Cristãos sírios perdem a fé em Assad

George Sabra, presidente do principal movimento da oposição, e Hind Kabawati, membro da elite democrática e secular, explicam por que é que a ditadura deixou de ser aliado e protector das minorias. (Ler mais | Read more…)

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Os cristãos representavam cerca de 10% do total da população da Síria, país de maioria sunita. Durante muito tempo estiveram sob a protecção do regime alauita (ramo do xiismo), que dependia de alianças com outras minorias religiosas
© OpenHeaven.com

As cerimónias fúnebres de Bassel Shehadeh estavam marcadas para uma igreja no seu bairro de Kasaa, em Damasco. O jovem cineasta católico foi morto em Homs, a 28 de Maio [de 2013], depois de ter interrompido os estudos na América para documentar a revolução na Síria.

O templo encheu-se de cristãos, sunitas e alauitas, mas, “quando se ouviam os primeiros cânticos e orações, mercenários da polícia secreta começaram a dispersar à força a multidão”, relata Hind Aboud Kabawati, reproduzindo testemunhos de familiares.

“O regime, cada vez mais sectário, temeu que o funeral originasse confrontos com as forças de segurança, e os responsáveis religiosos cederam às pressões, só que as pessoas não desistiram e juntaram-se na casa de Shehadeh “, diz-nos, por telefone, a cristã Kabawati, obrigada a deixar a Síria “porque eles [governantes] não querem activistas a favor da democracia”.

Hoje, Kabawati divide o tempo entre o Canadá (Toronto), onde é advogada, e os EUA, onde é investigadora no Center for World Religions and Conflict Resolution da George Mason University (Virgínia), e ainda membro do Conselho Consultivo para o Médio Oriente no Banco Mundial e do Global Agenda Council do Fórum Económico Mundial.

As exéquias de Bassel Shehadeh, que suspendera a sua bolsa Fulbright na Syracuse University para ajudar jornalistas-cidadãos a gravar e editar vídeos da revolta, acabaram por se realizar no Mosteiro de São Moisés da Abissínia, construído há 1000 anos, nos arredores da capital, e que o jesuíta italiano Paolo Dall’Oglio ajudou a restaurar, transformando-o num centro de diálogo ecuménico.

A 16 de Junho, o sacerdote formado em árabe e teologia, com uma tese sobre A Esperança no Islão, foi expulso após três décadas a viver no país onde foi ordenado, segundo o rito siríaco. “Ele é o meu mentor”, orgulha-se Kabawati, quando lhe pedimos o contacto, impossível de estabelecer.

Kabawati ainda se mostra relutante em “armar a revolução” [uma decisão entretanto aprovada pelas potências ocidentais], iniciada em Março de 2011, mas, com o número de mortos a aproximar-se dos 15 mil – o conflito com mais crianças massacradas, segundo repórteres de guerra -, interroga-se como podem os civis proteger-se se ninguém lhes der instrumentos para se defenderem.

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Orações numa igreja em Damasco: os cristãos “têm sido vítimas de violência desproporcionada e abusos”, segundo o Vulnerability Assessment of Syria’s Christians, coordenado pela World Watch List. “As mulheres têm sido particularmente vulneráveis a abusos sexuais enquanto os homens se sentem pressionados por ambos os campos beligerantes: regime e guerrilha
© BP

Tal como Dall’Oglio, também Kabawati reconhece que os cristãos da Síria – 10% dos 22 milhões de habitantes – “têm medo de que um regime corrupto e repressivo, autoproclamado guardião das minorias, possa ser substituído por uma teocracia islâmica.”

E acrescenta: “Sabemos bem o que aconteceu aos cristãos no Iraque, perseguidos após a queda de Saddam Hussein; aos cristãos no Líbano, marginalizados desde a guerra civil [1976-1999]; e aos coptas no Egipto, em constante vigilância para que os seus direitos não sejam espezinhados”.

“Durante muito tempo, os cristãos acreditaram que era preferível alinharem com o diabo conhecido do que o desconhecido, mas, felizmente, são cada vez mais os que tomam consciência de que não podem ser protegidos por ditadores”, reconhece a mulher galardoada em 2007 com o Peacemakers in Action Award do Tanenbaum Centre for Interreligious Understanding, em Nova Iorque.

“Queremos confiar que, depois de Bashar al-Assad, um líder com as mãos manchadas de sangue, teremos um Governo secular e democrático numa Síria independente onde todos serão tratados como cidadãos e não apenas como membros de uma confissão religiosa, livres de poderem praticar a sua fé.”

Hind Aboud Kabawati não coloca qualquer objecção a uma Síria liderada por um sunita – cerca de 75 por cento da população (das restantes comunidades muçulmanas, 13% são alauitas, ismailis e xiitas duodecimanos e 3% drusos). “O problema está na dinastia Assad.”, sublinha.

“Convém não esquecer que, entre os fundadores do Baas [há meio século no poder] e do Partido Nacional Sírio, estavam cristãos; que um dos maiores líderes políticos sírios foi o primeiro-ministro Fares Khoury [1944-1945 e 1954-1955; morreu em 1962, aos 85 anos], ortodoxo grego. No entanto, a partir dos anos 1960, o cargo mais elevado que um cristão exerceu foi o de ministro. Sob a actual Constituição, nenhum cristão pode ser Presidente.”

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O cineasta Bassel Shehadeh foi morto em Homs, a 28 de Maio de 2012, depois de ter interrompido os estudos na América para documentar a revolução na Síria. Durante as cerimónias fúnebres, a igreja católica no seu bairro de Kassa, em Damasco, encheu-se de cristãos, sunitas e alauitas, mas forças governamentais dispersaram os fiéis
© Shaam News Network

O padre Dall’Oglio e a sua discípula Kabawati partilham a convicção de um outro cristão, George Sabra, de 64 anos, de que o medo dos cristãos “é uma questão geracional”. Os mais jovens “começam a ganhar confiança e a acreditar que a democracia é a melhor protecção”, constata o agora presidente [na altura da entrevista era apenas porta-voz] do Conselho Nacional Sírio (CNS, principal movimento da oposição, no exílio).

[O CNS foi criado como uma autoridade política de transição, em Setembro de 2011, e apresentado oficialmente a 1 e 2 de Outubro do mesmo ano, em Istambul, na Turquia. O objectivo era coordenar a luta – na Síria e em território de outros países – de mais de 30 grupos da oposição. Depois de Bashar al-Assad ter recusado reformar o regime, a “revolução” inicialmente pacífica deu lugar a uma guerra civil. Embora a maioria dos membros do CNS seja sunita (sobretudo ligados à Irmandade Muçulmana), tem também nas suas fileiras curdos e cristãos.]

As declarações de Sabra, activista da oposição desde 1971, formado em Geografia (em Damasco) e Sistemas de Tecnologia da Educação (Indiana, EUA), foram feitas, por telefone, a partir de Paris, onde chegara cinco meses antes e depois de ter sido forçado a abandonar a sua cidade de Katana (a 20 km de Damasco). Fugiu “a pé, sob a mira de atiradores furtivos”, atravessando a Jordânia”.

Antigo professor, editor em revistas e programas culturais, autor de livros infantis [um deles, Yfath Ya Simsim, versão árabe de Rua Sésamo], ex-dirigente do Partido Comunista Sírio e fundador do Partido Popular Democrático Sírio, Sabra recusa a imagem dos cristãos como “aliados do regime”, porque “há cada vez mais cristãos presos e mortos.”

É certo, concede, que têm sido, em particular, as elites, a que ele e Kabawati pertencem, as mais participativas nas acções políticas e mediáticas. Como “grupo de massas”, os cristãos têm sido passivos.

A “ausência nas ruas tem sido encorajada pelo clero de todas as igrejas”, que só recentemente tem vindo a abandonar a posição irredutível de não afrontar os Assad julgando que, deste modo, salva os cristãos, frisa Sabra.

“Não há que ter medo dos sunitas, que têm demonstrado uma grande moderação – não são eles os culpados por 200 mil cristãos terem abandonado a Síria desde 1970.”

Todas as denominações cristãs na Síria realizaram, em Abril de 2013, uma prece colectiva depois dos raptos, em Aleppo, de dois bispos: Paul Yazigi, da Igreja Grega Ortodoxa, e John Ibrahim, da Igreja Siríaca Ortodoxa @ Syrian Free Press Network

Todas as denominações cristãs na Síria realizaram, em Abril de 2013, uma prece colectiva depois dos raptos, em Aleppo, de dois bispos: Paul Yazigi, da Igreja Grega Ortodoxa, e John Ibrahim, da Igreja Siríaca Ortodoxa
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

George Sabra cita um exemplo de “coexistência”, quando o monge Dall’Oglio recebeu a primeira ordem de expulsão: os habitantes de Hama, “cidade muito conservadora”, onde Hafez, o pai e predecessor de Bashar, ordenou o massacre de milhares de pessoas para se vingar da Irmandade Muçulmana, em 1982, “desfilaram pelas ruas, transportando cruzes, numa manifestação de solidariedade com o padre.”

Em contraste, Kabawati menciona o caso de Yara Chammas, uma jovem de 21 anos que organizou a distribuição de alimentos, remédios e vestuário quando começaram os bombardeamentos em Baba Amr – cidade do distrito de Homs reduzida a escombros em dois meses de ferozes combates.

A acção humanitária da filha de Michel Chammas, destacado activista cristão de direitos humanos, foi punida com 60 dias de detenção. Acusada de ser “traidora” e “inimiga”, ninguém na sua comunidade foi em seu auxílio.

Sabra, que também foi, em 2005, um dos dinamizadores da Declaração de Damasco para a Mudança Democrática Nacional, insurge-se: “Como podemos dizer que este regime é secular e é democrático? É um sistema corrupto, injusto, sanguinário – o mais terrível que existe!”

A intervenção das forças de segurança para impedir que o funeral de Bassel Shehadeh decorresse na igreja em Kasaa – “era esperado cerca de um milhão de pessoas”, segundo Sabra – mostrou que “o medo mudou de campo”.

Os massacres atribuídos às tropas e milicianos governamentais “repetem-se quase diariamente, mas o Exército Sírio Livre [formado, sobretudo, por desertores das Forças Armadas] já está em Damasco. É preciso que os revolucionários recebam armas para defender os inocentes. Não pode haver mais violência do que aquela que está a acontecer agora. Nada se compara a isto!”

Meninas acólitas ouvem o sermão do padre durante preces pela libertação de freiras raptadas por rebeles sírios da igreja ortodoxa grega de Mariamiya, em Damasco, no domingo, 8 de Dezembro de 2013. Com este sequestro aumentaram os receios dos cristãos, uma minoria, de que se tornaram alvo na guerra civil visando o derrube do Presidente Bashar al-Assad. @Lee Keath)(Credit: AP)

Meninas acólitas, na igreja ortodoxa grega de Mariamiya, em Damasco, ouvem o sermão dominical durante preces pela libertação de freiras raptadas por rebeles sírios, em 8 de Dezembro de 2013
© Lee Keath | AP

Sendo presidente “e um de muitos cristãos” na hierarquia do CNS, George Sabra concordou [nesta entrevista quando era apenas porta-voz] que a eleição de um curdo, o académico Abdul Basset Sayda, para a liderança “é um indicador da disponibilidade para atrair mais grupos da oposição, de modo a fomentar a unidade e preparar o período de transição pós-colapso de Assad.”

“Temos de provar que estamos prontos para trocar a ditadura pela democracia”, sublinhou. [Abdul Basset Sayda, dissidente de origem curda presidiu ao Conselho Nacional Sírio, do qual foi fundador, apenas de 9 de Junho a 9 de Novembro de 2012. Aderiu posteriormente à Coligação Nacional das Forças da Oposição e da Revolução/CNFOR).”

“Sayda inspirou, desde o início, uma parte do Conselho Nacional Curdo (CNC), que representa 11 grupos na Síria e no exílio, também eles cortejados pelo Exército Livre – depois da promessa de que não têm ambições separatistas. Estarão apenas interessados em salvaguardar a sua “identidade nacional, igualdade de género e liberdade de crença”.

“Não me digam que os cristãos não são revolucionários, porque sei bem o que é lutar pela liberdade e dignidade”, acentua Sabra. “Estive oito anos nas cadeias de Hafez al-Assad, entre 1987 e 1995.

A partir de 1979 ficou proibido de sair do país. Em 2011, Bashar enviou-me duas vezes para a prisão, de Abril a Maio e de Julho a Setembro. Comigo foram encarcerados 14 jovens cristãos que encorajavam as pessoas a participar em protestos pacíficos.”

Hind Kabawati também descreve a escolha de Sayda, em substituição de Burhan Ghalioun, um intelectual residente em Paris e suspeito de favorecer a Irmandade Muçulmana, como “um bom passo”.

[Burhan Ghalioun, de nacionalidade franco-síria, é professor de Sociologia na Université de Paris III. Foi o primeiro presidente do Conselho Nacional de Transição, escolhido em 29 de Agosto de 2011]. As minorias “têm os olhos postos em Sayda, porque os curdos [8% da população] nem sequer têm direito a passaporte.

“A oposição tem estado dividida porque o regime sempre impediu a nossa união e organização. Há muitos egos, mas o CNS tem de apresentar um programa claro, e a comunidade internacional tem de ajudar, como fez na Bósnia.”

“Eu acreditei em Bashar quando ele se tornou Presidente [em 2000]”, confessa Kabawati. “Tínhamos tantos sonhos, mas ele desiludiu-nos. Revelou-se muito pior do que Hafez, porque este matou numa cidade [Hama, cerca de 40 mil mortos], mas o filho está a matar todo o povo, não se apercebendo que o mundo mudou e que já não pode ficar impune, como o pai.”

"Eu acreditei em Bashar quando ele se tornou Presidente [em 2000]", confessa Hind Kabawati. "Tínhamos tantos sonhos, mas ele desiludiu-nos. Revelou-se muito pior do que Hafez, porque este matou numa cidade [Hama, cerca de 40 mil mortos], mas o filho está a matar todo o povo." © tanenbaum.org

“Eu acreditei em Bashar quando ele se tornou Presidente [em 2000]”, confessa Hind Kabawati. “Tínhamos tantos sonhos, mas ele desiludiu-nos. Revelou-se muito pior do que Hafez, porque este matou numa cidade [Hama, cerca de 40 mil mortos], mas o filho está a matar todo o povo.”
© tanenbaum.org

"Não me digam que os cristãos não são revolucionários, porque sei bem o que é lutar pela liberdade e dignidade", diz George Sabra, actual presidente do Conselho Nacional Sírio, na oposição. "Estive oito anos nas cadeias de Hafez al-Assad, entre 1987 e 1995. Desde 1979 que estava proibido de sair do país. Em 2011, Bashar enviou-me duas vezes para a prisão, de Abril a Maio e de Julho a Setembro [de 2013]. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

“Não me digam que os cristãos não são revolucionários, porque sei bem o que é lutar pela liberdade e dignidade”, diz George Sabra, presidente do Conselho Nacional Sírio, na oposição. “Estive oito anos nas cadeias de Hafez al-Assad, entre 1987 e 1995. Desde 1979 que estava proibido de sair do país. Em 2011, Bashar enviou-me duas vezes para a prisão, de Abril a Maio e de Julho a Setembro [de 2013]
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Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 3 de Julho de 2012 | This article, now revised and updated, was originally published by the newspaper PÚBLICO on July 3, 2012

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