Acabou o velho Médio Oriente?

Khaled Diab e Khalil Alanani, dois analistas egípcios, não escondem o entusiasmo perante as manifestações populares que visam derrubar o Presidente Mubarak. Para ambos, dificilmente o ditador se manterá no poder e a região não mais será a mesma. (Ler mais | Read more…)

@Ben Curtis |AP

© Ben Curtis | AP

Em Dezembro de 2010, quando Khaled Diab foi visitar a família ao seu Egipto natal, “não havia sinais de que iriam irromper os protestos populares que, desde 25 de Janeiro de 2011, assolam o país”. Agora, este jornalista residente em Bruxelas mostra-se confiante de que “o regime está a ruir – e a única dúvida é saber se cai com um gemido ou um estrondo.”

“Nos últimos anos, têm sido inúmeros os indicadores de descontentamento, visíveis em esporádicas manifestações e greves e nas acções de protesto da coligação da oposição Kefaya“, a palavra árabe para “basta”, disse, numa troca de e-mails, o escritor e jornalista egípcio-belga Diab, colunista do diário britânico The Guardian e de outros media, como o jornal israelita Ha’aretz.

“Há muito que eu e outros esperávamos uma pressão renovada para a mudança, uma que tivesse grande impacto, já que estavam planeadas presidenciais para o Outono e porque apareceu uma figura de peso, Mohamed ElBaradei, em torno da qual os vários grupos da oposição se poderiam unir”, referiu Diab.

“Nunca imaginei, porém, nada a esta escala, nem tão rapidamente. Temos de agradecer à Tunísia por isso. O sucesso do povo tunisino ao derrubar [Zin El Abidine] Ben Ali ofereceu aos egípcios a centelha de esperança de que necessitávamos para acreditar que a mudança é realmente possível.”

Inquirido sobre o que há de comum e de distinto em relação à Tunísia e ao Egipto, mas também a outros Estados árabes onde se têm registado protestos, Diab confessa: “Esta é uma questão incrivelmente complicada sobre a qual poderia ser escrito um livro – têm semelhanças e diferenças. “

“Partilham, em graus variados, problemas como autoritarismo, corrupção, pobreza, desemprego, uma protuberância de jovens e por aí adiante. Ou seja, as revoltas têm sido em grande medida lideradas por jovens desesperados cansados da falta de oportunidades e da repressão.”

@AP Photo

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Na Tunísia, adianta Diab, “porque Ben Ali não tolerava qualquer tipo de dissidência, a erupção da insatisfação popular foi súbita e esmagadora. No Egipto, com maior implantação e mais críticos, a sociedade civil e os media há anos que se agitam, por vezes com grandes riscos pessoais, contra Hosni Mubarak. Este, por seu turno, um sobrevivente político mais esperto do que Ben Ali, tolerou até certo ponto alguma dissidência.”

“Em todo o caso, antes da revolução tunisina, as tentativas de a oposição egípcia instigar uma mudança tinham sido isoladas e incapazes de inspirar a população céptica.”

Outro egípcio, Khalil Alanani, investigador na School of Government and International Affairs da Durham University, no Reino Unido, “especialista em política egípcia, movimentos islamistas e democratização no Médio Oriente”, considera que as similaridades entre o que se passa na Tunísia e no seu país “é a tomada de consciência pública das massas e uma grande mudança na cultura política do Médio Oriente”.

Numa troca de mensagens, via Facebook e e-mail, Alanani fez questão de frisar: “Esta é a primeira vez na região que encontramos um movimento popular empenhado em mudar regimes”. Quanto às diferenças, “o Egipto é um país maior e mais dinâmico; a revolução tunisina demorou três semanas a atingir o pico – no Egipto, levou três dias, muito a partir das redes sociais.”

Para Khalil Alanani [desde 2012 ‘senior fellow’ do Middle East Institute], “a evolução dos acontecimentos transcende qualquer movimento político clássico, como a Irmandade Muçulmana. É a rua que lidera as manifestações e não os partidos. A Irmandade até estará presente mas não pode reivindicar o controlo deste activismo. Importante salientar também que a região se afasta dos actores da oposição “clássica”, virando-se para uma elite política renovada. Os islamistas perderam a iniciativa no Médio Oriente.”

“Na actual situação”, adianta, “não há narrativas ideológicas – é impossível uma classificação. As pessoas foram para a rua não impulsionadas pela aspiração de mudanças políticas e económicas. É mais determinante a presença “civil” do que a religiosa.”

Mubarak e o efeito dominó gerado pela Tunísia. @Latuff

Mubarak, no Egipto, e o efeito dominó gerado pela Tunísia, com a queda de Ben Ali
© Carlos Latuff

“No Egipto”, frisa Khaled Diab, por seu turno, “a Irmandade Muçulmana está a tornar-se cada vez mais irrelevante, porque a velha guarda sufoca a ala jovem, moderna e aberta do movimento. Mais: um número crescente de pessoas já percebeu que a resposta aos problemas da sociedade não está no mantra da Irmandade – O Islão é a solução.”

“Há, também, muitos laicos que não têm voz devido à dura repressão que a oposição de esquerda e progressista enfrenta desde os anos 1970, embora uma nova geração de secularistas esteja agora a abrir caminho.”

Para Diab, “uma das razões para a ascensão dos islamistas foi a sistemática supressão de uma oposição secular desde que Anwar el-Sadat [o Presidente assassinado, em 1981, por um extremista] começou a cortejar o Islão político, nos anos 1970, para diminuir o poder dos seus opositores laicos.”

“Sem pontos para se reunir nem estruturas políticas eficazes, os laicos tornaram-se mais e mais apáticos, e alguns até aderiram à Irmandade”, explicou. “Além disso, por mais que o regime fosse repressivo com os islamistas, estes tinham vantagem sobre os laicos porque podiam encontrar-se nas mesquitas – que o regime jamais ousaria encerrar -, clamando que a sua missão era divina.”

“Apesar de tudo, com uma atmosfera política mais aberta na última década e com as novas tecnologias, os laicos começaram a reagrupar-se, e os jovens estão a descobrir que há alternativas viáveis à Irmandade.”

À pergunta sobre se esta revolta pode ser bem sucedida, Khaled Diab respondeu: “Isso depende da definição de sucesso – mas podemos desde já dizer que resultou ao galvanizar uma população que muitos julgavam apática mas que arriscou as suas vidas pelo sonho de um amanhã melhor.”

“Estas manifestações têm, igualmente, uma dimensão totalmente diferente, merecendo ser descritas como uma sublevação de massas ou até mesmo uma revolução popular no verdadeiro sentido da palavra, porque não tem uma liderança clara.”

“O regime entrou em colapso”, assegurou. “Chegámos, seguramente, a um ponto de não retorno; depois de anos de um combate de pugilistas, a população e o regime tiraram, por fim, as luvas.”

Khalil Alanani também exulta: “O Egipto depois de 25 de Janeiro [de 2011] não é o mesmo e a vida deste regime é muito curta. O cenário de Gamal Mubarak suceder ao pai deixou de existir. Bye bye Gamal. O Egipto está a testemunhar ‘o fim do Velho Médio Oriente'”.

Khaled Diab

© Khaled Diab

Khalil Alanani

© Khalil Alanani

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 29 de Janeiro de 2011 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on January 29, 2011

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