muitos egípcios, em 26 de Dezembro de 2012
© AFP | The Guardian Nigeria

A incerteza e a ansiedade de ter um apparatchik da al-Ikhwan al-Muslimun (Irmandade Muçulmana) como primeiro Raïs (Presidente) civil e democraticamente eleito da república não retiraram aos egípcios o sentido de humor: “Há vários dias que Hosni Mubarak morreu; sabem se ele está bem?”

Esta anedota, contada por Osama Diab, jornalista e blogger (The Chronikler foi premiado pela Deutsche Welle como “o melhor blogue em língua inglesa de 2012”), mostra como o Egipto já não venera os seus líderes como deuses.

É, acima de tudo, reveladora de como, talvez, sejam precisos muitos anos para que interiorizem um “acontecimento tão profundo e transformativo” em 7000 anos de história, como escreveu outro influente jornalista, Issandr El Amrani, autor do blogue The Arabist.

A saúde do deposto ditador agravou-se – “muito deprimido, entra e sai do estado de coma”, segundo os médicos, desde que foi informado, no hospital-prisão onde cumpre pena perpétua, de que foi o sexagenário Mohamed Morsi o escolhido para ocupar o seu lugar no palácio de Orouba.

Mubarak estava convencido de que teria como sucessor o seu último primeiro-ministro, o septuagenário Ahmed Shafiq, mas este foi derrotado, na segunda volta das presidenciais, por 48,27 % dos votos, contra 51,73% do rival.

“É o pior pesadelo para Mubarak”, nascido no mesmo ano (1928) em que Hasan al-Bana fundou a Ikhwan, disse-nos, numa troca de e-mails, o egípcio-britânico Diab, que divide os seus dias entre o Cairo e Londres.

A vitória de Morsi é sentida como “mais um insulto a juntar às afrontas” que a antiga família presidencial tem sofrido desde a revolução de Janeiro de 2011

“É uma derrota pessoal” para o marechal que esteve três décadas no poder – uma longevidade só superada por Muhammad Ali Paxá, o primeiro khedive (título equivalente a vice-rei) do Egipto moderno.

Adel Iskandar, académico no Center for Contemporary Arab Studies da Universidade de Georgetown (EUA), concorda que a eleição de Morsi “foi profundamente humilhante” para Mubarak.

“Ele rodeou-se dos generais mais leais que agora integram o Conselho Supremo das Forças Armadas [CSFA], na esperança de que este dia nunca chegasse, mas viveu para os ver abandonarem-no e deixarem de apoiar o veterano Shafiq, de modo a garantirem a sua própria sobrevivência”, afirmou, também por e-mail, o colunista do jornal independente egípcio Almasry Alyoum.

Mohamed Morsi, o primeiro, e até agora único, presidente democraticamente eleito do Egipto, em 17 de Junho de 2012, no Cairo
© Nadav Kander | TIME

Quem é, afinal, Mohamed Morsi [que as Forças Armadas iriam retirar do chefia do Estado, em 2013, e condenariam à morte, em 2015, e a prisão perpétua, em 2016, em processos judiciais separados]?

“Os egípcios mal o conhecem”, reconhece Iskandar. “Grande parte do seu trabalho e actividade política tem sido desenvolvida nas fileiras da Irmandade, organização que se refugiava na opacidade e secretismo.”

“A nível pessoal, Morsi é também um recém-chegado à política eleitoral, empurrado para a ribalta [após a candidatura desqualificada do ‘número dois’ da confraria], o que faz dele um estranho. É certo que, no final, será julgado mais pelas acções e capacidade de ir ao encontro das necessidades do país do que pela sua pessoa, mas é importante que os cidadãos sejam inquisitivos sobre quem os vai governar.”

“Não ser uma personalidade colorida poderá, por outro lado, constituir uma boa mudança depois do culto de personalidade fomentado pelos anteriores líderes.”

“Muitos eleitores apoiaram Morsi não por gostarem das suas ideias, mas porque o consideravam a única opção contra o velho regime”, constatou Iskandar. “De facto, mais de metade opôs-se a ele na primeira volta” – só obteve 5,5 milhões de votos ou 24%; na segunda, conquistou 13,2 milhões.

“Depois de ter vencido à custa da revolução contra a qual conspirou, a Irmandade arrisca-se a ser confrontada pelas massas, e a ter de ceder. Morsi manifestou, por exemplo, a intenção de nomear para vice-presidentes uma mulher e um cristão copta [e neste último caso, cumpriu]”, uma comunidade temerosa que apelou ao voto em Shafiq.

“Estas escolhas constituem um gesto histórico extraordinário, mesmo que os escolhidos tenham mais peso simbólico do que político. O novo Presidente chega ao palácio com um saco cheio de dívidas para com aqueles que retiraram a Irmandade da obscuridade – e os revolucionários esperam a recompensa.”

Cairo, 12 Agosto de 2012: Mohamed Morsi no dia em que deu posse ao general Abdel Fattah El Sisi (à esq.) – o general que hoje ocupa o palácio presidencial depois de um golpe militar
© Associated Press | VOA

“Não sabemos muito sobre Morsi”, concorda Osama Diab. “Durante a monarquia, antes da revolução de 1952 [que fez de Gamal Abdel Nasser o maior inimigo da Ikhwan – foi ele quem ordenou o enforcamento do ideólogo, Sayyid Qutb, em 1966], o partido al-Wafd era tão popular que, na altura, havia o seguinte ditado popular: ‘Se o Wafd nomear uma pedra, as pessoas votarão nela.’ Creio que o mesmo se aplica hoje.”

“O maior trunfo de Morsi foi o de ter sido o candidato da Irmandade Muçulmana. Do seu sucesso individual, só conhecemos a carreira como professor universitário nos EUA (onde dois dos seus cinco filhos obtiveram cidadania americana) e no Cairo.”

“Ele foi o maior beneficiário da ausência de uma terceira força política que atraísse os eleitores forçados por generais e ‘irmãos’ a votarem contra, e não num dos campos.”

Sendo Morsi um desconhecido sem carisma, por que motivo os omnipotentes militares confirmaram a vitória do filho de um camponês do delta do Nilo que aprendeu a ler o Corão com a mãe e se doutorou em Engenharia de Materiais na Universidade da Califórnia do Sul em 1982 – um ano depois de Anwar Sadat, predecessor de Mubarak, ter sido assassinado por um extremista?

Muitos esperavam que, após prolongado suspense, o CSFA anunciasse o triunfo de Shafiq. Foi, pois, uma surpresa saber que ele fora derrotado.

A alegada ameaça da Administração Obama de suspender a vital ajuda militar ao Egipto (o segundo maior receptor depois de Israel) terá sido um factor de peso. Os militares sabiam que, favorecendo Shafiq, se arriscariam a uma permanente sublevação.

Além disso, durante e após o reinado de Mubarak, já Morsi tinha sido um intermediário conveniente em negociações com a Segurança do Estado – o aparelho repressivo que se infiltrava nos grupos da oposição.

Assim, num domingo de unho, uma semana antes da sua tomada de posse, a guarda presidencial foi a casa de Morsi, não para o conduzir à prisão onde Mubarak o colocou, mas para o proteger. E foi na televisão estatal, que sempre demonizou a Ikhwan, que Morsi fez o primeiro discurso à nação, desvinculando-se do Partido da Justiça e Liberdade (ala política da Irmandade), para “servir todos os cidadãos”.

Mohamed Morsi envergando o fato vermelho dos prisioneiros condenados à morte, na “gaiola” dos réus, durante uma das primeiras audiências depois do golpe militar que o derrubou
© Associated Press | The Sun

A 1 de Julho de 2012, depois de um discurso na Praça Tahrir, no Cairo, coração da revolta, Morsi tomou posse perante o Supremo Tribunal Constitucional e não perante o Parlamento.

Submeteu-se, uma vez mais, ao CSFA, que no princípio de Junho dissolvera a Assembleia Popular, na sequência de uma “adenda constitucional” (contestada judicialmente) que também limitou os poderes da Presidência.

“Este momento simboliza uma mudança que ninguém previa”, salientou Osama Diab na entrevista que nos deu.

“A chegada da Irmandade ao topo da hierarquia do mais populoso país árabe marca o fim de uma era quando os militares assumiram o poder na maioria dos países do Médio Oriente, ganhando legitimidade por terem combatido e expulsado as potências coloniais. Esta legitimidade é, agora, cada vez mais frágil e menos convincente.”

“É certo que Morsi está consciente da sua fraqueza”, notou Diab. “Uma grande parte do ‘Estado profundo’ tem interesse em que fracasse. Por isso, ele foi rápido a garantir que protegerá as liberdades quando se encontrou, por exemplo, com artistas e escritores.”

“Obviamente, que se manterá estreitamente ligado à Irmandade, e que a área onde terá mais largueza de acção será a da economia, porque a organização é pragmática e não quer afastar investidores e visitantes estrangeiros” – o turismo, principal fonte de receitas, caiu 30% no primeiro trimestre deste ano face ao mesmo período de 2011, segundo o FMI.

O principal desafio de Morsi, que poderá, segundo alguns analistas, não completar os quatro anos de mandato, será o de “não afrontar demasiado a Segurança do Estado e provar aos revolucionários que não é brando com o CSFA”, comentou Diab.

“Parece uma tarefa impossível, mas teremos de ver como vai lidar com a situação. Outro dos seus reptos será conter o medo que o islão político inspira e provar que não é repressivo, embora desse modo hostilize os islamistas ortodoxos.”

Apoiantes de Morsi erguem a sua foto e fazem com os quatro dedos o sinal Rabia, identificador da Irmandade Muçulmana, numa simbólica cerimónia fúnebre em Istambul, em 18 de Junho de 2019
© AFP | The Statesman

Iskandar, por seu turno, não acredita que o CSFA abdique dos seus privilégios, sendo mais plausível que Morsi se renda, ainda que possa tentar mobilizar “a rua” contra os militares.

“Se não quiser ser um presidente só de protocolo, ele terá de ser assertivo na sua independência em relação a todas as instituições do Estado e facções políticas de que era aliado para poder governar o Egipto num período de divisões”, sublinha o académico de Georgetown.

Os maiores problemas do país, segundo Iskandar, são a economia e a segurança. Nesta área, Morsi pode ter “um papel fundamental, reconstituindo e purificando totalmente o aparelho da era de Mubarak, para que não mais recorra às estratégias de tortura, desumanização e humilhação pública”. Terá também de retirar aos militares o controlo das forças de segurança, “o que será crítico”.

Embora a política externa e de Defesa venham a ser prerrogativas dos militares – o que dá garantias a Israel de manutenção do tratado de paz, a ascensão da Morsi pode ter um extraordinário impacto na região, em particular na Síria, mesmo que esta não seja a sua prioridade.

“Se for um Presidente inclusivo, pluralista e defensor da diversidade, Morsi deita por terra as acusações de sectarismo contra a Irmandade Muçulmana que têm permitido o monopólio de Bashar al-Assad sobre as minorias”, conclui Adel Iskandar.

[A 30 de Junho de 2013, as ruas do Egipto voltaram a encher-se de manifestantes exigindo a demissão de Morsi, que atribuíra a si próprio mais poderes do que os que tinha Mubarak (executivo, legislativo e judicial).

A 3 de Julho, os militares suspenderam a Constituição, dissolveram o Parlamento e nomearam um governo interino dirigido por um juiz. No mesmo dia, Morsi foi afastado da Presidência e preso.

Em 14 de Agosto, sob comando do general Abdel Fattah El Sisi, que hoje ocupa o palácio no Cairo, forças de segurança reprimiram violentamente manifestantes pró-Morsi dispersos por vários acampamentos. Só em Rabaa al-Adhawiya terão matado pelo menos 817 pessoas – “um dos maiores massacres de manifestantes num único dia da história recente”, segundo a Human Rights Watch. Com Morsi na prisão, sob várias acusações, a Irmandade voltou a ser ilegalizada.

Morsi morreu em 17 de Junho de 2019, supostamente de ataque cardíaco, durante uma audiência em Tribunal. Os seus apoiantes acusam o regime de lhe ter negado cuidados de saúde.]

Osama Diab

Adel Iskandar

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 1 de Julho de 2012 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on July 1, 2012

Os 30 anos do “Raïs” Mubarak

A destituição do Presidente egípcio depois de quase três décadas de um regime “neo-sultânico” foi considerada como, provavelmente, “o mais importante acontecimento no Médio Oriente desde a queda da monarquia egípcia em 1953”. (Ler mais | Read more…)

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Não morreu de doença como Gamal Abdel Nasser nem assassinado como Anwar Sadat. O destino de Hosni Mubarak, o presidente a quem os egípcios chamavam “faraó”, foi o mesmo do rei Farouk: uma revolução popular (e um golpe militar) obrigou-o a deixar o trono a que ascendeu em 1981.

Não era este, certamente, o destino esperado pelo octogenário que achava ter um mandato divino para governar 85 milhões de súbditos.

Foi a guerra e a paz que deram proeminência a Mubarak. Em 1967, depois de treinos numa academia militar soviética, Nasser encarregou-o de reconstituir a força aérea egípcia, dizimada por Israel em apenas seis dias de combates em que os exércitos árabes perderam a Cisjordânia (incluindo Jerusalém Leste), a Faixa de Gaza, a península do Sinai e os Montes Golã.

Em Outubro de 1973, quando Sadat surpreendeu os israelitas no dia mais sagrado do calendário judaico, Yom Kippur, foi o “comandante Mubarak” que quase vingou a humilhante derrota na guerra anterior. A vitória foi travada por uma intervenção dos EUA que fez pender a balança a favor de Telavive.

A proeza de Mubarak impressionou Sadat que, abatendo as suas desconfianças em relação ao oficial nascido numa aldeia no delta do rio Nilo, nomeou-o vice-presidente em 1975. Dois anos depois, Sadat causaria choque e surpresa ao visitar Jerusalém, um acto que antecedeu o primeiro e histórico tratado de paz israelo-árabe, os Acordos de Camp David.

A paz custou ao Egipto o ostracismo da Liga Árabe, que cortou todos os laços com o Cairo, onde tinha a sua sede – as excepções foram a Mauritânia, Omã e o Sudão. A 6 de Outubro de 1981, quando Sadat foi morto a tiro por um soldado ligado a um grupo islamista, muitos esperavam que Mubarak (sobrevivente às balas por um triz) revogasse o tratado com Israel, negociado por Jimmy Carter.

No entanto, o novo Presidente (tomou posse no dia 14), apesar de as suas primeiras medidas terem sido a libertação de presos políticos e uma maior abertura da sociedade, desfez as expectativas, ao exaltar como “escolha estratégica” o acordo com o “inimigo”.

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Esta tomada de posição fez de Mubarak um aliado precioso dos Estados Unidos, numa parceria que se consolidou quando foi preciso apoiar Saddam Hussein na guerra Iraque-Irão (1980-88) – e com isto voltar a liderar a Liga Árabe –, e quando foi necessário destruir Saddam Hussein na guerra do Golfo de 1991, após a invasão do Kuwait – o que lhe valeu o perdão de uma dívida aos EUA de 20 mil milhões de dólares.

A manutenção de uma “paz fria” com Telavive e de um ódio visceral a Teerão (onde há uma rua com o nome do assassino de Sadat) permitiram que Mubarak recebesse a segunda maior ajuda externa dos EUA (depois de Israel).

Os milhões de dólares recebidos dos EUA ajudaram a modernizar as forças armadas egípcias com equipamento suficientemente sofisticado para destruir inimigos internos, como a Irmandade Muçulmana, mas jamais superiores à qualidade do material fornecido a Israel.

Mubarak nunca confiou no seu povo, e isso ficou evidente quando decidiu manter em vigor – até esta semana – o estado de emergência imposto após o assassínio de Sadat.

A lei marcial permitia-lhe prender sem julgamento qualquer suspeito, e as cadeias egípcias foram denunciadas por grupos de direitos humanos como câmaras de tortura de milhares de opositores e de alegados terroristas da al-Qaeda que a CIA transferiu da base de Guantánamo.

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@DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

A Irmandade (al-Ikhwan al-Muslimun) é o maior movimento de oposição e, desde os tempos de Farouk (que deixou morrer o fundador, Hasan al-Banna) e de Nasser (que enforcou o ideólogo, Sayyid Qutb), que vinha sendo ora legalizada ora tolerada.

Mubarak usou a confraria como pretexto para reprimir todos os dissidentes, tentando mostrar ao Ocidente que a única alternativa ao seu poder eram os islamistas.

Nos anos 1990, quando al-Gama’at al-Islamyya (Grupo Islâmico), uma facção extremista que emergiu da Ikhwan, começou a atentar contra o regime e a visa turistas estrangeiros – uma das principais fontes de receita do Egipto –, Mubarak não hesitou em lançar uma gigantesca operação para eliminar a ameaça jihadista.

Centenas foram presos e executados, mas o perigo perseguiu-o até à Etiópia, quando tentaram matá-lo durante uma visita oficial em 1995 – nos seus vários mandatos, terá sobrevivido a pelo menos seis conspirações.

Apesar de a Irmandade ter renegado a luta armada, oficial e publicamente, Mubarak só lhe permitiu levantar a cabeça nas legislativas de 2005, quando a organização conseguiu, inesperadamente, 20 por cento dos lugares do parlamento, com candidatos independentes.

Este resultado, que alguns analistas dizem ter sido “manipulado” para que Mubarak, pressionado pela Administração Bush, mostrasse que a Ikhwan era um perigo, já não foi repetido em 2009.

Por esta altura, com a América mais preocupada com o Irão, Mubarak não deixou sequer a Irmandade concorrer. O mesmo aconteceu nas presidenciais de 2005 – o único rival autorizado, Ayman Nour, ficou-se por 8% de votos, mas ainda assim acabou na prisão e, depois de libertado, foi espancado.

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Se, internamente, nenhuma oposição, religiosa ou laica, conservadora ou liberal, poderia desafiar o Raïs Mubarak, externamente, o Egipto foi retomando o papel de “líder da nação árabe”, servindo de mediador entre a Arábia Saudita (que já prometeu continuar a financiar o Presidente destituído) e a Líbia; entre a Síria e o Líbano; e entre os palestinianos do Hamas e da Fatah.

A mediação, através do vice-presidente Omar Suleiman, nunca foi encarada com seriedade, e as negociações não resultaram. O Hamas, que controla Gaza, não se reconcilia com a Fatah, que governa a Cisjordânia; e nenhuma destas facções consegue chegar a um acordo com os israelitas.

A imparcialidade ficou ainda mais comprometida, quando se soube que o Egipto abriu o seu espaço aéreo a Israel para que bombardeasse o Hamas em Gaza.

No campo económico, se o Egipto tem registado uma taxa de crescimento anual de 5 a 7 por cento, desde 2004, a realidade é que mais de 40 por cento da população vive na pobreza.

E foi esta realidade – mais do que a repressão de um Estado policial – que levou milhares e milhares de pessoas, a maioria desempregados e funcionários mal pagos, gente da cidade e do campo, jovens e velhos, homens e mulheres, para a Praça Tahrir, no Cairo, induzidas pela revolta que derrubou Ben Ali na Tunísia.

Preso ao passado, na era da globalização, do Facebook e do Twitter, Mubarak não chegou a compreender o que se passava à sua volta. O discurso no dia 10, que antecedeu a sua demissão, mostrava um líder num “universo paralelo”, como observaram alguns analistas.

Os egípcios reclamavam mais oportunidades económicas e mais direitos cívicos num país que teve, em 1923, uma Constituição tão progressista quanto a dos Estados Unidos e foi, nos anos 1950-60, quase são competitivo como o Japão, para se transformar num Estado com 1,5 milhões de informadores, uma taxa de literacia de apenas 66% e um produto nacional bruto (PNB) per capita de 2.270 dólares anuais (contra 26.256 no vizinho e mais pequeno Israel).

Ousted Egyptian president Hosni Mubarak

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Os egípcios cansaram-se da corrupção e do nepotismo que infiltraram toda a sociedade. Cansaram-se de um sistema que não se baseava em ideologia ou capacidades de liderança, como escreveu Aladdin Elaasar no seu livro The Last Pharaoh, mas “numa mistura de medo e recompensa aos seus colaboradores – ou seja um regime neo-sultânico”.

Mubarak podia ser abstémio (não bebia nem fumava e era viciado em exercício físico para uma vida saudável) mas era ganancioso. A sua família, em particular a mulher, Suzanne, e os filhos, Alaa e Gamal (que ele preparou para lhe suceder), acumulou uma fortuna de milhões, que os bancos suíços estão agora a congelar.

Como um militar empedernido, Mubarak resistiu até ser obrigado a sair. Sobre ele próprio, disse uma vez numa entrevista, em 2005: “Só tive três meses de férias em 56 anos de carreira. Há 56 anos que trabalho pelo Egipto. Deus está do meu lado e aqui morrerei.”

Ironia da História ou do destino que ele tenha abandonado o poder a 11 de Fevereiro, tal como o Shahanshah (Rei dos Reis) Mohammad Reza Pahlavi, que deixou o trono em Teerão em 1979 e agora jaz no Cairo – a cidade onde começou a revolução contra o faraó.

Não se confunda esta sublevação sem líder com a do carismático Ayatollah Khomeini, mas uma coisa é certa: 32 anos depois da queda do imperador iraniano, muitos persas invejam pela primeira vez os árabes.

[Em Maio de 2015, um juiz deliberou o fim de três anos de prisão a que Hosni Mubarak tinha sido condenado por corrupção. “Tecnicamente, é um homem livre”, escreveu o “New York Times“. Permanece, contudo, num quarto de hospital, que nos últimos três anos serviu também de cela. Os militares agora no poder parecem “mais tolerantes”, desde que o general Abdel Fattah el-Sisi assumiu a presidência em 2013, após afastar Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, acrescentou o jornal. Ambas as partes terão chegado a um “compromisso”: Mubarak continua “internado” mas os seus dois filhos, Alaa e Gamal, foram libertados, em 2015.]

© Carlos Latuff

© Carlos Latuff

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 1 de Julho de 2012 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on July 1, 2012

Cristãos sírios perdem a fé em Assad

George Sabra, presidente do principal movimento da oposição, e Hind Kabawati, membro da elite democrática e secular, explicam por que é que a ditadura deixou de ser aliado e protector das minorias. (Ler mais | Read more…)

Imagem de Cristo parcialmente queimada numa parede numa igreja ortodoxa grega em Maaloula, antiga cidade cristã, no nordeste de Damasco, que mudou de mãos várias vezes durante a guerra civil; muitos dos seus templos foram destruídos por jihadistas ou por bombardeamentos
© Pavel Golovkin | AP | The Washington Post

As cerimónias fúnebres de Bassel Shehadeh estavam marcadas para uma igreja no seu bairro de Kasaa, em Damasco. O jovem cineasta católico foi morto em Homs, a 28 de Maio [de 2013], depois de ter interrompido os estudos na América para documentar a revolução na Síria.

O templo encheu-se de cristãos, sunitas e alauitas, mas, “quando se ouviam os primeiros cânticos e orações, mercenários da polícia secreta começaram a dispersar à força a multidão”, relata Hind Aboud Kabawati, reproduzindo testemunhos de familiares.

“O regime, cada vez mais sectário, temeu que o funeral originasse confrontos com as forças de segurança, e os responsáveis religiosos cederam às pressões, só que as pessoas não desistiram e juntaram-se na casa de Shehadeh “, diz-nos, por telefone, a cristã Kabawati, obrigada a deixar a Síria “porque eles [governantes] não querem activistas a favor da democracia”.

Hoje, Kabawati divide o tempo entre o Canadá (Toronto), onde é advogada, e os EUA, onde é investigadora no Center for World Religions and Conflict Resolution da George Mason University (Virgínia), e ainda membro do Conselho Consultivo para o Médio Oriente no Banco Mundial e do Global Agenda Council do Fórum Económico Mundial.

As exéquias de Bassel Shehadeh, que suspendera a sua bolsa Fulbright na Syracuse University para ajudar jornalistas-cidadãos a gravar e editar vídeos da revolta, acabaram por se realizar no Mosteiro de São Moisés da Abissínia, construído há 1000 anos, nos arredores da capital, e que o jesuíta  Paolo Dall’Oglio ajudou a restaurar, transformando-o num centro de diálogo ecuménico.

[Este padre italiano foi raptado em 2013 quando negociava um acordo de paz na cidade de Raqqa, que estava a ser disputada por grupos rebeldes e pelo autoproclamado “estado islâmico” (Daesh). O seu desaparecimento permanece um mistério.]

A 16 de Junho, o sacerdote formado em árabe e teologia, com uma tese sobre A Esperança no Islão, foi expulso após três décadas a viver no país onde foi ordenado, segundo o rito siríaco. “Ele é o meu mentor”, orgulha-se Kabawati, quando lhe pedimos o contacto, impossível de estabelecer.

O jovem cineasta católico Bassel Shehadeh foi morto em Homs, em 28 Maio de 2013, depois de ter interrompido os estudos na América para documentar a revolução na Síria
© National Public Radio (NPR)

Kabawati ainda se mostra relutante em “armar a revolução” [uma decisão entretanto aprovada pelas potências ocidentais], iniciada em Março de 2011, mas, com o número de mortos a aproximar-se dos 15 mil – o conflito com mais crianças massacradas, segundo repórteres de guerra -, interroga-se como podem os civis proteger-se se ninguém lhes der instrumentos para se defenderem.

Tal como Dall’Oglio, também Kabawati reconhece que os cristãos da Síria – 10% dos 22 milhões de habitantes – “têm medo de que um regime corrupto e repressivo, autoproclamado guardião das minorias, possa ser substituído por uma teocracia islâmica.”

E acrescenta: “Sabemos bem o que aconteceu aos cristãos no Iraque, perseguidos após a queda de Saddam Hussein; aos cristãos no Líbano, marginalizados desde a guerra civil [1976-1999]; e aos coptas no Egipto, em constante vigilância para que os seus direitos não sejam espezinhados”.

“Durante muito tempo, os cristãos acreditaram que era preferível alinharem com o diabo conhecido do que o desconhecido, mas, felizmente, são cada vez mais os que tomam consciência de que não podem ser protegidos por ditadores”, reconhece a mulher galardoada em 2007 com o Peacemakers in Action Award do Tanenbaum Centre for Interreligious Understanding, em Nova Iorque.

“Queremos confiar que, depois de Bashar al-Assad, um líder com as mãos manchadas de sangue, teremos um Governo secular e democrático numa Síria independente, onde todos serão tratados como cidadãos e não apenas como membros de uma confissão religiosa, livres de poderem praticar a sua fé.”

Hind Aboud Kabawati não coloca qualquer objecção a uma Síria liderada por um sunita – cerca de 75 por cento da população (das restantes comunidades muçulmanas, 13% são alauitas, ismailis e xiitas duodecimanos e 3% drusos). “O problema está na dinastia Assad.”, sublinha.

“Convém não esquecer que, entre os fundadores do Baas [há meio século no poder] e do Partido Nacional Sírio, estavam cristãos; que um dos maiores líderes políticos sírios foi o primeiro-ministro Fares Khoury [1944-1945 e 1954-1955; morreu em 1962, aos 85 anos], ortodoxo grego. No entanto, a partir dos anos 1960, o cargo mais elevado que um cristão exerceu foi o de ministro. Sob a actual Constituição, nenhum cristão pode ser Presidente.”

O padre Dall’Oglio e a sua discípula Kabawati partilham a convicção de um outro cristão, George Sabra, de 64 anos, de que o medo dos cristãos “é uma questão geracional”.

Os mais jovens “começam a ganhar confiança e a acreditar que a democracia é a melhor protecção”, constata o agora presidente [na altura da entrevista era apenas porta-voz] do Conselho Nacional Sírio (CNS, principal movimento da oposição, no exílio).

[O CNS foi criado como uma autoridade política de transição, em Setembro de 2011, e apresentado oficialmente a 1 e 2 de Outubro do mesmo ano, em Istambul, na Turquia. O objectivo era coordenar a luta – na Síria e em território de outros países – de mais de 30 grupos da oposição.

Depois de Bashar al-Assad ter recusado reformar o regime, a “revolução” inicialmente pacífica deu lugar a uma guerra civil. Embora a maioria dos membros do CNS seja sunita (sobretudo ligados à Irmandade Muçulmana), tem também nas suas fileiras curdos e cristãos.]

Sírios homenageiam o padre jesuíta italiano Paolo Dall’Oglio, raptado em 2013, em Raqqa. Os cristãos admiravam a sua mensagem de paz, tolerância e coexistência
© AP | The National

As declarações de Sabra, activista da oposição desde 1971, formado em Geografia (em Damasco) e Sistemas de Tecnologia da Educação (Indiana, EUA), foram feitas, por telefone, a partir de Paris, onde chegara cinco meses antes e depois de ter sido forçado a abandonar a sua cidade de Katana (a 20 km de Damasco). Fugiu “a pé, sob a mira de atiradores furtivos”, atravessando a Jordânia”.

Antigo professor, editor em revistas e programas culturais, autor de livros infantis [um deles, Yfath Ya Simsim, versão árabe de Rua Sésamo], ex-dirigente do Partido Comunista Sírio e fundador do Partido Popular Democrático Sírio, Sabra recusa a imagem dos cristãos como “aliados do regime”, porque “há cada vez mais cristãos presos e mortos.”

É certo, concede, que têm sido, em particular, as elites, a que ele e Kabawati pertencem, as mais participativas nas acções políticas e mediáticas. Como “grupo de massas”, os cristãos têm sido passivos.

A “ausência nas ruas tem sido encorajada pelo clero de todas as igrejas”, que só recentemente tem vindo a abandonar a posição irredutível de não afrontar os Assad julgando que, deste modo, salva os cristãos, frisa Sabra.

“Não há que ter medo dos sunitas, que têm demonstrado uma grande moderação – não são eles os culpados por 200 mil cristãos terem abandonado a Síria desde 1970.”

George Sabra cita um exemplo de “coexistência”, quando o monge Dall’Oglio recebeu a primeira ordem de expulsão: os habitantes de Hama, “cidade muito conservadora”, onde Hafez, o pai e predecessor de Bashar, ordenou o massacre de milhares de pessoas para se vingar da Irmandade Muçulmana, em 1982, “desfilaram pelas ruas, transportando cruzes, numa manifestação de solidariedade com o padre.”

Em contraste, Hindi Kabawati menciona o caso de Yara Chammas, uma jovem de 21 anos que organizou a distribuição de alimentos, remédios e vestuário quando começaram os bombardeamentos em Baba Amr – cidade do distrito de Homs reduzida a escombros em dois meses de ferozes combates.

Orações numa igreja em Damasco: os cristãos sírios representavam 10% dos 22 milhões de habitantes antes do início da Guerra civil em 2011
© Bassem Tellawi | Associated Press | The Durango Herald

A acção humanitária de Yara, a filha de Michel Chammas, destacado activista cristão de direitos humanos, foi punida com 60 dias de detenção. Acusada de ser “traidora” e “inimiga”, ninguém na sua comunidade foi em seu auxílio.

Sabra, que também foi, em 2005, um dos dinamizadores da Declaração de Damasco para a Mudança Democrática Nacional, insurge-se: “Como podemos dizer que este regime é secular e é democrático? É um sistema corrupto, injusto, sanguinário – o mais terrível que existe!”

A intervenção das forças de segurança para impedir que o funeral de Bassel Shehadeh decorresse na igreja em Kasaa – “era esperado cerca de um milhão de pessoas”, segundo Sabra – mostrou que “o medo mudou de campo”.

Os massacres atribuídos às tropas e milicianos governamentais “repetem-se quase diariamente, mas o Exército Sírio Livre [formado, sobretudo, por desertores das Forças Armadas] já está em Damasco. É preciso que os revolucionários recebam armas para defender os inocentes. Não pode haver mais violência do que aquela que está a acontecer agora. Nada se compara a isto!”

Sendo presidente “e um de muitos cristãos” na hierarquia do CNS, George Sabra concordou [nesta entrevista quando era apenas porta-voz] que a eleição de um curdo, o académico Abdul Basset Sayda, para a liderança “é um indicador da disponibilidade para atrair mais grupos da oposição, de modo a fomentar a unidade e preparar o período de transição pós-colapso de Assad”.

É necessário “provar que estamos prontos para trocar a ditadura pela democracia”, sublinhou Sabra. [Abdul Basset Sayda, dissidente de origem curda presidiu ao Conselho Nacional Sírio, do qual foi fundador, apenas de 9 de Junho a 9 de Novembro de 2012. Aderiu posteriormente à Coligação Nacional das Forças da Oposição e da Revolução/CNFOR).

“Sayda inspirou, desde o início, uma parte do Conselho Nacional Curdo (CNC), que representa 11 grupos na Síria e no exílio, também eles cortejados pelo Exército Livre – depois da promessa de que não têm ambições separatistas”, refere Sabra. “Estarão apenas interessados em salvaguardar a sua “identidade nacional, igualdade de género e liberdade de crença”.

“Não me digam que os cristãos não são revolucionários, porque sei bem o que é lutar pela liberdade e dignidade”, acentua Sabra. “Estive oito anos nas cadeias de Hafez al-Assad, entre 1987 e 1995.

A partir de 1979 ficou proibido de sair do país. Em 2011, Bashar enviou-me duas vezes para a prisão, de Abril a Maio e de Julho a Setembro. Comigo foram encarcerados 14 jovens cristãos que encorajavam as pessoas a participar em protestos pacíficos.”

Uma cristã síria reza perante a imagem da Virgem Maria num santuário em Maaloula
© John Wreford | USA Today

Hind Kabawati também descreve a escolha de Sayda, em substituição de Burhan Ghalioun, um intelectual residente em Paris e suspeito de favorecer a Irmandade Muçulmana, como “um bom passo”.

[Burhan Ghalioun, de nacionalidade franco-síria, é professor de Sociologia na Université de Paris III. Foi o primeiro presidente do Conselho Nacional de Transição, escolhido em 29 de Agosto de 2011]. As minorias “têm os olhos postos em Sayda, porque os curdos [8% da população] nem sequer têm direito a passaporte.

“A oposição tem estado dividida porque o regime sempre impediu a nossa união e organização. Há muitos egos, mas o CNS tem de apresentar um programa claro, e a comunidade internacional tem de ajudar, como fez na Bósnia.”

“Eu acreditei em Bashar quando ele se tornou presidente [em 2000]”, confessa Kabawati. “Tínhamos tantos sonhos, mas ele desiludiu-nos. Revelou-se muito pior do que Hafez, porque este matou numa cidade [Hama, cerca de 40 mil mortos], mas o filho está a matar todo o povo, não se apercebendo que o mundo mudou e que já não pode ficar impune, como o pai.”

Hind Kabawat: “Eu acreditei em Bashar quando ele se tornou presidente [em 2000]”, confessa Hind Kabawati. “Tínhamos tantos sonhos, mas ele desiludiu-nos”
© United Fashion for Peace

“Não me digam que os cristãos não são revolucionários, porque sei bem o que é lutar pela liberdade e dignidade”, afirma George Sabra, presidente do Conselho Nacional Sírio, na oposição. “Estive oito anos nas cadeias de Hafez al-Assad; desde 1979 que estava proibido de sair do país; em 2011, Bashar enviou-me duas vezes para a prisão”
© Mehdi Fedouach | AFP | Getty Images

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 3 de Julho de 2012 | This article, now revised and updated, was originally published by the newspaper PÚBLICO on July 3, 2012

“Israel parece viver em estado de amnésia total”

A expulsão de imigrantes sudaneses ilegais, descritos por responsáveis políticos como “um cancro” ou “um vírus”, escandalizou Erika Davis, uma negra americana convertida ao Judaísmo. “Será que os judeus se esqueceram do seu próprio passado?” (Ler mais | Read more…)

Cerca 60 mil africanos pediram asilo em Israel: a maioria dos que atravessaram a península egípcia do Sinai em busca de segurança – homens, mulheres e crianças – provém da Eritreia ou de zonas do Sudão como o Darfur, onde as suas vidas correm perigo se voltarem. © The Independent

Cerca 60 mil africanos pediram asilo em Israel: a maioria dos que atravessaram a península egípcia do Sinai em busca de segurança – homens, mulheres e crianças – provém da Eritreia ou de zonas do Sudão como o Darfur, onde as suas vidas correm perigo se voltarem
© The Independent

No mesmo dia em que os primeiros 120 imigrantes ilegais eram repatriados de Israel para Juba, capital do Sudão do Sul, Erika Davis – uma “orgulhosa judia, negra e lésbica” de Brooklyn (Nova Iorque) – questionava sobre se estes africanos teriam o mesmo destino “se fossem brancos”.

Mais do que a expulsão [iniciada em 20 de Junho de 2012] o que mais escandalizou Erika, membro de uma organização não-governamental nos Estados Unidos, foi alguns responsáveis políticos israelitas, incluindo o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, terem insultado os imigrantes como “um cancro no nosso corpo”, “uma praga nacional”, “uma ameaça, por serem muçulmanos – a doença mais terrível que há no mundo”, “um vírus que pode explodir a qualquer momento”.

Das cerca de 60 mil pessoas que pediram asilo em Israel, menos de 1000 são oriundas do Sudão do Sul, país recém-nascido após a divisão do Sudão entre o Norte, árabe-muçulmano, e o Sul, cristão e animista, referem grupos de apoio como a Hotline for Migrant Workers.

A maioria dos que atravessaram a península egípcia do Sinai em busca de segurança – homens, mulheres e crianças – provêm da Eritreia ou de zonas do Sudão como o Darfur, onde as suas vidas correm perigo se voltarem às suas casas.

Depois de vários dos indesejados terem sido vítimas de ataques em Telavive – casas queimadas, espancamentos e outras agressões – uma sondagem conduzida pelo Israel Democracy Institute indicou que 53 % dos israelitas se identificam com as declarações dos seus políticos.

Após a primeira deportação, o ministro do Interior, Eli Yshai  – filho de judeus mizrahi (originários do Médio Oriente, do Magrebe ao Irão) que emigraram da Tunísia –, anunciou que as detenções de ilegais, um total de 300 até agora, “são apenas o começo”.

“Será que em 60 anos de existência, o moderno Israel se esqueceu da sua História de perseguição, de guetos, campos de extermínio e refugiados?”, revolta-se Erika Davis, autora do blogue Black, Gay and Jewish, numa entrevista, por telefone. “É chocante! Estamos sempre a repetir que não devemos esquecer-nos, mas parece que agora Israel vive em estado de amnésia total.”

Mais do que a expulsão, iniciada em 20 de Junho de 2012, o que mais escandalizou Erika Davis foi alguns políticos israelitas, incluindo o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, terem insultado os imigrantes como “um cancro no nosso corpo”, “uma praga nacional”, “uma ameaça, por serem muçulmanos – a doença mais terrível que há no mundo…”
© Corinna Kern | Reuters

Filha de dois protestantes, mãe baptista e pai metodista, educada durante 12 anos numa escola católica, Erika Davis converteu-se ao judaísmo há cerca de um ano, numa sinagoga da congregação da Reforma (mais progressista do que a Ortodoxa). Antes, ironiza, foi uma “hippie pagã, uma aspirante a budista e uma ateia desleixada”.

Começou a distanciar-se do Cristianismo quando tinha 21 anos (hoje tem 32), porque os seus pastores, ao contrário do seu rabi, lhe respondiam que “ia para o inferno se duvidasse que Deus criou o mundo em sete dias” ou questionasse outros dogmas.

“A religião judaica não é racista”, frisa Erika. “As pessoas é que estragam tudo. Sempre houve judeus negros, com diferentes tradições, línguas e culturas – e isso é uma das belezas do Judaísmo. Não é maravilhoso que os judeus etíopes tivessem preservado a sua fé até hoje?”

“A realidade é que, em Israel e na América – sobretudo aqui devido à nossa história de segregação racial e escravatura – prevalece a imagem do judeu branco e askhenazi [de origem europeia]. Pele branca é igual a privilégio branco.”

“Se eu perguntar aos meus amigos negros judeus, de nascimento ou convertidos, se os judeus são racistas, todos responderão que sim”, lamentou Erika. “Eles irão citar o modo como os árabes são tratados em Israel e a actual situação dos imigrantes sudaneses ilegais.”

“Lembrar-se-ão de palavras odiosas que ouviram numa sinagoga ou na única yeshiva [escola talmúdica] para negros. A mim, já me aconteceu, estar num colégio para crianças judias, de 10-11 anos, e ser confundida com uma ama, porque os miúdos não são ensinados a reconhecer a diversidade no Judaísmo.”

Ser olhada “com suspeição, apenas por causa da cor da pele” não abala a fé de Erika Davis. “Há muita hipocrisia também no cristianismo e essa foi, aliás, uma das razões por que me aproximei do judaísmo, de onde emanaram as religiões monoteístas.”

“Gosto da minha nova espiritualidade. Não foi um retrocesso deixar de aceitar Jesus como um Messias. Afinal, ela era um judeu, e morreu como judeu. Não acredito em utopias; em salvadores do mundo. Os judeus não são um povo perfeito – isso não existe!”

Embora tenham mais direitos do que os refugiados africanos, também os judeus etíopes em Israel, que foram chegando desde os anos 1970, se queixam de discriminação e racismo
© Middle East Eye

A associação Jewish Federations of North America (que representa 157 federações e 400 redes comunitárias nos EUA, angariando anualmente 3000 milhões de dólares para serviços sociais e educativos) nomeou, este ano, Erika Davis como Jewish Community Hero. Valorizou, assim, os seus esforços para “tratar os estranhos como seres humanos, porque também os judeus no Egipto foram estranhos em terra estrangeira.”

Além de estar a preparar a autobiografia, para partilhar o processo de se “aceitar como lésbica, aos 28 anos”, a blogger Davis planeia também elaborar um currículo para escolas judaicas nos Estados Unidos. Quer que os alunos que partilham a sua religião aprendam que há hebreus brancos e negros.”

No entanto, concede, se já “será complicado” apresentar esta proposta na América, “é praticamente impossível” levá-la para Israel. Neste país, a hostilidade para com os imigrantes africanos tem motivações “mais políticas do que religiosas”, e estas têm sido encorajadas por antigos imigrantes, judeus da extinta União Soviética.

Num artigo publicado no diário hebraico Ha’aretz, o judeu americano-israelita Roi Ben-Yehuda, investigador em Resolução de Conflitos na Universidade de Columbia (EUA) lembra, a propósito das declarações xenófobas sobre os imigrantes africanos, que “todos os genocídios registados pela História foram precedidos do uso instrumental da linguagem para desumanizar e demonizar uma determinada população – o Holocausto, o pior dos casos, mas também o Ruanda e o Camboja, no tempo dos Khmer Vermelhos.”

“Definir alguém como doença, acima de tudo doença terminal, é torná-lo não-humano, repugnante e perigoso: algo que é mutante e se alimenta de nós”, criticou o autor do blogue roiword.wordpress.com, citando um excerto do ensaio Illness as Metaphor, de Susan Sontag, escrito em 1977, após lhe ter sido diagnosticado um tumor:

Descrever um fenómeno como cancro é um incitamento à violência. O uso do cancro no discurso político encoraja o fatalismo e justifica medidas ‘severas’, assim como reforça a noção já de si generalizada de que a doença é necessariamente fatal. Embora as metáforas de doença nunca sejam inocentes, a metáfora do cancro é a pior de todas, porque implicitamente genocida.

“A religião judaica não é racista”, frisa Erika Davis. “As pessoas é que estragam tudo. Sempre houve judeus negros, com diferentes tradições, línguas e culturas – e isso é uma das belezas do Judaísmo”
© Jewish Women’s Archive

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 24 de Junho de 2012 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on June 24 2012

A insólita “missão de paz” de Reza Baluchi

Ele vai atravessar o Médio Oriente numa “corrida pela paz”, mas não vai parar aí. Quando chegar ao Monte Evereste, terá passado por 195 países, um deles Portugal. (Ler mais | Read more…)

© Reza Baluchi

© runwithreza.org

Foram cerca de 400 quilómetros a pé, da sua casa em Teerão até Isfahan, a cidade onde moravam os tios a quem pediu abrigo depois de uma briga violenta com a mãe. Reza Baluchi tinha oito anos e, desde então, a sua vida tem sido uma correria.

“Não posso revelar o que motivou a discussão, porque estou a preparar uma autobiografia que, talvez, dê um filme”, disse à 2 o iraniano que fugiu do seu país em 1995 e espera voltar, em 2013, quando atravessar o Médio Oriente numa “missão pela paz”.

Hoje com 40 anos, Reza vive numa tenda em Death Valley, na Califórnia, e é aqui, com temperaturas, diurnas e nocturnas, “entre os 40 e os 49 graus centígrados”, que ele se prepara para a “grande viagem”.

Contactei-o através da sua página no Facebook, mas ele demorou a responder porque tem de pedir emprestados computador e telefone. Esta entrevista foi feita através do telemóvel de uma amiga, que o alojou temporariamente num apartamento em Los Angeles.

“Sou como um cigano”, diz Baluchi, voz pausada e inglês titubeante. “Nunca precisei de muita coisa para subsistir. Durmo duas a três horas por dia. É suficiente. Trabalho num hotel no Parque Nacional, no turno da noite, lavo a louça e faço outros trabalhos, em troca de dinheiro, alimentos e, sobretudo, autorização para acampar e correr pelos trilhos. Não me falta nada. Só me lembro de ter adoecido uma vez, com malária, numa passagem por África.”

África foi um dos continentes por onde Reza Baluchi vagueou quando deixou Portugal em 2000, mas antes contemos a sua história no Irão. Quando a mãe lhe deu uma tareia, não pensou duas vezes e fugiu. Estava habituado a caminhar uma média de dez quilómetros diários para ir e vir da escola. “Não foi difícil nem tive medo durante as duas semanas que demo- rei para chegar a Isfahan”, garante. Também não se zangou.

Desde os sete anos que ajudava o pai, que era mecânico, e arranjou um emprego nesta área para enviar o salário para a família. Estudava e trabalhava, percorrendo sempre longas distâncias, até que trocou os livros pelo ofício que lhe dava prazer.

Se a habilidade de Baluchi a consertar carros ainda continua a ser uma das suas formas de subsistência, foi a resistência física, aos 14 anos, que chamou a atenção da selecção iraniana de ciclismo. Não desiludiu e ajudou a vencer várias provas, mas não bastou para evitar provações.

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Um adolescente revoltado com as normas de conduta impostas na República Islâmica, Baluchi afastou-se da religião e aproximou-se de opositores políticos. Foi preso na cadeia de Evin.

“Era um ambiente sufocante”, recorda. “Se usava cabelo comprido, era obrigado a cortá-lo. Se fosse apanhado a dormitar num passeio, era chicoteado. Quando a milícia Basij me deteve, eu vestia uma T-shirt com a imagem de Michael Jackson e tinha comigo um filme romântico iraniano, comprado no mercado negro.”

Até as autoridades concluírem que ele “não era uma ameaça”, Baluchi foi isolado numa cela “durante 45 dias”. Nesta entrevista, não quis lembrar esse “período doloroso”, que descreveu assim à CNN: “Torturavam-me to- dos os dias. Seria melhor que me matassem para eu não ter de sofrer.” Depois de liberta- do, voltou ao ciclismo, mas o seu sonho já era outro: deixar o Irão.

A oportunidade surgiu quando a equipa foi competir na Alemanha, em 1996. “Pedi asilo político”, contou. “Consegui apenas uma licença de residência, que tinha de ser renovada de seis em seis meses. Fui aceite numa equipa de ciclismo e ganhámos várias vezes.”

“Ao fim de quatro anos, a fazer todo o tipo de tarefas para sobreviver, decidi ir para a América. Peguei na minha bicicleta, oferecida por colegas alemães, e parei no México. Até lá, andei pelo resto da Europa, por África, pela Austrália, pela Ásia e pela América do Sul — um total de 55 países.”

Em 2000, Baluchi estava no Algarve. “Integrei uma equipa de ciclismo, mas não gostei e, dez dias depois, fui para Lisboa”, relata. “Tenho um grande amigo em Cascais, Mohamed Tasmini, dono de dois bares. Ajudou-me muito e ainda nos mantemos em contacto. Deu-me 2000 dólares que fiz seguir pelo correio para a minha família no Irão.”

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Hossein Mermazie, 36 anos, outro iraniano que vive em Portugal desde 1986, também se recorda do compatriota que conhecia como Ali. “Ficou em nossa casa durante uma semana. Foi-nos apresentado junto ao Chequers [um dos bares de Tasmini], que ficava perto da pizzaria da minha tia. Vinha de bicicleta e trazia fotos das fronteiras por onde passava. Era uma pessoa simples por quem o meu pai nutria grande afeição, mas não falava muito.”

Mashi, a mãe de Hossein, diverte-se quando evoca o tempo em que Ali/Balushi partilhou o mesmo tecto. “Era tão fechado que alguns vizinhos receavam que pudesse ser perigoso. Não partilhava o passado, mas lutou muito para construir o futuro. Um dia, ficámos espantados quando, ao ouvir uma rádio que emite em farsi, tomámos conhecimento de que ele tinha chegado à América.”

E, para chegar à América, um empurrão crucial, segundo Hossein, terá sido um emprego que Ali/Baluchi conseguiu em Sintra, após responder ao anúncio de um “coleccionador de carros antigos” que precisava de um bom mecânico.

“Ele abria e voltava a montar caixas de mudanças automáticas de olhos fechados, e isso era impressionante na época. O patrão não só lhe pagava bem como o instalou numa roulotte de luxo à porta da sua residência.”

Depois de Portugal, a primeira etapa de Baluchi foi Marrocos. Seguiu-se o Senegal, a Mauritânia, o Níger, o Burkina Faso… “Nunca tive problemas”, assegura. “Sou um tipo pacífico que quer mostrar a humanidade das pessoas do Médio Oriente.”

Foi complicado transmitir essa mensagem, sobretudo depois dos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2011. Após uma estadia na Argentina e chegado a Monterrey, na fronteira do México com os EUA, Baluchi esperou 90 dias por um visto de entrada na terra dos seus sonhos.

“Ainda não tinha os documentos da imigração e entrei sem querer no Arizona”, conta. “Pensava que estava em território mexicano e montei a minha tenda. Ao amanhecer, tinha um helicóptero a sobrevoar a área. Assustado, comecei a falar alemão, mas ao verem os recortes de jornais que eu tinha comigo, um deles, o Anglo-Portuguese News, que se referiam a ‘um iraniano em busca da paz’, os polícias apontaram-me as armas. Detiveram-me por ‘entrada ilegal’. Como eu não tinha meios de pagar a fiança, de 5000 dólares, fiquei preso cinco meses.”

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Em tribunal, “prometi ao juiz que correria por todos os EUA e que o dinheiro angariado iria para os familiares das vítimas do 11/9”, precisou Baluchi. “Consegui isso graças a do- nativos da comunidade iraniana-americana e de muitas empresas.”

Em 2007, após uma primeira volta à América (a segunda foi em 2009), Baluchi percorreu o perímetro dos EUA — 202 dias consecutivos —, recolhendo fundos para o Hospital Pediátrico de Denver. Se as promessas cumpridas lhe deram fama, o momento de glória foi a oferta da sua bicicleta ao Departamento de Bombeiros de Nova Iorque, o que perdeu mais profissionais na explosão das Torres Gémeas. “Vai ficar exposta no renovado Ground Zero”, exultou.

Agora, em Death Valley, Reza Baluchi prepara-se para a “missão mais importante”: a travessia do Médio Oriente. Começará em Fevereiro de 2013, ainda sem dia marcado. “Partirei de Jerusalém e não falarei com ninguém excepto com a minha mãe, quando chegar ao Irão, quinta etapa da caminhada até ao Monte Evereste. O meu silêncio será como um jejum de palavras. Deixo tudo escrito aos amigos que me acompanham.”

“De cada lugar por onde passar levarei um pouco de terra, símbolo de paz. Todo o dinheiro que angariar será oferecido a instituições que ajudam crianças de rua. Quero que essas crianças possam ter bolsas de estudo e só peço que, depois de formadas, também elas ajudem outros. Toda a gente pode ser um herói.”

Quando o inquirimos se não tem medo de ser preso ao chegar a Teerão, até porque partirá de Jerusalém, cidade que israelitas e palestinianos reclamam como capital, Baluchi responde: “É difícil, mas não impossível — no final terei estado em 195 países. Quero ser uma ponte. Não tenho religião, mas acredito que Deus me protege. A minha família é o mundo.”

Em 2016, Reza Baluchi tentou, sem êxito, chegar às Bermudas numa bolha insuflável. A Guarda Costeira americana resgatou-o pela segunda vez. A primeira foi em 2014, quando se perdeu na corrente do golfo e esteve três dias perdido no mar alto. Esta era mais uma missão humanitária: “Angariar fundos crianças pobres e inspirar os que perderam a esperança num futuro melhor”
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Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 24 de Junho de 2012 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on June 24, 2012