James Kofi Annan: De servo a libertador de escravos

Este activista do Gana fugiu da servidão e hoje dirige uma organização não-governamental, a Challenging Heights, que já resgatou mais de 1200 crianças vítimas de traficantes. (Ler mais | Read more…)

James Kofi Annan, de escravo a líder da ONG Challenging Heights © survivorsofslavery.org/

James Kofi Annan fugiu da escravatura e depois de um percurso escolar brilhante fundou a ONG Challenging Heights
© survivorsofslavery.org

Até dia 26, está em marcha a primeira campanha global para abolir a escravatura infantil. End Child Slavery Week é uma iniciativa do indiano Kailash Satyarthi, que dividiu o Nobel da Paz 2014 com a paquistanesa Malala Yousafzai. No Gana, onde foi escravo, o activista James Kofi Annan acredita que é possível “erradicar em breve” o cativeiro a que estão sujeitas cerca de 8,5 milhões de crianças.

“Nada é impossível a um espírito humano determinado”, sublinha o fundador da organização não governamental (ONG) Challenging Heights ou “Desafiar as Alturas”, numa entrevista, por e-mail. E a história de James que de comum com Kofi Annan, o antigo secretário-geral da ONU, tem apenas a origem, a Região Central do Gana, é a de um homem empenhado em transformar vidas.

Nascido na povoação de Winneba, James Annan é “o último – e o único que teve educação formal – dos 12 filhos de um casal de analfabetos”.

Tinha seis anos quando o pai, “a quem cabia a última palavra, segundo a tradição”, o enviou para uma aldeia piscatória “a nove horas de distância” da terra natal.

Não sei se fui o preço a pagar para saldar dívidas mas sei que outros familiares sofreram como eu”, afirma. “Muitos conseguiram libertar-se e entrar na escola; outros tornaram-se traficantes de escravos, depois de livres.”

James Annan (Kofi é nome próprio, não apelido), conta que saiu de casa descalço, viajando de carro com outros trabalhadores, crianças e adultos, até ao Lago Volta. Aqui trabalhava durante 13 horas por dia. Negavam-lhe alimentos, impediam-no de dormir e era espancado se ousasse queixar-se.

Lembra-se do primeiro dia como escravo, mas não dá pormenores, guardados para uma autobiografia. Ainda assim, adianta: “De início, éramos seis crianças. Posteriormente, este número aumentou. Tivemos vários patrões. Uns foram relativamente brandos. Outros agiam com crueldade extrema. Algumas meninas serviam, simultaneamente, como empregadas domésticas e ‘objectos sexuais’ dos rapazes mais velhos.”

Este inferno durou sete anos, até chegar o momento em que escapou ao “dono” e entrou num autocarro de volta a casa. Por que demorou tanto tempo? “Sempre quis fugir, mas era complicado”, explica. “Era necessária muita coragem e um planeamento adequado. Fugi sozinho.”

“Depois da fuga, enfrentei perseguição e rejeição. Não pedi protecção porque já tinha força suficiente para me defender, sem necessidade de armas. Esta força física foi desenvolvida graças à natureza do trabalho que eu fazia [arrastar as redes de peixe.]”

Lago Volta, onde James Kofi Anan foi escravo, e muitas crianças continuam a ser usadas para trabalhos forçados na pesca: muitos morrem afogados. @ Lisa Kristine | The Atlantic

Lago Volta, no Gana, onde James Kofi Anan foi escravo e muitas crianças continuam a ser usadas para trabalhos forçados na pesca: muitos morrem afogados
© Lisa Kristine | The Atlantic

Depois da libertação, começou um outro processo. “Entrei numa escola pela primeira vez aos 13 anos”, exulta. “No liceu, foi o melhor aluno. Na Universidade do Gana, em Accra, a capital, licenciou-se em Comunicação e completou um mestrado em Estudos de Media e Comunicação. Com estas qualificações foi contratado como gerente pelo Barclays Bank of Ghana.

Assim que consegui o primeiro emprego decidi, imediatamente, que iria usar o meu salário para criar a Challenging Heights”, refere. “Gastava pouco dinheiro em bens pessoais. Preferia investir grande parte das poupanças na ajuda a crianças, já com o intuito de formar uma associação de carácter social.”

“Não me recordo de quanto foi o ‘investimento’ inicial, mas sei que apadrinhei 29 crianças na fase inicial, pagando as despesas com livros e propinas, roupas e calçado, máquinas de costura, transportes públicos, distribuição de água, aluguer de salas de aula e outras infra-estruturas, contas médicas… tanta coisa.”

“Quando comecei, em 2003, a Challenging Heights era uma espécie de projecto recreativo”, continua James. “Queria que fosse apenas uma plataforma para mobilizar a comunidade e incentivar a acção cívica. No entanto, tornou-se num projecto demasiado grande para eu controlar sozinho. Registei-a como ONG em 2005.”

“Foi de grande ajuda ter recebido, no ano seguinte, o primeiro [de um total de sete] prémio internacional, o Barclays Group Chairman’s Award. O banco continuou a apoiar-me financeiramente mesmo depois de eu ter saído em 2007.”

A missão da Challenging Heights, segundo Annan, “é “garantir que nenhuma criança será explorada em trabalhos forçados e que todas elas terão direito a concluir pelo menos a educação básica”. Diz-se apoiado pela sua comunidade, embora nem todos o aceitem e “receba algumas ameaças de morte”. Com ele, inspirados pelas palestras que tem dado pelo mundo, colaboram também voluntários estrangeiros.

James está orgulhoso da obra feita: “A Challenging Heights abriu uma escola primária para mais de 700 crianças, muitas delas resgatadas do tráfico de escravos e outras em risco de serem escravizadas. Dirigimos um centro de reabilitação para crianças que libertámos da servidão. O centro oferece assistência médica, nutrientes alimentares, literacia e apoio psicológico. Criámos uma biblioteca comunitária para as crianças mais pobres.”

“Abrimos um centro informático para jovens adultos à procura de emprego. Ajudámos mais de mil mulheres a trabalhar por conta própria graças ao microcrédito. Deste modo, elas podem cuidar dos filhos sem necessidade de os vender.”

Até agora, salvámos mais de 1200 crianças escravas, e estamos envolvidos em vários processos judiciais para que elas sejam indemnizadas”, exulta o fundador da Challenging Heights. Há várias crianças com histórias semelhantes à sua, admite, mas só as irá narrar na futura autobiografia.

Extracção de ouro - uma das indústrias do Gana que usam e abusam da escravatura infantil - em Accre, a capital. As águas usadas neste processo estão contaminadas com mercúrio @ Lisa Kristine | The Atlantic

Extracção de ouro – uma das indústrias do Gana que usam e abusam da escravatura infantil – em Accre, a capital. As águas usadas neste processo estão contaminadas com mercúrio
© Lisa Kristine | The Atlantic

A entrevista com James Annan coincidiu com a divulgação do Global Slavery Index 2014, da Walk Free Foundation (WFF), uma ONG com sede na Austrália. Segundo este relatório, a “escravatura moderna” afecta agora 35,8 milhões de adultos e crianças – uma subida de 20% em relação aos 29,8 milhões registados em 2013.

De um conjunto de 167 países, cinco representam 61% dos escravos, estando a Índia no topo da lista, com 14,29 milhões, seguindo-se a China, com 3,24 milhões; o Paquistão, com 2,06 milhões; a antiga república soviética do Uzbequistão, com 1,2 milhões; e a Rússia, com 1,05 milhões. Em termos de percentagem de população, o primeiro lugar é ocupado pela Mauritânia (4%).

Se a escravatura, incluindo a escravatura infantil, tem vindo a aumentar (de 5,5 milhões há 15 anos para 8,4 milhões em 2013), o trabalho infantil parece estar a diminuir (de 250 milhões para 168 milhões, no mesmo período), de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

James Annan tenta clarificar: “Nota-se um aumento da escravatura infantil porque há cada vez mais casos a serem denunciados, o que antes não se verificava, e os relatórios reflectem isso. Há também maior consciencialização e por isso há mais dados estatísticos. No entanto, convém sublinhar que o trabalho infantil continua a impregnar muitas culturas.”

“O trabalho infantil é aquele que afecta a educação, a saúde e o desenvolvimento geral das crianças”, enuncia Annan. “Por exemplo, se uma criança trabalha e este trabalho a impede de frequentar a escola, isso é trabalho infantil; se o trabalho atrasa fisicamente o seu crescimento, isso é trabalho infantil. A escravatura infantil é quando uma criança é vendida ou oprimida no trabalho que faz contra a sua vontade, não tendo acesso à educação nem liberdade quanto ao que pode ou não pode fazer.”

O Gana “é um país de trânsito e destino para crianças e mulheres traficadas para trabalhos forçados ou exploração sexual comercial”. A Challenging Heights calcula que “mais de 240 mil jovens são vítimas de trabalhos forçados, muitos deles com menos de 15 anos de idade”. Estima também que “mais de 6,3 milhões de menores nunca entraram numa sala de aulas.”

A pesca e as minas de ouro são indústrias do Gana que dependem (e abusam) da escravatura. A raiz deste problema, conclui James Kofi Annan, está “num desequilíbrio de recursos e no crescente fosso económico que separa as zonas rurais das urbanas.”

Agosto de 2014: o primeiro concerto e gala com o coro de um abrigo da Challenging Heights para antigos escravos e crianças em risco. O evento foi financiado pela Universidade de Yale e pela Fundação Michael Manzella @ Challenging Heights

Agosto de 2014: o primeiro concerto e gala com o coro de um dos abrigos da Challenging Heights, a ONG de James Kofi Annan, para antigos escravos e crianças em risco. O evento foi financiado pela Universidade de Yale e pela Fundação Michael Manzella
© Challenging Heights

Este artigo foi originalmente publicado no REDE ANGOLA em 25 de Novembro de 2014 | This article was originally posted on the news website REDE ANGOLA, on November 25, 2014 

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