O “príncipe” bonito, rico e famoso do “Beautiful Israel”

Ao obter 19 lugares no Parlamento, o partido Yesh Atid ganhou poder para decidir a composição do futuro Governo. Há quem admita que o seu líder, Yair Lapid, pode até vir a ser primeiro-ministro. (Ler mais | Read more…)

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Como anfitrião do talk show televisivo mais visto no país, Yair Lapid era o Jay Leno dos israelitas; o tipo que atraía os yuppies da cosmopolita Telavive, porque cantava em bares e frequentava festas do jet-set, como as do seu amigo banqueiro, Shari Arison. Poderiam até troçar dele, mas era muito popular
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Asher Schechter não ficou surpreendido com os 19 deputados que o partido Yesh Atid elegeu e que fizeram do seu líder, Yair Lapid, o fiel da balança do próximo Governo de Benjamin Netanyahu.

“Muitos troçavam da sua marca registada, camisa preta e cabelo alisado com mousse, da pose cool ou de durão, das gaffes na campanha ou de não ter concluído o liceu. Mas ele sempre se viu a si próprio como uma estrela”, observou o autor de Rothschild: The Story of a Protest Movement, onde narra a história do recente movimento de protesto social em Israel.

“Os que desdenhavam”, diz-nos Schechter, por telefone, a partir de Telavive, “desvalorizaram o potencial de Lapid que, daqui a dois anos, se não cometer erros, poderá vir a ser primeiro-ministro, porque há muito que se preparava para este momento”.

É preciso não esquecer, adianta o redactor do site de negócios The Marker-Ha’aretz, que, “como anfitrião do talk show televisivo mais visto, ele é o nosso Jay Leno; é o tipo que atrai os yuppies da cosmopolita Telavive, porque canta em bares e frequenta festas do jet-set, como as do seu amigo banqueiro, Shari Arison. Não diria que é respeitado, mas que é muito popular”.

Lapid conseguiu captar o imaginário de uma faixa da população, explica Schechter. “Ele cativou os eleitores brancos, da classe média-alta e askhenazi[ judeus de origem europeia], fascinados com um mundo glamoroso, e aqueles para quem o país, “refém de colonos e ultra-ortodoxos mizrahim” [com raízes no Médio Oriente e Norte de África], tem de mudar de direcção – seja ela qual for. Ele simboliza o Beautiful Israel (HaYisraeli HaYafe).”

O que Lapid não é, assegura Schechter, é o representante das centenas de milhares de pessoas que, na Primavera-Verão de 2011, encheram as ruas das principais cidades, de Jerusalém a Haifa, em protesto contra a estagnação dos salários e a subida de preços. “Ele apenas beneficiou do descontentamento da classe média-baixa, a que não pertence – é rico -, aproveitando-se do vazio deixado por outros partidos centristas, para atrair votos com palavras de ordem como “Vamos devolver o dinheiro que nos roubaram”.”

Com um aparelho partidário bem oleado no terreno, Lapid foi-se apropriando das causas populares, como a reforma do serviço militar, sob a bandeira de "Partilhar o Fardo", para que os Haredim (ultra-ortodoxos) não se confinem ao estudo nos yeshivot (seminários) e sirvam também nas Forças de Defesa © Miriam Alster  | FLASH90 | Times of Israel

Com um aparelho partidário bem oleado no terreno, Lapid foi-se apropriando das causas populares, como a reforma do serviço militar, sob a bandeira de “Partilhar o Fardo”, para que os haredim (ultra-ortodoxos) não se confinem ao estudo nos yeshivot (seminários) e sirvam também nas Forças de Defesa
© Miriam Alster | FLASH90 | Times of Israel

O discurso de Lapid é vago? Sim, reconhece Schechter. “Mas é isso que quer o centro. E ele é, verdadeiramente, mainstream.  O segredo do sucesso de um político em Israel é dizer tudo e nada, para ganhar simpatia. Vou mudar! O quê e com quem? As respostas à promessa não interessam. Por isso é que a ideologia está ausente da lista do Yesh Atid [“Há Um Futuro”, em hebraico].”

Com um aparelho partidário bem oleado no terreno, Lapid foi-se apropriando das causas populares, como a reforma do serviço militar, sob a bandeira de “Partilhar o Fardo”, para que os haredim (ultra-ortodoxos) não se confinem ao estudo nas yeshivot (seminários) e passem a servir nas Forças de Defesa. Mas até neste ponto foi cauteloso, ao convidar para seu “número dois” o Rabi Shai Piron, figura moderada, que servirá de ponte com os religiosos.

No que Schechter descreve como um “anúncio da United Colours of Benetton”, a lista do Yesh Atid inclui ainda Yaakov Peri, um antigo director do Shin Bet (serviço de segurança interna), um ex-líder do Meretz (esquerda sionista), Yael German, dois judeus etíopes (geralmente marginalizados) e duas mulheres.

No âmbito de uma estratégia deliberada de “agradar a todos”, Lapid atraiu os indecisos; os que, no dia das eleições, como escreveu Michael Koplow, no blogue Open Zion do site The Daily Beast, tendem a escolher “os pragmáticos e não os dogmáticos”.

O novo “rei de Israel” corresponde ao cidadão “típico”: garantiu que quer revitalizar o “processo de paz” com os palestinianos, mas lançou a sua campanha em Ariel, um dos maiores colonatos da Cisjordânia ocupada.

Declarou-se determinado a pôr fim à isenção dos religiosos à tropa mas insiste em que “a religião tem de ser respeitada”. Criticou os que “estão a destruir a classe média” mas proclama “o capitalismo como única via de prosperidade”.

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Com o pai, Tommy Lapid, sobrevivente do Holocausto, líder do Shinui, membro de vários governos e sempre em colisão com os ultra-ortodoxos. Em 2002, no Canal 2, onde tinha programa de entrevistas, Yair fez a Tommy a pergunta com que sempre terminava as conversas: “O que é Israel para si?” ele respondeu-lhe: “Tu”
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Para Asher Schechter, há muito que Yair se prepara para o lugar que era ambicionado pelo pai, o defunto Josef  Tommy Lapid, sobrevivente do Holocausto, que fugiu do gueto de Budapeste para Israel, em 1948.

Um astro do jornalismo e um dos mais poderosos políticos no Parlamento, Tommy juntou-se em 1999 ao partido Shinui, e aplicou à risca um programa secular. Fez parte de vários governos, mas sempre em colisão com os religiosos.

Tal como o pai, “que o criou como “um príncipe””, Yair começou a carreira como repórter na imprensa escrita. Primeiro, no semanário do exército, Bamahane, depois nos diários Ma’ariv e Yediot Ahronot.

Nas suas colunas semanais, favorecia temas como “o boxe [foi pugilista amador], a guerra entre sexos e o Scotch“. Publicou também artigos em revistas literárias, apesar dos estudos secundários incompletos. Autor de 11 livros (um deles a “autobiografia” do pai, Memoirs after my Death), tentou obter um doutoramento, evocando “larga experiência”, mas a universidade rejeitou a candidatura após vários protestos, segundo Schechter.

Em 1994, Yair foi também actor “numa comédia romântica, tipo Bridget Jones, em que desempenhava o papel de um tipo solteiro, charmoso mas detestável”.

No ano seguinte, instalou-se na TV (no Canal 1, público, e numa estação por cabo) e tornou-se imediatamente num ídolo. Em 2002, consolidou o estrelato no Canal 2, com um programa de entrevistas com o seu nome.

Transmitido em horário nobre às sextas-feiras – “quando os ultra-ortodoxos estão a rezar” – Yair terminava as conversas com esta pergunta: “O que é Israel para si?” O Financial Times recorda que um dos convidados de Yair foi Tommy, e quando o filho assim o inquiriu, o pai respondeu: “Tu.”

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Numa das suas casas, Yair Lapid guarda lembranças, uma delas (na parede à direita) uma fotografia dos tempos em que foi pugilista amador
© The New York Times

Ao contrário de Schechter, um dos editores da revista online +972Mag (secular e de esquerda), Noam Scheizaf, admite, numa entrevista que nos deu, por Facebook, que foi uma surpresa o segundo lugar de Yesh Atid.

“Esperava-se que um dos partidos centristas tivesse bons resultados, mas não imaginava que Lapid conseguisse 19 lugares. Roubou votos à direita e mudou o equilíbrio de poder. Foi reconhecido como não pertencendo ao sistema, e isso ajudou-o numa era em que os eleitores preferem a frescura à experiência.”

Scheizaf também associa Lapid aos protestos de 2011, ao dizer que ele se mostrou “sensível à voz da classe média, traída pelos seus políticos – o Kadima, que era o maior partido no Knesset, foi o mais castigado por não ter desafiado Netanyahu: caiu de 28 para dois deputados, algo que nunca antes se vira”.

Opinião semelhante é a de Mark A. Heller, investigador no Instituto para os Estudos da Segurança Nacional da Universidade de Telavive.

“O partido de Lapid é, seguramente, uma ramificação do movimento de protesto de 2011, por isso atraiu tantas pessoas seculares, jovens e de classe média, que consideram injusta a distribuição dos benefícios e dos encargos da sociedade”, disse-nos, num comentário por e-mail. “Este descontentamento explica o seu sucesso, mas também contou o facto de [Yair] ser o filho telegénico de Tommy.”

Sobre a influência que Lapid poderá ter sobre Netanyahu, em termos de política externa, caso venha a ser ministro dos Negócios Estrangeiros, Mark A. Heller diz que, para já, apenas o consegue classificar de “moderado”.

Scheizaf não tem a certeza se Lapid conseguirá impor-se ao “político mais experiente de Israel” ou se vai ser cilindrado pela “máquina de Netanyahu”. Este “não foi abatido, mas está ferido, o que poderá reflectir-se na sua acção a vários níveis: por exemplo, um ataque ao Irão parece menos provável”.

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Asher Schechter tem mais fé em Lapid. “Netanyahu está agora a mercê dos carismáticos Lapid e Naftali Bennett [da extrema-direita]. Temos de ver quais serão as jogadas de cada um. Se Lapid mantiver a imagem intacta, daqui a dois anos poderá vir a ser primeiro-ministro, como é seu desejo. Bibi não irá completar este seu mandato – é uma certeza.”

Quanto a Netanyahu, é também essa a previsão de Aziz Abu Sarah. “Não dura mais que dois-três anos; estava errado e está acabado”, disse-nos, por telefone, o professor de Resolução de Conflitos na Universidade de George Mason, em Washington. Nas últimas eleições, Aziz teve “a experiência magnífica” de escolher um partido através de um amigo judeu que votou por ele.

“Como palestiniano em Jerusalém Oriental [sector anexado em 1967] só temos direito de residência e não de cidadania. Não somos tratados como cidadãos deste Estado único de facto. Embora paguemos os mesmos impostos que os judeus israelitas, não temos representação. Somos vistos como uma ameaça demográfica.”

Para o activista Aziz, Lapid não lhe oferece garantias. “Não espero grandes mudanças. A maioria dos israelitas sente-se confortável porque há vários anos que não são vítimas de violência, a partir da Cisjordânia [apenas da Faixa de Gaza].”

“Para eles, é como se a ocupação não existisse. É um engano. Um dia, serão confrontados com uma de duas opções: ou aceitam dois Estados, solução moribunda à medida que os colonatos se expandem, ou dão direitos de cidadania a mais de quatro milhões de palestinianos, para permitirem a coexistência. Não podem ter tudo!”

[Para surpresa da maioria dos israelitas, nas eleições de 2013, o Yesh Atid obteve 19 lugares no Parlamento, tornando-se no segundo partido com mais deputados no Knesset. A 15 de Março, Yair Lapid foi escolhido para ser ministro das Finanças. Netanyahu afastou-o do cargo em 2014, mas em 2016 há sondagens que voltam a dá-lo como favorito para suceder a “Bibi”.]

Netanyahu e Lapid, aliados após as eleições de 2013, mas de novo rivais depois que o lúder centrista foi afastado do governo no ano seguinte © Ronam Zvulun | EPA

Netanyahu e Lapid, aliados após as eleições de 2013, mas de novo rivais depois que o líder centrista foi afastado do governo no ano seguinte
© Ronam Zvulun | EPA

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 27 de Janeiro de 2013 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO on January 27, 2013

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