James Kofi Annan: De servo a libertador de escravos

Este activista do Gana fugiu da servidão e hoje dirige uma organização não-governamental, a Challenging Heights, que já resgatou mais de 1200 crianças vítimas de traficantes. (Ler mais | Read more…)

James Kofi Annan, de escravo a líder da ONG Challenging Heights © survivorsofslavery.org/

James Kofi Annan fugiu da escravatura e depois de um percurso escolar brilhante fundou a ONG Challenging Heights
© survivorsofslavery.org

Até dia 26, está em marcha a primeira campanha global para abolir a escravatura infantil. End Child Slavery Week é uma iniciativa do indiano Kailash Satyarthi, que dividiu o Nobel da Paz 2014 com a paquistanesa Malala Yousafzai.

No Gana, onde foi escravo, o activista James Kofi Annan acredita que é possível “erradicar em breve” o cativeiro a que estão sujeitas cerca de 8,5 milhões de crianças.

“Nada é impossível a um espírito humano determinado”, sublinha o fundador da organização não governamental (ONG) Challenging Heights ou “Desafiar as Alturas”, numa entrevista, por e-mail. E a história de James que de comum com Kofi Annan, o antigo secretário-geral da ONU, tem apenas a origem, a Região Central do Gana, é a de um homem empenhado em transformar vidas.

Nascido na povoação de Winneba, James Annan é “o último – e o único que teve educação formal – dos 12 filhos de um casal de analfabetos”.

Tinha seis anos quando o pai, “a quem cabia a última palavra, segundo a tradição”, o enviou para uma aldeia piscatória “a nove horas de distância” da terra natal.

Não sei se fui o preço a pagar para saldar dívidas mas sei que outros familiares sofreram como eu”, afirma. “Muitos conseguiram libertar-se e entrar na escola; outros tornaram-se traficantes de escravos, depois de livres.”

James Annan (Kofi é nome próprio, não apelido), conta que saiu de casa descalço, viajando de carro com outros trabalhadores, crianças e adultos, até ao Lago Volta. Aqui trabalhava durante 13 horas por dia. Negavam-lhe alimentos, impediam-no de dormir e era espancado se ousasse queixar-se.

Lembra-se do primeiro dia como escravo, mas não dá pormenores, guardados para uma autobiografia. Ainda assim, adianta: “De início, éramos seis crianças. Posteriormente, este número aumentou. Tivemos vários patrões. Uns foram relativamente brandos. Outros agiam com crueldade extrema. Algumas meninas serviam, simultaneamente, como empregadas domésticas e ‘objectos sexuais’ dos rapazes mais velhos.”

Este inferno durou sete anos, até chegar o momento em que escapou ao “dono” e entrou num autocarro de volta a casa. Por que demorou tanto tempo? “Sempre quis fugir, mas era complicado”, explica. “Era necessária muita coragem e um planeamento adequado. Fugi sozinho.”

“Depois da fuga, enfrentei perseguição e rejeição. Não pedi protecção porque já tinha força suficiente para me defender, sem necessidade de armas. Esta força física foi desenvolvida graças à natureza do trabalho que eu fazia [arrastar as redes de peixe.]”

Lago Volta, onde James Kofi Anan foi escravo, e muitas crianças continuam a ser usadas para trabalhos forçados na pesca: muitos morrem afogados. @ Lisa Kristine | The Atlantic

Lago Volta, no Gana, onde James Kofi Anan foi escravo e muitas crianças continuam a ser usadas para trabalhos forçados na pesca: muitos morrem afogados
© Lisa Kristine | The Atlantic

Depois da libertação, começou um outro processo. “Entrei numa escola pela primeira vez aos 13 anos”, exulta. “No liceu, foi o melhor aluno. Na Universidade do Gana, em Accra, a capital, licenciou-se em Comunicação e completou um mestrado em Estudos de Media e Comunicação. Com estas qualificações foi contratado como gerente pelo Barclays Bank of Ghana.

Assim que consegui o primeiro emprego decidi, imediatamente, que iria usar o meu salário para criar a Challenging Heights”, refere. “Gastava pouco dinheiro em bens pessoais. Preferia investir grande parte das poupanças na ajuda a crianças, já com o intuito de formar uma associação de carácter social.”

“Não me recordo de quanto foi o ‘investimento’ inicial, mas sei que apadrinhei 29 crianças na fase inicial, pagando as despesas com livros e propinas, roupas e calçado, máquinas de costura, transportes públicos, distribuição de água, aluguer de salas de aula e outras infra-estruturas, contas médicas… tanta coisa.”

“Quando comecei, em 2003, a Challenging Heights era uma espécie de projecto recreativo”, continua James. “Queria que fosse apenas uma plataforma para mobilizar a comunidade e incentivar a acção cívica. No entanto, tornou-se num projecto demasiado grande para eu controlar sozinho. Registei-a como ONG em 2005.”

“Foi de grande ajuda ter recebido, no ano seguinte, o primeiro [de um total de sete] prémio internacional, o Barclays Group Chairman’s Award. O banco continuou a apoiar-me financeiramente mesmo depois de eu ter saído em 2007.”

A missão da Challenging Heights, segundo Annan, “é “garantir que nenhuma criança será explorada em trabalhos forçados e que todas elas terão direito a concluir pelo menos a educação básica”. Diz-se apoiado pela sua comunidade, embora nem todos o aceitem e “receba algumas ameaças de morte”. Com ele, inspirados pelas palestras que tem dado pelo mundo, colaboram também voluntários estrangeiros.

James está orgulhoso da obra feita: “A Challenging Heights abriu uma escola primária para mais de 700 crianças, muitas delas resgatadas do tráfico de escravos e outras em risco de serem escravizadas.”

“Dirigimos um centro de reabilitação para crianças que libertámos da servidão. O centro oferece assistência médica, nutrientes alimentares, literacia e apoio psicológico. Criámos uma biblioteca comunitária para as crianças mais pobres.”

“Abrimos um centro informático para jovens adultos à procura de emprego. Ajudámos mais de mil mulheres a trabalhar por conta própria graças ao microcrédito. Deste modo, elas podem cuidar dos filhos sem necessidade de os vender.”

Até agora, salvámos mais de 1200 crianças escravas, e estamos envolvidos em vários processos judiciais para que elas sejam indemnizadas”, exulta o fundador da Challenging Heights. Há várias crianças com histórias semelhantes à sua, admite, mas só as irá narrar na futura autobiografia.

Extracção de ouro - uma das indústrias do Gana que usam e abusam da escravatura infantil - em Accre, a capital. As águas usadas neste processo estão contaminadas com mercúrio @ Lisa Kristine | The Atlantic

Extracção de ouro – uma das indústrias do Gana que usam e abusam da escravatura infantil – em Accre, a capital. As águas usadas neste processo estão contaminadas com mercúrio
© Lisa Kristine | The Atlantic

A entrevista com James Annan coincidiu com a divulgação do Global Slavery Index 2014, da Walk Free Foundation (WFF), uma ONG com sede na Austrália. Segundo este relatório, a “escravatura moderna” afecta agora 35,8 milhões de adultos e crianças – uma subida de 20% em relação aos 29,8 milhões registados em 2013.

De um conjunto de 167 países, cinco representam 61% dos escravos, estando a Índia no topo da lista, com 14,29 milhões, seguindo-se a China, com 3,24 milhões; o Paquistão, com 2,06 milhões; a antiga república soviética do Uzbequistão, com 1,2 milhões; e a Rússia, com 1,05 milhões. Em termos de percentagem de população, o primeiro lugar é ocupado pela Mauritânia (4%).

Se a escravatura, incluindo a escravatura infantil, tem vindo a aumentar (de 5,5 milhões há 15 anos para 8,4 milhões em 2013), o trabalho infantil parece estar a diminuir (de 250 milhões para 168 milhões, no mesmo período), de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

James Annan tenta clarificar: “Nota-se um aumento da escravatura infantil porque há cada vez mais casos a serem denunciados, o que antes não se verificava, e os relatórios reflectem isso. Há também maior consciencialização e por isso há mais dados estatísticos. No entanto, convém sublinhar que o trabalho infantil continua a impregnar muitas culturas.”

“O trabalho infantil é aquele que afecta a educação, a saúde e o desenvolvimento geral das crianças”, enuncia Annan.

“Por exemplo, se uma criança trabalha e este trabalho a impede de frequentar a escola, isso é trabalho infantil; se o trabalho atrasa fisicamente o seu crescimento, isso é trabalho infantil. A escravatura infantil é quando uma criança é vendida ou oprimida no trabalho que faz contra a sua vontade, não tendo acesso à educação nem liberdade quanto ao que pode ou não pode fazer.”

O Gana “é um país de trânsito e destino para crianças e mulheres traficadas para trabalhos forçados ou exploração sexual comercial”.

A Challenging Heights calcula que “mais de 240 mil jovens são vítimas de trabalhos forçados, muitos deles com menos de 15 anos de idade”. Estima também que “mais de 6,3 milhões de menores nunca entraram numa sala de aulas.”

A pesca e as minas de ouro são indústrias do Gana que dependem (e abusam) da escravatura. A raiz deste problema, conclui James Kofi Annan, está “num desequilíbrio de recursos e no crescente fosso económico que separa as zonas rurais das urbanas.”

Agosto de 2014: o primeiro concerto e gala com o coro de um abrigo da Challenging Heights para antigos escravos e crianças em risco. O evento foi financiado pela Universidade de Yale e pela Fundação Michael Manzella @ Challenging Heights

Agosto de 2014: o primeiro concerto e gala com o coro de um dos abrigos da Challenging Heights, a ONG de James Kofi Annan, para antigos escravos e crianças em risco. O evento foi financiado pela Universidade de Yale e pela Fundação Michael Manzella
© Challenging Heights

Este artigo foi originalmente publicado no REDE ANGOLA em 25 de Novembro de 2014 | This article was originally posted on the news website REDE ANGOLA, on November 25, 2014 

The former slave who is setting free other captive children

James Kofi Annan grew up as a child fisherman in Ghana between the ages of six and 13. He was tortured and abused, fed once a day and denied access to medical care. When he finally escaped and returned home, he invested everything on his education. He graduated with a masters degree, and worked as a bank manager. His savings were used to found Challenging Heights, a NGO dedicated to the rescue of other slave children. (Read more….)

James Kofi Annan @ Free The Slaves blog

James Kofi Annan, the Challenging Height’s founder
© Free The Slaves blog

Are you a relative of former UN Secretary-General, Kofi Annan?

The correct spelling for my surname is Annan [meaning his name is James Kofi]. I don’t have any family connection with the former UN Secretary General Kofi Annan.

The only things we have in common are, we both come from Ghana, and we both originally come from the same Region, Central Region, in Ghana, and we both have similar native birth cultures.

You are the “last and the only educated out of 12 children of illiterate parents”, as stated on your organization’s website. Was it a decision of your father or mother to send you to work in a fishing village “nine hours away” from your home?

It was my father’s decision. Culturally fathers make the final decisions in my hometown.

Were you the “price” to pay for family debts?

I’m not sure if I was a price for a debt as I was too young to know what might have happened.

Were other relatives and friends pushed into this inhumane condition?

There were several of other distance relatives who also suffered similar situations. Majority of them go free but could not go to school. Others became free but became traffickers themselves.

How did you travel all the way to the workplace? Were you alone?

I travelled by car, together with other children and adults workers. I was barefooted by I don’t remember what I wore.

All your basic needs (from food to sleep) were denied. The memories of your past are painful, but would you please describe your first day of work, a six-years old slave child?

This aspect of my story is saved for my yet to be written book.

How many children were there with you?

We were initially six children, but later we became more. I had several bosses, some were relatively good, others were extremely cruel. There were several girls who served as both domestics, and sex materials for the older boys.

James Kofi Annan of Challenging Heights in Ghana, West Africa, talks to students at Manchester Junior-Senior High School @ Shaun Tilghman

James Kofi Annan talks to students at Manchester Junior-Senior High School
© Shaun Tilghman | Hove Foundation

Seven years in this hell… why did it take you so long to run away? 

Running away is complex, and even though always wanted to run away, I required a lot of courage and proper planning. Eventually I escaped alone. I did not face death threats, but I faced persecution and rejection.

I did not actively look for protection. I defended myself everyday. I was strong enough to defend myself, at least to protect myself from being armed. I had developed a lot of strength because of the nature of the work.

You’ve managed to enter primary school, excelling as top of the class at high school and graduating from college. Would you explain this process?

I entered school then at the age of 13. I graduated from the University of Ghana. After Junior High School, I entered Senior High School. After Senior High School I entered the University of Ghana for my Bachelors Degree.

Later I entered the University of Education for my Masters Degree. I read Psychology degree for my Bachelors, and read Communication and Media Studies for my Masters degree.

South African Archbishop Desmond Tutu and honoree James Kofi Annan attend the 2008 Freedom Awards at USC’s Bovard Auditorium on September 15, 2008 in Los Angeles, California, US
© Amy Graves | Getty Images for Freedom Awards

When and why did you decide to use your savings to create Challenging Heights?

I decided right from when I gained employment that I was going to use majority of my salaries for Challenging Heights. I therefore spent less money on myself, and spent more money helping the children, and using some for the organization of grass root action.

When I started Challenging Heights, it was for fun. It was my hobby. I just wanted to help, and I did not want it to become an NGO. It was only a platform for community mobilization and awareness for action.

With time, it became bigger and bigger, reaching several children in several communities organically. It became too big for me to manage alone, and that is why I registered it.

How much money did invest?

I don’t remember exactly how much, but I know that I had to sponsor 29 children at the initial stage, pay for books and fees, shoes and dresses and sewing machines, pay for transportation for community mobilization, water, drinks, venues, classroom and meeting structures, paid for publicity materials, medical bills, and many others, all from my own salaries.

Have you got the bank’s assistance?

The first international award I received was from the bank, Barclays Group Chairman’s award in 2006. Later the bank assisted me with financial support both when I was still working, and after I left the bank. [He gained at least seven awards, among them the World Children’s Prize 2013.]

What’s your NGO mission and how difficult is to run it?

The mission of Challenging Heights is to ensure that every child is free from exploitative labor, and that every child completes at least a basic education.

I receive cooperation from the community, although a few people issue death threats to me. I receive funding from both local and overseas sources, and I have some overseas volunteers as well.

The Crown Princess of Sweden presents the World’s Children’s Prize for the Rights of the Child to James Kofi Annan from Ghana (in 2013). To the left is one of the boys saved from slavery by James
© Jonas Ekströmer | TT

Tell us about your projects…

Challenging Heights has established a school, which is a regular basic school with over 700 children both from the community and also from we have rescued from trafficking. Challenging Heights also runs a rehabilitation center for children we have rescued from slavery.

This center ensures that children we have rescued receives interim care, including medical care, counseling, nutritional repairs, basic literacy, and psychosocial support. We have also established a community library for children coming from disadvantage communities.

We have set up a computer center for young adults to gain employment. We have supported over 1,000 women to gain self-employment through micro-enterprises in order that they will earn income in order that they will be able to take care of their own children, and they will not sell them.

We have so far rescued over 1,200 children from slavery, and help with several prosecutions and advocacy. We need additional classrooms for the children we support. We need a cold room storage facility to store fish for our women beneficiaries. We need a bus to convey our children to and from locations.

Of all the children that you’ve saved, whose story is similar to yours?

There are several of them with similar stories to mine. Those are saved for my book.

What’s the main difference between “child labor” and “child slavery”? 

Child labor involves work that affects the child’s education, health, and general growth and development. For instance, if the child is working, and the work prevents him from going to school, that is child labor. If the work is physically retarding his growth, that is child labor.

Child slavery is where the child is either sold or oppressed to work again his will, and does not have a choice as to what he could do or could not do.

Child slavery is seen to be increasing because it is gaining more reports. More stories are being reported now than ever, and there is greater awareness at the moment so figures are being reported. But child labor is an old known phenomena that is imbued in many known cultures.

Fishing and gold mines are industries in Ghana using children slaves. Are there other national economic sectors doing the same?

The other forms of child slavery are the domestic servitude. This is due to the widening rural-urban economic gap, and the resource imbalance.

Is it possible to eradicate slavery or at least child slavery, at short term?

It is possible to eradicate child slavery soon if we are determined. There is nothing the human spirit cannot do if it is spiced with determination.

[In 2018, James Kofi Annan, founder and President of Challenging Heights, has been appointed a Global Financial Sector Commissioner on Modern Slavery. The Global Financial Sector Commission on Modern Slavery and Human Trafficking was established by the Foreign Minister of Liechtenstein and Muhammad Yunu, the founder of the Grameen Bank and a Nobel Prize Laureate, with the support of the United Nations University in New York.]

Parts of this email interview, now edited for clarification and updated, were included in an article posted on the news website REDE ANGOLA,  November 25, 2014

Hidden Girl: Autobiography of a survivor

Shyima Hall was eight-years old when her parents in Egypt sold her into forced bondage to repay an alleged debt. For the next four years she was exploited by a violent wealthy couple and only gained her freedom in 2002, after they moved to the US. Now 24, an American citizen living in California, she has published the autobiography Hidden Girl, to share her life story and raise awareness to the plight of millions of children trafficked around the world. (Read more…)

Shyima Hall with her memoir Hidden Girl, which discloses her experience as a child slave in Egypt and in the US
© Ana Venegas | The Orange County Register

My life drastically changed course the day my parents sold me into slavery. I was eight years old. For those who have not read your book, Hidden Girl, tell us how and why did that happen?

My sister [Shyima Hall is the seventh of 11 eleven children] had stolen money from her slave captors and my parents needed to settle her debt, so I was sold into slavery. My parents also needed money and I guess the few dollars they got for me was worth it to them.

You were a child slave taking care of the five children of a rich couple…

…I was a domestic slave and did housework, so I did everything from taking care of the children, getting them ready for school, washing dishes, vacuuming, dusting, cleaning toilets, and anything else that needed to be done.

I worked sixteen or more hours every day and had no relationship with the parents or the children in the house, other than I was their slave.

I did what they told me to do and was never paid one dime, although my parents got a little money for me each month. When it came to eating, I could only eat one meal a day. It was in the evening after the family was through with their dinner. I ate their leftovers.

Even though I ate as much as I could then, I was always hungry a few hours later. Because I worked sixteen or more hours a day, I only slept a few hours a night. I was also slapped hard and regularly. When I was rescued it was discovered that I had a broken arm, although I have no memory of how that happened.

Would you still be a slave if the couple had not moved from Egypt to the United States?
Yes, I am sure I would be. The contract my parents had with The Mom and The Dad was for a certain period of time. I think it was ten years, but I have a feeling The Mom and The Dad would have found ways to extend the time period.

Did you ever get to know who, by informing the authorities, saved you from your torment?
I never did find out for sure who reported me, but I believe it was a neighbour who often saw me washing dishes late at night through the kitchen window.

The culprit couple, Abdel Nasser Eid Youssef Ibrahim and Amal Ahmed Ewis-abd Motelib, went to trial and served jail sentences. Was justice done, or were you expecting a more severe condemnation?

I feel that justice was done. My captors went to jail and a lot of people now know about what they did. I had expected more jail time for them, but I was happy with their sentences and with the awareness that their trial brought.

The former slave being interviewed by PBS. Here is the video.

Shyima Hall being interviewed by PBS. Here is the video

What happened to your captors after being released? Have they threatened you since then?

After, The Mom and The Dad [how she calls their captors] divorced and she went back to Egypt. He is still here in the United States and has remarried. Neither has threatened me and I am not afraid that they will. There is no reason for them to bother me.

I am no longer the uneducated little girl I once was. I can stand up for myself now and have good friends who love and support me.

Your biological family never supported you – how do you explain the rejection? Have you forgiven them ?

I have no idea what my biological parents were thinking when they gave me up and I struggled with that for so long. How do you give up a child into slavery? I am still torn apart when I think about it too much. Sometimes I can forgive them, but at other times I am still very angry. After my rescue I spoke with family members every few years, but I have not spoken to any of them since 2009.

Do you contemplate going back to Egypt one day?

Yes, I want to go back to Egypt some day and visit my brothers and sisters. We lead such different lives now that I am not sure we have anything left in common, but someday I would like to see them.

You are a mother now. At what extent do your painful childhood experiences affect the education of your daughter?

I know that my experience as a slave makes me a stronger mother. I can never, ever imagine selling my daughter into slavery! Because I did not have any good moms for role models, rather than do what The Mom or some of my foster moms did, I do the opposite. Rather than be mean and hateful, I love and encourage. A lot is instinctive.

I just love my daughter. I want her to grow up to be a strong, independent woman, one who can make good choices for herself. I want her to have it all.

Shyima Hall, 19, describes her experience as a slave to a family in Irvine as she stands in front of photos of the young girls she cared for, September 13, 2009. ©Ana Venegas | The Orange County Register

Shyima Hall describes her experience as a slave to a family in Irvine as she stands in front of photos of the young girls she cared for, September 13, 2009
© Ana Venegas | The Orange County Register

Why did you wait one decade after being freed to write Hidden Girl, and what do you intend to achieve with this book?

I spent the first ten years after I was rescued getting an education, learning English, and learning social skills and other important lessons I would need in life. I had missed so much of that in the childhood that had been taken from me.

Also, the case against my captors did not finish until 2007 and I could not write about them until they had been tried. Plus, I wanted the book to have a happy ending.

The first ten years after being rescued I was still recovering from slavery. I wasn’t mentally strong enough to say what needed to be said in a book. But, I have since become an American citizen and live a very happy life.

Now that the book is out, I hope everyone becomes more aware of human trafficking. I hope people keep their eyes open and contact an authority if they suspect someone is being held against his or her will. So many people are shocked that this is still going on and I am here to tell you that it goes on a lot!

Are you already preparing yourself to fulfil the dream of being a “police officer or an immigration agent”? How can these jobs make a difference?

Yes, now that my daughter is two, I am currently looking into different departments and exploring my options. I know I can make a big difference in helping victims. Because I once was a victim, I understand their perspective. I know what they are going through, how they think, what they need to feel safe. Not many in law enforcement have that kind of experience.

You found a new home in America. Are you happy?

Yes. I am very, very happy, and am living a good life here in America.

Shyima Hall, the former slave, is now an American citizen, living in California with her boyfriend and 2-years old daughter
@ Irfan Karv | Los Angeles Times

Parts of this interview, edited for clarification, were included in an article about the global campaign “End Child Slavery Week”  published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on November 22 , 2014

Kailash Satyarthi quer usar o Nobel da Paz para abolir a escravatura infantil

A “semana contra a escravatura infantil”, de 20 a 26 de Novembro [de 2014], é uma campanha global sem precedentes lançada pelo indiano que diz ter resgatado “muito mais de 80 mil crianças” do trabalho forçado e servidão. Ouvimos o seu testemunho e o de Shyima Hall, uma egípcia que, aos 8 anos, foi vendida pelos pais para pagarem uma dívida. (Ler mais | Read more…)

Kailash Satyarthi, o indiano que partilhou a paquistanesa Malala Yousafzai o Nobel da Paz 2014 © gazetadebistrita.ro/

Kailash Satyarthi, o activista indiano que partilhou com a jovem paquistanesa Malala Yousafzai o Prémio Nobel da Paz de 2014
© gazetadebistrita.ro

Ela trabalhava “mais de 16 horas por dia”, fazendo de tudo, desde cuidar dos cinco filhos do casal que a comprou a limpar uma casa de cinco andares num condomínio fechado.

Só tinha autorização para comer “os restos do jantar” e dormitar no pavimento de uma garagem sem ventilação.

Ela é Shyima Hall, antiga escrava egípcia cuja história se assemelha à de milhares de crianças que o indiano Kailash Satyarthi ajudou a libertar, numa missão que lhe valeu o Nobel da Paz 2014, partilhado com a paquistanesa Malala Yousafzai.

Hall, que acaba de lançar a autobiografia Hidden Girl, quer colocar a sua “experiência de vítima” ao serviço de uma agência de polícia ou de imigração nos EUA, onde agora reside como cidadã americana.

Satyarthi aproveitou o Nobel para dar maior visibilidade à sua mais recente iniciativa, End Child Slavery Week, que decorre de 20 a 26 de Novembro [de 2014].

“Queremos convencer a ONU a incluir nos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável a abolição da escravatura infantil”, diz-me, numa entrevista por telefone, o líder da Marcha Global contra o Trabalho Infantil.

“Há 15-25 anos, o número de crianças a fazer trabalho infantil era de 250 milhões e agora desceu para 168 milhões”, afirma o engenheiro que, em 1980, fundou o Bachpan Bachao Andolan (BBA, Movimento para Salvar a Infância).

“No que diz respeito a crianças escravas, o número era de 5,5 milhões, há 15 anos, mas segundo a Organização Internacional do Trabalho já subiu, em 2013, para 8,4 milhões. Isto é muito grave!”

“Estas crianças precisam de atenção especial e de ser libertadas imediatamente – é uma emergência”, frisa o Nobel. ”Não pode haver compromissos. Em qualquer país civilizado, a escravatura infantil é o crime mais hediondo. Por isso, lançámos esta campanha para que a abolição seja um objectivo prioritário da ONU.”

© Nehru Centre Library

© Nehru Centre Library

O aumento da escravatura, de adultos e crianças, foi constatado pela Walk Free Foundation (WFF), com sede na Austrália, que no recém-divulgado The Global Slavery Index 2014, calcula em 35,8 milhões o número de escravos em 167 países – a Índia de Satyarthi no topo da lista (14,29 milhões). Isto representa um aumento de 20% em relação aos 29,8 milhões registados em 2013.

“A escravatura é muito pior do que o trabalho infantil”, sublinha Satyarthi que, durante a conversa telefónica, repete o quanto o seu activismo foi influenciado ao ver, no primeiro dia de aulas, um menino da sua idade, 5-6 anos, a engraxar sapatos na escadaria da escola.

“Fiquei chocado: eu ia aprender ideias novas e ele estava ali, a trabalhar. Contei isto ao professor e ele não se comoveu: ‘É gente pobre. Nada de novo.’ Senti-me desconfortável, e até furioso.”

“Fui falar com o pai da criança, que parecia também conformado. Mas eu não. Perguntei-me: ‘Por que é que algumas pessoas têm direito à educação e outros têm de desistir dos seus sonhos?’ Esta foi a primeira inspiração para a organização que dirijo.”

“Como escravas, as crianças não têm um mínimo de liberdade”, adianta Satyarthi. “Muitas são órfãs ou as suas famílias são escravas. Sozinhas, facilmente são apanhadas por traficantes que as usam, por exemplo, em redes de prostituição ou as recrutam como soldados em conflitos armados.”

“Não é apenas ‘a vergonha escondida’ da Índia, mas de toda a Humanidade. Este problema existe noutros países na Ásia, na África Subsariana e até na América, em particular na costa ocidental.”

Entrada ilegal nos EUA foi o que aconteceu a Shyima Hall. Tinha 10 anos, em 2000, quando os seus “donos” a levaram para Irvine, na Califórnia.

Ainda que explorada durante mais dois anos e meio, a mudança foi a sua salvação. “Tenho a certeza de que no Egipto continuaria a ser escrava”, afirma, numa entrevista, por e-mail. “O meu ‘contrato’ era por dez anos, mas pressinto que iria ser perpétuo.”

Shyima Hall, antiga escrava egípcia, conta os horrores do seu cativeiro na autobiografia Hidden Girl @ Simon and Schuster

Shyima Hall, antiga escrava egípcia, conta os horrores do cativeiro na autobiografia Hidden Girl
© Simon and Schuster

Como e por que motivo é que a menina que antes usava o apelido de El-Sayed Hassan, a sétima de uma família de 11 filhos, se tornou escrava? “Uma das minhas irmãs foi acusada de ter roubado dinheiro aos patrões e os meus pais tinham de saldar a dívida, por isso venderam-me”, conta.

“Também precisavam de dinheiro, e suponho que seria suficiente o que recebiam por mês [cerca de 100 libras egípcias, o equivalente a dez euros]. Eu fazia o que me exigiam.”

Shyima era tão pequenina que tinha de recorrer a um estrado para chegar ao lava-louça. E foi depois de a ver, pela janela, lavar a louça várias vezes madrugada adentro, cada vez mais adoentada devido aos maus tratos, que um anónimo, “talvez um vizinho”, acredita ela, alertou as autoridades, que a resgataram.

Os patrões, entretanto divorciados, Abdel Nasser Ibrahim, de 45 anos, e Amal Ahmed El Motelib, de 43, que Shyima trata por “The Dad” e “The Mom”, foram julgados e condenados em 2006. Cumpriram penas, respectivamente, de 36 e 22 meses de prisão – o primeiro processo por tráfico de seres humanos em Orange County.

“Não faço a mínima ideia em que é que os meus pais biológicos pensavam quando me venderam; ainda me sinto revoltada e magoada”, confessa Shyima, que depois de passar por vários lares de acolhimento investiu na sua educação para se tornar “verdadeiramente livre”.

É gerente de um armazém e planeia inscrever-se num serviço de segurança interna para ajudar a combater a escravatura infantil.

“Tenho uma filha de dois anos e sei que a minha experiência como escrava faz de mim uma mãe melhor. Quero que ela seja uma mulher forte e independente. Hoje, não tenho medo e sou feliz.”

Quanto a Kailash Satyarthi, também está “muito feliz” com o Nobel da Paz. “Pela primeira vez na história deste prémio foi levantada a questão dos mais desprotegidos e esquecidos, o que dá esperança a centenas de milhões de crianças.”

Uma criança trabalha nas minas de ouro em Watsa, no nordeste do Congo
© Marcus Bleasdale

Este artigo, com outro título, foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO em 22 de Novembro de 2014 | This article, under the a different headline, was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on November 22, 2014

O “estado não islâmico” de A a Z

Como explicar o aparecimento de um exército terrorista mais temível do que al-Qaeda? É invencível ou podem ser derrotado? Para descodificar um “mapa sem fronteiras” do Médio Oriente, onde os curdos lutam por uma nação, entrevistámos uma cientista política turca e um académico americano. À análise de Sezin Öney e de Henri Barkey segue-se um “dicionário do horror” que cita outras fontes. (Ler mais | Read more…)

Foto sem data, colocada com website jihadista e autenticada pela agência Associated Press, mostra combatentes do chamado "Estado Islâmico" (neste artigo aqui designado por DAESH), na cidade de al-Raqqa, sua "capital", na Síria. @ AP Photo/Militant Website, File

Foto sem data, colocada num website jihadista e autenticada pela agência Associated Press, mostra combatentes do autoproclamado “estado islâmico” (designado neste artigo por Daesh), na cidade de Raqqa, a “capital” do seu “califado” na Síria
© AP Photo

Há uma percepção generalizada de que a progressão do chamado “estado islâmico” (EI, IS, ISIS, ISIL ou Daesh) surpreendeu governos e serviços secretos, de Washington a Teerão. Esta situação poderia ter sido evitada ou era inexorável?

“Seria evitável!”, diz-me, numa entrevista por e-mail, Henri Barkey, antigo consultor para o Médio Oriente e Mediterrâneo Oriental no Departamento de Estado americano e agora professor de Relações Internacionais na Universidade de Lehigh (Pensilvânia).

“Ninguém prestou atenção ao que se estava a passar, sobretudo ao facto de a fronteira entre o Iraque e a Síria ter rapidamente desaparecido depois que se iniciou a guerra contra Bashar al-Assad [em Damasco]. Os dois conflitos fundiram-se e influenciaram-se mutuamente.”

“A América não tentou conter as políticas desastrosas de Nouri al-Maliki [anterior primeiro-ministro e agora vice-Presidente do Iraque] nem ajudar os responsáveis no Curdistão [Norte do Iraque] a governar com instituições credíveis – neste caso, nem seriam necessários grandes esforços”, criticou Barkey, autor de vários livros, entre os quais Turkey’s Kurdish Question e Reluctant Neighbor: Turkey’s Role in the Middle East.

“Quanto aos sauditas, é óbvio que são eles a fonte principal de todas as ideias, pois há muito que financiam movimentos fundamentalistas.”

É certo, adiantou Barkey, que “a Arábia Saudita, a Turquia e o Irão [países de maioria sunita] não apoiaram directamente o ISIS”, mas “todos contribuíram” para o seu aparecimento. Neste lote, ele incluiu também o Qatar, “provavelmente, o país que terá fornecido uma assistência mais directa”, temendo a crescente influência regional do Irão xiita.

“Ao apoiarem o [grupo da oposição síria] Jabat al-Nusra, turcos e sauditas colocaram-se ao serviço de um movimento jihadista com as mesmas características do ISIS”, indicou Barkey. “O Nusra poderá não degolar pessoas mas, ideologicamente, não é muito diferente do ISIS. Patrocinar um é auxiliar indirectamente outro.”

“A Turquia ficou na posição de aliado de uma infra-estrutura jihadista que ajuda o ISIS – não é uma cooperação directa, mas é uma consequência das políticas que adoptou.”

Combatentes do Daesh capturados pelas Forças de Defesa Sírias (maioritariamente curdas), apoiadas pelos EUA
© Associated Press | The National

Sobre a Turquia, Sezin Öney, cientista política da Universidade de Bilkent, em Ancara, descarta qualquer “ignorância” quanto ao que se estava a passar. “Tratou-se, sim, de uma desvalorização das eventuais consequências da presença de uma organização radical e violenta”, diz-me também, numa entrevista por e-mail.

“No caso da al-Qaeda, por exemplo, a Turquia considerou sempre que era ‘um problema dos outros, das potências ocidentais’”.

“Ao longo de 12 anos de poder do AKP [Partido da Justiça e Desenvolvimento, do presidente Recep Tayyip Erdoğan], a Al-Qaeda nunca foi considerada uma ameaça de segurança grave, apesar de ter cometido atentados bombistas em Istambul em 2003. A ascensão do ISIS poderia, assim, ter sido evitada, e a Turquia deveria ter alertado o mundo antes de esta organização se tornar mais forte.”

Sobre os interesses dos vários actores regionais, da Turquia à Arábia Saudita, Sezin Oney, que é também colunista do jornal liberal Taraf, mostrou-se convencida de que “todos agem de uma forma maquiavélica”.

Ou seja, “sem uma posição de princípio em relação à violência do ISIS, é o modo como o conflito evolui que indicará até que ponto é que os interesses de cada parte confluem ou divergem.”

“Não nos podemos esquecer de que o ISIS é apenas mais uma das organizações radicais e violentas que usam a religião como instrumento de retórica”, acrescentou a analista turca. “Há muitos outros na região e no resto do mundo que lhe são leais.”

“Neste sentido, o ISIS criou uma ‘história’, por muito horrenda que a história seja. E a história foi criada precisamente pela brutalidade do ISIS.”

Sezin Öney, acredita que “o ISIS pode ser derrotado”. No entanto, adverte: “Aparecerão outros que aspiram a imitá-lo. As tácticas militares do ISIS fazem dele um misto de grupo terrorista e exército regular.”

“O modo como usa as redes sociais, para fazer o seu ‘marketing’, as conquistas territoriais e domínio administrativo funcionarão como fontes de inspiração.”

Quanto a Henri Barkey, a sua previsão é a de que “levará muito tempo até que se possa derrotar o ISIS”. E acrescentou: “Vai ser preciso um verdadeiro milagre para o derrotar – isso até pode acontecer no Iraque, mas na Síria será impossível enquanto Assad continuar Presidente.”

“A estratégia dos EUA parece ser a de empurrar o ISIS para a Síria”, segundo Barkey. “No Iraque, o ISIS consolidou-se de tal forma com numerosos combatentes e vasto equipamento militar que dificilmente o Exército iraquiano – desorganizado e com dificuldade em defender Bagdad – o conseguirá eliminar.”

Combatentes do PYD [sigla de Partiya Yekîtiya Demokrat, Partido da União Democrática), rebeldes curdos sírios vistos pelos Estados Unidos e pela União Europeia como aliados, mas considerados “terroristas” pela Turquia
© Kurdishstruggle | euobserver.com

Um dos mais importantes factores neste “conflito” é a chamada “questão curda”, e Barkey, que é um especialista na área, parece não ter dúvidas sobre a estratégia do presidente turco em relação a Kobane, no Norte da Síria.

“Erdoğan quer que a cidade fique sob controlo do ISIS, porque isso representará um duro golpe nas ambições dos curdos sírios de criarem, numa era pós-Assad, uma região autónoma como a dos curdos no Norte do Iraque.”

“Quando os EUA decidiram, pela primeira vez, não ceder aos desejos turcos no que diz respeito aos curdos foi um choque [para Ancara]. Eu sou a favor de Washington fornecer armas ao PYD [sigla de Partiya Yekîtiya Demokrat, Partido da União Democrática), porque este nunca cometeu actos terroristas e é o único capaz de combater eficazmente o ISIS, sem recuar no campo de batalha.”

Num relatório divulgado pelo International Crisis Group (ICG, com sede em Bruxelas), criticou o PYD de se ter associado a facções pró-Assad, mas Barkey considera que “é exagerada a ligação a Damasco”. E explicou: “Inicialmente, a oposição síria, em parte devido à pressão da Turquia, não se quis associar ao PYD e este, consequentemente, não se revoltou contra Assad.”

“Por que haveria de o fazer? A única esperança para a Síria é adoptar uma política que encoraje os apoiantes de Assad a abandoná-lo em troca de um acordo com a comunidade internacional que inclua também o Irão. Sem isto, a guerra não terá fim.”

Sobre Kobane, disse Sezin Öney: “O que acontecer aqui, seja o que for, transformará a natureza da questão curda na Turquia. Os curdos que lutam nesta cidade são venerados como ‘guerreiros heróicos numa batalha épica’. Os combates podem ser vistos a curta distância da cidade fronteiriça turca de Suruc.”

“Erdogan não quer, obviamente, que o PYD derrote o ISIS, mas a Turquia está sob pressão crescente devido à sua anão cooperação. Se o ISIS conquistar Kobane, mesmo que por um período breve, isso representará o colapso do ‘processo de paz’ [com os curdos] na Turquia. Se a cidade sobreviver ao ISIS, os sentimentos nacionalistas curdos renascerão em força, e não apenas na Síria.”

Dicionário do horror

A

Al-Qaeda leader Ayman al-Zawahiri speaks from an undisclosed location in this photo released by Al-Qaeda's media arm, as-Sahab. ©

O sucessor de Osama bin Laden na liderança da al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, num discurso aos seus seguidores. Fotos divulgada por as-Sahab, um dos media da organização
© NBC News

Al-Qaeda

Terá sido das fileiras da Al-Qaeda, a “Rede” fundada por Osama bin Laden, que emergiu o movimento conhecido pelas siglas inglesas IS, ISIS ou ISIL. Neste “dicionário”, será designado por Daesh, acrónimo de al-Dawlat (o Estado) al-Islāmiyya (Islâmico) fī’l ‘Irāq (do Iraque) wa’s-Shām (e Grande Síria ou Levante), com sentido pejorativo em árabe (ver D).

O que mais distingue o Daesh da Al-Qaeda, agora sob a batuta de Ayman al-Zawahiri, é que o primeiro visa “estabelecer uma entidade política viável nas áreas que controla” enquanto o segundo apostou “numa insurreição permanente contra adversários mais poderosos” e longínquos, explica o cientista político Mouin Rabbani:

-Outras diferenças e semelhanças foram apontadas por As’ad AbuKhalil, colunista do website Al Akhbar English. Entre as diferenças: o Desh não um líder carismático com dotes oratórios mas tem um “cérebro financeiro”; a sua especialidade não são ataques maciços contra alvos ocidentais mas a propagação, através dos “novos media”, de imagens de horror, para “intimidar e obter vitórias militares”.

Entre as semelhanças: o Daesh e a Al-Qaeda partilham a ideologia wahhabita (ver W) e a vontade (quase paradoxal) de derrubarem a Casa de Saud; ambos recrutam combatentes estrangeiros e justificam o assassínio de muçulmanos “apóstatas”. Em Abril último, o Daesh declarou que a “velha guarda” da al-Qaeda “já não é a base da jihad porque se desviou do caminho verdadeiro”.

B

A man purported to be the reclusive leader of the militant Islamic State Abu Bakr al-Baghdadi has made what would be his first public appearance at a mosque in the centre of Iraq's second city, Mosul, according to a video recording posted on the Internet on July 5, 2014, in this still image taken from video. There had previously been reports on social media that Abu Bakr al-Baghdadi would make his first public appearance since his Islamic State in Iraq and the Levant (ISIL) changed its name to the Islamic State and declared him caliph. The Iraqi government denied that the video, which carried Friday's date, was credible. It was also not possible to immediately confirm the authenticity of the recording or the date when it was made. REUTERS/Social Media Website via Reuters TV (IRAQ - Tags: POLITICS) ATTENTION EDITORS - THIS IMAGE HAS BEEN SUPPLIED BY A THIRD PARTY. IT IS DISTRIBUTED, EXACTLY AS RECEIVED BY REUTERS, AS A SERVICE TO CLIENTS. REUTERS IS UNABLE TO INDEPENDENTLY VERIFY THE CONTENT OF THIS VIDEO, WHICH HAS BEEN OBTAINED FROM A SOCIAL MEDIA WEBSITE © Reuters

O presumível líder do “estado islâmico” (Daesh), Abu Bakr al-Baghdadi, no que terá sido o seu primeiro discurso público, numa mesquita em Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, sob controlo do seu movimento. Esta imagem, difícil de autenticar, retirada de um vídeo, foi partilhada na Internet, a 5 de Julho de 2014
© Reuters

Baghdadi

Abu Bakr al-Baghdadi, líder do Daesh, nasceu Ibrahim Awwad Ibrahim Ali al-Badri al-Samarrai, em 1971. O último dos apelidos deriva de Samarra, de onde a família será oriunda, cerca de 80 Km a norte de Bagdad.

Em 2003, quando George W. Bush ordenou o derrube de Saddam Hussein, Ibrahim frequentava uma universidade em Adhamiya, nos arredores da capital, onde concluiu, supostamente, “licenciatura, mestrado e doutoramento em Estudos Islâmicos”. Terá aderido à insurreição contra os invasores na província de Diyala.

Aqui “fundou o grupo armado Jaish Ahl-Sunna w’al Jamaa, que nunca se tornou famoso”, observou o analista iraquiano Mushreq Abbas. É certo que Ibrahim foi capturado por tropas americanas e enviado para o centro de detenção de Camp Bucca, no Sul. Não há unanimidade sobre se foi em 2004, 2005 ou 2006. Agiria como um “tipo alheado”, sem necessidade de vigilância especial, mas bastaram seis meses de cárcere para o transformar de muçulmano devoto num jihadista convicto”, segundo o diário The Guardian.

Após a sua libertação, no final dos anos 2000”, Ibrahim foi integrar o “conselho militar” do emergente “Estado Islâmico”, inicialmente, apenas um grupo sunita (a antiga classe dirigente) em luta contra o governo sectário de Maliki, um xiita apoiado pelo Irão. Naquela época, o chefe era Abu Omar al-Baghdadi, aka Hamed al-Zawi.

Quando este foi morto por forças dos EUA, em 2010, Ibrahim deixou de ser o “principal conselheiro” para assumir a liderança. Gradualmente, foi eliminando facções antagonistas e conquistando territórios, na Síria e no Iraque.

O primeiro discurso público do homem cuja captura vale 10 milhões de dólares foi um sermão, na sexta-feira, 5 de Julho de 2014, na mesquita de Mossul, a segunda maior cidade iraquiana. Vestido de negro (a cor que caracteriza todos os símbolos da organização, em particular a bandeira), o autoproclamado “califa Ibrahim” apresentou-se:

-“Não sou melhor nem mais virtuoso do que vós. Se me virem no caminho recto, ajudem-me. Se me virem no caminho errado, aconselhem-me, e não me deixem avançar. Obedeçam-me, tal como eu sou obediente a Deus.”

C

Harun al-Rashid receiving a delegation sent by Charlemagne at his court ©

Harun al-Rashid, o famoso califa da dinastia dos Abássidas, recebe na sua corte, em Bagdad, uma delegação enviada por Carlos Magno, do Império Carolíngio
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Califado

O Daesh assumiu que pretende “restaurar o califado”, entidade com territórios e populações, governada por um líder temporal e espiritual. Literalmente, “califa” quer dizer “sucessor” – de Maomé, que deixou órfã e dividida a Ummah (comunidade dos crentes) quando morreu em 632.

Na disputa entre um sogro (Abu Bakr) e um genro (Ali Abi Talib), venceu o pai de Aisha, a favorita das mulheres do profeta do Islão, e não o marido da sua filha Fatimah Os apoiantes de Abu Bakr são os sunitas, defensores da Sunnah ou tradição, a maioria nos países muçulmanos.

Os “partidários de Ali” são os xiitas, predominantes no Iraque, Irão, Bahrein e Azerbaijão. O Califado Rashidun (que incluiu Abu Bakr e Ali) foi o primeiro. Durou de 632 até 661, e constituiu um dos maiores impérios da História, estendendo-se da Península Arábica ao Mediterrâneo.

O último foi o Otomano, abolido constitucionalmente, em 1924, por Mustafa Kemal Atatürk, fundador da Turquia moderna e secular. Num artigo publicado no New York Times, o jornalista egípcio Khaled Diab arrasou com o “califado” de Ibrahim/Baghdadi, estabelecendo uma comparação com o de Harun al-Rashid (circa 763-809).

“A sociedade abássida, no seu auge, era pujante no que toca ao multiculturalismo, à ciência, à inovação, ao ensino e à cultura – um contraste supremo com o puritanismo violento do ISIS”, observou Diab, recentemente galardoado com o Prémio Anne Lindh Jornalista Mediterrâneo do Ano 2014, com o texto Rebels without a god ou “Rebeldes sem deus”, sobre os ateus do Médio Oriente.

D

Um mapa sem fronteiras A Amarelo: A Laranja: A Vermelho ©Mashable

Um mapa sem fronteiras: Iraque (amarelo); Síria (laranja); áreas controladas pelo chamado “Estado Islâmico” ou Daesh (vermelho)
©Mashable

Daesh

Nos vídeos que coloca online, o movimento de Abu Bakr al-Baghdadi identifica-se apenas como al-Dawla, ou “o Estado”. Os que a ele se opõem optaram por designá-lo Daesh ou Da’ish, acrónimo com um peso negativo na língua árabe. Pode significar “esmagar” ou “pisar”.

A França adoptou oficialmente DAESH e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, refere-se ao grupo como “Não Estado Não Islâmico” Uma outra teoria, referida pelo blogger Pieter Vanostaeyen, sugere que Daesh pode ser igualmente sinónimo de Jāhiliyya ou “estado de ignorância”, o período pré-islâmico que antecedeu o monoteísmo pregado por Maomé.

É uma das maiores ofensas dirigidas a um líder muçulmano, para o deslegitimar. Apesar de se definir como “Estado” o Daesh não pode ser considerado como tal, “porque rejeita fronteiras e não tem [ou não tinha] instituições”, indicou Peter Harling, analista do International Crisis Group (ICG). O movimento de Baghdadi, adianta, impôs-se primeiro no Nordeste da Síria (ar-Raqqa, a sua “capital”, Idlib, Deir es-Zor e Aleppo), porque as tropas de Assad se retiraram desta região.

Sem dificuldade, conquistou depois Mossul, no Iraque – onde começou a encher os cofres ao apoderar-se de vários bancos –, porque as autoridades locais eram “corruptas e incompetentes”.

Também se infiltrou no Norte do Líbano aproveitando outro vazio de poder. A CIA estima que o Daesh tenha “entre 20.000 e mais de 30.000” combatentes no Iraque e na Síria. A RandCorp. calcula que acumulou uma fortuna de 2.200 milhões de dólares, o que faz dele “o grupo terrorista mais rico do mundo”.

Novos dados do Consórcio TRAC, citados pela CNN, indicam que o Daesh formou, entretanto, uma estrutura hierárquica, designada por Al Imara, para governar os territórios sob seu domínio. “Deixou de ser uma força puramente militar para erguer um sistema que pode fornecer serviços básicos, como alimentos e gás.” Abu Bakr al-Baghdadi tem dois adjuntos, Abu Ali al-Anbari (responsável pelo Iraque) e Abu Muslim al-Turkmani (encarregue da Síria), antigos oficiais militares do regime de Saddam Hussein (1937-2006).

Estes adjuntos fazem chegar as suas ordens a governadores e a conselhos locais que depois as aplicam. Haverá ainda m “Conselho da Shura”, espécie de “parlamento”, que tem poderes como o de “censurar a liderança” e aprovar previamente decapitações.

F

James Foley foi o primeiro dos reféns estrangeiros decapitados pelo DAESH. O vídeo macabro da sua execução foi colocado na Internet. © Daily Mirror.UK

O jornalista James Foley, experiente repórter de guerra, foi o primeiro dos reféns estrangeiros decapitados pelo Daesh. O vídeo macabro da sua execução foi colocado na Internet
© Daily Mirror.UK

Foley

Raptado em 22 de Novembro de 2012, no Noroeste da Síria, o jornalista freelance James (Jim) Foley foi o primeiro estrangeiro a ser decapitado pelo Daesh, que colocou na Internet o vídeo macabro da execução, em Agosto último.

Em 2011, Foley, de 40 anos, já tinha sido sequestrado na Líbia. Esteve cativo durante 44 dias e não se deixou abalar: “Acredito que o jornalismo em zonas de guerra é importante”, disse Foley ao Boston Globe, após ser libertado. “Sem as fotos e vídeos, sem a experiência em primeira mão, não podemos relatar ao mundo o que está a acontecer.”

Depois de Foley, um outro jornalista norte-americano, Steven Sotloff, foi também decapitado. Para o tentarem salvar, colegas tentaram tudo para ocultar que ela era judeu e tinha também nacionalidade israelita. Em vão. Mediáticas foram também as execuções de dois britânicos ao serviço de organizações humanitárias, David Haines e Alan Henning.

Quase ignoradas, em contraste, têm sido as decapitações de jornalistas no Iraque e na Síria. Nos últimos dez meses, segundo o diário The Guardian, o Daesh terá executado 17 repórteres iraquianos. Pelo menos 80 sírios terão sido sequestrados. O seu paradeiro continua desconhecido.

H

Halabja is a town about 70 km from Suleymaniya, towards the East, and near the Iranian border. In 1988, during Saddam's reign, the Iraqi government started the "Anfal" Campaign, aimed at eradicating the Kurdish people in the North. During the 9 months of this military action, more then 180,000 Kurdish people were killed and many more disappeared. The Iraqi Airforce bombed several times with chemicals to destroy whole regions in the course of a morning. Halabja is the most written about. During the bombing of Halabja, more then 5,000 people were killed by the chemicals, and 20,000 injured. Halabja still shows the scars of that attack. The pictures are from several monuments in memorial of that infamous day. © nijmannews.org/halabja

Halabja é uma localidade iraquiana na fronteira com o Irão, Em 19888, no âmbito da infame Operação Anfal, tropas de Saddam Hussein lançaram uma campanha genocida contra os curdos no Norte. Durante nove meses de uma campanha militar, mataram 180.000 pessoas – pelo menos 5000 das quais com armas químicas (outras 20.000 mil ficaram feridas) – e muitas mais continuam desaparecidas. Na foto, campas erguidas em  homenagem às vítimas
© nijmannews.org/halabja

Halabja

Em 1988, cerca de 5000 pessoas, a maioria civis, foram mortas em Halabja, na fronteira com o Irão, quando as tropas de Saddam Hussein usaram armas químicas numa “campanha genocida”.

Para o académico Henri Barkey, “Halabja tornou-se num símbolo nacional” e “ajudou a moldar” a região autónoma agora designada por Governo Regional do Curdistão (KRG, sigla inglesa). Em 1988, recorda, o ditador de Bagdad tinha o apoio do Ocidente porque a República Islâmica de Khomeini era considerada “uma ameaça maior”.

Tal como Halabja se tornou um “marco na luta dos curdos pelos seus direitos”, o mesmo acontecerá com Kobane (ver K), na Síria, acredita Barkey.

I

Páginas do Corão, livro sagrado dos muçulmanos. ©inquiryintoislam.com

Páginas do Corão, livro sagrado dos muçulmanos.
©inquiryintoislam.com

Islão

A crueldade exibida por uma organização que clama ser um “Estado Islâmico” fez regressar em força o debate sobre “o que é e não é o Islão”. A propósito, vale a pena ler o artigo que Nathan Lean publicou no site da New Republic.

“Falamos de um ‘mundo islâmico’ e de um ‘mundo muçulmano’, apesar de não existir esta extensão mal definida”, afirma o director do Center for Muslim-Christian Understanding da Universidade de Georgetown, em Washington, e autor de The Islamophobia Industry:

-“Não há um ‘Islão’ radical’ e um ‘Islão militante’ mas sim indivíduos ‘militantes’ e ‘radicais’ que são muçulmanos, e são as suas acções, não a sua religião que devem ser descritas usando aqueles adjectivos. (…) De igual modo, não há ‘extremismo islâmico’ ou ‘terrorismo islâmico’, mas apenas muçulmanos que adoptaram o extremismo e o terrorismo.”

O terror não é característica do Islão, insiste Lean, dando exemplos: “Na Índia do século XI, os governantes [tâmil] Chera usaram bombistas suicidas na luta contra a dinastia dos Cholas; as decapitações não foram iniciadas na Arábia Saudita nem pelo ISIS, mas sim na Europa; o primeiro sequestro de um avião foi registado no Peru em 1931. (…) “

“Se culpamos o Corão pelos maus actos cometidos por muçulmanos em nome do Islão, a lógica exige que também lhe seja dado crédito pelas boas acções. Isso não é apropriado, num caso e noutro.”

K

Mapa onde se pode ver a cidade estratégica de Kobane, na fronteira da Síri com a Turquia. ©dailymail.co.uk

Mapa onde se pode ver a cidade estratégica de Kobane, na fronteira da Síria com a Turquia que tem sido usada para vários tipos de contrabando por parte dos jihadistas
©dailymail.co.uk

Kobane

A cidade síria de Kobane (ou Kobani) “tem um grande valor estratégico porque quem a controlar terá acesso a uma fronteira importante”, escreveu Robin Wright, no Wall Street Journal.

Também conhecida como Ayn al-Arab ou “Primavera dos Árabes”, Kobane serve de “porta de entrada na Turquia, país que se expande da Europa à Ásia, é membro da NATO e aliado dos EUA”, realçou a analista do U.S. Institute for Peace.

Armado com requintado equipamento militar que as forças norte-americanas deixaram no Iraque, enriquecido com receitas de um milhão de dólares por dia – graças aos bancos que esvaziou, às antiguidades que vendeu e ao petróleo que exporta dos campos sob seu controlo –, o Daesh tem enfrentado, em Kobane, a força combinada de guerreiros curdos e ataques aéreos dos EUA.

O académico Henri Barkey acredita que Kobane será “um símbolo importante na construção da nação curda”. As vitórias dos defensores de Kobane não se podem comparar às derrotas das débeis forças curdas iraquianas, e muito menos do Exército iraquiano, face ao avanço do ISIS. Quanto mais tempo a cidade resistir, maior será o impacto da sua reputação, que já alcançou, aliás, proporções míticas. [Em Fevereiro de 2015, o Daesh confirmou ter perdido o controlo de Kobane para os guerreiros curdos, mas pelo menos 70% da cidade foi destruída.] A resistência em Kobane mobilizou os curdos espalhados pelo mundo, mas sobretudo na Turquia, notou Barkey.

“Apesar de ter tido a coragem de iniciar um processo de paz com o insurrecto Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK, ver P), o Governo em Ancara enfrenta agora um dilema: uma vitória do PYD, que é um aliado, se não mesmo uma criação, do PKK, não só reforçará a posição negocial deste como encorajará os curdos a formarem outra região autónoma, na fronteira com o Curdistão do Norte do Iraque.”

“Para Ancara, isso será um desaire estratégico, porque irá encorajar, naturalmente, os curdos turcos a reclamar o mesmo.”

M

From the 11th to 13th centuries, medieval Europe absorbed knowledge from Islamic civilization, which was then at its cultural peak. and Muslim playing chess in al-Andalus, from The Book of Games of Alfonso X, el Sabio, c. 1285. The game of chess originated in India, but was transmitted to Europe by the Islamic world.[1] ©

Entre os séculos XI e XIII, a Europa medieval absorveu o conhecimento da civilização islâmica, que estava no seu auge cultural. Na imagem, retirada do Livro dos Jogos, de Afonso X, O Sábio, vemos uma partida de xadrez entre cristãos e muçulmanos, no al-Andalus, por volta de 1285. Este jogo tem origem na Índia, mas foram muçulmanos que o introduziram na Europa.

Medieval

Os actos de barbárie aplicados pelo Daesh têm sido descritos como “medievais”. Não é correcto, afirma Yoav J. Tenenbaum, professor de Estudos de Diplomacia na Universidade de Telavive. O historiador israelita compreende que seja “fácil atribuir a decapitação de inocentes em frente de câmaras de TV a uma ideologia de zelotismo de um período medieval distante”.

No entanto, esclarece, “os actos de brutalidade e uma visão totalitária do mundo prevalecem num grau muito maior no século XX do que na Idade Média.” Não pertencem à Idade Média, relembra, a Alemanha nazi de Hitler nem a Rússia comunista de Estaline.

“Os Khmer Vermelho no Camboja cometeram actos de brutalidade indescritíveis contra os seus próprios cidadãos, sem terem recorrido a meios tecnológicos avançados. A visão que Pol Pot tinha do mundo não era, seguramente, mais iluminada do que a de Abu Bakr al-Baghdadi.”

Para Tenenbaum, “usar os termos pejorativos de ‘Idade Média’, ‘período medieval’, ‘Idade das Trevas’, para descrever o IS e alertar para a sua ideologia nefasta, é historicamente duvidoso e intelectualmente questionável.”

O Daesh de Baghdadi, “não é o primeiro grupo terrorista na história moderna a desejar destruir pela força o sistema internacional vigente; não é o primeiro a defender uma ideologia totalitária que não tolera desvios e que oblitera toda a oposição, real ou imaginária; não é o primeiro grupo a glorificar a morte e a aproveitar-se da sensibilidade de audiências e espectadores temerosos em países democráticos.”

Recomendação final: “Não é necessário recuar centenas de anos para descrever a brutalidade do IS ou para nos avisar da sua sinistra visão do mundo; basta-nos uma curta viagem na História.”

N

The commander of the Peshmerga forces, dubbed the Peshmerga Princess, defending the besieged Syrian town of Kobane against IS advances is 40-year-old Mayssa Abdo, who uses the nom de guerre Narin Afrin. She has revealed: 'Thousands of civilians are still inside the town. They can’t go anywhere – all around us is blocked' Read more: http://www.dailymail.co.uk/news/article-2791469/woman-fighter-leads-battle-against-islamic-state-besieged-syrian-border-town-kobane.html#ixzz3HvAA5MuV Follow us: @MailOnline on Twitter | DailyMail on Facebook © Jamie Wiseman | Daily Mail

Comandante das guerreiras curdas na cidade síria de Kobane, Mayssa Abdo, é conhecida pelo “nome de guerra” de Narin Afrin. Também a veneram como “Princesa dos Peshmerga” (literalmente, “os que enfrentam a morte”) 
© Jamie Wiseman | The Daily Mail

Narin Afrin

Comandante das guerreiras curdas em Kobane, Narin Afrin é o “nome de guerra” de Mayssa Abdo. Dirige, ao lado de Mahmoud Barkhodan, a Unidade de Protecção do Povo Curdo (YPG), braço armado do PYD.

Também conhecida por Princesa dos Peshmerga (“os que enfrentam a morte”), Narin terá nascido em Afrin, província de Aleppo, onde se inclui Kobane. Segundo o consórcio TRAC, “pelo menos 35%” (cerca de 10.000) dos guerrilheiros curdos no Norte da Síria são mulheres.

Em declarações à publicação curda The Rojava Report (citadas por vários sites, incluindo este), Abdo/Afrin destacou: “Transformámos num inferno os primeiros locais onde eles [os jihadistas do Daesh] entraram, e Kobane continuará a ser, para eles, um inferno.

A resistência em Kobane é sobretudo de mulheres, que usam emboscadas e armadilhas, tácticas de defesa criativas e a determinação em sacrificarem as suas próprias vidas.” Uma das que se sacrificou foi Dilar Gencxemis, identificada pelo YPG com o “nome de guerra” de Arin Mirkan.

A 5 de Outubro fez-se explodir num atentado suicida para matar dezenas de terroristas do Daesh. Henri Barkey, que há muito estuda um povo que se distingue dos árabes e dos turcos, constatou como a resistência das curdas “tem contribuído para o carácter mítico” dos combatentes em Kobane.

“É notável justapor um ‘Estado Islâmico que escraviza mulheres ou as cobre da cabeça aos pés com o PYD que conta, nas suas fileiras, com numerosas mulheres a lutar e a morrer ao lado de homens.”

P

Bandeiras do PKK e imagens do seu líder, condenando a pena perpétua, Abdullah Öcalan (também conhecido como Apo), na cidade de Diyarbakir, no Sudeste da Turquia
© Associated Press

PKK

A 15 de Agosto de 1984, 30 rebeldes das Hêzên Rizgariya Kurdistan (HRK, Forças de Libertação do Curdistão) entraram em Eruh, povoação de 4000 habitantes nas montanhas do Sudeste da Turquia.

Divididos em três grupos, apoderaram-se de uma guarnição militar e mataram um soldado. Ocuparam uma mesquita e, por um dos altifalantes do templo, anunciaram a sua presença. Antes de recuarem para os seus refúgios, alardeando o feito de terra em terra, proclamaram na praça central o “início da guerra de libertação curda”.

Foi este o primeiro ataque do braço armado do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), e o conflito, que já causou cerca de 40 mil mortos, continua por solucionar. Abdullah Öcalan, o líder, condenado a pena perpétua mantém-se preso, desde a sua captura em 1999, na fortaleza de Imarli, no Mar de Mármara.

O Presidente Erdogan procurou desacreditar Öcalan quando iniciou um processo de cessar-fogo em 2013, mas não conseguiu. O dirigente do PKK mantém intacta a elevada popularidade entre os curdos da Turquia e da Síria, mais empenhados em preservar a sua identidade étnica do que a fé no Islão sunita.

Depois de ter tentado cativar o votos dos curdos nas presidenciais, o ex-primeiro-ministro Erdogan rapidamente os abandonou, considerando agora que o PKK e o PYD “são grupos terroristas” como o Daesh Só a 20 de Outubro, depois de intensa pressão internacional, Erdogan autorizou a entrada de guerrilheiros curdos em Kobane.

O salvo-conduto foi apenas concedido aos peshmerga de Massud Barzani, líder do Partido Democrático do Curdistão (KDP) e presidente do Governo Regional Curdo (KRG) no Iraque. Barzani mantém boas relações com Ancara embora a sua influência se limite a duas províncias iraquianas Duhok e Erbil (e até aqui seja ínfima).

Q

Qassem Suleimani (centre, with revolutionary scarf), the commander of the elite Revolutionary Guards Quds force, poses with a group of peshmerga fighters in Kurdistan. © IRNA | The Guardian

Qassem Soleimani  (barba grisalha), o todo-poderoso comandante da Força al-Quds, considerada uma “unidade de elite” dos Guardas da Revolução do Irão, junto a um grupo de peshmerga, combatentes curdos no Iraque
© IRNA | The Guardian

Qassem Soleimani

Raramente visto em público, Qassem Soleimani foi notícia quando, em Outubro último, se deixou fotografar e filmar ao lado de combatentes curdos no Norte do Iraque. Comandante da Força al-Quds, unidade de elite dos Guardas da Revolução, patrono de Assad na Síria, do Hamas em Gaza, e do Hezbollah no Líbano, o general quis demonstrar a determinação da República Islâmica em salvaguardar os seus interesses.

Sejam eles manter um governo aliado em Bagdad, como proteger os santuários xiitas de Samarra, Kadhimiya, Najaf e Kerbala.

O Irão tem participado activamente nas batalhas contra o Daesh no Iraque, fornecendo material bélico e soldados, sobretudo em Diyala, na fronteira entre os dois países que travaram uma guerra (1980-1988) de mais de um milhão de mortos, em ambos os lados, e na qual Suleimani participou.

A conquista pelo Daesh de vários territórios forçou à demissão de Nouri al-Maliki, um primeiro-ministro visto como inimigo pela minoria sunita iraquiana e como “marioneta” de Teerão. Hoje com 57 anos, Suleimani terá integrado a Força Quds por volta dos 20.

Ninguém menoriza a sua influência. Disse um analista ao diário The Guardian: Apoiado por Ali Khamenei, o Guia Supremo, Suleimani “está em toda a parte e em parte nenhuma . É o mestre que manipula os fantoches.”

R

Rojava ou o mapa do "Curdistão sírio" ©geocurrents.info/geopolitics

Rojava ou o mapa do “Curdistão sírio”
©geocurrents.info/geopolitics

Rojava

Com o significado de “Ocidente” em curdo, Rojava é uma região autónoma de facto, no Norte e Nordeste da Síria, proclamada por representantes das minorias locais, em 2012, na sequência da guerra civil que assola o país.

O chamado “Curdistão Sírio”, onde se localiza a cidade de Kobane, é um reduto do PYD. Em Outubro, o International Crisis Group (ICG), com sede em Bruxelas, divulgou um relatório muito crítico, referindo que os aliados do PYD são Damasco, o Irão e o Governo xiita em Bagdad.”

O ICG recomendou que o PYD “alargue a sua base de apoio a curdos e não curdos, e a grupos pragmáticos da oposição síria, distanciando-se dos rufias de Assad”.

S

Shām

Por que é que uns usam a sigla ISIS e outros a ISIL para se referirem ao autoproclamado “Estado Islâmico”?

“A raiz da inconsistência”, informou a BBC, “está na palavra árabe al-Shām, que tem sido, variavelmente, traduzida como ‘o Levante’, ‘Grande Síria’, ‘Síria”’ ou até ‘Damasco’.

O termo al-Shām, usado pelos antigos califas do século VII para descrever a área entre o Mediterrâneo e o Eufrates, a Anatólia e o Egipto, vigorou até à primeira metade do século XX”.

Desapareceu quando, após o colapso do Império Otomano, as potências mandatárias britânicas e francesas, através dos Acordos de Sykes-Picot (1916), traçaram novas fronteiras no Médio Oriente, criando “estados-nações”.

Após a I Guerra Mundial, o “Levante” passou a incluir as actuais Síria, Jordânia, Líbano, Israel-Palestina e parte do Sudeste da Turquia. É, supostamente, esta a região do “califado” reclamado pelo Daesh, sob a liderança de Baghdadi.

T

Combatentes taliban numa área não identificada do Afeganistão. ©mirror.co.uk

Combatentes taliban numa área não identificada do Afeganistão
©mirror.co.uk

Taliban

O Daesh foi comparado aos governantes do antigo “Emirado Islâmico do Afeganistão” (1996-2001) por Ahmed Rashid, considerado um dos maiores especialistas nos grupos extremistas na Ásia. Num artigo publicado pelo New York Review of Books, o   jornalista e escritor paquistanês observou:

-“Tal como a dos Taliban, a guerra do ISIS tem-se concentrado mais em conquistar território do que em lançar uma jihad global ou fatwas para ataques bombistas em Nova Iorque ou Londres.. Embora tenha atraído cerca de 3000 combatentes estrangeiros, a verdadeira guerra do ISIS é contra outros muçulmanos, em particular os xiitas.”

“(…) Tal como os Taliban mudaram o carácter do Islão na Ásia do Sul e Central, também o ISIS planeia fazer o mesmo com o Médio Oriente, ao procurar o domínio territorial.”

Uma significativa semelhança entre os “estudantes de Teologia” e os discípulos de Baghdadi, segundo Rashid, é que ambos estão preparados para “uma longa jogada”.

W

Membros do Comité para a Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, a polícia religiosa saudita que impõe a rígida doutrina wahhabita no reino, numa “sessão de formação”, em Setembro de 2007 – os seus poderes começaram a ser diminuídos em 2016
© Ali Jarekji | Reuters

Wahhabita

Esta é a ideologia do Daesh e da al-Qaeda. Trata-se de um movimento de revivalismo islâmico fundado, na Arábia do século XVIII, por Muhammad ibn Abd al-Wahhab, teólogo da rigorosa escola de jurisprudência hanbalita.

Wahhab fez da tawhid ou unicidade de Deus a sua principal doutrina, que ele considerava uma reacção ao declínio moral e político da comunidade muçulmana do seu tempo. Propôs um regresso aos princípios básicos da religião, com ênfase no Corão e nas tradições (ahadith), e advogava a violência, “se necessário”, para proteger esse ideais.

Muitos dos que se horrorizam com as decapitações levadas a cabo pelo Daesh tendem a ignorar que esta é uma prática comum no Reino da Arábia Saudita (um dos maiores aliados do Ocidente, porque um dos seus principais fornecedores de petróleo), onde o wahhabismo é lei.

Segundo a Amnistia Internacional, desde Janeiro de 2014, a Arábia Saudita decapitou quase 60 pessoas, oito delas num só mês – ou seja, o dobro do número de reféns estrangeiros executados pelo Daesh.

Y

cerca de 700 famílias yaziditas ainda estavam sitiadas no Monte Sinjar, a ocidente da província iraquiana de Mossul, © Khaled Mohamed | Associated Press (AP)

Cerca de 700 famílias yazidis foram sitiadas pelo Daesh no Monte Sinjar, a ocidente da província iraquiana de Mosul
© Khaled Mohamed | Associated Press

Yazidis

Escravizados e massacrados pelo Daesh, os yazidis são uma minoria religiosa monoteísta, de expressão curda, que vive sobretudo no Nordeste do Iraque, mas também no Nordeste da Síria e no Sueste da Turquia.

Devido a múltiplas perseguições, é difícil estimar o número exacto de membros desta comunidade, que terá sido fundada na índia, refere o site oficial . Totalizarão cerca de 800.000 no Iraque, e pelo menos 200 mil estarão exilados noutros países.

Segundo um dirigente religioso (citado aqui), desde que o Daesh começou a erigir o seu “califado”, cerca de 5000 yazidis foram mortos, 7000 (a maioria mulheres e crianças) foram raptados, e cerca de 350 mil são refugiados no Curdistão iraquiano, na Síria e na Turquia.

Em 20 de Outubro, cerca de 700 famílias yazidis ainda estavam sitiadas no Monte Sinjar, a ocidente da província iraquiana de Mosul, dependendo dos abastecimentos lançados por via aérea por forças dos EUA.

Um dos melhores retratos dos yazidis apareceu na BBC, pela mão de Diana Darke, autora de My House in Damascus: An Inside View of the Syrian Revolution. Sobre o epíteto de “adoradores do demónio”, a escritora diz que se deve a uma convicção errada de que os yazidis descendem de Yazid ibn Muawiya (647-683).

Segundo califa omíada, Yazid viu-se envolvido nos conflitos gerados pela imposição desta dinastia a um mundo muçulmano em expansão. Em 680, no início do seu breve califado (durou três anos), tentou lidar com uma das dimensões do problema, suprimindo o apoio a Hussein ibn Ali, neto de Maomé.

Num cerco ordenado por Yazid, em Kerbala (actual Iraque), foram massacrados Hussein (um dos dois filhos de Ali Abi Talib, genro do profeta), dezenas dos seus seguidores e familiares. A partir deste momento, Hussein tornou-se mais um mártir do xiismo enquanto Yazid passou a personificar o Mal. Diana Darke esclarece que “yazidis” não se deve a Yazid mas deriva da expressão moderna persa ized, que significa anjo ou divindade.

“Ou seja, yazidis traduz-se por ‘adoradores de deus’ – e é assim que eles se descrevem a si próprios.” Muitas das suas crenças têm baseiam-se no cristianismo. Os livros sagrados são a Bíblia e o Corão. Por os ritos serem secretos, confundiu-se o yazidismo com o zoroastrismo (dualidade luz/escuridão) e até adoração do Sol, mas isso não corresponde à realidade.

“As crianças são baptizadas com água benta por um pir (padre)”, revela Diana Darke. “Nos casamentos, as noivas vestem-se de vermelho e visitam igrejas cristãs. O guia supremo dos yazidis é Yasdan – “um ser tão elevado que não pode ser directamente venerado.

É considerado o Criador do Mundo, não o protector. Dele emanam sete espíritos, o maior dos quais é o Anjo Pavão, conhecido como Malak Taus, a quem os crentes rezam cinco vezes por dia.

O “pior castigo” para um membro da comunidade – onde se nasce yazidi, não há conversos e ninguém se pode converter a outra religião – é ser expulso, “porque a alma não pode purificar-se e transmigrar”.

X

Nimr Baqir al-Nimr , líder dos xiitas na Arábia Saudita, foi acusado de “falta de lealdade ao rei”. Executaram-no em Janeiro de 2016
© adhrb.org

Xiitas

Se o Daesh é implacável com os seus inimigos, o mesmo se pode dizer do reino que inspira a sua ideologia: a Arábia Saudita. Na quarta-feira, 15 de Outubro, quando o ministro canadiano dos Negócios Estrangeiros, John Baird, era calorosamente acolhido pelo seu homólogo em Riad, um tribunal condenou à morte (por crucificação) um destacado opositor xiita.

O xeque Nimr Baqir al-Nimr foi acusado de “falta de lealdade ao rei”. A sentença poderá ser reduzida a pena perpétua. [O xeque seria executado em Janeiro de 2016, no pico de tensões políticas entre sauditas e iranianos] Num artigo publicado aqui, um dos maiores especialistas no Golfo Pérsico.

Toby Craig Jones, descreveu o veredicto como “o produto de um sistema que sacrifica vidas humanas para manter uma autoridade centralizada e os privilégios de uma elite.” Nimr é um alvo “não por ser um perigo para a sociedade”, segundo Jones, mas por “criticar a discriminação religiosa, denunciar a opressão e exigir reformas políticas”.

Nimr é oriundo da aldeia de Awamiyya, na Província Oriental, onde se situam muitas das jazidas de petróleo e vive a maioria dos xiitas sauditas, cerca de 10 a 15% dos 29 milhões de habitantes. Na opinião de Jones, a escalada anti-xiita “deve-se menos a uma interpretação retrógrada do Islão e mais à convergência de factores políticos, internos e externos a que o Estado é vulnerável.”

Exemplos: As ambições iranianas de dominar o Golfo Pérsico; a ascensão do poder xiita no Iraque pós-Saddam; a sublevação xiita no Bahrein, governado por um minoria sunita; as críticas na Casa de Saud à corrupção e falta de direitos políticos.

Z

Abu Musab al-Zarqawi, o fundador da organização al-Qaeda no Iraque /ou na Mesopotâmia (AQI), é considerado um dos mentores do chefe de Abu Bakr al-Baghdadi. ©globalresearch.ca/

Abu Musab al-Zarqawi, o fundador da organização al-Qaeda no Iraque /ou na Mesopotâmia (AQI), é considerado um dos mentores do chefe de Abu Bakr al-Baghdadi
© globalresearch.ca/

Zarqawi

O principal mentor do “califa Ibrahim” terá sido Abu Musab al-Zarqawi, artífice da organização al-Qaeda no Iraque ou na Mesopotâmia (AQI – não confundir com AQIM, al-Qaeda no Magreb).

Em 1989, Zarqawi ter-se-á candidatado a mujahedin (combatente) no Afeganistão. Foi vã esta tentativa, porque os invasores soviéticos já batiam em retirada, revelou Bobby Ghosh, em The Atlantic.

Nesse mesmo ano, regressou à Jordânia, onde nascera e se manteve activo em redes extremistas. Uma década depois, em 1999, voltou ao Afeganistão. Por esta altura, conheceu Bin Laden, mas não se juntou logo à al-Qaeda.

Em 2001, com a queda dos Taliban que governavam Cabul, Zarqawi mudou-se para o Iraque. Em 2003, após a invasão liderada pelos EUA, Zarqawi criou o Jama’at al-Tawhid w’al–Johad (Partido do Monoteísmo e da Jihad), do qual Abu Bakr al-Baghdadi fez parte.

O sunita Zarqawi dependia muito de combatentes estrangeiros, e os seus alvos eram, preferencialmente, muçulmanos xiitas, a maioria da população, que ele considerava hereges e usurpadores do poder, após o derrube de Saddam Hussein.

Em 2004, na sequência de vários atentados bombistas e suicidas, Zarqawi tornou-se uma “estrela jihadista”, observou Ghosh. Foi então que se juntou a Bin Laden, e deu ao Jama’at al-Tawhid w’al–Johad o nome de AQI.

Os seus métodos eram tão sanguinários que “escandalizaram” até Zawahiri, na altura o “número dois” da al-Qaeda. Comandante militar e político, Zarqawi também aspirava a ser “califa” (líder espiritual), mas essas ambições morreram quando tropas norte-americanas o assassinaram em Junho de 2006, fazendo cair várias bombas sobre o seu esconderijo em Bagdad.

Em 2011, com a retirada militar dos EUA, o AQI passou a ser “Estado Islâmico” e Abu Bakr al-Baghdadi o seu novo “emir” (chefe”).

Sezin Öney, cientista política na Universidade de Bilkent, em Ancara, descarta qualquer “ignorância” quanto ao que se estava a passar. “Tratou-se, sim, de uma desvalorização das eventuais consequências da presença de uma organização radical e violenta”, comentou, também numa entrevista por e-mail. “No caso da al-Qaeda, por exemplo, a Turquia considerou sempre que era ‘um problema dos outros, das potências ocidentais’”. “Ao longo de 12 anos de poder do AKP [Partido da Justiça e Desenvolvimento, do Presidente Recep Tayyip Erdoğan], a al-Qaeda nunca foi considerada uma ameaça de segurança grave, apesar de ter cometido atentados bombistas em Istambul em 2003. A ascensão do ISIS poderia, assim, ter sido evitada, e a Turquia deveria ter alertado o mundo antes de esta organização se tornar mais forte.” Sobre os interesses dos vários actores regionais, da Turquia à Arábia Saudita, Sezin Oney, que é também colunista do jornal liberal Taraf, ©

Sezin Öney, cientista política na Universidade de Bilkent, em Ancara, e colunista do jornal liberal Taraf. Podem segui-la no Twitter em @SezinOney

Henri Barkey, professor de Relações Internacionais na Universidade de Lehigh (Pensilvânia, Estados Unidos), autor de vários livros, entre os quais Turkey’s Kurdish Question e Reluctant Neighbor: Turkey’s Role in the Middle East. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Henri Barkey, professor de Relações Internacionais na Universidade de Lehigh (Pensilvânia, Estados Unidos). Podem segui-lo no Twitter em @hbarkey

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no REDE ANGOLA, em 29 de Outubro de 2014 | This article, now updated, was originally posted on the news website REDE ANGOLA, October 29, 2014

Berlim 25 anos depois: Novas e velhas fronteiras

Between a high, solid wall and an egg that breaks against it, I will always stand on the side of the egg. Yes, no matter how right the wall may be and how wrong the egg, I will stand with the egg. Someone else will have to decide what is right and what is wrong; perhaps time or history will decide. If there were a novelist who, for whatever reason, wrote works standing with the wall, of what value would such works be? What is the meaning of this metaphor? In some cases, it is all too simple and clear. Bombers and tanks and rockets and white phosphorus shells are that high, solid wall. The eggs are the unarmed civilians who are crushed and burned and shot by them. This is one meaning of the metaphor. This is not all, though. It carries a deeper meaning. Think of it this way. Each of us is, more or less, an egg. Each of us is a unique, irreplaceable soul enclosed in a fragile shell. This is true of me, and it is true of each of you. And each of us, to a greater or lesser degree, is confronting a high, solid wall. The wall has a name: It is The System. The System is supposed to protect us, but sometimes it takes on a life of its own, and then it begins to kill us and cause us to kill others – coldly, efficiently, systematically.

Haruki Murakami

(Parte do discurso proferido pelo escritor japonês quando, apesar dos muitos protestos de palestinianos e outros críticos, aceitou receber, em Fevereiro de 2009, o Jerusalem Prize for the Freedom of the Individual in Society, o mais importante prémio literário israelita)

África do Sul- Moçambique 

Extensão: 120 km
Data: 1975-2013
A “Cobra de Fogo” ou "Khaftan” (Morte), na fronteira entre Moçambique a África do Sul . Este muro ou barreira de separação estende-se desde o rio Satara River até à Suazilândia. Aqui estava ainda em fase de construção.  © withmaliceandforethought.com/html/

A “Cobra de Fogo” ou “Khaftan” (Morte), na fronteira entre Moçambique a África do Sul . Este muro ou barreira de separação estende-se desde o rio Satara até à Suazilândia. Aqui , nesta imagem, estava ainda em fase de construção

A primeira vedação electrificada ao longo de 120 de um total de 491 quilómetros da fronteira entre a África do Sul e Moçambique foi erigida em 1975, durante o regime de apartheid. Chamavam-lhe “Cobra de Fogo”.

A descarga de 3300 volts só foi reduzida em 1990, ano da libertação de Nelson Mandela. Após a independência de Moçambique, durante a guerra civil (1977-1992) entre a Frelimo, no poder, e a Renamo, na oposição, uma média de 200 pessoas, a maioria mulheres e crianças, morriam por ano ao tentar saltar a barreira que liga o Parque Nacional do Limpopo ao Kruger National Park.

Até 1989, estima-se que cerca de 3000 moçambicanos perderam a vida – ou seja, mais do que o total de mortos no Muro de Berlim (80 em 28 anos). Em 2002, a vedação foi parcialmente removida para reabrir uma antiga rota de migração de elefantes.

Em 2013, porém, depois de, só nesse ano, terem sido abatidos 250 rinocerontes, Pretória e Maputo anunciaram a intenção de reconstruir o “muro” fronteiriço, desta vez para impedir a entrada de caçadores furtivos.

Arábia Saudita

Extensão: 9.000 km
Data: 2009-2014
Muro fronteiriço entre a Arábia Saudita e o Iéme. © International Business Times

Muro fronteiriço, ainda a ser construído, entre a Arábia Saudita e o Iémen

Para impedir a infiltração de terroristas e contrabandistas (de armas, droga e gado), proteger as reservas de petróleo (“267 mil milhões” de barris) e manter o poder absoluto da família real, a Arábia Saudita está a reforçar todas as suas fronteiras.

Em Julho de 2009, assinou um acordo com o consórcio europeu EADS para construir “uma das mais longas barreiras de segurança do mundo”, num total, de 9000 quilómetros.

O projecto original visava proteger, em particular, as fronteiras com o Iraque e o Iémen, os vizinhos mais turbulentos. Face ao avanço de grupos extremistas, como o “estado islâmico” (Daesh), o objectivo em 2014 passou a ser o de expandir os mecanismos de defesa em todas as frentes, incluindo vigilância por satélites, aviões de reconhecimento, radares, câmaras e sensores electrónicos.

No Golfo Pérsico, também os Emirados Árabes Unidos estão a erguer uma vedação na fronteira com Omã, enquanto o Kuwait, invadido pelas tropas de Saddam Hussein em 1990, reforça um muro de 215 quilómetros de comprimento junto ao Iraque.

Belfast 

Extensão: 21 km
Data: 1969
The Cupar Way 'peace wall', which divides the Protestant Shankill Road from the Catholic Falls Road. © Photograph: Antonio Olmos for the Observer

O “muro da paz” de Cupar Way, que divide o sector protestante de Shankill Road da zona católica de Falls Road, em Belfast, na Irlanda do Norte

A primeira das chamadas “Linhas da Paz” de Belfast – 99 barreiras de ferro, tijolo e aço, algumas até cinco quilómetros de comprimento – foi erguida em 1969, depois de tumultos e incêndios no sector ocidental da cidade.

A mais recente foi construída no final de 2008, no pátio de uma escola primária, na sequência de uma escalada de tensões entre as comunidades católica e protestante da Irlanda do Norte. O “muro” mais famoso (atracção turística) é o que separa Falls Road, bastião dos independentistas, de Shankill Road, reduto dos unionistas, leais à coroa britânica.

Em 2012, investigadores da Universidade do Ulster concluíram que, apesar de um processo de paz, iniciado em 1994, que permitiu a criação de um governo autónomo, “mais de dois em cada três residentes de Belfast ainda consideram necessários os muros junto às suas casas.”

Segundo o mesmo estudo, em toda a Irlanda do Norte (província do Reino Unido), “quatro em cada cinco pessoas considera natural a segregação, mesmo nas áreas onde já não são necessárias barreiras.”

Botswana-Zimbabwe 

Extensão: 500 km
Data: 2003

O rosto desesperado de alguém que tenta atravessar a fronteira entre o próspero Botswana e o caótico Zimbabwe

Uma vedação, de arame farpado e electrificada, estende-se ao longo de quase 500 quilómetros na fronteira separa o Botswana do Zimbabwe desde 2003.

O Governo de Gabarone justificou a construção como um acto de saúde pública: “Manter afastado gado com febre aftosa e garantir que os visitantes desinfectavam o calçado à entrada”. Analistas regionais, como os do think-tank International Crisis Group, asseguram que o objectivo principal muro é “impedir a entrada ilegal de centenas de milhares de zimbabweanos desesperados”, que vão em busca de melhores condições de vida num dos países mais prósperos do continente africano.

O Botswana, antigo protectorado britânico da Bechuanalândia, tem registado desde a sua independência, em 1966, uma das taxas de crescimento económica mais elevadas do mundo. No Zimbabwe de Robert Mugabe, a taxa de desemprego é superior a 90% e a hiperinflação atinge os 100.000%.

Caxemira 

Extensão: 500 km
Data: 1949
Pakistani Rangers (in Black) and Indian Border Security Force personnel (in Brown) perform the 'flag off' ceremony at the Pakistan-India Wagah Border Post on January 15, 2013. Indian Prime Minister Manmohan Singh warned Tuesday that there "cannot be business as usual" with neighbouring Pakistan after last week's deadly flare-up along the border in disputed Kashmir. © AFP PHOTO/Arif ALI

Rangers do Paquistão (de negro) e soldados da Força de Segurança da Índia (de castanho) durante o ritual de “descerrar a bandeira”, no posto fronteiriço de Wagah, em 15 de Janeiro de 2013. Caxemira continua a dividir os dois países

Vedações de arame farpado e electrificado, com sensores e alarmes, barricadas e minas terrestres, acompanham a chamada “Linha de Controlo” que, desde 1949, constitui a fronteira de facto entre as zonas da Caxemira administradas, respectivamente, pela Índia e o Paquistão.

Dispositivos iguais ou ainda mais sofisticados foram instalados ao longo de 500 dos 2900 quilómetros que separam os dois países independentes, mas rivais, desde 1948 – “uma das fronteiras mais voláteis do Planeta”, segundo a BBC.

A justificação para os vários muros (incluindo os do Punjab e Rajastão) é, invariavelmente, é a necessidade de prevenir a infiltração de terroristas. No caso da Caxemira, os paquistaneses alegam violação das resoluções da ONU.

Os indianos, autores do projecto, garantem que, deste modo, conseguiram reduzir em 80% os ataques de extremistas islâmicos, alguns deles suicidas.

Para travar o acesso de imigrantes ilegais e pôr fim ao contrabando de mercadorias, a Índia também já completou 70% de um muro nos 4000 km da sua fronteira com o Bangladesh.

Esta demarcação causou situações embaraçosas: algumas casas ficaram com a porta de entrada na Índia e o quintal no Bangladesh.

Ceuta e Melilla 

Extensão: 8 e 12 km
Data: 1990’s
Would-be immigrants sit on a fence at the Spanish-Moroccan border as they try to enter Melilla. © Juan Rios/Neupic/EPA

Imigrantes rejeitados: em busca de uma vida melhor, africanos sentam-se sobre uma das vedações na fronteira entre Marrocos e Espanha, tentando entrar no enclave de Melilla, em Abril de 2014

Para trancar a porta a imigrantes e contrabandistas no Norte de África, Espanha mandou construir, nos anos 1990, muros que separam Ceuta e Melilla de Marrocos, o reino que reclama soberania sobre aqueles enclaves autónomos, com um total de 160 mil habitantes.

O muro de Ceuta, ao longo de 8 quilómetros, custou cerca de 30 milhões de euros e foi financiado pela União Europeia. Consiste em elevadas vedações de arame farpado e postos de observação, sensores de ruído e movimento e câmaras de vídeo.

O muro de Melilla, com 12 quilómetros de comprimento, também está munido de todo este equipamento. Foi reforçado em 2005, depois de centenas de migrantes subsarianos terem tentado entrar em solo europeu, atravessando o Estreito de Gibraltar.

Pelo menos 15 morreram, baleados ou devido a quedas de alturas até seis metros. Com a conquista de Ceuta em 1415, começou a colonização portuguesa em África.

No século XV, recordou a revista alemã Der Spiegel, as pessoas extraíam ouro do fundo de um rio, empilhando [pepitas] como se fossem torres”. Hoje, as únicas torres são as de vigia.

Chipre

Extensão: 188 km
Data: 1974
The United Nations Buffer Zone in Cyprus is a demilitarised zone, colloquially known as the Green Line, that runs for more than 180.5 kilometres (112.2 mi) between the two de facto partitions of the island, the Greek Government of Cyprus-controlled area in the south and the Turkish Republic of Northern Cyprus-administered area in the north. ©

“Zona-Tampão das Nações Unidas em Chipre”, área desmilitarizada conhecida como “Linha Verde”, estabelecida em 1964,  separa de facto a área controlada pelo governo cipriota grego, no Sul, da área sob administração cipriota turca, no Norte, que apenas tem o reconhecimento oficial de Ancara

A cidade mediterrânica que os cipriotas gregos (no sul) chamam Nicósia e os cipriotas turcos (no norte) designam por Lefkosa é a única capital dividida do mundo depois da queda do Muro de Berlim.

Uma força de manutenção da paz das Nações Unidas continua a patrulhar a “zona desmilitarizada” definida por “linha de cessar-fogo”, um muro de separação de 188 quilómetros de extensão e 5 metros de altura.

Depois de sangrentos confrontos entre as duas comunidades, no início dos anos 1960, a divisão da “Ilha de Afrodite” consumou-se em 1974, quando a Turquia invadiu o Norte, onde mantém cerca de 40 mil soldados e colonos, em resposta a um golpe de estado apoiado por uma ditadura militar em Atenas.

O Sul, de maioria cristã ortodoxa, é a República de Chipre, que a União Europeia aceitou como Estado-membro, em 2004, apesar de ter rejeitado um referendo proposto pela ONU para a reunificação; o Norte, predominantemente muçulmano, é uma autoproclamada República Turca, reconhecida apenas por Ancara.

Os estrangeiros que quiserem visitar o Norte a partir do Sul têm de atravessar um checkpoint e mostrar os seus passaportes.

Coreias 

Extensão: 248 km
Data: 1952
A South Korean checkpoint in the DMZ (Viewed from the North Korean side), August 17th 2005. ©

Um checkpoint (posto de controlo militar) sul-coreano, na chamada DMZ, ou Zona Desmilitarizada, visto a partir da Coreia do Norte, numa imagem data de Agosto de 2005

Os 248 quilómetros de comprimento por quatro de largura que, desde 1952, separam as Coreias do Norte e do Sul têm a classificação benigna de “zona desmilitarizada” ou “linha de cessar-fogo (DMZ)”.

Isso não impede que o “Paralelo 38” (a delimitação original das administrações americana e soviética das Coreias terminada a II Guerra Mundial) seja considerado “a mais perigosa fronteira do mundo”.

Em Pyongyang está um regime que frequentemente ameaça usar as suas armas nucleares. A faixa de território que divide a meio a península coreana foi estabelecida após uma guerra que causou mais de três milhões de mortos, dois milhões dos quais civis.

Esta guerra foi declarada, em 1950, pelo Norte (apoiado por “voluntários” chineses de Mao Zedong). Os norte-coreanos chegaram a ocupar Seul, capital da Coreia do Sul, país apoiado pelos EUA, que mantêm tropas na região.

A zona desmilitarizada resulta de um cessar-fogo, não de um tratado de paz, porque nunca foi declarado um vencedor. Na mesma altura, foi demarcada também uma fronteira marítima, mas a Coreia do Norte nunca a aceitou, perpetuando a tensão regional.

Estados Unidos – México

Extensão: 3200 km
Data: 1991
US-Mexico barrier at Tijuana pedestrian border crossing. ©

Zona de travessia pedestre, na fronteira entre os Estados Unidos e o México, em Tijuana 

São três – na Califórnia, no Texas e no Arizona – as principais “barreiras de segurança” ao longo dos 3200 quilómetros que separam os Estados Unidos do México.

Estes “muros”, constituídos por painéis de metal com 4-5 metros de altura, sensores de infravermelhos e torres de vigia, câmaras e radares, começaram a ser erigidos em 1991 e a sua construção intensificou-se três anos depois, para impedir, supostamente, a entrada de migrantes e traficantes.

Resultam de três operações designadas, respectivamente, por Gatekeeper, Hold-the-Line e Safeguard. Segundo a Comissão Nacional Mexicana dos Direitos Humanos, citada pela BBC, mais de 5.600 imigrantes clandestinos morreram ao tentar atravessar a fronteira desde que começaram as restrições.

Um estudo efectuado em 2010, pela empresa de sondagens Rasmussen Reports, concluiu que 68% dos Americanos são a favor destas fortificações para diminuir o fluxo de indocumentados, contra 21% que se opõem.

Irão-Paquistão 

Extensão: 700 km
Data: 2007
Uma de raras imagens da fronteira entre o Irão (onde estão expostas fotografias dos líderes da República Islâmica) e do Paquistão. ©

Uma de raras imagens da fronteira entre o Irão (onde estão expostas fotografias dos líderes da República Islâmica) e do Paquistão

Para que serve o muro de mais de 90 centímetros de espessura e quase três metros de altura que o Irão está a construir, desde 2007, ao longo dos 700 quilómetros de fronteira com o Paquistão – o país cuja independência foi o primeiro a reconhecer em 1947?

A República Islâmica justifica esta obra com a urgência de pôr fim ao “contrabando de mercadorias, tráfico de drogas e imigração ilegal”.

Admite-se, porém, uma razão ainda mais premente: impedir que separatistas do Baluchistão-Paquistão (Jundallah/ Soldados de Deus) e do Sistão-Baluchistão (Jaysh al-Adl/ Exército da Justiça) se unam na luta por um Estado sunita que englobe as regiões do Sudoeste do Paquistão e Sudeste do Irão.

Aliados do Irão (de maioria xiita) na guerra com o Iraque (1980-1988), tal como os iranianos foram aliados dos paquistaneses nas várias guerras com a rival Índia (1947, 1965, 1971 e 1999), as autoridades em Islamabad aceitaram o muro fronteiriço porque está a ser edificado em território vizinho e porque ambas as partes lutam contra um inimigo comum.

Palestina

Extensão: 810 km
Data: 2002
Além do que designam por "muro do apartheid", os palestinianos enfrentam ainda, diariamente, a humilhação da passagem por checkpoints militares para poderem entrar nas suas terras e casas. © Najeh Hashlamoun / APA images)

Além do que designam por “muro do apartheid“, os palestinianos enfrentam ainda, diariamente, a humilhação da passagem por checkpoints militares para poderem entrar em Israel, onde alguns têm empregos, mas também nas suas próprias terras e casas. A “barreira de segurança”, segundo o termo oficial israelita, não é uma fronteira que demarca dois Estados; construída para prevenir atentados suicidas, divide comunidades palestinianas, transformando-as em enclaves e/ou guetos

No auge da Segunda Intifada, em 2002, Israel começou a construir o que exalta como “barreira de segurança” e os palestinianos esconjuram como “muro do apartheid”.

Absorvendo 85% da Cisjordânia ocupada, é uma ampla infra-estrutura de cimento armado e aço, com vedações parcialmente electrificadas, valas e sensores, areia (para detectar pegadas) e torres de vigia que se elevam até 8 metros de altura – o dobro das do Muro de Berlim.

Se o projecto for finalizado (falta 30%), terá 810 quilómetros de comprimento – extensão superior aos 320 km da “linha verde” definida pela guerra de 1967. Para construir a sua “barreira”, Israel continua a confiscar terras privadas palestinianas, inviabilizando o acesso a mercados e aquíferos.

Quase 80 povoações transformaram-se em enclaves inacessíveis aos seus habitantes, segundo relatórios da ONU. No início de Setembro deste ano, o ministro da Defesa, Moshe Ya’alon, declarou “propriedade do Estado” 400 hectares no bloco de colonatos de Gush Etzion. Foi a maior expropriação nas últimas três décadas.

Rio de Janeiro 

Extensão: 14,6 km
Data: 2009
Grupo de homens trabalha em construção de muro na favela Santa Marta, no Rio de Janeiro © AFP

Operários na construção de um muro na favela de Santa Marta, no Rio de Janeiro

A imprensa internacional entrou em alvoroço, estabelecendo comparações entre os muros de Berlim e da Cisjordânia, quando o governo do Rio de Janeiro decidiu, em 2009, erigir muros em redor de 13 favelas.

Com uma extensão de 14,6 quilómetros e altura variável entre 80 centímetros e três metros, numa primeira fase, os muros foram apresentados como tentativa de “preservar a Mata Atlântica”, impedindo a expansão das comunidades urbanas na Zona Sul e Zona Oeste.

Das quase mil favelas do Rio (onde são frequentes o tráfico de droga e confrontos com a polícia) só 23 tinham regras para a construção estabelecidas pela prefeitura, segundo a revista Veja.

Alguns moradores queixaram-se de “sensação de gueto”, dizendo que os muros “agravam a segregação” entre dois mundos – favelas e classe média –, que já viviam divididos.

No entanto, uma sondagem do instituto Datafolha, citada pela Veja, indica que “a maioria dos cariocas [naturais do Rio] entenderam muito bem a empreitada”.

Cerca de 60% rejeitou a ideia de que o propósito era apartar ricos e pobres e 51% dos inquiridos de baixos rendimentos deram a sua bênção aos muros.

Sara Ocidental 

Extensão: 2700 km
Data: 1980
o Reino de Marrocos também construiu, no Sara Ocidental, “uma das mais longas barreiras fronteiriças” – cerca de 2700 quilómetros de comprimento e mais de 30 metros de altura. Não se trata de um só muro mas de seis blocos com areia e pedra, arame farpado, bunkers e minas terrestres ©emovethewall.org/

Entre Marrocos e o Sara Ocidental foi construída aquela que tem sido descrita como “uma das mais longas barreiras fronteiriças” – cerca de 2700 quilómetros de comprimento e mais de 30 metros de altura. Não se trata de um só muro mas de seis blocos com areia e pedra, arame farpado, bunkers e minas terrestres

Embora critique os muros espanhóis em Ceuta e Melilla, o Reino de Marrocos também construiu, no Sara Ocidental, “uma das mais longas barreiras fronteiriças” – cerca de 2700 quilómetros de comprimento e mais de 30 metros de altura.

Não se trata de um só muro mas de seis blocos com areia e pedra, arame farpado, bunkers e minas terrestres (65.000 das quais terão sido desactivadas, segundo garantem as autoridades em Rabat).

A construção do muro, entre 1980 e 1987, começou depois da retirada da Espanha em 1976, forçada por uma “Marcha Verde” que envolveu 350 mil civis desarmados, erguendo bandeiras de Marrocos, exemplares do Corão e fotos do antigo Rei Hassan II.

O objectivo declarado para a construção do muro foi o de impedir ataques da Frente Polisário, movimento que travou 16 anos de guerra pela independência até um cessar-fogo em 1989.

Classificado pelos actuais governantes como “Províncias do Sul”, o Sara Ocidental é defendido por “200 mil a vários milhões” de soldados marroquinos, estimativas que variam consoante as fontes.

Uzbequistão-Quirguistão

Extensão: 870 km
Data: 1999
Villagers along the Kyrgyz-Uzbek border in Osh Oblast inspect a ditch dug by authorities to thwart smugglers. But according to villagers many cross-border traders still navigate the several-metres-deep ditch, shown here in March. © Bakyt Ibraimov http://centralasiaonline.com/en

Aldeões na fronteira entre o Quirguistão e o Uzbequistão, na área de Osh Oblast, inspeccionam um fosso escavado pelas autoridades, supostamente para travar a entrada de contrabandistas. Segundo habitantes locais, isso não impede que os suspeitos traficantes percorram as dezenas de quilómetros de túneis para chegarem aos seus destinos

A antiga república soviética do Uzbequistão, na Ásia Central, começou a construir, em 1999, um muro ao longo dos 870 quilómetros fronteira com o Quirguistão, alegando que pretende, deste modo, “conter a entrada de extremistas islâmicos e traficantes de droga”.

Um incidente que terá acelerado este plano foi um atentado bombista, em Tashkent, a capital, aparentemente cometido por terroristas provenientes do país vizinho. Apesar de independentes desde 1991, após o colapso da URSS, os dois Estados nunca chegaram a acordo sobre a fronteira comum.

Um outro muro separa também o Uzbequistão do Afeganistão, ao longo de 200 quilómetros de fronteira – a segunda mais vigiada do mundo, depois da zona desmilitarizada que divide as Coreias.

O “tampão” contra os Taliban e a al-Qaeda é constituído por duas vedações de arame farpado, uma delas emitindo descargas eléctricas de 380 volts. Há aqui também minas terrestres e patrulhas militares com ordens para atirar a matar sobre qualquer intruso.

Durante a “guerra ao terror” declarada por George W. Bush, o Presidente-ditador Islam Karimov foi dos maiores aliados dos EUA.

Este artigo, com um título diferente, foi originalmente publicado na revista SÁBADO, em 25 de Outubro de 2014 | This article, under a different headline, was originally published in the Portuguese news magazine SÁBADO, on October 25, 2014 

Os novos muros constroem-se em democracias

O mundo está cada vez mais global para o fluxo de bens e capitais, mas as fronteiras ganham extensas barreiras e vedações. Não são erguidas apenas contra terroristas ou narcotraficantes. São, sobretudo, fortificações contra imigrantes pobres. Entrevista com o académico Reece Jones, da Associação dos Geógrafos Americanos. (Ler mais | Read more…)

"O Mundo é muito pequeno para [ter] muros" © Direitos Reservados | All Rights Reserved

“O mundo é muito pequeno para [ter] muros”

No final da II Guerra Mundial havia menos de cinco muros em todo o mundo. Hoje, há cerca de 50 – e “aproximadamente ¾” foram construídos desde a queda do de Berlim.

Para Reece Jones, o geógrafo norte-americano que compilou estas estatísticas, “nunca como agora se viveu um período da História tão globalizado e com mais restrições fronteiriças”.

“É globalizado porque bens de consumo, indivíduos ricos e capitais se movem com mais facilidade em todo o mundo”, explicou-nos, em entrevista por e-mail, o autor de Border Walls: Security and the War on Terror in the United States, India and Israel.

“Tem mais fronteiras porque há mais muros do que em qualquer outra era. De igual modo, o montante de financiamento para a segurança fronteiriça e o número de agentes mobilizados para este fim aumentou dramaticamente”.

Vejamos o exemplo dos Estados Unidos: em 1990, havia 3.555 agentes da Border Patrol ou Polícia de Fronteira; actualmente, este número é superior a 21.000.

Os EUA gastam mais dinheiro na Polícia de Imigração (o equivalente a 14.000 milhões de euros) do que no conjunto de todas as outras polícias federais: FBI, serviços secretos, a Drug Enforcement Administration (DEA, combate ao narcotráfico) e agências anti-contrabando de álcool, tabaco e armas de fogo.

A justificação para murar as fronteiras tem sido “o medo de ameaças externas, como a infiltração de terroristas, propagação da violência do narcotráfico ou insurreições”, segundo Jones, professor no Departamento de Geografia da University of Hawai`i, Mānoa (Honolulu), um dos directores da revista Political Geography and Geopolitics e presidente do Political Geography Specialty Group da Association of American Geographers.

O terror não é, porém, a única razão. “O indicador que melhor faz prever onde um muro será edificado é a presença, numa fronteira, de uma acentuada descontinuidade de riqueza. A causa principal é a prevenção da migração económica.

Monumento aos que morreram tentado atravessar a fronteira entre o México e os Estados Unidos, entre Tijuana e San Diego. Cada caixão representa um ano e o número de mortos. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Monumento aos que morreram tentado atravessar a fronteira entre o México e os Estados Unidos, entre Tijuana e San Diego. Cada caixão representa um ano e o número de mortos

“Um imigrante pobre que, há uma geração, poderia atravessar sem problemas uma área urbana densamente povoada na fronteira dos EUA, hoje é forçado a seguir para um deserto árido onde muita gente morre”, realçou Jones.

“Outras alternativas são usar túneis de contrabandistas (mais de 30 foram encontrados na última década) ou viajar escondidos em veículos ou contentores (igualmente com recurso a contrabandistas)”.

Também na Europa, a maioria dos imigrantes arrisca a perigosa travessia do Mediterrâneo, onde se estima que 20 mil pessoas tenham morrido nos últimos 20 anos. Um muro não trava a imigração mas torna-a mais difícil. “Quem beneficia são os contrabandistas, contratados pelos imigrantes perante o encerramento de vias outrora mais simples”, crê Jones.

Outros beneficiários são políticos em busca de popularidade, ao justificarem os muros como garantia de emprego e protecção das suas circunscrições, e “um lobby das empresas de defesa”, para as quais os muros são como “outlet de escoamento de armas e equipamento de vigilância usados em guerras”.

A informação recolhida por Reece Jones sobre os actuais muros é impressionante, em particular no que diz respeito ao existente na fronteira EUA-México. Esta tinha uma vedação de apenas 100 quilómetros quando foi delimitada no século XIX. Agora, estende-se ao longo de 3.169 km, a maioria construída a partir dos anos 1990. Só existe “controlo efectivo” em cerca de 1120 km (ou seja 35%).

As restrições à imigração na Europa vistas por Patrick © Chappatte, suíço de cidadania e antepassados libaneses. Nasceu no Paquistão, em 1967, e viveu também em Singapura. Colabora comThe International Herald Tribune, Le Temps e Neue Zürcher Zeitung.

As restrições à imigração na Europa vistas por Patrick © Chappatte, suíço de cidadania e antepassados libaneses. Nasceu no Paquistão, em 1967, e viveu também em Singapura

Em 2010, segundo o Pew Research – Hispanic Trends Project, o número de “imigrantes indocumentados” nos EUA totalizava 11,2 milhões – um aumento de 33% face a 2000 (8,4 milhões) e de 300% em comparação com 1990, quando a estimativa era de 3,5 milhões.

Todas as obras para murar a fronteira foram entregues a empreiteiros privados, o que elevou os custos da vedação da zona pedonal de quase cerca de 3 milhões de euros por cada 1,6 km, em 2007, para 5 milhões, no ano seguinte, segundo o US Government Accountability Office (equivalente a um Tribunal de Contas).

Este organismo calculou ainda que o custo de instalar, operar e manter a vedação durante 20 anos ascenderá a 5.000 milhões de euros.

O preço em vidas é ainda mais chocante: a morgue de Tucson, no estado do Arizona, recebia uma média anual de 18 cadáveres de imigrantes nos anos 1990; em 2005 esse número escalou até 160 por ano. Em 2010, a Border Patrol encontrou 250 corpos em Tucson – “o número mais elevado de sempre”.

A fronteira EUA-México estará a ser mais mortífera do que a que separava as repúblicas Democrática e Federal da Alemanha, e que levou o americano Ronald Reagan a exortar o soviético Mikhail Gorbatchov, em 1987: “Open this gate [Brandeburgo], tear down this wall [Berlim]”. O Centro de Investigação Histórica Contemporânea, em Potsdam, confirmou recentemente que 125 (e não 268) pessoas foram mortas ou morreram, em circunstâncias diversas (desde acidentes a suicídios), ao tentar saltar o “muro da vergonha”, entre 1961, ano da inauguração, e 1989, ano da sua destruição.

Reece um dos directores da revista Political Geography and Geopolitics e presidente do Political Geography Specialty Group da Association of American Geographers ©

Reece Jones é um dos directores da revista Political Geography and Geopolitics e presidente do Political Geography Specialty Group da Association of American Geographers

Este artigo, com outro título, foi originalmente publicado na revista SÁBADO, em 25 de Outubro de 2014 | This article, under a different headline, was originally published in the Portuguese news magazine SÁBADO, on October 25, 2014

Berlin Wall: “Game of Thrones” 1989-2014

When the Berlin Wall came down, Helmut Kohl was in power in Bonn, Mikhail Gorbachev in Moscow, and George H.W. Bush in Washington. What do distinguish them from Angela Merkel, Vladimir Putin and Barack Obama? I’ve got a brief interview, via Facebook, with political economist Dwayne Woods, Associate Professor of Political Science at Purdue University (Indiana, U.S.) whose research interests focus on different regions, with a particular emphasis on Western Europe, and who has just co-edited the book The Many Faces of Populism: Current Perspectives. These are his (really funny) answers. (Read more | Read more…)

©Tjeerd Royaards | cartoonmovement.com/

©Tjeerd Royaards | cartoonmovement.com/

Alan Crawford and Tony Czuczka, authors of Angela Merkel: A Chancellorship Forged in Crisis, are convinced that the German Chancellor’s DDR’s years have “shaped her politics” – at all levels. How do you compare her to Mr. Helmut Kohl, and at what extent would the collapse of the Soviet Union and of the Berlin Wall had been possible if she was the “woman in charge” in 1989?  

Angela Merkel is a physicist by training; thus, for her everything should be clear and precise. Like physics, politics is about discovering rules (in physics, its laws). Once those rules are known, you follow them. Kohl was more intuitive and flexible.

Like his non-diet, Kohl was a bon vivant. He liked a grand buffet. All was welcome as long as they ate like him and with him. Merkel says to Greece, Spain and Portugal rules are rules even if there is pain.

Would be possible a privileged relationship between Mrs. Merkel and Mr. Mikhail Gorbachev like the one established by Mr. Kohl? And would Mr. Kohl react like Mrs. Merkel in face of the aggressive position of Russia’s Putin in Ukraine?

Merkel would have had a cordial relationship with Mr. Gorbachev but it would not be a warm relationship. Merkel respects distance. Like a good physicist what matters is cold fusion. Her reaction to Russia’s aggression in Ukraine is contrary to Kohl.

Kohl would have called [Vladimir] Putin and said “my friend this nonsense must end.” Merkel called and said to Putin in her East German accent, Herr Putin, don’t break the rules. Putin responded in his East German accent – I make the rules.

© Victor Ndula cartoonmovement.com/cartoon/

© Victor Ndula cartoonmovement.com/cartoon/

In 1989, Putin was a KGB chief in Dresden, apparently unfamiliar with what was going on in Russia. For him, the end of the USSR was “the greatest geopolitical catastrophe of the 20th century” and his policies nowadays tend to be seen like an attempt to restore the “lost dignity”. In your opinion, would the events of 1989 unfold like they did had Putin (not Gorbachev) been in power?

If Putin had been in power in 1989, he would have been more of a party hack than Gorbachev was. He would have staged a military coup against himself as an excuse to retake power and invade Eastern Europe.

Putin would have claimed that the break up of the Soviet Union was a plot hatched in a McDonald restaurant in West Berlin. Putin’s rallying cry to the Communist would have been this “big mac” will not stand.

In Putin’s mind, is Ukraine now what Germany was back in 1989? Is he equating the annexation of Crimea with the German reunification? How would Kohl react to this challenge, comparing with Mrs. Merkel’s position?

For Putin, Ukraine is part of the eternal Russian motherland. If he cannot have it all, he’ll settle for just the Eastern half. If Kohl was in power today, he would have told Putin breaking rules is one thing, ending a bon vivant friendship is unacceptable.

Kohl would have called for a unified front against Putin’s aggression. Being from the Rhineland, Kohl would have called a summit of European nations to adopt strong measures against Russia. Then, he would have opened up some fine bottles of German Riesling. He would have quipped: no good crisis should be wasted without drink.

© Foreign Policy

© Foreign Policy

Regarding Mr. Barack Obama, how do you compare his foreign policy with the one adopted by George H.W. Bush, his predecessor in 1989? “Bush father” was criticised for his alleged foot-dragging towards the pro-democracy movements in Eastern Europe, but in the Middle East, on the contrary, he was bold, briefly cutting off loan guarantees to the Israeli government over their settlement policies, successfully forcing Prime Minister Yitzhak Shamir to attend the Madrid Peace Conference.

Like all “badly” trained lawyers, Obama is cautious and a realist. Also, like all non-practicing lawyers, he forgets that waiting on events to unfold is not equivalent to stretching out billing hours. Still, he prefers to wait until things happen before deciding on what to do.

After things happened, he then decides that there is not much one can do. G.H.W. Bush was a man of action and principle. After all, he served for one year as the director of the CIA. In his worldview, there is no event that a bit of skullduggery cannot resolve.

Back in 1989, Obama would have patiently put together an anti-Saddam [Hussein] coalition like G.H.W. Bush [after Iraq invaded Kuwait in 1990]. He would have invaded with the coalition and then stopped before entering Baghdad.

He would have not pressured Shamir as much on the Madrid Peace Conference. Obama is pessimistic about chances for Peace in the Middle East. Then, he would have argued that both sides are acting in bad faith and little would come out of a peace conference. G.H.W. Bush believed American power could force Israel to make concessions.

Obama would have believed that Israeli clout in American politics would have forced the U.S. to back down. To avoid losing face, he would have been passive aggressive.

Finally, how do you evaluate the relationship between Mr. Obama and Mrs. Merkel and between Mr. Obama and Mr. Putin?

Merkel’s relationship to Obama is like her relationship with her husband. All is great as long as you keep your distance. Once she learned that Obama was listening in on her conversations, she padlocked the door. Obama now knocks and she ask, whose there? When he says Obama, she responded I’m busy.

Until recently, Putin’s breaking of the rules irked her but he still bought German goods. She still prefers an East German accented rule breaker to a non-German speaking snooper.

This article was originally published in the Portuguese news magazine SÁBADO magazine, on October 25th 2014

1989: Cronologia do “ano que mudou o mundo”

To do great things is difficult; but to command great things is more difficult.

—Friedrich Nietzsche

 

JANEIRO

Dia 7: Morre Hirohito, o imperador que mais tempo ocupou o trono do Japão (desde 1926). O seu reinado ficou, sobretudo, marcado pelo ataque a Pearl Harbour que forçou os Estados Unidos a envolverem-se na II Guerra Mundial. Em 1945, depois de Hiroxima e Nagasaki terem sido dizimadas por bombas atómicas norte-americanas, o soberano que os súbditos veneravam como ser divino falou, via rádio, pela primeira vez, recomendando a uma nação militarista que aceitasse o impossível: a rendição;

Dia 10: Cerca de 30 mil soldados e quase 10.000 “conselheiros civis” cubanos começam a sair de Angola, para onde foram enviados por Fidel Castro, em meados dos anos 1970. A retirada, concluída em 1991, foi aprovada pela Resolução 626 do Conselho de Segurança da ONU na sequência de dois acordos (um deles com vista à independência da Namíbia), assinados em Nova Iorque, entre os governos de Luanda, Pretória e Havana. (Na foto: O general cubano, Samuel Rodiles, à esquerda, o general brasileiro e chefe da missão de verificação da ONU, Péricles Ferreira Gomes, e o general angolano Ciel da Conceição assinam, no Aeroporto de Luanda, o acordo de retirada.)

A retirada dos soldados cubanos permitiu avançar com a paz. Na foto: O general cubano, Samuel Rodiles, o general brasileiro e chefe da missão de verificação da retirada das tropas cubanas do território angolano da ONU, Péricles Ferreira Gomes, e o general angolano Ciel da Conceição assinam um documento sobre a retirada no dia 10 de janeiro de 1989 no Aeroporto de Luanda © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Dia 18: O POUP, partido comunista que governava sem rival a Polónia, vota a favor da legalização do Solidariedade. Este sindicato é liderado pelo activista dos estaleiros navais de Gdansk Lech Walesa, que viria a ser Presidente de 1990 a 1995, e ganharia um Prémio Nobel da Paz em 1993;

Dia 20: George H. W. Bush sucede a Ronald Reagan, outro republicano, como Presidente (o 41º) dos Estados Unidos;

FEVEREIRO

Dia 10: Ron Brown torna-se no primeiro afro-americano a liderar um grande partido político nos EUA, ao ser eleito presidente do Comité Nacional Democrático. Seria esta organização a assumir toda a máquina eleitoral que conduziria Barack Obama à Casa Branca, desde o seu primeiro mandato em 2009 até ao presente;

Dia 11: Barbara Clementine Harris é consagrada bispo da Igreja Episcopal nos EUA – a primeira mulher a assumir este posto a nível nacional e em todo o mundo anglicano;

Dia 14: O ayatollah Khomeini, que dez anos antes derrubara o último Xá da Pérsia, condena à morte, através de um édito religioso (fatwa), o escritor Salman Rushdie, considerando “blasfemo” o livro Os Versículos Satânicos. No mesmo dia em que o fundador da República Islâmica do Irão recuava a um tempo de trevas, os primeiros 24 satélites GPS (Global Positioning System) eram colocados em órbita, sinal de imparável progresso tecnológico;

Dia 15: Após quase uma década de ocupação militar, também conhecida como “Vietname soviético”, a URSS completa a retirada das suas tropas do Afeganistão. Enviadas por Leonid Brejnev, em 1979, enfrentaram a dura oposição de combatentes islâmicos, Mujahedin, financiados e armados com mísseis Stinger (capazes de derrubar helicópteros) por dois presidentes nos Estados Unidos: Jimmy Carter e Ronald Reagan. Esta guerra matou mais de um milhão de afegãos e 13.000 soldados invasores. Cerca de cinco milhões de civis tornaram-se refugiados nos vizinhos Paquistão e Iraque.

 

MARÇO

Dia 1: A Polónia começa a liberalizar o seu sistema de câmbios abrindo caminho a um sistema capitalista;

Dia 3: Portugal vence, pela primeira vez, um Campeonato Mundial de Futebol de Sub-20, ao derrotar a Nigéria, por 2-0, na final, em Riad (Arábia Saudita);

Dia 15: Israel aceita devolver a estância de Taba ao Egipto, a última faixa de território que recusara evacuar em 1981, após a assinatura do primeiro tratado de paz com um país árabe. Foi este acordo histórico que permitiu a retirada da Península do Sinai conquistada na guerra de 1967;

Dia 16: O Comité Central do Partido Comunista da União Soviética aprova uma reforma que dá aos camponeses o direito de arrendar terras por tempo indeterminado;

Dia 23: No âmbito de uma revisão constitucional, a Sérvia revoga a autonomia da província do Kosovo, assolada por protestos, desde 1981, reclamando ser uma república da Jugoslávia. A maioria albanesa da população revolta-se contra a decisão de Belgrado. Após a dissolução da federação que o marechal Tito mantinha unida, segue-se uma guerra de que resultaria, em 2008, uma independência não reconhecida por todos os países da ONU. Portugal aceitou essa soberania em 7 de Outubro de 2008.

ABRIL

Dia 1: Primeiro na Escócia e, depois, no restante Reino Unido, o Governo ultraliberal de Margaret Thatcher introduz um “Imposto Comunitário” conhecido como Poll Tax. A “Dama de Ferro” (1925-2013) pretendia cobrar uma taxa única por cada habitante, para “custear os governos locais”, substituindo um outro que se baseava no valor dos imóveis de cada contribuinte. Esta medida fiscal, que favorecia os mais ricos, seria abandonada por outro conservador, John Major, depois de violentos protestos populares;

Dia 7: O submarino nuclear soviético Komsomolets afunda-se no Mar de Barents, no Oceano Ártico, com duas ogivas ainda activas. Morrem os 42 tripulantes a bordo. As autoridades abandonam o tradicional secretismo e ordenam um inquérito público, permitindo que fossem divulgadas informações confidenciais.

Dia 15: Morre Hu Yaobang, afastado da liderança do Partido Comunista Chinês por recusar as ordens do “homem forte”, Deng Xiaoping, para reprimir o movimento estudantil pró-democracia, já activo desde 1986;

Dia 25: Apresentação do Motorola MicroTAC Personal Cellular Telephone: considerado, nesta altura, o mais pequeno telemóvel do mundo.

 

MAIO

Dia 1: A URSS emite o seu primeiro cartão VISA, num esforço para digitalizar o sistema bancário soviético;

Dia 3: Início da construção em Moscovo do primeiro restaurante da cadeia norte-americana McDonald’s. Seria inaugurado a 31 de Janeiro de 1990. Na inauguração, a fila era tão grande que o conceito de fast food (comida rápida) rapidamente desapareceu:  foi muito lentamente que os empregados venderam, num só dia, hambúrgueres a mais de 10.000 pessoas

 

Dia 14: Mikhail Gorbatchov é o primeiro líder soviético a visitar a China, depois de Nikita Krutchov (nos anos 1960);

Dia 29: A NATO e a União Soviética aceitam reduzir o número de armas nucleares de curto alcance na Europa;

JUNHO

Dia 3: O octogenário ayatollah Khomeini morre, após sofrer “cinco ataques cardíacos em apenas dez dias”. Sucede-lhe Ali Khamenei, um teólogo desconhecido que rapidamente se tornou na figura mais poderosa e temível do actual Irão.

Dia 4: Massacre na Praça de Tiananmen (ou da “Paz Celestial”), em Pequim, quando o Exército esmaga uma manifestação de milhares de jovens exigindo democracia. Na Polónia, o sindicato-partido Solidariedade vence as eleições, abrindo caminho à primeira de várias revoluções democráticas na Europa de Leste;

 

Dia 16: Cerca de 250 mil pessoas concentram-se em Budapeste, para um segundo funeral, simbólico, de Imre Nagy. Um carismático primeiro-ministro, símbolo da Revolução Húngara de 1956, esmagada pelos invasores soviéticos, foi executado sob a acusação de “traição”, dois anos depois;

Dia 24: Jiang Zemin é eleito secretário-geral do PC Chinês, cargo que ocupará até 2002. Sob a sua liderança, o país acelerou o ritmo das reformas económicas, e recuperou a soberania de Hong Kong e de Macau, territórios outrora administrados, respectivamente, pela Grã-Bretanha e por Portugal, e hoje “regiões administrativas especiais”.

JULHO

Dia 10: Cerca de 300 mil trabalhadores nas minas de carvão na Sibéria iniciam o que é considerada “a maior greve na URSS desde os anos 1920”, exigindo “melhores condições de vida e menos burocracia”;

Dia 17: A Polónia e a Santa Sé – com Karol Wojtyla, antigo cardeal de Cracóvia (e aliado de Lech Walesa), como Papa João Paulo II – restabelecem laços diplomáticos, depois de uma ruptura de quase meio século.

Dia 19: O antigo general comunista Wojciech Jaruzelski (1923-2014), que impôs a lei marcial em 1981 para travar a democracia, é eleito, pela Assembleia Nacional, primeiro Presidente da República da Polónia. Foi ele, como ministro da Defesa, quem ordenou a invasão da Checoslováquia em 1968, até as tropas polacas serem substituídas por soviéticas. Depois de se demitir em 1990, reconheceu que “o comunismo falhou” e assumiu-se como “social-democrata” (Na foto, Jaruzelski, à esquerda, está com Lech Walesa, o líder da central sindical Solidariedade que mais tarde haveria  de ser Presidente);

 

Dia 20: A Junta Militar na Birmânia coloca sob prisão domiciliária a líder da oposição, Aung San Suu Kyi, que seria libertada apenas em 2010. Antes, em 1991, ganharia o Nobel da Paz, um de vários prémios que lhe foi atribuído pela sua luta pelos direitos humanos e democracia.

AGOSTO

Dia 15: F. W. De Klerk é eleito Presidente da África do Sul – e o último do regime de apartheid –, sucedendo a P.W. Botha, que se demitira na véspera;

Dia 23: Dois milhões de cidadãos da Estónia, Letónia e Lituânia, ainda sob ocupação soviética, formam uma corrente humana ao longo de 600 quilómetros. O objectivo desta “Via Báltica” é exigir liberdade e independência;

SETEMBRO

Dia 10: O Governo húngaro abre as fronteiras ocidentais do país para que possam entrar os que fogem da República Democrática da Alemanha (RDA);

Dia 26: O Vietname anuncia a retirada das suas últimas tropas do Camboja, depois de 11 anos de ocupação. As tropas vietnamitas invadiram o antigo Kampuchea em 25 de Dezembro de 1978 com o intuito deliberado de afastar do poder o regime sanguinário dos Khmer Vermelhos, responsável pelo genocídio de mais de dois milhões de pessoas – um quarto da população –, entre 1975 e 1979;

 

Dia 30: Quase 7000 pessoas que chegam a Praga, de comboio, provenientes da RDA e com estatuto de “refugiados especiais”, são autorizados a entrar na República Federal da Alemanha (RFA);

OUTUBRO

Dia 1: Na sequência de uma lei que vinha sendo elaborada desde 7 de Junho, a Dinamarca autoriza o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo – a primeira legislação deste tipo em todo o mundo;

Dia 5: O líder espiritual do Tibete, Dalai Lama, ganha o Prémio Nobel da Paz, em reconhecimento por décadas de luta contra o domínio chinês;

Dia 18: A NASA lança a nave espacial não tripulada Galileu (que terminou a sua missão em 2003) para estudar o planeta Júpiter. Em Budapeste, a Assembleia Nacional da Hungria vota a favor da democracia multipartidária. Na RDA, Erich Honecker sai de cena, alegadamente por “motivos de saúde”, cedendo a chefia do partido comunista (SED) e a do Estado a Egon Krenz. Na Alemanha unificada, o último líder comunista foi acusado (1997) e condenado (1999) pelas mortes dos que tentaram saltar o Muro de Berlim, que caiu durante o seu mandato. Em 2003, Krenz foi libertado após cumprir metade da pena. Abandonou a política;

 

Dia 23: O Presidente Matyas Szuros proclama a nova República da Hungria – no 33º aniversário da revolução de 1956. A Constituição exalta “a democracia burguesa e o socialismo democrático”. A 12 de Abril de 2003, mais de 80% dos húngaros votaram a favor da adesão à União Europeia. O país foi aceite como membro pleno em 1 de Maio de 2004;

NOVEMBRO

Dia 3: Refugiados da RDA entram na Alemanha Federal, pela cidade bávara de Hof, depois de terem sido autorizados a atravessar a antiga Checoslováquia;

Dia 9: Uma “resposta improvisada e errada” de Günter Schabowski durante uma conferência de imprensa, transmitida em directo pela televisão, terá sido o suficiente para acelerar a queda do Muro de Berlim. O antigo dirigente do SED, ex-partido comunista da RDA, disse que novas regras para viajar entre os dois sectores da cidade entrariam em vigor “imediatamente”. Nessa mesma noite, incapazes de travar a multidão que acorrera a seis checkpoints, os guardas fronteiriços, em número inferior e sem as instruções a que Schabowski aludira, foram obrigados a abrir os portões. (Na foto, um alemão em Berlim Ocidental, um alemão destrói o muro junto à Porta de Brandeburgo, Novembro de 1989.)

A West-Berliner hitting the wall next to the Brandenburg Gate on November 10, 1989 © Jean-Claude Coutausse

Dia 10: O Partido Comunista da Bulgária, durante 45 anos no poder, muda de nome para partido Socialista da Bulgária. O seu líder, Todor Zhivkov, é substituído pelo então ministro dos Negócios Estrangeiros, Petar Mladenov.;

Dia 12: Primeiras eleições presidenciais no Brasil desde 1960. Fernando Collor de Mello (à direita na foto) e Luiz Inácio Lula da Silva (à esquerda) são apurados para uma segunda volta, em 17 de Dezembro, que será ganha pelo primeiro. Lula chegaria ao poder em 2003, para dois mandatos que terminaram em 2011. Sucedeu-lhe Dilma Rousseff – a primeira mulher a exercer este cargo num país de língua portuguesa.

 

Dia 16: É inaugurada em Moscovo a primeira loja de cosméticos da cadeia norte-americana Estée Lauder.

Dia 17: Cerca de meio milhão de pessoas manifestam-se pacificamente em Praga em defesa da divisão da Checoslováquia (onde, a 28, o partido comunista abdicaria do monopólio do poder). A “Revolução de Veludo” daria origem a dois novos Estados: a República Checa, com capital em Praga, e a Eslováquia, com capital em Bratislava;

DEZEMBRO

Dia 1: Num encontro sem precedentes com o Papa João Paulo II, o Presidente da URSS, Mikhail Gorbatchov, promete oferecer “mais liberdade religiosa” aos soviéticos;

 

Dia 3: Demissão colectiva da liderança do partido comunista da RDA – três dias depois, Egon Krenz seria substituído por Manfred Gerlach, o primeiro não comunista nomeado para presidente do Conselho de Estado da Alemanha de Leste;

Dia 10: O Partido Socialista Soviético Lituano é o primeiro a abolir o monopólio do poder nas antigas repúblicas da URSS. Na Mongólia, Tsakhiagiin Elbegdorj (Presidente da República desde 2009) anuncia a criação de um movimento democrático que extingue 70 anos de poder comunista. Foi ele quem, em 1992, ajudou a redigir uma Constituição que aboliu a pena de morte e instituiu uma economia de mercado; salvaguarda os direitos das mulheres e protege a liberdade de imprensa;

Dia 22: Depois de uma semana de protestos sangrentos na Roménia, chega ao fim a ditadura de Nicolae Ceausescu, substituído por Ion Iliescu. O Presidente e a mulher, Elena, fogem do palácio em Bucareste, de helicóptero, mas são capturados. Num julgamento de apenas duas horas, o casal é acusado de “crimes contra a Humanidade” e executado por um pelotão de fuzilamento. Os soldados que os mataram foram os mesmos que, no dia anterior, seguiram as suas ordens para reprimir os que, na cidade de Timisoara, desafiavam um regime brutal e decadente;

Dia 29: Vaclav Havel (na foto), romancista, ensaísta, poeta, dramaturgo, filósofo e dissidente político, é eleito Presidente da Checoslováquia. Ocupa este posto até 1993, ano em que se torna no primeiro chefe de Estado da República Checa (até 2003), nascida da “Revolução de Veludo”.

Este artigo foi originalmente publicado na revista SÁBADO, em 25 de Outubro de 2014 | This article was originally published in the Portuguese news magazine SÁBADO, on October 25, 2014