A queda do “faraó” Mubarak

O ditador egípcio resistiu até ao limite ao que o académico libanês Fawas Gerges descreveu como “o momento Berlim do mundo árabe”. Mas a maré humana nas ruas do país e as pressões externas só lhe deixaram uma de duas alternativas: abandonar o poder com uma réstia de dignidade ou na ignomínia. (Ler mais | Read more…) 

O poder de Hosni Mubarak foi frequentemente comparado ao dos faraós, e muitos artistas, dentro e fora do Egipto, usaram isso como sátira política. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

O poder de  Mubarak foi frequentemente comparado ao dos faraós, e muitos artistas usaram isso como sátira política
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Hosni Mubarak foi falar às crianças de uma escola primária e, depois do seu discurso, ofereceu-se para um período de perguntas. Um rapazinho chamado Ramy levantou a mão e o Presidente egípcio interpelou-o: O que queres saber?

Ramy disse: Tenho quatro perguntas.

Primeira: por que é que o senhor é Presidente há 29 anos?

– Segunda: Por que é que nunca nomeou um vice-presidente?

– Terceira: Por que é que os seus dois filhos, Gamal e Alaa, controlam a economia e política do país?

– Quarta: Por que é que o Egipto é um Estado miseravelmente pobre e o senhor não faz nada?

Nesse preciso momento, a campainha tocou e Mubarak informou as crianças que voltaria depois do intervalo. No regresso, retomou a conversa: Ok, em que ponto estávamos? Ah, já sei… na sessão de perguntas. Alguém quer perguntar alguma coisa?

Um outro rapazinho levantou a mão. Mubarak apontou para ele e pediu-lhe que se identificasse.

Eu sou Tamer, respondeu o menino.

E qual é a tua pergunta, Tamer?

– Eu tenho seis perguntas:

– Primeira: por que é que o senhor é Presidente há 29 anos?

– Segunda: Por que é que nunca nomeou um vice-presidente?

– Terceira: Por que é que os seus dois filhos, Gamal e Alaa, controlam a economia e política do país?

– Quarta: Por que é que o Egipto é um Estado miseravelmente pobre e o senhor não faz nada?

– Quinta: Por que é que a campainha tocou para intervalo 20 minutos antes do que é habitual?

– Sexta: O que é que o senhor fez a Ramy?

Esta velha anedota, sussurrada entre portas e relembrada por Issandr El Amrani no seu blogue The Arabist, exprime bem algumas das razões que levaram os egípcios a perder o medo e a reclamar, não em segredo mas nas ruas, o fim de um regime ditatorial em vigor há quase três décadas.

Foi a 14 de Outubro de 1981 que Hosni Mubarak, vice-presidente de Anwar el-Sadat (desde 1975), sucedeu ao Raïs (Presidente), depois de escapar por um triz às balas que, no dia 6, mataram o seu predecessor durante um desfile militar, a que ambos assistiam, lado a lado, no Cairo.

O desaparecimento do homem que pagou com a vida “a traição” do primeiro tratado de paz israelo-árabe, levantou dúvidas, sobretudo entre a comunidade internacional, sobre se o Egipto ficaria à mercê da Irmandade Muçulmana – de cujas fileiras emergiu o assassino –, já que a liderança do país iria ser assumida por um homem desconhecido apesar da sua imparável ascensão militar.

Hosni Mubarak como jovem oficial: Estudou, primeiro, na Academia Nacional Militar em 1949 e formou-se, depois, como piloto de caça e instrutor de voo na Academia da Força Aérea. Entre 1959 e 1961, foi para antiga União Soviética aprender a pilotar bombardeiros. Em 1966, no retorno à pátria, assumiu o comando de duas bases aéreas e, no ano seguinte, foi promovido a chefe de Estado-Maior da Força Aérea. Em 1972, já era vice-ministro da Defesa e, em 1973, atribuíram-lhe a patente de marechal. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Hosni Mubarak aprendeu  a pilotar bombardeiros na antiga União Soviérica. Em 1967, foi promovido a chefe de Estado-Maior da Força Aérea. Em 1972, já era vice-ministro da Defesa. Em 1973, atribuíram-lhe a patente de marechal
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Um dos cinco filhos de um funcionário do Ministério da Justiça, Muhammad Hosni Sayyid Mubarak nasceu a 4 de Maio de 1928 em Kafr-el-Meselha, aldeia no delta do rio Nilo. Estudou, primeiro, na Academia Nacional Militar em 1949 e formou-se, depois, como piloto de caça e instrutor de voo na Academia da Força Aérea.

Entre 1959 e 1961, foi para antiga União Soviética aprender a pilotar bombardeiros. Em 1966, no retorno à pátria, assumiu o comando de duas bases aéreas e, no ano seguinte, foi promovido a chefe de Estado-Maior da Força Aérea. Em 1972, já era vice-ministro da Defesa e, em 1973, atribuíram-lhe a patente de marechal.

Foi a recompensa pela participação na Guerra de Outubro ou de Yom Kippur – vista pelos árabes como “a desforra” pela humilhante derrota que Israel lhes desferiu na Guerra dos Seis Dias, de 1967, durante a qual o Egipto perdeu, em seis horas, a península do Sinai.

As credenciais de Mubarak entre os militares eram tão imaculadas que Sadat, o sucessor do pan-arabista Gamal Abdel Nasser, não hesitou em nomeá-lo seu “número dois”, conferindo-lhe a responsabilidade de várias e importantes missões de política interna e externa.

Com a morte do visionário que emocionou os israelitas ao visitar Jerusalém em 1977, Mubarak foi catapultado para a chefia do Estado, superando a longevidade do reinado de Muhammad Ali Paxá, o otomano cuja dinastia se manteve no poder até à revolução de 1952 que derrubou o monarquia.

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Mubarak, já como vice-Presidente, com Menachem Begin (à esq.) e Anwar Sadat (ao centro), quando o Egipto assinou o primeiro tratado de paz israelo-árabe
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O que distingue Mubarak dos defuntos Nasser, sempre idolatrado pelas massas árabes, e Sadat, ainda malquerido? Responde-nos, por e-mail, Adel Iskandar, professor de Media do Médio Oriente na Universidade de Georgetown (EUA), e colunista do jornal egípcio Al-Masry Al-Youm: “Nasser era um líder demagogo e carismático que mobilizava os impulsos revolucionários do povo”; Sadat era um estadista controverso sem papas na língua que perdeu popularidade ao aproximar-se de Israel.”

“Mubarak é um chefe bastante diplomático, com aparência de benevolente, que diz uma coisa e faz outra – fala de solidariedade com os palestinianos mas colabora estreitamente com os israelitas; fala em apoiar os pobres mas isenta os ricos de impostos enquanto recusa aumentar o salário mínimo; critica a ingerência política externa mas apela ao investimento estrangeiro e à privatização de todos os sectores da economia.”

Sobre as razões que levaram Mubarak – detentor de todos os poderes (executivo, militar e judicial) – a manter o país sob lei marcial desde que subiu ao poder, Iskandar, académico britânico de origem egípcia e autor de vários livros, incluindo o primeiro grande estudo sobre o fenómeno Al Jazeera, esclarece: “O estado de emergência foi imposto sob o pretexto de proteger o país contra forças estrangeiras e sublevações internas. O medo de um qualquer governo de transição deixou Mubarak obcecado em eliminar toda a oposição, em particular a Irmandade Muçulmana.”

“Ele precisava de um mecanismo legal que lhe permitisse prender e perseguir qualquer pessoa sem ter de prestar contas”, adiantou “Em todas as situações, Mubarak ora exagerava ora demonizava grupos ou tendências de oposição para justificar a continuação das leis de emergência. Qualquer incidente no Egipto era usado para renovar o estado de emergência – fosse um atentado terrorista, actos de sectarismo ou manifestações contra a guerra [no Iraque e em Gaza].”

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À esquerda, o filho Alaa (e a nora); ao centro, a mulher, Suzanne; e à direita, o filho Gamal, que Mubarak, relutante a nomear um vice-presidente, preparava para vir a ser o seu sucessor
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A mão de ferro com que tem conduzido o país ajudou Mubarak a sobreviver – tentaram eliminá-lo pelo menos seis vezes e sempre escapou à morte –, mas também fez dele, como comprovam as gigantescas manifestações do Cairo a Alexandria, uma figura odiada pelos egípcios, incapazes de aceitar a abjecta pobreza a que foram condenados por uma elite, quase uma aristocracia, manchada pela corrupção e pelo nepotismo.

O sistema imposto por Mubarak impossibilitava uma alternativa ao domínio absoluto do seu Partido Nacional Democrático (PND). Qualquer tentativa de o desafiar – de forma violenta ou legal – era punida severamente.

Nos anos 1990, depois de uma série de ataques terroristas que visavam alvos nacionais e estrangeiros, não hesitou em destruir todas as plantações de cana-de-açúcar que serviam de refúgio aos extremistas do Gama’a al-Islamiyya (Grupo Islâmico), ordenando a execução e prisão de milhares de combatentes.

Em 2005, quando o popular político da oposição Ayman Nour, do partido El-Ghad (Amanhã), concorreu às primeiras presidenciais em que foram admitidos outros candidatos, também ele foi preso, durante três anos, sem culpa formada – e, no entanto, só obteve 7% dos votos, contra os 89 de Mubarak.

Libertaram-no após pressões dos EUA, mas à saída da cadeia espancaram-no violentamente, e os agressores nunca foram capturados. Nos protestos iniciados a 25 de Janeiro último, Nour voltou a ser agredido e a necessitar de internamento hospitalar.

A recusa em nomear um vice-presidente – só o fez no sábado, numa rara cedência aos protestos populares (que incluiu também a nomeação de um novo governo) – foi sempre olhada com desconfiança pela população, hostil a sucessões dinásticas desde a queda do rei Farouk e temerosa de que Mubarak estaria a preparar o filho mais velho, Gamal, ser o próximo Raïs.

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No Cairo, especulava-se que teria sido a mulher, Suzanne, filha de um egípcio e de uma galesa, que o aconselhou a deixar o lugar vago para o varão. Toda a família ter-se-á refugiado em Londres, na semana passada.

Se no Egipto, Mubarak é uma figura odiada – muitos viam como uma obscenidade o corte de quilómetros de estradas quando ele saía do palácio como seu cortejo de limusines –, em Israel e nos Estados Unidos era até agora considerado um valioso aliado.

A América fornecia-lhe anualmente 60 milhões de dólares (um total de 28 mil milhões desde 1979), quase tanto quanto os 100 milhões anuais oferecidos aos israelitas, para “manter a estabilidade na região”.

Mubarak e Omar Suleiman [1936-2012], ex-chefe dos serviços secretos [que seria vice-presidente no período de transição], serviam de interlocutores do Hamas em negociações com os palestinianos e garantiam a aparência de normalização nas relações com Israel. [Suleiman morreu em 19 de Julho de 2012, de doença].

Os protestos incessantes, induzidos pela revolução que derrubou Ben Ali na Tunísia, deixaram israelitas e norte-americanos numa situação delicada. “Estão viciados em ditadores e não interiorizaram a necessidade de abrir um diálogo com forças até agora diabolizadas”, observou Steve Clemons, da New American Foundation.

Em Washington, Barack Obama e Hillary Clinton aumentaram  a pressão sobre Mubarak, exortando ao fim da violência e a eleições “livres e justas”, não apenas uma “remodelação” do governo. Os seus apelos tiveram eco na Europa, com franceses, alemães e britânicos a insistirem que as nomeações de um vice-presidente e de um novo primeiro-ministro não são suficientes.

Na sexta-feira à noite [28 de Janeiro de 2011], quando apareceu perante as câmaras de televisão a garantir que nunca deixou de estar “ao lado dos pobres” e que sempre respeitou a “liberdade de expressão” dos cidadãos – paradoxalmente, no mesmo dia em que o Egipto se tornou no primeiro país do mundo a bloquear totalmente a Internet –, Hosni Mubarak parecia mais uma múmia do que um vigoroso faraó.

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Sem o seu uniforme militar (pormenor que muitos observadores notaram, porque o exército é visto como a força que definiria o desfecho da revolta), o octogenário Mubarak estava longe de ser o tipo saudável que nunca fumou nem bebeu, e que começava os dias às 6 da manhã, com exercícios no ginásio ou a praticar squash, deixando exaustos assessores e guarda-costas.

Recentemente, as suas frequentes ausências de cerimónias públicas alimentaram rumores de que estará muito doente, e que já era Gamal, um ex-banqueiro de 40 anos, quem governava o país.

A nomeação de Suleiman (também ele com saúde débil) para vice-presidente e de Ahmed Shafiq para primeiro-ministro, dois ex-militares, foi lida por alguns comentadores entrevistados pela Al Jazeera como um sinal de que Mubarak estará, ainda que relutante, a preparar a transição.

Deixe o poder de forma digna ou na ignomínia, qual será o legado de Mubarak? Poderia o antigo director da Agência Internacional de Energia Atómica, Mohamed ElBaradei ser uma alternativa? Se houver eleições, quais as forças mais bem posicionadas para vencer: as religiosas ou as seculares?  [A Irmandade Muçulmana seria a grande vencedora de eleições legislativas e presidenciais.]

“O legado de Mubarak poderia ter sido salvo se ele não se tivesse recandidato em 2005”, comentou o académico  egípcio Adel Iskandar. “Mas os últimos seis anos mostraram um líder irredutível, incapaz de compreender e muito longe das aspirações do seu povo. Isto deixou-o ainda menos tolerante para com os dissidentes.”

“Sair de cena no meio de uma gigantesca revolta popular equivale a ter caído completamente em desgraça. A História não olhará favoravelmente para o seu mandato de 29 anos e, sobretudo, para as últimas 72 horas em que testemunhámos uma brutalidade repugnante, a supressão de direitos políticos, a intolerância e o sequestro de toda a população.”

“ElBaradei é uma das várias alternativas viáveis” a Mubarak, acredita Iskandar. “Tem reputação e atrai largos segmentos da população egípcia, podendo ajudar o país na transição para uma melhor situação política. Sendo civil, homem do mundo, pluralista com uma visão secular, ElBaradei tem agido como porta-voz de muitas das reivindicações dos egípcios. Advoga mudanças constitucionais que permitirão exprimirem-se livremente e escolherem o seu destino.”

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Sobre a Irmandade Muçulmana, Iskandar observou [quando deu esta entrevista, em Janeiro de 2011]: “É difícil avaliar a popularidade da organização, mas muito notam que está desligada da realidade desde [as legislativas de] 2005 quando obteve 88 lugares no Parlamento e muito pouco conquistou no terreno.”

“Os seus planos nada têm a ver com os anseios de uma grande parte dos egípcios”, frisou Iskandar. “Mas, obviamente, não é improvável que venha a desempenhar um papel significativo num governo futuro [e assim foi quando ganhou as eleições, legislativas e presidenciais, de 2011-2012, antes de ser afastada do poder pelo Exército]. Dadas as recentes tensões sectárias [envolvendo muçulmanos e cristãos coptas], muitos já concluíram que é muito mais importante manter a unidade do país do que seguir um partido religioso.”

Na revista Foreign Policy, Robert D. Kaplan, dirigindo-se aos que temem um destino para o Egipto igual ao do Irão, quando o Xá Mohammad Reza Pahlavi, aliado estratégico da América, foi derrubado em 1979 por uma revolução islâmica, lembrou: “Em nenhum destes países árabes [onde estão em curso protestos] existe um líder carismático radical que seja um ponto central de oposição, como o Ayatollah Khomeini era; nem as várias organizações islamistas no mundo árabe são tão teóricas e ideológicas no seu anti-americanismo como era a liderança religiosa xiita.”

“A Irmandade Muçulmana no Egipto funciona, em larga medida, como uma organização de auxílio à comunidade e poderá não tentar sequestrar a revolução, como aconteceu no Irão”, observou Kaplan.

“Além disso, o Presidente Hosni Mubarak nunca se identificou com os interesses norte-americanos tanto como o Xá. As diferenças entre o Egipto 2011 e o Irão 1978 [quando começaram os protestos que levaram à queda do imperador] são muito mais profundas do que as semelhanças”.

Num artigo publicado pelo jornal The Christian Science Monitor, o académico libanês Fawaz A. Gerges, professor de Política do Médio Oriente e Relações Internacionais na London School of Economics, resumiu assim o que se vive no Médio Oriente:

– “Este é o momento Berlim do mundo árabe. O muro autoritário caiu – e isso é verdade independentemente de Mubarak sobreviver ou não. Vai muito para além de Mubarak. A entrada em cena do Exército mostra bem o fracasso da Polícia em reprimir os manifestantes. Os militares foram chamados e, possivelmente, vão preencher qualquer vazio de autoridade nas próximas semanas. Mubarak está profundamente ferido e a sangrar. Estamos a assistir ao início de uma nova era.”

No Facebook – onde a revolução contra Mubarak começou (Nasser arregimentou os egípcios contra a monarquia usando a rádio; Khomeini dirigiu a insurreição contra o Xá através de cassetes áudio enviadas clandestinamente do seu exílio em França para as mesquitas do Irão) ­–, alguém que via pela TV os protestos na Praça da Libertação deixou este post: “O faraó está à beira do sarcófago”.

© Carlos Latuff

© Carlos Latuff

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 31 de Janeiro de 2011 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 31, 2011

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