A vida de um “orientalista” entre dois mundos

Em O Orientalista – A Vida entre Dois Mundos (Ed. Civilização), o jornalista norte-americano Tom Reiss faz um retrato belíssimo de uma figura extraordinária: “um tal” de Essad-Bey que mudou de nome para Lev Nussimbaum e, depois, para Kurban Said. (Ler mais | Read more…)

Lev como @es.paperblog.com

Lev (ou Leo) Nussimbaum como Kurban Said
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Judeu de origem e muçulmano convertido. Filho de um magnata do petróleo e de uma revolucionária suicida. Monárquico e amigo íntimo do czar Nicolau. Antibolchevique e inimigo feroz de Estaline. Perseguido/protegido por nazis e obcecado por Mussolini. A história do homem que nasceu Lev (Leo) Nussimbaum e se escondeu sob os nomes de Essad Bey e Kurban Said permitiu a Tom Reiss escrever uma fascinante, e quase inacreditável, biografia.

Para Reiss, um dinâmico jornalista norte-americano (colaborador do New York Times, The Wall Street Journal e The New Yorker), a descoberta da vida, real e ficcionada, de Nussimbaum começou com uma viagem à capital do Azerbaijão, para fazer uma reportagem sobre o boom do petróelo do Mar Cáspio.

O que ouvira sobre a cidade deixara-o maravilhado: “Uma espécie de Paris do século XIX abandonada no deserto, com velhos casinos, salões de ópera, mansões elegantes e tudo numa decadência gótica”.

Lev como Essad Bey @es.paperblog.com

Lev como Essad Bey
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Antes de partir para Baku um amigo meu iraniano recomendou-me a leitura de “Ali e Nino”, de Kurban Said, para ter uma noção da cidade e do Cáucaso em geral, afirmando que o livro me seria mais útil do que qualquer guia turístico. (…) O romance gira em torno do amor entre um rapaz muçulmano e uma rapariga cristã, relatando o progresso da relação à medida que os dois crescem.

Ali e Nino era “o romance nacional por excelência” no Azerbaijão, mas Kurban Said era um mistério. No seu Hotel Hyatt Regency, em Baku, Reiss haveria de encontrar um outro livro, Petróleo e Sangue no Oriente, atribuído ao mesmo autor mas com dois nomes diferentes na capa: Essad-Bey e Lev Nussimbaum.

O repórter ficou perplexo com o prefácio, de um académico azerbaijanês, que dizia: “Essad-Bey, o narrador das histórias, converte-se ao Judaísmo, assumindo o nome de Lev Nussimbaum. (…) Mais tarde muda-se para Berlim, onde se junta a um círculo de intelectuais alemães.”

“Na década de (19)30, Nussimbaum vai para Viena, onde acaba por publicar o seu belo romance, Ali e Nino, sob o pseudónimo de Kurban Said. (…) Em 1938, o autor tenta fugir à chacina alemã, não tardando a ser preso e a ser levado para Itália. É lá que em 1942, trespassa um pé e morre em virtude dos ferimentos que se auto-infligira”.

Reiss interrogava-se: “O que levaria esse tal de Essad-Bey a mudar de nome para Lev Nussimbaum e, depois, para Kurban Said?” Tomou uma decisão. Escolheu centrar-se no “curioso labirinto da vida” de Nussimbaum, e o resultado são mais de 400 páginas, que se lêem sofregamente, sobre “um mundo esquecido no momento mais negro do último século”.

Memorial plaque, Essad Bey, Fasanenstraße 72, Berlin-Charlottenburg, Germany @DR

Placa de homenagem a Essad Bey/ Kurban Said, em, Berlin-Charlottenburg, Alemanha
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Para o autor que seria acusado de transformar a História em contos de fadas a maior invenção seria ele próprio. Era uma estrela mediática da Weimar, um ‘orientalista’ profissional que cortejou Mussolini e se apresentou a toda a Berlim, incluindo à sua noiva herdeira, como um príncipe muçulmano, quando não passava de um judeu que vivera uma infância isolada e protegida, sozinho, a ler Kipling no chão da mansão do seu pai, em Baku.

De certa forma, Lev Nussimbaum era um exemplo extremo de um tipo vulgar nos séculos XIX e XX, mas agora esquecido: o orientalista judeu. (…)

O orientalista judeu via o Oriente não como o local onde poderia conhecer o Outro exótico, mas para encontrar as suas próprias raízes. Para ele, os árabes eram nada mais, nada menos do que irmãos de sangue – judeus a cavalo, nas palavras de Disraeli.

Não é possível ler o Orientalista, de Reiss, sem nos comovermos. Abraham, o pai de Nussimbaum, um judeu askhenaze, fez fortuna com o petróleo de Baku mas não terá sido feliz. Morreu pobre, provavelmente, no campo de concentração de Treblinka.

A mulher, Berta Slutzki, era uma activista bolchevique que ele libertou de uma prisão czarista e a quem Estaline extorquia dinheiro. Incapaz de conciliar a vida dupla de “revolucionária e milionária”, a mãe de Lev suicidou-se quando ele era criança. “A minha mãe trouxe-me ao mundo – foi a única coisa que fez por mim”.

Quando os comunistas tomaram o poder no Azerbaijão, Abraham e Lev empreenderam uma fuga, “com o dinheiro cosido nas bainhas dos casacos”, que os levaria a vários lugares do mundo. Usaram vários meios de transporte, de uma caravana de camelos a um navio de passageiros segregados por classes sociais. Para chegar aos destinos, serviram-se de subormos e de artimanhas múltiplas.

No relato das viagens e aventuras de Lev, Reiss é como um professor apaixonado e meticuloso. Às vezes emaranha-se em pormenores desnecessários, como a longa dissertação sobre o Império Otomano. Outras vezes, sobretudo nas abundantes notas de rodapé, aguça ainda mais a curiosidade.

É impressionante, por exemplo, a revelação de que “a Marinha israelita nasceu de um programa de treino fascista dos anos 1930 e de que o “Duce” [Mussolini] chegou a financiar uma cadeira fascista na Universidade Hebraica de Jerusalém”.

Antes de partir para Baku um amigo iraniano de Tom Reiss recomendou-lhe a leitura de “Ali e Nino” (na foto a primeira edição, em alemão, 1937), de Kurban Said, "para ter uma noção da cidade e do Cáucaso em geral, afirmando que o livro me seria mais útil do que qualquer guia turístico." @DR

Antes de partir para Baku um amigo iraniano de Tom Reiss recomendou-lhe a leitura de Ali e Nino (na foto, a primeira edição, em alemão, 1937), de Kurban Said, “para ter uma noção da cidade e do Cáucaso em geral”
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Reiss, ele próprio judeu, fluente em 17 línguas e capaz de trabalhar “dias sem dormir” como o protagonista do seu livro, partilha com o leitor tudo o que, em seis anos de pesquisa por dez países, encontrou sobre a verdadeira identidade do homem que viveu “entre dois mundos”.

Ficamos a amar Lev Nussimbaum/Essad-Bey/Kurban Said como um super-herói, resistente até à morte, aos 36 anos, devido a uma gangrena incurável (síndroma de Raynaud) que começou no pé esquerdo e se propagou a ambas as pernas.

No final dos anos 1930, os nazis alemães que adoravam o “muçulmano Essad-Bey” denunciaram publicamente a sua “raça judaica” (no início da década, o Ministério da Propaganda de Goebbels tinha-o defendido dessa “acusação” proferida por outra agência do III Reich).

Em 1938, estava Lev refugiado em Viena e a escrever sob o pseudónimo de Kurban Said, quando a cidade caiu nas mãos das forças de Hitler. Mais uma vez foi forçado a fugir. Procurou abrigo na tranquila Positano, em Itália, mas nem aqui escapou à perseguição.

Nos derradeiros dias de vida, suportando dores terríveis com a ajuda de morfina e haxixe (o seu apartamento era como “uma sala de ópio persa”), sem dinheiro para comer e para os medicamentos, Lev continuou a escrever à mão, durante mais de dez horas consecutivas, numa letra pequenina e indecifrável.Os últimos cadernos que Reiss encontrou na posse de uma das suas fontes intitulam-se O Homem Que Nada Sabe Sobre o Amor.

Em Positano, o eloquente orador de tertúlias literárias e aclamado escritor de dezenas de obras, entre eles as biografias de Nicolau, Estaline e Lenine, manteve a fantasia de ser um “príncipe”, na realidade convertido ao Islão, em 1922, na embaixada turca em Berlim.

Estávamos perante uma lápide branca esguia, encimada por um turbante. (…) O nome que figurava na campa era “MOHAMMED ESSAD BEY”.

Tom Reiss, o autor de O Orientalista @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Tom Reiss, o autor de O Orientalista
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Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2010 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2010

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