“Israel parece viver em estado de amnésia total”

A expulsão de imigrantes sudaneses ilegais, descritos por responsáveis políticos como “um cancro” ou “um vírus”, chocou Erika Davis, uma negra americana convertida ao Judaísmo. “Será que os judeus se esqueceram do seu próprio passado?” (Ler mais | Read more…)

Cerca 60 mil africanos pediram asilo em Israel: a maioria dos que atravessaram a península egípcia do Sinai em busca de segurança – homens, mulheres e crianças – provém da Eritreia ou de zonas do Sudão como o Darfur, onde as suas vidas correm perigo se voltarem. © The Independent

Cerca 60 mil africanos pediram asilo em Israel: a maioria dos que atravessaram a península egípcia do Sinai em busca de segurança – homens, mulheres e crianças – provém da Eritreia ou de zonas do Sudão como o Darfur, onde as suas vidas correm perigo se voltarem
© The Independent

No mesmo dia em que os primeiros 120 imigrantes ilegais eram repatriados de Israel para Juba, capital do Sudão do Sul, Erika Davis – uma “orgulhosa judia, negra e lésbica” de Brooklyn (Nova Iorque) – questionava sobre se estes africanos teriam o mesmo destino “se fossem brancos”.

Mais do que a expulsão [iniciada em 20 de Junho de 2012] o que mais escandalizou Erika, membro de uma organização não-governamental nos Estados Unidos, foi alguns responsáveis políticos israelitas, incluindo o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, terem insultado os imigrantes como “um cancro no nosso corpo”, “uma praga nacional”, “uma ameaça, por serem muçulmanos – a doença mais terrível que há no mundo”, “um vírus que pode explodir a qualquer momento”.

Das cerca de 60 mil pessoas que pediram asilo em Israel, menos de 1000 são oriundas do Sudão do Sul, país recém-nascido após a divisão do Sudão entre o Norte, árabe-muçulmano, e o Sul, cristão e animista, referem grupos de apoio como a Hotline for Migrant Workers.

A maioria dos que atravessaram a península egípcia do Sinai em busca de segurança – homens, mulheres e crianças – provêm da Eritreia ou de zonas do Sudão como o Darfur, onde as suas vidas correm perigo se voltarem às suas casas.

Depois de vários dos indesejados terem sido vítimas de ataques em Telavive – casas queimadas, espancamentos e outras agressões – uma sondagem conduzida pelo Israel Democracy Institute indicou que 53 % dos israelitas se identificam com as declarações dos seus políticos.

Após a primeira deportação, o ministro do Interior, Eli Yshai  – filho de judeus mizrahi (originários do Médio Oriente, do Magrebe ao Irão) que emigraram da Tunísia –, anunciou que as detenções de ilegais, um total de 300 até agora, “são apenas o começo”.

“Será que em 60 anos de existência, o moderno Israel se esqueceu da sua História de perseguição, de guetos, campos de extermínio e refugiados?”, revolta-se Erika Davis, autora do blogue Black, Gay and Jewish [entretanto desactivado – agora ela está aquinuma entrevista, por telefone. “É chocante! Estamos sempre a repetir que não devemos esquecer-nos, mas parece que agora Israel vive em estado de amnésia total.”

Mais do que a expulsão, iniciada a 20 de Junho 2012, o que mais escandalizou Erika Davis foi alguns políticos israelitas, incluindo o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, terem insultado os imigrantes como “uma ameaça, por serem muçulmanos – a doença mais terrível que há no mundo” ou “um vírus que pode explodir a qualquer momento” © Adriane Ohanesian

Mais do que a expulsão, iniciada a 20 de Junho 2012, o que mais escandalizou Erika Davis foi alguns políticos israelitas, incluindo o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, terem insultado os imigrantes como “uma ameaça, por serem muçulmanos – a doença mais terrível que há no mundo” ou “um vírus que pode explodir a qualquer momento”
© Adriane Ohanesian

Filha de dois protestantes, mãe baptista e pai metodista, educada durante 12 anos numa escola católica, Erika Davis converteu-se ao judaísmo há cerca de um ano, numa sinagoga da congregação da Reforma (mais progressista do que a Ortodoxa). Antes, ironiza, foi uma “hippie pagã, uma aspirante a budista e uma ateia desleixada”.

Começou a distanciar-se do Cristianismo quando tinha 21 anos (hoje tem 32), porque os seus pastores, ao contrário do seu rabi, lhe respondiam que “ia para o inferno se duvidasse que Deus criou o mundo em sete dias” ou questionasse outros dogmas.

“A religião judaica não é racista”, frisa Erika. “As pessoas é que estragam tudo. Sempre houve judeus negros, com diferentes tradições, línguas e culturas – e isso é uma das belezas do Judaísmo. Não é maravilhoso que os judeus etíopes tivessem preservado a sua fé até hoje?”

“A realidade é que, em Israel e na América – sobretudo aqui devido à nossa história de segregação racial e escravatura – prevalece a imagem do judeu branco e askhenazi [de origem europeia]. Pele branca é igual a privilégio branco.”

“Se eu perguntar aos meus amigos negros judeus, de nascimento ou convertidos, se os judeus são racistas, todos responderão que sim”, lamentou Erika. “Eles irão citar o modo como os árabes são tratados em Israel e a actual situação dos imigrantes sudaneses ilegais.”

“Lembrar-se-ão de palavras odiosas que ouviram numa sinagoga ou na única yeshiva [escola talmúdica] para negros. A mim, já me aconteceu, estar num colégio para crianças judias, de 10-11 anos, e ser confundida com uma ama, porque os miúdos não são ensinados a reconhecer a diversidade no Judaísmo.”

Ser olhada “com suspeição, apenas por causa da cor da pele” não abala a fé de Erika Davis. “Há muita hipocrisia também no cristianismo e essa foi, aliás, uma das razões por que me aproximei do judaísmo, de onde emanaram as religiões monoteístas.”

“Gosto da minha nova espiritualidade. Não foi um retrocesso deixar de aceitar Jesus como um Messias. Afinal, ela era um judeu, e morreu como judeu. Não acredito em utopias; em salvadores do mundo. Os judeus não são um povo perfeito – isso não existe!”

Na Etiópia, em 2007, à espera de licença de emigração para Israel. Embora tenham mais direitos do que os refugiados africanos, também os judeus etíopes no país (cerca de 135 mil, que foram chegando desde os anos 1970) se queixam de discriminação e racismo ©

Na Etiópia, em 2007, à espera de licença de emigração para Israel. Embora tenham mais direitos do que os refugiados africanos, também os judeus etíopes no país (cerca de 135 mil, que foram chegando desde os anos 1970) se queixam de discriminação e racismo
© Reuters

A associação Jewish Federations of North America (que representa 157 federações e 400 redes comunitárias nos EUA, angariando anualmente 3000 milhões de dólares para serviços sociais e educativos) nomeou, este ano, Erika Davis como Jewish Community Hero. Valorizou, assim, os seus esforços para “tratar os estranhos como seres humanos, porque também os judeus no Egipto foram estranhos em terra estrangeira.”

Além de estar a preparar a autobiografia, para partilhar o processo de se “aceitar como lésbica, aos 28 anos”, a blogger Davis planeia também elaborar um currículo para escolas judaicas nos Estados Unidos. Quer que os alunos que partilham a sua religião aprendam que há hebreus brancos e negros.”

No entanto, concede, se já “será complicado” apresentar esta proposta na América, “é praticamente impossível” levá-la para Israel. Neste país, a hostilidade para com os imigrantes africanos tem motivações “mais políticas do que religiosas”, e estas têm sido encorajadas por antigos imigrantes, judeus da extinta União Soviética.

Num artigo publicado no diário hebraico Ha’aretz, o judeu americano-israelita Roi Ben-Yehuda, investigador em Resolução de Conflitos na Universidade de Columbia (EUA) lembra, a propósito das declarações xenófobas sobre os imigrantes africanos, que “todos os genocídios registados pela História foram precedidos do uso instrumental da linguagem para desumanizar e demonizar uma determinada população – o Holocausto, o pior dos casos, mas também o Ruanda e o Camboja, no tempo dos Khmer Vermelhos.”

“Definir alguém como doença, acima de tudo doença terminal, é torná-lo não-humano, repugnante e perigoso: algo que é mutante e se alimenta de nós”, criticou o autor do blogue roiword.wordpress.com, citando um excerto do ensaio Illness as Metaphor, de Susan Sontag, escrito em 1977, após lhe ter sido diagnosticado um tumor:

Descrever um fenómeno como cancro é um incitamento à violência. O uso do cancro no discurso político encoraja o fatalismo e justifica medidas ‘severas’, assim como reforça a noção já de si generalizada de que a doença é necessariamente fatal. Embora as metáforas de doença nunca sejam inocentes, a metáfora do cancro é a pior de todas, porque implicitamente genocida.

“A religião judaica não é racista”, frisa Erika Davis. “As pessoas é que estragam tudo. Sempre houve judeus negros, com diferentes tradições, línguas e culturas – e isso é uma das belezas do Judaísmo” © Direitos Reservados | All Rights Reserved

“A religião judaica não é racista”, frisa Erika Davis. “As pessoas é que estragam tudo. Sempre houve judeus negros, com diferentes tradições, línguas e culturas – e isso é uma das belezas do Judaísmo”
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 24 de Junho de 2012 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on June 24 2012

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