Da prisão para o palácio (e do palácio para a prisão)

Com a idade de Hosni Mubarak – 84 anos –, a Irmandade Muçulmana deixou de ser sociedade secreta para ocupar a chefia do Estado no Egipto. [Mas a presidência de  Morsi foi de curta duração] (Ler mais | Read more….)

@Jean Gouders

© Jean Gouders

A incerteza e a ansiedade de ter um apparatchik da al-Ikhwan al-Muslimun (Irmandade Muçulmana) como primeiro Raïs (Presidente) civil e democraticamente eleito da república não retiraram aos egípcios o sentido de humor: “Há vários dias que Hosni Mubarak morreu; sabem se ele está bem?”

Esta anedota, contada por Osama Diab, jornalista e blogger (The Chronikler foi premiado pela Deutsche Welle como “o melhor blogue em língua inglesa de 2012”), mostra como o Egipto já não venera os seus líderes como deuses.

É, acima de tudo, reveladora de como, talvez, sejam precisos muitos anos para que interiorizem um “acontecimento tão profundo e transformativo” em 7000 anos de história, como escreveu outro influente jornalista, Issandr El Amrani, autor do blogue The Arabist.

A saúde do deposto ditador agravou-se – “muito deprimido, entra e sai do estado de coma”, segundo os médicos, desde que foi informado, no hospital-prisão onde cumpre pena perpétua, de que foi o sexagenário Mohamed Morsi o escolhido para ocupar o seu lugar no palácio de Orouba.

Mubarak estava convencido de que teria como sucessor o seu último primeiro-ministro, o septuagenário Ahmed Shafiq, mas este foi derrotado, na segunda volta das presidenciais, por 48,27 % dos votos, contra 51,73% do rival.

“É o pior pesadelo para Mubarak”, nascido no mesmo ano (1928) em que Hasan al-Bana fundou a Ikhwan, disse-nos, numa troca de e-mails, o egípcio-britânico Diab, que divide os seus dias entre o Cairo e Londres. A vitória de Morsi é sentida como “mais um insulto a juntar às afrontas” que a antiga família presidencial tem sofrido desde a revolução de Janeiro de 2011

“É uma derrota pessoal” para o marechal que esteve três décadas no poder – uma longevidade só superada por Muhammad Ali Paxá, o primeiro khedive (título equivalente a vice-rei) do Egipto moderno.

@PANCHO (New York Review of Books)

© Pancho (New York Review of Books)

Adel Iskandar, académico no Center for Contemporary Arab Studies da Universidade de Georgetown (EUA), concorda que a eleição de Morsi “foi profundamente humilhante” para Mubarak.

“Ele rodeou-se dos generais mais leais que agora integram o Conselho Supremo das Forças Armadas [CSFA], na esperança de que este dia nunca chegasse, mas viveu para os ver abandonarem-no e deixarem de apoiar o veterano Shafiq, de modo a garantirem a sua própria sobrevivência”, afirmou, também por e-mail, o colunista do jornal independente egípcio Almasry Alyoum.

Quem é, afinal, Mohamed Morsi [que as Forças Armadas iriam retirar do chefia do Estado, em 2013, e condenariam à morte, em 2015, e a prisão perpétua, em 2016, em processos judiciais separados]?

“Os egípcios mal o conhecem”, reconhece Iskandar. “Grande parte do seu trabalho e actividade política tem sido desenvolvida nas fileiras da Irmandade, organização que se refugiava na opacidade e secretismo.

A nível pessoal, Morsi é também um recém-chegado à política eleitoral, empurrado para a ribalta [após a candidatura desqualificada do ‘número dois’ da confraria], o que faz dele um estranho. É certo que, no final, será julgado mais pelas acções e capacidade de ir ao encontro das necessidades do país do que pela sua pessoa, mas é importante que os cidadãos sejam inquisitivos sobre quem os vai governar. Não ser uma personalidade colorida poderá, por outro lado, constituir uma boa mudança depois do culto de personalidade fomentado pelos anteriores líderes.”

“Muitos eleitores apoiaram Morsi não por gostarem das suas ideias mas porque o consideravam a única opção contra o velho regime”, constatou Iskandar. “De facto, mais de metade opôs-se a ele na primeira volta” – só obteve 5,5 milhões de votos ou 24%; na segunda, conquistou 13,2 milhões.

“Depois de ter vencido à custa da revolução contra a qual conspirou, a Irmandade arrisca-se a ser confrontada pelas massas, e a ter de ceder. Morsi manifestou, por exemplo, a intenção de nomear para vice-presidentes uma mulher e um cristão copta [e neste último caso, cumpriu]”, uma comunidade temerosa que apelou ao voto em Shafiq.

“Estas escolhas constituem um gesto histórico extraordinário, mesmo que os escolhidos tenham mais peso simbólico do que político. O novo Presidente chega ao palácio com um saco cheio de dívidas para com aqueles que retiraram a Irmandade da obscuridade – e os revolucionários esperam a recompensa [-não a tiveram e voltaram às ruas].”

Mideast Egypt

© AP (Associated Press)

“Não sabemos muito sobre Morsi”, concorda Osama Diab. “Durante a monarquia, antes da revolução de 1952 [que fez de Gamal Abdel Nasser o maior inimigo da Ikhwan – foi ele quem ordenou o enforcamento do ideólogo, Sayyid Qutb, em 1966], o partido al-Wafd era tão popular que, na altura, havia o seguinte ditado popular: ‘Se o Wafd nomear uma pedra, as pessoas votarão nela.’ Creio que o mesmo se aplica hoje.”

“O maior trunfo de Morsi foi o de ter sido o candidato da Irmandade Muçulmana. Do seu sucesso individual, só conhecemos a carreira como professor universitário nos EUA (onde dois dos seus cinco filhos obtiveram cidadania americana) e no Cairo. Ele foi o maior beneficiário da ausência de uma terceira força política que atraísse os eleitores forçados por generais e ‘irmãos’ a votarem contra, e não num dos campos.”

Sendo Morsi um desconhecido sem carisma, por que motivo os omnipotentes militares confirmaram a vitória do filho de um camponês do delta do Nilo que aprendeu a ler o Corão com a mãe e se doutorou em Engenharia de Materiais na Universidade da Califórnia do Sul em 1982 – um ano depois de Anwar Sadat, predecessor de Mubarak, ter sido assassinado por um extremista? Muitos esperavam que, após prolongado suspense, o CSFA anunciasse o triunfo de Shafiq. Foi, POIS, uma surpresa saber que ele fora derrotado.

A alegada ameaça da Administração Obama de suspender a vital ajuda militar ao Egipto (o segundo maior receptor depois de Israel) terá sido um factor de peso. Os militares sabiam que, favorecendo Shafiq, se arriscariam a uma permanente sublevação.

Além disso, durante e após o reinado de Mubarak, já Morsi tinha sido um intermediário conveniente em negociações com a Segurança do Estado – o aparelho repressivo que se infiltrava nos grupos da oposição.

Assim, num domingo de unho, uma semana antes da sua tomada de posse, a guarda presidencial foi a casa de Morsi, não para o conduzir à prisão onde Mubarak o colocou, mas para o proteger. E foi na televisão estatal, que sempre demonizou a Ikhwan, que Morsi fez o primeiro discurso à nação, desvinculando-se do Partido da Justiça e Liberdade (ala política da Irmandade), para “servir todos os cidadãos”.

A 1 de Julho de 2012, depois de um discurso na Praça Tahrir, no Cairo, coração da revolta, Morsi tomou posse perante o Supremo Tribunal Constitucional e não perante o Parlamento. Submeteu-se, uma vez mais, ao CSFA, que no princípio de Junho dissolvera a Assembleia Popular, na sequência de uma “adenda constitucional” (contestada judicialmente) que também limitou os poderes da Presidência.

“Este momento simboliza uma mudança que ninguém previa”, salientou Osama Diab na entrevista que nos deu. “A chegada da Irmandade ao topo da hierarquia do mais populoso país árabe marca o fim de uma era quando os militares assumiram o poder na maioria dos países do Médio Oriente, ganhando legitimidade por terem combatido e expulsado as potências coloniais. Esta legitimidade é, agora, cada vez mais frágil e menos convincente.”

@DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

“É certo que Morsi está consciente da sua fraqueza”, notou Diab. “Uma grande parte do ‘Estado profundo’ tem interesse em que fracasse. Por isso, ele foi rápido a garantir que protegerá as liberdades quando se encontrou, por exemplo, com artistas e escritores.”

“Obviamente, que se manterá estreitamente ligado à Irmandade, e que a área onde terá mais largueza de acção será a da economia, porque a organização é pragmática e não quer afastar investidores e visitantes estrangeiros” – o turismo, principal fonte de receitas, caiu 30% no primeiro trimestre deste ano face ao mesmo período de 2011, segundo o FMI.

O principal desafio de Morsi, que poderá, segundo alguns analistas, não completar os quatro anos de mandato, será o de “não afrontar demasiado a Segurança do Estado e provar aos revolucionários que não é brando com o CSFA”, comentou Diab. “Parece uma tarefa impossível, mas teremos de ver como vai lidar com a situação. Outro dos seus reptos será conter o medo que o islão político inspira e provar que não é repressivo, embora desse modo hostilize os islamistas ortodoxos.”

Iskandar, por seu turno, não acredita que o CSFA abdique dos seus privilégios, sendo mais plausível que Morsi se renda, ainda que possa tentar mobilizar “a rua” contra os militares. “Se não quiser ser um presidente só de protocolo, ele terá de ser assertivo na sua independência em relação a todas as instituições do Estado e facções políticas de que era aliado para poder governar o Egipto num período de divisões”, sublinha o académico de Georgetown.

Os maiores problemas do país, segundo Iskandar, são a economia e a segurança. Nesta área, Morsi pode ter “um papel fundamental, reconstituindo e purificando totalmente o aparelho da era de Mubarak, para que não mais recorra às estratégias de tortura, desumanização e humilhação pública”. Terá também de retirar aos militares o controlo das forças de segurança, “o que será crítico”.

Embora a política externa e de Defesa venham a ser prerrogativas dos militares – o que dá garantias a Israel de manutenção do tratado de paz, a ascensão da Morsi pode ter um extraordinário impacto na região, em particular na Síria, mesmo que esta não seja a sua prioridade. “Se for um Presidente inclusivo, pluralista e defensor da diversidade, Morsi deita por terra as acusações de sectarismo contra a Irmandade Muçulmana que têm permitido o monopólio de Bashar al-Assad sobre as minorias”, conclui Adel Iskandar.

[A 30 de Junho de 2013, as ruas do Egipto voltaram a encher-se de manifestantes exigindo a demissão de Morsi, que atribuíra a si próprio mais poderes do que os que tinha Mubarak (executivo, legislativo e judicial). A 3 de Julho, os militares suspenderam a Constituição, dissolveram o Parlamento e nomearam um governo interino dirigido por um juiz. A 3 de Julho, Morsi foi afastado da Presidência e preso. Subsequentes protestos da Ikwan foram violentamente reprimidos pelo Exército que tem vindo a julgar Morsi sob várias acusações. A Irmandade voltou a ser ilegalizada. ]

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

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Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 1 de Julho de 2012 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on July 1, 2012

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