Berlim 25 anos depois: Novas e velhas fronteiras

Between a high, solid wall and an egg that breaks against it, I will always stand on the side of the egg. Yes, no matter how right the wall may be and how wrong the egg, I will stand with the egg. Someone else will have to decide what is right and what is wrong; perhaps time or history will decide. If there were a novelist who, for whatever reason, wrote works standing with the wall, of what value would such works be? What is the meaning of this metaphor? In some cases, it is all too simple and clear. Bombers and tanks and rockets and white phosphorus shells are that high, solid wall. The eggs are the unarmed civilians who are crushed and burned and shot by them. This is one meaning of the metaphor. This is not all, though. It carries a deeper meaning. Think of it this way. Each of us is, more or less, an egg. Each of us is a unique, irreplaceable soul enclosed in a fragile shell. This is true of me, and it is true of each of you. And each of us, to a greater or lesser degree, is confronting a high, solid wall. The wall has a name: It is The System. The System is supposed to protect us, but sometimes it takes on a life of its own, and then it begins to kill us and cause us to kill others – coldly, efficiently, systematically.

Haruki Murakami

(Parte do discurso proferido pelo escritor japonês quando, apesar dos muitos protestos de palestinianos e outros críticos, aceitou receber, em Fevereiro de 2009, o Jerusalem Prize for the Freedom of the Individual in Society, o mais importante prémio literário israelita)

África do Sul- Moçambique 

Extensão: 120 km
Data: 1975-2013
A “Cobra de Fogo” ou "Khaftan” (Morte), na fronteira entre Moçambique a África do Sul . Este muro ou barreira de separação estende-se desde o rio Satara River até à Suazilândia. Aqui estava ainda em fase de construção.  © withmaliceandforethought.com/html/

A “Cobra de Fogo” ou “Khaftan” (Morte), na fronteira entre Moçambique a África do Sul . Este muro ou barreira de separação estende-se desde o rio Satara até à Suazilândia. Aqui , nesta imagem, estava ainda em fase de construção.
© withmaliceandforethought.com/html/

A primeira vedação electrificada ao longo de 120 de um total de 491 quilómetros da fronteira entre a África do Sul e Moçambique foi erigida em 1975, durante o regime de apartheid. Chamavam-lhe “Cobra de Fogo”. A descarga de 3300 volts só foi reduzida em 1990, ano da libertação de Nelson Mandela. Após a independência de Moçambique, durante a guerra civil (1977-1992) entre a Frelimo, no poder, e a Renamo, na oposição, uma média de 200 pessoas, a maioria mulheres e crianças, morriam por ano ao tentar saltar a barreira que liga o Parque Nacional do Limpopo ao Kruger National Park. Até 1989, estima-se que cerca de 3000 moçambicanos perderam a vida – ou seja, mais do que o total de mortos no Muro de Berlim (80 em 28 anos). Em 2002, a vedação foi parcialmente removida para reabrir uma antiga rota de migração de elefantes. Em 2013, porém, depois de, só nesse ano, terem sido abatidos 250 rinocerontes, Pretória e Maputo anunciaram a intenção de reconstruir o “muro” fronteiriço, desta vez para impedir a entrada de caçadores furtivos.

Arábia Saudita

Extensão: 9.000 km
Data: 2009-2014
Muro fronteiriço entre a Arábia Saudita e o Iéme. © International Business Times

Muro fronteiriço, ainda a ser construído, entre a Arábia Saudita e o Iémen.
© International Business Times

Para impedir a infiltração de terroristas e contrabandistas (de armas, droga e gado), proteger as reservas de petróleo (“267 mil milhões” de barris) e manter o poder absoluto da família real, a Arábia Saudita está a reforçar todas as suas fronteiras. Em Julho de 2009, assinou um acordo com o consórcio europeu EADS para construir “uma das mais longas barreiras de segurança do mundo”, num total, de 9000 quilómetros. O projecto original visava proteger, em particular, as fronteiras com o Iraque e o Iémen, os vizinhos mais turbulentos. Face ao avanço de grupos extremistas, como o “Estado Islâmico” (DAESH), o objectivo em 2014 passou a ser o de expandir os mecanismos de defesa em todas as frentes, incluindo vigilância por satélites, aviões de reconhecimento, radares, câmaras e sensores electrónicos. No Golfo Pérsico, também os Emirados Árabes Unidos estão a erguer uma vedação na fronteira com Omã, enquanto o Kuwait, invadido pelas tropas de Saddam Hussein em 1990, reforça um muro de 215 quilómetros de comprimento junto ao Iraque.

Belfast 

Extensão: 21 km
Data: 1969
The Cupar Way 'peace wall', which divides the Protestant Shankill Road from the Catholic Falls Road. © Photograph: Antonio Olmos for the Observer

O “muro da paz” de Cupar Way, que divide o sector protestante de Shankill Road da zona católica de Falls Road, em Belfast, na Irlanda do Norte
© Antonio Olmos | The Observer

A primeira das chamadas “Linhas da Paz” de Belfast – 99 barreiras de ferro, tijolo e aço, algumas até cinco quilómetros de comprimento – foi erguida em 1969, depois de tumultos e incêndios no sector ocidental da cidade. A mais recente foi construída no final de 2008, no pátio de uma escola primária, na sequência de uma escalada de tensões entre as comunidades católica e protestante da Irlanda do Norte. O “muro” mais famoso (atracção turística) é o que separa Falls Road, bastião dos independentistas, de Shankill Road, reduto dos unionistas, leais à coroa britânica. Em 2012, investigadores da Universidade do Ulster concluíram que, apesar de um processo de paz, iniciado em 1994, que permitiu a criação de um governo autónomo, “mais de dois em cada três residentes de Belfast ainda consideram necessários os muros junto às suas casas.” Segundo o mesmo estudo, em toda a Irlanda do Norte (província do Reino Unido), “quatro em cada cinco pessoas considera natural a segregação, mesmo nas áreas onde já não são necessárias barreiras.”

Botswana-Zimbabwe 

Extensão: 500 km
Data: 2003
O rosto desesperado de alguém que tenta atravessar a fronteira entre o próspero Botswana e o caótico Zimbabwe. ©pbs.org/wnet/wideangle/

O rosto desesperado de alguém que tenta atravessar a fronteira entre o próspero Botswana e o caótico Zimbabwe
©pbs.org/wnet/wideangle/

Uma vedação, de arame farpado e electrificada, estende-se ao longo de quase 500 quilómetros na fronteira separa o Botswana do Zimbabwe desde 2003. O Governo de Gabarone justificou a construção como um acto de saúde pública: “Manter afastado gado com febre aftosa e garantir que os visitantes desinfectavam o calçado à entrada”. Analistas regionais, como os do think-tank International Crisis Group, asseguram que o objectivo principal muro é “impedir a entrada ilegal de centenas de milhares de zimbabweanos desesperados”, que vão em busca de melhores condições de vida num dos países mais prósperos do continente africano. O Botswana, antigo protectorado britânico da Bechuanalândia, tem registado desde a sua independência, em 1966, uma das taxas de crescimento económica mais elevadas do mundo. No Zimbabwe de Robert Mugabe, a taxa de desemprego é superior a 90% e a hiperinflação atinge os 100.000%.

Caxemira 

Extensão: 500 km
Data: 1949
Pakistani Rangers (in Black) and Indian Border Security Force personnel (in Brown) perform the 'flag off' ceremony at the Pakistan-India Wagah Border Post on January 15, 2013. Indian Prime Minister Manmohan Singh warned Tuesday that there "cannot be business as usual" with neighbouring Pakistan after last week's deadly flare-up along the border in disputed Kashmir. © AFP PHOTO/Arif ALI

Rangers do Paquistão (de negro) e soldados da Força de Segurança da Índia (de castanho) durante o ritual de “descerrar a bandeira”, no posto fronteiriço de Wagah, em 15 de Janeiro de 2013. Caxemira continua a dividir os dois países
© Arif Ali | AFP

Vedações de arame farpado e electrificado, com sensores e alarmes, barricadas e minas terrestres, acompanham a chamada “Linha de Controlo” que, desde 1949, constitui a fronteira de facto entre as zonas da Caxemira administradas, respectivamente, pela Índia e o Paquistão. Dispositivos iguais ou ainda mais sofisticados foram instalados ao longo de 500 dos 2900 quilómetros que separam os dois países independentes, mas rivais, desde 1948 – “uma das fronteiras mais voláteis do Planeta”, segundo a BBC. A justificação para os vários muros (incluindo os do Punjab e Rajastão) é, invariavelmente, é a necessidade de prevenir a infiltração de terroristas. No caso da Caxemira, os paquistaneses alegam violação das resoluções da ONU. Os indianos, autores do projecto, garantem que, deste modo, conseguiram reduzir em 80% os ataques de extremistas islâmicos, alguns deles suicidas. Para travar o acesso de imigrantes ilegais e pôr fim ao contrabando de mercadorias, a Índia também já completou 70% de um muro nos 4000 km da sua fronteira com o Bangladesh. Esta demarcação causou situações embaraçosas: algumas casas ficaram com a porta de entrada na Índia e o quintal no Bangladesh.

Ceuta e Melilla 

Extensão: 8 e 12 km
Data: 1990’s
Would-be immigrants sit on a fence at the Spanish-Moroccan border as they try to enter Melilla. © Juan Rios/Neupic/EPA

Imigrantes rejeitados: em busca de uma vida melhor, africanos sentam-se sobre uma das vedações na fronteira entre Marrocos e Espanha, tentando entrar no enclave de Melilla, em Abril de 2014
© Juan Rios | Neupic | EPA | The Guardian

Para trancar a porta a imigrantes e contrabandistas no Norte de África, Espanha mandou construir, nos anos 1990, muros que separam Ceuta e Melilla de Marrocos, o reino que reclama soberania sobre aqueles enclaves autónomos, com um total de 160 mil habitantes. O muro de Ceuta, ao longo de 8 quilómetros, custou cerca de 30 milhões de euros e foi financiado pela União Europeia. Consiste em elevadas vedações de arame farpado e postos de observação, sensores de ruído e movimento e câmaras de vídeo. O muro de Melilla, com 12 quilómetros de comprimento, também está munido de todo este equipamento. Foi reforçado em 2005, depois de centenas de migrantes subsarianos terem tentado entrar em solo europeu, atravessando o Estreito de Gibraltar. Pelo menos 15 morreram, baleados ou devido a quedas de alturas até seis metros. Com a conquista de Ceuta em 1415, começou a colonização portuguesa em África. No século XV, recordou a revista alemã Der Spiegel, as pessoas extraíam ouro do fundo de um rio, empilhando [pepitas] como se fossem torres”. Hoje, as únicas torres são as de vigia.

Chipre

Extensão: 188 km
Data: 1974
The United Nations Buffer Zone in Cyprus is a demilitarised zone, colloquially known as the Green Line, that runs for more than 180.5 kilometres (112.2 mi) between the two de facto partitions of the island, the Greek Government of Cyprus-controlled area in the south and the Turkish Republic of Northern Cyprus-administered area in the north. ©

“Zona-Tampão das Nações Unidas em Chipre”, área desmilitarizada conhecida como “Linha Verde”, estabelecida em 1964,  separa de facto a área controlada pelo governo cipriota grego, no Sul, da área sob administração cipriota turca, no Norte, que apenas tem o reconhecimento oficial de Ancara
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

A cidade mediterrânica que os cipriotas gregos (no sul) chamam Nicósia e os cipriotas turcos (no norte) designam por Lefkosa é a única capital dividida do mundo depois da queda do Muro de Berlim. Uma força de manutenção da paz das Nações Unidas continua a patrulhar a “zona desmilitarizada” definida por “linha de cessar-fogo”, um muro de separação de 188 quilómetros de extensão e 5 metros de altura. Depois de sangrentos confrontos entre as duas comunidades, no início dos anos 1960, a divisão da “Ilha de Afrodite” consumou-se em 1974, quando a Turquia invadiu o Norte, onde mantém cerca de 40 mil soldados e colonos, em resposta a um golpe de estado apoiado por uma ditadura militar em Atenas. O Sul, de maioria cristã ortodoxa, é a República de Chipre, que a União Europeia aceitou como Estado-membro, em 2004, apesar de ter rejeitado um referendo proposto pela ONU para a reunificação; o Norte, predominantemente muçulmano, é uma autoproclamada República Turca, reconhecida apenas por Ancara. Os estrangeiros que quiserem visitar o Norte a partir do Sul têm de atravessar um checkpoint e mostrar os seus passaportes.

Coreias 

Extensão: 248 km
Data: 1952
A South Korean checkpoint in the DMZ (Viewed from the North Korean side), August 17th 2005. ©

Um checkpoint (posto de controlo militar) sul-coreano, na chamada DMZ, ou Zona Desmilitarizada, visto a partir da Coreia do Norte, numa imagem data de Agosto de 2005
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Os 248 quilómetros de comprimento por quatro de largura que, desde 1952, separam as Coreias do Norte e do Sul têm a classificação benigna de “zona desmilitarizada” ou “linha de cessar-fogo (DMZ)”. Isso não impede que o “Paralelo 38” (a delimitação original das administrações americana e soviética das Coreias terminada a II Guerra Mundial) seja considerado “a mais perigosa fronteira do mundo”. Em Pyongyang está um regime que frequentemente ameaça usar as suas armas nucleares. A faixa de território que divide a meio a península coreana foi estabelecida após uma guerra que causou mais de três milhões de mortos, dois milhões dos quais civis. Esta guerra foi declarada, em 1950, pelo Norte (apoiado por “voluntários” chineses de Mao Zedong). Os norte-coreanos chegaram a ocupar Seul, capital da Coreia do Sul, país apoiado pelos EUA, que mantêm tropas na região. A zona desmilitarizada resulta de um cessar-fogo, não de um tratado de paz, porque nunca foi declarado um vencedor. Na mesma altura, foi demarcada também uma fronteira marítima, mas a Coreia do Norte nunca a aceitou, perpetuando a tensão regional.

Estados Unidos – México

Extensão: 3200 km
Data: 1991
US-Mexico barrier at Tijuana pedestrian border crossing. ©

Zona de travessia pedestre, na frontera entre os Estados Unidos e o México, em Tijuana 
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

São três – na Califórnia, no Texas e no Arizona – as principais “barreiras de segurança” ao longo dos 3200 quilómetros que separam os Estados Unidos do México. Estes “muros”, constituídos por painéis de metal com 4-5 metros de altura, sensores de infravermelhos e torres de vigia, câmaras e radares, começaram a ser erigidos em 1991 e a sua construção intensificou-se três anos depois, para impedir, supostamente, a entrada de migrantes e traficantes. Resultam de três operações designadas, respectivamente, por Gatekeeper, Hold-the-Line e Safeguard. Segundo a Comissão Nacional Mexicana dos Direitos Humanos, citada pela BBC, mais de 5.600 imigrantes clandestinos morreram ao tentar atravessar a fronteira desde que começaram as restrições. Um estudo efectuado em 2010, pela empresa de sondagens Rasmussen Reports, concluiu que 68% dos Americanos são a favor destas fortificações para diminuir o fluxo de indocumentados, contra 21% que se opõem.

Irão-Paquistão 

Extensão: 700 km
Data: 2007
Uma de raras imagens da fronteira entre o Irão (onde estão expostas fotografias dos líderes da República Islâmica) e do Paquistão. ©

Uma de raras imagens da fronteira entre o Irão (onde estão expostas fotografias dos líderes da República Islâmica) e do Paquistão
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Para que serve o muro de mais de 90 centímetros de espessura e quase três metros de altura que o Irão está a construir, desde 2007, ao longo dos 700 quilómetros de fronteira com o Paquistão – o país cuja independência foi o primeiro a reconhecer em 1947? A República Islâmica justifica esta obra com a urgência de pôr fim ao “contrabando de mercadorias, tráfico de drogas e imigração ilegal”. Admite-se, porém, uma razão ainda mais premente: impedir que separatistas do Baluchistão-Paquistão (Jundallah/ Soldados de Deus) e do Sistão-Baluchistão (Jaysh al-Adl/ Exército da Justiça) se unam na luta por um Estado sunita que englobe as regiões do Sudoeste do Paquistão e Sudeste do Irão. Aliados do Irão (de maioria xiita) na guerra com o Iraque (1980-1988), tal como os iranianos foram aliados dos paquistaneses nas várias guerras com a rival Índia (1947, 1965, 1971 e 1999), as autoridades em Islamabad aceitaram o muro fronteiriço porque está a ser edificado em território vizinho e porque ambas as partes lutam contra um inimigo comum.

Palestina

Extensão: 810 km
Data: 2002
Além do que designam por "muro do apartheid", os palestinianos enfrentam ainda, diariamente, a humilhação da passagem por checkpoints militares para poderem entrar nas suas terras e casas. © Najeh Hashlamoun / APA images)

Além do que designam por “muro do apartheid“, os palestinianos enfrentam ainda, diariamente, a humilhação da passagem por checkpoints militares para poderem entrar em Israel, onde alguns têm empregos, mas também nas suas próprias terras e casas. A “barreira de segurança”, segundo o termo oficial israelita, não é uma fronteira que demarca dois Estados; construída para prevenir atentados suicidas, divide comunidades palestinianas, transformando-as em enclaves e/ou guetos
© Najeh Hashlamoun | APA

No auge da Segunda Intifada, em 2002, Israel começou a construir o que exalta como “barreira de segurança” e os palestinianos esconjuram como “muro do apartheid”. Absorvendo 85% da Cisjordânia ocupada, é uma ampla infra-estrutura de cimento armado e aço, com vedações parcialmente electrificadas, valas e sensores, areia (para detectar pegadas) e torres de vigia que se elevam até 8 metros de altura – o dobro das do Muro de Berlim. Se o projecto for finalizado (falta 30%), terá 810 quilómetros de comprimento – extensão superior aos 320 km da “linha verde” definida pela guerra de 1967. Para construir a sua “barreira”, Israel continua a confiscar terras privadas palestinianas, inviabilizando o acesso a mercados e aquíferos. Quase 80 povoações transformaram-se em enclaves inacessíveis aos seus habitantes, segundo relatórios da ONU. No início de Setembro deste ano, o ministro da Defesa, Moshe Ya’alon, declarou “propriedade do Estado” 400 hectares no bloco de colonatos de Gush Etzion. Foi a maior expropriação nas últimas três décadas.

Rio de Janeiro 

Extensão: 14,6 km
Data: 2009
Grupo de homens trabalha em construção de muro na favela Santa Marta, no Rio de Janeiro © AFP

Operários na construção de um muro na favela de Santa Marta, no Rio de Janeiro
© AFP

A imprensa internacional entrou em alvoroço, estabelecendo comparações entre os muros de Berlim e da Cisjordânia, quando o governo do Rio de Janeiro decidiu, em 2009, erigir muros em redor de 13 favelas. Com uma extensão de 14,6 quilómetros e altura variável entre 80 centímetros e três metros, numa primeira fase, os muros foram apresentados como tentativa de “preservar a Mata Atlântica”, impedindo a expansão das comunidades urbanas na Zona Sul e Zona Oeste. Das quase mil favelas do Rio (onde são frequentes o tráfico de droga e confrontos com a polícia) só 23 tinham regras para a construção estabelecidas pela prefeitura, segundo a revista Veja. Alguns moradores queixaram-se de “sensação de gueto”, dizendo que os muros “agravam a segregação” entre dois mundos – favelas e classe média –, que já viviam divididos. No entanto, uma sondagem do instituto Datafolha, citada pela Veja, indica que “a maioria dos cariocas [naturais do Rio] entenderam muito bem a empreitada”. Cerca de 60% rejeitou a ideia de que o propósito era apartar ricos e pobres e 51% dos inquiridos de baixos rendimentos deram a sua bênção aos muros.

Sara Ocidental 

Extensão: 2700 km
Data: 1980
o Reino de Marrocos também construiu, no Sara Ocidental, “uma das mais longas barreiras fronteiriças” – cerca de 2700 quilómetros de comprimento e mais de 30 metros de altura. Não se trata de um só muro mas de seis blocos com areia e pedra, arame farpado, bunkers e minas terrestres ©emovethewall.org/

Entre Marrocos e o Sara Ocidental foi construída aquela que tem sido descrita como “uma das mais longas barreiras fronteiriças” – cerca de 2700 quilómetros de comprimento e mais de 30 metros de altura. Não se trata de um só muro mas de seis blocos com areia e pedra, arame farpado, bunkers e minas terrestres
©emovethewall.org/

Embora critique os muros espanhóis em Ceuta e Melilla, o Reino de Marrocos também construiu, no Sara Ocidental, “uma das mais longas barreiras fronteiriças” – cerca de 2700 quilómetros de comprimento e mais de 30 metros de altura. Não se trata de um só muro mas de seis blocos com areia e pedra, arame farpado, bunkers e minas terrestres (65.000 das quais terão sido desactivadas, segundo garantem as autoridades em Rabat). A construção do muro, entre 1980 e 1987, começou depois da retirada da Espanha em 1976, forçada por uma “Marcha Verde” que envolveu 350 mil civis desarmados, erguendo bandeiras de Marrocos, exemplares do Corão e fotos do antigo Rei Hassan II. O objectivo declarado para a construção do muro foi o de impedir ataques da Frente Polisário, movimento que travou 16 anos de guerra pela independência até um cessar-fogo em 1989. Classificado pelos actuais governantes como “Províncias do Sul”, o Sara Ocidental é defendido por “200 mil a vários milhões” de soldados marroquinos, estimativas que variam consoante as fontes.

Uzbequistão-Quirguistão

Extensão: 870 km
Data: 1999
Villagers along the Kyrgyz-Uzbek border in Osh Oblast inspect a ditch dug by authorities to thwart smugglers. But according to villagers many cross-border traders still navigate the several-metres-deep ditch, shown here in March. © Bakyt Ibraimov http://centralasiaonline.com/en

Aldeões na fronteira entre o Quirguistão e o Uzbequistão, na área de Osh Oblast, inspeccionam um fosso escavado pelas autoridades, supostamente para travar a entrada de contrabandistas. Segundo habitantes locais, isso não impede que os suspeitos traficantes percorram as dezenas de quilómetros de túneis para chegarem aos seus destinos
© Bakyt Ibraimov | centralasiaonline.com/en

A antiga república soviética do Uzbequistão, na Ásia Central, começou a construir, em 1999, um muro ao longo dos 870 quilómetros fronteira com o Quirguistão, alegando que pretende, deste modo, “conter a entrada de extremistas islâmicos e traficantes de droga”. Um incidente que terá acelerado este plano foi um atentado bombista, em Tashkent, a capital, aparentemente cometido por terroristas provenientes do país vizinho. Apesar de independentes desde 1991, após o colapso da URSS, os dois Estados nunca chegaram a acordo sobre a fronteira comum. Um outro muro separa também o Uzbequistão do Afeganistão, ao longo de 200 quilómetros de fronteira – a segunda mais vigiada do mundo, depois da zona desmilitarizada que divide as Coreias. O “tampão” contra os Taliban e a al-Qaeda é constituído por duas vedações de arame farpado, uma delas emitindo descargas eléctricas de 380 volts. Há aqui também minas terrestres e patrulhas militares com ordens para atirar a matar sobre qualquer intruso. Durante a “guerra ao terror” declarada por George W. Bush, o Presidente-ditador Islam Karimov foi dos maiores aliados dos EUA.

Este artigo, com um título diferente, foi originalmente publicado, em 25 de Outubro de 2014, numa edição especial da revista “Sábado” dedicada ao 25º aniversário do mais importante acontecimento da história moderna alemã: a queda do Muro de Berlim | This article, under a different title, was originally published on October 25, 2014, in the Portuguese magazine “Sábado”, a special edition dedicated to the 25th anniversary of the most significant event in recent German history: the Fall of the Berlin Wall

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