Neste rap palestiniano o crime não tem honra

No que eles chamam de “um gueto” em Lyd/Lod, a 15 quilómetros de Telavive, dois irmãos e um vizinho fundaram uma banda pioneira no Médio Oriente. O último álbum dos DAM contém uma defesa inédita das mulheres mortas em nome das tradições familiares. E na batida Mama, I fell in love with a Jew, o sexo 69 confunde-se com a guerra de 67. (Ler mais | Read more…)

Nancy Zaboun, 27 anos e três filhos, foi brutalmente esfaqueada até à morte, pelo marido, horas depois de ter instaurado um processo de divórcio no tribunal de Belém, na Cisjordânia. Hospitalizada repetidas vezes ao longo de uma década de casamento-espancamento, decidira libertar-se, mas a família do abusador vingou-se, fazendo dela mais uma vítima dos chamados “crimes de honra”.

Só em 2012, a Comissão Independente Palestiniana para os Direitos Humanos registou 12 casos. Por isso, os DAM, pioneiros do rap árabe na “Terra Santa”, incluíram no seu álbum mais recente uma canção de protesto sem precedentes.

“Antes de ser morta, ela não estava viva”. Começa assim, antes de entrar a voz harmoniosa da artista Amal Murkus, a letra de Law arjaa” bil zaman, ou If I could go back in time, na versão internacional, primeiro single de Nudbok Al Amar, ou Dabke on the Moon (dabke é uma dança folclórica).

É um projecto financiado pela United Nations Entity for Gender Equality and the Empowerment of Women: a história, cantada da sepultura ao berço, de uma jovem que o pai e o irmão matam “para restaurar a honradez da família”.

Tamer Nafar, um dos três fundadores dos DAM, descreve-a assim: “Fizemos uma declaração de apoio aos direitos das mulheres que reflecte também a vontade de forçar o debate sobre questões que têm sido tabu numa parte da nossa sociedade. “

“Escrevemos esta canção  há cerca de quatro anos – só em 2011 conseguimos fundos da UN Women. Foi muito duro, porque não é apenas fantasia, mas também realidade”, realça Tamer, numa entrevista a vários tempos, por telefone e Facebook. “Não é uma história verídica a que retratamos, mas baseia-se em vidas verdadeiras.”

“Muitas vezes não conhecemos a vítima mas sabemos quem a mata. Vivemos num meio pequeno e toda a gente, goste ou não do nosso trabalho, viu-se obrigada a falar sobre esta questão. Fomos criticados, num artigo, por estarmos a reforçar os estereótipos negativos dos árabes, mas escrevemos esta canção em árabe e na Palestina, enquanto os que nos reprovam vivem na América e escrevem em inglês”, diz-nos.

Os DAM vivem na cidade a que chamam Lyd, mas que retomou o nome bíblico de Lod após a criação de Israel, em 1948. Juntamente com Ramle/Ramla, das localidades mais afectadas pelo êxodo de milhares de palestinianos © DAM

Os três elementos dos DAM vivem na cidade a que chamam Lyd, mas que retomou o nome bíblico de Lod após a criação de Israel, em 1948. Juntamente com Ramle/Ramla, foi das localidades mais afectadas pelo êxodo de milhares de palestinianos
© DAM

As reacções, “de vários quadrantes”, têm sido positivas: “Este tipo de violência não é exclusivo dos muçulmanos. Também existe em lares de judeus e cristãos. Somos interpelados na rua e escrevem-nos cartas dizendo, “Já era tempo de retirar a honra da família dos ombros das mulheres”. Porque isto não é violência doméstica – é homicídio em primeiro grau.”

O vídeo de If I could go back in time segue a cadência da lírica, as primeiras estrofes a cargo de Suhell:

Vamos contar a sua história de trás para a frente, do assassínio ao nascimento/ O seu corpo ergue-se da tumba para a terra/ A bala voeja da testa e é engolida pela arma/ O eco do disparo é gritante e ela grita também/ Há lágrimas que lhe sobem da face para os olhos/ Por detrás de nuvens de fumo, surgem os rostos da família/ Sem vergonha, o irmão coloca a arma num bolso (…)/ Atiram-na para uma bagageira; ela não sabe onde está/ Mas sabe que três deixaram a casa, só dois regressarão (…)/ Lançam-na na cama com violência/ “Com que então, querias fugir, hum?” (…).”

O refrão é trovado por Amal Mukros, personificando a vítima: “Se eu pudesse voltar atrás no tempo/ Eu sorriria/ Apaixonar-me-ia/ Cantaria/ Se eu pudesse voltar atrás no tempo/ Eu desenharia/ Escreveria/ Cantaria.”

Mahmoud Jrere desfia o meio da história, até que Tamer a termina com o seu início: “É a primeira vez na vida que ela diz “Não!”/ A mãe anuncia alegremente “amanhã, irás casar-te com o teu primo” (…)/ O seu passado está cheio de sangue e lágrimas/ (…) As suas expressões carregadas de fúria como se alguém anunciasse um crime / “Parabéns, é uma rapariga”.”

É exactamente neste ponto que, durante a entrevista, Tamer se exalta: “Sim, o único crime dela foi ter nascido rapariga, e isso é aviltante. Não posso permitir que a honra seja medida pelo sexo! What is the fucking big deal with this? Não associem honra ao crime. É preciso dar liberdade, educação e empregos às mulheres.”

“Uma mulher casada mas com independência financeira não tem medo. A minha mulher tem um mestrado e é professora num liceu. Dividimos responsabilidades. O nosso filho, de três anos, vê-me a cozinhar, a lavar a louça e a limpar a casa. Aprende que estas tarefas não são exclusiva da sua mãe. À noite, lemos-lhe livros em que os heróis também são mulheres.”

Talvez por isso há outra canção dedicada às mulheres neste último álbum dos DAM, Ulilo Bin saffek, ou Tell him it”s your classmate, cuja mensagem, segundo Tamer, “tem o objectivo deliberado de provocar”.

Com a participação de outra cantora, Mouna Hawa, o conselho a uma rapariga é este: “Se estás a telefonar ao teu namorado e o teu pai pergunta quem é, diz-lhe que é uma colega da escola”. “Numa sociedade hipócrita”, argumenta Tamer, “não faz mal mentir – aliás, mentir é um direito.”

Ao contrário de outras bandas que defendem a “coexistência” (como a banda israelita de heavy metal Orphaned Land), os DAM não gostam daquela palavra. “São tretas! Primeiro tem de haver existência, e ainda não há”, exclama Tamer Nafar, um dos três músicos © DAM

Ao contrário de outras bandas que defendem a “coexistência” (como a banda israelita de heavy metal Orphaned Land), os DAM não gostam daquela palavra. “São tretas! Primeiro tem de haver existência, e ainda não há”, exclama Tamer Nafar, um dos três músicos (ao centro)
© DAM

Os DAM – acrónimo de Da Arabian MC’s, mas também palavra com um duplo significado: “eternidade” em árabe, “sangue” em hebraico – são uma criação de Tamer, 27 anos, do seu irmão mais novo, Suhel (23), e do vizinho Mahmoud Jreri (24), todos palestinianos de cidadania israelita.

Desde que se juntaram, em 1999, recusam a linguagem chauvinista que marca muitos rappers e distinguem-se por um “hip-hop político”, que se funde com pop, rock e reggae.

Vivem na cidade a que chamam Lyd, mas que retomou o nome bíblico de Lod após a criação de Israel. Caracterizado actualmente como “um dos maiores entrepostos de tráfico de droga e gangsters no Médio Oriente”, Lyd/Lod foi, juntamente com Ramle/Ramla, das localidades mais afectadas pelo êxodo palestiniano (50 mil a 70 mil habitantes tornaram-se refugiados) durante as operações militares para assegurar o controlo judaico sobre Telavive.

“Vivemos num gueto de bairros pobres, com um muro a separar-nos dos ricos kibbutzim [comunas que permanecem símbolos do socialismo sionista pós-independência]”, queixa-se Tamer.

“A violência nas famílias aumenta porque há uma ligação directa e indirecta a um ambiente de miséria e cerco. Quando um árabe em Israel é assassinado ninguém investiga, ninguém é preso; portanto é fácil premir o gatilho e disparar contra um árabe, porque a impunidade é certa.”

Tamet Nafer, parte do trio fundador dos DAM, é hoje um dos mais importantes músicos e activistas palestinianos em Israel. © Times of Israel

Tamer Nafer, do trio fundador dos DAM, é hoje um dos mais importantes músicos e activistas palestinianos em Israel
© Times of Israel

Ao contrário de outras bandas que defendem a “coexistência” (como os Orphaned Land, grupo de heavy metal), os DAM não gostam daquela palavra. “São tretas! Primeiro tem de haver existência, e ainda não há”, proclama Tamer. “Eles [judeus israelitas] têm tudo; nós não temos nada; precisamos de um país que nos trate como iguais.”

“Como palestinianos em Israel mantemo-nos como garantia da nossa cultura original; para o Governo e o Parlamento de Israel, somos um cancro, uma ameaça demográfica. Para os palestinianos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, somos irmãos; não creio que nos considerem traidores – temos a mesma luta, embora a vida deles tenha mais dor.”

E foi em homenagem a essa dor que os DAM lançaram primeiro, e incluíram depois neste seu último trabalho, o single Resale in zenzana ou  A Letter from a prison cell, dedicado a centenas de prisioneiros em greve de fome nas cadeias israelitas.

É a canção favorita de Tamer, “pela influência do género clássico árabe, graças à colaboração do Trio Joubran [três irmãos de Nazaré, cidade de judeus e árabes israelitas, como Lyd/Lod] e de Bachar Khalifé“, um dos filhos do libanês Marcel Khalifé, figura quase lendária pela forma como dedilha o alaúde, entretecendo os versos do poeta nacional palestiniano Mahmoud Darwish.

Quanto à canção, “divertida e optimista”, que dá título a este recente álbum, Dabke on the Moon, Tamer diz ser um tributo às revoluções da Primavera Árabe: “Entrámos numa nave espacial mas ela não descolava porque estava demasiado pesada; para chegar à lua e dançar tivemos de nos libertar dos nossos ditadores.”

A irreverência temerária dos DAM atrai admiradores árabes, como Rami Younis, palestiniano licenciado pela Universidade Hebarica em Jerusalém e quadro de uma empresa farmacêutica, mas também judeus, como Ophir Touboul.

Fundador e editor do site musical Cafe Gibraltar e crítico cultural, Touboul diz-me por email que, num recente concerto em Telavive, as centenas de pessoas que assistiam “entoavam de cor” Mama, I fell in love with a Jew – a única canção em inglês do último álbum.

Tamer descreve-a como “um sarcasmo da coexistência”: o encontro imaginário num elevador entre um árabe e uma judia. Ela prime o botão que sobe e ele o que desce (She was going up; I was going down); ela sonha ser piloto e explorar o céu, ele não quer ser revistado sempre que anda de avião (She wanna be a pilot, search the skyMy dream is not to be searched every time I fly); ela confunde uma posição sexual com a guerra em que Israel derrotou os árabes em seis dias “I said 69 she heard 67); ele quer um amor terno, mas, se ela prefere à bruta, ele sugere que, desta vez, mudem as regras e seja ela algemada (All I wanna make is sweet love/ But if you want tough love too, we gotta/ Change the rules, this time I handcuff you.)

“Gostamos de nos divertir e de fazer as pessoas rir”, afirma Tamer. Um dos DJ do duo israelita Laissez Passer, Ophir Touboul confirma essa capacidade de mobilização dos fãs.”No concerto de Telavive, nós [judeus] éramos uns 30%, estávamos em minoria – e todos troçaram de nós, o que teve a sua graça”, relata.

Segue a banda desde que, em 2001, inspirados pelo rapper norte-americano Tupac (morto a tiro em 1996), os DAM lançaram o seu primeiro single, Min Irhabi ou Quem é o terrorista?. “O que adoro na música deles é a combinação de sons hip-hop e do Médio Oriente e, naturalmente, os textos políticos [em árabe] – embora não consiga entendê-los na totalidade.”

Se If I could go back in time e Mama, I fell in love with a Jew se tornaram nas “faixas mais populares” do último álbum, a canção que mais cativa o judeu Ophir é Mali huriye ou I don”t have freedom, do álbum Ihda, ou Dedication (2006).

Não explica porquê, mas talvez a razão esteja na sua defesa de um “mundo sem fronteiras, de migração, urbanismo e multinacionalismo”. Atente-se na letra:

We’ve been like this more than 50 yearsLiving as prisoners behind the bars of paragraphsOf agreements that change nothingWe haven”t seen any light, and if we peek between the barsWe see a blue sky and white cloudsIn the center a star reminds me that I”m limitedBut no, I”m strong, staying optimisticYou won”t limit my hope by a wall of separationAnd if this barrier comes between me and my landI”ll still be connected to Palestine.

Mali huriye é também das canções que mais fascinam Rami Younis, embora no seu caso se perceba porquê, quando ele ataca a coexistência como “uma mentira, porque os palestinianos não vivem com dignidade entre os israelitas”.

Para este assumido “activista de Lyd”, que já perdeu a conta aos concertos da banda a que assistiu (sempre esgotados, atraindo muitos israelitas de esquerda e deixando em delírio as massas palestinianas, sobretudo em Ramallah, na Cisjordânia), o poder de atracção da banda está no facto de os DAM “não serem laudatórios”.

Eles “agridem o mundo de uma forma por vezes hardcore, para que a verdade seja dita”, defende, citando como “mensagem poderosa” o single Min Irhabe, que “fez história”.

Tamer Nafar explica a narrativa: “Fomos incentivados a mostrar que o mundo tem um olho aberto e outro fechado; em 2000, na segunda Intifada, ninguém se horrorizou com os 2000 palestinianos mortos por soldados israelitas, mas todos choraram as vidas de 20 israelitas perdidas na explosão de um suicida.”

Para exemplificar o impacto que Min Irhabe teve, Younis recorda: “Há dois anos, juntámos 50 miúdos cujas casas tinham sido demolidas pelas autoridades israelitas em Lyd, e começámos a manifestar-nos com eles todas as semanas. Num primeiro encontro que tivemos, tocámos Mawteni, o hino nacional palestiniano, e eles não o sabiam. Mas quando ouviram Min Irhabe todos eles, dos seis aos 14 anos, sabiam a letra de uma ponta a outra.”

Tal como aconteceu agora com If I could go back in time, que se propagou como um vírus assim que partilhado no YouTube, no Facebook, no Twitter e em outras redes sociais da Internet, Min Irhabe teve mais de um milhão de downloads em apenas um mês.

Transformou-se rapidamente num cântico de culto entoado nas manifestações pró-Palestina por todo o mundo e tem sido objecto de estudo em universidades nos Estados Unidos e na Europa.

Para o palestiniano Rami Younis, Dabke on the Moon “tem mais maturidade, vendo-se perfeitamente que as letras escritas por Mahmoud e Tamer estão a um nível mais elevado; eles já não precisam de as soletrar aos ouvintes, basta pintarem um retrato e os fãs imediatamente as entendem. É um disco mais sofisticado, mais rico e diversificado”.

O primeiro álbum “dirigia-se sobretudo a uma audiência israelita, porque era uma denúncia do racismo e da ocupação. Este segundo é mais corajoso, ao incutir a consciência de que precisamos primeiro de nos criticar a nós próprios e depois a ocupação.”

[Tamer Nafar é agora mais célebre e mais influente do que os DAM. O filme Junction 48, realizado por Udi Aloni e que, em 2016, ganhou prémios nos festivais de Berlin e Tribeca, é inspirado na história do músico de Lyd/Lod. É unânime o elogio a este poderoso manifesto contra o racismo que são vítimas os palestinianos de cidadania israelita.)

Este artigo, agora actualizado,  foi originalmente publicado no jornal PÚBLICO, em 1 de Março de 2013 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on March 1, 2013

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