Kailash Satyarthi quer usar o Nobel da Paz para abolir a escravatura infantil

A “semana contra a escravatura infantil”, de 20 a 26 de Novembro [de 2014], é uma campanha global sem precedentes lançada pelo indiano que diz ter resgatado “muito mais de 80 mil crianças” do trabalho forçado e servidão. Ouvimos o seu testemunho e o de Shyima Hall, uma egípcia que, aos 8 anos, foi vendida pelos pais para pagarem uma dívida. (Ler mais | Read more…)

Kailash Satyarthi, o indiano que partilhou a paquistanesa Malala Yousafzai o Nobel da Paz 2014 © gazetadebistrita.ro/

Kailash Satyarthi, o indiano que partilhou a paquistanesa Malala Yousafzai o Nobel da Paz 2014
© gazetadebistrita.ro

Ela trabalhava “mais de 16 horas por dia”, fazendo de tudo, desde cuidar dos cinco filhos do casal que a comprou a limpar uma casa de cinco andares num condomínio fechado. Só tinha autorização para comer “os restos do jantar” e dormitar no pavimento de uma garagem sem ventilação. Ela é Shyima Hall, antiga escrava egípcia cuja história se assemelha à de milhares de crianças que o indiano Kailash Satyarthi ajudou a libertar, numa missão que lhe valeu o Nobel da Paz 2014, partilhado com a paquistanesa Malala Yousafzai.

Hall, que acaba de lançar a autobiografia Hidden Girl, quer colocar a sua “experiência de vítima” ao serviço de uma agência de polícia ou de imigração nos EUA, onde agora reside como cidadã americana. Satyarthi aproveitou o Nobel para dar maior visibilidade à sua mais recente iniciativa, End Child Slavery Week, que decorre de 20 a 26 de Novembro [de 2014].

“Queremos convencer a ONU a incluir nos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável a abolição da escravatura infantil”, diz-me, numa entrevista por telefone, o líder da Marcha Global contra o Trabalho Infantil.

“Há 15-25 anos, o número de crianças a fazer trabalho infantil era de 250 milhões e agora desceu para 168 milhões”, afirma o engenheiro que, em 1980, fundou o Bachpan Bachao Andolan (BBA, Movimento para Salvar a Infância). “No que diz respeito a crianças escravas, o número era de 5,5 milhões, há 15 anos, mas segundo a Organização Internacional do Trabalho já subiu, em 2013, para 8,4 milhões. Isto é muito grave!”

“Estas crianças precisam de atenção especial e de ser libertadas imediatamente – é uma emergência”, frisa o Nobel. ”Não pode haver compromissos. Em qualquer país civilizado, a escravatura infantil é o crime mais hediondo. Por isso, lançámos esta campanha para que a abolição seja um objectivo prioritário da ONU.”

© Nehru Centre Library

© Nehru Centre Library

O aumento da escravatura, de adultos e crianças, foi constatado pela Walk Free Foundation (WFF), com sede na Austrália, que no recém-divulgado The Global Slavery Index 2014, calcula em 35,8 milhões o número de escravos em 167 países – a Índia de Satyarthi no topo da lista (14,29 milhões). Isto representa um aumento de 20% em relação aos 29,8 milhões registados em 2013.

“A escravatura é muito pior do que o trabalho infantil”, sublinha Satyarthi que, durante a conversa telefónica, repete o quanto o seu activismo foi influenciado ao ver, no primeiro dia de aulas, um menino da sua idade, 5-6 anos, a engraxar sapatos na escadaria da escola. “Fiquei chocado: eu ia aprender ideias novas e ele estava ali, a trabalhar. Contei isto ao professor e ele não se comoveu: ‘É gente pobre. Nada de novo.’ Senti-me desconfortável, e até furioso.”

“Fui falar com o pai da criança, que parecia também conformado. Mas eu não. Perguntei-me: ‘Por que é que algumas pessoas têm direito à educação e outros têm de desistir dos seus sonhos?’ Esta foi a primeira inspiração para a organização que dirijo.”

“Como escravas, as crianças não têm um mínimo de liberdade”, adianta Satyarthi. “Muitas são órfãs ou as suas famílias são escravas. Sozinhas, facilmente são apanhadas por traficantes que as usam, por exemplo, em redes de prostituição ou as recrutam como soldados em conflitos armados. Não é apenas ‘a vergonha escondida’ da Índia, mas de toda a Humanidade. Este problema existe noutros países na Ásia, na África Subsariana e até na América, em particular na costa ocidental.”

Entrada ilegal nos EUA foi o que aconteceu a Shyima Hall. Tinha 10 anos, em 2000, quando os seus “donos” a levaram para Irvine, na Califórnia. Ainda que explorada durante mais dois anos e meio, a mudança foi a sua salvação. “Tenho a certeza de que no Egipto continuaria a ser escrava”, afirma, numa entrevista, por e-mail. “O meu ‘contrato’ era por dez anos, mas pressinto que iria ser perpétuo.”

Shyima Hall, antiga escrava egípcia, conta os horrores do seu cativeiro na autobiografia Hidden Girl @ Simon and Schuster

Shyima Hall, antiga escrava egípcia, conta os horrores do cativeiro na autobiografia Hidden Girl
© Simon and Schuster

Como e por que motivo é que a menina que antes usava o apelido de El-Sayed Hassan, a sétima de uma família de 11 filhos, se tornou escrava? “Uma das minhas irmãs foi acusada de ter roubado dinheiro aos patrões e os meus pais tinham de saldar a dívida, por isso venderam-me”, conta.

“Também precisavam de dinheiro, e suponho que seria suficiente o que recebiam por mês [cerca de 100 libras egípcias, o equivalente a dez euros]. Eu fazia o que me exigiam.”

Shyima era tão pequenina que tinha de recorrer a um estrado para chegar ao lava-louça. E foi depois de a ver, pela janela, lavar a louça várias vezes madrugada adentro, cada vez mais adoentada devido aos maus tratos, que um anónimo, “talvez um vizinho”, acredita ela, alertou as autoridades, que a resgataram.

Os patrões, entretanto divorciados, Abdel Nasser Ibrahim, de 45 anos, e Amal Ahmed El Motelib, de 43, que Shyima trata por “The Dad” e “The Mom”, foram julgados e condenados em 2006. Cumpriram penas, respectivamente, de 36 e 22 meses de prisão – o primeiro processo por tráfico de seres humanos em Orange County.

“Não faço a mínima ideia em que é que os meus pais biológicos pensavam quando me venderam; ainda me sinto revoltada e magoada”, confessa Shyima, que depois de passar por vários lares de acolhimento investiu na sua educação para se tornar “verdadeiramente livre”. É gerente de um armazém e planeia inscrever-se num serviço de segurança interna para ajudar a combater a escravatura infantil. “Tenho uma filha de dois anos e sei que a minha experiência como escrava faz de mim uma mãe melhor. Quero que ela seja uma mulher forte e independente. Hoje, não tenho medo e sou feliz.”

Quanto a Kailash Satyarthi, também está “muito feliz” com o Nobel da Paz. “Pela primeira vez na história deste prémio foi levantada a questão dos mais desprotegidos e esquecidos, o que dá esperança a centenas de milhões de crianças.”

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Este artigo, com outro título, foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO em 22 de Novembro de 2014 | This article, under the a different title, was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on November 22, 2014

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