Ara Güler: O “Ístanbullu” que fotografou o mundo

Um novo livro dedicado à obra de um dos maiores fotojornalistas, com prefácio do Nobel da Literatura Orhan Pamuk, acaba de ser publicado. No café que era a farmácia do seu pai e tem o seu nome, em Istambul, o arménio “orgulhosamente turco” passa em revista mais de meio século de carreira. (Ler mais | Read More…)

Ara Güler, um dos mais importantes fotógrafos do mundo
© agendamagasin.no

Sempre que olha para uma das mais famosas fotografias de Ara Güler, a do eléctrico número 26, que ligava Edirnekap a Bahçekapi, parado num dia de neve, em 1956, à espera que o condutor de uma carroça puxada por um cavalo a retirasse dos carris, o escritor turco Orhan Pamuk visualiza a “alma de Istambul”.

É uma imagem onde “colidem modernidade e tradição; ideais de disciplina e autoridade com o desamparo desordenado da pobreza e inadequação tecnológica”.

Estas palavras do Prémio Nobel da Literatura 2006 constam do prefácio do mais recente livro (Ara Güler’s Istanbul, Ed.Thames & Hudson) dedicado ao fotojornalista que o francês Henri-Cartier Bresson levou para a agência Magnum, em 1956, e rapidamente se tornou num dos melhores do mundo.

Em 184 páginas e 153 fotos a preto e branco, são evocadas as muitas vidas da capital cultural da Turquia, entre os anos 1940 e 1980. Uma “memória visual” que, confessa Pamuk, o faz querer escrever de novo sobre a cidade da sua infância.

A luz e a penumbra das imagens do Ístanbullu (natural de Istambul) Güler acompanham-nos numa terça-feira de Janeiro, na subida de uma colina íngreme que conduz à Praça de Galatasaray, em Beyoğlu.

Aqui se “esconde” o café, antiga farmácia do pai, onde o mestre de 84 anos se senta todas as tardes, acompanhado do motorista e assistente pessoal, Fathi Aslan, de 45.

Ao atravessar a Ponte de Gálata ainda vemos dezenas de pescadores sustendo linhas em azáfama competição, para lazer e sobreviver; ferries fumegantes que deslizam pelo Bósforo, transportando gentes locais e/ou turistas; o fausto de antigos edifícios da Sublime Porta e a decrepitude de casas ocupadas pela miséria; ruas estreitas e largas, onde religioso e profano se cruzam, com salões onde dervixes sufis rodopiam longas vestes brancas e outros onde jovens dançam o ventre quase despidas; vistosos consulados que foram embaixadas, museus evocativos do Império Otomano e galerias de arte contemporânea…

Vemos, acima de tudo, os múltiplos rostos de Istambul: o que de mais importante, realça Pamuk, tem sido captado pelas quase 50 câmaras (16 são Leica) de Ara Güler.

O Kafe Ara situa-se num escaninho de Beyoğlu – “um lugar onde se pode observar sem ser observado”, perfeito para fotojornalistas como Güler, que aqui tem o que ele, modestamente, descreve como “arquivo”, três andares com “mais de 2 milhões de negativos e transparências, só de Istambul”.

A sua casa fica em Taksim, também considerada parte do “coração europeu” da antiga Constantinopla de Bizâncio.

À chegada ao café-resturante que outros gerem como um imperdível ponto de encontro de nacionais e estrangeiros, como é que se entrevista um homem que não gosta de ser entrevistado e que entrevistou famosos como Winston Churchill, Bertrand Russell, Tennessee Williams, Alfred Hitchcock, Marc Chagall, Salvador Dalí ou Pablo Picasso?

Ao fim de quatro horas de espera, ei-lo que surge, o corpo curvado e agasalhado por um casaco grosso, camisa, camisola e colete, calças de bombazine, da cor do bolo de chocolate que acrescentou fama ao café, e um barrete de lã preto tipicamente turco.

Fathi encaminha-o para uma mesa onde um repórter arménio já o esperava. Dá-nos a primazia, e o modo como nos fita lembra a palavra árabe hüzün que Pamuk usou para descrever a sua “melancolia particular”, na autobiografia Istambul: Memórias de uma Cidade (Ed. Presença).

Istambul, 1956 (Cortesia de | Courtsey of Ara Güler) O ferry está a partir de Kandilli no Bósforo. Em Julho de 1994, escrevi um poema para a primeira edição do meu livro Memories of Old Istanbul e gostei muto desse poema. Por isso [esta fotografia não foi incluída no livro Ara Güler’s Istanbul], repito aqui o poema para exprimir o mesmo amor do mesmo modo… And... on one day or another in a beautiful sunset, the boat sailed, on the Bosphorus of old Istanbul.

Istambul, 1956 (Cortesia de | Courtesy of © Ara Güler)
O ferry está a partir de Kandilli no Bósforo. Em Julho de 1994, escrevi um poema para a primeira edição do meu livro ‘Memories of Old Istanbul’ e gostei muito desse poema. Por isso [esta fotografia não foi incluída no livro ‘Ara Güler’s Istanbul’], repito aqui o poema para exprimir o mesmo amor do mesmo modo…
And…
on one day or another
in a beautiful sunset,
the boat sailed, on the Bosphorus
of old Istanbul.

A maioria dos seus admiradores insiste em venerá-lo como um “artista”, mas Güler nem nos deixa completar a pergunta: “Não sou ninguém”, interrompe, entre o sério e o divertido. “O meu pai deu-me uma câmara, e eu fui fotografar o mundo.”

“Estive 33 vezes na Índia – o paraíso da fotografia, pela diversidade de cores, vinha de lá com 400-500 rolos; na Birmânia, no Japão [é evidente a sua paixão assumida pelo Extremo Oriente], na Indonésia – sabe quantas ilhas existem aqui?”

“Mais de 160 mil e em locais remotos. Uma vida inteira não seria suficiente para visitar uma por dia. Estive em toda a parte, excepto no Pólo Norte e no Pólo Sul.”

Por que é que ele não gosta de entrevistas – dar e fazer? “Tenho de gostar das pessoas ou ser amiga delas. Se eu mostrar entusiasmo e a outra pessoa o pressentir, então ela abre-se mais facilmente. Picasso, por exemplo, foi difícil aceder a ele.”

“Encontrámo-nos em Genebra. A editora Skira pediu-me que o fotografasse [para o livro Picasso: Metamorphose et Unité], por ocasião dos seus 90 anos [em 1972]. Ele não gostava de ser fotografado, mas deixou-me passar quatro dias na mansão dele, em Cannes, e tornámo-nos bons amigos.”

“Já no caso de Churchill”, revela, “conheci-o no iate de Aristotle Onassis que me convidou a ir ter com ele; fui, como fotojornalista, embora fosse amigo [do armador e milionário grego], e mais tarde, acabei por mostrar Istambul” ao então ex-primeiro-ministro britânico, em 1958.”

Chagall também foi um desafio: encontraram-se numa casa sem nenhum dos seus quadros: “Uma parede branca e um vaso com uma planta; tivemos de sair para o fotografar nas escadas.”

Ara Güler lamenta não ter fotografado três dos seus maiores ídolos, porque “eles ensinaram-nos a olhar a vida, deram-nos uma visão”: Charlie Chaplin; Jean-Paul Sartre e Albert Einstein.

Também se entristece quando se recorda de como está a “perder Istambul”. E vai desfiando a amargura: “Já não há barcos como antigamente, os cavalos deixaram de ser meio de transporte. Os carros obrigaram a demolição de espaços únicos que hoje são parques de estacionamento. Velhas casas de madeira foram queimadas e demolidas. Cemitérios e igrejas desapareceram. Havia bairros com talhantes, merceeiros e ferreiros.”

“Agora, nada é natural é só metal e cimento armado. Sem as minhas fotos, ninguém se lembraria do passado. A cidade muda, as pessoas mudam, as ideias mudam. Eu sou testemunha.”

Ara Güler, venerado como “O Olho de Istambul”, nasceu em 1928, em Beyoğlu. O seu sonho de infância era ser realizador de cinema, e ele admite que esta forma de arte e também o teatro influenciaram o modo como fotografa, sobretudo “as expressões faciais” e “os planos”.

Mas ele distingue-se: “Ando por aí, vejo um cenário interessante e espero que alguém apareça. Primo o botão da câmara e mostro a realidade. Isto é fotografia! É muito importante e difícil fotografar porque vamos determinar um pedaço da realidade e fixá-lo para a eternidade.”

“No cinema, há toda uma encenação. O actor more em palco, mas é mentira. Não tiro fotografias para as pessoas olharem e ficarem impressionadas. Fotografo o que vejo; uns são capazes de ver e outros não.”

Istambul, 1956 (Cortesia de | Courtesy of Ara Güler) Nessa manhã começou subitamente a nevar. Eu trabalhava na revista Hayat. Era a primeira neve da estação. O chefe de redacção disse: ‘Seria bom ter uma fotografia de neve em Istambul.” Peguei na minha câmara e desci a colina de Sirkeci. Uma fotografia de neve, mas de quê? Apanhei um eléctrico, abri uma janela nas traseiras e comecei à procura de alguma coisa. Pensei que tinha de haver alguma coisa em redor de Sultanahmet, quando reparei num homem a puxar uma carroça com um cavalo, enquanto o eléctrico se aproximava. Foi assim que tirei esta fotografia – talvez uma das melhores da minha colecção. Infelizmente, o negativo ficou sujo e, quando o tentava limpar, desintegrou-se com a solução de limpeza. Já não existe um negativo para esta fotografia.

Istambul, 1956 (Cortesia de | Courtesy of © Ara Güler)
Nessa manhã começou subitamente a nevar. Eu trabalhava na revista Hayat. Era a primeira neve da estação. O chefe de redacção disse: ‘Seria bom ter uma fotografia de neve em Istambul.” Peguei na minha câmara e desci a colina de Sirkeci. Uma fotografia de neve, mas de quê? Apanhei um eléctrico, abri uma janela nas traseiras e comecei à procura de alguma coisa. Pensei que tinha de haver alguma coisa em redor de Sultanahmet, quando reparei num homem a puxar uma carroça com um cavalo, enquanto o eléctrico se aproximava. Foi assim que tirei esta fotografia – talvez uma das melhores da minha colecção. Infelizmente, o negativo ficou sujo e, quando o tentava limpar, desintegrou-se com a solução de limpeza. Já não existe um negativo para esta fotografia.

Foi com uma câmara de 35mm oferecida pelo pai que nasceu a paixão pela fotografia. Em 1948, Güler já trabalhava para pequenos jornais de Istambul, aceitando todos os serviços, por mais aborrecidos ou perigosos que fossem: recorda, por exemplo, com um sorriso amplo, quando subia aos minaretes para fazer grandes planos.

“De que outro modo poderia conseguir boas imagens?” Se o jornal se queixava que ele gastava demasiados rolos, ele pagava-os do seu próprio bolso – o bolso onde, tem admitido com candura, costumava guardar uma tesoura para “cortar os cabos dos flashes” dos colegas, quando eles chegavam primeiro do que ele aos locais da notícia.

O talento de Güler foi sendo reconhecido e, rapidamente, o contrataram para publicações de maior relevo, nacionais e internacionais, como Paris Match, Stern, Time-Life, Sunday Times e Newsweek. O grande salto na carreira aconteceu no início dos anos 1960, quando Jean-Cartier Bresson, “o pai do fotojornalismo moderno”, o convidou a juntar-se à Magnum. A fama não mais o abandonou.

As suas fotos estão expostas por vários países, desde os EUA, no Museu de Arte Moderna (MoMA), em Nova Iorque, até França, na Biblioteca Nacional de Paris. Em 1962 a Alemanha premiou-o com o título de Master of Leica (Mestre da Leica”).

Em 1968, o British Journal of Photography Year Book aclamou Güler como “um dos sete melhores fotógrafos do mundo”.

Istambul,1957 (Cortesia de | Courtesy of Ara Güler) Dois marinheiros na margem, à entrada do Corno de Ouro [estuário no Bósforo], com [a mesquita de] Yeni Camii em fundo, quase bscurecida pelo fumo dos ferries; quem poderá adivinhar o tema da conversa de ambos? Multidões passam ao longo da velha ponte e dois pássaros sobrevoam o céu. Ainda que distantes, podemos ouvir o zumbido da cidade, os apitos dos barcos e as buzinadelas dos carros. Estes são os sons de Istambul, o som de um feitiço místico, que nos atrai e nela envolve; quem vive nesta cidade, ouvi-la-á sempre, porque estes são os seus sons.

Istambul, 1957 (Cortesia de | Courtesy of © Ara Güler)
Dois marinheiros na margem, à entrada do Corno de Ouro [estuário no Bósforo], com [a mesquita de] Yeni Camii em fundo, quase obscurecida pelo fumo dos ferries; quem poderá adivinhar o tema da conversa de ambos? Multidões passam ao longo da velha ponte e dois pássaros sobrevoam o céu. Ainda que distantes, podemos ouvir o zumbido da cidade, os apitos dos barcos e as buzinadelas dos carros. Estes são os sons de Istambul, o som de um feitiço místico, que nos atrai e nela envolve; quem vive nesta cidade, ouvi-la-á sempre, porque estes são os seus sons.

Apesar deste reconhecimento, nem todas as portas se abriram a Ara Güler. Um dia, ele contactou o editor de fotografia da National Geographic.

“A primeira questão que me colocou foi: ‘Quanto tempo esteve na Mongólia?’ Quando lhe disse que foram 10 dias, respondeu: ‘Não vou aceitar a sua reportagem, nem vale a pena olhar para as fotos.’ Eu reagi. ‘O quê? Tenho mais de 1500 imagens, escrevi uma série de artigos; não tenho hipótese?’ E ele replicou: ‘Para se conhecer um país é preciso senti-lo, estar lá pelo menos três meses. Só publicamos esse tipo de reportagens na nossa revista.’”

Num livro homónimo com prefácio do amigo e colega Nezih Tavlas, o arménio “orgulhosamente turco” desabafa: “No nosso tempo, ser fotojornalista era tão importante como ser escritor. Hoje, já não é assim. O fotojornalismo está em perda. Todos são artistas livres.”

“(…) O fotojornalista é alguém que vai atrás da bomba quando ela está prestes a explodir; corre para a morte e arrisca a vida. O fotojornalista escreve a história com a sua câmara.”

Em Lisboa, porém, quando veio para uma sessão de fotografias no museu de arte moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1969, Ara Güler não receia confessar que fugiu da morte. “Era uma encomenda da Skira, em Paris, e eu ia acompanhado de Yves Rivière, o principal editor. Ficámos no Hotel Ritz, e tudo parecia estar a correr bem.”

“No entanto, na nossa primeira noite, houve um potente tremor de terra [8,9 na escala de Richter, mais do que o do sismo e 1755, causou 12 mortes]. Chovia imenso e as ruas estavam cheias de pessoas, que corriam em roupa interior e descalças.”

“A única pessoa que não acordou e continuou a dormir foi o meu amigo Rivière, mas a primeira coisa que eu fiz foi apanhar um avião de regresso a França. Yves ficou em Lisboa – obviamente que não teve medo.”

Ainda antes desta confidência, Güler já se mostrava fatigado: “Ando sempre numa roda-viva, nem tenho tempo para beijar a minha mulher.”

Posteriormente, por e-mail, esclareceu dúvidas através da sua amiga Fatma Artunkal, tradutora-intérprete que organizou em Portugal, em 1994, a exposição Duas Cidades-Dois Poetas, ou Istambul Lisboa; Yahya Kemal-Fernando Pessoa, usando fotografias de Ara.

Ele não esteve presente, mas deu a sua opinião, sem modéstia: “Deve ter sido difícil encontrar palavras que combinassem bem com as minhas fotos de Istambul, já que elas contêm a sua própria poesia.”

Ara Güler, que nasceu Aram Terteryan, morreu em 17 de Outubro de 2018
© Emin Ozmen | Magnum Photos

Sobre os momentos perigosos que enfrentou durante meio século de carreira, conta: “Lembro-me de dois incidentes. Um no Monte Ararat [na Turquia].Tinha levado comigo um americano de Boston que queria ver a Arca de Noé. Formámos uma equipa com guardas armados e começámos a escalada.”

“A certa altura, vimos um urso com os olhos postos em mim. Estava distante mas eu, estupidamente, apontei a arma ao animal.

Os locais tinham-me avisado para não disparar porque, se eu falhasse, obviamente que o urso ficava furioso e se vingaria. Não dei ouvidos aos conselhos porque me queria vangloriar quando voltasse a Istambul e abri fogo.”

“Falhei, o bicho ficou doido e começou a lançar enormes pedras contra nós. Sobrevivemos ao ataque, mas não sabíamos o que ainda nos esperava, porque, durante a noite, fomos acordados por um ruído intenso. O urso tinha mobilizado outros ursos para atacarem o nosso campo. Graças a Deus que ninguém ficou ferido – e nenhum urso foi abatido.”

Um outro “incidente” relatado por Güler ocorreu no Corno de África. “Fui enviado para reportar a guerra entre a Eritreia e a Etiópia”, conta, por intermédio de Fatma.

“Colocaram-me num camião que seguiu para o deserto onde estavam os guerrilheiros. Viajámos durante a noite com helicópteros a sobrevoarem-nos a todo o momento.”

“Quando chegámos ao acampamento dos combatentes, na manhã seguinte, as pessoas saudaram-me com tanto entusiasmo que fiquei surpreendido, e até me senti honrado, mas depois veio a hora da verdade: não estavam contentes por me verem mas porque iriam receber armas pesadas que estavam no camião que me transportou.”

“Percebi que escapei por pouco… se os helicópteros tivessem reconhecido o camião teriam disparado e, bum! Eu não estaria aqui.”

Mantendo o seu característico bom humor e aproveitando o esclarecimento das dúvidas por correio electrónico, Ara Güler fez questão de explicar melhor a sua rotina: “Não sou madrugador. Por volta do meio-dia, o meu motorista vem buscar-me e o dia começa.”

“Tenho tantos afazeres, desde visitar centros de impressão, assinar autógrafos, dar entrevista na televisão… e depois, é claro, há o café onde estão sempre pessoas à minha espera para falar comigo.”

“Gosto muito de ir ao cinema e de jantar fora nos meus restaurantes favoritos junto ao Bósforo. Quanto a não ter tempo para beijar a minha mulher, não acreditem nisso – tenho sempre tempo para beijar a minha amada maravilhosa.”

Este é o homem que disse: “Eu e as minhas fotografias somos um pouco românticos. Não gosto de fotografar com luz normal, mas ao amanhecer ou ao anoitecer. Além disso, em cada imagem gosto de explicar alguma coisa – cada imagem tem de ter uma mensagem.”

Nezih Tavlas, o colega e amigo, contextualiza: “Apesar de todo o seu romantismo, Ara Güler nunca se distancia do realismo, porque é um fotojornalista que escreve a história.”

Orhan Pamuk conclui: “Não consigo decidir se gosto tanto da Istambul de Güler porque essas imagens reproduzem de forma tão poderosa a minha cidade ou se foi através dessas imagens que eu aprendi a olhar para Istambul e a reconhecer a sua essência.”

Agradeço a René Sommer a cortesia da última foto e a preciosa colaboração de Fatma Artunkal que, entre Istambul e Lisboa, serviu de intermediária, numa troca de “e-mails” adicionais, para poder concluir a entrevista com Ara Güler realizada no seu emblemático café.

Ara Güler is a Turkish Armenian photojournalist, nicknamed "the Eye of Istanbul" or "the Photographer of Istanbul" Cortesia de | Courtesy of Rene Sommer Documentary Photography

© Rene Sommer Documentary Photography

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente na revista LER, edição de Março de 2013 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese literary magazine LER, March 2013 edition

DAM: Neste rap palestiniano o crime não tem honra

No que eles chamam de “um gueto” em Lyd/Lod, a 15 quilómetros de Telavive, dois irmãos e um vizinho fundaram uma banda pioneira no Médio Oriente. O seu último álbum [em 2013] contém uma defesa inédita das mulheres mortas em nome das tradições familiares. E na batida Mama, I fell in love with a Jew, o sexo 69 confunde-se com a guerra de 67. (Ler mais | Read more…)

Nancy Zaboun, 27 anos e três filhos, foi brutalmente esfaqueada até à morte, pelo marido, horas depois de ter instaurado um processo de divórcio no tribunal de Belém, na Cisjordânia.

Hospitalizada repetidas vezes ao longo de uma década de casamento-espancamento, decidira libertar-se, mas a família do abusador vingou-se, fazendo dela mais uma vítima dos chamados “crimes de honra”.

Só em 2012, a Comissão Independente Palestiniana para os Direitos Humanos registou 12 casos. Por isso, os DAM, pioneiros do rap árabe na “Terra Santa”, incluíram no seu álbum mais recente uma canção de protesto sem precedentes.

“Antes de ser morta, ela não estava viva”. Começa assim, antes de entrar a voz harmoniosa da artista Amal Murkus, a letra de Law arjaa” bil zaman, ou If I could go back in time (vídeo acima) , na versão internacional, primeiro single de Nudbok Al Amar, ou Dabke on the Moon (dabke é uma dança folclórica).

É um projecto financiado pela United Nations Entity for Gender Equality and the Empowerment of Women: a história, cantada da sepultura ao berço, de uma jovem que o pai e o irmão matam “para restaurar a honradez da família”.

Tamer Nafar, um dos três fundadores dos DAM, descreve-a assim: “Fizemos uma declaração de apoio aos direitos das mulheres que reflecte também a vontade de forçar o debate sobre questões que têm sido tabu numa parte da nossa sociedade. “

“Escrevemos esta canção  há cerca de quatro anos – só em 2011 conseguimos fundos da UN Women. Foi muito duro, porque não é apenas fantasia, mas também realidade”, realça Tamer, numa entrevista a vários tempos, por telefone e Facebook. “Não é uma história verídica a que retratamos, mas baseia-se em vidas verdadeiras.”

“Muitas vezes não conhecemos a vítima mas sabemos quem a mata. Vivemos num meio pequeno e toda a gente, goste ou não do nosso trabalho, viu-se obrigada a falar sobre esta questão.”

“Fomos criticados, num artigo, por estarmos a reforçar os estereótipos negativos dos árabes, mas escrevemos esta canção em árabe e na Palestina, enquanto os que nos reprovam vivem na América e escrevem em inglês”, diz-nos.

Os DAM – acrónimo de Da Arabian MC’s, mas também palavra com um duplo significado: “eternidade” em árabe, “sangue” em hebraico – são uma criação original de Tamer, do seu irmão mais novo, Suhel, e do vizinho Mahmoud Jreri, todos palestinianos de cidadania israelita
© damtv.wordpress.com

As reacções, “de vários quadrantes”, têm sido positivas: “Este tipo de violência não é exclusivo dos muçulmanos. Também existe em lares de judeus e cristãos.”

“Somos interpelados na rua e escrevem-nos cartas dizendo, “Já era tempo de retirar a honra da família dos ombros das mulheres”. Porque isto não é violência doméstica – é homicídio em primeiro grau.”

O vídeo de If I could go back in time segue a cadência da lírica, as primeiras estrofes a cargo de Suhell:

Vamos contar a sua história de trás para a frente, do assassínio ao nascimento/ O seu corpo ergue-se da tumba para a terra/ A bala voeja da testa e é engolida pela arma/ O eco do disparo é gritante e ela grita também/ Há lágrimas que lhe sobem da face para os olhos/

Por detrás de nuvens de fumo, surgem os rostos da família/ Sem vergonha, o irmão coloca a arma num bolso (…)/ Atiram-na para uma bagageira; ela não sabe onde está/ Mas sabe que três deixaram a casa, só dois regressarão (…)/ Lançam-na na cama com violência/ “Com que então, querias fugir, hum?” (…).”

O refrão é trovado por Amal Mukros, personificando a vítima: “Se eu pudesse voltar atrás no tempo/ Eu sorriria/ Apaixonar-me-ia/ Cantaria/ Se eu pudesse voltar atrás no tempo/ Eu desenharia/ Escreveria/ Cantaria.”

Mahmoud Jrere desfia o meio da história, até que Tamer a termina com o seu início: “É a primeira vez na vida que ela diz “Não!”/ A mãe anuncia alegremente “amanhã, irás casar-te com o teu primo” (…)/ O seu passado está cheio de sangue e lágrimas/ (…) As suas expressões carregadas de fúria como se alguém anunciasse um crime / “Parabéns, é uma rapariga”.”

É exactamente neste ponto que, durante a entrevista, Tamer se exalta: “Sim, o único crime dela foi ter nascido rapariga, e isso é aviltante. Não posso permitir que a honra seja medida pelo sexo! What is the fucking big deal with this? Não associem honra ao crime. É preciso dar liberdade, educação e empregos às mulheres.”

“Uma mulher casada mas com independência financeira não tem medo. A minha mulher tem um mestrado e é professora num liceu. Dividimos responsabilidades.”

“O nosso filho, de três anos, vê-me a cozinhar, a lavar a louça e a limpar a casa. Aprende que estas tarefas não são exclusiva da sua mãe. À noite, lemos-lhe livros em que os heróis também são mulheres.”

Talvez por isso há outra canção dedicada às mulheres neste último álbum dos DAM, Ulilo Bin saffek, ou Tell him it”s your classmate, cuja mensagem, segundo Tamer, “tem o objectivo deliberado de provocar”.

Com a participação de outra cantora, Mouna Hawa, o conselho a uma rapariga é este: “Se estás a telefonar ao teu namorado e o teu pai pergunta quem é, diz-lhe que é uma colega da escola”. “Numa sociedade hipócrita”, argumenta Tamer Nafar, “não faz mal mentir – aliás, mentir é um direito.”

Ao contrário de outras bandas que defendem a “coexistência” (como a banda israelita de heavy metal Orphaned Land), os DAM não gostam daquela palavra. “São tretas! Primeiro tem de haver existência, e ainda não há”, exclama Tamer Nafar, um dos três músicos
© Ha’aretz

Os DAM – acrónimo de Da Arabian MC’s, mas também palavra com um duplo significado: “eternidade” em árabe, “sangue” em hebraico – são uma criação de Tamer, do seu irmão mais novo, Suhel, e do vizinho Mahmoud Jreri, todos palestinianos de cidadania israelita.

Desde que se juntaram, em 1999, recusam a linguagem chauvinista que marca muitos rappers e distinguem-se por um “hip-hop político”, que se funde com pop, rock e reggae.

Vivem na cidade a que chamam Lyd, mas que retomou o nome bíblico de Lod após a criação de Israel. Caracterizado actualmente como “um dos maiores entrepostos de tráfico de droga e gangsters no Médio Oriente”, Lyd/Lod foi, juntamente com Ramle/Ramla, das localidades mais afectadas pelo êxodo palestiniano.

Entre 50 mil e 70 mil habitantes tornaram-se refugiados durante as operações militares para assegurar o controlo judaico sobre Telavive.

“Vivemos num gueto de bairros pobres, com um muro a separar-nos dos ricos kibbutzim [comunas que permanecem símbolos do socialismo sionista pós-independência]”, queixa-se Tamer.

“A violência nas famílias aumenta porque há uma ligação directa e indirecta a um ambiente de miséria e cerco. Quando um árabe em Israel é assassinado ninguém investiga, ninguém é preso; portanto é fácil premir o gatilho e disparar contra um árabe, porque a impunidade é certa.”

Tamer Nafer, do trio fundador dos DAM, é hoje um dos mais importantes músicos, actores e activistas palestinianos em Israel
© pikdo.net

Ao contrário de outras bandas que defendem a “coexistência” (como os Orphaned Land, grupo de heavy metal), os DAM não gostam daquela palavra. “São tretas! Primeiro tem de haver existência, e ainda não há”, proclama Tamer. “Eles [judeus israelitas] têm tudo; nós não temos nada; precisamos de um país que nos trate como iguais.”

“Como palestinianos em Israel mantemo-nos como garantia da nossa cultura original; para o Governo e o Parlamento de Israel, somos um cancro, uma ameaça demográfica.”

“Para os palestinianos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, somos irmãos; não creio que nos considerem traidores – temos a mesma luta, embora a vida deles tenha mais dor.”

E foi em homenagem a essa dor que os DAM lançaram primeiro, e incluíram depois neste seu último trabalho, o single Resale in zenzana ou  A Letter from a prison cell, dedicado a centenas de prisioneiros em greve de fome nas cadeias israelitas.

É a canção favorita de Tamer, “pela influência do género clássico árabe, graças à colaboração do Trio Joubran [três irmãos de Nazaré, cidade de judeus e árabes israelitas, como Lyd/Lod] e de Bachar Khalifé“, um dos filhos do libanês Marcel Khalifé, figura quase lendária pela forma como dedilha o alaúde, entretecendo os versos do poeta nacional palestiniano Mahmoud Darwish.

Quanto à canção, “divertida e optimista”, que dá título a este recente álbum, Dabke on the Moon, Tamer diz ser um tributo às revoluções da Primavera Árabe: “Entrámos numa nave espacial mas ela não descolava porque estava demasiado pesada; para chegar à lua e dançar tivemos de nos libertar dos nossos ditadores.”

A irreverência temerária dos DAM atrai admiradores árabes, como Rami Younis, palestiniano licenciado pela Universidade Hebarica em Jerusalém e quadro de uma empresa farmacêutica, mas também judeus, como Ophir Touboul.

Fundador e editor do site musical Cafe Gibraltar e crítico cultural, Touboul diz-me por email que, num recente concerto em Telavive, as centenas de pessoas que assistiam “entoavam de cor” Mama, I fell in love with a Jew – a única canção em inglês do último álbum.

Tamer descreve-a como “um sarcasmo da coexistência”: o encontro imaginário num elevador entre um árabe e uma judia.

Ela prime o botão que sobe e ele o que desce (She was going up; I was going down); ela sonha ser piloto e explorar o céu, ele não quer ser revistado sempre que anda de avião (She wanna be a pilot, search the skyMy dream is not to be searched every time I fly); ela confunde uma posição sexual com a guerra em que Israel derrotou os árabes em seis diasI said 69 she heard 67); ele quer um amor terno, mas, se ela prefere à bruta, ele sugere que, desta vez, mudem as regras e seja ela algemada (All I wanna make is sweet love/ But if you want tough love too, we gotta/ Change the rules, this time I handcuff you.)

“Gostamos de nos divertir e de fazer as pessoas rir”, afirma Tamer. Um dos DJ do duo israelita Laissez Passer, Ophir Touboul confirma essa capacidade de mobilização dos fãs.”No concerto de Telavive, nós [judeus] éramos uns 30%, estávamos em minoria – e todos troçaram de nós, o que teve a sua graça”, relata.

Segue a banda desde que, em 2001, inspirados pelo rapper norte-americano Tupac (morto a tiro em 1996), os DAM lançaram o seu primeiro single, Min Irhabi ou Quem é o terrorista?. “O que adoro na música deles é a combinação de sons hip-hop e do Médio Oriente e, naturalmente, os textos políticos [em árabe] – embora não consiga entendê-los na totalidade.”

Se If I could go back in time e Mama, I fell in love with a Jew se tornaram nas “faixas mais populares” do último álbum, a canção que mais cativa o judeu Ophir é Mali huriye ou I don”t have freedom, do álbum Ihda, ou Dedication (2006).

Não explica porquê, mas talvez a razão esteja na sua defesa de um “mundo sem fronteiras, de migração, urbanismo e multinacionalismo”. Atente-se na letra:

We’ve been like this more than 50 yearsLiving as prisoners behind the bars of paragraphsOf agreements that change nothingWe haven”t seen any light, and if we peek between the barsWe see a blue sky and white cloudsIn the center a star reminds me that I”m limited/

But no, I”m strong, staying optimisticYou won”t limit my hope by a wall of separationAnd if this barrier comes between me and my landI”ll still be connected to Palestine.

Mali huriye é também das canções que mais fascinam Rami Younis, embora no seu caso se perceba porquê, quando ele ataca a coexistência como “uma mentira, porque os palestinianos não vivem com dignidade entre os israelitas”.

Para este assumido “activista de Lyd”, que já perdeu a conta aos concertos da banda a que assistiu (sempre esgotados, atraindo muitos israelitas de esquerda e deixando em delírio as massas palestinianas, sobretudo em Ramallah, na Cisjordânia), o poder de atracção da banda está no facto de os DAM “não serem laudatórios”.

Eles “agridem o mundo de uma forma por vezes hardcore, para que a verdade seja dita”, defende, citando como “mensagem poderosa” o single Min Irhabe, que “fez história”.

 

Tamer Nafar explica a narrativa: “Fomos incentivados a mostrar que o mundo tem um olho aberto e outro fechado; em 2000, na segunda Intifada, ninguém se horrorizou com os 2000 palestinianos mortos por soldados israelitas, mas todos choraram as vidas de 20 israelitas perdidas na explosão de um suicida.”

Para exemplificar o impacto que Min Irhabe teve, Younis recorda: “Há dois anos, juntámos 50 miúdos cujas casas tinham sido demolidas pelas autoridades israelitas em Lyd, e começámos a manifestar-nos com eles todas as semanas.”

“Num primeiro encontro que tivemos, tocámos Mawteni, o hino nacional palestiniano, e eles não o sabiam. Mas quando ouviram Min Irhabe todos eles, dos seis aos 14 anos, sabiam a letra de uma ponta a outra.”

Tal como aconteceu agora com If I could go back in time, que se propagou como um vírus assim que partilhado no YouTube, no Facebook, no Twitter e em outras redes sociais da Internet, Min Irhabe teve mais de um milhão de downloads em apenas um mês.

Transformou-se rapidamente num cântico de culto entoado nas manifestações pró-Palestina por todo o mundo e tem sido objecto de estudo em universidades nos Estados Unidos e na Europa.

Para o palestiniano Rami Younis, Dabke on the Moon “tem mais maturidade, vendo-se perfeitamente que as letras escritas por Mahmoud e Tamer estão a um nível mais elevado; eles já não precisam de as soletrar aos ouvintes, basta pintarem um retrato e os fãs imediatamente as entendem. É um disco mais sofisticado, mais rico e diversificado”.

O primeiro álbum “dirigia-se sobretudo a uma audiência israelita, porque era uma denúncia do racismo e da ocupação. Este segundo é mais corajoso, ao incutir a consciência de que precisamos primeiro de nos criticar a nós próprios e depois a ocupação.”

[Tamer Nafar é agora ainda mais célebre e  influente do que os DAM. O filme Junction 48, realizado por Udi Aloni e que, em 2016, ganhou prémios nos festivais de Berlin e Tribeca, é inspirado na história do músico de Lyd/Lod. É unânime o elogio a este poderoso manifesto contra o racismo que são vítimas os palestinianos de cidadania israelita.)

A compositora e rapper palestiniana de Haifa Maysa Daw faz agora parte dos DAM (com Tamer Nafar e Mahmoud Jreri), a que se juntou de forma permanente em 2012, reforçando a imagem da banda como um grupo feminista 
© The National

Este artigo, agora actualizado, foi originalmente publicado no jornal PÚBLICO, em 1 de Março de 2013 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on March 1, 2013

The “Istanbullu” who photographed the world

A new book dedicated to the work of Ara Güler, one of the greatest photojournalists, with preface by Nobel laureate Orhan Pamuk has just been published. In an Istanbul coffee shop that bears his own name and where once stood his father’s pharmacy, the man who proudly identifies himself as “Turkish Armenian” reviews a career that has spanned more than half a century. (Read more…)

Master Guler at Kafe Ara, in Istanbul. Courtesy of @Rene Sommer Documentary Photography

The great pohotojournalist at his Kafe Ara, in Istanbul.
© Rene Sommer Documentary Photography

Every time that Ohran Pamuk looks at one of Ara Güler‘s most famous photographs, the writer sees the “soul of Istanbul”. The photo shows a tram stopped on a snowy day in 1956 while waiting for a horse cart to be removed from the tracks.

The tram was the number 26 and connected Edirnekap to Bahçekapi. It is an image where “modernity and tradition collide; ideals of discipline and authority with the disordered helplessness of poverty and technological inadequacy”.

These words by the Literature Nobel Prize of 2006 can be read in the preface to a recently published book, Ara Güler ‘s Istanbul  (Ed. Thames & Hudson), dedicated to the photojournalist that French Henri Cartier-Bresson brought to Magnum Agency  in 1956, and that quickly became one of the best in the world.

In 184 pages and 153 black and white photos, the book evokes the many lives of Turkey’s cultural capital, between the years 1940 and 1980. It is a “visual memory”, confesses Pamuk, one that makes him want to write again about the city of his childhood.

Guler’s images with their light and shadows – he is an Ístanbullu or native of Istanbul – follow us on a Tuesday in January 2013, up a steep hill leading to the Galatasaray Plaza in the Beyoğlu neighborhood.

Up there, a corner “hides” the coffee shop that once was his father’s pharmacy and where the 84-years-old master sits every afternoon. By his side, always alert, stands his personal driver and assistant, 45-years-old Fathi Aslan.

While crossing the Galata Bridge, we still see dozens of fishing lines in a flurry of competition, used both for pleasure and to put food on the table; steaming ferries glide on the Bosphorus, carrying local people and tourists; the pageantry of the stately buildings of the Sublime Door and the decrepit houses now occupied by the poor; narrow and wide streets where the religious and the profane intersect, with salons where Sufi dervishes whirl their long white robes and places where young women belly dance almost naked; eye-catching consulates that used to be embassies, museums that evoke the Ottoman Empire, and contemporary art galleries…

Above all, we see the many faces of Istanbul: the most important thing captured by the almost 50 cameras (16 Leicas) of Ara Güler, as Pamuk said.

Italian actress Sofia Loren @Ara Güler

Actress Sophia Loren
© Ara Güler

Kafe Ara is located in a corner of Beyoğlu – “a place where you can see without being seen”, perfect for photojournalists like Güler, who keeps here what he modestly describes as his “archive”: three-floors that hold “over 2 million negatives and transparencies – of Istanbul alone. He does not live here but in Taksim, considered part of the “European heart” of ancient Byzantium’s Constantinople.

Upon arrival a this coffee shop that serves as a meeting point for both locals and visitors, I thought how do you go about interviewing a man who does not like to be interviewed and has himself “interviewed” (photographed) famous personalities like Winston Churchill, Bertrand Russell, Tennessee Williams, Alfred Hitchcock, Marc Chagall, Salvador Dalí and Pablo Picasso?

After a four-hour wait Mr. Güler arrives curved and wrapped in a thick coat, a grey sweater, a vest and corduroy pants that are almost the same color as the chocolate cake that added fame to the coffee house – and a typically Turkish black wool cap.

Fathi takes him to a table where an Armenian reporter has been was waiting. He give us priority, and the way he stares at us reminds the Arabic word hüzün that Pamuk used to represent his own “particular melancholy” in his autobiography, Istanbul: Memories and a City.

Most of Mr. Güler’s admirers insist on venerating him as an “artist” but Güler doesn’t even let us finish the question: he answers half-seriously, half-jokingly: “I am nobody. My father gave me a camera and I went to photograph the world. I’ve been 33 times in India – the paradise of photography, with that diversity of colors.”

“I would return with four, five-hundred rolls of film. Burma, Japan [it is evident his passion for the Far East] and Indonesia. Do you know how many islands? There are over 160 thousand, and in remote locations. A lifetime would not be enough to visit one per day. I’ve been everywhere, except the Poles.”

Henri Cartirer-Bresson @Ara Güler

Henri Cartier-Bresson, “the father of photojournalism”, who brought Ara to Magnum Agency
© Ara Güler

Why doesn’t he like interviews? “I have to like the people or be their friend. If I show enthusiasm and the other person senses it, they will open more easily. Picasso, for example, it was difficult to reach him. We met each other in Geneva.”

“Editions Skira Paris had asked me to photograph him [for the book Picasso: Metamorphose et Unité], on the occasion of his 90th birthday [in 1972]. He did not like being photographed, but let me spend four days at his mansion in Cannes – and we became good friends.”

“In what concerned Churchill,” he said, “I met him on the yacht of [the Greek millionaire] Aristotle Onassis, who had invited me to join him. I went as a photojournalist, though I was also a friend of his. Later on, I ended up showing Istanbul [to the former British prime minister, in 1958.]

Chagall also presented a challenge: Güler met him in a house without any of the artist’s paintings: “a plain white wall and a potted plant; we had to go outside take his picture on the stairs.”

Ara regrets not having photographed three of his biggest idols, the ones “who taught us to look at life and gave us a vision”: Charlie Chaplin, Jean-Paul Sartre and Albert Einstein.

He also grieves when he recalls how he is “losing Istanbul”. And he will sound bitter when he says: “There are no boats as before, the horses are no longer means of transport; cars have forced the demolition of unique spaces that are now parking lots.”

“Old wooden houses were demolished and burned; cemeteries and churches disappeared; there used to be neighborhoods with butchers, grocers and blacksmiths. Now, nothing is natural, only metal and concrete. Without my photos, nobody would remember the past. The city changes, people change, ideas change. I bear witness.”

The late Indian prime minister Indira Gandhi @ Ara Güler

Prime Minister Indira Gandhi
© Ara Güler

Ara Güler, revered as “The Eye of Istanbul”, was born in 1928 in Beyoğlu. His childhood dream was to become a film director. He admits that both film and theater influenced the way he photographs, namely in capturing “facial expressions” and “wide shots”.

He clarifies: “I walk around, see an interesting scenario and hopefully someone will come. I press the camera’s button and show reality. This is photography! It is very important and difficult to photograph, because we are the ones who determine a piece of reality and fix it for eternity.”

“In film, there is a whole staging. The actor dies on stage, but it is a lie. I do not take pictures for people to look at them and be impressed. I photograph what I see. Some are able to see, others are not.”

It was with a 35mm camera given by his father that Güler’s passion for photography began. In 1948, he was already working for small newspapers in Istanbul, accepting all kinds of jobs, however boring or dangerous they might be.

Flashing his smile, he remembers for example how he climbed the minarets to make wide shots. “How else could I get good images?” If the newspaper complained that he used too many rolls of film, he would pay for them out of his own pocket – the same pocket where he candidly admitted, he used to keep scissors to “cut the cables of flashes” of colleagues, when they were the first to arrive on site.

With Güler ‘s talent recognized, it did not take too long for him to be hired by prominent publications both at home and abroad, the likes of Paris Match, Stern, Time-Life, Sunday Times and Newsweek. The big jump in his career came in the early 1960s when Jean Cartier-Bresson, “the father of modern photojournalism”, invited him to join Magnum. Fame never left him.

His photos are on display in several countries, from the USA, at the Museum of Modern Art (MoMA) in New York, to France, at the National Library in Paris. In 1962, Germany awarded him the title of “Leica Master”. In 1968, the British Journal of Photography Year Book hailed Güler as “one of the seven best photographers in the world.”

Spanish painter Pablo Picasso @ Ara Güler

Painter Pablo Picasso
© Ara Güler

Despite this recognition, not all doors opened to Ara Güler. One day, he contacted the National Geographic’s photo editor. “His first question was: ‘How long were you in Mongolia?’ I told him: ‘Ten 10 days’. He replied: ‘I am not interested, not even worth looking at the photos’. I retorted: ‘What? I’ve got over 1500 images, I wrote a series of articles, why don’t you give me a chance?’ He countered: If you want to know a country you need to feel it, to be there for at least three months… Only this type of articles are published by our magazine'”.

In a homonymous book with a foreword by his friend and colleague Nezih Tavlas, the Armenian “proudly Turkish”, as Ara describes himself, sighs: “In our days, being a photojournalist was as important as being a writer.”

“Today, it is no longer so. Photojournalism is lost. Everybody considers themselves ‘free artists’. Photojournalists are those who go after the bomb when it is about to explode; the ones who run towards death and risk their lives. Photojournalists write the story with the camera.”

In Lisbon, however, when in 1969 he came for a photo session at the Calouste Gulbenkian Foundation’ Museum of Modern Art, Ara Güler ran away from death, he confessed. 

”It was an assignment for Éditions Skira Paris, and I traveled [to Portugal] with Yves Rivière, the chief editor. We stayed at the Ritz Hotel and everything seemed to be going just fine; but during the first night there was a powerful earthquake [8.9 on the Richter scale, that caused 12 deaths]”

“It rained a lot and I rushed out into the night”, he added. “The streets were full of people in their nightgowns and pyjamas, running around bare-footed. The only person who did not wake up was my friend Yves.”

“Well, on the next day, the first thing I did was to go directly to the airport and take the first plane back to Paris. Yves stayed on in Lisbon. Can you imagine?”

O cineasta Alfred Hitchcok @ Ara Güler

Film director Alfred Hitchcock
© Ara Güler

When he confided this fear, fatigue was already visible on Güler’s face. He laughs: “I am not an early riser. Around noon my driver picks me up and then the day starts. I have quite a lot of things to attend to: printing house visits, autograph sessions, TV interviews…”

“Then, of course, at Kafe Ara, there are always people waiting for me and wanting to talk. I love to go to the cinema, and also dine out at my favorite restaurant on the Bosphorus. I don’t stop – nor do I have time to kiss my wife.”

Subsequently, by e-mail, Mr. Güler clarifies his words: “As for finding no time to kiss my wife, don’t you ever believe it. I always find time for kissing my beautiful beloved!”

The interview continued with the assistance of his ​​friend Mrs. Fatma Artunkal, a translator who organized in Portugal, in 1994, the exhibition Two Cities Two Poets, or Istanbul-Lisbon; Yahya Kemal – Fernando Pessoa, using photographs of Ara. He was not present at the time, but gave his opinion: “I think it must have been rather difficult to find words to suit my Istanbul photos – they have their own poetry.”

About the dangerous moments faced in the course of a half a century career, he said: “I remember two incidents. One of them was on Mount Ararat [in Turkey]. I had taken there a Bostonian [from Boston, USA] who was keen on seeing the Noah’s Arch. We formed a team with armed guards and started the climb. At one point, I saw a bear looking at us. The bear was at some distance … and then, foolishly, I pointed my gun at the animal.”

“The locals had told me not to shoot”, he added. “They warned me that if I missed, which they obviously expected me to do but did not say out loud, the bear would get mad and take revenge. I – again foolishly – did not listen to them, because I wanted to show off and brag about it once I was back home in Istanbul. So I fired my gun and missed.”

“What do you think? The animal went mad and started to throw huge rocks at us. We survived the attack but did not know what lay ahead”, Ara said. “During the night we were awakened by some tremendous noise: the bear had enlisted other bears and they were attacking our camp. We defended ourselves, and thank God no one was hurt – and no bear was shot.”

Opera singer Maria Callas @Ara Güler

Opera singer Maria Callas
© Ara Güler

The other incident was in the African Horn”, Ara recalls. “I was sent there to report on the Eritrean-Ethiopian war. We were put into a truck and sent off into the desert to reach the guerrillas. We rode through the night with helicopters flying over our heads the whole time.”

“When we reached the guerrilla camp next morning, people came to greet us with such big enthusiasm that I was surprised, and even flattered”.

“Then the truth came out”, he added. “It was not I they were rejoicing about but the heavy ammunition in the truck which had taken me there. I realized what a narrow escape I had in the night. Imagine the helicopters recognizing the truck and shooting at it.  Boom! And no more me…”

This is the man who said: “me and my photos are a bit romantic. I do not like to photograph with normal light, but rather at dawn or dusk. In addition, each image must convey a message. Nezih Tavlas, his colleague and friend, contextualizes.

“In spite of all his romanticism, Ara Güler never moves away from realism because it is a photojournalist who is writing the story.”

Orhan Pamuk, whom Ara describes as “a friend who visits me now and then, to talk and drink”, ends the preface by saying: “I cannot decide if I like Güler’s Istanbul because his images reproduce my city so powerfully or if it was through his images that I learned to look at Istanbul and to recognize its essence. ”

Ara Güler photographed the many faces of Istanbul-most of them captured by his almost 50 cameras (16 Leicas) - he is holding one in this picture. @All Rights Reserved

Ara Güler photographed the many faces of Istanbul, and most of them were captured by his almost 50 cameras, 16 of them Leica, as the one that he is holding in this picture.

The journalist is grateful to Rene Sommer, to whom this interview was possible and for the courtesy of the first photo, to Fatma Artunkal, who served as a mediator to complete the interview that began in Istanbul and ended in Lisbon; and to Henrique D’ Korth Brandão, for his generous translation’s review.

Ara Güler and a gallery of celebrities portraits @ Yillarin Ogrettigi (All Rights Reserved)

Ara Güler and his portraits of celebrities’ gallery. He died aged 90, on October 17,2018
©  Yillarin Ogrettigi

This article, now updated, was originally published, in the Portuguese literary magazine LER (March 2013 edition)

De traficante de cocaína às melhores universidades da América

Influenciado por Scarface e Miami Vice, o filho de um imigrante cubano nos EUA montou um esquema lucrativo de transacção de droga. Michael G. Santos foi condenado a 45 anos em várias penitenciárias. Aqui se licenciou e fez um mestrado. Em “liberdade vigiada”, começou a dar palestras com o objectivo de mudar um sistema que todos os anos coloca na prisão 2300 milhões de pessoas.  (Ler mais | Read more…)

Michael G. Santos, convidado pela Universidade de Berkeley, deu uma conferência, como convidado especial, sobre como corrigir o sistema penal nos EUA
© Cortesia de | Courtesy of Michael G. Santos

É num sábado à tarde, já com o “salvo-conduto” que lhe permite passar o fim-de-semana na casa da mulher, que Michael Gerald Santos responde às questões que lhe enviámos por correio electrónico – uma das tecnologias que o surpreendeu depois de um quarto de século encarcerado.

No dia seguinte, o preso nº 16377004 teria voltar à halfway house, um centro comunitário de recolher obrigatório nos dias úteis às 21H00, onde está a completar o último ano de uma sentença reduzida de 45 para 26 anos, por não ter cometido “infracções disciplinares”.

A partir de Agosto [de 2013], pela primeira vez desde que há uma década se casou com Carole Goodwin, na sala de visitas de uma prisão federal, passa a ter vida conjugal, embora ainda em regime de “detenção domiciliária”.

[Na sua página de Facebook, escreveu: ‘For the first time in longer than 10 years of marriage, my wife and I will go out to dinner and stay out past 7:30 in the evening. Wow! We’re finally grown ups”. No dia 12, anunciou: “It’s 5:00 am on my first day of true liberty in longer than 26 years. I’m excited to begin this day with a long run, and I’m going outside now.“] A liberdade total só deverá chegar “por volta de 2017”.]

Michael diz não saber se o seu apelido, Santos, tem origem portuguesa, mas lembra-se bem de ter sido a 11 de Agosto de 1987, depois de detido por agentes da Drug Enforcement Agency (DEA),unidade de combate ao tráfico de droga sob a tutela do Departamento de Justiça, que começou a cumprir 9135 dias de reclusão por compra e venda de cocaína.

Tinha na altura 23 anos. A sua pena, invulgarmente dura, coincidiu com a “guerra contra a droga” declarada pelo Presidente Ronald Reagan.

Reclusos numa prisão em Williston, Dakota do Norte, em 26 de Julho de 2013. Este estado americano tem sido abalado por vários casos relacionados como tráfico e consumo de droga
© Andrew Burton | Getty Images | observer.com

Hoje, aos 49, depois de ter investido tudo numa educação superior, Michael Santos é autor de sete livros, incluindo o aclamado pela crítica Inside: Life Behind Bars in America (sétima edição desde 2006) e o mais recente Earning Freedom: Conquering a 45 Year Prison Term, narrativa prisional, do primeiro ao último dia.

Colunista regular no site Huffington Post, Michael Santos tem sido convidado pelas mais prestigiadas universidades, de Berkeley a Stanford, para dar conferências sobre como reformar um sistema que “aposta mais no fracasso do que no êxito das pessoas encarceradas”. Esta é a sua história, contada na primeira pessoa, numa troca de e-mails:

O meu pai morreu em 2004 (não fui autorizado a assistir ao funeral) e, por isso, não posso recorrer a ele para saber sobre as origens da família. Sei apenas que os meus avós, que também já morreram, deixaram a Europa Ocidental para se instalarem em Cuba durante a guerra.

O meu pai nasceu em Cuba e o castelhano era a sua primeira língua. Viveu em Cuba até Fidel Castro ascender ao poder.

Quando começou o regime comunista, refugiou-se nos Estados Unidos, e aqui se casou com a minha mãe, norte-americana de ascendência espanhola.

Em 1970, abriu uma empresa de montagem de postes de iluminação pública. Trabalhei aqui desde que desde que deixei o liceu em 1992 até 1985, quando descarrilei.

Durante a infância – nasci em 1963 –, os negócios permitiram-nos um estilo de vida confortável. Residíamos num bairro de classe alta e beneficiávamos dos privilégios da segurança financeira. A nossa família era tradicional: o pai trabalhava na empresa a mãe cuidava da casa.

Tenho duas irmãs, Julia e Christina. Jantávamos juntos todas as noites e gozávamos férias várias vezes por ano. Dávamos festas frequentes em nossa casa porque os tínhamos uma vida social muito activa. Eu passeava por Miami num Porsche e um Rolex de diamantes no pulso.

Em meados dos anos 1980, apareceu Scarface, um filme muito popular, centrado na história de um refugiado cubano que, ao chegar a Miami, se torna no chefe de um cartel de cocaína. Protagonizado por Al Pacino, esse filme influenciou-me muito, pela ideia de ganhar dinheiro rapidamente.

A série de televisão Miami Vice, também teve impacto. Foi assim que, aos 21 anos, adolescente ganancioso e egoísta, enveredei por um caminho do qual só eu sou culpado – mais ninguém.

“Em 25 anos de cadeia, dei aulas a milhares de detidos e escrevi livros com o intuito de ajudar a compreender a disciplina necessária para superar ou vencer as indignidades da clausura”, diz Michael G. Santos. “Batalhei para que outros assimilassem o poder libertador e transformador da educação. Tentava ser um exemplo de cada palavra escrita ou dita por mim”
© Cortesia de | Courtesy of Michael G. Santos

Eu não abusava de drogas mas, como vivia numa área de pessoas ricas, conhecia quem consumisse socialmente. Também convivia com gente em Miami, porque passava férias aqui. Nos anos 1980, a cidade era um ponto de entrada para a cocaína nos Estados Unidos.

Em 1985, um amigo, que identificarei apenas como ‘Alex’, ofereceu-me a oportunidade de participar na transacção de vários quilos de cocaína, e eu aceitei.

Por estar envolvido nos negócios da família, tinha acesso a grandes quantias de dinheiro e usei uma grande parte, sem que os meus pais soubessem, para montar um esquema de aquisição de grandes quantidades do produto.

Eu e ‘Alex’ comprámos três quilos para revender e obter lucros: ficámos, à partida, com 40 mil dólares, para cada um, já depois de eu repor o que havia retirado da firma. Para facilitar o esquema e o ocultar da minha família, pagava a outros para que viajassem até Miami e coordenassem o transporte do que eu comprava para chegar a  Seattle.

As margens de lucro entre o que pagava e vendia eram enormes – dava para pagar a intermediários e não me envolver directamente, mantendo uma considerável compensação.

Relocalizei a base para a Florida do Sul em busca de melhores preços e, no início de 1986, já vivia em permanência em Key Biscayne.

Os meus pais desconheciam o que eu fazia, porque o meu estilo de vida, de início, não se alterou. À medida que os meus recursos financeiros aumentavam, concebi um plano, menti à família e continuei. A minha vida tornou-se numa teia de mentiras que se repetia incessantemente.

A 20 de Junho de 1986, agentes da DEA detiveram ‘Alex’. Quando o algemaram e encontraram um quilo de cocaína num dos bolsos, ele tomou consciência que estava em apuros.

Decidiu cooperar imediatamente com as autoridades, revelando tudo sobre a nossa operação e identificando o seu sócio. Ao aceitar testemunhar contra mim, em tribunal, foi condenado a quatro anos de prisão, mas só cumpriu 27 meses.

Eu não sabia que ‘Alex’ estava a colaborar com a DEA. Encontrámo-nos ainda várias vezes e decidimos manter o negócio, com o intuito de obter fundos para o ajudar quando fosse libertado. Em 1987, recrutei mais pessoas para a distribuição da cocaína em Seattle.

Vivia como se nada tivesse ocorrido. Mantinha-me em contacto com ‘Alex’ mesmo estando ele na prisão.

A 11 de Agosto de 1987, fui capturado – a minha organização ilegal distribuía, naquela altura, aproximadamente 150 quilos de cocaína, o que valia uns quatro milhões de dólares. Pelas minhas estimativas, calculo que, só eu, tenha lucrado um milhão. Todo o dinheiro que não gastei até ser preso foi usado na minha defesa ou desviado por pessoas que estavam ligadas a mim.

“Os contribuintes americanos pagam uma quantia superior a 75.000 milhões de dólares todos os anos para colocarem na prisão mais de 2300 milhões de pessoas”, diz Michael G. Santos
[Na foto, recluso na Prisão Estudual do Arizona, em Florence)
© Matt York | AP | The Washington Post

Sabia bem que corria riscos, por isso tinha ao meu serviço um advogado, que cobrava honorários elevados. Ele disse-me que havia uma grande diferença entre ser incriminado e condenado.

Garantiu-me que ganharia facilmente o processo em tribunal, porque eu era jovem e não tinha cadastro. Ingénuo, dei-lhe todos os meus bens, e fiquei sem tostão.

Era, naturalmente, uma causa perdida. Não beneficiei sequer da benesse de uma fiança, fiquei logo preso. No entanto, nem assim desisti.

Na cadeia, pessoas que trabalharam para mim disseram-me que, numa área de armazenamento, ainda havia vários quilos de cocaína, no valor de dezenas de milhares de dólares. Autorizei a que fosse vendida aos meus compradores em Seattle.

Embora se tratasse do mesmo lote de droga da primeira acusação, fui alvo de uma segunda acusação.

No julgamento da primeira, testemunhei em minha própria defesa: as autoridades não tinham confiscado cocaína em minha posse, não haviam interceptado quaisquer comunicações telefónicas e o caso contra mim baseava-se em depoimentos de informadores. Menti perante o grande júri, assegurando que estava inocente. Não convenci ninguém.

Apesar das mentiras que disse aos meus pais, eles não me negaram o seu apoio. Deve ter sido muito doloroso para eles, sobretudo porque eu continuava a mentir e exprimia remorso. Só quando me condenaram é que comecei a tomar consciência real das minhas más acções.

Um livro que me inspirou foi o Tratado da Filosofia, de Sócrates – ele empenhou-se em servir a sua pena de morte com dignidade, e eu assumi o mesmo propósito.

No que constituiu uma admissão sem precedentes, a Universidade de Connecticut, no topo 20 das 20 melhores instituições do ensino superior nos EUA, permitiu que Michel G. Santos completasse o primeiro ano de doutoramento. O sistema prisional impediu-o de prosseguir os estudos, ao proibir a biblioteca de lhe emprestar livros
© Cortesia de | Courtesy of Michael G. Santos

Escrevi ao procurador, aceitando responsabilidade total pela distribuição da cocaína. Confessei perjúrio e avoquei o meu comportamento criminoso. Fui condenado a um total de 45 anos de prisão e a uma multa de 500 mil dólares com juros anuais de 18%, até completar a sentença.

Os primeiros seis meses foram cumpridos na Penitenciária dos Estados Unidos (USP), em Atlanta, Geórgia. Mudaram-me depois para as Federal Correctional Institutions em McKean, na Pensilvânia, e mais tarde para Fairton, na Nova Jérsia. Permaneci nestas prisões de segurança média durante dois anos.

Fui posteriormente transferido para campos de segurança mínima, completando os últimos nove anos nas prisões de Florence (Colorado); de Lompoc, de Thaft e de Atwater (Califórnia).

Creio que fui transferido porque o meu nível de segurança diminuiu ou porque eles não gostavam do que eu escrevia sobre o sistema prisional.

Questiono-me se um crime não violento merecia uma pena tão pesada. Consultei dados do Tratado da Filosofia, de Sócrates e constatei o seguinte: os assassinos servem uma média de oito anos, dois meses; os violadores, cinco anos, oito meses; os assaltantes armados, menos de quatro anos; os traficantes de droga, uma média de um ano, nove meses; a média geral nas prisões federais é de dois anos e um mês.

Muitas pessoas atribuem muitos dos problemas da sociedade às drogas, e eu concordo que as drogas arruínam vidas.

Mas devemos condenar quem vende a cocaína por todos os crimes que os toxicodependentes cometem? Não responsabilizamos os vendedores de bebidas alcoólicas por acidentes de condutores embriagados; nem os de armas por um tiroteio numa estação de serviço.

“Precisamos de um sistema melhor numa sociedade mais aberta”, diz Michael G. Santos. “Estamos a falhar porque as prisões não estão a tornar-se lugares mais seguros”
© slate.com

Não vejo o meu papel como ‘homicida’ embora compreenda que outros o possam identificar desse modo. Como seres humanos, temos livre arbítrio e colhemos o que semeamos. Tomei decisões erradas e sinto vergonha de ter tido falhas de carácter que permitiram que essas actividades me seduzissem.

Eu traficava e vendia grandes quantidades a outros na cadeia de fornecimento, por isso, não fiquei exposto ao hediondo abuso de drogas nas ruas Também era demasiado ignorante quanto às implicações morais do que fazia. Apesar de tudo, só me envolvi no tráfico para adultos que o consentiam.

Lamento o meu envolvimento mas não me sinto responsável pelas escolhas dos que compravam. Talvez seja uma falha de personalidade que persiste.

Em vez de me conformar com as décadas de sentença que tinha de cumprir, centrei-me nos passos a dar para me educar. Queria emendar as más decisões e podia chegar lá através da escrita, provando que merecia as bênçãos de uma nova vida.

Essa autoconfiança guiou-me durante a minha odisseia homérica de preparação para regressar à sociedade. Mesmo nos momentos piores., aprendi a enfrentar os desafios e desenvolvi um sentimento de orgulho por os vencer.

Todos os meus dias na prisão foram passados de forma muito disciplinada: acordava cedo e trabalhava afincadamente para criar oportunidades que me poderiam ajudar a sair da cadeia como uma pessoa bem-sucedida. A minha relação com os outros detidos era distante, até certo ponto.

Nunca quis ser parte da subcultura da prisão porque reconheci-a logo como cultura de fracasso. Fiquei impressionado com o vazio de esperança e negativismo.

Não participava em actividades sociais, como desportos de equipa ou jogos de mesa. Não via televisão. Comia sozinho.

Escolhia criteriosamente as pessoas com quem queria estar. A cada passo que dava, calculava riscos e recompensas. Esta estratégia protegeu-me dos predadores, e dos abusos de que vários reclusos são vítimas.

Em 25 anos de cadeia, dei aulas a milhares de detidos e escrevi livros com o intuito de ajudar a compreender a disciplina necessária para superar ou vencer as indignidades da clausura.

Batalhei para que outros assimilassem o poder libertador e transformador da educação. Tentava ser um exemplo de cada palavra escrita ou dita por mim.

Eu já tinha elaborado um plano em três partes para sobreviver. A primeira, era educar-me; a segunda, contribuir para a sociedade; e a terceira, construir uma sólida rede de apoio. Três componentes interligadas.

Ao contactar universidades, encontrei professores dispostos a assistir-me. Enviavam-me livros, pelo correio, e eu completava longos ensaios e exames, atestando que dominava os temas.

No dia 24 de Junho de 2003, Michael e Carole, sua amiga de infância, enfermeira divorciada e com dois filhos, casaram-se numa sala de visitas da Prisão Federal de Fort Dix (Nova Jérsia)
© Cortesia de | Courtesy of Michael G. Santos

Licenciei-me em Ciência Política pela Universidade de Mercer, uma das mais antigas e notáveis universidades privadas da América, fundada em 1883, em Macon (Geórgia).

Posteriormente, conclui um mestrado na Universidade de Hofstra, no estado de Nova Iorque – uma instituição também privada e prestigiada, onde se realizaram os debates presidenciais de 2008 e 2012.

A minha tese de mestrado descreve o conceito de um sistema de justiça que mede o sucesso de acordo com os esforços do indivíduo para se reconciliar com a sociedade e se prepara para vir como um cidadão cumpridor da lei.

Este sistema é diferente do actual, que mede o número de páginas de calendário em que um indivíduo é deixado ao abandono num depósito humano.

No que foi uma admissão sem precedentes, a Universidade de Connecticut, no top 20 das melhores instituições de ensino superior nos EUA, permitiu-me completar o primeiro ano de doutoramento. O sistema prisional impediu-me de prosseguir os estudos, ao proibir a biblioteca de me emprestar livros.

Foi, assim, interrompido o meu caminho para encerrar mais uma etapa de educação formal. Não espero voltar à universidade, porque agora tenho de consolidar a minha carreira.

Aos 23 anos, quando entrei na prisão, estava casado, mas a minha mulher exigiu o divórcio. Quem a pode culpar? Eu tinha décadas de uma pena para cumprir; ela, uma vida inteira pela frente.

A minha segunda mulher, Carole, é maravilhosa. Conhecíamo-nos desde adolescentes, mas não éramos amigos.

Frequentámos o mesmo liceu, em Lake Forest Park, subúrbio de North Seattle. Quando completei os estudos na Shorecrest High School, em 1982, seguimos rumos diferentes, e perdemos o contacto um do outro.

Um dia, em 2002, já divorciada e com dois filhos, Carole Goodwin estava a organizar uma gala de finalistas de Shorecrest e viu alguns dos ensaios académicos que eu publicara. Eu cumpria o 15º ano da minha sentença.

Fiquei surpreendido quando um guarda me entregou uma carta dela, mencionando a reunião da escola e criticando as minhas aviltantes decisões. Achei-a presunçosa, porque ignorava os esforços que eu já fizera para me redimir dos meus erros.

Respondi à carta, lamentando o passado e explicando como estava a tornar-me num cidadão cumpridor das leis. À carta seguiu-se troca de correspondência e o romance. Apaixonámo-nos, mas sabíamos que não seria fácil, para nenhum de nós, porque Carole vivia em Lake Oswego, no estado do Oregon, Costa Oeste dos EUA.

Queríamos ficar juntos, mas eu preferia esperar que me libertassem. Receava que me colocassem em solitária ou transferissem para outra prisão.

Seria traumático para Carole. Ela insistiu, e mudou-se para Nova Jérsia, na costa Leste, no Outono de 2002, para me visitar, por poucas horas, três dias por semana – sem um minuto de privacidade.

Recluso na cadeia de Maricopa, em Phoenix, Arizona, em 30 de Julho de 2010
© Joshua Lott | Reuters | Newsweek

Os ensaios que eu enviava para a academia deram-me alguns recursos financeiros, mas não tinha possibilidade de os promover publicamente, e o casamento necessitava de estabilidade financeira.

Para não me sentir um fardo, comprometi-me em poupar para ajudar a pagar os estudos de enfermagem de Carole, e ela ter um bom emprego.

No dia 24 de Junho de 2003, casámo-nos numa sala de visitas da Prisão Federal de Fort Dix (Nova Jérsia), mas durante uma década só pudemos exprimir o nosso amor nestas salas, por carta e/ou telefonemas – constantemente sob o olhar vigilante dos guardas prisionais.

Carole trabalha num hospital a tempo inteiro e fez, entretanto, uma licenciatura e, em Janeiro último, registou-se para um mestrado na Universidade de São Francisco.

A sua ambição é chegar ao doutoramento e eu, para a incentivar, comecei a chamar-lhe Dra. Santos. Temos ambos 49 anos, e decidimos apostar nas nossas carreiras.

Respondi às suas perguntas de um computador que tenho na casa onde vive a minha mulher. É uma casa linda, totalmente mobilada, que nos foi oferecida por Lee Nobmann, patrão da Golden State Lumber, que eu conheci na prisão de Lompoc quando ele cumpria uma sentença de 13 meses por evasão fiscal.

Quando foi libertado, ele prometeu que me daria um lar e um emprego, mesmo que não estivesse relacionado com a actividade da sua empresa.

Eu e Carole estamos a construir agora uma ampla moradia num condomínio familiar, na idílica cidade de Petaluma, a cerca de 70 quilómetros de São Francisco. Mudaremos para lá, quando ficar pronta, em Março.

Na segunda-feira, 13 de Agosto de 2012, levantei-me às 3 horas da madrugada, mais cedo do que era habitual (cerca das 5h30). Eu estava confinado a um dormitório aberto na Prisão Federal de Atwater, na Califórnia. Há anos que ansiava pela minha libertação e esse dia chegara.

Sentei-me a uma mesa vazia, extasiado. Para manter a rotina matinal e a energia, fiz uma corrida que terminou às 06h15. Voltei á cela para tomar banho e me barbear. Tudo tinha um sabor diferente. Vesti-me e fui-me sentar no pátio. Precisava de ficar a sós com o meu pensamento: o que iria acontecer lá fora?

Às 7h15, ouvi o meu nome por um dos altifalantes. Despedi-me dos outros reclusos, peguei no meu saco com livros e deixei a penitenciária. As minhas pernas pareciam borracha ao caminhar por uma área que antes me estava vedada.

Michael e Carole, marido e mulher, já podem viver na mesma casa depois de quase uma década em que as comunicações se limitavam às visitas à cela, telefonemas e cartas
© Michael G. Santos

Atravessei vários portões, durante 30 minutos, até ver a minha mulher. Ali estava ela, radiante, as lágrimas a correrem pelo rosto, as mãos em forma de uma prece, olhando-me, como se não acreditasse, que iria ter com ela.

O sol da Califórnia brilhava. Abraçámo-nos e beijámo-nos, seguindo depois, de carro em direcção à grande cidade de São Francisco.

Carole ofereceu-me um iPhone. Nunca tinha tido um telemóvel e não sabia usá-lo, mas ela ensinou-me a desbloqueá-lo e a fazer chamadas, para toda a minha família. Tudo parecia irreal.

Enquanto a minha mulher conduzia, eu comia uma pizza. Posso agora comer tudo o que me apetece e vestir as roupas que mais gosto.

Muita coisa me surpreendeu, como as imensas pessoas com piercings e tatuagens – não esperava que esta arte corporal fosse parte da sociedade mas sim exclusiva das prisões.

Após um quarto de século, fui libertado para iniciar uma fase de transição durante um ano. Passei os primeiros seis meses numa halfway house, um centro prisional mais aberto do que a cadeia tradicional, com recolher obrigatório às 21h00. Parece um hotel no coração de São Francisco, o que alguns designam como “a parte má” da cidade.

No entanto, situa-se a pouca distância de lojas lindas e do bairro financeiro da cidade Todas as manhãs, às 05h30, deixo a halfway house e conduzo até ao local onde trabalho, um escritório emprestado por um dos meus patrocinadores, com uma secretária e um computador onde escrevo artigos e livros.

Aos fins-de-semana, sou autorizado a ir dormir a casa da minha mulher. A 12 de Fevereiro, terei feito mudança para detenção domiciliária.

Já poderei viver com Carole – pela primeira vez, numa década de casamento –, embora ainda sob a vigilância atenta do sistema prisional. Só poderei sair de casa para trabalhar, mas isso não me perturba. Não bebo álcool nem preciso de ir a festas, porque a minha vida gira muito à volta do meu trabalho.

Nos EUA, o Código Penal é muito complexo. Quando fui condenado, em meados dos anos 1980, o sistema em vigor permitia aos presos retirar anos às suas sentenças se eles não cometessem infracções disciplinares.

Nunca fui castigado e, por isso, permitiram-me completar os meus 45 anos num total de 26, o último em sistema comunitário. Prevejo que ficarei sob este regime de ‘liberdade condicional’ durante três a quatro anos. Só deverei recuperar a liberdade total por volta de 2017.

“Nunca quis ser parte da subcultura da prisão porque reconheci-a logo como cultura de fracasso. Fiquei impressionado com o vazio de esperança e negativismo”, diz Michael G. Santos
© New Yorker

No dia 6 de Fevereiro, dei uma palestra na célebre Universidade de Berkeley, na Califórnia, para uma audiência de cerca de 700 pessoas.

Adorei a experiência, e ver como os estudantes se mostraram interessados num maior activismo social na América. Senti-me encorajado. Estou vivo, sou parte do tecido humano, um preso que quebrou as correntes. Voltarei lá na Primavera.

Tenho outras conferências agendadas nas universidades de Stanford (uma das maiores instituições de ensino e investigação) e de São Francisco. Não, não acho extraordinário que os administradores das prisões me deixem partilhar a minha história em auditórios universitários.

Embora tenha publicado vários livros enquanto estive encarcerado, muitos tentaram bloquear-me e silenciar-me, mas consegui derrotá-los.

Considero a minha missão, de ajudar a mudar o sistema prisional na América, muito mais extraordinária do que os convites para palestras, ainda que estes me entusiasmem.

Os contribuintes norte-americanos pagam uma quantia superior a 75.000 milhões de dólares todos os anos para colocarem na prisão mais de 2300 milhões de pessoas – e têm o direito de saber como esses recursos estão a ser esbanjados num perpétuo ciclo de fracasso e não de sucesso.

Precisamos de um sistema melhor numa sociedade mais aberta. Estamos a falhar porque as prisões não estão a tornar-se lugares mais seguros.

[Em 2015, eram estas as estatísticas do sistema prisional americano, segundo a revista Newsweek:
  • Há mais de 2,2 milhões de pessoas nas prisões americanas – mais do que toda a população do Novo México e a maior população prisional do mundo;
  • Os EUA têm também a mais alta taxa prisional do mundo: 724 em cada 100 mil pessoas;
  • Metade da população prisional do mundo, cerca de nove milhões de pessoas, concentra-se nos Estados Unidos, na Rússia e na China;
  • Mais de 2,7 milhões de crianças nos EUA têm os pais presos;
  • Há mais de seis mil prisões nos EUA;
  • Em algumas regiões dos EUA, há mais pessoas na prisão do que na universidade;
  • A população prisional dos EUA mais do que quadriplicou desde o início dos anos 1980, quando entraram em vigor as leis contra o consumo e tráfico de droga; a sobrelotação das cadeias deve-se ao facto de criminosos violentos serem libertados mais cedo, parar abrir espaço a suspeitos não-violentos de crimes relacionados com drogas, obrigados a cumprir uma pena mínima independentemente do que disser o juiz – estes representam cerca de metade dos reclusos em prisões federais;
  • O custo anual médio de um recluso numa prisão federal é de cerca de 29 mil dólares; o sistema custa aos contribuintes americanos cerca de 70 mil milhões de dólares anualmente.]

Michael G. Santos numa palestra que deu na Universidade de Berkley, quando ainda em liberdade provisória, em 2013
© Cortesia de | Courtesy of Michael G. Santos

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 24 de Fevereiro de 2013 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on February 24, 2013

Dror Moreh fez um documentário para “salvar Israel”

Em The Gatekeepers, nomeado para um Óscar, seis antigos chefes de um secretíssimo serviço de segurança revelam, pela primeira vez, as tácticas e dilemas como guardiões da ocupação. Porque “a falta de estratégia deixa o Estado judaico à beira do abismo”, dizem. Obama foi aconselhado a usar este filme para pressionar Netanyahu. Entrevistámos o realizador. (Ler mais | Read more…)

O cineasta Dror Moreh
© Times of Israel

É como uma metralhadora que Yehuda Shaul vai disparando, de rajada, as palavras que, de início, parecia suster: “Escute, neste preciso momento em que falamos, estão duas patrulhas do Exército em Hebron, na Cisjordânia, em operações que designamos por ‘deixar que eles [palestinianos] sintam a nossa presença’.”

“Os soldados andam pelas ruas, entram em qualquer casa, ao acaso, acordam a família se estiver a dormir, separam os homens das mulheres, revistam o lugar sem dar qualquer explicação e, à saída, lançam granadas, disparam para o ar e prosseguem a missão, para incutir o medo e o sentimento de perseguição.”

“É sempre assim, 24 horas por dia, sete dias por semana, desde a Intifada de 2000, com o único objectivo de prolongar a ocupação”.

Shaul, que foi sargento, justifica as suas palavras, proferidas numa entrevista por telefone, com o conhecimento de quem comandou dois pelotões de 20 homens durante 14 meses em Hebron, até compreender que, “terminada a tropa, não podia mais suportar uma situação imoral”.

Por isso, quando viu The Gatekeepers, documentário realizado por Dror Moreh e nomeado para um Óscar, ficou maravilhado: “Como ex-militar que ajudou a fundar a organização Breaking the Silence, foi muito bom, para mim, ver seis antigos chefes do Shin Bet [ou Shabak, Serviço de Segurança Geral] quebrarem o silêncio, tal como nós fizemos em Março de 2004.”

Da Alemanha, onde o seu filme ganhou, no sábado, o valioso Prémio Cinema for Peace, no Festival Internacional de Berlim, Moreh começa por nos dizer que foi mais fácil fazer o documentário, que dura 97 minutos e custou 1,5 milhões de dólares, do que escolher as sete pessoas que o acompanharão à cerimónia onde poderá ganhar uma cobiçada estatueta dourada, no dia 24 [de Fevereiro de 2013].

Em Los Angeles e também em Nova Iorque, The Gatekeepers lotou salas de cinema quando estreou a 1 de Fevereiro; críticos aplaudiram-no como obra-prima; e estrelas de televisão, como Cristiane Amanpour, da CNN, dedicaram-lhe talk-shows em horário nobre.

“O meu trabalho é como um espelho que coloco defronte dos israelitas para eles verem como a ocupação está a corroer nossa sociedade”, diz-nos Dror Moreh. “Não podemos continuar a viver em negação, a tapar os olhos e os ouvidos.”

“Se este filme não resultar, então a esperança está perdida, porque os seis homens que expuseram os seus segredos e dilemas não são esquerdistas nem pacifistas; pertencem ao Shin Bet, que é mais temido do que o Exército.”

“São aqueles que, desde a guerra de 1967, foram encarregados de manter a ocupação, incluindo escolher, por exemplo, quem seriam os alvos de assassínios selectivos, para dar às nossas vidas um sentido de normalidade”.

Como surgiu a ideia de juntar Avraham Shalom (1980-1986), Yaakov Peri (1988-1994), Carmi Gillon (1994-1996), Ami Ayalon (1996-2000), Avi Dichter (2000-2005) e Yuval Diskin (2005-2011) numa confissão individual e colectiva?

“Foi em 2008, quando rodava um documentário sobre o anterior primeiro-ministro Ariel Sharon”, explica-me Moreh. “Um dos seus chefes de gabinete disse-me que Sharon ordenou a retirada da Faixa de Gaza, em 2005, depois de ler um artigo, no popular diário Yediot Ahronot, no qual quatro ex-dirigentes do Shin Bet alertavam que a manutenção de colonatos protegidos por um dispositivo militar seria desastrosa para Israel.”

Ora se a decisão de Arik foi influenciada pelo parecer de homens que durante muito tempo foram anónimos e invisíveis – mas também por um documentário, Testemunhos de Guerra (“Fog of War”, 2003), de Errol Morris, sobre Robert McNamara, chefe do Pentágono durante a presidência de John F. Kennedy –, Dror Moreh convenceu-se de que, talvez, pudesse agitar, igualmente, o establishment político israelita.

Quem são, afinal, os seis “guardiões” do Sherut haBitachon haKlali (nome completo, em hebraico, de Shabak) que poderão oferecer um Óscar ao realizador cuja infância foi marcada pelo filme O bom, o mau e o vilão, de Sergio Leone e com Clint Eastwood, de quem admira Dirty Harry, e que gostava de ter entrado numa nave espacial em Contactos Imediatos do Terceiro Grau, de Steven Spielberg?

Avraham Shalom (1980-1986) © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Avraham Shalom (1980-1986)

Avraham Shalom, o mais velho, com 85 anos, começou a carreira militar no Palmach, grupo (“de resistência”, para os judeus; “terrorista”, para as autoridades do Mandato Britânico na Palestina pré-Israel) que precedeu as actuais Forças de Defesa. De 1959 a 1960, já operacional do Shin Bet, colaborou com a Mossad (espionagem externa), para capturar, na Argentina, Adolf Eichmann.

O cérebro do Holocausto foi enforcado em Israel, em 1962, depois de condenado à morte por um tribunal civil. Em 1972, Shalom foi encarregado pela primeira-ministra Golda Meir de perseguir também os autores do massacre dos atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique, ascendendo a director do Shabak em 1980.

Num mandato marcado por extrema violência na Cisjordânia (judeus extremistas cometeram atentados bombistas que mutilaram os presidentes palestinianos das câmaras de Ramallah e Nablus), Shalom conseguiu capturar uma célula clandestina.

E, assim, abortou um plano que visava a explosão da Cúpula do Rochedo, em Jerusalém – o que, segundo Moreh, poderia ter desencadeado uma nova guerra do mundo árabe-muculmana contra Israel.

Em 1986, Shalom foi constrangido a demitir-se depois de uma comissão oficial de inquérito o ter responsabilizado pela execução sumária de dois de quatro palestinianos, que tinham desviado um autocarro para obter a libertação de 500 prisioneiros.

Após a operação de resgate dos reféns, fotos da dupla de sequestradores sobreviventes foram publicadas por vários jornais que, desafiaram a censura, mostrando-os algemados e escoltados por agentes armados.

Conduzidos ao deserto, os capturados foram espancados e abatidos a tiro – uma acção que o ministro da Defesa de então, Moshe Arens, qualificou de “absoluta necessidade”.

Yitzhak Shamir e Shimon Peres, chefes do Governo e da diplomacia, respectivamente, apoiaram Shalom (a ordem terá vindo, aliás, do gabinete do primeiro-ministro). A opinião pública exigiu, porém, que o chefe da Shabak fosse afastado.

Yaakov Peri (1988-1994) © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Yaakov Peri (1988-1994)

Em 1988, na sequência do Caso Kav 300 (o número do autocarro sequestrado), Yaakov Peri foi chamado por Shamir a resolver a primeira grande crise no Shin Bet do qual já fazia parte desde 1966.

Hoje, aos 49 anos, este “ladies’ man que tocava trompete na Orquestra Voz de Israel”, segundo Moreh, prepara-se para entrar no Knesset e no Governo, depois de o seu partido centrista, Yesh Atid, liderado por Yair Lapid, ter sido o segundo mais votado nas eleições de Janeiro último.

O maior desafio de Peri foi a Intifada de 1987, uma revolta popular espontânea contra a ocupação que eclodiu em Gaza quando ele era director-adjunto do Shabak.

Foi também uma enorme surpresa, constatou Dror Moreh, já que de nada lhe valera “a vasta rede de informadores e colaboracionistas” que havia montado quando era “responsável pelo sector árabe”. Para travar a “guerra das pedras”,

Peri mandou assassinar, em Tunes, o ideólogo da sublevação e “número dois” da OLP, Abu Jihad. Hoje, essa “medida táctica” é reconhecida como “erro estratégico” – eliminados os nacionalistas pragmáticos, ganharam peso os islamistas radicais.

Apesar de tudo, na sequência dos Acordos de Oslo de 1992, que levaram ao reconhecimento da organização de Yasser Arafat, Peri ajudou Yitzhak Rabin, sucessor de Shamir, a negociar com os palestinianos.

Não se sabe, ainda, qual a pasta ministerial de que Peri será titular, no próximo governo de Benjamin Netanyahu, mas Moreh espera que o antigo “guardião” “se mantenha fiel” ao que lhe disse: “Várias vezes desde 1967 senti que devíamos chegar a um acordo e fugir dali [dos territórios ocupados], mas não cabe ao chefe de uma agência [de segurança] convencer o primeiro-ministro [a fazer a paz].”

Carmi Gillon (1994-1996) © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Carmi Gillon (1994-1996)

Foi Peri quem escolheu o seu sucessor: Carmi Gillon, que apenas dirigiu o Shin Bet durante dois dos seus 63 anos (1994-96). Embora oriundo de uma família de magistrados (o avô foi o único juiz judeu no Supremo Tribunal do Mandato Britânico na Palestina), Dror Moreh admite que Gillon fosse “o menos preparado”.

O fracasso que ditou o fim da sua chefia foi o assassínio de Rabin, a 4 de Novembro de 1995, por um activista da extrema-direita, Yigal Amir.

Não terá sido fácil, observou o realizador, ter de espiar “colonos judeus idealistas, com treino militar e apoio de políticos influentes”, mas pior foi terem sido ignorados os seus avisos de que Rabin corria perigo.

Shimon Peres, que herdou a cadeira do “primeiro mártir da paz”, recusou inicialmente a demissão de Gillon, oferecendo-lhe a oportunidade de se “redimir”.

Em 5 de Janeiro de 2006, Yahya Ayyash, o “engenheiro bombista” do movimento islâmico Hamas, foi decapitado em Gaza, quando atendeu uma chamada num telemóvel armadilhado.

No dia seguinte, Gillon saiu de cena, e o Shin Bet ficou orgulhoso do seu “sucesso”. Só que, em Fevereiro e Março, começou um ciclo sangrento de represálias: quatro atentados suicidas mataram mais de 60 civis israelitas. Peres, que esperava ganhar as eleições nesse ano, foi derrotado por Netanyahu.

Em The Gatekeepers, onde Moreh usou, assumidamente, tecnologias de computação para criar “uma realidade virtual e uma linguagem cinemática, porque não há provas das operações de um serviço secreto”, Gillon descreve como lugar hediondo um centro de interrogatório em Jerusalém, onde “qualquer pessoa normal que ali entre confessará voluntariamente ter crucificado Jesus, só para sair de lá”.

Faz também um acto de contrição: “Estamos a tornar insuportáveis as vidas de milhões [de palestinianos], a prolongar sofrimento humano, e isso mata-me!”

Ami Ayalon (1996-2000) © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Ami Ayalon (1996-2000)

Um outsider chamado a reabilitar o Shin Bet”, em 1996, Ami Ayalon foi o primeiro a ser contactado por Dror Moreh para o documentário sobre o qual a New York Magazine anotou: “Sabemos que a Terra Santa é uma balbúrdia pecaminosa quando paranóicos profissionais com licença para matar nos aparecem como pacifistas”.

Foi a Ayalon que Moreh pediu os números de telefone dos outros, e “todos se mostraram receptivos, embora o que colocou mais reservas tenha sido Avraham Shalom.”

As reservas entendem-se, porque foi Shalom quem mais surpreendeu Moreh. “Ele compara a ocupação israelita dos territórios palestinianos à ocupação alemã da Europa – não ao Holocausto”, realça o realizador.

“É preciso ter em conta que Shalom nasceu em Viena e que, na Kristallnacht, conduzido pela mãe à escola, foi espancado quase até à morte por colegas.

Ele diz que sentiu na pele o que significa viver sob um regime racista.” Kristallnacht ou Noite de Cristal designa os Pogroms de 9 de Novembro de 1938, na Alemanha e na Áustria sob domínio de Hitler, quando nazis destruíram 267 sinagogas, 7500 lojas e inúmeras casas de judeus.

Mais de 90 pessoas foram mortas; outras 25 mil a 30 mil foram deportadas para campos de concentração. Historiadores designam este acontecimento como “o primeiro ensaio para a Shoah”.

No documentário, Shalom é frontal: “Na guerra contra o terrorismo esqueçam a moralidade” ou “Não há estratégia, só há táctica” – um libelo contra os responsáveis políticos. Moreh diz que “não podia apagar” as palavras de Shalom, ditas com “vergonha mas também o orgulho patriótico de quem agiu para defender e proteger Israel” – porque “só os judeus podem falar deste modo, e ele sabe do que fala.”

Voltando a Ayalon, 68 anos, foi directamente do Exército para o Shabak, tendo sido distinguido, em 1969, com a mais elevada condecoração, a Medalha de Valor. Quando foi promovido a chefe de Estado-Maior da Marinha, já era um veterano dos comandos navais de elite, um “herói sem medo”.

Em cinco anos como chefe do do Shin Bet, Ayalon teve de travar uma “guerra implacável contra o terror” sob a liderança de três primeiros-ministros: Shimon Peres, Benjamin Netanyahu e Ehud Barak. 

Avi Dichter (2000-2005) © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Avi Dichter (2000-2005)

Contra o general Barak, Ayalon concorreu à liderança do Partido Trabalhista, em 2000. Criticou-o duramente, estilhaçando o mito sobre a cimeira de Camp David com Yasser Arafat e Bill Clinton. Em vez de culpar o líder da OLP por ter recusado “a oferta generosa” do “delfim de Rabin” (que previa a anexação da maioria dos colonatos na Cisjordânia), acusou o rival de não se ter preparado.

Também ilibou o líder da OLP de ter planeado a segunda Intifada (2000), considerando-a “inevitável, devido à frustração dos palestinianos”. Em 2003, o almirante israelita lançou, com o filósofo palestiniano Sari Nusseibeh, The People’s Voice: uma (vã) iniciativa que propunha a devolução dos territórios ocupados sacrificando o direito de retorno dos refugiados de 1948.

No premiado documentário de Dror Moreh, o eloquente Ayalon desabafa. “Questionamo-nos cada vez menos sobre onde vamos parar” se a ocupação continuar. (…) O meu filho, pára-quedista durante três anos e meio, invadiu Hebron umas duas ou três vezes. Será que isto nos fez vitoriosos? Não creio. A tragédia é que ganhamos todas as batalhas mas estamos a perder a guerra.”

Avi Dichter, antigo comando da lendária unidade militar Sayeret Matkal, a que pertenceu Barak, foi escolhido por este para ocupar o lugar de Ayalon no Shin Bet, em 2000, na alvorada da segunda e mais sanguinária Intifada.

Terá sido ele (já envolvido na morte do “engenheiro” Ayash) quem deu luz verde aos assassínios de Salah Shehade (2002) e do xeque Ahmad Yassin (2004), respectivamente, o líder da ala militar e o guia espiritual do Hamas.

Também encorajou Sharon à retirada unilateral de Gaza e à construção do “muro de separação” na Cisjordânia. No documentário de Moreh, “o camaleão” Dichter, tão à vontade na sociedade israelita como na palestiniana”, reconhece que “não se pode fazer a paz pela via militar”. 

Yuval Diskin (2005-2011) © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Yuval Diskin (2005-2011)

Se os anteriores cinco antigos do Shabak já não estavam no activo, Yuval Diskin ainda chefiava a agência quando Moreh o entrevistou duas vezes, no seu escritório, “indicador do quão alarmante ele considera a situação.”

Sobre o “trabalho sujo” que é o recrutamento de colaboracionistas, descreveu-o assim: “Pegamos numa pessoa que não gosta de nós e obrigamo-la a fazer coisas que ela nunca imaginara que poderia fazer”.

Evocando Yeshayahu Leibowitz, um dos maiores intelectuais do judaísmo, Moreh confrontou Diskin com a avaliação feita, em 1968, pelo professor que cunhou a controversa expressão “judeu nazi”: a ocupação transformará Israel num estado policial, o que minará a liberdade de expressão e de pensamento, e a democracia. Diskin, que entrou no Shin Bet como operacional em 1977 e deixou a direcção em 2011, respondeu: “Subscrevo todas as suas palavras”.

Talvez não seja de estranhar esta opinião tendo em conta que, como “coordenador do distrito de Nablus”, Diskin, hoje com 57 anos, “conhecia bem a realidade dos campos de refugiados”, não apenas naquela cidade, mas também em Beirute e em Sídon, no Líbano, onde esteve depois da invasão israelita em 1982.

Tendo participado nas negociações que conduziram aos Acordos de Oslo de 1993, envolveu-se também directamente em contactos com os serviços de segurança palestinianos, jordanos e egípcios, de 1993 a 1997.

Em 2000, foi Diskin quem liderou a operação para “destruir as infraestruturas militares do Hamas” na Cisjordânia. Em 2003, durante uma licença sabática, foi conselheiro de Meir Dagan, o então chefe da Mossad – ambos críticos da política de Netanyahu em relação ao programa nuclear iraniano (ameaça de guerra), porque “o regime em Teerão não é irracional”.

Em 2005, Diskin foi promovido a director do Shin Bet, tendo “aperfeiçoado a doutrina dos assassínios selectivos de que terá sido o artífice”.

Emad Burnat, o palestiniano que realizou 5 Broken Cameras, outro documentário nomeado para o Óscar, no mesmo ano de Dror Moreh, com The Gatekeepers
© Udi Goren

Lisa Goldman, co-fundadora do +972 Magazine, um influente website que tem contributos de israelitas e palestinianos, viu The Gatekeepers e entrevistou também Dror Moreh.

Quando lhe perguntámos quais os pontos fracos e fortes, respondeu pela via privada do Facebook: “Este filme é importante e poderoso. O objectivo é atrair a atenção dos israelitas moderados politicamente que têm ignorado os danos causados à sua sociedade pela ocupação contínua desde 1967 – e isso é conseguido com eficácia.”

Uma das fragilidades, observou, é “não mostrar os palestinianos como indivíduos. Eles são vistos em background, em imagens de arquivo a preto e branco, como prisioneiros ou jovens que lançam pedras.”

“Uma vez que a maioria dos israelitas tem pouca ou nenhuma interacção com os palestinianos, essas imagens são as mesmas caricaturas que eles vêem nos media”.

Por isso, acrescenta Lisa, “ao não mostrar como a ocupação afecta os palestinianos e centrando-se no que ela faz à sociedade dos ocupantes, o filma não assume uma posição moral sólida.”

Moreh reagiu esta crítica, dizendo que não foi seu intuito “fazer um ensaio jornalístico”, mas mostrar que “o problema de Israel não é apenas de defesa mas político, acima de tudo.”

Lisa Goldman disse não esperar que antigos chefes do Shin Bet “exprimissem remorsos pelas suas acções, porque, à semelhança dos agentes da CIA e de outros serviços secretos mundiais que torturam pessoas a sua tarefa é, por definição, cometer más acções para protegerem as suas populações”.

No entanto, em The Gatekeepers, os ex-directores “questionam a eficiência das suas más acções porque sabem que não protegem ninguém a longo prazo – nem sequer a médio. Um assassínio conduz a um ataque terrorista, o que conduz a outro assassínio ou a uma rusga nocturna ou a prisão e tortura de pessoas que até serão inocentes.”

“Até quanto é que vai continuar, sem estratégia e solução à vista? Essa é a questão que o filme levanta.”

Sobre o timing escolhido pelos “guardiões” para darem o seu testemunho e as razões por que não agiram mais cedo para evitar que Israel se transformasse no que alguém classificou de “estado do Shin Bet”, a jornalista não quis especular.

“O filme é um grito aos israelitas para despertarem e mudarem a realidade, antes que seja tarde de mais”, frisa Lisa Goldman, salvaguardando que não acredita na mudança: “Acho que já se perdeu muito tempo e que as narrativas [de israelitas e palestinianos] estão profundamente enraizadas.”

Yehuda Shaul, um dos co-fundadores da Breaking the Silence, organização onde veteranos militares que serviram na Cisjordânia e Gaza desde a Segunda Intifada partilham as suas experiências, “para demonstrar o poder destrutivo da ocupação” diz-nos que preferiu “só ver o lado bom do filme”.

Não há dúvida, referiu, em entrevista por telefone, que “foi preciso coragem para aqueles seis homens saírem da sombra e dizerem aos líderes políticos: ‘Nós cumprimos a nossa parte, garantindo a segurança, mas vocês falharam, porque não têm uma estratégia’ – isto pode ser um ponto de viragem.”

“As acções militares não servem para acabar com a ocupação, e sim para a consolidar”, acusa Shaul, que estudou num liceu no grande colonato de Ma’ale Adumim, na Cisjordânia, onde ainda vive uma irmã (que não aprecia o seu activismo), e que agora, aos 30 anos, frequenta a Universidade Aberta de Jerusalém, para se licenciar em Ciência Política.

“É triste que, em Israel, as pessoas falem mais no filme de Dror Moreh por estar nomeado para um Óscar do que pela mensagem que tenta transmitir.”

“Também é triste – e uma ironia amarga – que 5 Broken Cameras, outro documentário nomeado para um Óscar na mesma categoria que The Gatekeepers, esteja a ser promovido como ‘sendo israelita’, quando se trata de uma história de resistência pacífica em Bil’in, povoação da Cisjordânia cercada por colonatos.”

“Isto é um sinal de quanto a ocupação está entrincheirada na sociedade.” Os realizadores são o palestiniano Emad Burnat e o israelita Guy Davidi. 

Em Bi’lin, a aldeia de Emad Burnat, na Cisjordânia ocupada, onde terras palestinianas foram confiscadas para construir o “muro de separação” e expandir colonatos judaicos. Foi aqui que o agricultor-cineasta, casado com uma brasileira do Rio Grande do Sul, se inspirou para realizar 5 Broken Cameras
© Udi Goren

Yehuda lamenta que The Gatekeepers não tenha influenciado a campanha e para as eleições de Janeiro, durante a qual, “a questão palestiniana esteve vergonhosamente ausente do debate político, com excepção dos partidos árabes o de Tzipi Livni, e que o próximo Parlamento seja composto por caras novas e velhas “mais interessadas em obrigar os ultra-ortodoxos a ir à tropa do que num acordo de paz”.

Dror Moreh discorda que o seu documentário não tenha tido impacto. “As últimas eleições representaram uma mudança substancial”, vincou.

“Todas as sondagens davam a Netanyahu e à extrema-direita uma maioria absoluta, mas não foi isso que eles obtiveram, e vão ter de negociar uma coligação com as forças centristas que emergiram com mais vigor.”

“O nosso problema é que, nem israelitas nem palestinianos têm líderes audaciosos para fazerem as concessões necessárias a um compromisso.”

O realizador aconselha a que o presidente dos EUA, no segundo mandato, e toda a comunidade internacional exerçam pressão sobre ambas as partes – sobre Israel para retirar 1,5 milhões de colonos da Cisjordânia, sobre a Autoridade Palestiniana, para desistir do direito de retorno dos refugiados. Quantas mais pessoas terão de morrer?”

Em vésperas da grande festa em Hollywood, um dos sonhos de Dror Moreh é exibir o seu documentário para Barack Obama num grande écrã, na Casa Branca, antes de ele visitar Jerusalém e Ramallah, como já anunciou oficialmente. O analista político israelita Akiva Eldar acredita que Obama “vai cobrar a factura”, exigindo que “Bibi” não inviabilize mais a solução de dois Estados.

Netanyahu, por seu lado, já fez saber que não vai ver The Gatekeepers , e nem congratulou o realizador quando o filme foi nomeado para o Óscar.

“O meu problema com Netanyahu é não saber o que ele quer; creio que nem ele sabe”, conclui Droreh. “Há quatro anos que nenhum israelita é vítima de um atentado planeado na Cisjordânia, graças à Autoridade Palestiniana, do presidente, Mahmoud Abbas, e do primeiro-ministro, Salam Fayyad.”

“Mas onde esteve Netanyahu nestes quatro anos? Esteve a expandir colonatos, e os israelitas iludiram-se que não existe ocupação. É um crime!”

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 24 de Fevereiro de 2013 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on February 24, 2013

Iraque: A vida de Tariq é como um filme de Bond

Um dos mais influentes políticos em Bagdad, o vice-presidente sunita foi condenado à morte e refugiou-se na Turquia. Rodeado de numerosos guarda-costas, deu-me uma entrevista e deixou um aviso ao primeiro-ministro xiita: “Se Maliki não cair, o país divide-se.” (Ler mais | Read more…)

Tariq Hashimi fugiu para a Turquia depois de o regime de Nouri al-Maliki o ter condenado a várias penas capitais, sob suspeita de “organizar esquadrões da morte e envolvimento em mais de 150 atentados bombistas, assassínios e outros ataques entre 2005 e 2011″
© Ali al-Saadi | AP

O sol clareia os minaretes em Sultanahmet, centro histórico de Istambul, quando a voz do iraquiano Fahad K. interrompe o recital do muezzin apelando os fiéis à oração.

“Já sei que posso confiar em si, porque vem da parte do nosso amigo no Qatar”, diz-nos o porta-voz e chefe de segurança de Tariq al-Hashimi. “O vice-presidente estará disponível durante a tarde. Já a volto a contactar, com detalhes mais precisos.”

Algumas horas depois, Fahad liga-me para perguntar se a entrevista que pedi pode ser no lobby de um hotel, nas proximidades da radiosa Mesquita Azul. Digo que sim, e ele requer atenção para uma mensagem que irá enviar. É ao anoitecer que recebo um e-mail, indicando que o encontro teria de ser adiado para o dia seguinte.

De manhã, chega uma SMS com a morada aonde me deveria dirigir, nos arredores da antiga Constantinopla. Com instruções em turco e a sensação – real ou imaginária – de que os meus passos estão a ser seguidos, rapidamente aparece um táxi cujo motorista garante que nos leva ao endereço “sem demora”.

Percorrido um longo labirinto de estradas e avenidas, ruas e vielas, cruzamentos e rotundas – mais longe a cidade dos bazares e ferries deslizantes no Bósforo e mais perto os subúrbios de armazéns e autocarros sobrelotados que avariam a meio da viagem –, o taxista vai atribuindo a culpa pelo inesperado atraso ao tráfego intenso.

A certa altura, porém, assume-se “estranhamente perdido”, e vai inquirindo transeuntes sobre o local que antes assegurara conhecer. De repente, estaciona junto de um imóvel, numa área isolada, exclamando: “É aqui!”

Transposto um portal com alarme e vigilante, sou aconselhada a esperar num recanto com poltronas para visitantes, apesar de os recepcionistas dizerem desconhecer quem procuramos.

Vários homens entram e saem, mas nenhum se aproxima de mim. Alguns, faces crispadas e óculos escuros, rodopiam as cabeças em várias direcções, os meneios disfarçados por (supostas) conversas ao telemóvel.

“No dia em que o último soldado americano abandonou o Iraque, a 9 de Setembro de 2012, um painel de nove juízes, sob controlo do governo, deliberou que eu fosse enforcado – a primeira de cinco condenações”, queixa-se Tariq al-Hashimi

Amaldiçoando o condutor do táxi por “vigarice” e prenúncio de fracasso da reportagem, eis que Fahad telefona, perguntando se não o vi chegar, descrevendo como estava vestido.

Informo-o do meu paradeiro, e ele replica que estou “equivocada”. Tenho de seguir até um edifício municipal semelhante, mas noutro local, não longínquo. Um segundo taxista aparece, como premonição e, agora sim, a poucos metros de distância, estou no sítio certo.

O veículo entra num pátio onde se vêem carros com vidros fumados, no interior silhuetas impossíveis de identificar; homens com auriculares e walkie-talkies , em passo acelerado. Serão pedreiros, outros que vislumbro nos telhados em redor ou atiradores disfarçados?

Um novo pórtico de detecção de ameaças dá-me livre-trânsito. Nos sofás do hall de entrada, vários homens olham-me como se me radiografassem.

Um outro, vindo de algures, acompanha-me até ao cimo de umas escadas, onde Fahad aguarda. Peço desculpa pelas peripécias; ele desvaloriza o sucedido e eu, em paranóia, imagino-o cúmplice de um enredo.

Subo por um elevador e chego a um longo corredor, com mais sofás e mais homens, olhos incisivos que controlam o ambiente exterior e parecem examinar o meu interior.

Alguns passos adiante, estou numa sala mais pequena, com outros três homens, sentados a uma mesa. Sou convidada a deixar o casaco num bengaleiro – a pregadeira na gola era pontiaguda.

Fahad, cabelo que parece pintado de negro e dentes de um branco imaculado, abre ainda mais o seu sorriso e a porta de um gabinete amplo.

Os estores das janelas estão fechados, nas paredes não há quadros nem cartazes, na secretária está apenas um telefone e alguns dossiers – sinal de que se trata de uma paragem provisória para visitantes temporários.

De um cadeirão de pele castanha, levanta-se Tariq al-Hashimi, compondo o fato cinzento e o cabelo grisalho, a afabilidade reflectida nos gestos de boas-vindas e num rosto alegre.

Só quando a conversa de quase duas horas terminar e o vice-presidente fugitivo desde Dezembro de 2011 for à casa de banho acompanhado de três guarda-costas, é que entendo como a vida deste homem tem cenas de morte, parecidas com (ou piores do que) um filme de James Bond.

Nouri al-Maliki é o problema e não a solução! Se ele não se demitir ou for afastado, o Iraque só tem um caminho, que é transformar-se numa federação de sunitas, xiitas e curdos”, diz Hashimi
© AFP | albawaba.com

Nascido em 1942, em Bagdad, Tariq al-Hashimi formou-se na Academia Militar da capital iraquiana, tendo servido na Brigada de Blindados do Exército, como tenente. Aos 33 anos, desertou das fileiras militares e, também, do Partido Baas (que detinha o monopólio do poder), para se juntar à oposição em Londres.

No exílio, com uma licenciatura e mestrado em Economia, fez-se também “um empresário de sucesso”, segundo diz. “Estava no Kuwait, como gestor da United Arab Shipping Company, quando decidi regressar ao meu país, em 2003, após a invasão”, liderada pelos Estados Unidos, para derrubar o ditador Saddam Hussein.

Secretário-geral do Partido islâmico Iraquiano desde 2004 até 2009, Hashimi foi um dos fundadores do maior bloco no Parlamento (eleito em 2010), o Movimento Nacional Iraquiano ou Lista al-Iraqiyya (91 deputados, sunitas e xiitas, com um programa secular).

Em 2006, depois de, no ano anterior, ter ajudado a redigir a Constituição actual, foi escolhido para ser um dos dois vice-presidentes, para assegurar um equilíbrio confessional.

No Iraque pós-Saddam, Hashimi foi viver para a “Zona Verde”, um complexo fortificado que abriga responsáveis políticos, chefias militares e embaixadores estrangeiras. “Eu era vizinho do primeiro-ministro, Nouri al-Maliki”, conta.

“Logo na primeira semana de poder, ele afastou cinco responsáveis do Ministério da Defesa – quatro sunitas e um xiita, nacionalistas e patriotas. É ele quem acumula agora as pastas da Defesa e do Interior. O relacionamento mútuo foi-se deteriorando, à medida que ele perseguia os que o criticavam.”

“Tínhamos uma reunião semanal do Governo, e eu não me calava”, continua Hashimi, os braços e as mãos num movimento constante, ritmando cada palavra que profere. “Maliki passou a considerar-me o seu principal inimigo político. Tudo piorou quando me apercebi da corrupção sem precedentes na história do Iraque.”

“A maioria da população não tem água, luz, educação, médicos e medicamentos, e muito menos segurança. Para restaurar os serviços de electricidade calculou-se que seriam necessários 7000 milhões de dólares, mas foram gastos 23.000 milhões – e só há energia quatro horas por dia. Para onde foi o dinheiro das exportações de petróleo quando os preços chegaram a mais de 100 dólares o barril?”

Quando o “Triângulo Sunita” iniciou uma sublevação contra Maliki, uma das figuras xiitas que reprovaram “a política sectária” de Maliki foi Muqtada al-Sadr, líder da milícia Exército de Mahdi. Chamou-lhe “corrupto” e “tirano”
© New York Post

“Ao contrário de Maliki, que quer um governo teocrático semelhante ao do Irão, país do qual é uma marioneta e que interfere, descaradamente, nos assuntos internos do Iraque, eu defendo um estado de Direito, com respeito pela Justiça e pelos direitos humanos – e isso inclui os direitos das mulheres”, sublinha Hashimi.

“Desde o princípio, que Maliki está interessado em exacerbar as tensões sectárias. Ao contrário dele, eu colaborava com sunitas, xiitas, turcomanos e cristãos. A coexistência faz parte do Iraque, berço da civilização.”

Tariq al-Hashimi está refugiado na Turquia, que prometeu não o extraditar, desde Dezembro de 2011, quando conseguiu fugir de Bagdad pelo Curdistão (Norte) até ao Qatar.

Também esteve na Arábia Saudita, mas é em Istambul que agora tem uma “casa segura”, depois de a Interpol ter emitido, a pedido de Maliki, um mandado de captura (mais concretamente um “alerta vermelho” sem carácter vinculativo) contra o vice-presidente iraquiano.

“No dia em que o último soldado americano abandonou o Iraque, a 9 de Setembro de 2012, um painel de nove juízes, sob controlo do governo, deliberou que eu fosse enforcado – a primeira de cinco condenações. A última foi em Dezembro do mesmo ano”, recorda Hashimi. “Maliki não teria agido desta forma sem a bênção dos EUA.”

Tal como o seu genro, Ahmed Qohtan, o vice-presidente foi acusado de “formar esquadrões da morte responsáveis por 150 ataques terroristas”.

Ele repete que “todos os veredictos são ilegais” e, olhando para Fahad K, o seu chefe de segurança, declara: “Eu tinha um orçamento de um milhão de dólares para gastar em assistência social, e acusam-me de ter pago 500 dólares para matar um polícia de trânsito e uma advogada?”

“Um dos meus guarda-costas confessou que lhe dei ordens para os assassínios e para fazer explodir carros armadilhados. Alguém quer investigar como é que a família desse guarda-costas foi pressionada para ele fazer aquela confissão?”

[Dias depois da entrevista, Fahad envia-me um relatório do International Committee in Search of Justice (ISI), organização não governamental que clama ter “o apoio de mais de 4000 parlamentares em todo o mundo”, o qual cita estatísticas da ONU, para denunciar que as execuções em 2012 foram “o dobro face a 2011 e seis vezes mais do que em 2010”.

Refere também “casos de morte sob tortura e violações, confirmados por grupos independentes de direitos humanos”.

Ainda mais extraordinários são os números apresentados por um adjunto de Maliki, ao admitir que há “cerca de 6500 presos condenados por terrorismo; 6000 estiveram detidos sob a mesma suspeita e 15.800 receberam sentenças por outros crimes.”]

Em 2012, na sequência das “primaveras árabes” na Tunísia e no Egipto, milhares de iraquianos sunitas vieram para as ruas (aqui na cidade de Falluja) protestar contra o “governo sectário”, de maioria xiita, de Nouri al-Maliki
© USA Today

Os sunitas, predominantemente árabes (alguns são curdos, que se identificam mais com esta comunidade, semi-autónoma, no Norte), constituem cerca de 20% da população do Iraque.

Durante o regime de Saddam representavam a elite enquanto os xiitas, a maioria da população, eram os underdog. A situação inverteu-se com a chegada das tropas americanas e com a tomada de posse de Maliki, aliado de Washington – mas não figura consensual entre os xiitas. E Hashimi sabe disso.

Quando o chamado “Triângulo Sunita”, no centro do país, iniciou uma sublevação contra Maliki, duas personalidades de peso entre os xiitas, Muqtada al-Sadr, líder da milícia Exército de Mahdi, e o venerado ayatollah Ali Sistani (crítico do regime em Teerão e que se recusa a receber o primeiro-ministro) reprovaram a “política sectária” que tem sido seguida pelo chefe do Governo.

Sadr, que liderou uma rebelião contra as tropas americanas, é considerado, por Hashimi, “uma alternativa” a Maliki. Ainda recentemente, o chefe rebelde agora convertido em “pragmático” ameaçou o seu rival com uma revolta semelhante à dos sunitas nas áreas xiitas.

E só o fez depois de o xeque Abdul-Malik al-Saadi, líder espiritual sunita, ter apelado aos que participam nas manifestações para não exibirem bandeiras do Baas e fotos de Saddam. O objectivo é “preservar a unidade do país”.

Hashimi é inequívoco: “Maliki é o problema e não a solução! Se ele não se demitir ou for afastado, o Iraque só tem um caminho, que é transformar-se numa federação de sunitas, xiitas e curdos. Serão três regiões com competências próprias, como já se verifica no Norte – cada uma com o seu presidente, parlamento e forças de segurança.”

[Forçado a abandonar a chefia do Governo em 2014, Maliki foi substituído por Haider Jawad Kadhim Al-Abadi, mas uma grande parte do país ficou sob outra ameaça: o Daesh ou ‘estado islâmico‘, que integra alguns responsáveis políticos e antigos comandantes das extintas forças militares de Saddam Hussein e da al-Qaeda.]

Em 2014, o autoproclamado “estado islâmico” ou Daesh, com a ajuda de antigos responsáveis políticos e militares do regime de Saddam Hussein, proclamou um “califado” sunita no Iraque e na Síria, semeando o terror nos territórios sob seu controlo
© Thaier Al-Sudani | Reuters

Num artigo publicado, em Janeiro, na revista Foreign Affairs, e intitulado Iraqi Sunnistan? Why separatism could rip the country apart – again, os autores, Emma Sky e Harith al-Qarawee, reconhecem que “não é fácil” ser sunita no Iraque actual”.

Lembram que foi em Dezembro de 2012, quando Maliki ordenou a prisão de vários guarda-costas do ministro das Finanças, Rafi al-Issawi, “um dos líderes sunitas mais respeitados”, que “dezenas de milhares” tomaram as ruas de Anbar, Mosul e outras cidades, exigindo “o fim das perseguições” de que se consideram vítimas.

Issawi queixa-se de ser um alvo a abater, à semelhança de Hashimi, “por ordem directa de Maliki”, que os acusa de terrorismo, de modo a consolidar um domínio hegemónico dos xiitas pró-iranianos.

A operação visando Issawi coincidiu com a hospitalização, devido a um acidente cardiovascular, do Presidente Jalal Talabani, um curdo que tem sido muito crítico de Maliki.

Foi Talabani e o presidente do Curdistão, Massoud Barzani (aliado da Turquia), que permitiram a Hashimi fugir do país através do Norte.

Ao observarem as manifestações, já designadas por “primavera sunita”, Emma Sky e Harith al-Qarawee concluem que os adversários de Maliki poderão unir-se contra ele nas eleições de 2014, embora “a viragem sectária” favoreça os sunitas mais radicais que querem fracturar o país.

Em Istambul, no final desta entrevista, depois de elogiar os papéis da Turquia e do Qatar no novo mapa político regional na sequência das “revoluções da ‘primavera ‘arabe’, Tariq al-Hashimi afirma: “Não diria que a era dos xiitas no Iraque esteja a terminar e a dos sunitas a começar, mas algo está, definitivamente, a mudar.”

[Em 2014, o Daesh proclamou um “califado” sunita no Iraque e na Síria, semeando o terror nos territórios sob seu controlo.

Em 2016, Tariq al-Hashimi foi finalmente retirado da “red notice list” da Interpol, de onde o seu nome constava na sequência das múltiplas penas de morte a que tinham sido condenado durante o governo de Maliki. O alerta vermelho dava a todos os 190 Estados membros da Interpol o direito de o prender.]

Tariq Hashimi era um empresário no exílio e regressou a Bagdad, em 2003, após a invasão liderada pelos EUA para derrubar Saddam Hussein
© The New York Times

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi originalmente publicado no jornal PÚBLICO, em 18 de Fevereiro de 2013 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on February 18, 2013

O “príncipe” bonito, rico e famoso do “Beautiful Israel”

Ao obter 19 lugares no Parlamento, o partido Yesh Atid ganhou poder para decidir a composição do futuro Governo. Há quem admita que o seu líder, Yair Lapid, pode até vir a ser primeiro-ministro. (Ler mais | Read more…)

Yair Lapid “cativou os eleitores brancos, da classe média-alta e askhenazi, fascinados com um mundo glamoroso, e aqueles para quem o país, ‘refém de colonos e ultra-ortodoxos mizrahim’, tem de mudar de direcção – seja ela qual for”
© Wall Street Journal

Asher Schechter não ficou surpreendido com os 19 deputados que o partido Yesh Atid elegeu e que fizeram do seu líder, Yair Lapid, o fiel da balança do próximo Governo de Benjamin Netanyahu.

“Muitos troçavam da sua marca registada, camisa preta e cabelo alisado com mousse, da pose cool ou de durão, das gaffes na campanha ou de não ter concluído o liceu. Mas ele sempre se viu a si próprio como uma estrela”, observou o autor de Rothschild: The Story of a Protest Movement, onde narra a história do recente movimento de protesto social em Israel.

“Os que desdenhavam”, diz-me Schechter, por telefone, a partir de Telavive, “desvalorizaram o potencial de Lapid que, daqui a dois anos, se não cometer erros, poderá vir a ser primeiro-ministro, porque há muito que se preparava para este momento”.

É preciso não esquecer, adianta o redactor do site de negócios The Marker-Ha’aretz, que, “como anfitrião do talk show televisivo mais visto, ele é o nosso Jay Leno; é o tipo que atrai os yuppies da cosmopolita Telavive, porque canta em bares e frequenta festas do jet-set, como as do seu amigo banqueiro, Shari Arison. Não diria que é respeitado, mas que é muito popular”.

Lapid conseguiu captar o imaginário de uma faixa da população, explica Schechter. “Ele cativou os eleitores brancos, da classe média-alta e askhenazi [judeus de origem europeia], fascinados com um mundo glamoroso, e aqueles para quem o país, ‘refém de colonos e ultra-ortodoxos mizrahim‘ [com raízes no Médio Oriente e Norte de África], tem de mudar de direcção – seja ela qual for. Ele simboliza o Beautiful Israel (HaYisraeli HaYafe).”

O que Lapid não é, assegura Schechter, é o representante das centenas de milhares de pessoas que, na Primavera-Verão de 2011, encheram as ruas das principais cidades, de Jerusalém a Haifa, em protesto contra a estagnação dos salários e a subida de preços.

“Ele apenas beneficiou do descontentamento da classe média-baixa, a que não pertence – é rico -, aproveitando-se do vazio deixado por outros partidos centristas, para atrair votos com palavras de ordem como ‘Vamos devolver o dinheiro que nos roubaram’.”

Yair Lapid foi-se apropriando de causas populares, como a reforma do serviço militar, sob a bandeira de “Partilhar o Fardo”, para que os haredim (ultra-ortodoxos – na foto) não se confinem ao estudo nos yeshivot (seminários) e passem a servir nas Forças de Defesa de Israel
© Hazem Bader | AFP

O discurso de Lapid é vago? Sim, reconhece Schechter. “Mas é isso que quer o centro. E ele é, verdadeiramente, mainstream.  O segredo do sucesso de um político em Israel é dizer tudo e nada, para ganhar simpatia. Vou mudar! O quê e com quem? As respostas à promessa não interessam. Por isso é que a ideologia está ausente da lista do Yesh Atid [“Há Um Futuro”, em hebraico].”

Com um aparelho partidário bem oleado no terreno, Lapid foi-se apropriando das causas populares, como a reforma do serviço militar, sob a bandeira de “Partilhar o Fardo”, para que os haredim (ultra-ortodoxos) não se confinem ao estudo nos yeshivot (seminários) e passem a servir nas Forças de Defesa.

Mas até neste ponto foi cauteloso, ao convidar para seu “número dois” o Rabi Shai Piron, figura moderada, que servirá de ponte com os religiosos.

No que Schechter descreve como um “anúncio da United Colours of Benetton”, a lista do Yesh Atid inclui ainda Yaakov Peri, um antigo director do Shin Bet (serviço de segurança interna), um ex-líder do Meretz (esquerda sionista), Yael German, dois judeus etíopes (geralmente marginalizados) e duas mulheres.

No âmbito de uma estratégia deliberada de “agradar a todos”, Lapid atraiu os indecisos; os que, no dia das eleições, como escreveu Michael Koplow, no blogue Open Zion do site The Daily Beast, tendem a escolher “os pragmáticos e não os dogmáticos”.

O novo “rei de Israel” corresponde ao cidadão “típico”: garantiu que quer revitalizar o “processo de paz” com os palestinianos, mas lançou a sua campanha em Ariel, um dos maiores colonatos da Cisjordânia ocupada.

Declarou-se determinado a pôr fim à isenção dos religiosos à tropa mas insiste em que “a religião tem de ser respeitada”. Criticou os que “estão a destruir a classe média” mas proclama “o capitalismo como única via de prosperidade”.

Yair com o pai, Tommy Lapid, sobrevivente do Holocausto, líder do Shinui, membro de vários governos e sempre em colisão com os ultra-ortodoxos
© Ha’aretz

Para Asher Schechter, há muito que Yair se prepara para o lugar que era ambicionado pelo pai, o defunto Josef  Tommy Lapid, sobrevivente do Holocausto, que fugiu do gueto de Budapeste para Israel, em 1948.

Um astro do jornalismo e um dos mais poderosos políticos no Parlamento, Tommy juntou-se em 1999 ao partido Shinui, e aplicou à risca um programa secular. Fez parte de vários governos, mas sempre em colisão com os religiosos.

Tal como o pai, “que o criou como “um príncipe””, Yair começou a carreira como repórter na imprensa escrita. Primeiro, no semanário do exército, Bamahane, depois nos diários Ma’ariv e Yediot Ahronot.

Nas suas colunas semanais, favorecia temas como “o boxe [foi pugilista amador], a guerra entre sexos e o Scotch“. Publicou também artigos em revistas literárias, apesar dos estudos secundários incompletos. Autor de 11 livros (um deles a “autobiografia” do pai, Memoirs after my Death), tentou obter um doutoramento, evocando “larga experiência”, mas a universidade rejeitou a candidatura após vários protestos, segundo Schechter.

Em 1994, Yair foi também actor “numa comédia romântica, tipo Bridget Jones, em que desempenhava o papel de um tipo solteiro, charmoso mas detestável”.

No ano seguinte, instalou-se na TV (no Canal 1, público, e numa estação por cabo) e tornou-se imediatamente num ídolo. Em 2002, consolidou o estrelato no Canal 2, com um programa de entrevistas com o seu nome.

Transmitido em horário nobre às sextas-feiras – “quando os ultra-ortodoxos estão a rezar” – Yair terminava as conversas com esta pergunta: “O que é Israel para si?” O Financial Times recorda que um dos convidados de Yair foi Tommy, e quando o filho assim o inquiriu, o pai respondeu: “Tu.”

No âmbito de uma estratégia deliberada de “agradar a todos”, Yair Lapid atraiu os indecisos; os que, no dia das eleições, como escreveu Michael Koplow, no blogue Open Zion, tendem a escolher “os pragmáticos e não os dogmáticos”
© jewishphilosophyplace.com

Ao contrário de Schechter, um dos editores da revista online +972Mag (secular e de esquerda), Noam Scheizaf, admite, numa entrevista que nos deu, por Facebook, que foi uma surpresa o segundo lugar de Yesh Atid.

“Esperava-se que um dos partidos centristas tivesse bons resultados, mas não imaginava que Lapid conseguisse 19 lugares. Roubou votos à direita e mudou o equilíbrio de poder. Foi reconhecido como não pertencendo ao sistema, e isso ajudou-o numa era em que os eleitores preferem a frescura à experiência.”

Scheizaf também associa Lapid aos protestos de 2011, ao dizer que ele se mostrou “sensível à voz da classe média, traída pelos seus políticos – o Kadima, que era o maior partido no Knesset, foi o mais castigado por não ter desafiado Netanyahu: caiu de 28 para dois deputados, algo que nunca antes se vira”.

Opinião semelhante é a de Mark A. Heller, investigador no Instituto para os Estudos da Segurança Nacional da Universidade de Telavive.

“O partido de Lapid é, seguramente, uma ramificação do movimento de protesto de 2011, por isso atraiu tantas pessoas seculares, jovens e de classe média, que consideram injusta a distribuição dos benefícios e dos encargos da sociedade”, disse-me, num comentário por e-mail. “Este descontentamento explica o seu sucesso, mas também contou o facto de [Yair] ser o filho telegénico de Tommy.”

Sobre a influência que Lapid poderá ter sobre Netanyahu, em termos de política externa, caso venha a ser ministro dos Negócios Estrangeiros, Mark A. Heller diz que, para já, apenas o consegue classificar de “moderado”.

Scheizaf não tem a certeza se Lapid conseguirá impor-se ao “político mais experiente de Israel” ou se vai ser cilindrado pela “máquina de Netanyahu”. Este “não foi abatido, mas está ferido, o que poderá reflectir-se na sua acção a vários níveis: por exemplo, um ataque ao Irão parece menos provável”.

Yair Lapid mostrou-se “sensível à voz da classe média, traída pelos seus políticos”, mas rapidamente se revelou uma desilusão para os que viam nele uma alternativa a Netanyahu
© media.pri.org

Asher Schechter tem mais fé em Lapid. “Netanyahu está agora a mercê dos carismáticos Lapid e Naftali Bennett [da extrema-direita]. Temos de ver quais serão as jogadas de cada um. Se Lapid mantiver a imagem intacta, daqui a dois anos poderá vir a ser primeiro-ministro, como é seu desejo. Bibi não irá completar este seu mandato – é uma certeza.”

Quanto a Netanyahu, é também essa a previsão de Aziz Abu Sarah. “Não dura mais que dois-três anos; estava errado e está acabado”, disse-nos, por telefone, o professor de Resolução de Conflitos na Universidade de George Mason, em Washington.

Nas últimas eleições, Aziz teve “a experiência magnífica” de escolher um partido através de um amigo judeu que votou por ele.

“Como palestiniano em Jerusalém Oriental [sector anexado em 1967] só temos direito de residência e não de cidadania. Não somos tratados como cidadãos deste Estado único de facto. Embora paguemos os mesmos impostos que os judeus israelitas, não temos representação. Somos vistos como uma ameaça demográfica.”

Para o activista Aziz, Lapid não oferece garantias. “Não espero grandes mudanças. A maioria dos israelitas sente-se confortável porque há vários anos que não são vítimas de violência, a partir da Cisjordânia [apenas da Faixa de Gaza].”

“Para eles, é como se a ocupação não existisse. É um engano. Um dia, serão confrontados com uma de duas opções: ou aceitam dois Estados, solução moribunda à medida que os colonatos se expandem, ou dão direitos de cidadania a mais de quatro milhões de palestinianos, para permitirem a coexistência. Não podem ter tudo!”

[Para surpresa da maioria dos israelitas, nas eleições de 2013, o Yesh Atid obteve 19 lugares no Parlamento, tornando-se no segundo partido com mais deputados no Knesset. A 15 de Março, Yair Lapid foi escolhido para ser ministro das Finanças. Netanyahu afastou-o do cargo em 2014 e continua no poder.]

Yair Lapid, líder do partido Yesh Atid (“Há um Futuro”, em hebraico) abalou, temporariamente, o poder do político que era “rei de Israel”, Benjamin Netanyahu (ambos na foto) 
© Agence France-Presse

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 27 de Janeiro de 2013 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on January 27, 2013

Entrevista com um assassino: “Rabin colocou Israel em perigo”

Em 1995, Hagay Amir calibrou as balas para garantir que o seu irmão perfurava o colete que protegia o primeiro-ministro israelita. Este artigo resulta de três meses de “diálogo”, através do Facebook, onde o cúmplice do crime abriu uma página assim que saiu da prisão. (Ler mais | Read more…)

Um ilustração de Amitai Sandy, com o rosto de Yitzhak Rabin, publicada pelo diário Ha'aretz. Em tribunal, o cúmplice do seu assassino, Hagay Amir, declarou que fez abortar duas tentativas de o irmão, Yigal, matar o primeiro-ministro. Garantiu também que este não o avisou de que iria usar as armas por ele calibradas para consumar o crime. © Amitai Sandy | Ha’aretz

O rosto de Yitzhak Rabin (numa ilustração publicada pelo diário Ha’aretz), o primeiro-ministro que os irmãos Yigal e Hagay Amir mataram
© Amitai Sandy

Com a ajuda de Ami Kaufman, co-fundador do site +972 Magazine, o único que até agora lhe fizera uma entrevista, chegámos à página de Facebook de Hagay Amir, libertado da prisão de Ayalon a 4 de Maio de 2012, após cumprir uma sentença de 16 anos e meio por ter ajudado o seu irmão, Yigal, a matar o primeiro-ministro israelita Yitzhak Rabin, em 1995.

Não há foto de perfil e o nome está em hebraico. Era difícil encontrá-lo. Várias dúvidas surgiram de imediato: Pedimos “amizade” ou enviamos apenas uma mensagem com o pedido para ele nos detalhar a sua história? E como nos dirigimos a um assassino: “Caro Senhor”? E como terminamos: “Cordiais saudações”?

Optámos por não seguir o exemplo de Kaufman, que se tornou “amigo” em Julho – assim que Hagay criou a sua página “para ajudar Yigal” – e conseguiu a entrevista dois meses depois. Nós encetámos o diálogo, pela via privada do Facebook, a 13 de Setembro.

“Sr. Hagay Amir”, assim iniciei a minha mensagem enunciando as razões do contacto. Terminei com “cumprimentos”. Não esperava resposta, mas valia a pena tentar.

No dia seguinte, surpreendentemente, o destinatário reagiu: “Olá, Senhora Santos Lopes. Obrigada pelo seu mail. Antes de lhe dar uma resposta, gostava de saber como é que esta entrevista vai ser conduzida: através de e-mails, por telefone ou pessoalmente? Não falo inglês, por isso, as minhas respostas teriam de ser traduzidas. Obrigada. Hagay Amir.”

Era sábado ou Shabbat, dia de descanso semanal para os judeus, e temendo que o devoto Hagay pudesse desistir, enviámos sem hesitar um conjunto de dez perguntas para ele reflectir, no domingo: a primeira sobre as razões para matar Rabin; a última sobre qual a solução que os irmãos Amir propõem para o conflito com os palestinianos.

Hagay (de T-shirt branca sob camisa azul escura), com o irmão, Yigal (à dir.), em tribunal admitiu que ambos tiveram “muitas conversas com os líderes do Hamas”, movimento islamista que governa Gaza. Na cadeia, “eles respeitavam-nos e nós respeitávamo-los – cá fora, continuamos a ser inimigos”
© VICE France

A 15 de Setembro, Hagay comunicou: “Olá Senhora Santos Lopes. Infelizmente, esta semana não será possível [responder] porque são os nossos feriados [de 17 a 18 o Ano Novo Judaico ou Rosh Hashanah; de 25 a 26, o Yom Kippur, ou Festa da Redenção].”

“Terei gosto em olhar para as suas perguntas e responder assim que terminarem as nossas celebrações (dentro de duas semanas). Uma vez que estas questões exigem reflexão e têm de ser traduzidas, não quero fazer isso apressadamente.”

A 18 de Outubro, outra mensagem, menos formal: “Olá Margarida. Desculpe não ter podido responder mais cedo. O meu computador avariou e agora estou a escrever no da minha irmã. Entrarei em contacto consigo assim que o consertar, nos próximos dias. Já comecei a trabalhar na tradução. Obrigada. Hagay.”

Finalmente, a 24 de Outubro, chegou um primeiro conjunto de respostas, sem seguir o guião das perguntas, com menos cordialidade e maior contenção: “Olá. As questões que coloca são demasiado complexas para uma entrevista como esta, e não sei até que ponto você entende a situação israelita.”

“Notei que obteve informações de Ami Kaufman, que tem opiniões muito de esquerda e é, naturalmente, tendencioso no modo como dá as notícias; além disso, na minha opinião, ele também é influenciável e está desligado da realidade.”

Kaufman, que foi editor em dois jornais israelitas, o Ha’aretz e o diário financeiro Calcalist, além de correspondente da rádio israelo-palestiniana 93.6 RAM FM, ficou ofendido quando lhe contámos o que Hagay escrevera.

“Ora, era o que mais me faltava, ser analisado por um psicopata”, comentou, já que ele próprio admitira ter sido muito duro “pedir amizade a um assassino”, ainda que tenha “a opção de o “desamigar” quando quiser”.

Não o fez, talvez porque Hagay tem vindo a partilhar, sempre em hebraico, na sua página com mais de 600 seguidores, o “diário” que escreveu na prisão – algo que evitou abordar na entrevista à revista 2.

Hagay também se esquivou a descrever como foi voltar à casa dos pais, judeus provenientes do Iémen, em Herzliya – cidade no Centro de Israel e que deve o seu nome a Theodor Herzl, o ideólogo do Sionismo, a que, ironicamente, se opõe a dupla de assassinos (que não aceitam o ideal de um “Estado dos judeus” secular).

Hagay Amir diz que não sente remorsos. Após ser libertado, voltou a casa dos pais, judeus iemenitas, em Herzliya, no Centro de Israel, cidade que deve o nome a Theodor Herzl, o ideólogo do sionismo, a que se opõem, ele e o seu irmão
© Ori Golan

Uma das vizinhas, Allison Kaplan Sommer, publicou um artigo crítico no Ha’aretz: “Eu até teria estômago para aceitar a sua liberdade, depois de cumprida a pena, se ele tivesse saído com um pouco de humildade, mas Amir deixou a cadeia em triunfo, fazendo com os dedos o “V” da vitória, declarando que não se arrependia do que fizera, que estava orgulhoso e que repetiria o crime (estranho, dado que, em tribunal, jurou que nada fez).

“Quem sou eu para culpar uma mãe ou irmã, jubilantes por o verem sair da prisão, mas deveriam ter celebrado dentro de portas, por respeito à família de Rabin.”

Em tribunal, Hagay Amir declarou que fez abortar duas tentativas de Yigal matar Rabin e garantiu que o irmão não o avisou de que iria usar as armas por ele calibradas para consumar o crime.

Hagay, 45 anos, e Yigal, de 42, são oriundos de uma família profundamente religiosa. A mãe, Geula, é educadora de infância, e o pai, Shlomo é um sofer, escriba dos rolos da Torah (Antigo Testamento).

Tendo frequentado yeshivot (escolas onde se ensina o Talmude, um dos livros sagrados do Judaísmo), era natural que os dois irmãos não aceitassem as “concessões” que Rabin estaria disponível para fazer aos palestinianos, sobretudo na Cisjordânia, considerada pelos mais devotos como território sagrado da “Judeia e Samaria”.

O assassínio de Rabin, a 4 de Novembro de 1995, no final de um comício pela paz, antecedeu uma campanha da extrema-direita de incitamento ao ódio, com cartazes comparando o primeiro-ministro a Hitler.

Hagay admite que ele e Yigal (que ele trata por “Gali”) planearam matar Rabin e confessou, após 16 anos e meio de isolamento, não sentir remorsos. Nas audiências em tribunal e nos diários da prisão que tem vindo a publicar no Facebook, insiste em que um agente do Shin Bet (serviço de segurança interna) obteve informação prévia sobre o que os irmãos urdiam, e nada fez para impedir o crime.

“Tudo poderia ter ocorrido de forma diferente, sem termos sido apanhados”, lamentou Hagay, manifestando-se “desapontado com os sionistas religiosos ashkenazim“. Estes são os judeus de origem europeia, a elite que tem governado Israel, enquanto os mizrahim (de origem no Médio Oriente e Norte de África), como os dois irmãos, se sentem de “segunda classe”.

Yigal Amir (na foto a ser conduzido por polícias a uma sessão no tribunal) e Hagay provêm de uma família profundamente religiosa e não aceitavam as “concessões” de Rabin aos palestinianos
© Nati Harnik | AP | The Guardian

Na nossa troca de mensagens, Hagay só exprime desprezo pelo homem que reconheceu a OLP, de Yasser Arafat, em 1992: “Yitzhak Rabin podia falar muito de paz – como toda a esquerda neste país – mas, de facto, não fez nada para a conseguir.”

“Apenas complicou a situação na região ao trazer mais tropas armadas; e quando se tem mais soldados e mais armas num lugar pequeno como Israel daí só pode resultar mais violência, como toda a gente pode observar hoje.”

As “tropas” a que se refere são os cerca de 9 mil polícias da Autoridade Palestiniana, os quais, segundo os Acordos de Oslo – e depois de Arafat ter deixado o exílio na Tunísia, em 1994 –, foram autorizados a ser portadores de armamento ligeiro, no enclave de Jericó (Cisjordânia) e na Faixa de Gaza, “para garantirem a segurança de Israel”.

No entanto , perante a imparável expansão dos colonatos judaicos e crescente influência dos islamistas do Hamas, também a Fatah, de Arafat, começou a recorrer a ataques terroristas. Para muitos israelitas, e para os irmãos Amir, em particular, Rabin tornou-se um rodef, ou alguém que, segundo a lei judaica, coloca a vida de outro em perigo. Neste caso, um país.

Hagay considera que “a actual situação não se deve aos Acordos de Oslo, mas à insistência de Rabin em não resolver a raiz do conflito, que ainda persiste: “O problema dos refugiados de 1948.” E enquanto este problema não for resolvido as guerras continuarão.”

“Em 1994, quando vimos que Rabin se mostrava indiferente ao problema real, tomámos consciência de que ele só nos emaranharia em guerras que iriam agravar-se porque são travadas numa pequena área do país.”

“É preciso compreender que a esquerda nunca resolverá o problema dos refugiados porque a maioria dos esquerdistas vive nas casas e nas terras roubadas que pertenciam aos refugiados – e não há maneira de eles devolverem essas propriedades tão valiosas, nem sequer pela causa da paz. E não há hipótese de uma pessoa a quem foi roubada a casa e a terra dos seus antepassados aceitar o usurpador sem que este recupere o que era seu”.

Esta resposta gera perplexidade, porque parece indiciar que Hagay Amir favorece o retorno dos refugiados palestinianos da guerra de 1948 às suas terras no que hoje é Israel, um regresso que religiosos e laicos consideram “o fim do Estado judaico”, mas ele não clarifica.

Yitzhak Rabin (à dir.), chefe de Estado-Maior do Exército, acompanhado de Moshe Dayan (ao centro) e Uzi Narkiss, entra em Jerusalém Leste depois da vitória israelita na guerra de 1967
© National Photo Collection of Israel, Photography dept. Government Press Office

Calcula-se que o total de refugiados e seus descendentes seja superior a quatro milhões – embora sondagens recentes indiquem que a maioria dos palestinianos na diáspora aceitaria compensação financeira (uma das propostas da ONU) em troca do património perdido desde 1948.

Igualmente enigmática foi a resposta que o soldador que aspirava a estudar Física e agora pretende seguir Engenharia de Estruturas deu a Ami Kaufman quando este lhe pediu que explicasse a menção a uma “lenta mas inexorável desintegração do Estado”.

Assim falou o irmão de Yigal Amir, a cumprir uma pena perpétua pelo assassínio de Rabin (mais seis anos por ter ferido um guarda-costas do primeiro-ministro e outros oito por conspiração para homicídio): “Se houver um acordo para um Estado binacional, os judeus poderão viver aqui; mas sem este acordo, [Israel] vai acabar como no tempo das cruzadas.”

Hagay refere-se ao tempo em que, há 200 anos, os Cruzados, seguindo o apelo do Papa Urbano II, foram da Europa para a “Terra Santa” reconquistá-la aos “infiéis”. Nesse período, a maioria dos não cristãos de Jerusalém foram massacrados. Barricados nas suas sinagogas, os judeus defenderam-se, mas acabaram mortos pelo fogo ou vendidos como escravos.

“O Estado judaico é importante, mas não há justificação para um Estado dos judeus [como defendia o sionista Herzl]. Um Estado judaico é o que respeita os valores judaicos – o Shabbat, o estudo da Torah e por aí adiante.”

“O Estado dos judeus é governado por pessoas que apenas são judeus, sem obrigações para com o Judaísmo, que é, basicamente, o actual Estado. Foi assim que Herzl o definiu e ele sabia bem distinguir um do outro.”

Ami Kaufman disse-nos que não ficou surpreendido com estas afirmações: “Esta é a opinião de muita gente da extrema-direita que não é sionista e quer criar um Estado teocrático, semelhante ao Irão ou à Arábia Saudita.”

Na sua primeira e longa resposta às nossas perguntas, Hagay afirma: “Rabin seguiu este caminho sem saída, apesar de tudo, ao mesmo tempo que reforçava o inimigo e punha em risco o seu próprio povo. Concluímos que só havia uma maneira de o travar, e agimos para evitar banho de sangue maior.”

“Segundo o Judaísmo, se um homem arriscar a vida de outro homem, temos de o impedir de todas as formas que pudermos, mesmo que isso lhe custe a vida, mais ainda, portanto, quando esse homem coloca em perigo a vida de milhares de pessoas. Não agimos motivados por ódio ou outro motivo pessoal, mas para salvar o povo judaico que vive em Israel.”

Em 1948, na sequência da guerra que acompanhou a criação de Israel, 85% da população árabe da Palestina histórica foi forçada a abandonar as suas casas e terras, segundo dados da UNRWA

Hagay prossegue: “As pessoas da esquerda tentaram atacar o que fizemos como um acto de egoísmo, apenas para não terem de discutir os nossos argumentos. Além disso, se achassem que matámos só por matar, não teriam dado tanta importância às nossas opiniões e não se teriam esforçado tanto para nos silenciar e nos deixarem na prisão sem voz durante tantos anos.”

“Evidentemente, as poucas vezes que eles tentaram ouvir o que tínhamos para dizer não conseguiram responder, com razoabilidade, aos nossos motivos”, acrescenta.

“Escolheram, portanto, a via mais fácil, que foi a de nos calarem e fazerem, simultaneamente, uma lavagem ao cérebro a todo o povo israelita, com disparates baseados em mentiras, como as de que fizemos aquilo [o crime] porque discordávamos das opiniões de Rabin.”

Ami Kaufman crê que Hagay lhe deu a primeira entrevista precisamente porque “não confia nos media tradicionais, que terão, talvez, distorcido as suas palavras no passado”. Por outro lado, “ter-se-á também deixado seduzir com a ideia de “falar com o inimigo”, o que lhe daria prazer ou até a esperança de convencer alguém [como eu] a mudar de ideias”.

A maior surpresa do blogger ocasional do site Half & Half e um dos mais influentes analistas políticos de Israel foi “constatar até que ponto Hagay é eloquente e organizado, como as suas posições sobre o mundo são muito claras, como ele justifica as suas acções e como tem uma resposta para todas as perguntas que lhe são formuladas”.

A 3 de Novembro, continuando a mensagem que, a 24 de Outubro me enviara, Hagay escreveu como se não tivesse havido um interregno: “Muitos seguidores da esquerda no país alegam que se Rabin estivesse vivo teria concluído os Acordos de Oslo e haveria paz no Médio Oriente.”

“Acredito plenamente que o principal problema, hoje, é o problema dos refugiados árabes de 1948 – e enquanto este problema não for resolvido para satisfazer os refugiados, porque são eles que combateram contra nós, o conflito permanecerá.”

Ignorando o pedido que lhe tinha sido feito para ser mais claro quanto ao retorno dos refugiados – um dos mais espinhosos do “processo de paz” –, enfatizou: “A esquerda em Israel não pensa em resolver esta questão porque, simplesmente, a ignora, por dois motivos: 1) Muitos deles ocupam as terras dos refugiados e não as vão devolver. 2) Sabem que caso os refugiados regressem às suas terras não haverá uma maioria judaica em Israel e perderão o seu poder como governantes – a única razão por que vieram para Israel.”

“Portanto”, adianta, “é claro que, mesmo se Rabin continuasse a pôr em prática os Acordos de Oslo, ele teria chegado ao mesmo beco sem saída de Ehud Barak [incapaz de, em 2000, concluir um acordo com Yasser Arafat e Bill Clinton, numa cimeira em Camp David], mas seria em condições piores do que as actuais.”

Mulheres na Faixa de Gaza enfrentam soldados israelitas durante a primeira Intifada (1987-1994), quando Yitzhak Rabin prometeu “quebrar os ossos” dos palestinianos
© Middle East Monitor

Nas declarações a Ami Kaufman, Hagay admitiu que ele e o irmão tiveram “muitas conversas com os líderes do Hamas”, o movimento islamista que governa Gaza e é rival da Autoridade Palestiniana, que controla a Cisjordânia.

“Sobre as coisas mais importantes, naturalmente que discordávamos”, referiu. “Já muito sangue foi derramado. Do ponto de vista deles, não é possível que este Estado [Israel] exista aqui. Eu próprio não tenho a certeza se os judeus, como indivíduos, podem viver aqui. Em todo o caso, o ambiente [na prisão] não era de tensão; eles respeitavam-nos e nós respeitávamo-los, e é óbvio que, cá fora, continuamos a ser inimigos.”

Inquirido sobre se esta proximidade com os detidos islamistas se podia explicar por Hagay e Yigal defenderem um Estado judaico e o Hamas renegar Israel, o entrevistado comentou: “Respeitamos as opiniões de cada ser humano, por mais extremistas que sejam, por nisso, não havia qualquer problema em falarmos com os líderes do Hamas na prisão.”

A Kaufman dissera: “Se ser de direita é odiar os árabes, não somos de direita. Nunca tivemos problemas com os árabes. Para nós, eles são adversários ou inimigos nesta terra, e por isso os respeitamos.”

“Isso afasta-nos ideologicamente do rabi Meir Kahanne [assassinado em Brooklyn-EUA e cujo grupo foi ilegalizado por Rabin em Israel], embora eu concorde com uma parte da sua doutrina, que não conheço na íntegra.”

“Assassinámos Rabin pelas suas acções e pelo perigo que ele representava para o povo de Israel, não por causa das suas opiniões”, frisa Hagay na entrevista que nos deu.

“Os nossos opositores têm dificuldade em lidar connosco, ideologicamente, e culpam-nos de o termos atacado por discordamos das suas ideias, mas defender as suas acções seria ainda mais difícil quando estava à vista de todos ao que elas conduziriam o país e toda a região.”

“Deixe-me agora responder às suas restantes questões: decidimos que Rabin tinha de ser travado a qualquer preço dois anos antes da assinatura dos Acordos de Oslo em 1993 – já nessa altura nos tínhamos apercebido das consequências ruinosas que este acordo iria ter.”

“O que mais nos incentivou [a matar Rabin] foi ver o quanto os políticos enganavam a opinião pública, quando era óbvio para toda a gente com um pouco de inteligência no cérebro que tudo não passava de mentiras.”

Residentes de Hayovel no colonato judaico de Eli, na Cisjordânia Ocupada. Os palestinianos queriam que os Acordos de Oslo contemplassem o congelamento da colonização, mas Yitzhak Rabin não aceitou e até expandiu estas comunidades
© Jewish Telegraphic Agency

Os Acordos de Oslo nunca foram um tratado de paz, semelhante aos que Israel assinou com o Egipto e a Jordânia. Limitaram-se a ser um pacote de medidas com vista à resolução do conflito, tendo sido constantemente adiados os pontos mais contenciosos: a delimitação de fronteiras, a descolonização, a partilha dos recursos de água, o estatuto de Jerusalém e o “direito de retorno” dos refugiados.

Inicialmente, os palestinianos obtiveram autonomia na Faixa de Gaza e em Jericó, um enclave da Cisjordânia. Este território foi depois dividido em três áreas: A) controlo exclusivo da Autoridade Palestiniana; B) administração conjunta; e C) domínio exclusivo de Israel – cerca de 60% e onde se encontra a maioria dos colonatos judaicos.

m 2005, numa decisão unilateral. Israel retirou soldados e colonos de Gaza, mas todos os acessos por terra, mar e ar estão restritos.

“Apesar das muitas oportunidades que tivemos [para assassinar Rabin], não avançámos logo porque não bastava acreditar que tínhamos de o fazer”, continuou Hagay.

“Precisávamos também de provas de que não estávamos errados. Assim que se tornou claro que o terrorismo aumentava à medida que o acordo era aplicado, com centenas de pessoas a serem mortas, concluímos que um louco estava a conduzir-nos à destruição e que tínhamos de o parar a qualquer custo. Quando foram assinados os Acordos de Oslo II [em Setembro de 1995], tomámos a decisão.”

“Avaliámos muitas opções, usando o conhecimento que eu tinha obtido quando servi no Exército, mas muitas das nossas opções eram impossíveis [de pôr em prática] porque receávamos colocar em risco a vida de inocentes”, explica Hagay, que calibrou as balas de modo a que perfurassem o colete à prova de balas que Rabin usava.

“Estávamos dispostos a ficar na prisão o tempo que fosse necessário mas não queríamos ser mortos, até que, um dia, o meu irmão me informou que não se importava de morrer e que isso abria inúmeras oportunidades.”

“É necessário entenderem que a vontade de nos sacrificarmos não era uma declaração vã, mas uma convicção íntima que nos manteve fortes na cadeia, em condições extremamente difíceis, sem nunca quebrarmos. Jamais mudámos as nossas opiniões.”

Hagay Amir (aqui numa cerimónia em Jerusalém, em Novembro de 2012) não está arrependido de ter ajudado Yigal a matar Rabin. Uma grande maioria de israelitas está disposta a perdoá-los. “É preciso ter em conta que muitos concordam com as ideias dos Amir, de que os Acordos de Oslo foram um crime que só trouxe destruição e morte a Israel”, diz o jornalista Ami Kaufman
© Times of Israel

Sem contrição, Hagay revela: “O que o meu irmão fez era o mais simples e eu não concordava com ele, porque havia poucas hipóteses de ser bem sucedido, porque os guarda-costas que protegiam Rabin estavam treinados para este cenário.”

“Nessa noite [a 4 de Novembro de 1995], o meu irmão saiu de casa, sem eu saber, e o que depois aconteceu é mais ou menos conhecido.”

No final de um comício organizado para apoiar os Acordos de Oslo, na antiga Praça dos Reis, em Telavive, que hoje tem o seu nome, Rabin dirigia-se para o seu carro quando Yigal Amir disparou três balas com um revólver.

O assassino foi imediatamente detido por vários guarda-costas. Foi tudo tão rápido, que são escassos os detalhes e inúmeras as teorias de conspiração (a autópsia revela, por exemplo que o primeiro-ministro foi abatido pelas costas; mas há quem diga que foi baleado à queima-roupa, no peito).

A vítima viria a morrer, 40 minutos depois do ataque, devido a uma grande perda de sangue e perfuração dos pulmões, enquanto o tentavam operar num hospital da cidade.

No bolso do herói militar (da guerra de 1967), foi encontrado um pedaço de papel ensanguentado, com a letra de Shir Lashalom. Esta “Canção da Paz“, que os manifestantes entoaram na Praça, foi escrita em 1969 e tocada pela primeira vez por uma banda militar. Seria depois proibida por um general do exército, Rehavam Ze’evi, devido à sua mensagem antiguerra.

O sentimento de orfandade foi enorme porque, em 1995, uma maioria de israelitas ainda comparava Rabin a um utilitário Subaru, a quem recorriam em tempo de crise interna, em contraste com o eloquente Shimon Peres, a quem chamavam “o Mercedes guardado na garagem”, para melhorar a imagem do país perante o mundo.

Propositadamente ou não, Hagay Amir enviou-nos a sua última mensagem a 6 de Novembro – no mesmo dia em que, em 1995, se realizou o funeral de Rabin, no cemitério do Monte Herzl, em Jerusalém.

Tínhamos solicitado para falar com um dos seus líderes espirituais e ele reagiu deste modo: “Quanto a pedir a opinião de um rabi, não há qualquer possibilidade que algum esteja disposto a abordar este tema e a incriminar-se – sempre que contactámos rabis foi por meios indirectos, para nos protegermos a nós e aos rabis.”

Tínhamos insistido também em entender se a sua crítica aos “esquerdistas que ocupam as casas dos refugiados” era uma defesa do que os palestinianos consideram ser o “direito de retorno”, e Hagay disse:

-“Se esse “direito de retorno” for reconhecido (ou seja, se os refugiados forem autorizados a voltar às suas terras), o Estado judaico perde a maioria de que necessita e o governo será árabe – por isso é que a esquerda não aceita isto, e por isso é que não haverá paz com os árabes, já que esta é a sua principal condição para um acordo e eles não vão desistir dela.”

“Por que é que deixaram entrar Arafat e o seu exército e lhes deram armas quando todas as conferências de paz bloqueiam sempre devido à questão dos refugiados, fracassando qualquer tentativa de entendimento, como aconteceu em 2000, em Camp David?”, interrogou Hagay.

“Por que demos ao inimigo armas que rapidamente se viraram contra nós? Foi por isso que agimos para pôr fim a este processo.”

Quanto a Yigal Amir, estudante de Direito e Informática na Universidade de Bar-Ilan (ligada à direita), com formação militar na Brigada Golani, unidade de elite das forças de defesa israelitas, casou-se na prisão, em 2004, com Larissa Trembovler, imigrante de origem russa (a união foi validada por um tribunal rabínico e pelo Ministério do Interior – só depois de uma ordem do procurador-geral).

Em 2007, depois de uma fertilização in vitro, Larissa deu à luz Yinon Eliya Shalom, filho de Yigal. A brit milah, ou cerimónia da circuncisão, realizou-se a 4 de Novembro de 2007, no 12.º aniversário do assassínio de Rabin.

A morte de Rabin deixou uma nação em choque – ou como disse Danny Yatom, ex-chefe da Mossad, agência de espionagem: “Dispararam três tiros no coração do Estado de Israel.”

Como é que um judeu pôde assassinar outro judeu, num país onde, por exemplo, as manifestações dos colonos contra o Governo são dispersas por soldados drusos para evitar agressões físicas entre judeus? Recentes sondagens indicam, porém, que “30% dos israelitas aceita que Yigal Amir seja perdoado”; subindo este número para “mais de 50% entre os judeus ultraortodoxos”.

Os irmãos Amir não perdoaram a Yitzhak Rabin a (limitada) autonomia palestiniana oferecida a Yasser Arafat na Cisjordânia e Faixa de Gaza, depois dos acordos de Oslo assinados na Casa Branca, durante a presidência de Bil Clinton (ao centro)
© Middle East Eye

Ami Kaufman tenta uma explicação: “Creio que, à medida que o tempo passa, cada vez mais pessoas estarão dispostas a perdoar. Não é exclusivo de Israel. É preciso ter em conta que muitos israelitas concordam com as ideias dos Amir, de que os Acordos de Oslo foram um crime que só trouxe destruição e morte a Israel.

Para os dois irmãos, o seu crime não é tão mau como os dos ‘criminosos de Oslo’ que “causaram” a morte de milhares de israelitas. Os israelitas estão também a tornar-se mais extremistas e mais direitistas. Há agora mais pessoas a viver em Israel que partilham as ideias dos Amir – ou que, pelo menos, estão mais próximos deles do que estariam no passado.”

Sinal disso é a popularidade crescente de partidos como o Habayit Hayehudu (Casa Judaica), do milionário, antigo dirigente dos colonos e ex-comando militar Naftali Bennett, que seduziu religiosos e seculares, a maioria jovens, ao defender a anexação de 60% da Cisjordânia e rejeitar um Estado palestiniano.

Durante a campanha para as recentes eleições [22 de Janeiro 2013], um dos amigos de Hagay Amir no Facebook perguntou-lhe em quem iria votar o seu irmão, Yigal. A resposta foi: “Bennet; em quem mais poderia ser?”

Mais tarde, quando a imprensa hebraica começou a veicular esta informação, Hagay retractou-se, dizendo que estava a ser “sarcástico”, que não sabia se Yigal iria sequer votar, mas que, “certamente, não seria em Bennett”.

Ao contrário do que previam todas as sondagens, Bennett não se tornou na terceira força política (o lugar foi ocupado por um novo partido centrista), mas, embora a direita tenha perdido votos, a maioria dos analistas nacionais é unânime em considerar que os israelitas reprovaram Benjamin Netanyahu – um dos maiores críticos de Rabin -, mas não as suas políticas radicais, que inviabilizam o Estado com que os palestinianos sonhavam quando assinaram os Acordos de Oslo.

[Bennet conquistou 12 dos 120 lugares do Parlamento e é membro da coligação de Netanyahu, para a qual voltou a ser convidado após as eleições de 2015].

“Este homem é um criminoso com lógica”

Hagay Amir, numa foto que partilhou na sua página de Facebook, em Novembro de 2013
© Nira Yadin | VICE

Assim que Hagay Amir nos enviou  a última mensagem, dando por concluída a sua entrevista, contactámos o Rabi Marc Gopin, nos Estados Unidos, e o psicanalista Carlo Strenger, em Israel, para contextualizarem as respostas que o irmão (e cúmplice) do assassino de Yitzhak Rabin deu às nossas perguntas. O primeiro aceitou o convite desde que as suas palavras “não se misturassem com as de um assassino”. O segundo ficou sem palavras.

Strenger, um dos mais influentes activistas políticos israelitas, colunista do diário Ha’aretz e autor de várias obras, designadamente, O medo da insignificância – Como dar sentido às nossas vidas no século XXI (Ed. Lua de Papel/LeYa), ficou inicialmente animado com o desafio de “avaliar a mente de um assassino”. Leu as respostas e comentou: “Parece-me um diálogo muito interessante”.

Ao fim de um mês, porém, o homem que integra a Federação Mundial de Cientistas, na Sicília (Itália), e faz parte da direcção científica da Fundação Sigmund Freud, em Viena (Áustria), desistiu. “Amir, como todos os terroristas, está profundamente convencido de que a sua causa é justa e certa”, disse-me, numa troca de correspondência, por Facebook. “Lamento, mas nada do que ele escreveu é suficiente que me mereça uma reflexão profunda.”

Mais entusiasmado, o rabi israelita-americano Marc Gopin aceitou falar connosco, por telefone, com uma condição: “Não quero que as minhas palavras se misturem com as de um assassino, porque respeito muito Yitzhak Rabin”.

Assim, o director do Center for World Religions, Diplomacy and Conflict Resolution na Universidade de George Mason, em Washington, começou a sua análise: “Hagay tem um pensamento bem estruturado, nada confuso; fica evidente que queria destruir o processo de paz quando ele e Yigal [o irmão que disparou as balas] planearam matar o primeiro-ministro”.

“Infelizmente, tenho de reconhecer que estavam certos em relação a uma coisa: a classe política israelita em Israel não se mostrava empenhada em construir a paz”, lamenta Gopin. “Criou-se um vazio depois dos Acordos de Oslo, e jamais saberemos se Yasser Arafat [o então presidente da Autoridade Palestiniana] teria conseguido evitar que os extremistas, num campo e noutro, ganhassem terreno.”

Hagay Amir, prosseguiu o rabi, “representa o mal, mas é um criminoso com lógica e racional. É um extremista clássico que só ficará satisfeito quando os todos os árabes em Israel e nos territórios ocupados forem transferidos para a Jordânia – ele não é explícito a este respeito, na entrevista, mas essa é a filosofia dos que partilham as suas ideias. Não estão interessados num Estado democrático, apenas num Estado judaico”.

Quando critica a esquerda israelita por se opor ao direito de retorno dos refugiados da guerra de 1948, observou Gopin, “é óbvio que ele se refere a lugares como Haifa, por exemplo, não a Ramallah [na Cisjordânia ocupada] ou à Faixa de Gaza – e nisto ele é honesto: quais são os israelitas que vão aceitar devolver as casas e terras que hoje habitam e que outrora pertenciam a palestinianos?”

“O que os extremistas como Hagay propõem – empurrar os palestinianos para a Jordânia – é simplesmente uma loucura”, sublinhou Gopin, que assume “a posição invulgar de não ter qualquer preferência, a solução de um Estado binacional ou a de dois Estados, porque o importante é a coexistência pacífica entre judeus e árabes – nada mais!”

Sobre a razão por que Hagay invoca os textos sagrados hebraicos para defenderem a morte de Rabin, o rabi em Washington explicou:

-“Como em todas as religiões, quando os fanáticos querem recorrer à violência, escolhem o que nas escrituras lhes é mais conveniente para justificarem a morte de um líder que, segundo eles, coloca a nação em perigo – mas este é um argumento falso. Ele e o irmão tomaram a lei nas suas próprias mãos para assassinar uma oportunidade de paz.”

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, a 27 de Janeiro de 2013 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 27, 2013

Negociações históricas entre a Turquia e o “inimigo número um”

Abdullah Öcalan, líder dos separatistas curdos do PKK, teve contactos, na prisão, com o chefe dos serviços secretos. Nem o assassínio de três activistas em Paris parece ter travado o processo para solucionar um conflito sangrento. (Ler mais | Read more…)

Retrato de Abdullah Öcalan numa base do PKK
© joeyl.com/blog

Sentado a uma mesa do Kafe Ara, em Beyoglu, “coração europeu” de Istambul, o analista turco Yavuz Baydar, exala confiança:

-“Se o assassínio de três activistas curdas em Paris não obstruiu as negociações históricas entre o Governo de Recep Tayyip Erdoğan e Abdullah Öcalan, o líder dos terroristas do PKK, condenado a prisão perpétua, então é porque a opinião popular nos dois campos está, pela primeira vez, interessada na paz.”

A luta armada iniciada pelo Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) em 1984 e as ofensivas do Exército turco contra a guerrilha, no Sudeste do país e no Norte do Iraque, já causaram entre 30 mil e 40 mil mortos (números oficiais de Ancara), centenas de milhares de deslocados e danos materiais superiores a 300 mil milhões de dólares.

Sakine Cansiz, que ajudou Öcalan a fundar o PKK, em 1978; Fidan Dogan, membro do Congresso Nacional do Curdistão, com sede em Bruxelas; e outra militante, Leyla Soylemez, foram encontradas mortas no Centro de Informação do Curdistão, em Paris, na manhã de quinta-feira, no passado dia 10 [Janeiro de 2013]. O crime terá sido cometido na véspera.

O edifício, no número 147 da movimentada Rua Lafayette, era considerado de “alta segurança”. A porta de entrada no primeiro piso, onde as três mulheres estavam sozinhas, tinha um código de acesso digital. Foi uma operação “levada a cabo por profissionais”, segundo as autoridades francesas.

A morte de Sakine é particularmente simbólica: após a criação do PKK, esteve detida na prisão de Diyarbakir, no Leste da Turquia, um lugar que outro analista em Istambul, o britânico Andrew Finkel, descreveu como sendo “um centro de tortura”, depois do golpe militar de 1980.

Quando foi libertada em 1991, acrescentou o autor de Turkey: What Everyone Needs to Know, Sakine juntou-se a Öcalan no Vale de Bekaa, no Líbano então controlado pela Síria, até se mudar para as montanhas Kandil, no Norte do Iraque, base central da guerrilha.

Foi daqui que seguiu para a Europa, onde se tornou membro da ala política da organização. Estaria a residir em Paris desde 2007.

As primeiras especulações apontavam para um “ajuste de contas interno”, um homicídio encomendado por “descontentes do PKK” para sabotar as negociações que Erdogan anunciou, publicamente, no início deste mês.

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Sakine Cansiz, que ajudou Öcalan a fundar o PKK, em 1978; Fidan Dogan, membro do Congresso Nacional do Curdistão, com sede em Bruxelas; e outra militante, Leyla Soylemez, foram encontradas mortas no Centro de Informação do Curdistão, em Paris, em 10 de Janeiro de 2013
© Le Monde

Baydar, colunista do diário Today’s Zaman, sorve com gosto a sopa, no restaurante que deve o nome ao grande fotógrafo Ara Güler, e dá o seu palpite: “É verdade que alguns comandantes [da guerrilha] não estarão satisfeitos com as conversas na ilha-prisão de Imrali entre Öcalan e o chefe dos serviços secretos turcos, Hakan Fidan, mas é preciso também ter em conta que [Mahmoud] Ahmadinejad, [Bashar al-]Assad e [Nouri al-]Maliki não estão igualmente interessados numa solução.”

Ou seja, Baydar suspeita que “o Irão, a Síria e o Iraque – e, provavelmente, também a Rússia – querem torpedear os esforços de Erdogan, porque sabem que quem tiver os curdos do seu lado será líder da região, uma vez que eles habitam áreas ricas em recursos energéticos”.

A sua opinião é partilhada por Fadi Hakura, analista do think tank Chatham House, em Londres, numa entrevista à Bloomberg. “Se a Turquia tiver sucesso [nas negociações com o chefe do PKK], aumentará a sua influência entre os vizinhos, e indicará a um Médio Oriente multiconfessional uma via alternativa para acomodar a diversidade étnica e religiosa – esta é uma mensagem poderosa.”

O medo inicial de um revés dissipou-se assim que os corpos das três vítimas chegaram a Diyarbakir, a maior cidade curda da Turquia, em caixões cobertos com bandeiras vermelhas, verdes e amarelas, as cores do PKK.

Milhares de pessoas concentraram-se no subúrbio de Batikent, entoando hinos do movimento e erguendo cartazes onde se lia “Não há vencedores na guerra, nem derrotados na paz”. Muitos aceitaram o apelo do presidente da câmara local e usaram lenços brancos em sinal de reconciliação. Não se registaram incidentes aqui nem nos funerais.

Por que é que Yavuz Baydar está optimista? “Todos aprenderam com os fracassos anteriores”, explica. “Em 2009, quando Erdogan estendeu a mão ao PKK, a organização aproveitou-se e os seus combatentes, a quem foi prometida amnistia, regressaram a casa em uniformes militares fazendo o ‘V’ da vitória. A popularidade do primeiro-ministro caiu a pique nas sondagens. Desta vez, há sinais positivos. O terreno está mais sólido.”

Guerrilheiros do PKK na cidade iraquiana de Dohuk. Na Turquia, Erdogan nunca chegou a concretizar as esperanças dos curdos num acordo que reconhecesse os seus direitos
© workers.org

“Não é só Erdogan e Öcalan que apoiam este processo”, destaca Baydar. “Também o presidente, Abdullah Gül, deu a sua bênção, assim como o BDP [Partido da Democracia e Paz, próximo do PKK]; o líder dos curdos do Iraque, Massoud Barzani, o principal grupo da oposição [o Partido Republicano do Povo, CHP] e – mais importante – Fethullah Gülen, inspirador de um influente movimento da sociedade civil [e mentor do chefe do Governo], que reconheceu ser necessário avançar a qualquer preço.”

O que é preciso determinar, observa Yavuz Baydar, “é o grau de confiança que se irá estabelecer entre Erdogan e Öcalan, de modo a que a futura Constituição possa garantir os direitos que os curdos há muito exigem como o reconhecimento da sua língua e maior autonomia política.”

“O que se assiste agora é a uma ‘fase pré-negocial que deverá decorrer até Junho'”, precisa. “Um plano de paz contemplará a libertação de activistas actualmente na prisão, um cessar-fogo e a retirada das tropas turcas das áreas curdas até ao Verão.

Se nada de grave ocorrer, poder-se-á falar numa amnistia geral e na transferência de alguns comandantes da guerrilha de Kandil para o exílio em países europeus. Quanto ao líder do PKK, uma eventual libertação não é de prever antes de cinco a dez anos.”

Num artigo de opinião que o International Herald Tribune publicou, Aliza Marcus, uma das maiores especialistas em questões curdas, deu três conselhos ao primeiro-ministro turco.

“Primeiro, Erdogan tem de, inequivocamente, comprometer-se com um processo negociado que inclua compromissos de ambas as partes. Embora a integridade territorial da Turquia não possa ser discutida, tudo o resto deve ser.”

Por exemplo, “em vez de menorizar as reivindicações culturais dos curdos, Erdogan deve demonstrar boa-fé ao encorajar reformas legais e constitucionais que eliminem cláusulas como as restrições ao uso da língua curda  nas escolas, a criminalização da crítica ao Estado turco e a definição da cidadania através do prisma da identidade turca.”

Em segundo lugar, a autora de Blood and Belief: The PKK and the Kurdish Fight for Independence aconselha Erdogan a “entender que não é possível exigir o desarmamento da guerrilha na fase inicial” do processo, embora “possa e deva exigir um acordo de cessar-fogo”. Para forçar o PKK a silenciar as suas armas, nota, o Exército turco “teria também de suspender as suas operações militares contra os rebeldes”.

O terceiro conselho de Aliza Marcus é o de que a Turquia “não deve limitar-se a negociar com uma personalidade autoritária que está na prisão, mas também com o BDP”, porque este partido, ao contrário da organização separatista, “tem reconhecimento legal e legitimidade entre os curdos, devido aos seus laços com o PKK, e porque os seus membros partilham os objectivos de autonomia e reconhecem Öcalan como líder dos curdos.”

Na luta pelos direitos dos curdos, um novo líder – Selahattin Demirtas – parece agora mais influente do que Öcalan. Dirigente do HDP, um partido que defende as minorias na Turquia. Em Março e Junho de 2019, Demirtas apoiou o candidato da oposição à presidência da Câmara de Istambul (o chefe do PKK aconselhara “neutralidade), desferindo um duro e humilhante golpe a Recep Tayyip Erdogan, que em em 2016 o mandou prender sob a acusação de “terrorismo”
© Ozan Kose | AFP | rudaw.net

Tudo isto, acentuou a analista turca, faz do BDP “um parceiro negocial”, capaz de ser um mediador com o PKK e de ajudar a elaborar um pacote de reformas democráticas no Parlamento.”

Yavuz Baydar concorda com a amiga Aliza Marcus, excepto num ponto com o qual está em “discordância total”: o de que Ancara deve procurar outros parceiros que não apenas o líder do PKK.

“Os responsáveis dos serviços secretos turcos mantêm contactos com Öcalan há anos”, diz. “Ele tem sido autorizado a ler jornais (em clips) e demonstra uma extraordinária capacidade de se manter actualizado, a julgar pelas análises que faz (um livro do jornalista Cengiz Kapmaz mostra, em pormenor, como Öcalan já tinha previsto, em 2005, as sublevações árabes [iniciadas em 2011]).”

Baydar, que mediu “a força” do líder do PKK quando este deu ordem para prisioneiros curdos acabarem com 68 dias de greve de fome em solidariedade para com o único recluso na fortaleza de Imrali, realça ainda que “uma maioria de curdos na região continua a ver Öcalan como ‘o negociador’”.

Em todo o caso, conclui, “todos sabem que, em fases posteriores, o BDP, a diáspora curda na Europa e o ‘comando’ [militar] terão de ser incluídos num processo multifacetado, que terá o Parlamento como plataforma.”

Yavuz Baydar

Este artigo, agora revisto e actualizado,  foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 21 de Janeiro de 2013 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 21, 2013