Suhair Atassi: “Bashar fez da Síria um reino de silêncio”

Uma vigília solidária com o Egipto levou à detenção de uma das mais importantes dissidentes em Damasco. Na esquadra, foi agredida e ameaçada de morte. O regime “não suportou a luz das velas de uma concentração pacífica”, diz ela, muito menos iria tolerar uma manifestação que visava a destituição do Presidente Bashar al-Assad. Esta é a sua história, contada na primeira pessoa. (Ler mais |Read more….)

Suhair Atassi, na Síria, antes de ser forçada ao exílio, onde é agora uma das mais importantes líderes da oposição. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Suhair Atassi, na Síria, antes de ser forçada ao exílio
© Suhair Atassi

Sou Suhair Atassi, presidente do Fórum Jamal Atassi [e agora umas das vice-presidentes do governo de oposição, no exílio], grupo que existia apenas no Facebook, depois de nos ter sido negada existência real e legal. O fórum reclamava reformas políticas na Síria e o fim das leis de emergência que suspendem os nossos direitos constitucionais desde 1963.

Não é fácil ser uma activista na Síria. Neste reino de silêncio, as autoridades não suportaram sequer a luz das velas de uma concentração solidária e simbólica, como a que um grupo de homens e mulheres tentou organizar, a partir 29 de Janeiro, em apoio dos egípcios livres.

E que dizer dos “dias de ira”? Na Síria existe uma dupla aterradora: por um lado, a fúria contida, que advém da deterioração das condições de vida, da corrupção, do monopólio, para não falar da repressão das liberdades, das bocas amordaçadas, dos despedimentos laborais, da proibição de viajar para o estrangeiro, apenas por divergência de opinião quanto ao regime.

Por outro, o medo das medidas de punição dos que se atrevem a contestar, medidas que variam entre perseguições e convocações aos serviços de segurança, interrogatórios, pressões exercidas sobre familiares, detenção durante anos e anos, com acusações forjadas à luz de um Estado de emergência que desgastou o país e de um sistema judicial nada independente, que se submete aos órgãos de segurança.

Há uma fúria oculta que ferve no peito. Um gemido abafado. Um pavor cujas paredes alguns tentam quebrar. Foi o que aconteceu e o que acontece todos os dias.

O que se passou a 4 e 5 de Fevereiro [de 2011] com apelos feitos através do Facebook para concentrações pacíficas?

Fomos chamados para “um dia de fúria” por pessoas que, na sua maioria, vivem fora da Síria. Mas suportarão os que estão dentro do país que seja quebrada de uma só vez as barreiras de silêncio e de medo que se acumularam ao longo de anos, de décadas?

Suhair Atassi, numa foto de 2011, durante uma vigília em reivindicação de mais direitos e liberdades na Síria. ©

Suhair Atassi, em 2011, numa vigília em Damasco
© Suhair Atassi

Suhair Atassi com combatentes sírios contra o regime de Assad
© syrianobserver.com

As ruas fervilharam naqueles dois dias – mas fervilharam com elementos das forças de segurança, de todos os ramos. Elementos que, com uma violência brutal, lidaram com uma concentração de velas em solidariedade com egípcios livres.

Circulou depois uma nova petição no Facebook para uma “revolução síria” contra o regime e um novo “dia de fúria”, mas não passa, mais uma vez, de um convite virtual sem raízes sólidas na realidade do dia-a-dia sírio. Estes apelos virtuais não vão conseguir acender a chama da mudança que irá inspirar os sírios na busca de uma mudança genuína.

A verdadeira chama estará, provavelmente, noutro lugar. Por exemplo, numa manifestação espontânea, como a de 17 de Fevereiro, depois de a polícia ter espancado um empresário local.

Nessa manifestação, as pessoas gritavam: “O povo sírio não será humilhado”, “Vergonha, vergonha” e “Porquê, porquê?”. O ministro do Interior interveio rapidamente, para controlar a situação e impedir uma escalada maior.

Esta chama também pode surgir do efeito cumulativo da solidariedade expressa ao povo líbio, a 22 e 23 de Fevereiro. Nessa altura, activistas foram atacados, verbal e fisicamente. As pessoas gritavam insultos: “É traidor o que reprime o seu povo.” Alguns activistas foram detidos e admoestados para não se envolverem em futuras manifestações. Posteriormente foram libertados.

Creio, sinceramente, que estamos a testemunhar os primeiros passos para quebrar a barreira do medo que se apoderou de todos os aspectos da nossa vida. A Intifada do Egipto e, antes dela, a da Tunísia, trouxe esperança a todos os que sofrem sob o jugo de regimes autoritários, despóticos e corruptos, que monopolizam a política e as riquezas do país.

A Intifada no Egipto e na Tunísia revelou que a aspiração à liberdade necessita de uma acção positiva em vez da passividade do espectador que cede diante de políticas repressivas por temer o desconhecido – que, contudo, jamais será pior do que a presente situação.

Aquela Intifada revalorizou o significado da palavra “cidadania”. A esperança tornou a despontar. As pessoas compreenderam que podem, por si próprias, reaver a sua humanidade. Talvez, entre os regimes árabes, o sírio seja o último que tenha tentado subornar os seus cidadãos com algumas “doações” que não passam de migalhas que nenhum ser livre pode aceitar.

Numa entrevista que deu ao Wall Street Journal, o Presidente Bashar al-Assad mostrou-se decepcionante e repleto de contradições. Como pode ele afirmar, dez anos depois de ter herdado o poder, que “ainda existe um longo caminho a percorrer” e que “temos de aguardar até à próxima geração para levar a cabo reformas”?

Suhair Atassi é agora uma das mais importantes líderes da oposição: em Março de 2013, tornou-se na primeira mulher a dirigir uma reunião da Liga Árabe
© Middle East Monitor

E o que dizer quando ele admite que “não se pode reformar a sociedade ou as instituições sem uma mente aberta?” Depois da morte do Presidente Hafez al-Assad, em 2000, foi permitida uma Primavera de Damasco.

Durante esse período, nasceram organizações da sociedade civil e movimentos democráticos, num clima de alguma abertura, ainda que parcial.

Tudo não passou, porém, de medidas formais e limitadas até o filho herdeiro, Bashar, chegar ao poder. Poucos meses depois, rapidamente começaram as detenções, as restrições e as proibições, para impedir que fosse criada uma verdadeira sociedade civil. O estado de emergência foi renovado.

Face ao isolamento, o movimento da Primavera de Damasco precisava de uma base social, indispensável, sobretudo de jovens, e de novos instrumentos e mecanismos de acção.

Esta estreita margem de abertura parcial foi violada numa altura em que necessitava de um maior espaço de liberdade que lhe desse oportunidade de crescer, amadurecer, desenvolver.

Pelo contrário, foram proibidos os fóruns e encerraram compulsivamente o último que restava, Fórum Jamal al-Atassi para o Diálogo Nacional e Democrático, em 2005, uma semana após a detenção dos seus dirigentes. Um dos membros continua detido.

O Fórum Jamal al-Atassi insistia nos convites para os seus debates, no primeiro sábado de cada mês, embora tivesse a certeza de que a proibição seria inevitável.

O objectivo era manter vivos a liberdade de expressão e o diálogo, apesar das repetidas cenas de uma densa presença de órgãos de segurança para afugentar os poucos que continuavam a participar.

Era natural tentarmos que o fórum continuasse vivo, mesmo que fosse por meio do Facebook, para defender a sua existência e legitimidade. As autoridades não suportaram este regresso, ainda que num espaço virtual.

Na nossa última concentração, em 2007, quando contestámos a continuação do estado de emergência no 44.º aniversário da imposição destas leis marciais, fomos detidos mal desembocámos nos passeios em frente ao Palácio da Justiça. Enfiaram-nos num jipe e rumaram para a prisão de Adra. Pelo caminho começaram a largar-nos pela rua, em grupos de cinco.

Na Síria, o regime quer criar uma noção permanente de "caos" (ou medo do caos), afiançando constantemente que só o poder actual garante a estabilidade e a segurança do país ©

“Na Síria, o regime quer criar uma noção permanente de ‘caos”‘ (ou medo do caos), afiançando constantemente que só o poder actual garante a estabilidade e a segurança do país”
© Suhair Atassi

As manifestações continuaram proibidas. Jovens que ousam exprimir a sua opinião em sites e blogues permanecem atrás das grades da cadeia de Saidania, pagando com anos de vida uma palavra que escreveram.

[É o caso da blogger Tal al-Mallouhi, presa em 2009, tinha apenas 17 anos, e que, em Fevereiro, viu um tribunal, numa sessão à porta fechada, agravar-lhe a pena por mais cinco anos, sob a acusação de espionagem].

A Declaração de Damasco para a Mudança Nacional e Democrática, da qual também fiz parte, era uma aliança que juntou personalidades, partidos e instituições independentes, os quais, apesar das suas cores políticas, sociais e nacionais, estavam unidos pelo mesmo objectivo de mudança, democrática e pacífica.

Dez dos seus membros foram detidos à força na sequência de uma reunião do conselho nacional, em 2007. Foram julgados numa farsa de tribunal, sob acusações completamente forjadas que carecem de qualquer fundamento legal.

Em Março de 2010, começaram a convocar-me ao Gabinete de Segurança do Estado. Aqui, ameaçaram-me de detenção e apreenderam o meu Bilhete de Identidade. Leram-me acusações e a própria sentença que eu receberia caso não encerrasse a página do fórum no Facebook.

Um dia, pediram-me que levasse comigo uma pequena mala com o essencial, ou seja, preparavam-se para me deterem. Insisti em manter o fórum no Facebook e recusei a convocatória de segurança cujo objectivo era humilhar-me e fazer-me esperar durante horas e horas para depois me repetirem as mesmas ameaças.

Disse-lhes que tinham três opções: prender-me na minha casa; levarem-me a julgamento sem passar pela prisão; ou devolverem-me os meus documentos sem desrespeito ou ofensa. Foram precisos dez dias, ou talvez mais.

Contactaram-me depois e restituíram-me o meu Bilhete de Identidade, mantendo a ameaça de detenção como uma espada por cima da minha cabeça que “gostavam de não ter de ser forçados a usar”. Proibiram-me de sair do país.

Membros da Coligação Nacional Síria. Da esquerda para a direita: Farouk Tayfour, Michel Kilo, Salem Idriss. Suhair Atassi e Burhan Ghalioun, em Paris, à espera de uma audiência com o Presidente francês, em 24 de Julho de 2013. © Francois Mori | AP Photo

Membros da Coligação Nacional Síria. Da esquerda para a direita: Farouk Tayfour, Michel Kilo, Salem Idriss. Suhair Atassi e Burhan Ghalioun, em Paris, à espera de uma audiência com o Presidente francês, em 24 de Julho de 2013
© Francois Mori | AP Photo

Em 2 de Fevereiro, quando os “serviços de informação” enviaram alguns marginais e foras-da-lei para atacarem os que se encontravam na Praça de Bab-Toma, em solidariedade com os egípcios livres, fomos agredidos e insultados. Naquele dia, em particular, estranhámos não haver polícias como era habitual desde sábado, 20 de Janeiro.

Os elementos da segurança pediam os bilhetes de identidade aos jovens e registavam os seus dados, procurando aterrorizá-los. Estranhámos também que os poucos elementos da segurança não usassem as câmaras de vídeo que costumam usar durante as concentrações.

Com a minha câmara fiz algumas fotos antes de os “bandidos” ameaçarem partir a máquina. Duas mulheres que estavam entre eles passaram das ameaças a injúrias desprezíveis. Depressa começaram os espancamentos. Corríamos e elas corriam, batiam e insultavam.

Os agentes da polícia na esquadra que ficava na mesma praça não passavam de meros espectadores. Entrámos na esquadra e apresentámos uma dupla queixa: a primeira, contra os elementos da segurança que enviaram “marginais e bandidos” para nos enfrentar na rua e pôr fim a uma concentração pacífica e solidária; a segunda, contra os polícias que estavam a ver tudo e nada fizeram.

Suhair Atassi, a quem muitos partidários chamam “Dama da Revolução”
© Al Bawaba

Na esquadra, os agentes desapareciam e reapareciam. Pediram aos demais presentes que abandonassem a sala. Queriam falar comigo e tomar notas. Decorrida talvez meia hora, entrou um homem, vestido à civil, juntamente com outros dois. Recusou identificar-se e fechou a porta.

Acusou-me de ter “sites infiltrados por Israel”. Disse-me que eu “não passava de um bicho” que trabalhava contra o meu país. Atacou-me porque eu respondia a cada palavra dele. Bati na sua mão quando esta acertou no meu rosto. Deu-me então uma violenta bofetada no lado esquerdo da face. Continuou os insultos.

Abriu depois a minha mala com violência, retirou o telemóvel e a máquina fotográfica, e disse-me que eu estava presa. Saiu da sala e, quando regressou, fez-me uma última ameaça.

A partir daquele momento, deveria esperar que, a qualquer altura, um deles me matasse, para assim “livrar a pátria de um verme da minha laia”.

Quando fui autorizada a sair, chegou o chefe da esquadra, que me devolveu os documentos, o telemóvel e a câmara – depois de ter apagado algumas fotos.

Despedi-me assim: “Que miserável é esta polícia “ao serviço do povo”.” Fui apresentar queixa de uma agressão na rua e acabei por ser agredida e ameaçada de morte!

Homs, terra-natal de Suhair Atassi, destruída por Bashar al-Assad
© The Atlantic

A 3 de Fevereiro, impediram outra concentração pacífica, de protesto contra o aumento dos preços e a usurpação e espoliação praticados pelas duas únicas operadoras de telemóveis, Siriatel e MTN. Detiveram um jovem romancista, Abdel Nasser al-Aid, durante uma semana, só por ter participado numa manifestação proibida.

Quando eu levava bandeiras sírias para os protestos contra as duas operadoras, um taxista perguntou-me: “E no que diz respeito ao gasóleo?” Desafiei-o: “Queres juntar-te a nós?” Ele respondeu: “Os meus filhos apenas me têm a mim como fonte de sustento. Não posso ir parar à prisão.”

Este é o estado das coisas. Não quer dizer que vá permanecer assim. Mas vai ser precisa uma acção cumulativa que teremos de levar a cabo de forma insistente.

Na Síria, o regime quer criar uma noção permanente de “caos” (ou medo do caos), afiançando constantemente que só o poder actual garante a estabilidade e a segurança do país. Isto será verdade? Pode esta estabilidade ser verdadeira e profunda quando grassa o medo, a opressão, o desespero e o sentimento de injustiça?

Sim, existe diversidade religiosa, étnica, nacional e confessional na Síria, e isso enriquece o país. Mas e a unidade nacional?

A que pediram os pioneiros da “Primavera de Damasco” interessados numa conferência para o diálogo nacional com vista a um contrato social entre todas as correntes e componentes da sociedade?

A resposta das autoridades veio sob a forma de detenções, restrições, proibições e marginalização. Será esta a estabilidade de que falam?

Como pode haver uma estabilidade verdadeira se continuarem os privilégios políticos e sociais de que gozam os que detêm o poder? Isto faz crescer o fosso entre as pessoas e arreda a sociedade da vida pública. Aumenta assim a necessidade de mudanças antes de chegarmos a uma situação muito mais grave.

O regime sírio fez com que as pessoas se preocupassem com o seu ganha-pão. Até já é interdito falar em corrupção ou falta de independência da justiça. Esta é a verdade! Mas quem saqueou o país? Quem se apoderou dele como fosse uma propriedade?

Sem liberdade e democracia, poderemos alguma vez sair numa manifestação pública para protestar contra a pobreza, contra a fome, contra a corrupção, contra o monopólio? É indispensável que possamos exprimir a nossa opinião e a nossa cidadania, para protestar contra tudo isso, para sermos autênticos e termos o direito a uma vida condigna.

Este artigo foi redigido a partir de uma troca de mensagens, via “e-mail” e Facebook, com Suhair Atassi, quando ela ainda se encontrava na Síria, vivendo na clandestinidade. A jornalista agradece a preciosa ajuda de Badr Hassanien, da Editora Civilização, na tradução, do árabe para português, da principal entrevista que serviu de base ao texto.

Suhair Atassi Rima Fleihan, an activist who crawled through barbed wire fences to Jordan from Syria last September to escape arrest. She was representing Syria’s Local Coordination Committees, an alliance of grass-roots activists, ©

Reunião do Conselho Nacional Sírio em Doha (Qatar), em 8 de Novembro de 2012. Suhair Atassi (esq.) e Rima Fleihan, uma activista síria que rastejou por debaixo de vedações de arame farpado na fronteira da Síria com a Jordânia, em Setembro de 2011, para não ser presa
© Osama Faisal | AP

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi originalmente publicado no jornal PÚBLICO, em 2 de Março de 2011 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on March 2, 2011 

Revolução no reino do petróleo

Ao palácio de Abdullah chegaram petições reclamando uma monarquia constitucional. O regime não corre perigo. Mas vai fazendo concessões, talvez para evitar sucumbir às revoltas que abalam os vizinhos. (Ler mais | Read more…)

Em 2019, a Arábia Saudita emitiu uma série de decretos que dão às mulheres mais liberdades pessoais, incluindo o de requerem um passaporte, viajarem, registarem casamento, divórcio e nascimento de filhos sem permissão do “guardião masculino
© Associated Press

Em 1932, quando convenceu os inquietos chefes tribais e religiosos a aceitarem a entrada do “diabo” – a rádio e o telefone -, na Arábia Saudita, o rei Abd al-Aziz não poderia imaginar que o país seria abalado por “demónios” mais subversivos: o Facebook, o Twitter, o YouTube.

Através das novas redes tecnológicas, os súbditos pedem agora uma monarquia constitucional e mobilizaram-se para um “dia de raiva” [em 10 de Março de 2011].

Há oito décadas, qualquer novidade era recebida com ultraje pelos ultraconservadores fiéis à rígida doutrina islâmica firmada numa aliança, em 1744, entre o fundador do reino, Muhammad al-Saud e o teólogo Muhammad ibn Abd al-Wahhab.

Já tinha sido assim, em 1924, quando os primeiros automóveis, dois Ford modelo T, arrastados por camelos ao longo do deserto até Riade, a capital, desembarcaram na costa do Golfo Pérsico. A resistência só foi vencida quando Abd al-Aziz mostrou aos ulama (ou jurisconsultos) que o telefone facilitava o combate aos “hereges” do Iémen e que a rádio transmitia as palavras do Corão.

Posteriormente, em 1964, um outro soberano, Faisal bin Musaid bin Abdulaziz Al Saud,  enfrentou uma contestação mais vigorosa quando a diva egípcia Umm Kulthum se fez ouvir, pela primeira vez na Rádio de Meca.

Perante uma delegação que o foi censurar, o rei justificou-se que Maomé, o profeta do Islão, também se encantara com a voz da poeta Al Khamsa, e deixou o aviso de que, em breve, iriam aparecer mulheres… na televisão.

Em 1965, Faisal inaugurou o primeiro canal televisivo em língua inglesa (o segundo só entraria em funcionamento em 1983). Não aprovava o cinema como forma de recreação, mas achava que a TV seria facilmente controlada pelo governo, para preservar os valores nacionais e, tal como a rádio e o telefone, serviria para manter unido um vasto país. Tomou, por isso, precauções para que não ferir susceptibilidades.

Qualquer cena de romance em filmes, séries e cartoons importados era cortada, incluindo os beijos inocentes do rato Mickey à sua amada. Isto não impediu, que a inovação conduzisse o sucessor de Abd al-Aziz a um destino trágico.

Na cerimónia de abertura da estação, um dos sobrinhos de Faisal, o fanático Khalid ibn Mussaid, tomou de assalto o edifício com um grupo de simpatizantes. Atraído até ao palácio com a promessa de uma audiência com o rei, Khalid seria morto por um polícia, demasiado nervoso. Dez anos depois, um irmão de Khalid assassinaria o soberano num acto de vingança.

Em 2015, as mulheres sauditas foram autorizadas pela primeira vez a votar, em eleições municipais (na foto, uma assembleia em Jidá)
© AFP | Getty Images

Faisal era considerado um rei reformista. A sua terceira mulher, e a favorita, Iffat bint Ahmed al-Thunayan, ganhou o título de rainha – insólito na Arábia Saudita.

O seu casamento, em 1932 ou 1933, resultou de uma história de amor, não de um contrato arranjado. E todos os seus filhos – incluindo as raparigas – tiveram direito a estudar nas melhores escolas privadas no estrangeiro, como a Universidade de Princeton, nos EUA.

Tal como Faisal, também Abdullah, visto por muitos como um reformista empenhado em abrir a sociedade, enfrenta agora um dos períodos mais turbulentos da história do país, e o que coloca mais desafios à sua sobrevivência.

“Não há razões para acreditar que os sauditas estão imunes aos protestos que assolam a região”, escreveu Madawi al-Rasheed, professora de Antropologia no King’s College, em Londres, num artigo publicado na revista Foreign Policy e que intitulou Why Saudi Arabia is ripe for revolution.

A sua convicção assenta, em grande medida, nas várias petições que circulam pela Internet e têm sido enviadas a Abdullah – o rei que criou uma universidade onde aboliu a segregação de sexos e integrou no governo a primeira mulher, como ministra-adjunta da Educação.

O reino continua a ser um dos maiores produtores mundiais de petróleo (,que constitui 80% das receitas do Orçamento do Estado, 45% do produto nacional bruto e 90% das exportações), mas a sociedade mudou muito, garantiu a académica saudita.

Em 2018, chegou o direito de as mulheres poderem conduzir veículos automóveis (na foto, a condutora de motorsport Aseel Al Hamad num vídeo do fabricante Jaguar)
© The National

Dos 25,7 milhões de habitantes do país, metade são mulheres e cerca de 60% têm menos de 30 anos. A idade média dos ministros sauditas (alguns a governar há décadas) é de 65 anos; a dos jovens é de 19. Cerca de 40% dos que têm entre 20 e 24 anos estão desempregados.

Todos os anos tentam a entrada no mercado de trabalho 280 mil rapazes e 270 mil raparigas. Os que arranjam emprego ganham cerca de 830 dólares/mês, enquanto cada um dos 8000 príncipes (numa família de 22 mil membros) poder ter um estipêndio mensal superior a 250 mil dólares.

Mais importante: três milhões de sauditas usam as redes sociais da Web – uma subida de 240%  em 2010. São jovens cultos que vêem a Al Jazeera e consomem sofregamente notícias sobre as sublevações regionais. Ousam, por isso, fazer perguntas incómodas: quem vai suceder a Abdullah, de 87 anos? [O rei morreu em 2015. Ascendeu ao trono o príncipe herdeiro Salman.]

Uma das petições entregues a Abdullah tem como impulsionadora e signatária Khulood Saleh al-Fahad, empresária divorciada, envolvida numa campanha contra a discriminação das mulheres.

Numa entrevista, por e-mail, esta mãe de 33 anos reconhece que o rei “está a fazer incansáveis esforços para reformar todas as instituições, sociais, económicas e religiosas”. Contudo, ainda que esteja a “tentar ir ao encontro das exigências populares, está longe de o conseguir.”

No regresso de dois meses de convalescença no estrangeiro, o rei prometeu “reformas sociais” no valor de 36 mil milhões de dólares, incluindo um aumento de 15% dos salários da função pública, mas não serenou os ânimos.

As autoridades sentiram-se também obrigadas a libertar um líder religioso, para evitar um alastramento dos protestos na Província Oriental, onde predomina a minoria xiita e se situa a maioria das jazidas de petróleo.

“Queremos uma vida livre e digna, em consonância com outras sociedades mais desenvolvidas do mundo”, disse a organizadora de uma campanha designada O Meu País, para que as mulheres possam concorrer às eleições para os conselhos municipais.

“Se nos compararmos com outros, vemos que temos, de longe, mais recursos humanos e potencial económico, mas não beneficiamos de justiça, liberdade, democracia e respeito pelos direitos humanos. Há uma grande contradição entre aquilo a que aspiramos e o espaço a que nos confinaram.”

“Partilhamos com outros jovens do mundo árabe a ânsia de uma vida decente. Não aceitamos que a energia seja desperdiçada na negligência, no desemprego, na corrupção administrativa, no silêncio.”

Haifaa Al-Mansour, realizadora de Wajda, primeira longa-metragem dirigida por uma mulher num país que proíbe teatros e cinemas. O filme –  nomeado para um Óscar e premiado no Festival de Cinema do Dubai – centra-se na história de uma adolescente que tenta ganhar um concurso de récita do Corão para poder comprar uma bicicleta. A autorização para as mulheres andarem de bicicleta – em espaços recreativos segregados – só foi dada após a estreia deste filme, no Festival de Veneza.  O filme foi inteiramente rodado em Riade, mas teve de superar diversos obstáculos, como a ausência de agências de casting de actores e a relutância de famílias em permitir a participação dos filhos
© amazon.com

A petição de Khulood, uma das promotoras, tem 14 pontos. Exige medidas radicais, como a criação de empregos e eliminação da pobreza; incentivos à construção e compra de casa; redução dos preços da electricidade, gás, água e transportes; combate à corrupção, por maior transparência, um sistema de controlo das empresas e do investimento e distribuição equitativa da riqueza; criminalização das lutas tribais e sectárias e de todas as formas de violência doméstica; libertação dos “prisioneiros de consciência” (cerca de 8000).

Outra reivindicação é a de conferir às mulheres direitos sociais, económicos e culturais, o direito de se representarem a si próprias sem um guardião masculino, o direito à educação em todos as disciplinas e sectores, sem restrições e condicionalismos.

A petição requer ainda o “desenvolvimento de uma vida cultural”, com a abertura de academias e institutos de arte para aprender música ou representação, mas também de teatros e cinemas (que não existem).

“Acreditamos que as nossas reivindicações só serão satisfeitas num clima de democracia, em colaboração com todos os órgãos do Estados, ministérios e instituições”, vinca Khulood.

“As pessoas precisam de ser livres de criticar e exprimir bem alto os seus interesses. Interessa-nos um sistema de governo que evolua para uma monarquia constitucional, para reforçar o estado de direito e assegurar a separação dos três poderes: legislativo, executivo e judicial”.

E isto, adianta a activista, passa pela “criação de partidos políticos e associações, a participação em órgãos de decisão, a eleição de representantes – homens e mulheres – para o Conselho Shura e a garantia de respeito de todas as normas e convenções internacionais de direitos humanos.”

Em 2012, na primeira edição dos Jogos Olímpicos em que mulheres da Arábia Saudita participaram, Wojdan Ali Seraj Shaherkani destacou-se no judo. Tímida e de grande amadorismo, perdeu logo de início, num combate com a porto-riquenha Melissa Mojica (ambas na foto), na categoria de 78 quilos. Antes, teve de convencer o Comité Olímpico Internacional a deixá-la competir com um hijab de design específico, porque de outro modo, o reino não permitiria a sua presença
© thestar.com

Khulood Saleh al-Fahad, ao contrário de Madawi al-Rasheed, não acredita que a revolução esteja a caminho da Arábia Saudita, na forma como aconteceu na Tunísia, no Egipto ou no vizinho Bahrein, um emirado de maioria xiita governado pela minoria sunita.

“Os que convocaram um “dia de raiva” não me convencem, nem convenceram a maioria dos sauditas. Receio uma manifestação de vandalismo e não de paz. Espero que fracasse. Inquirida sobre informações de que estariam a ser mobilizadas centenas de agentes de segurança para impedir os protestos, Khulood não as confirmou.

“Tudo está calmo, até as manifestações [dos xiitas] em Qatif foram pacíficas. Acredito que o rei Abdullah será capaz de proceder a mudanças, porque as deseja ardentemente.”

Numa outra entrevista, por e-mail, a blogger Eman Al Nafjan, 32 anos, professora e doutoranda em Linguística, destaca que “as duas principais preocupações dos sauditas neste momento são a sucessão e a corrupção, sobretudo no que diz respeito aos recursos e ao Orçamento de Estado”.

Na sua opinião, “o rei continua uma figura popular e as pessoas confiam nele. Ele não é Mubarak ou Ben Ali – está no poder apenas desde 2005. As pessoas só não confiam naqueles que o rodeiam.”

Se estão de acordo em que é necessário clarificar a sucessão e extirpar a corrupção, não há consenso, entre os sauditas, sobre o rumo político a seguir, constata a autora de SaudiWoman’s Weblog.

“Os conservadores querem mais religião; os liberais querem mais liberdade; e as minorias querem mais direitos. Em todo caso, acho que há coerência e unidade em todas as petições”, dos intelectuais, das mulheres, dos jovens, dos xiitas.

Sobre a sucessão, Eman sublinha que “ninguém sabe o que se passa por detrás das portas fechadas” dos palácios. “A monarquia dos Al Saud é famosa pela sua privacidade. O príncipe Alwaleed Bin Talal, meio-irmão do rei, deu a entender, em declarações à BBC, que há fortes divisões internas, e alertou para o ‘inferno’ que será se o rei morrer sem mudar nada.”

“Os sauditas temem que uma transferência de poder dos filhos do defunto Abd al-Aziz [como tem sido tradição] para os seus netos possa causar uma cisão e ganhar potencial de uma guerra civil.”

Neste panorama, qual a força do establishment religioso? “Os líderes religiosos opõem-se a quaisquer protestos e condenaram o povo no Egipto, no Iémen e no Bahrain pelas suas rebeliões”, respondeu Eman. “Esta posição fez com que perdessem muitos seguidores, incluindo no seu meio.” Quanto ao aparelho de segurança, “continua a lidar com a situação da forma habitual, com o bloqueio de sites e prisões políticas.”

Sarah Attar, nascida na Califórnia (EUA), foi a segunda saudita, depois de Wojdan Shaherkani, a participar nos Olímpicos em 2012. Aos 19 anos, competiu na sexta e última série da qualificação para as meias-finais dos 800 metros. Terminou a prova em 8º e último lugar. Ela e Wojdan Shaherkani foram insultadas nas redes sociais por extremistas que as chamaram de “prostitutas”
© The Boston Globe

Eman também não advoga o fim da monarquia, porque é um sistema que garante a coesão de uma sociedade tribal, mas reconheceu: “Não há dúvida que o país é terreno fértil para uma revolução. Receio, porém, que a revolução possa ser sequestrada pelos islamistas [como o recém-criado, e logo dissolvido, Partido Islâmico Umma, que permanece activo online, apesar de os fundadores estarem presos].”

A maioria dos subscritores das petições não tenciona envolver-se nos protestos , confia Eman, que deixou um aviso, depois de o Ministério do Interior ter proibido manifestações.

“As tácticas que as forças de segurança usarem influenciarão muito os manifestantes e os que ficarem em casa. Se for usada desnecessariamente, a violência pode ser a chave de ignição para revoluções como na Tunísia, no Egipto e na Líbia.”

Aconteça o que acontecer, sublinhou Eman, os sauditas, como povo, mudaram para sempre. “Já não vejo discussões abafadas – todos dizem em que acreditam e a que aspiram, abertamente e sem medo.”

F. Gregory Gause III, professor de Ciência Política na Universidade de Vermont (EUA) e um especialista nas monarquias do Golfo, olha para os recentes tumultos em países até agora tranquilos, como o Sultanato de Omã, e admite que a Arábia Saudita também “não está imune”.

No entanto, no meio do turbilhão egípcio e tunisino, ficou surpreendido por, em Jidá, a segunda maior (e mais liberal) cidade do reino, ninguém ter protestado depois de a destruição causada por fortes chuvas ter posto em evidência a inexistência de um sistema de esgotos e, acima de tudo, a ineficácia do Governo.

Não passou despercebido, todavia, o facto de o governador de Meca, príncipe Khalid Al Faisal, ter solicitado os conselhos do blogger Fouad Al Farhan, de 37 anos, que em 2008 esteve na cadeia 127 dias por apelar à libertação de vários activistas pró-reforma.

© Voice of America

Se acontecer uma revolta, disse Gause, também por correio electrónico, será nas áreas xiitas da Província Oriental. “O verdadeiro perigo para o regime é se os protestos alastrarem a Riad – mas vai ser preciso esperar para ver.”

As petições ao rei, refere o académico americano, “não são uma novidade”. “Já houve outras, em círculos reformistas, em 1991/1993 e em 2003. Nos últimos anos, também têm circulado na Internet petições exigindo mudanças políticas, mas sem grande adesão.”

“A questão é saber se as petições levarão o activismo para as ruas. Eu acho que, mesmo havendo protestos, o regime vai ultrapassar os problemas. Porque fará concessões políticas e porque a oposição está fragmentada: liberais, islamistas, sunitas, xiitas…”

Os EUA também não parecem inquietos, e sinal disso é o pedido do Presidente Barack Obama ao Congresso para vender ao reino saudita armas (incluindo 84 caças F-15) no valor de 60 mil milhões de dólares durante os próximos 20 anos.

Os 36 mil milhões de dólares oferecidos por Abdullah, em Fevereiro [de 2011]  “poderão apaziguar alguns, mas não os que apelam abertamente a reformas políticas”, conclui Gause. “Precisamos primeiro de saber quantas pessoas eles conseguirão mobilizar. Se os “dias de raiva” forem fracos, então o Reino da Arábia Saudita [Al-Mamlaka al-Arabiyya al-Saudiyya] terá sobrevivido à vaga de revoluções que abala o mundo árabe.”

“As mulheres são desafio e oportunidade”

Robert Lacey, autor de Inside the Kingdom – Kings, Clerics, Modernists, Terrorists and the Struggle for Saudi Arabia, faz neste seu livro um retrato extraordinário do país que “permanece um enigma” e que, “teoricamente, não devia existir porque a sua sobrevivência desafia as leis da lógica e da história”. @DR (Direitos reservados | All Rights Reserved)

Robert Lacey, autor de Inside the Kingdom – Kings, Clerics, Modernists, Terrorists and the Struggle for Saudi Arabia, o país que “permanece um enigma” e que, “teoricamente, não devia existir porque a sua sobrevivência desafia as leis da lógica e da história”

Khaled Bahaziq foi um jihadista da Al-Qaeda nas montanhas afegãs até descobrir a sua verdadeira vocação. Hoje é o principal “conselheiro matrimonial” na Arábia Saudita e os seus programas televisivos são um indicador de como algo está a mudar no berço de Osama bin Laden.

Os muçulmanos estão “sempre prontos a morrer, mas não são tão bons quando se trata de viver em paz, aceitar e tolerar as diferenças”, disse Bahaziq a Robert Lacey autor do livro Inside the Kingdom: Kings, Clerics, Modernists, Terrorists and the Struggle for Saudi Arabia (Penguin Books, 2010) um retrato extraordinário do país que “permanece um enigma” e que, “teoricamente, não devia existir porque a sua sobrevivência desafia as leis da lógica e da história”.

O programa de Bahaziq chama-se Procura a Felicidade, e ele explica a Lacey em que consiste: “A minha prioridade é ensinar bons modos – aos homens. As mulheres não precisam. Já têm maneiras. São os sauditas que têm de aprender a cuidar bem das suas mulheres.” Até agora, este esforço não acabou com o que a blogger saudita Eman Al Nafjan renega como “ideologia de controlo”

As mulheres não podem inscrever-se na universidade, abrir uma conta bancária, arranjar um emprego ou sair do país sem autorização escrita do seu mahram (guardião), que tem de ser um familiar directo – pai, avô, irmão, marido ou, no caso de viúvas e divorciadas, o filho (mesmo que menor).

Com ou sem licença do “guardião”, as mulheres ainda não podem conduzir, o que as deixa na situação paradoxal de, embora proibidas de se misturarem com “homens estranhos”, dependerem dos seus motoristas estrangeiros para ir a qualquer lugar.

Daneh Abuahmed, directora do departamento de tecnologia de informação da companhia saudita Rotana, durante uma reunião de trabalho no seu gabinete. Com o apoio do dono da empresa, príncipe Alwaleed bin-Talal, um dos homens mais ricos do reino, ela pode trabalhar ao lado de homens, com ou sem um lenço a cobrir rosto e/ou cabelo. Em 2011, este príncipe alertava, em declarações à BBC: “Há fortes divisões internas” e será “um inferno”, se o rei [Abdullah] morrer sem mudar nada” – uma previsão que se realizou. Com a chegada de Salman ao trono, Alwaleed e outros membros da Casa de Saud foram presos, tal como muitas activistas dos direitos das mulheres
© Kate Brooks | TIME

Apesar destas queixas, Robert Lacey diz-me, por e-mail, que “a maior mudança” que testemunhou no reino aonde voltou, 30 anos depois da primeira edição de Kingdom, para perceber por que eram sauditas 15 dos 19 suicidas do World Trade Center, “foram os progressos das mulheres”.

Os números que ele cita coincidem com os da Unesco: as mulheres são quase 70% dos estudantes universitários, 50 por cento dos licenciados e 40% dos que concluem o doutoramento, embora representem apenas 5% da força activa – a taxa mais baixa de todo o mundo.

“Isto é uma oportunidade e um desafio”, sublinha o jornalista britânico que escreveu o clássico Majesty, biografia de Isabel II. “É obviamente muito bom ter mais mulheres cultas, embora seja imperativo criar postos de trabalho, para acompanhar o ritmo dos que se vão formando nas universidades. De outro modo, a tendência será a de mais tensões e frustrações”. A taxa de desemprego situa-se actualmente nos 12%.

“O rei Abdullah está a fazer um grande esforço, mas a Arábia Saudita continua a ser uma sociedade dominada por homens, muito conservadora”, admite Lacey. “Será preciso esperar muito até que uma maioria de sauditas venha a partilhar as ideias progressistas do seu soberano. O rei quer reformas e progresso social – mas não à custa da ordem social.”

“Recentemente, um vice-ministro admitiu a possibilidade de as mulheres votarem em eleições municipais previstas para este ano. A reacção [dos súbditos] foi tão negativa que o rei adiou o escrutínio por mais dois anos.”

Inquirido sobre se as reformas que o septuagenário Abdullah está a empreender serão irreversíveis quando ele sair de cena, Lacey responde: “Não creio que vá tentar influenciar o rumo que o sucessor quiser seguir, porque ele sempre foi muito respeitador e obediente quando o seu irmão Fahd era rei, ainda que discordasse de muitas das suas políticas. Ele deixará o seu legado ao critério de quem herdar o trono e da sabedoria colectiva da família.” 

O rei Abdullah tentou dar mais direitos às mulheres, mas só depois da sua morte, por iniciativa de um novo príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman (MBS) é que têm sido adoptadas algumas reformas com maior impacto
© Faisal Al Nasser | Reuters

Este artigo, agora revisto, actualizado e com outro título, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em Março de 2011 | This article, now revised, updated, and under a different headline was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in March 2011

A queda do “faraó” Mubarak

O ditador egípcio resistiu até ao limite ao que o académico libanês Fawas Gerges descreveu como “o momento Berlim do mundo árabe”. Mas a maré humana nas ruas do país e as pressões externas só lhe deixaram uma de duas alternativas: abandonar o poder com uma réstia de dignidade ou na ignomínia. (Ler mais | Read more…) 

Um cartaz com a cara de Hosni Mubarak – o homem cujo poder era frequentemente comparado aos dos faraós – durante um protesto, na Praça Tahrir, no Cairo, em 1 de Maio de 2011, em que milhares de trabalhadores exigiram o seu julgamento
© Khaled Desouki | pri.org

Hosni Mubarak foi falar às crianças de uma escola primária e, depois do seu discurso, ofereceu-se para um período de perguntas. Um rapazinho chamado Ramy levantou a mão e o Presidente egípcio interpelou-o: O que queres saber?

Ramy disse: Tenho quatro perguntas.

Primeira: por que é que o senhor é Presidente há 29 anos?

– Segunda: Por que é que nunca nomeou um vice-presidente?

– Terceira: Por que é que os seus dois filhos, Gamal e Alaa, controlam a economia e política do país?

– Quarta: Por que é que o Egipto é um Estado miseravelmente pobre e o senhor não faz nada?

Nesse preciso momento, a campainha tocou e Mubarak informou as crianças que voltaria depois do intervalo. No regresso, retomou a conversa: Ok, em que ponto estávamos? Ah, já sei… na sessão de perguntas. Alguém quer perguntar alguma coisa?

Um outro rapazinho levantou a mão. Mubarak apontou para ele e pediu-lhe que se identificasse.

Eu sou Tamer, respondeu o menino.

E qual é a tua pergunta, Tamer?

– Eu tenho seis perguntas:

– Primeira: por que é que o senhor é Presidente há 29 anos?

– Segunda: Por que é que nunca nomeou um vice-presidente?

– Terceira: Por que é que os seus dois filhos, Gamal e Alaa, controlam a economia e política do país?

– Quarta: Por que é que o Egipto é um Estado miseravelmente pobre e o senhor não faz nada?

– Quinta: Por que é que a campainha tocou para intervalo 20 minutos antes do que é habitual?

– Sexta: O que é que o senhor fez a Ramy?

Esta velha anedota, sussurrada entre portas e relembrada por Issandr El Amrani no seu blogue The Arabist, exprime bem algumas das razões que levaram os egípcios a perder o medo e a reclamar, não em segredo mas nas ruas, o fim de um regime ditatorial em vigor há quase três décadas.

Foi a 14 de Outubro de 1981 que Hosni Mubarak, vice-presidente de Anwar el-Sadat (desde 1975), sucedeu ao Raïs (Presidente), depois de escapar por um triz às balas que, no dia 6, mataram o seu predecessor durante um desfile militar, a que ambos assistiam, lado a lado, no Cairo.

O desaparecimento do homem que pagou com a vida “a traição” do primeiro tratado de paz israelo-árabe, levantou dúvidas, sobretudo entre a comunidade internacional, sobre se o Egipto ficaria à mercê da Irmandade Muçulmana – de cujas fileiras emergiu o assassino –, já que a liderança do país iria ser assumida por um homem desconhecido apesar da sua imparável ascensão militar.

Hosni Mubarak aprendeu  a pilotar bombardeiros na antiga União Soviética. Em 1967, foi promovido a chefe de Estado-Maior da Força Aérea. Em 1972, já era vice-ministro da Defesa. Em 1973, atribuíram-lhe a patente de marechal
© rferl.org

Um dos cinco filhos de um funcionário do Ministério da Justiça, Muhammad Hosni Sayyid Mubarak nasceu a 4 de Maio de 1928 em Kafr-el-Meselha, aldeia no delta do rio Nilo. Estudou, primeiro, na Academia Nacional Militar em 1949 e formou-se, depois, como piloto de caça e instrutor de voo na Academia da Força Aérea.

Entre 1959 e 1961, foi para antiga União Soviética aprender a pilotar bombardeiros. Em 1966, no retorno à pátria, assumiu o comando de duas bases aéreas e, no ano seguinte, foi promovido a chefe de Estado-Maior da Força Aérea. Em 1972, já era vice-ministro da Defesa e, em 1973, atribuíram-lhe a patente de marechal.

Foi a recompensa pela participação na Guerra de Outubro ou de Yom Kippur – vista pelos árabes como “a desforra” pela humilhante derrota que Israel lhes desferiu na Guerra dos Seis Dias, de 1967, durante a qual o Egipto perdeu, em seis horas, a península do Sinai.

As credenciais de Mubarak entre os militares eram tão imaculadas que Sadat, o sucessor do pan-arabista Gamal Abdel Nasser, não hesitou em nomeá-lo seu “número dois”, conferindo-lhe a responsabilidade de várias e importantes missões de política interna e externa.

Com a morte do visionário que emocionou os israelitas ao visitar Jerusalém em 1977, Mubarak foi catapultado para a chefia do Estado, superando a longevidade do reinado de Muhammad Ali Paxá, o otomano cuja dinastia se manteve no poder até à revolução de 1952 que derrubou o monarquia.

1981: Hosni Mubarak e Anwar el-Sadat, de quem foi vice-presidente
© billfoley.com

O que distingue Mubarak dos defuntos Nasser, sempre idolatrado pelas massas árabes, e Sadat, ainda malquerido? Responde-nos, por e-mail, Adel Iskandar, professor de Media do Médio Oriente na Universidade de Georgetown (EUA), e colunista do jornal egípcio Al-Masry Al-Youm: “Nasser era um líder demagogo e carismático que mobilizava os impulsos revolucionários do povo”; Sadat era um estadista controverso sem papas na língua que perdeu popularidade ao aproximar-se de Israel.”

“Mubarak é um chefe bastante diplomático, com aparência de benevolente, que diz uma coisa e faz outra – fala de solidariedade com os palestinianos mas colabora estreitamente com os israelitas; fala em apoiar os pobres mas isenta os ricos de impostos enquanto recusa aumentar o salário mínimo; critica a ingerência política externa mas apela ao investimento estrangeiro e à privatização de todos os sectores da economia.”

Sobre as razões que levaram Mubarak – detentor de todos os poderes (executivo, militar e judicial) – a manter o país sob lei marcial desde que subiu ao poder, Iskandar, académico britânico de origem egípcia e autor de vários livros, incluindo o primeiro grande estudo sobre o fenómeno Al Jazeera, esclarece:

-“O estado de emergência foi imposto sob o pretexto de proteger o país contra forças estrangeiras e sublevações internas. O medo de um qualquer governo de transição deixou Mubarak obcecado em eliminar toda a oposição, em particular a Irmandade Muçulmana.”

“Ele precisava de um mecanismo legal que lhe permitisse prender e perseguir qualquer pessoa sem ter de prestar contas”, adiantou “Em todas as situações, Mubarak ora exagerava ora demonizava grupos ou tendências de oposição para justificar a continuação das leis de emergência.”

“Qualquer incidente no Egipto era usado para renovar o estado de emergência – fosse um atentado terrorista, actos de sectarismo ou manifestações contra a guerra [no Iraque e em Gaza].”

Hosni Mubarak, já como vice-Presidente, com Menachem Begin (à esq.) e Anwar Sadat (ao centro), quando o Egipto assinou o primeiro tratado de paz israelo-árabe
© billfoley.com

A mão de ferro com que tem conduzido o país ajudou Mubarak a sobreviver – tentaram eliminá-lo pelo menos seis vezes e sempre escapou à morte –, mas também fez dele, como comprovam as gigantescas manifestações do Cairo a Alexandria, uma figura odiada pelos egípcios, incapazes de aceitar a abjecta pobreza a que foram condenados por uma elite, quase uma aristocracia, manchada pela corrupção e pelo nepotismo.

O sistema imposto por Mubarak impossibilitava uma alternativa ao domínio absoluto do seu Partido Nacional Democrático (PND). Qualquer tentativa de o desafiar – de forma violenta ou legal – era punida severamente.

Nos anos 1990, depois de uma série de ataques terroristas que visavam alvos nacionais e estrangeiros, não hesitou em destruir todas as plantações de cana-de-açúcar que serviam de refúgio aos extremistas do Gama’a al-Islamiyya (Grupo Islâmico), ordenando a execução e prisão de milhares de combatentes.

Em 2005, quando o popular político da oposição Ayman Nour, do partido El-Ghad (Amanhã), concorreu às primeiras presidenciais em que foram admitidos outros candidatos, também ele foi preso, durante três anos, sem culpa formada – e, no entanto, só obteve 7% dos votos, contra os 89 de Mubarak.

Libertaram-no após pressões dos EUA, mas à saída da cadeia espancaram-no violentamente, e os agressores nunca foram capturados. Nos protestos iniciados a 25 de Janeiro último, Nour voltou a ser agredido e a necessitar de internamento hospitalar.

A recusa em nomear um vice-presidente – só o fez no sábado, numa rara cedência aos protestos populares (que incluiu também a nomeação de um novo governo) – foi sempre olhada com desconfiança pela população, hostil a sucessões dinásticas desde a queda do rei Farouk e temerosa de que Mubarak estaria a preparar o filho mais velho, Gamal, ser o próximo Raïs.

Mubarak com Yasser Arafat da Palestina (em cima), Hussein da Jordânia e Saddam Hussein do Iraque (centro) e com Muammar Kadhafi da Líbia
© Reuters

No Cairo, especulava-se que teria sido a mulher, Suzanne, filha de um egípcio e de uma galesa, que o aconselhou a deixar o lugar vago para o varão. Toda a família ter-se-á refugiado em Londres, na semana passada.

Se no Egipto, Mubarak é uma figura odiada – muitos viam como uma obscenidade o corte de quilómetros de estradas quando ele saía do palácio como seu cortejo de limusines –, em Israel e nos Estados Unidos era até agora considerado um valioso aliado.

A América fornecia-lhe anualmente 60 milhões de dólares (um total de 28 mil milhões desde 1979), quase tanto quanto os 100 milhões anuais oferecidos aos israelitas, para “manter a estabilidade na região”.

Mubarak e Omar Suleiman [1936-2012], ex-chefe dos serviços secretos [que seria vice-presidente no período de transição], serviam de interlocutores do Hamas em negociações com os palestinianos e garantiam a aparência de normalização nas relações com Israel. [Suleiman morreu em 19 de Julho de 2012, de doença].

Os protestos incessantes, induzidos pela revolução que derrubou Ben Ali na Tunísia, deixaram israelitas e norte-americanos numa situação delicada. “Estão viciados em ditadores e não interiorizaram a necessidade de abrir um diálogo com forças até agora diabolizadas”, observou Steve Clemons, da New American Foundation.

Em Washington, Barack Obama e Hillary Clinton aumentaram  a pressão sobre Mubarak, exortando ao fim da violência e a eleições “livres e justas”, não apenas uma “remodelação” do governo. Os seus apelos tiveram eco na Europa, com franceses, alemães e britânicos a insistirem que as nomeações de um vice-presidente e de um novo primeiro-ministro não são suficientes.

Na sexta-feira à noite [28 de Janeiro de 2011], quando apareceu perante as câmaras de televisão a garantir que nunca deixou de estar “ao lado dos pobres” e que sempre respeitou a “liberdade de expressão” dos cidadãos – paradoxalmente, no mesmo dia em que o Egipto se tornou no primeiro país do mundo a bloquear totalmente a Internet –, Hosni Mubarak parecia mais uma múmia do que um vigoroso faraó.

Mubarak com a mulher, Suzanne (centro), a nora Heidi Al Rasekh, o filho mais novo, Alaa, e o mais velho, Gamal – uma família riquíssima acusada de corrupção
© The Independent

Sem o seu uniforme militar (pormenor que muitos observadores notaram, porque o exército é visto como a força que definiria o desfecho da revolta), o octogenário Mubarak estava longe de ser o tipo saudável que nunca fumou nem bebeu, e que começava os dias às 6 da manhã, com exercícios no ginásio ou a praticar squash, deixando exaustos assessores e guarda-costas.

Recentemente, as suas frequentes ausências de cerimónias públicas alimentaram rumores de que estará muito doente, e que já era Gamal, um ex-banqueiro de 40 anos, quem governava o país.

A nomeação de Suleiman (também ele com saúde débil) para vice-presidente e de Ahmed Shafiq para primeiro-ministro, dois ex-militares, foi lida por alguns comentadores entrevistados pela Al Jazeera como um sinal de que Mubarak estará, ainda que relutante, a preparar a transição.

Deixe o poder de forma digna ou na ignomínia, qual será o legado de Mubarak? Poderia o antigo director da Agência Internacional de Energia Atómica, Mohamed ElBaradei ser uma alternativa? Se houver eleições, quais as forças mais bem posicionadas para vencer: as religiosas ou as seculares?  [A Irmandade Muçulmana seria a grande vencedora de eleições legislativas e presidenciais.]

“O legado de Mubarak poderia ter sido salvo se ele não se tivesse recandidato em 2005”, comentou o académico  egípcio Adel Iskandar. “Mas os últimos seis anos mostraram um líder irredutível, incapaz de compreender e muito longe das aspirações do seu povo. Isto deixou-o ainda menos tolerante para com os dissidentes.”

“Sair de cena no meio de uma gigantesca revolta popular equivale a ter caído completamente em desgraça. A História não olhará favoravelmente para o seu mandato de 29 anos e, sobretudo, para as últimas 72 horas em que testemunhámos uma brutalidade repugnante, a supressão de direitos políticos, a intolerância e o sequestro de toda a população.”

“ElBaradei é uma das várias alternativas viáveis” a Mubarak, acredita Iskandar. “Tem reputação e atrai largos segmentos da população egípcia, podendo ajudar o país na transição para uma melhor situação política. Sendo civil, homem do mundo, pluralista com uma visão secular, ElBaradei tem agido como porta-voz de muitas das reivindicações dos egípcios. Advoga mudanças constitucionais que permitirão exprimirem-se livremente e escolherem o seu destino.”

Da presidência para a prisão: Mubarak seria libertado em 2017 de um hospital militar onde esteve detido, depois de ilibado da responsabilidade pela morte de 900 egípcios durante a sublevação que o derrubou em 2011
© ibtimes.com

Sobre a Irmandade Muçulmana, Iskandar observou [quando deu esta entrevista, em Janeiro de 2011]: “É difícil avaliar a popularidade da organização, mas muito notam que está desligada da realidade desde [as legislativas de] 2005 quando obteve 88 lugares no Parlamento e muito pouco conquistou no terreno.”

“Os seus planos nada têm a ver com os anseios de uma grande parte dos egípcios”, frisou Iskandar. “Mas, obviamente, não é improvável que venha a desempenhar um papel significativo num governo futuro [e assim foi quando ganhou as eleições, legislativas e presidenciais, de 2011-2012, antes de ser afastada do poder pelo Exército].”

“Dadas as recentes tensões sectárias [envolvendo muçulmanos e cristãos coptas], muitos já concluíram que é muito mais importante manter a unidade do país do que seguir um partido religioso.”

Na revista Foreign Policy, Robert D. Kaplan, dirigindo-se aos que temem um destino para o Egipto igual ao do Irão, quando o Xá Mohammad Reza Pahlavi, aliado estratégico da América, foi derrubado em 1979 por uma revolução islâmica, lembrou: “Em nenhum destes países árabes [onde estão em curso protestos] existe um líder carismático radical que seja um ponto central de oposição, como o Ayatollah Khomeini era; nem as várias organizações islamistas no mundo árabe são tão teóricas e ideológicas no seu anti-americanismo como era a liderança religiosa xiita.”

“A Irmandade Muçulmana no Egipto funciona, em larga medida, como uma organização de auxílio à comunidade e poderá não tentar sequestrar a revolução, como aconteceu no Irão”, observou Kaplan.

“Além disso, o Presidente Hosni Mubarak nunca se identificou com os interesses norte-americanos tanto como o Xá. As diferenças entre o Egipto 2011 e o Irão 1978 [quando começaram os protestos que levaram à queda do imperador] são muito mais profundas do que as semelhanças”.

Num artigo publicado pelo jornal The Christian Science Monitor, o académico libanês Fawaz A. Gerges, professor de Política do Médio Oriente e Relações Internacionais na London School of Economics, resumiu assim o que se vive no Médio Oriente:

– “Este é o momento Berlim do mundo árabe. O muro autoritário caiu – e isso é verdade independentemente de Mubarak sobreviver ou não. Vai muito para além de Mubarak. A entrada em cena do Exército mostra bem o fracasso da Polícia em reprimir os manifestantes.”

“Os militares foram chamados e, possivelmente, vão preencher qualquer vazio de autoridade nas próximas semanas. Mubarak está profundamente ferido e a sangrar. Estamos a assistir ao início de uma nova era.”

No Facebook – onde a revolução contra Mubarak começou (Nasser arregimentou os egípcios contra a monarquia usando a rádio; Khomeini dirigiu a insurreição contra o Xá através de cassetes áudio enviadas clandestinamente do seu exílio em França para as mesquitas do Irão) ­–, alguém que via pela TV os protestos na Praça da Libertação deixou este post: “O faraó está à beira do sarcófago”.

© Los Angeles Times

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 31 de Janeiro de 2011 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 31, 2011

Acabou o velho Médio Oriente?

Khaled Diab e Khalil Al-Anani, dois analistas egípcios, não escondem o entusiasmo perante as manifestações populares que visam derrubar o Presidente Mubarak. Para ambos, dificilmente o ditador se manterá no poder e a região não mais será a mesma. (Ler mais | Read more…)

@Ben Curtis |AP

© Ben Curtis | AP

Em Dezembro de 2010, quando Khaled Diab foi visitar a família ao seu Egipto natal, “não havia sinais de que iriam irromper os protestos populares que, desde 25 de Janeiro de 2011, assolam o país”. Agora, este jornalista residente em Bruxelas mostra-se confiante de que “o regime está a ruir – e a única dúvida é saber se cai com um gemido ou um estrondo.”

“Nos últimos anos, têm sido inúmeros os indicadores de descontentamento, visíveis em esporádicas manifestações e greves e nas acções de protesto da coligação da oposição Kefaya“, a palavra árabe para “basta”, diz-me, numa troca de e-mails, o escritor e jornalista egípcio-belga Diab, colunista do diário britânico The Guardian e de outros media, como o jornal israelita Ha’aretz.

“Há muito que eu e outros esperávamos uma pressão renovada para a mudança, uma que tivesse grande impacto, já que estavam planeadas presidenciais para o Outono e porque apareceu uma figura de peso, Mohamed ElBaradei, em torno da qual os vários grupos da oposição se poderiam unir”, referiu Diab.

“Nunca imaginei, porém, nada a esta escala, nem tão rapidamente. Temos de agradecer à Tunísia por isso. O sucesso do povo tunisino ao derrubar [Zin El Abidine] Ben Ali ofereceu aos egípcios a centelha de esperança de que necessitávamos para acreditar que a mudança é realmente possível.”

Inquirido sobre o que há de comum e de distinto em relação à Tunísia e ao Egipto, mas também a outros Estados árabes onde se têm registado protestos, Diab confessa: “Esta é uma questão incrivelmente complicada sobre a qual poderia ser escrito um livro – têm semelhanças e diferenças. “

“Partilham, em graus variados, problemas como autoritarismo, corrupção, pobreza, desemprego, uma protuberância de jovens e por aí adiante. Ou seja, as revoltas têm sido em grande medida lideradas por jovens desesperados cansados da falta de oportunidades e da repressão.”

@AP Photo

© AP Photo

Na Tunísia, adianta Diab, “porque Ben Ali não tolerava qualquer tipo de dissidência, a erupção da insatisfação popular foi súbita e esmagadora. No Egipto, com maior implantação e mais críticos, a sociedade civil e os media há anos que se agitam, por vezes com grandes riscos pessoais, contra Hosni Mubarak. Este, por seu turno, um sobrevivente político mais esperto do que Ben Ali, tolerou até certo ponto alguma dissidência.”

“Em todo o caso, antes da revolução tunisina, as tentativas de a oposição egípcia instigar uma mudança tinham sido isoladas e incapazes de inspirar a população céptica.”

Outro egípcio, Khalil Al-Anani, investigador na School of Government and International Affairs da Durham University, no Reino Unido, “especialista em política egípcia, movimentos islamistas e democratização no Médio Oriente”, considera que as similaridades entre o que se passa na Tunísia e no seu país “é a tomada de consciência pública das massas e uma grande mudança na cultura política do Médio Oriente”.

Numa troca de mensagens, via Facebook e e-mail, Alanani fez questão de frisar: “Esta é a primeira vez na região que encontramos um movimento popular empenhado em mudar regimes”.

Quanto às diferenças, “o Egipto é um país maior e mais dinâmico; a revolução tunisina demorou três semanas a atingir o pico – no Egipto, levou três dias, muito a partir das redes sociais.”

Para Khalil Al-Anani [desde 2012 ‘senior fellow’ do Middle East Institute], “a evolução dos acontecimentos transcende qualquer movimento político clássico, como a Irmandade Muçulmana. É a rua que lidera as manifestações e não os partidos.”

“A Irmandade até estará presente mas não pode reivindicar o controlo deste activismo. Importante salientar também que a região se afasta dos actores da oposição “clássica”, virando-se para uma elite política renovada. Os islamistas perderam a iniciativa no Médio Oriente.”

“Na actual situação”, adianta, “não há narrativas ideológicas – é impossível uma classificação. As pessoas foram para a rua não impulsionadas pela aspiração de mudanças políticas e económicas. É mais determinante a presença “civil” do que a religiosa.”

Mubarak e o efeito dominó gerado pela Tunísia. @Latuff

Mubarak, no Egipto, e o efeito dominó gerado pela Tunísia, com a queda de Ben Ali
© Carlos Latuff

“No Egipto”, frisa Khaled Diab, por seu turno, “a Irmandade Muçulmana está a tornar-se cada vez mais irrelevante, porque a velha guarda sufoca a ala jovem, moderna e aberta do movimento. Mais: um número crescente de pessoas já percebeu que a resposta aos problemas da sociedade não está no mantra da Irmandade – O Islão é a solução.”

“Há, também, muitos laicos que não têm voz devido à dura repressão que a oposição de esquerda e progressista enfrenta desde os anos 1970, embora uma nova geração de secularistas esteja agora a abrir caminho.”

Para Diab, “uma das razões para a ascensão dos islamistas foi a sistemática supressão de uma oposição secular desde que Anwar el-Sadat [o Presidente assassinado, em 1981, por um extremista] começou a cortejar o Islão político, nos anos 1970, para diminuir o poder dos seus opositores laicos.”

“Sem pontos para se reunir nem estruturas políticas eficazes, os laicos tornaram-se mais e mais apáticos, e alguns até aderiram à Irmandade”, explicou. “Além disso, por mais que o regime fosse repressivo com os islamistas, estes tinham vantagem sobre os laicos porque podiam encontrar-se nas mesquitas – que o regime jamais ousaria encerrar -, clamando que a sua missão era divina.”

“Apesar de tudo, com uma atmosfera política mais aberta na última década e com as novas tecnologias, os laicos começaram a reagrupar-se, e os jovens estão a descobrir que há alternativas viáveis à Irmandade.”

À pergunta sobre se esta revolta pode ser bem sucedida, Khaled Diab respondeu: “Isso depende da definição de sucesso – mas podemos desde já dizer que resultou ao galvanizar uma população que muitos julgavam apática mas que arriscou as suas vidas pelo sonho de um amanhã melhor.”

“Estas manifestações têm, igualmente, uma dimensão totalmente diferente, merecendo ser descritas como uma sublevação de massas ou até mesmo uma revolução popular no verdadeiro sentido da palavra, porque não tem uma liderança clara.”

“O regime entrou em colapso”, assegurou. “Chegámos, seguramente, a um ponto de não retorno; depois de anos de um combate de pugilistas, a população e o regime tiraram, por fim, as luvas.”

Khalil Al-Anani também exulta: “O Egipto depois de 25 de Janeiro [de 2011] não é o mesmo e a vida deste regime é muito curta. O cenário de Gamal Mubarak suceder ao pai deixou de existir. Bye bye Gamal. O Egipto está a testemunhar ‘o fim do Velho Médio Oriente'”.

Khaled Diab
© grnlive.com

Khalil Al-Anani
© Middle East Monitor

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 29 de Janeiro de 2011 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 29, 2011

A tragédia persa dos Pahlavi

O filho mais novo do último imperador iraniano não suportou o fardo dos crimes do pai, o suicídio da irmã, a morte súbita de uma namorada e a frustração de não poder participar na revolta da sua geração contra o regime islâmico. Alireza Pahlavi “morreu como um soldado que não aceita a desonra e a desgraça, com um só tiro na cabeça”.  (Ler mais | Read more…)

Alireza Pahlavi nasceu em berço de ouro, a 28 de Abril de 1966, cerca de um ano antes da cerimónia de coroação do seu pai, que já reinava há mais de um quarto de século. Foi o terceiro filho de Mohammad Reza e de Farah Diba. Não foi sempre recluso e introspectivo. A mãe descreveu-o como "o mais malicioso dos rapazes", que se exprimia "numa linguagem impecável e com sentido de humor". © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Alireza  foi o terceiro filho de Mohammad Reza e de Farah Pahlavi. Não foi sempre recluso e introspectivo. A mãe descreveu-o como “o mais malicioso dos rapazes”, que se exprimia “numa linguagem impecável e com sentido de humor”
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As janelas da mansão de Alireza Pahlavi na West Newton Street, em Boston, tinham vidros escuros e as persianas quase sempre fechadas. Os vizinhos viam apenas um homem taciturno, elegante nos seus fatos de luxo ou em jeans e blusão de cabedal, que entrava e saía num Porsche preto, sem falar com ninguém.

Só na terça-feira, dia 4 [de Janeiro e 2011], quando ouviram um disparo e a Polícia foi chamada de emergência ao local, ficaram a saber que o desconhecido era o filho mais novo do último imperador do Irão. Há muito que vivia deprimido. Suicidou-se com um tiro na cabeça. Tinha 44 anos.

“Ninguém parecia conhecê-lo e ele não fazia qualquer esforço para se encontrar com os vizinhos”, conta-me, por e-mail, Stephen Kinzer, jornalista e escritor que vivia na mesma rua de Alireza. “Havia um tipo que o conhecia do Irão mas, quando se aproximou dele, o príncipe afastou-o e recusou qualquer relacionamento.”

“Também nunca me encontrei com ele, o que lamento”, acrescentou o antigo repórter do New York Times, especialista em assuntos iranianos. “Eu frequentava a pizzaria na esquina da sua casa e pergunto-me se alguma vez o terei visto por lá. Gostaria muito de ter tido a oportunidade de lhe falar, mas Alireza não se mostrava interessado em discutir questões como a situação na actual República Islâmica ou o regime do seu pai, e muito menos com estranhos.”

Assim, quando escreveu no Daily Beast que Alireza “não podia ter deixado de reconhecer o papel que a sua própria família desempenhou para criar as condições que levaram os mullahs a tomar o poder”, em 1979, Kinzer admite que estava apenas a deduzir.

“Ele era um homem inteligente, que estudou a história do seu país, por isso, certamente que este pensamento lhe ocorreu”, acrescenta o autor de Os Homens do Xá – O Golpe no Irão e as Origens do Terrorismo no Médio Oriente (Ed. Tinta da China), biografia de Mohammad Mossadegh, primeiro-ministro nacionalista que a CIA derrubou para recolocar o “rei dos reis” Mohammad Reza Pahlavi no Trono do Pavão, em 1953.

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Alireza e o pai, em féria nas margens do Mar Cáspio, anos 1970
© Aryamehr

Alireza nasceu em berço de ouro, a 28 de Abril de 1966, cerca de um ano antes da cerimónia de coroação do seu pai, que já reinava há mais de um quarto de século. Foi o terceiro filho de Mohammad Reza e de Farah Diba Pahlavi. Não foi sempre recluso e introspectivo. A mãe, nas suas Memórias (Ed. Bertrand), descreve-o como “o mais malicioso dos rapazes”, que se exprimia “numa linguagem impecável e com sentido de humor”.

Aos três anos, narra a antiga imperatriz, o pequeno príncipe queria que o chamassem de Toutone, como o alcunhara a sua governanta francesa, ou como piloto, porque “o seu sonho era pilotar aviões de caça norte-americanos Phantom, que o fascinavam”.

À mesma governanta, que o tentava forçar a entrar na banheira, terá respondido: “Não quero tomar banho, quero ser um hippie sujo.” Um dia, durante o jantar, adianta a mãe, deixou todos perplexos ao confessar que gostava do “amor livre”.

Ao contrário dos irmãos mais velhos, Reza e Farahnaz, que depois do jardim-de-infância prosseguiram a escolaridade no palácio em Teerão, Alireza ingressou logo no jardim-escola do Liceu Razi onde Farah Diba Pahlavi estudara. Era um rapaz atrevido, consciente do seu poder e sem pudor de chamar “cabeça de burra” à sua professora.

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Mohammad Reza e a família, antes de ter sido forçado ao exílio após a revolução islâmica que derrubou a monarquia em 1979. Da esq. para a direita: Alireza, a imperatriz Farah, Leila (filha mais nova, que também se suicidou, em 2001), o “rei dos reis”, Fahranaz (filha mais velha) e Reza Pahlavi, o actual príncipe herdeiro
© dailymotion.com

Segundo a mãe, a relação de Alireza com o pai era de grande afecto. Apesar de Mohammad Reza ser um homem austero, permitia que o filho subisse para as costas dele, a brincar aos cavalos, e tolerava até as travessuras infantis que humilhavam os empregados.

Em 1979, quando o pai foi destronado pelo seu maior inimigo, o Ayatollah Khomeini, Alireza, de 12 anos, e a sua irmã mais nova, Leila, de 10, foram os primeiros membros da família a deixar o Irão. Embarcaram para os Estados Unidos a 15 de Janeiro. O imperador e a imperatriz chegariam a Assuão, no Egipto, no dia seguinte.

A viagem para o exílio terá sido traumática para os jovens príncipes habituados a uma vida de luxo e veneração. Acompanhados pela avó materna, pela ama de Leila e por um oficial, seguiram num avião militar C130, instalados no cockpit atrás dos pilotos porque o aparelho não estava preparado para transportar passageiros.

Com eles levavam “arroz numa marmita”, preparado pelos cozinheiros do palácio e “servido em pires de chávenas de café”, segundo o relato de Farah Pahlavi, que hoje divide o seu tempo entre Paris e Washington, onde Reza mantém um “gabinete imperial”.

15 March 1945, Rabat, Morocco - 7 December 1979, Paris, France) was the son of Princess Ashraf Pahlavi, twin sister of the Shah of Iran, and Ahmad Shafiq. © /military.wikia.com

A princesa Ashraf, irmã gémea de Mohammad Reza, também sofreu uma tragédia pessoal quando o seu filho Shahriar Shafiq, nascido em  Rabat, Marrocos, em 1945, foi assassinado m Paris, em 1979, ano da Revolução Islâmica. Nesta imagem, ele está acompanhado da mulher e dos dois filhos  
© military.wikia.com

A princesa Ashraf Pahlavi morreu em 7 de Janeiro de 2016, aos 96 anos. A imprensa francesa chamava-a “Pantera Negra”, cognome de que gostava: “Tal como a pantera, a minha natureza é turbulenta, rebelde e autoconfiante.” Na memória colectiva do Irão, permanecerá como “figura multidimensional, nunca banal”, escreveu o académico Hamid Dabashi 
© The National

Ainda mal se tinham habituado à sua errância (deambularam por vários países, até se instalarem definitivamente nos EUA), os Pahlavi sofreram mais um golpe a 7 de Dezembro de 1979, quando Shahriar Shafiq, filho da princesa Ashraf, gémea do rei, foi assassinado em Paris, com duas balas na cabeça.

Os assassinos terão sido enviados pelo novo regime teocrático: ele foi a primeira vítima de recém-criados “esquadrões da morte”. Tinha 34 anos, era oficial da Marinha e começou a organizar a resistência no interior do Irão logo após a Revolução Islâmica.

A 27 de Julho de 1980, há muito a agonizar com um linfoma, foi a vez de o Xá morrer, no Cairo, onde o amigo egípcio Anwar Sadat lhe dera o asilo que o aliado americano Jimmy Carter lhe negara. No Palácio de Kubbeh, Alireza e Leila foram os últimos a saber a notícia. Alireza recusou juntar-se à mãe. “Quis ficar sozinho com a sua dor”, conta ela.

No dia do funeral, a 29 de Julho, na Mesquita de Al Rifa’i quando os despojos do rei foram descidos para uma cave especial, Alireza seguiu o irmão mais velho, o príncipe herdeiro, Reza, “sem pedir autorização a ninguém”. Os médicos disseram a Farah Diba que tinha sido importante o facto de ele ter visto “onde repousava o pai”.

De 1979 a 1981, Alireza frequentou escolas nos EUA e no Egipto. Em 1984, licenciou-se na Princeton University e, em 1992, fez um mestrado na de Columbia. Inscreveu-se depois num doutoramento (que interrompeu sem justificação) em Harvard – centrando-se nos seus temas preferidos: História da Pérsia e do Médio Oriente, Filologia e Musicologia.

A depressão de Alireza ter-se-á agravado depois que a irmã favorita, Leila (ambos na foto, acompanhados da mãe, ao centro), se suicidou num hotel de Londres, com uma dose excessiva de barbitúricos (e, alegadamente, de cocaína), em 2001 – dez anos antes de ele ter dado um tiro na sua própria cabeça
© Paris Match

“Alireza podia ocupar a sua cabeça mas não o seu coração”, observou no site The Huffington Post a jornalista anglo-iraniana Charlotte Safavi, referindo-se ao homem que em tempos foi considerado “um dos solteiros mais cobiçados do mundo”, mas que não chegou a casar-se em 2001, como planeado.

O noivado de oito anos com Sarah Tabatabai acabou abruptamente quando ela morreu num acidente de mergulho náutico. Essa perda foi insuportável, segundo um amigo da família. “Tal como muitos da minha geração, incluindo eu própria, restava-lhe apenas a memória de uma pátria, com a dor acrescida de nunca ter conseguido regressar em segurança”, acrescentou Safavi.

[Em Agosto de 2011, o ‘website’ do príncipe herdeiro, Reza Pahlavi,  anunciou oficialmente o nascimento, a 26 de Julho  do mesmo ano, de Iryana Leila, “filha de Alireza e da sua noiva Raha Didevar”. A criança veio ao mundo seis meses depois de o pai ter morrido.]

Num artigo para a CNN online, Hamid Dabashi, autor de Iran: A People Interrupted e professor em Columbia, onde conheceu um “jovem estudante extremamente educado, sério e encantador”, concorda que, nos últimos tempos, Alireza terá olhado “com um misto de admiração e lamento a sublevação histórica pela democracia” no Irão.

“Admiração, porque este levantamento social gigantesco estava a acontecer no seu país natal; lamento, porque não imaginava para si próprio um lugar nessa revolta.”

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“Um dos solteiros mais cobiçados do mundo”, Alireza não chegou a casar-se em 2001, como planeado. O noivado, que durava há 8 anos, com Sarah Tabatabai (ambos na foto) acabou abruptamente quando ela morreu num acidente de mergulho náutico. A perda “foi insuportável”
© Iranian.com

Se tinha ambições políticas, o melancólico Alireza raramente as expressava em público, ao contrário do irmão Reza, que nunca abdicou de recuperar a coroa do pai, mobilizando os monárquicos iranianos na diáspora.

Stephen Kinzer recorda-se de uma só vez, em que, inquirido sobre o seu envolvimento no movimento da oposição, Alireza respondeu: “A minha missão permanece inalterável – farei o que puder para ajudar a causa da liberdade e da democracia no nosso país.”

O seu suicídio, salientou Stephen Kinzer, nesta entrevista, “gerou consternação na comunidade iraniana-americana, até entre os que detestavam os Pahlavi; porque transcendeu a política e é uma verdadeira tragédia pessoal e humana. A combinação de ambas é extraordinária”.

No Irão, os media próximos do regime noticiaram, sem comentários, “a morte do filho do ex-ditador”, enquanto os que estão ligados à oposição optaram por ignorar o acontecimento, para evitar críticas.

Ao comunicar o suicídio do irmão, numa conferência de imprensa, durante a qual não conteve as lágrimas, Reza Pahlavi declarou: “Posso imaginar que terá sido muito duro para uma criança tão pequena enfrentar os acontecimentos tumultuosos da revolução islâmica. Os últimos anos da vida de Alireza foram de altos e baixos. A depressão não é um caminho fácil, e ele sucumbiu.”

Deixou uma carta com o último desejo: que o seu corpo fosse cremado e as cinzas lançadas ao Cáspio, um mar que banha o Irão.

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Em 2011, o website de Reza Pahlavi, sucessor designado ao Trono do Pavão, anunciou o nascimento, em Boston, de Iryana Leila, filha de Alireza e da noiva, Raha Didevar (na foto) – ambas ostentam agora os títulos de princesa). A criança, que ganhou o título de princesa, veio ao mundo 7 meses após a morte do pai
© rezapahlavi.org

A depressão ter-se-á agravado depois que a sua irmã favorita, com quem mantinha uma grande cumplicidade desde a infância, se suicidou num hotel de Londres, com uma overdose de barbitúricos (e, alegadamente, de cocaína), em 2001.

Escreveu a mãe na autobiografia: “Leila consultou todo o tipo de médicos, e como a fadiga e as dores persistissem a despeito dos tratamentos, acabou por dizer que ninguém era capaz de a curar.”

“Então, como em todas as situações do género, acabou por frequentar reuniões, amigos ou amadores que lhe aconselharam soporíferos e calmantes, em vez de a ajudarem a exprimir os seus sofrimentos escondidos. (…) Ouvi várias vezes Alireza dizer-lhe com a sua rudeza de homem ferido: “Ouve, Leila, se continuas assim, vais morrer.””

Alireza acabou por escolher para si o mesmo destino de Leila. Talvez porque a depressão é uma doença familiar. A princesa Ashraf [com 93 anos – em 2013], figura sinistra que os iranianos apelidavam de “Pantera Negra”, era viciada em antidepressivos.

Abbas Milani, director de Estudos Iranianos na Stanford University e autor do livro The Shah, disse à revista TIME que as agências de espionagem americanas e inglesas mencionavam frequentemente nos seus relatórios as depressões do imperador – que, com Alireza, partilhava não só esta enfermidade como a paixão por aviões e carros de alta velocidade. Segundo Milani, um dos relatórios descrevia o soberano como “uma personalidade de tipo Hamlet”.

É assim também que Stephen Kinzer encara o suicídio chocante de Alireza, caracterizando-o com o invulgar termo de self-slaughter (autocarnificina). “É a última tragédia na longa história de uma família encharcada em sangue – primeiro, o dos iranianos que torturou e matou, e depois o seu próprio. É um drama de dimensões shakespeareanas.”

“O Xá governou em tempos o Irão com punho de ferro, mas a sua família pagaria muito caro pelos seus pecados, fazendo ecoar o julgamento de Hamlet de que um crime real ‘não pode acabar bem'”, escreveu no Daily Beast.

Alireza Pahlavi, ao colo da mãe, Farah Diba, nasceu em Teerão em 1966. © payvand.com/blog

Alireza Pahlavi, ao colo da mãe, Farah, nasceu em berço de ouro, Teerão, a 28 de Abril de 1966, cerca de um ano antes da coroação do pai, que já reinava há mais de um quarto de século
© payvand.com/blog

Na entrevista que nos deu, acentuou o biógrafo de Mossadegh: o destino trágico do Xá e dos seus parentes “tem menos a ver com a sensibilidade persa e mais com a patologia de uma família perturbada.

Os Pahlavi perderam o contacto com o seu país e estão, de certo modo, deslocados e desancorados, vivendo no seu próprio mundo de fantasia. Mohammad Reza era um homem profundamente inseguro que se compensava fingindo que era o maior rei de todos os tempos. Esta é uma família que apenas tem revelado uma ténue consciência da realidade.”

Apesar de tudo, Kinzer é complacente: “Alguns poderão dizer que o destino puniu de forma justa a família Pahlavi pelos seus grandes crimes, mas a realidade é que o príncipe Alireza era tão criminoso quanto os seus vizinhos.”

“Se os filhos são culpados das transgressões dos pais, ele estava seguramente coberto de culpa, mas se cada indivíduo é responsável pelas suas próprias acções e nada mais, era inocente. Nunca ordenou uma execução ou enviou alguém para uma câmara de tortura, nem se subjugou a uma potência estrangeira.”

“Podia, honestamente, manter a cabeça erguida. No entanto, o peso da história da sua família era, evidentemente, demasiado pesado para ele o carregar. Podemos imaginar os demónios que atormentavam o príncipe exilado enquanto vivia enclausurado na sua sombria mansão no South End antes de ter decidido pôr termo à vida. Morreu como um soldado que não suporta a desonra e a desgraça, com um só tiro na cabeça.”

Escreveu Ferdowsi, poeta nacional iraniano, no seu monumental Shahnameh (“Livro dos Reis”):

Que a nossa família seja vil ou gloriosa

A sorte nunca nos revelou a sua face

Mas, rei ou plebeu, sabemos que nós

Devemos deixar esta terra em breve para a eternidade.

Farah Diba e o princípe herdeiro, Reza Pahlavi, celebrando o Nowruz, Ano Novo Persa. Na mesa as fotografias do , de Alireza e de Leila
© instazu.com

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 10 de Janeiro de 2011 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 10, 2011 

As vidas de um “orientalista” entre dois mundos

Em O Orientalista – A Vida entre Dois Mundos (Ed. Civilização), o jornalista norte-americano Tom Reiss faz um retrato belíssimo de uma figura extraordinária: “um tal” de Essad-Bey que mudou de nome para Lev Nussimbaum e, depois, para Kurban Said. (Ler mais | Read more…)

Lev (ou Leo) Nussimbaum como Kurban Said
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Judeu de origem e muçulmano convertido. Filho de um magnata do petróleo e de uma revolucionária suicida. Monárquico e amigo íntimo do czar Nicolau.  Antibolchevique e inimigo feroz de Estaline. Perseguido/protegido por nazis e obcecado por Mussolini.

A história do homem que nasceu Lev (Leo) Nussimbaum e se escondeu sob os nomes de Essad Bey e Kurban Said permitiu a Tom Reiss escrever uma fascinante, e quase inacreditável, biografia.

Para Reiss, um dinâmico jornalista norte-americano (colaborador do New York Times, The Wall Street Journal e The New Yorker), a descoberta da vida, real e ficcionada, de Nussimbaum começou com uma viagem à capital do Azerbaijão, para fazer uma reportagem sobre o boom do petróelo do Mar Cáspio.

O que ouvira sobre a cidade deixara-o maravilhado: “Uma espécie de Paris do século XIX abandonada no deserto, com velhos casinos, salões de ópera, mansões elegantes e tudo numa decadência gótica”.

Lev como Essad Bey @es.paperblog.com

Lev como Essad Bey
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Antes de partir para Baku um amigo meu iraniano recomendou-me a leitura de “Ali e Nino”, de Kurban Said, para ter uma noção da cidade e do Cáucaso em geral, afirmando que o livro me seria mais útil do que qualquer guia turístico. (…) O romance gira em torno do amor entre um rapaz muçulmano e uma rapariga cristã, relatando o progresso da relação à medida que os dois crescem.

Ali e Nino era “o romance nacional por excelência” no Azerbaijão, mas Kurban Said era um mistério. No seu Hotel Hyatt Regency, em Baku, Reiss haveria de encontrar um outro livro, Petróleo e Sangue no Oriente, atribuído ao mesmo autor mas com dois nomes diferentes na capa: Essad-Bey e Lev Nussimbaum.

O repórter ficou perplexo com o prefácio, de um académico azerbaijanês, que dizia: “Essad-Bey, o narrador das histórias, converte-se ao Judaísmo, assumindo o nome de Lev Nussimbaum. (…) Mais tarde muda-se para Berlim, onde se junta a um círculo de intelectuais alemães.”

“Na década de (19)30, Nussimbaum vai para Viena, onde acaba por publicar o seu belo romance, Ali e Nino, sob o pseudónimo de Kurban Said. (…) Em 1938, o autor tenta fugir à chacina alemã, não tardando a ser preso e a ser levado para Itália. É lá que em 1942, trespassa um pé e morre em virtude dos ferimentos que se auto-infligira”.

Reiss interrogava-se: “O que levaria esse tal de Essad-Bey a mudar de nome para Lev Nussimbaum e, depois, para Kurban Said?” Tomou uma decisão. Escolheu centrar-se no “curioso labirinto da vida” de Nussimbaum, e o resultado são mais de 400 páginas, que se lêem sofregamente, sobre “um mundo esquecido no momento mais negro do último século”.

Memorial plaque, Essad Bey, Fasanenstraße 72, Berlin-Charlottenburg, Germany @DR

Placa de homenagem a Essad Bey/ Kurban Said, em, Berlin-Charlottenburg, Alemanha

Para o autor que seria acusado de transformar a História em contos de fadas a maior invenção seria ele próprio. Era uma estrela mediática da Weimar, um ‘orientalista’ profissional que cortejou Mussolini e se apresentou a toda a Berlim, incluindo à sua noiva herdeira, como um príncipe muçulmano, quando não passava de um judeu que vivera uma infância isolada e protegida, sozinho, a ler Kipling no chão da mansão do seu pai, em Baku.

De certa forma, Lev Nussimbaum era um exemplo extremo de um tipo vulgar nos séculos XIX e XX, mas agora esquecido: o orientalista judeu. (…)

O orientalista judeu via o Oriente não como o local onde poderia conhecer o Outro exótico, mas para encontrar as suas próprias raízes. Para ele, os árabes eram nada mais, nada menos do que irmãos de sangue – judeus a cavalo, nas palavras de Disraeli.

Não é possível ler o Orientalista, de Reiss, sem nos comovermos. Abraham, o pai de Nussimbaum, um judeu askhenaze, fez fortuna com o petróleo de Baku mas não terá sido feliz. Morreu pobre, provavelmente, no campo de concentração de Treblinka.

A mulher, Berta Slutzki, era uma activista bolchevique que ele libertou de uma prisão czarista e a quem Estaline extorquia dinheiro. Incapaz de conciliar a vida dupla de “revolucionária e milionária”, a mãe de Lev suicidou-se quando ele era criança. “A minha mãe trouxe-me ao mundo – foi a única coisa que fez por mim”.

Quando os comunistas tomaram o poder no Azerbaijão, Abraham e Lev empreenderam uma fuga, “com o dinheiro cosido nas bainhas dos casacos”, que os levaria a vários lugares do mundo. Usaram vários meios de transporte, de uma caravana de camelos a um navio de passageiros segregados por classes sociais. Para chegar aos destinos, serviram-se de subormos e de artimanhas múltiplas.

No relato das viagens e aventuras de Lev, Reiss é como um professor apaixonado e meticuloso. Às vezes emaranha-se em pormenores desnecessários, como a longa dissertação sobre o Império Otomano. Outras vezes, sobretudo nas abundantes notas de rodapé, aguça ainda mais a curiosidade.

É impressionante, por exemplo, a revelação de que “a Marinha israelita nasceu de um programa de treino fascista dos anos 1930 e de que o “Duce” [Mussolini] chegou a financiar uma cadeira fascista na Universidade Hebraica de Jerusalém”.

Antes de partir para Baku um amigo iraniano de Tom Reiss recomendou-lhe a leitura de “Ali e Nino” (na foto a primeira edição, em alemão, 1937), de Kurban Said, "para ter uma noção da cidade e do Cáucaso em geral, afirmando que o livro me seria mais útil do que qualquer guia turístico." @DR

Antes de partir para Baku um amigo iraniano de Tom Reiss recomendou-lhe a leitura de Ali e Nino (na foto, a primeira edição, em alemão, 1937), de Kurban Said, “para ter uma noção da cidade e do Cáucaso em geral”

Reiss, ele próprio judeu, fluente em 17 línguas e capaz de trabalhar “dias sem dormir” como o protagonista do seu livro, partilha com o leitor tudo o que, em seis anos de pesquisa por dez países, encontrou sobre a verdadeira identidade do homem que viveu “entre dois mundos”.

Ficamos a amar Lev Nussimbaum/Essad-Bey/Kurban Said como um super-herói, resistente até à morte, aos 36 anos, devido a uma gangrena incurável (síndroma de Raynaud) que começou no pé esquerdo e se propagou a ambas as pernas.

No final dos anos 1930, os nazis alemães que adoravam o “muçulmano Essad-Bey” denunciaram publicamente a sua “raça judaica” (no início da década, o Ministério da Propaganda de Goebbels tinha-o defendido dessa “acusação” proferida por outra agência do III Reich).

Em 1938, estava Lev refugiado em Viena e a escrever sob o pseudónimo de Kurban Said, quando a cidade caiu nas mãos das forças de Hitler. Mais uma vez foi forçado a fugir. Procurou abrigo na tranquila Positano, em Itália, mas nem aqui escapou à perseguição.

Nos derradeiros dias de vida, suportando dores terríveis com a ajuda de morfina e haxixe (o seu apartamento era como “uma sala de ópio persa”), sem dinheiro para comer e para os medicamentos, Lev continuou a escrever à mão, durante mais de dez horas consecutivas, numa letra pequenina e indecifrável.

Os últimos cadernos que Reiss encontrou na posse de uma das suas fontes intitulam-se O Homem Que Nada Sabe Sobre o Amor.

Em Positano, o eloquente orador de tertúlias literárias e aclamado escritor de dezenas de obras, entre eles as biografias de Nicolau, Estaline e Lenine, manteve a fantasia de ser um “príncipe”, na realidade convertido ao Islão, em 1922, na embaixada turca em Berlim.

Estávamos perante uma lápide branca esguia, encimada por um turbante. (…) O nome que figurava na campa era “MOHAMMED ESSAD BEY”.

Tom Reiss, o autor de O Orientalista @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Tom Reiss, o autor de O Orientalista

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2010 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2010

Banisadr: “Tenho a certeza absoluta de que o regime pode ser derrubado”

O Supremo Líder do Irão evitou a queda de Ahmadinejad, mas o primeiro Presidente destituído acredita que a teocracia não tem salvação. E insiste em que Reagan e Khomeini “conspiraram” – o primeiro (um republicano) para derrotar os democratas na América; e o segundo (um mullah) para impor uma teocracia. (Ler mais | Read more…)

Abolhassan Banisadr, em Junho de 2009. O primeiro presidente da República Islâmica do Irão vive exilado em França – o país de onde o Ayatollah Khomeini lançou a revolução para derrubar o Xá Mohammad Reza Pahlavi em 1979
© Tobias Schwarz | Reuters

Por estes dias, em Teerão, escreveu Reza Aslan, no website The Daily Beast, circula mais uma anedota: um jornalista estrangeiro apanha um táxi e, ao chegar a um cruzamento, pergunta ao motorista como se irá chamar a auto-estrada em construção. O condutor responde: “Auto-estrada Shahid [Mártir] Ahmadinejad”.

A anedota ilustra, segundo Aslan, as dúvidas quanto à permanência de Mahmoud Ahmadinejad no poder, sobretudo agora [Novembro de de 2010]  que o seu próprio campo conservador divulgou uma carta em que alguns deputados revelam que se “abstiveram de questionar e impugnar o Presidente” apenas porque assim exigiu o Supremo Líder, Ayatollah Ali Khamenei.

Vários jornais, incluindo os ligados à ala dura, adiantaram que a carta tem 40 assinaturas. Para iniciar um debate parlamentar sobre impugnação são necessárias 73. Entre as “14 violações da lei” imputadas ao chefe de Estado estão “a importação ilegal de gasolina, a falta de transparência orçamental e o uso indevido de milhões de dólares da reserva nacional”.

Para entender o que se passa no Irão, entrevistei, por telefone, Abolhassan Banisadr, o primeiro Presidente da República Islâmica. Venceu as eleições de Janeiro de 1980 com 78,5% dos votos, mas em Junho de 1981 foi impugnado pelo Parlamento, que o considerou “politicamente incompetente para governar”.

Este desfecho só foi possível porque ele perdeu a confiança do Ayatollah Khomeini, o teólogo que derrubou o imperador Mohammad Reza Pahlavi. O seu maior erro foi tentar separar o Estado da mesquita.

Olhado com desconfiança até pelo seu campo liberal, Banisadr nunca exerceu autoridade efectiva – o poder tinha sido colocado nas mãos do Partido Republicano Islâmico (PRI), dominado pelos homens de turbante.

Abolhassan Banisadr em 1979-1980, os primeiros anos da revolução islâmica
© Wikimedia Commons

Nas legislativas de 1980, o PRI elegeu quase metade dos deputados. A primeira grande crise aconteceu quando chegou a altura de tomar uma decisão sobre o destino dos 53 norte-americanos que, em Novembro de 1979, tinham sido sequestrados na Embaixada dos EUA em Teerão.

Banisadr insistia em que os cativos deveriam ficar sob a sua alçada; o PRI exigiu que ficassem sob controlo dos sequestradores. Khomeini esperou pela jogada seguinte dos EUA, e ela aconteceu, com uma missão de resgate.

Quando soube que os helicópteros se despenharam e incendiaram, numa tempestade de areia, Khomeini creditou o fiasco a Deus, que “protegeu a nação governada pelo islão”. Ora, Banisadr não podia competir com Deus.

Em 20 de Janeiro de 1981, a decisão de libertar os reféns foi de Khomeini. Ele precisava de quebrar o isolamento, para se concentrar na guerra que o Iraque iniciara.

Em Março de 1981, o Majlis (Parlamento) restringiu os poderes do Presidente, numa altura em que começaram a circular rumores de que Banisadr tinha sido “informador da CIA”. Ele reagiu dizendo que o PRI era “uma calamidade maior do que a guerra”; O PRI replicou que “era melhor perder metade do território do que ter Banisadr como governante”.

A palavra final coube a Khomeini: “O dia em que sentir que a República Islâmica está ameaçada, cortarei as mãos de todos – farei o que fiz a Mohammad Reza.”

Ayatollah retirou a Banisadr o comando das Forças Armadas a 10 de Junho de 1981. Quando o Parlamento o impugnou, dia 21, já estava na clandestinidade. A 29 de Julho fugiu para França.

Left to right: Iranian political figures Abolhassan Banisadr, Mehdi Bazargan and Ruhollah Khomeini in early 1979. Bazargan was the interim Prime Minister after the Iranian Revolution. Banisadr became the first elected President of the Islamic Republic @DR

Da esq. para a dir.: Abolhassan Banisadr, Mehdi Bazargan (que foi primeiro-ministro) e Khomeini em 1979, o ano da queda da monarquia

Vários jornais referem uma tentativa de deputados de impugnarem Mahmoud Ahmadinejad [que foi Presidente, durante dois mandatos, de 2005 a 2013] . Como avalia a situação?

O que aconteceu foi que o Conselho da Salvaguarda da Constituição aprovou um relatório visando aumentar os poderes do Presidente, mas quatro deputados escreveram uma carta aberta na qual mostram que o Presidente não está a cumprir a lei. No entanto, o senhor Khamenei interveio para que os deputados não interpelassem o Governo. Sem a autorização de Khamenei não haverá um inquérito parlamentar ao Presidente.

Porquê?

Porque foi Khamenei quem impôs Ahmadinejad. Foi uma grande aldrabice. Se o Parlamento colocar em causa o Presidente, estará a colocar em causa Khamenei. Para passar a imagem de que houve um entendimento, Khamenei impediu a interpelação de Ahmadinejad.

A imagem que nos chega é a de que está em curso uma luta pelo poder no campo conservador.

Ah, mas essas divisões na ala radical já não são uma novidade. Depois da sublevação popular que se seguiu às presidenciais de 2009, as divisões agravaram-se.

A questão mais importante que se coloca agora é quem vai suceder a Khamenei. Este fez um discurso perante os Basij, os voluntários ao serviço dos Guardas da Revolução, em que colocou a questão de como poderia ser aprovada uma lei que designe o seu filho Mojtaba como sucessor.

Uma parte do problema reside aqui: vários radicais [do regime] discordam desta sucessão. Acham que se o filho suceder ao pai regressa a monarquia.

O segundo problema tem a ver com o modo como Ahmadinejad geriu a economia iraniana, agora ainda mais deteriorada pela crise internacional. Isto acentuou fricções no regime, com alguns a defender que é preciso desembaraçar-se de Ahmadinejad. Terceiro problema: quem vai suceder a Ahmadinejad?

Fala-se na aplicação de um cenário semelhante ao da Rússia, quando Vladimir Putin trocou a Presidência com o primeiro-ministro Dmitri Medevedv na Rússia.

Ou seja, é necessário encontrar quem ocupe a Presidência antes de Ahmadinejad a deixar. E Ahmadinejad está a tentar lançar o seu “braço direito”, Esfandiar Rahim Mashaei, e o vice-presidente, Mohammad Reza Rahimi, para que eles se candidatem para depois saírem de cena e Ahmadinejad se recandidatar.

Só que este cenário enfrenta um obstáculo: os outros potenciais candidatos conservadores, como Ali Larijani, presidente do Parlamento, e Mohammed Bagher Ghalibaf, presidente da Câmara de Teerão [antigo comandante dos Guardas da Revolução e da milícia Basij, eleito em 2005]. Em resumo, as diferentes tendências da direita radical estão cada vez mais desavindas.

[Ahmadinejad perdeu o apoio de Khamenei (em parte por insistir em promover Mashaei) e, nas eleições de 2013, para surpresa de muitos, o vencedor foi um  religioso “pragmático”, Hassan Rouhani, que tem tentado quebrar o isolamento do Irão.]

Em 1989, assim que Khomeini assumiu o controlo do país, Abolhassan Banisadr foi por ele nomeado vice-ministro da Economia e Finanças, em Julho, e ministro em Novembro. Em 25 de Janeiro de 1980, seria eleito primeiro presidente da República Islâmica e também designado para presidente do Conselho Revolucionário
© rayanworld.com

Pode a oposição beneficiar desta fraqueza do regime?

Hoje, a oposição democrática que estava dispersa começa a reagrupar-se e a unir-se, enquanto no regime as divisões se acentuam. É uma grande oportunidade.

Mas de que oposição está a falar? Há algum líder que seja uma alternativa a Ahmadinejad?

Há uma oposição dentro e fora do Irão que luta pela democracia. E está a registar-se uma aproximação à oposição reformista ao regime, cujas figuras de proa são Mir-Hossein Mousavi, Mehdi Karroubi e Mohammad Khatami.

Não incluiu nesse grupo o Ayatollah Akbar Hashemi Rafsanjani, o ex-Presidente. Porquê?

Porque Rafsanjani pertence ao campo conservador. Ele opõe-se a Ahmadinejad mas não partilha as ideias dos reformistas.

Os reformistas, como Mousavi e Khatami, também não pretendem a queda do regime. Defendem que o Irão se mantenha uma república islâmica Não é isso o que Rafsanjani quer?

Sim, os reformistas querem apenas mudar o regime, não extingui-lo, enquanto a oposição democrática tem como objectivo o fim do regime e a sua substituição por uma verdadeira democracia. Esta oposição, dentro e fora do Irão, mantém-se em contacto, de várias formas: redes sociais, publicação de artigos, discursos… Há correntes de pensamento, a informação circula.

Iranianos celebram a vitória de Abolhassan Banisadr nas presidenciais de 1980
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A oposição fora do Irão já sanou as divergências que a fracturavam?

Durante o reinado do Xá [Mohammad Reza Pahlavi] não havia o precedente de uma oposição democrática unida, mas agora – na Europa, nos EUA e no Canadá – estamos a tentar redigir uma plataforma clara para definir as bases para uma democracia.

Acha mesmo que é possível o regime ser derrubado?

Tenho a certeza absoluta! O povo iraniano já não quer este regime, mas uma democracia genuína.

Como é possível derrubar um regime que assenta sobre o poderoso pilar dos Guardas da Revolução, que controlam tudo, até o programa nuclear?

Este regime dura há 30 anos [desde 1979] mas é minoritário. Em 1980, o PRI apresentou um candidato à Presidência e só obteve 4%  – eu consegui 78,5 %. Hoje, o regime continua a ser minoritário porque não tem o apoio da maioria.

Há quem diga que, nas últimas presidenciais [em 2009], foram apenas as classes urbanas que votaram na oposição, enquanto a maioria escolheu Ahmadinejad. Como pode o regime ser minoritário?

Bem, para os conservadores, o regime é maioritário; para o povo, é minoritário. Um regime minoritário só pode governar graças aos Guardas da Revolução – isso não chega para sobreviver. Antigamente, não havia interesse do Ocidente em que o Irão fosse uma democracia. Agora, o Ocidente não quer que uma ditadura se instale no Irão.

Este não é um regime que beneficia da ajuda de potências internacionais como no tempo do Xá. É um regime isolado, tendo apenas os Guardas da Revolução como base. Não se pode governar assim por muito tempo. É impossível! Essencial é que o povo ultrapasse a fase de indecisão em que se encontra, para podermos encontrar uma alternativa democrática a esta ditadura.

Abolhassan Banisadr obtém licença do Ayatollah Khomeini para assumir a presidência da República Islâmica, em Janeiro de 1980
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O regime será derrubado a curto, médio, longo prazo?

Quando se trata de um regime deste género, não podemos dar uma resposta exacta. Em Portugal, Salazar esteve 40 anos no poder e caiu. Tudo vai depender de o povo vencer a sua indecisão – se vencer, o fim da teocracia será uma questão de curto prazo. Se a indecisão permanecer, o regime sobreviverá.

Foi o primeiro presidente da República Islâmica a ser impugnado. O que distingue a sua situação da de Ahmadinejad?

Há uma grande diferença! Eu fui eleito por uma maioria do povo e destituído num golpe de Estado, contra a vontade do povo. Hoje, o Irão tem um Presidente que não foi eleito, e é o povo que o quer afastar.

Ahmadinejad [teve] o apoio do Supremo Líder; o senhor, pelo contrário, perdeu a confiança de Khomeini. Como é que isso aconteceu, já que era um dos seus principais conselheiros no exílio?

Sabe? Khomeini fez um acordo secreto com Ronald Reagan e George H. W. Bush, e eu não aceitei isso.

Que acordo secreto?

Era um acordo para que os reféns na embaixada norte-americana em Teerão só fossem libertados depois de os republicanos derrotarem o democrata Jimmy Carter, nas presidenciais de 1980. Khomeini queria que eu aceitasse esse acordo.

Isso interessava a Khomeini?

Com os republicanos na Casa Branca, seria mais fácil para ele impor a sua ditadura no Irão.

É difícil entender como é que um marxista educado no Ocidente, como o senhor, se associou a um teólogo que engendrou o conceito de velayat-e faqhi (governo do jurista). Achou possível que Khomeini iria manter a religião separada do Estado?

Eu não era a favor do velayat-e faqhi – isso é indesmentível! Eu queria que a Constituição devolvesse a soberania ao povo. Foi por isso que Khomeini se opôs a que eu me candidatasse a Presidente.

Abolhassan Banisadr (ao centro) durante a chamada “crise dos reféns americanos“, que se seguiu à ocupação da Embaixada dos Estados Unidos em Teerão, em 1979: o princípio do fim da sua presidência

Banisadr fugiu para França na companhia de Massoud Rajavi (à dir.), líder dos Mujahedin-e Khalq/MEK, grupo de oposição que se aliou ao Iraque durante a guerra1980-1988 e, por isso, é hoje odiado pela esmagadora maioria dos iranianos]
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O que se diz é que o senhor foi a escolha de Khomeini para silenciar os críticos e para pôr fim a uma “guerra de mullahs” que durou de Dezembro de 1979 a Janeiro de 1980.

Não, não, não! Havia 26 candidatos – um número jamais visto noutro país. Khomeini disse que não votou em mim, porque ele não era a favor da minha candidatura.

No entanto, quando viu que obtive mais de 70% e que os candidatos dos mullahs só tinham 4% , os que dirigiam na época a República Islâmica, como Rafsanjani [que presidia ao Parlamento] e Khamenei [líder das orações de sexta-feira], começaram a conspirar contra a minha legitimidade política.

Foi aí que sentiu a sua vida em perigo e decidiu sair do país?

A minha vida esteve sempre em perigo, porque o procurador dos tribunais revolucionários me condenou à morte não uma ou duas vezes, mas sete!

Fui para França e, desde que aqui cheguei, não me canso de denunciar as relações orgânicas que havia entre o “khomeinismo” e o “reaganismo” – e foi por isso que fui perseguido e tive de fugir.

Há muitas histórias à volta da sua fuga. Teve de rapar o bigode?

Sim. Eu saí do país com um bilhete de identidade emprestado por um militar que não tinha bigode e, por isso, tive de rapar o meu.

E vestiu-se de mulher?

(Risos) Isso foi o que os Mullahs disseram. E sabe porquê? Porque desprezam as mulheres. Fui apanhar o avião a uma base militar e nunca poderia entrar vestido de mulher ou como civil. Embarquei com uniforme. Mas digo-lhe: se a situação exigisse, não teria qualquer problema em vestir-me de mulher.

O facto de ter fugido para França na companhia de Massoud Rajavi, líder dos Mujahedin-e Khalq, grupo de resistência armada que se aliou ao Iraque [e por isso é hoje odiado pela esmagadora maioria dos iranianos], com o qual o Irão travou uma guerra de oito anos e um milhão de mortos, não manchou a sua carreira política?

Eu e ele firmámos um acordo de princípios, baseado na independência, liberdade e não-hegemonia. Poderíamos ter sido uma alternativa forte de poder. Infelizmente, ele não respeitou o acordo. Aliou-se ao Iraque de Saddam Hussein [instalando bases na fronteira comum], e afastou-se da via da democracia. Ao recusar democratizar-se, tornou-se um perigo tão grande como os ‘Mullahs’.

Como tem sido a sua vida no exílio? Mantém contactos com o Irão? Tenciona voltar um dia?

Continuo activo politicamente em França. Dou entrevistas, escrevo. Em breve, vou publicar um livro, já traduzido para inglês, chamado A Dignidade do Homem. Não espero ser de novo Presidente, devido à minha idade avançada, mas continuo a esforçar-me para que o povo iraniano desenvolva a sua cultura democrática.

Se apoiasse um candidato a Presidente, qual seria?

Sob este regime, não há nenhum candidato que conte com o meu apoio ou protecção. Só quando este regime for substituído por uma democracia é que poderei dizer qual o meu candidato presidencial preferido, homem ou mulher.

Abolhassan Banisdar, durante uma entrevista com a Associated Press, em Versalhes (França) @AP Photo

Abolhassan Banisadr, durante uma entrevista com a Associated Press, em França
© Associated Press

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 28 de Novembro de 2010 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on November 28, 2010

O Islão delas não é só para homens

As muçulmanas mais influentes da Europa não são mulheres submissas e oprimidas. Religiosas ou laicas, elas valorizam a liberdade, a educação e a ousadia de correr riscos e quebrar tradições. Usar o hijab, diz uma delas, significa apenas “cobrir a cabeça, não esconder as ideias”. (Ler mais | Read more…)

Suad Mohamed : A imã livre da Suécia

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Em 1985, aos 16 anos, quando chegou a Estocolmo, vinda da sua Etiópia natal, Suad Mohamed ficou fascinada ao ver grupos de punks nas ruas. “Se eles exibiam aqueles cabelos excêntricos, eu também poderia usar o meu hijab”, disse a primeira imã (líder espiritual) da Suécia – um título que não é reconhecido oficialmente nos países islâmicos.

Ainda assim, não foi fácil. Já naquele tempo, antes de a extrema-direita xenófoba estar em ascensão, uma funcionária de um supermercado foi instruída pelo patrão a não atender Suad Mohamed se esta não retirasse o lenço que lhe cobria a cabeça. O episódio entristeceu-a, mas não modificou a sua opinião sobre o país que a acolheu.

“Desde que cheguei à Suécia que me deixei seduzir pelo modo como a sociedade trata as mulheres”, diz-nos a imã, sentada numa poltrona de um hotel de Madrid, cidade onde, a 30 de Outubro, decorreu a gala que elegeu – pela primeira vez – as dez muçulmanas mais influentes da Europa.

Ela fazia parte de uma short list de 26,seleccionadas pela CEDAR, uma rede pan-europeia de profissionais muçulmanos, mas ficou ausente do “top 10”. Não ficou incomodada, até porque a amiga Barni Noor, uma jovem de origem somali que é presidente da Associação das Mulheres Muçulmanas da Suécia, foi uma das dez escolhidas.

Suad Mohamed estava mais preocupada com o regresso a casa, e a noite já ia longa quando esta entrevista começou. Compreensível, portanto, que a voz doce se arrastasse, o sorriso perdesse luminosidade e os formosos olhos – característicos das mulheres etíopes – ornados por um eyeliner negro, denunciassem fadiga.

O dia tinha sido de muita ansiedade mas, ainda assim, a imã mantinha o porte altivo, numa longa túnica e manto negros, com bordados brancos e brilhantes, a combinar com o hijab que, bem justinho ao queixo e à testa, não deixava vislumbrar uma melena.

Quando se fala da Suécia, Suad parece esquecer o cansaço. “Aqui as mulheres são livres. Eu gosto desta liberdade individual. Da capacidade que cada uma tem de fazer as suas escolhas pessoais, de tomar as suas próprias decisões. Foi muito bom para mim –, porque esta é a liberdade que o islão e o Corão me oferecem.”

“Gosto da minha religião, mas não aprecio algumas tradições que impedem as mulheres de agir de sua iniciativa. Olhei para as mulheres suecas como exemplo – absorvi o que gostava nelas; recusei o que não me interessava. Construi desta maneira a minha identidade.”

Ser muçulmana na Europa, acredita Suad Mohamed fez dela uma pessoa diferente. “Em Marrocos ou na Arábia saudita, as mentalidades não mudaram. Eu sou muito europeia, mesmo que a minha aparência física não o indique.”

“Os meus filhos são ainda mais europeus do que eu, porque eu nasci na Etiópia mas eles já nasceram na Suécia. Eles são religiosos, por opção, e orgulhosamente suecos. Sou grata por a Suécia ter feito de mim uma mulher livre – não é fácil ser africana, muçulmana e imigrante.”

Suad foi viver para a Suécia, em busca de uma vida melhor, porque já aqui se encontrava o seu irmão. Não teve grandes dificuldades de integração e explica porquê: “Falar a língua é a chave, porque quando falamos a língua do país que nos recebe estamos a comunicar, aprendemos os códigos da sociedade. Se não aprendermos – e foi isso que aconteceu com os meus pais –, seremos sempre outsiders. Viveremos como imigrantes isolados.”

Da Suécia, onde fez estudos superiores “para ser professora”, Suad foi para Universidade de Zarka na Jordânia onde se formou em Shariah, lei islâmica. Quando voltou a Estocolmo, em 2002, deu uma entrevista ao jornal Kyrkans Tidning, órgão oficial da Igreja Protestante sueca [separada do Estado], e foi assim que ganhou o título de imã.

“Que coisa extraordinária, não?”, comentou ela, divertida e briosa. “Na realidade, até para mim, tem sido difícil assumir-me como imã.

Entre os cerca de meio milhão de muçulmanos da Suécia, “uma comunidade com diferentes grupos de diferentes países”, nem todos reagiram bem – “as mulheres resistiram mais do que os homens” – a que Suad ostentasse o título de imã.

“Para mim, um(a) imã é um(a) líder”, enfatiza. “E as mulheres muçulmanas podem ser imãs – porque o Islão o permite. Se uma mulher lidera a oração, o que devemos chamar-lhe? Imã, respondo eu. Uma líder ouve os fiéis, educa-os sobre o Islão, sobre os seus direitos e deveres – porque até agora a interpretação dos textos sagrados tem sido feita só pelos homens. É a perspectiva masculina que tem predominado. Isso não é bom. O Islão não é apenas para os homens.”

Suad não lidera orações – excepto se a congregação for totalmente feminina. “A minha função centra-se sobretudo na participação em actividades religiosas da comunidade. Claro que gostaria de ver os irmãos e as irmãs [como os muçulmanos se referem uns aos outros] lado a lado e não segregados nas mesquitas.”

“Mas a minha prioridade não é liderar a salat [oração] e sim a educação das mulheres. Encorajá-las a seguirem o seu caminho. Ajudo-as a saber usar a educação para não dependerem do Islão dos homens.”

Como é que esta figura de baixa estatura mas fortes convicções marca a diferença? “Bem, quando as mulheres têm problemas com as suas famílias, com os maridos, quando não são tratadas com igualdade, eu ajudo-as com uma interpretação mais feminina do Corão e das hadith”, responde.

“Por exemplo, muitas mulheres têm medo de se divorciar. Não é uma coisa boa, mas se tiver de ser, será. No entanto, por causa das tradições, muitas ainda têm medo dos familiares, dos amigos. A decisão final é sempre das mulheres. Eu aconselho-as, e encorajo-as, porque o Islão permite o divórcio. As mulheres não têm de viver para sempre uma relação infeliz.”

Foi o que fez a própria Suad. “Divorciei-me do pai dos meus filhos (uma rapariga de 22 anos, um rapaz de 20 e duas gémeas, de 16) e voltei a casar-me. Já era imã quando me separei, mas não foi essa a razão da ruptura. O divórcio não foi litigioso. O meu primeiro marido também se voltou a casar e tem outros dois filhos.”

“Damo-nos todos bem. Muitos estranharam o meu divórcio, por eu ser muçulmana, mas é normal porque sou um ser humano e porque a minha vida tem sido passada a quebrar tradições. Se o meu actual marido não me aceitasse como imã eu não estaria com ele.”

Em casos de divórcio, o que conta é a lei sueca, esclarece Suad. No entanto, no caso das muçulmanas, é necessário ter também um certificado de acordo com a Shariah. “Muitas mulheres não se sentem confortáveis sem este documento e, nos países islâmicos, sobretudo no Médio Oriente, sem ele não podem casar-se novamente, porque o divórcio não será reconhecido”.

Suad não tem poder de emitir estes certificados apesar de formada em Shariah. “Ainda não cheguei tão longe”, graceja. “Como imã, estou apenas a dar os primeiros passos. Ainda me encontro na fase em que se discute se devo usar o título de imã.”

“Alguns membros da comunidade mostraram-se muito, muito furiosos. Gerou-se um grande debate, mas quando lhes pergunto como designam uma mulher que lidera a salat {oração], eles admitem que é ‘imã’”.

O poder de emitir fatawa [éditos religiosos] também não interessa a Suad Mohamed. “Não possuo o saber e a experiência necessárias para emitir uma fatwa”, admite. Contudo, quando chega a hora de falar sobre a capacidade de interpretar os textos sagrados, ela não hesita em puxar dos pergaminhos:

“Sei ler árabe, sei ler o Corão, sei ler as hadith [tradições do tempo de Maomé], sei fazer a tafsir [exegese corânica – processo de explicar, interpretar e comentar os mandamentos do livro sagrado do islão.] O árabe é a língua que melhor domino!”

Por comandar este domínio religioso, jurídico e linguístico, Suad garante que “a igualdade entre homens e mulheres está reconhecida em muitas hadith e no Corão”. E avisa: “Haverá quem interprete os textos de uma maneira injusta para com as mulheres, mas eu posso provar que não é verdade. Há muçulmanas que se queixam de que o Islão é injusto com elas. Mas como podemos acreditar em Deus se achamos que Deus só é justo com os homens?”

“Há mulheres que recusam a minha perspectiva feminina dos textos sagrados. De certo modo, até as entendo. Nunca tiveram liberdade de pensar. São muito dependentes. Não conseguem escapar do espaço em que foram confinadas. Não é fácil ser livre. É preciso quebrar tudo o que nos acorrenta, sejam os pais, os maridos, os amigos. É como se fosse uma guerra. Se não formos fortes, não sobrevivemos.”

“Eu quero mudar a comunidade muçulmana, quero que ela se sinta integrada”, promete Suad. “Por isso, aceito convites para falar nos media e, recentemente, até participei na gay pride parade, em Estocolmo. Dei uma palestra sobre sexo e homossexualidade no islão. Um jornal deturpou o que eu disse e recebi muitas mensagens de protesto, porque este é um tema sensível.

“A homossexualidade não é aceite no Islão mas eu, como sueca, tenho de a respeitar – não tolerar –, mas respeitar”, esclarece. “Se alguém escolher ser assim, tudo bem, mas o Islão não permite. Não me peçam para aceitar ou dizer que o Islão permite a homossexualidade, porque ser homossexual é haram [proibido], não é halal [permitido].”

“Ser homossexual é uma escolha; não se nasce assim. Muitos tornam-se gays e lésbicas depois de terem sido heterossexuais. Um homossexual pode ser muçulmano, mas está errado segundo o Islão. É o mesmo que um muçulmano que bebe álcool ou que mata. Está a agir de forma errada; a fazer coisas que Deus não gosta.”

Antes de nos despedirmos, perguntamos a Suad Mohamed se ela sabe que a palavra Imâm, está relacionada com o termo umm (mãe), segundo explicou Halima Krausen, uma convertida ao Islão, oriunda de uma família e protestantes e católicos da Alemanha, e que ostenta, na mesquita de Hamburgo, o mesmo título da etíope-sueca. Esta confessou o seu desconhecimento mas gostou de saber que a raiz árabe de Imâm é amma, com os significados de “estar à frente, liderar, avançar”.

Khadija e Mariame : As irmãs de Hijab and the City

© Rui Gaudêncio

© Rui Gaudêncio

Na Casa Árabe, em Madrid, onde um júri elegeu, à porta fechada, as dez muçulmanas mais influentes da Europa, o distinto lenço prateado de Mariame Tighanimine destacava-se entre os convidados para esta iniciativa sem precedentes.

Aos 23 anos, ela brilhava tanto quando o ecrã do seu telemóvel no qual twittava freneticamente. Ao seu lado estava a mais discreta Khadija, a irmã de 30 anos com quem fundou, em 2008, a webzine Hijab and the City. [Já não está activa, porque as duas irmãs seguiram, entretanto, outros rumos].

Mariame vestia uma longa saia azul até aos pés, camisola preta e um casaco de malha; Khadija, uma blusa de seda branca, uma saia comprida de onde espreitavam os sapatos e um lenço tão negro quanto as suas sobrancelhas espessas.

Quando saíram para o luxuoso Hotel Wellington, onde decorreu a cerimónia de entrega dos prémios – elas integravam a short list de 26 nomes – aos elogios à elegância de ambas, responderam numa uníssona gargalhada, apontando para as suas roupas entretanto ocultas por elegantes sobretudos: “Mas isto é tudo da Zara, da H&M e da La Redoute.”

Foi à Zara que Mariame e Khadija foram comprar bandanas para tapar o cabelo, quando a França proibiu, em 2004, a ostentação pública de símbolos religiosos. Mariame, a mais arrebatada, explica-nos em francês: “Confrontadas com a interdição, não podíamos deixar de viver. Por isso, foi natural irmos a uma loja comprar algo que substituísse o hijab, que pode usar-se de maneiras diversas.”.

E por que usam elas o lenço? É um símbolo religioso? É moda? Khadija, a mais serena, responde-nos em inglês: “Usamos o hijab porque temos convicções e fomos educadas numa família religiosa muçulmana.”

“O hijab é parte da nossa identidade islâmica. Faz parte do modo como exprimimos a nossa espiritualidade, a nossa relação com Deus. É uma parte de nós, embora eu e Mariame não tenhamos a mesma definição do hijab, nem as mesmas motivações.”

Mariame, que na sua página do Facebook tem como religião “zoroastra”, esclarece: “Sempre recusei dar explicações para o facto de usar o hijab, porque quando me colocaram essa questão pela primeira vez fizeram-no de uma forma muito violenta. A razão por que uso, e o uso-o desde pequena, tem evoluído ao longo dos tempos. Não posso apontar uma única razão – mas garanto que não foi uma imposição.”

Khadija adianta: “Não concordo que o hijab deva ser imposto pelos homens – isso faz parte de uma interpretação machista da religião. Não podemos dizer que Deus é injusto, porque no Islão há igualdade entre homens e mulheres. Não é por eu querer ser discreta ou para agradar aos homens que uso o hijab – nada disso! Isso é um dos habituais clichés, que infelizmente predominam.”

Quando usam o hijab estão a exibir a vossa religião. Têm de mostrar que são muçulmanas? Khadija replica: “Bem, todos somos diferentes; eu uso um véu, outros usam uma cruz, outros envergam uma T-shirt de Che Guevara, outros têm um look gótico, outros exibem-se como metrossexuais.”

“Nós queremos ser nós próprias, ainda que, em alguns países, alguns tenham dificuldade em aceitar-nos como cidadãos normais. O hijab é parte da nossa identidade. Não seguimos regras.”

As duas irmãs, as mais novas de seis filhos (cinco raparigas e um rapaz) de uma família proveniente do Sul de Marrocos, nasceram em França onde os pais se instalaram nos anos 1970. Elas assumem-se como “mulheres muçulmanas ocidentais” e recusam ser consideradas “véus ambulantes”. Criaram Hijab and the City porque, como disse Khadija “é uma pena que se fale tanto sobre as mulheres muçulmanas mas não lhes dêem voz”.

Mariame acentua: “Não nos reconhecemos no que os media tradicionais escrevem sobre nós. Raramente perguntam às mulheres de lenço/véu o que elas querem. Nós quisemos mostrar que podemos ser emancipadas e não estar sob o jugo dos homens. Mas, para sermos emancipadas, a primeira coisa a fazer é ganhar a palavra. A nossa webzine é uma tribuna aberta às mulheres ignoradas, onde elas podem interagir com todas as pessoas que entenderem.”

Hijab and the City também apareceu porque as suas fundadoras se aperceberam que o mercado de trabalho em França não aceita de bom grado mulheres de véu.

“Não sou blogger de profissão”, vinca Khadija. “Tenho uma licenciatura em Ciência Política e outra em Arquitectura. Trabalhei em obras para reabilitar habitações sociais nos subúrbios mas perdi o emprego por causa do meu hijab. Eu já tinha feito tantos sacrifícios, não podia negar uma parte do que eu era. Decidi criar o meu próprio negócio. Foi bastante difícil, mas abrimos uma janela para exprimir as nossas posições sem sermos julgadas. Recuperámos a liberdade e iniciámos uma aventura.”

Mariame frequentava o curso de Sociologia Económica, na Universidade de Paris X-Nanterre (onde Khadija também se formou), quando os símbolos religiosos foram interditados em França. “Desisti dos estudos porque percebi que não teria emprego, mas também porque Hijab and the City ocupa uma grande parte do meu tempo e temos tido grande sucesso”, justificou.

A webzine que alguém definiu como a blog for girls who happen to be Muslim and not a Muslim blog for girls (um blogue para raparigas que por acaso são muçulmanas e não um blogue muçulmano para raparigas) aborda todos os temas das revistas tradicionais femininas, como culinária, moda e beleza. Mas é diferente porque, asseguram Khadija e Mariame, “tem ética e um touch islâmico”.

Em Hijab and the City há uma rubrica de psicologia, a cargo de uma médica que colabora pro bono, “e compreende as sensibilidades religiosas sem necessidade de evocar versículos do Corão para solucionar problemas”. Também trata de questões polémicas como o niqab, o apedrejamento de mulheres, a poligamia.

Nestes temas, distinguem-se da concorrência, segundo elas, porque fazem “investigações de fundo” para melhor os explicar. Khadija e Mariame repetem que não lhes interessa “ser militantes, porque isso é contraproducente, e o objectivo é criar pontes e estabelecer um fórum de debate”.

Com uma equipa de seis pessoas (“por agora, todas voluntárias”), Hijab and the City colabora com outros bloggers, beneficiários da visibilidade entretanto conquistada por esta webzine, que se tornou popular “primeiro de boca em boca” e, depois, graças a artigos em jornais e sites franceses e internacionais.

As duas irmãs estão agora entusiasmadas com “um novo modelo de negócio”: a venda de acessórios online. Mariame gaba e ergue o saco que traz a tiracolo. “Vejam, é de material orgânico; este tem a imagem de uma cabra de cinco patas do Eid [festival islâmico], um animal raro”. Também temos ilustrações e estes badges, refere, apontando para um deles onde se lê: I love Hijab and the City.

“O nosso projecto vive também de anúncios”, precisa Khadija,” mas recusamos alguns que “são demasiado islâmicos, como os vendedores de carne halal [o que é permitido pelo islão] – não tem nada de glamour!” E as duas excedem-se em risos.

Fazemos uma incursão por Hijab and the City e descobrimos que Khadija e Mariame partilham um pouquinho da loucura das personagens da série televisiva Sex and the City: Carrie Bradshaw, Miranda Hobbes, Charlotte York e Samantha Jones. Khadija, por exemplo, diz que, se fosse um objecto, seria “uma tela representando uma fantasia, uma mistura de ardor e amor das belas tradições”.

Se fosse um anúncio publicitário ou estivesse no anúncio, “seria a pessoa que conduz um soberbo carro alemão (começando por B de preferência) – sim, é o meu lado materialista!”

Se fosse uma canção, seria Nassam ‘alayna el hawa, da diva libanesa Fairouz. Se fosse um elemento arquitectónico, um arabesco; e se fosse uma sobremesa, “uma tarte de limão (sem merengue).”

Mariame, por seu turno, revela que gosta de “deliciosos cupcakes” e de coleccionar jóias antigas em prata (sobretudo berberes). Tem um gato que se chama Tito Puente. Adora as expressões francesas adore, super e sinon, mas também o já internacional LOL.

Se fosse um objecto seria um Blackberry ou um saxofone. Se fosse um elemento arquitectónico, seria um minarete; se fosse uma canção, Canned Heat, de Jamiroquai, ou Merhba Bik, de Karim Ziad.
A sua expressão favorita? Le freak, c’est chic.

Mahinur Özdemir : A deputada do partido democrata-cristão

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© Rui Gaudêncio

A entrevista estava marcada para as 15h30, mas Mahinur Özdemir demorou a aparecer. Eram muitos os pedidos para ouvir a história singular da deputada muçulmana eleita por um partido democrata-cristão e a primeira a sentar-se de hijab no parlamento regional de Bruxelas.

Quando ela entrou numa sala da Casa Árabe, em Madrid, onde a esperávamos, irradiava juventude – tem apenas 27 anos –, beleza e simpatia.

O lenço vermelho em dois tons que ocultava o cabelo e tombava sobre o peito fazia sobressair o rosto bem maquilhado de Mahinur. Das meias mangas de um largo casaco cinzento e preto, lobrigava uma elegante blusa branca.

Este fato tão selecto quanto recatado contrastava com o casual wear da assistente, face crispada e braços desnudados, sempre em guarda e na retaguarda.

Num inglês afrancesado e titubeante, a jovem escolhida como uma das 26 muçulmanas mais influentes da Europa iniciou a conversa admitindo que o seu pai, um pequeno comerciante oriundo da Turquia e dirigente da associação cultural muçulmana de Schaerbeek – uma das comunas mais multiétnicas de Bruxelas (vivem aqui cerca de 150 nacionalidades e 40 por cento de turcos da capital belga) –, “talvez tenha contribuído” para que ela se dedicasse à política.

Também foi importante o facto de, desde os 14 anos, ter trabalhado no supermercado da família. “Foi uma grande experiência que me permitiu contactar com todo o tipo de pessoas e ajudar as que viviam isoladas – fiquei a conhecer os seus problemas.”

Mais importante, porém, crê ela, terão sido eleições realizadas em 2004. “Muitas pessoas na minha circunscrição votaram nos socialistas, mas votaram segundo linhas comunitárias – os turcos nos candidatos turcos; os marroquinos nos candidatos marroquinos, etc. Eu não apreciava este sistema.”

“Ainda que a minha origem seja turca, sou uma cidadã belga. Para mim, é mais importante o programa do partido em que devemos votar. Quando tive de fazer uma escolha, percebi que podia ser membro do Centro Democrático Humanista [partido francófono, anteriormente designado democrata-cristão]. O CDH respondia às minhas aspirações.”

Mahinur assegurou que foi a “componente humanista” do CDH, onde já militavam outros muçulmanos, que a atraiu. Inscreveu-se no partido através da Internet. Preencheu um formulário e, poucas semanas depois, estavam a convocá-la para uma reunião da secção local. Descobriu na altura, em 2004, que era o membro mais jovem – tinha 22 anos.

Para as eleições municipais de 2006, o CDH não tinha nenhuma mulher nas suas listas, e a lei exige 50 por cento de homens e 50 por cento de mulheres. “O presidente do partido viu que eu tinha formação universitária, falava francês, flamengo e turco, e convidou-me para ser candidata”, revelou Mahinur.

“De início, estava relutante. Tinha medo que o meu véu se tornasse um instrumento político. Então perguntei: ‘Se conseguir ser eleita, deixam-me entrar no parlamento regional com o meu hijab?’ Responderam-me: ‘Sim, claro! És livre!’”

Mahinur foi colocada no 18º lugar da lista do CDH, e o partido só tinha, na altura, dois deputados locais. “Não cruzei os braços”, contou a nova estrela da política belga. “Fiz campanha junto dos meus vizinhos; fui a mercados e associações – sempre com o meu hijab. No final, o CDH conseguiu eleger cinco deputados e eu fui a terceira mais votada.”

A reacção do partido foi muito boa mas, antes das eleições, referiu Mahinur, houve pessoas que exerceram pressões junto do presidente do CDH para que a convencesse a retirar o hijab. Ele recusou. Ela ficou satisfeita, mas sabe que, se um dia chegar ao parlamento federal ou ao governo, não poderá ocupar o seu lugar de lenço – uma lei recém-aprovada retirou-lhe esse direito.

Foi por causa do hijab que usa desde os 14 anos que Mahinur já desistira de ser advogada. “Um dia, nos últimos anos de liceu, quando tinha de escolher um curso, o meu pai avisou-me de que não poderia seguir Direito e usar o lenço.”

“Foi o fim dos meus sonhos. Ele ainda me encorajou: “Talvez consigas vencer os preconceitos e ser a primeira a usar o hijab nos tribunais, mas eu não tive a coragem de tomar essa decisão. Optei por tirar duas licenciaturas, uma em Economia e outra em Administração Pública. Ainda não tinha terminado os estudos e, aos 23 anos, já tinha conseguido ser eleita conselheira comunal.”

Alguma vez foi alvo de ameaças por usar o hijab? “Bem, uma vez, há cerca de quatro meses, uma velhota abordou-me na rua e disse-me: ‘Devíamos colocar-te num barco, juntamente com outras mulheres de lenço, e fazê-lo explodir!’ Fiquei muito chocada, mas ela era idosa e eu nem reagi.”

Apesar deste episódio, depois da sua eleição, Mahinur sente que os belgas já não olham para ela como uma imigrante. “Acho que consegui quebrar tabus”, regozijou. “Tenho lutado por várias causas, como a protecção das famílias monoparentais ou a preservação dos locais arquitectónicos da minha região. Sinto que consegui estabelecer pontes na comunidade.”

“Também acho que estou a mudar a percepção que muitos tinham de que as mulheres só usam o hijab porque são obrigadas.”

“Quando me candidatei, ainda era solteira – só me casei este Verão [uma cerimónia na Bélgica e outra na Turquia, muito mediatizada], com um diplomata turco, de Ancara. O facto de eu ser uma pessoa culta que se exprime em várias línguas fez com que as pessoas olhassem para mim de maneira diferente.”

Na família de Mahinur, a irmã, que é agente da polícia belga, não usa o hijab, nem as suas tias, e a sua mãe só começou a usá-lo há cerca de dez anos, revelou. Aos que criticam a sua opção, ela diz: “O meu véu só cobre o meu cabelo, não esconde as minhas ideias.”

Imtaz Khaliq : A alfaite que a rainha condecorou

© Rui Gaudêncio

© Rui Gaudêncio

Os filhos de Imtaz Khaliq gritam e saltitam à sua volta, mas ela ignora-os com um sorriso condescendente. O marido está por perto a cuidar deles, e ela está descansada.

Costuma ser assim a rotina familiar desta mulher, de origem paquistanesa, uma das 26 muçulmanas mais influentes da Europa, recém-condecorada pela Rainha de Inglaterra com uma MBE, a principal Ordem de Excelência do Império Britânico.

Imtaz foi a primeira, e agora é uma das “quatro melhores” (segundo a revista Cosmopolitan) bespoke tailor do Reino Unido. Para quem não conheça a profissão, ela explica: “É um(a) alfaiate que trabalha segundo os requisitos específicos dos clientes. Alguém que deixa o comprador escolher os tecidos, e depois tira as medidas e ajusta os fatos aos corpos.”

Como é que tudo começou? “Eu sempre costurei”, lembra Imtaz, sentada no lobby de um hotel madrileno, impecável num fato de riscas, com gola de veludo e pespontos vermelhos, que ela própria confeccionou – aliás, ela não veste nada que não tenha saído das suas próprias mãos, e raramente veste saias e vestidos.

“Aos 8 anos, eu já fazia vestidos para as minhas bonecas”, orgulha-se. “Quando comecei a usar a máquina de costura da minha mãe, ela repreendeu-me porque não era um brinquedo. Semanas depois, eu já estava a fazer roupas para ela, para os meus irmãos e irmãs. Sempre tive o sonho de um dia vir a ser alfaiate.”

“O meu pai e os meus irmãos tinham os seus alfaiates. Este era um mundo que eu conhecia. Sempre gostei de sentir os tecidos. Sempre me interessei por design e por moda, e quis sempre criar algo de único.”

Não há dúvida de que a família teve peso nas escolhas de Imtaz. “Quando o meu pai, proveniente do Paquistão, chegou a Yorkshire, nos anos 1950, ainda eu não era nascida, foi trabalhar para uma fábrica de têxteis.

Depois, abriu a sua própria lavandaria. Era muito empreendedor e provou que ter o nosso próprio negócio não é assim tão assustador, que podemos assumir o controlo do nosso destino e que o trabalho árduo compensa. De certo modo, o meu pai foi, para mim, fonte de inspiração.”

“Aos 18 anos, o meu pai emprestou-me uma das suas lojas e, durante quatro anos, costurei para fora. Aos 24, fui tirar um curso na Fashion College de Londres e, nessa altura, trabalhei como personal shopper no Harrod’s. Fui assistente de algumas celebridades, uma delas, o cantor George Michael.”

“A minha função consistia em seleccionar um conjunto de roupas e acessórios que o cliente pretendia para uma ocasião especial, de modo a que, quando ele chegasse, não tivesse de percorrer quatro pisos ou de esperar.”

Quando se mudou para Londres, Imtaz notou que era um mundo muito fechado. Ninguém recomenda ninguém. Se alguém se afeiçoa aos seus alfaiates ou costureiros não gosta de os partilhar. É tudo muito secreto.

“Comecei por ter uma colecção numa série de lojas em King’s Road, área icónica em termos de moda”, conta. “Tive a sorte de um dos meus fatos ter sido vendido à actriz Michelle Pfeiffer. Também vendi um fato a uma crítica de moda do Sunday Times que, ao ver o meu cartão num dos bolsos – esta foi a primeira estratégia de marketing – dedicou-me um artigo em que me chamou The next big thing.”

Entre os clientes de Imtaz não se encontram apenas celebridades mas também executivos da City de Londres (“quase todos”) ou príncipes e princesas árabes, gente endinheirada, que pode comprar fatos cujos preços oscilam entre as 900 e 1500 libras.

A primeira prova de um fato pode demorar quatro horas a confeccionar. Tudo passa por ela, desde a escolha dos tecidos, em conjunto com os fregueses, até aos retoques finais. Às vezes é preciso esperar três semanas até à conclusão da encomenda.

Noutras ocasiões, Imtaz já conhece tão bem as medidas dos clientes que estes já nem precisam de experimentar previamente os fatos.” O pior que pode acontecer é um cliente esperar que ela faça milagres – “um fato que assente bem num corpo que não tem as formas certas”. Mas, sublinha, “cada cliente é único e é importante que todos se sintam confortáveis, como se o que vestem fosse a segunda pele.”

Neste trabalho minucioso, Imtaz conta com colaboradores em regime de outsourcing. “Gosto de ser eu a fazer tudo”, exclama, satisfeita com a expansão do negócio, que já saiu de Bond Street, no West End, onde esteve sete anos, para se alojar em East London, “o coração da moda e do luxo”.

Costurar, dar aulas em universidades, fazer campanha pelos direitos das minorias étnicas e pela igualdade entre mulheres e homens exige de Imtaz, 46 anos, uma grande capacidade de organização.

Para isso, ela conta com o “marido incrível”, um sueco radicado em Londres desde os 3 anos. Nem precisa sequer de uma ama, porque ele, que trabalha na área das telecomunicações, tem um escritório muito perto de casa e dá “imenso apoio”.

Educada como muçulmana –“ aprendi árabe e o Corão, ia à mesquita todas as tardes depois das aulas” –, Imtaz está orgulhosa do seu sucesso. “Não gosto que olhem para mim com conotações negativas por eu ser muçulmana.

“Recuso que me tratem como mulher subserviente. Já bastou ter de lutar 20 anos para ser aceite na indústria da moda – que até agora excluía os bespoke tailors.”

A alfaiate que muitos julgam ser um homem porque o seu nome, escolhido antes de ela nascer, é distinto no Paquistão mas é dado aos rapazes, estabeleceu como objectivo, presente e futuro, partilhar a experiência pessoal de 25 anos. Sobretudo com outras mulheres asiáticas. “Não pertenço à categoria dos que ao chegar lá acima retiram a escada para que outros não subam.”

Anna Stamou : Convertida em busca de uma mesquita

© Rui Gaudêncio

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Atenas é a única capital europeia sem uma mesquita e um cemitério para a sua comunidade islâmica – cerca de 800 mil membros. A campanha que Anna Stamou, uma grega convertida à fé de Maomé, lançou para tornar esse sonho realidade fez com que fosse eleita uma das dez mulheres muçulmanas mais influentes da Europa.

“Fiquei totalmente surpreendida”, confessou Anna, abrindo os seus cintilantes olhos azuis, já de regresso ao hotel madrileno em que estava hospedada, depois de ter recebido a estatueta de cristal que a consagrou.

“É uma grande responsabilidade, mas espero que eu possa servir de exemplo para outros – e, em particular, para os meus filhos, Ismail e Iman, que andam comigo para onde quer que eu vá.”

Numa anterior entrevista, quando as eleitas ainda não eram conhecidas, Anna Stamou apresentou-se ufana: “Nós somos a Associação dos Muçulmanos da Grécia – a voz oficial da comunidade. Sou a directora de marketing e relações públicas.”

Mais tarde, anunciaria, mais envaidecida, que o seu marido, Naim Elghandour, egípcio que vive em Atenas há 38 anos, é o presidente da Associação e “integrou a flotilha grega que entrou em Gaza”.

O júri da CEDAR escolheu Anna Stamou por considerar que ela luta pelos direitos básicos da sua comunidade. Uma comunidade que, precisou ela, reza em caves, garagens e armazéns – “há centenas de lugares como estes” –, sem qualquer dignidade.

“O governo grego, para dizer a verdade, mostrava-se relutante porque tivemos durante muitos e muitos anos a ocupação otomana. Havia um certo preconceito em relação à construção de uma mesquita central.”

Os primeiros pedidos neste sentido começaram por ser feitos pelas embaixadas dos países islâmicos, referiu Anna. Só há seis anos, precisamente quando ela se converteu, é que a comunidade muçulmana grega fez igual reivindicação.

No pedido oficial que formulou, Anna foi clara: ‘Sou cidadã grega e muçulmana. Gostaria de ter uma mesquita em Atenas – não com o apoio de países estrangeiros, como a Arábia Saudita ou o Irão. Queremos que a nossa mesquita seja construída com dinheiro grego.’”

“O Estado aceitou, mas a burocracia tem abrandado os progressos”, lamentou-se Anna, as palavras jorrando em torrente. “A situação dos muçulmanos gregos é complicada. Temos duas comunidades: uma que restou do Império Otomano, e que ficou no Norte da Grécia, Trácia Ocidental, depois da assinatura do Tratado de Lausana [assinado nesta cidade suíça, em Julho de 1923, estabeleceu as fronteiras da Turquia]; e outra que é composta por imigrantes, convertidos, casais mistos e outros.

A maioria dos imigrantes provém de países árabes, muitos são egípcios, sírios, palestinianos. Também há paquistaneses e, claro, muçulmanos dos Balcãs.”

Por que se converteu Anna? “Eu andava numa procura interior. Andei sempre em busca da verdade. Nunca tinha sido uma pessoa religiosa mas acreditava em Deus. E até descobrir o Islão nenhuma religião me preenchia. A minha família é ortodoxa grega. Não foi fácil para eles aceitarem a minha conversão, mas também já não tinha 15 anos – tenho 36 anos e, na altura, tinha 30.

“Não foi uma conversão forçada – pelo contrário”, sublinha Anna, ajustando o seu lenço multicolorido em sintonia com o casaco rosa vivo que assentava na perfeição sobre uma saia até aos pés. “Converter-me foi uma escolha pessoal.”

“O que eu mais gosto no Islão é a liberdade de acreditar em Deus, sem intermediários. A Igreja Ortodoxa Grega, com os seus padres, não conseguiu dar-me respostas. Hoje, sou uma muçulmana praticante – rezo cinco vezes por dia, faço o jejum e sigo todos os pilares da fé.”

“Quanto à decisão de usar o hijab foi minha, e só minha”, enfatizou. “Habitualmente, os convertidos escolhem usar o hijab. Quando se muda de religião, quando se faz uma mudança tão radical na nossa vida, temos de mudar mesmo, não fazer só ajustes. Os convertidos são muito mais rigorosos no modo como praticam a religião.”

“O lenço acabou por fazer parte da minha identidade. Não o uso para mostrar às pessoas que sou muçulmana. As pessoas identificarem-me na rua como muçulmana tem um lado positivo e outro negativo. Mas faço questão que as pessoas olhem para mim de forma natural.”

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A jornalista viajou a convite do British Council em Lisboa 

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em Outubro de 2010  | This article, now revised and updated, was originally published in the newspaper PÚBLICO, in October 31, 2010

As muçulmanas mais influentes da Europa

Num jantar de gala em Madrid onde lenços (hijab) unicolores e multicromáticos conviviam com penteados mais ou menos elaborados, a Europa elegeu – pela primeira vez – as dez mulheres muçulmanas mais influentes do continente. (Ler mais | Read more…)

© Arif Ali | AFP | Getty Images

E as vencedoras da primeira eleição das dez mulheres muçulmanas mais influentes da Europa são:

Ndeye [Natalia] Andújar, feminista espanhola que é a directora do site Webislam.com, com mais de 12 milhões de visitantes por mês;

Shaheed Fatima, uma das mais destacadas advogadas do Reino Unido que está a preparar-se em Harvard para ser a primeira juíza muçulmana da Gra-Bretanha;

Zaha Hadid, descrita como “uma diva com muitos prémios, paixão e ego” –, a primeira arquitecta a ganhar o Pritzker e recém-galardoada com o Stirling;

Sabina Iqbal, fundadora e presidente do Deaf Parenting of UK, a primeira associação mundial dirigida por pais surdos para ajudar pais surdos (como ela);

Lamya Kaddor, de origem síria, académica e fundadora da União Liberal-Islâmica, que dá voz aos muçulmanos alemães que “interpretam o Islão de uma forma contemporânea”;

Sineb El Masrar, fundadora e directora da revista Gazelle, a primeira publicação multicultural dedicada a mulheres com raízes imigrantes;

– Bani Noo, jovem enfermeira de origem somali, presidente da Associação das Mulheres Muçulmanas da Suécia;

Nabila Ramdani, jornalista e académica francesa de ascendência argelina, especialista em Médio Oriente, em assuntos islâmicos e em questões franco-inglesas;

Hilal Sezgin, comentadora política e autora de vários livros sobre Islão e islamofobia, multiculturalismo e feminismo islâmico na sua Alemanha natal;

Anna Stamou, gestora de Marketing na Associação dos Muçulmanos da Grécia, uma convertida ao Islão que tenta oferecer a primeira mesquita e o primeiro cemitério à sua comunidade.

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Ndeye [Natalia] Andújar
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Hilal Sezgin
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A eleição das European Muslim Women of Influence é uma iniciativa, sem precedentes, da CEDAR (Connecting European Dynamic Achievers of Role Models), rede pan-europeia de profissionais muçulmanos que procura “gerar uma cultura de sucesso e de liderança entre as diversas comunidades muçulmanas da Europa” (cerca de 23 milhões de pessoas).

A CEDAR contou com o apoio do Institute for Strategic Dialogue em Londres, da Casa Árabe em Madrid, do British Council, da Open Society Foundation e da Vodafone alemã.

Todas as convidadas receberam uma estatueta de cristal, numa noite em que a diversidade europeia ficou bem visível nos corredores do luxuoso hotel madrileno Wellington, quando mulheres modestamente cobertas da cabeça aos pés se cruzavam, nos corredores, com as convidadas decotadas, transparentes e provocantes da “Boda de Gisele e Pedro” numa sala adjacente.

Shaheed Fatima
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Zaha Hadid
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Depois de apelar à Europa para que imite o Brasil no modo como este país “ostenta orgulhosamente” os seus mosaicos étnicos e culturais, e para destacar o quanto as dez mais influentes podem ser fonte de inspiração, Cherie Blair, oradora de honra, arrancou aplausos à audiência quando disse que não basta ficar no patamar da tolerância.

“Esta é aliás uma palavra de que não gosto”, admitiu a mulher do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. “Prefiro falar de respeito e de parceria.”

“É muito mais aquilo que nos une do que o que nos divide” frisou Cherie Blair, adiantando que muitas mulheres muçulmanas querem ajudar as suas sociedades mas só encontram apoio verbal e nenhuma ajuda prática. Por isso, recomendou, é importante que aquelas que vencem inspirem as que estão em desvantagem.

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Sabina Iqbal
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Lamya Kaddor
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A este propósito a bem-humorada Cherie recitou uma história que ouviu à Presidente da Libéria Ellen Johnson Sirleaf. Numa visita a uma escola, as crianças estavam desassossegadas e a professora repreendeu-as.

Nesse momento, uma criança levantou-se e dirigiu-se à ilustre visitante: “Tenha cuidado com o que me vai dizer, porque um dia também eu poderei ser Presidente”. Esta ousadia e este sonho seriam impensáveis, notou a mulher de Tony Blair, antes de a antiga economista do Citibank ter sido eleita, em 2005, a primeira chefe de Estado do primeiro país independente de África.

Recuando até à sua “infância difícil” em Liverpool, Cherie lembrou: “Nunca pensei em ser advogada, muito menos imaginava que iria viver no Nº 10 [de Downing Street].”

“Fui a primeira pessoa da minha família a frequentar a universidade. Depois de formada em Direito (top of the class), quando tentei trabalhar numa firma de advogados, ou não havia lugar para mulheres ou, se havia, era apenas um e já estava preenchido.

Um dia, surgiu uma vaga para duas candidaturas. Uma delas era a de um homem. O homem que conseguiu o lugar era Tony Blair. Ele tinha razão quando admitiu que eu era melhor advogada do que ele – mas [reconheço que] ele foi melhor político.”

Sineb El Masrar
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Nabila Ramdani
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Os aplausos foram ainda mais sonoros quando a católica devota Cherie Blair, cuja irmã, a jornalista Lauren Booth, de 43 anos, se converteu recentemente ao islão, ironizou que o mundo talvez não estivesse hoje mergulhado numa profunda crise financeira “se a Lehman Brothers fosse a Lehman Sisters.”

A escolha das 10 mulheres muçulmanas mais influentes da Europa foi o culminar de um processo iniciado em Setembro de 2009 com uma campanha publicitária para o público fazer uma primeira selecção. Desta fase inicial, resultou um grupo de 65, provenientes de 11 países europeus.

Depois, a rede CEDAR fez uma short list de 26. No sábado à tarde, numa reunião à porta fechada, na Casa Árabe, em Madrid, um colectivo de seis juízes – dois do Reino Unido, dois de Espanha, um da Áustria e um da França – presidido pela jornalista da BBC Razia Iqbal, reduziu as 26 a 10.

Ana Stamou
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Razia Iqbal, que participa frequentemente como júri na escolha de livros para serem premiados, reconheceu que a sua tarefa foi muito difícil: “É muito mais complicado escolher pessoas.”

No louvor final às que saíram da lista para o pódio e às que não chegaram lá, Iqbal evocou o escritor nigeriano e Nobel da Literatura Wole Soyinka: “Só quando os leões escreverem a sua história é que a história da caça deixará de ser a do caçador.” Os “leões”, neste caso, as muçulmanas mais influentes da Europa, marcam a diferença ao escreverem a sua própria narrativa, acentuou.

Da short list de 26 mulheres ficaram de fora figuras como Imtaz Khaliq, a única “bespoke tailor” (alfaiate que trabalha por medida e encomenda) do Reino Unido, condecorada pela Rainha de Inglaterra; Mahinur Özdemir, 27 anos, deputada muçulmana eleita por um partido democrata-cristão e a primeira a usar o hijab no parlamento regional de Bruxelas; Suad Mohamed, de origem etíope, a primeira imã (líder espiritual) da comunidade muçulmana da Suécia; e as irmãs Khadija e Mariame Tighanimine, duas de seis filhos de uma família marroquina de França, os cérebros da [entretanto extinta, porque cada uma seguiu rumos diferentes] webzine Hijab and the City – um fenómeno de popularidade no mundo islâmico europeu e não só.

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Este artigo, agora revisto, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 31 de Outubro de 2010 | This article, now revised, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on October 31, 2010