Shabiha: Os “fantasmas” que protegem Assad

A milícia suspeita de um massacre em Houla [em 25 de Maio de 2012 – 198 mortos, dos quais 38 mulheres e 49 crianças, segundo a ONU] emergiu, alegadamente, de bandos mafiosos nas regiões da Síria dominadas por famílias alauitas. Tem sido usada pelo regime como arma de sobrevivência, diz-nos o escritor e dissidente Yassin al-Haj Saleh. (Ler mais | Read more…)

© english.the-syrian.com

A palavra shabiha entrou no léxico árabe quando, Hafez al-Assad interveio na guerra civil libanesa em 1976. Até então, ninguém fora da Síria conhecia o termo cuja origem permanece obscura. Crê-se que deriva de Ashbah (“Fantasmas”).

Talvez, porque esta milícia que protege o regime “opera fora da lei, vivendo na sombra, figurativa e literalmente, materializando-se e desaparecendo a uma velocidade surpreendente”, explica, via Facebook, e a partir da sua [antiga] residência em Damasco, Yassin al-Haj Saleh jornalista, escritor e ex-prisioneiro político (de 1980 a 1996).

[Nascido em Raqqa, a cidade que o autoproclamado “estado islâmico” ou Daesh proclamou capital do seu califado, Yassin tem sido considerado, por muitos dos seus apoiantes, a “consciência da revolução síria“, iniciada em 2011.]

O termo Shabiha, refere Yassin, também poderá provir de Shabah, um modelo de carros Mercedes outrora popular entre os responsáveis da milícia, porque realçava o estatuto social e permitia transportar todo o tipo de contrabando em bagageiras amplas. Outra explicação: “A ideia de privilégios extensos que permitem a um indivíduo alargar a sua shabah, ou sombra.”

Terá sido, pois, a partir do final dos anos 1970, com o crescente tráfico de bens do Líbano, que se começou a ouvir falar de Shabiha (plural de shabih, ou “rufia”). Assim eram referidos “bandos masculinos nas regiões costeiras da Síria, todos oriundos de influentes famílias alauitas – os Assad, os Deeb, os Berri e os Makhlouf.”

Ganhavam a vida com “negócios ilícitos (electrodomésticos, tabaco, álcool, drogas e antiguidades) e cobrança de ‘impostos’ (extorsão).” Conquistaram fama pela “brutalidade e crueldade, mas também pela devoção cega aos seus líderes, tratados como mu‘allim (chefe) ou khaal (tio).”

Nas suas áreas de acção – uma delas o reduto alauita de Latakia –, os shabiha eram “intocáveis e impunes”, estavam acima da lei. “Se houvesse um conflito de interesses com as autoridades locais, estas não se atreveriam a defender-se”, observou Yasin Saleh, autor de vários livros, entre eles, Syria in the Shadow: Looks Inside the Black Box e The Myth of the Others: A Critique of Contemporary Islam and a Critique of The Critique.

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A “primeira característica dos shabiha  “é a dos laços de sangue e seita que os amarram à família do Presidente”, referiu o intelectual sírio [a quem foi atribuído, em 2012, o prestigiado Prémio Príncipe Claus,”como tributo ao povo sírio e à revolução”].

Outras facetas são: “a predisposição para hostilizar a sociedade, o que faz deles o meio perfeito para praticar a violência, de forma organizada ou arbitrária, contra a população civil; a obediência inquestionável aos seus líderes; e a motivação económica – usam a força para obter bens materiais ou controlar fontes de receita valiosas, como os portos.”

Ao contrário do que seria de supor, porém, a maioria dos shabiha não são ricos, como os seus chefes. Explicou Saleh: “Suspeita-se que a região costeira, como um todo, e os habitantes alauitas, em particular, são mantidos propositadamente numa situação de pobreza e subdesenvolvimento para que possam ser o fornecedor constante do músculo, sem qualificação e educação, que defende o regime.”

“Eles são mão-de-obra barata e violenta, chamados a fazer trabalhos sujos, pelos quais são pagos e que são único sustento pessoal.”

Ainda que “não seja do seu interesse”, estes alauitas, adiantou Saleh, “são facilmente transformados em guardiões fanáticos de uma elite política afortunada que só se importa com o seu bem-estar, bastando-lhe invocar a religião e a comunidade em comum.”

Este “elemento de sectarismo” é o que distingue os Shabiha na Síria dos Baltagiyya no Egipto e dos Balatija no Iémen” – alusão aos “mercenários” que serviram os ditadores depostos naqueles países.

Os shabiha nunca deixaram de ser leais ao regime, nem mesmo quando foram confrontados. “Para ganhar popularidade, quando se preparava para suceder ao pai”, Basil al-Assad, o filho mais velho de Hafez, lançou contra os shabiha uma campanha no início dos anos 1990, recordou Saleh, nesta entrevista.

Mandou até prender até alguns dos seus primos. “Nessa altura, porém, os “rufias” eram “mais um fenómeno económico do que político.” Basil morreu num misterioso acidente de viação, na estrada que liga Damasco a Beirute, em 1994.

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Bashar, o oftalmologista treinado à pressa para ocupar o lugar de Basil, após a morte de Hafez, em 2000, também colocou o seu temível primo Numir nas prisões de Adra e Siadaniya, mas rapidamente percebeu que não podia continuar a afrontar os shabiha, “a face negra do regime” que lhe assegura a sobrevivência.

“Ele confia mais nos shabiha, parte da comunidade alauita e operando em articulação com o aparelho de segurança, do que no Exército, abalado por crescentes deserções.”

Para ilustrar “a relação orgânica” entre os shabiha e o regime, Saleh citou o poeta e dramaturgo Mamdouh Adwan (1941-2005), nascido em Hama, cidade onde Hafez mandou matar cerca de 30 mil pessoas, para se vingar da Irmandade Muçulmana que o tentou derrubar e assassinar.

Na obra Hayawanat al-Insan (“A Bestialidade do Homem”), Adwan escreveu: “O homem parou o carro num semáforo. Quando a luz verde acendeu, ele avançou. Subitamente, apareceu-lhe um shabih de moto que não respeitou o sinal vermelho.”

“Uma colisão esteve iminente, mas foi evitada. Apesar de ser o infractor, o shabih insultou o condutor do automóvel. ‘Irmão’, disse este, ‘a luz estava verde e a estrada era minha.’ Enquanto o pontapeava no rosto, o shabih respondia: ‘A estrada é tua? Não sabes que todo o país é nosso?’”

Esta “mistura de poder e superioridade racial”, na avaliação de Saleh, expandiu-se com a revolução, iniciada em Março de 2011, contra Bashar, a ponto de os shabiha, “proletários da repressão”, serem os principais suspeitos do massacre de Houla, cometido na noite de 25 para 26 de Maio. Contaram-se 109 mortos, incluindo 32 crianças.

A cidade, predominantemente sunita, foi alvo de um bombardeamento aéreo. Os que sobreviveram foram depois degolados e alvejados na cabeça. Num discurso televisivo à nação, a 3 de Junho [de 2011], Bashar, ilibou as suas forças do crime e culpou “terroristas a soldo do estrangeiro”, dizendo: “Nem monstros poderiam ter feito aquilo que vimos.”

Yassin Saleh não acredita que os shabiha possam salvar Bashar, mas alerta que os “fantasmas” poderão tornar-se “ainda mais perigosos” à medida que o regime se aproxima do fim. “Eles são o símbolo do ódio. Vamos precisar de muitos anos para restabelecer os laços que foram sendo quebrados entre os diferentes grupos confessionais na Síria.”

[Refugiado na Turquia (Istambul), como muitos compatriotas, Yassin permanece uma das mais respeitadas figuras da oposição. A sua mulher, Samira Khalil, militante comunista, continua detida por facções islamistas na cidade de Douma, desde 2012. No mesmo ano, o seu irmão Feras al-Haj Saleh foi (e permanece) capturado pelo Daesh, que ele define como “uma mistura de organização terrorista niilista e regime colonial fascista”.]

Yassin al-Haj Saleh, por muitos considerado “a consciência da revolução síria”
© Puig Joan | muftah.org

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 6 de Junho de 2012 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on June 6, 2012

Fadwa Soliman, símbolo da revolução síria

Membro da minoria alauita no poder, a actriz e poeta teve de fugir do país depois de desafiar a sua comunidade. Foi renegada pela família ao revoltar-se contra o regime de Assad. Esta é a sua história, narrada, na primeira pessoa, a partir de um dos seus esconderijos. (Ler mais | Read more…)

Fadwa Soliman no exílio em Paris: “Como pôde [Bashar] tornar-se presidente sem eleições, apenas por ser o filho de Hafez al-Assad? Previ que uma revolução iria começar, que as massas não ficariam silenciosas”
© Associated Press

Sou Fadwa Soliman, nascida há pouco mais de 30 anos na cidade de Aleppo, na Síria. Passei a minha infância e adolescência em Safita, uma vila do distrito de Tartus. A minha família era muito pobre. Com apenas quatro anos de idade, perdi o meu pai.

Tenho oito irmãos, todos eles com formação universitária. Licenciei-me no Instituto Superior de Dramaturgia, em Damasco. Como actriz, fiz teatro televisão e cinema.

Muitos terão ficado surpreendidos quando, recentemente, me viram mobilizar centenas de manifestantes em Homs, uma das regiões mais conservadoras do país, entoando palavras de ordem contra Bashar al-Assad.

O meu destino podia ser a prisão ou a morte, mas quis estar presente naquela manifestação para eliminar a percepção de que toda a comunidade alauita, a que pertenço, apoia o regime.

Também quis provar que não há sectarismo na Síria, e que são mentiras as alegações de que os que participam nos protestos são islamistas radicais, grupos armados ou agentes estrangeiros.

Agora, vivo escondida, sempre em fuga, porque sou perseguida. As forças de segurança tomaram de assalto um bairro em Homs, à minha procura. Espancaram muita gente para revelarem onde eu estava. Fugi do país. Não posso revelar pormenores, mas ando sempre a mudar de esconderijo e de número de telefone. As autoridades não desistiram de me encontrar.

Acredito que a cultura e o teatro são os verdadeiros motores da mudança, e o impulso para conquistarmos a nossa liberdade e os nossos direitos.

Descobri, porém, que a instituição cultural na Síria é alicerçada num pensamento superficial, e que existe uma censura implacável que estrangula o pensamento, a arte e a criatividade. Esta instituição é dominada por um espírito securitário.

Aleppo, a cidade-natal de Fadwa Soliman: À procura de sobreviventes depois de um bombardeamento atribuído a forças leais a Bashar al-Assad, no bairro de Al-Shaar, em 7 de Setembro 2015
© Newsweek

Não há intelectual no meu país que não sofra as consequências desta mentalidade. Parte destes intelectuais viriam a juntar-se à instituição, moldando-se a ela; outra parte recusou e viu-se marginalizada. Comigo estão, por exemplo, outras actrizes como Mona Wassef e May Skaf, a cantora Assala Nasri, o cineasta Nabil Maleh e o compositor Malek Jandali.

Não me deram espaço e liberdade na cena artística por ter rejeitado os mecanismos do ofício orientado pela linha securitária. Refugiei-me primeiro em Latakia, durante sete anos, antes de reaparecer em Homs, impelida pela visão chocante de um vídeo em que uma família foi massacrada, os crânios das crianças desfeitos, pelas milícias pró-governamentais Shabiha.

Nos últimos anos de mandato do Presidente Hafez Al-Assad e início do de Bashar, em 2000, multiplicaram-se as produtoras artísticas privadas, as mais importantes das quais eram propriedade de políticos, de homens dos serviços de segurança e do exército. O objectivo era branquear capitais.

Na altura, julgámos que poderia existir alguma abertura cultural e um mais amplo leque de opções teatrais. Contudo, ficámos chocados quando nos apercebemos de que se tratavam de instituições corruptas, com critérios comerciais que apostam em temas supérfluos e na banalização da cultura árabe.

Quanto a Bashar al-Assad, encarei o facto de ter alterado a Constituição para poder assumir a chefia do Estado como sendo a maior afronta ao povo sírio. Interroguei-me: Como pôde tornar-se presidente sem eleições, apenas por ser o filho de Hafez al-Assad? Previ, então, que uma revolução iria começar, que as massas não ficariam silenciosas.

Fadwa Soliman nunca deixou de lutar pela Síria. Morreu de cancro, no exílio em Paris, em 17 de Agosto de 2017
© Nasib Bittar | Libération

O silêncio tinha sido criado pelo medo que a governação de Hafez al-Assad semeara; pela lembrança viva dos seus crimes, pela detenção de todos os opositores sírios, fossem laicos ou islâmicos, atirados para uma qualquer prisão, por dezenas e dezenas de anos. A grande maioria destes detidos acabou por morrer, após tantas sevícias, tantas torturas.

Ainda esperei que o primeiro discurso presidencial de Bashar Al-Assad fosse de reconciliação nacional, para fechar uma página escura na História da Síria.

Mas fiquei chocada com essa primeira declaração, pejada de vãs promessas de reformas jamais cumpridas. Ele não tinha em mente unir o povo sírio e sarar as feridas que o regime do seu pai causara.

Eu nunca me filiei em qualquer partido político da oposição, nem no Baas (no poder), mas sempre fui uma ferrenha opositora, insurgindo-me contra a pobreza, a humilhação, a exploração, a indiferença e a banalidade cultural. Ergui-me contra o medo e contra a cobardia.

Continuamente bradava bem alto: “É uma injustiça, temos de nos revoltar e derrubar Bashar Al-Assad!” Tornei-me eu própria numa fonte de medo para os meus colegas, por causa da minha “língua desgovernada”. Com ironia, diziam-me que a queda do regime jamais iria acontecer, e que eles apenas desejavam manter os seus empregos.

Como poderia eu não ficar do lado dos que se sublevaram?! Só acreditei que o povo descera à rua quando me juntei a ele em Homs.

Quando subi a um palanque para falar ao povo, quis demonstrar que recusava a matança e o cerco imposto à povoação de Daraa, e para reclamar o nosso direito edificar um Estado de Direito e democrático onde não podemos ser agredidos e mortos.

Homs: Foi nesta cidade, que sempre foi reduto da Irmandade Muçulmana, cerca de 160 quilómetros a norte de Damasco, que a alauita Fadwa Soliman se juntou à oposição, depois de ver imagens de um massacre de crianças cometido pelos milicianos Shabiha, fiéis ao clã Assad
© The Independent

Em Daraa e em Homs, corri sempre perigo de vida. Enfrentávamos a morte a cada dia que passava e, após cada manifestação, lançávamo-nos numa correria desenfreada antes da chegada dos carros de combate e das tropas.

Atravessávamos as ruas à frente de atiradores furtivos, sem saber se estes estavam autorizados a dispararem contra nós ou não.

Em Homs, a todo o momento, éramos ameaçados com bombardeamentos aos bairros. A prova de que os sunitas não são uma ameaça é que eu, uma alauita sem hijab, numa cidade onde muitas mulheres usam lenço, fui acolhida e protegida nas suas casas quando agentes de segurança foram procurar-me.

Não quero falar da minha família [um dos seus irmãos foi à televisão estatal renegá-la publicamente, dizendo. ‘Infelizmente ela esqueceu-se dos valores segundo os quais foi educada; sei que ela recebeu muito dinheiro do estrangeiro.’]

No que diz respeito aos alauitas [a comunidade religiosa a que Fadwa pertence], um número significativo deles são opositores e têm sido detidos.

Os alauitas são como qualquer grupo confessional na Síria: uma parte está do lado do regime; outra está contra, filiados em partidos e correntes políticas da oposição.

Algumas minorias religiosas receiam a mudança, porque o regime alega que depois de Assad virão os salafistas governar Síria. Entre a maioria sunita, também há quem tenha medo.

Este sentimento foi reforçado pelas situações no Líbano [onde os cristãos maronitas, outrora dominantes, perderam influência] e no Iraque [onde a maioria xiita se impôs às minorias sunita e cristã]. Este sentimento de medo é uma ferramenta nas mãos do regime, que o tenta intensificar para assegurar a sua sobrevivência.

Existe um fosso entre as várias confissões religiosas na Síria que foi construído por Hafez Al-Assad, sobretudo a partir do massacre de Hama, em 1982, quando matou centenas de civis, fazendo crer às minorias que a Irmandade Muçulmana queria criar um Estado islâmico.

Com a revolução em curso e o envolvimento de todos os sírios – das minorias e da maioria –, a consciência popular foi reforçada. O povo entendeu que o fosso não é real: é uma consequência da opressão.

“As fracturas na oposição são o resultado de 40 anos de ausência de acção política e institucional na Síria”, diz Fadwa Soliman. “Mas também creio que uma parte dos que querem derrubar o regime adoptou agendas estrangeiras, agravando as divisões”
© The New York Times

Tenho sido crítica do regime e da oposição, porque todos os dias há derramamento de sangue na Síria – o número de mortos desde Março de 2011 ultrapassa os 10 mil [em 2016, segundo a ONU, já eram 400 mil]. Isso deve-se, em parte, à incapacidade da oposição em conseguir uma solução política.

Hoje, pergunto-me, se uma oposição unida solicitar à comunidade internacional ajuda para forçar Bashar Al-Assad a pôr fim à violência, este pedido será atendido?

Até agora, o mundo não soube ter uma posição clara nem quando os sírios, ainda no início da revolução, se manifestavam de forma pacífica e eram descaradamente chacinados pelo regime. Não enviou observadores nem organizações de direitos humanos para revelar os factos e estancar a carnificina.

Os opositores, por seu turno, não fizeram devidamente o seu trabalho, porque se dividiram e não planearam mecanismos para derrubar, pacificamente, o regime; não conseguiram conquistar o apoio da opinião pública mundial.

Hoje, têm uma enorme responsabilidade: humana, histórica e moral perante tudo o que está a acontecer.

As fracturas na oposição são o resultado de 40 anos de ausência de acção política e institucional na Síria. Mas também creio que uma parte dos que querem derrubar o regime adoptou agendas estrangeiras, agravando as divisões. É no terreno que se encontram os verdadeiros opositores.

Uma guerra civil é inevitável se a crise se prolongar sem uma solução política e caso os opositores não se apressem a resolver o que os separa.

Mesmo após sair do país, tenho conhecimento de tudo o que acontece na Síria. Mantenho-me activa através de gravações no YouTube e da minha página no Facebook.

É uma tarefa de todos nós fazer com que os massacres cessem e os seus responsáveis compareçam perante tribunais internacionais.

Os massacres estão a ser cometidos pelo regime, que iniciou a onda de violência, mas sou contra a ideia de armar a oposição, porque o regime alegará que está a ser alvo de grupos armados.

É extremamente difícil dizer a seja quem for: ‘Não tens o direito de te defender’. Apoio o direito à autodefesa, mas estou contra a entrega de armas a civis porque isso só prolonga a matança e não derruba o regime. Queremos um Estado de direito que possa julgar os assassinos; é errado sermos nós a julgá-los.

A alternativa é a criação de um parlamento composto pelos opositores jovens para apoiar o Conselho Nacional Sírio [no exílio] para encontrar uma solução.

Advogados, médicos, engenheiros e empresários fora da Síria uniram-se para ajudar os movimentos da sociedade civil, cada vez mais activos no interior do país.

Fadwa Soliman numa manifestação de apoio ao povo sírio, em 17 de Abril de 2012, em Paris
© Thibault Camus | AP

O objectivo é exprimir uma consciencialização política e nacional; unir o povo, socorrendo-o com fundos; tratar psicologicamente os desalojados; estreitar laços com os meios de comunicação social livres que emergiram com a revolução; promover publicações que apoiam uma revolta pacífica. Este regime corrupto deve ser derrubado pacificamente.

Bashar Al-Assad não vai durar muito, tendo em conta notícias [não confirmadas] que referem as mortes de Assef Shawkat [cunhado do Presidente e antigo chefe da espionagem, morto num atentado em Damasco, em Julho de 2012] e de Hisham al-Ikhtiyar [director do Bureau de Segurança Nacional, que também morreu no atentado que vitimou Shawkat].

O povo está determinado a obter a sua liberdade, e o regime não está a conseguir oprimir a vontade do povo, apesar de toda a brutalidade.

Finalmente, sobre Asma Al-Assad, a mulher do Presidente, não percebo como pode ela aceitar a violência e os massacres que o regime tem vindo a cometer.

Pior: não entendo por que é que ela apoia o marido. Todas as pessoas têm o direito de manifestar a sua pertença política, intelectual, religiosa e étnica sem que a sua vida seja posta em perigo.

Se Asma tivesse desempenhado esse papel, hoje seria olhada como uma mulher mais humana e verdadeira. Teria contribuído para travar o derramamento do sangue.

Não temo, de modo algum, que a Síria venha a estar sob domínio dos islamistas. O povo que saiu à rua só permitirá que os islamistas ou outros ascendam ao poder com o seu aval. Na Síria, o islão nunca foi extremista. Os media estatais é que tentam distorcer a imagem dos muçulmanos na Síria.

[Em 2016, a viver em França, Fadwa Soliman recebeu o Prix Découvreurs, pelo seu livro de poesia “À la pleine Lune” (Éditions du Soupirail). Um extracto da obra pode ser lido aqui:

Ne cherchez pas mes traces / La trace du papillon a accroché sa couleur bleue / Sur les statues qui ont jeté leurs âmes / Dans les flammes de la vérité / Et la vérité est entière / Qu’on la démembre et elle devient / Idéologies, confessions, partis, religions / Entière est la vérité / Alors détruis tes geôliers / Et tes geôles / J’attends la lumière / Qui brûlera mon cœur / Ce cœur toujours en attente /De qui frappera à son cœur /Afin de l’ouvrir au jour

No dia 17 de Agosto de 2017, no exílio parisiense, Fadwa morreu de cancro.]

Fadwa Soliman, no exílio, de cabelo rapado

@ André Carrilho |Courrier international

© André Carrilho | Courrier international

 

A jornalista agradece a preciosa colaboração de Badr Hassanein, da Editora Civilização, que traduziu do árabe para português as respostas de Fadwa Soliman, enviadas por “e-mail”. A entrevista foi iniciada por telefone, em francês, e concluída, vários dias depois,  por correio electrónico.

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 29 de Maio de 2012 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 29, 2012

Evgenia defende Khimki contra o Kremlin

Uma engenheira de 35 anos decidiu salvar a floresta de Khimki, “pulmão de Moscovo”, ameaçada pela construção de uma auto-estrada. Putin é “a maior ameaça”, mas ela “não desiste de mudar a Rússia”. (Ler mais | Read more…)

Em 2012, como reconhecimento pelo seu esforço para salvar o “pulmão de Moscovo”, Evgenia Chirikova foi uma de seis vencedores do prestigiado Goldman Environmental Prize, atribuído numa cerimónia pública na War Memorial Opera House de São Francisco (EUA)
© treehugger.com

No Verão de 2007, grávida da segunda filha, Evgenia Chirikova e o marido, Mikhail Matveev, davam o seu passeio diário por Khimki, uma floresta com 200 anos, onde os czares faziam caçadas e ainda hoje podem ser vistos alces e raposas, mas também borboletas raras. Subitamente, deram-se conta de que muitos dos carvalhos do “pulmão de Moscovo” estavam marcados a vermelho com um “X”, sinal de que iriam ser derrubados.

“Ficámos em estado de choque”, lembra Evgenia, engenheira mecânica, 35 anos, numa entrevista telefónica, conduzida com a ajuda de Mikhail, de 42, que serviu de tradutor.

“Khimki era uma zona protegida devido aos seus singulares ecossistema e biodiversidade; um tampão para preservar mais de 30 espécies de fauna e flora, algumas quase extintas, e para proteger 1,5 milhões de pessoas da poluição da capital. Fomos investigar e ficámos a saber que toda a área, 150 hectares, iria ser arrasada para construir uma auto-estrada.”

Cúmplices desde os tempos de estudantes na Universidade Técnica de Moscovo, onde começaram a namorar em 1994 (casaram-se quatro anos depois — quando se mudaram para Khimki, “o lugar ideal para criar filhos”), Evgenia e Mikhail não perderam tempo. Imprimiram panfletos em casa com o seu número de telefone, para mobilizar os residentes locais.

Poucos meses depois de dar à luz a menina que já completou seis anos (a mais velha tem dez), Evgenia deixou de trabalhar na empresa de engenharia do marido, gestor, e passou a andar pelas ruas, empurrando um carrinho de bebé com uma mão e distribuindo os folhetos com a outra.

“Ficámos espantados com a adesão das pessoas, todas revoltadas, como nós”, disse a mulher que, a 16 de Abril deste ano [2012], foi uma de seis vencedores do prestigiado Goldman Environmental Prize, atribuído numa cerimónia pública na War Memorial Opera House de São Francisco (EUA).

Membros do movimento Defensores de Khimki, um dos mais destemidos grupos da sociedade civil russa. Cativando a nova e a velha gerações, estes activistas desafiaram o Kremlin e o consórcio francês Vinci, ao qual foi adjudicada a construção da auto-estrada: dez faixas com portagem e 150 km de limite de velocidade, para ligar Moscovo a São Petersburgo
© Yuri Timofeyev

Evgenia é agora a líder do movimento Defensores de Khimki, um dos mais destemidos grupos da sociedade civil russa. Cativando a nova e a velha gerações, estes activistas desafiaram o Kremlin e o consórcio francês Vinci, ao qual foi adjudicada a construção da auto- estrada: dez faixas com portagem e 150 km de limite de velocidade, para ligar Moscovo a São Petersburgo.

“Como engenheira, não podia aceitar um projecto que envolve construir uma rodovia numa floresta que não é plana e não permite fluidez de trânsito”, disse Evgenia.

“Havia melhores alternativas — pelo menos 11 —, apresentadas por uma comissão independente. “Uma delas previa a utilização de uma velha linha férrea abandonada, com cabos de alta voltagem já instalados”, especificou Evgenia, por intermédio de Mikhail.

“O importante nunca foi melhorar o sistema de transportes públicos e sim as comissões que muitos no Governo vão receber. Estão aqui em jogo mais de 3000 milhões de dólares — e o mais chocante é que a terra está a ser vendida a estrangeiros por 50 cêntimos o metro quadrado!”

A partir de 2010, quando as escavadoras da Vinci começaram a operar, Evgenia, Mikhail e apoiantes intensificaram as suas campanhas. Acamparam na floresta, colocando panfletos nas árvores.

Desafiaram directamente os trabalhadores no empreendimento, exigindo- lhes as licenças necessárias. Eram escorraçados por “guardas privados”. Quando a polícia vinha, “não era para repor a legalidade”, mas para deter à força os Defensores de Khimki.

As ameaças começaram a fazer vítimas em 2008, quando “Mikhail Beketov, director do jornal regional Khiminskaia Pravda, autor de artigos críticos do regime, foi brutalmente espancado à saída do seu apartamento, em 2008”, disse Mikhail. “Sofreu uma hemorragia cerebral. Não mais poderá andar e falar.”

Em 2009, o ano em que Vladimir Putin, então primeiro-ministro, revogou a lei que salva- guardava Khimki como zona protegida —, o gráfico Sergei Protazanov não sobreviveu a agressões infligidas em plena rua. Em 2010, Oleg Kashin, repórter do Kommersant, quase perdeu a vida à porta de casa. Nenhum dos atacantes foi identificado ou detido.

A partir de 2010, quando as escavadoras do consórcio francês Vinci começaram a operar, Evgenia e apoiantes acamparam na floresta, colocando panfletos nas árvores. Desafiaram directamente os trabalhadores no empreendimento, exigindo- lhes as licenças necessárias. Eram escorraçados por “guardas privados”. Quando a polícia vinha, “não era para repor a legalidade”, mas para deter à força os Defensores de Khimki. @ridus-news.lj.ru

A partir de 2010, quando as escavadoras do consórcio francês Vinci começaram a operar, Evgenia e apoiantes acamparam na floresta, colocando panfletos nas árvores. Desafiaram directamente os trabalhadores no empreendimento. Eram escorraçados por “guardas privados”. Quando a polícia vinha, “não era para repor a legalidade”, mas para deter à força os Defensores de Khimki
© Ridus-News.lj.ru

Evgenia não escapou à perseguição, apesar de já ser “uma celebridade”. Detiveram-na várias vezes, por dias, embora “a lei impeça que uma mãe de menores fique na prisão mais do que três horas”, observou Mikhail.

A situação mais dramática viveu-a quando agentes chegaram a sua casa — ela transformara a sala de estar em “quartel-general” — com o que o casal considerou ser “documentação falsa” para lhe retirarem as filhas, “alegando maus tratos”.

“Fiquei furiosa e gravei um vídeo que coloquei no YouTube”, recordou a jovem engenheira, com evidente orgulho, depois de já ter conseguido convencer duas instituições internacionais a retirar financiamento ao projecto da Vinci: o Banco Europeu de Investimento (BEI) e o Banco Europeu para a Reconstrução de Desenvolvimento (BERD). As autoridades foram obrigadas a recuar.

Consciente da sua crescente influência, Evgenia escreveu uma “carta convincente” ao presidente Dmitri Medvedev. Numa entrevista por e-mail, o director executivo da Greenpeace-Russia enunciou “várias razões” para o antecessor de Putin ter concordado em suspender as obras.

“O nível dos protestos — agora parecem pequenos ajuntamentos mas chegaram a concentrar-se mais de 5000 pessoas na Praça Vermelha, e isso foi significativo”, enunciou Sergei Tsiplenkov.

“A internacionalização do caso (o boicote do BEID e do BERD; levámos o caso perante uma audiência francesa…); o nível de abusos por parte dos empreendedores; o nível de corrupção (até o procurador-geral concordou que havia opções alternativas e questionou as razões da concessão a companhias estrangeiras)”.

Em 2012, a polícia voltou a deter Evgenia Chirikova durante uma manifestação da oposição, em Moscovo. Três anos depois, a ambientalista que protege a floresta de Khimki mudou-se para a Estónia, com receio de que as suas filhas corressem perigo
© Konstantin Koutsyllo | Reuters

“Há ainda, possivelmente, uma razão mais exótica”, ironizou Tsiplenkov. “Precisamente naquela altura, os U2 — a banda favorita de Medvedev — visitavam a Rússia. Temos bons contactos com Bono [o vocalista] e pedimos- lhe que levantasse a questão numa reunião com o ex-Presidente.”

“Não sei se ele abordou o assunto ou não; mas, depois da decisão do chefe de Estado, começou a circular uma anedota entre os ecologistas russos: ‘Devíamos pedir aos U2 que visitem a Rússia todos os meses porque há muitos problemas ambientais no país para solucionar’.”

O problema é que Putin não é Medvedev. “Uma das várias empresas russas associadas à Vinci pertence a Arkadi Rotemberg, amigo do actual Presidente”, denunciou Mikhail. “Vivemos agora uma nova ditadura. Lembro- me de que, até no tempo da União Soviética, o regime desistiu de destruir uma floresta na Sibéria quando confrontado com a fúria popular. Com Putin, corremos muito mais riscos, mas não temos outra escolha.”

Inquirido sobre se concordava com o elogio do diário The Christian Science Monitor de que Evgenia “pode mudar o curso da História da Rússia”, Mikhail dá uma gargalhada: “Talvez seja um exagero, mas creio que ela está mudar a Rússia, e não desiste.” E o marido, tem ciúmes? “Oh não! Ela é famosa mas também tem as dores de cabeça”, responde.

Quanto às duas filhas, “estão seguras por- que mudaram para um colégio dirigido por amigos”, fora da área de Khimki. Orgulhosas da mãe?

“Nem por isso”, conclui Mikhail, mais tarde, por e-mail. “Elas não acham piada a esta situação. Creio que adoptaram a táctica de Evgenia. Um dia destes, organizaram uma flashmob na nossa cozinha com placards onde escreveram: ‘Acabem com as roupas velhas; queremos vestidos novos.’ Creio que não temos grande poder sobre elas.”

[Em 2015, Evgenia Chirikova decidiu mudar-se para a Estónia (sem aqui pedir asilo político para poder continuar a visitar o sue país), com receio de que as autoridades russas “exercessem chantagem” sobre ela e perdesse as filhas. Em 2012, a ambientalista havia concorrido à presidência da Câmara de Khimka, sem êxito.]

Evgenia Chirikova com uma das suas duas filhas em Khimka. @Itar-Tass

Evgenia Chirikova, com uma das suas duas filhas em Khimka
© Itar-Tass

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 20 de Maio de 2012 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 20, 2012

Warda: morreu uma das últimas divas da música árabe

Adulada como Rosa Argelina, a voz possante comparada à estrela egípcia Umm Kulthum não resistiu, aos 72 anos, a um súbito ataque cardíaco. (Ler mais | Read more…)

Durante mais de uma década, a voz de Warda al-Jazairia não se ouviu porque o marido a proibira de cantar.

Retomou a carreira em 1972 após o divórcio que a levou para os braços de um grande compositor a quem deve o apogeu. [Em 18 de Maio de 2012], a diva argelina da música clássica árabe calou-se para sempre.

Depois de mais 300 canções de patriotismo e amor, o seu coração parou subitamente. Tinha 72 anos.

De seu nome verdadeiro Warda Fatouki, a cantora mas também actriz que os fãs conheciam por Warda al-Jazairia (Rosa Argelina) ou apenas por Warda, nasceu em Puteaux, na região de Paris, em 1940, filha de uma libanesa e de um argelino.

Foi num clube do pai, no Quartier Latin, aos 11 anos, voz possante, expressivos olhos castanhos e elegância nos gestos, que começou a chamar a atenção, entoando versões dos lendários egípcios Umm Kulthum (aclamada como Rouxinol do Cairo), Mohammed Abdel Wahab e Abdelhalim Hafez.

O seu apoio à Frente Nacional de Libertação (FLN) durante a guerra pela independência da Argélia forçou-a a deixar a França, em 1958.

Refugiada, primeiro, em Rabat (Marrocos) e depois em Beirute (Líbano), Warda decidiu mudar-se para o Egipto, onde teve lições com os mestres que emulava.

Ganhou fama com uma magistral interpretação de al-Watan al-Akbar (“A pátria maior”), hino composto por Wahhab. Em 1962, voltou à Argélia, para celebrar a independência e casar-se.

O marido confinou-a à casa e ela só voltou a actuar em 1972, quando o então Presidente, Houari Boumediène, a convidou para retomar os palcos. O povo emocionou-se quando a ouviu cantar Min Baide (“De longe”), um louvor à nação livre.

A aceitação do convite conduziu ao divórcio. De regresso ao Egipto, onde fixou residência, Warda conheceu Baligh Hamdi, compositor célebre, que seria o segundo marido e também artífice de uma carreira brilhante na música (agora feita de originais) e no cinema.

Este casamento também fracassou mas não a parceria artística, com êxitos memoráveis como Harramt ahebbak (Não me é permitido amar-te). Para o estrelato, que ultrapassou as fronteiras linguísticas e musicais do Magreb e do Mashreq, contribuiu também muito o mentor tunisino Sade Thuraya.

Nos anos 1990, para atrair gerações mais novas, Warda começou a misturar o clássico com a sonoridade pop.

Um dos seus maiores êxitos foi Batwanes beek (ver vídeo acima ), uma melodia de amor com diferentes significados nos vários dialectos árabes.

No Egipto, por exemplo, é traduzida como “Passei um momento bom contigo”; no Iraque, por lhe ter sido atribuído um pendor fortemente sexual, foi proibida de passar nas rádios.

Admiradora de Gamal Abdel Nasser e dos seus ideais pan-arabistas, Warda nunca perdeu esse fervor nacionalista. El Ghala, uma das suas canções, de um repertório que vendeu mais de 100 milhões de discos em todo o mundo, tornou-se controversa.

Não se tratava apenas de um elogio da família de Maomé, o profeta do Islão, mas também da de Muammar Khadafi, o líder líbio entretanto deposto e assassinado por uma rebelião.

Essa canção fez com que Anwar Sadat a banisse do Egipto durante três anos. A proibição só foi levantada graças à intervenção de Jehan, a mulher do presidente.

Em Fevereiro de 2012, segundo o jornal libanês em língua francesa L’Orient Le Jour, Warda enviou uma carta aberta aos responsáveis da Al Jazeera, estação de televisão com sede no Qatar, criticando a cobertura noticiosa das revoltas das “primavera árabes”.

“Vocês mataram milhares de líbios e continuam a prejudicar numerosos inocentes na Síria. Vocês dizem que não carregam armas, mas eu digo-vos que têm a arma de destruição mais potente: os ‘media’. Estão a matar os filhos do arabismo.”

Na Argélia, que não sofreu o “contágio” das sublevações que destituíram o coronel de Trípoli, Hosni Mubarak, no Egipto, e Ben Ali, na Tunísia, a ministra da Cultura e comunicação, Khalida Toumi, lamentou a morte de “uma das mais belas vozes do mundo árabe”.

E acrescentou, numa mensagem de condolências: “Ela [Warda] partiu, deixando para trás um silêncio ensurdecedor e uma tristeza profunda.”

O último disco de Warda foi editado em 2011: Elli Daa Min Omnri, considerado por alguns críticos “uma obra-prima para os sentidos”.

Depois de uma oração especial e uma breve cerimónia no Cairo, o corpo da diva foi conduzido, num avião militar enviado pelo chefe de Estado argelino, Abdelaziz Bouteflika, para uma homenagem pública, no Palácio da Cultura, em Argel. O funeral realizou-se no Cemitério de El Alia, também na capital.

Com o desaparecimento de Warda e de Umm Kulthum (em 1975 – às suas exéquias assistiram mais de quatro milhões de pessoas), resta à música clássica árabe uma única porta-voz: a libanesa Nouhad Haddad, idolatrada pelos seus milhões de fãs  como Fairouz (Turquesa).

 

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 18 de Maio de 2012 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 18, 2012

A cegueira de Bashar está a matar a Síria

Em 2000, o oftalmologista Bashar tornou-se Presidente acidental, a segunda escolha do pai para um lugar reservado ao irmão mais velho. Vestiu primeiro a pele de um arnab (coelho) mas revelou-se feroz como um assad (leão). (Ler mais | Read more…)

@Jean Gouders

© Jean Gouders

Haitham al-Maleh passou oito anos e meio de mais de oito décadas de vida nas cadeias de Hafez e Bashar al-Assad. Em 1951, foi detido pela primeira vez e, em 1966, impedido de exercer a profissão de juiz, devido ao seu activismo pelos direitos humanos.

Cumpriu a última sentença em 2009. Foi libertado a 8 de Março de 2011 – o mês e o ano em que começou a revolução na Síria, no dia 15.

Ele conhece bem o regime e, por isso, não hesita no prognóstico: a primeira dinastia republicana árabe vai cair “como ruiu a União Soviética”. O Presidente e a sua família “deveriam ser presos e ter um julgamento justo mas, prosseguindo os seus crimes, aproximam-se do destino de [Muammar] Kadhafi na Líbia”.

“Bashar cometeu os piores crimes contra o seu próprio povo – massacres, pilhagens, violações, uma destruição sistemática; seguiu o exemplo de Kadhafi e suspeito que terá o mesmo fim” – capturado e assassinado pelos rebeldes” disse-nos Maleh, numa entrevista por e-mail, conduzida por intermédio do seu filho Iyas, exilado desde os 19 anos nos Estados Unidos.

“Até agora [Maio de 2012], este Presidente matou mais de 20 mil cidadãos, há mais de 50 mil desaparecidos, mais de 100 mil prisioneiros e mais de um milhão de refugiados.” *

Em 2000, quando Hafez morreu e o filho Bashar lhe sucedeu, Maleh escreveu várias cartas ao novo chefe de Estado apelando a reformas e ao levantamento da lei de emergência, em vigor desde que Hafez ascendera ao poder em 1970.

Em 2003, num discurso perante o Parlamento alemão, o homem a quem a Holanda deu a medalha Geuzen, que homenageia a resistência dos seus combatentes contra os nazis, definiu o clã Assad como uma “ditadura fascista”.

No regresso a casa, foi proibido de sair do país nos sete anos subsequentes. Durante esse período, foi submetido a várias formas de perseguição e intimidação.

O seu escritório de advocacia foi demolido três vezes, e a rua onde se situava era frequentemente encerrada por dezenas de agentes secretos para “aterrorizar os clientes” que o procuravam.

© media.pri.org

A 14 de Outubro de 2009, por continuar a denunciar a inexistência de um sistema judicial independente, Maleh foi novamente encarcerado, depois de comparecer perante um tribunal militar. Em Julho de 2010, foi condenado a uma pena de três anos por “abalar o sentimento nacional”.

Preocupado com as revoltas populares que abalavam a Tunísia, o Egipto e o Iémen, Bashar ordenou a libertação do seu grande opositor em Março de 2011, no âmbito de uma amnistia a prisioneiros com mais de 70 anos e outros “culpados de crimes menores”.

Em Julho de 2011, levantou a proibição de vários destacados dissidentes saírem do país, e Maleh, com 81 anos, foi um dos beneficiados. O herdeiro de Hafez não imaginava, porém, que o inimigo do regime iria ser o fundador do principal movimento de oposição no exterior: o Conselho Nacional Sírio (CNS).

Em 2000, quando foi elevado a todos os escalões do poder – chefia do Estado, liderança do Partido Baas e comando das forças armadas -, Bashar fez renascer a esperança de uma “Primavera de Damasco“, ou seja, uma maior abertura política e social. Mas esta foi de curta duração.

“A razão fundamental é que o seu regime não podia ser reformado”, diz-me Nadim Shehadi, director do Centro de Estudos Libaneses na Universidade de Oxford e investigador associado do Programa de Médio Oriente no Royal Institute of International Affairs (Chatham House), um dos mais prestigiados think tanks britânicos e europeus.

“Um upgrading cosmético não é compatível com liberdade”, observou Shehadi. “Qualquer reforma séria significaria sempre a desintegração do regime, e Bashar jamais empreenderia reformas. Daí a decisão de usar a violência de uma forma racional.”

A repressão sangrenta foi “uma estratégia deliberada de Bashar para não expor a sua fraqueza e tentar confundir o Ocidente”, realçou Shehadi. “Ele vê a revolta apenas como uma conspiração manipulada por americanos, israelitas e outros inimigos.”

“Tornou-se, para ele, um mantra insistir em que a Síria não é a Tunísia, o Egipto e os outros países cujos ditadores foram escorraçados, mas creio que o regime sírio é, em determinados aspectos, muito pior do que o egípcio e o tunisino, porque nos últimos 40 anos impediu todas as alternativas políticas. Até o exército ele conseguiu fragmentar, impossibilitando-o de qualquer tentativa de conspiração.”

Haitham al-Maleh faz um retrato semelhante: “Este regime tem sido capaz de suster a sua existência porque, tal como Franco, Mussolini e outros antigos ditadores da Europa de Leste, domina com mão de ferro e poder de fogo. Desde 1963 que o Baas se centrou em destruir a estrutura da sociedade, começando pela Educação, Justiça e Exército.”

“A corrupção contaminou todo o regime e este deu rédea solta aos seus fantoches para fazerem o que lhes apetece – desde que o chefe do regime não seja destituído”, adiantou Maleh.

“A família presidencial controla 85% do PIB [Produto Interno Bruto], mais de 60% do povo vive abaixo da linha de pobreza e 30% está no desemprego. A lealdade para com o regime tornou-se na condição para ter uma vida confortável.”

© The New York Times

Eyal Zisser, académico israelita e autor de Commanding Syria, um livro no qual examina os poderes de Hafez e Bashar, diz que nunca considerou “um reformador ou um democrata” o filho do homem que dava “lições de História do Médio Oriente” a Henry Kissinger, então chefe da diplomacia americana, durante longas horas, sentado numa poltrona.

Em entrevista que me deu por e-mail, Zisser admitiu que Bashar estivesse “realmente empenhado em melhorar a situação económica da Síria, em abrir novas escolas e hospitais – mas era só isso o que, para ele, constituía reformas. Afinal de contas, ele nasceu na Síria, foi educado pelo seu pai e tinha de cumprir a herança que lhe foi deixada”.

Bashar foi sempre um enigma. “Nunca o compreendemos desde o início”, adiantou Zisser, Director da Faculdade de Humanidades, Cátedra Yona e Dina Ettinger de História Contemporânea do Médio Oriente, na Universidade de Telavive.

“Pensávamos que, quando falava em reformas, ele tinha em mente uma democracia. Desde o início também que muitos na Síria odiavam o seu regime – mas havia até agora um muro de medo que impedia acções de protesto. Depois da Tunísia e do Egipto, também na Síria esse muro ruiu.”

Zisser nunca duvidou de que a decisão de agir violentamente contra manifestantes desarmados foi de Bashar. “Desde o seu primeiro dia na Presidência que nos dizem que não é ele, mas foi sempre Bashar quem jogou as cartas com esperteza, tentando apresentar-se como o polícia bom.”

Não é muito diferente a visão de Ammar Abdulhamid, presidente da Fundação Tharwa, antigo investigador no Saban Center for Middle East Policy na Brookings Institution, nos EUA.

Quando o inquirimos, por Facebook e e-mail, sobre as razões que levaram Bashar a transformar a “Primavera de Damasco” num “Inverno de descontentamento”, ele respondeu: “Os sírios não estavam interessados em mudanças meramente decorativas, mas em verdadeiras reformas – e, quando ele entendeu isso, deu ordens ao aparelho de segurança para desencadear a repressão.”

“Os salões onde decorriam debates políticos foram encerrados e muitas das personalidades envolvidas nesta reflexão foram presas, sob acusações idiotas, como as de “enfraquecer o moral da nação, abalar a reputação do país, ou convívio com diplomatas estrangeiros”.

© The Washington Post

“Assim que a “Primavera de Damasco” começou a ser aniquilada, a credibilidade de Bashar começou a deteriorar-se seriamente”, constatou o dissidente que, em 2005, foi obrigado a transferir para Washington, na forma de fundação, o seu Tharwa Project, criado dois anos antes na Síria. Tharwa, palavra árabe muito parecida com thawra (com o significado de “revolução”), quer dizer “riqueza”.

“A insatisfação dos activistas políticos foi aumentando, no período 2005-2008, à medida que Bashar recusava introduzir reformas substanciais”, anotou Abdulhamid.

“Na altura, a Síria estava isolada e muitos opositores consideraram ser uma boa oportunidade para encorajar mais participação no processo de decisões.”

“A resposta do presidente foi intensificar a tirania. A desilusão gerou um fenómeno de massas, entre 2008 e 2010, quando Bashar anunciou várias medidas económicas, disfarçadas de “reformas”, que prejudicaram muito a classe média e só beneficiaram os familiares e lacaios de Bashar.”

Abdulhamid salienta que “o facto de haver tanta corrupção na família presidencial (e de não ter sido feito qualquer esforço para acabar com isso), a ausência de uma rede de segurança social que beneficiasse as classes mais frágeis e uma persistente negligência face a problemas locais contribuíram para agravar a fúria e a frustração, há tanto tempo latentes.”

“Uma liberalização económica sem reformas políticas e judiciais significativas, sem uma campanha contra a corrupção, sem programas para amparar os pobres e revigorar a classe média só podia acabar mal. Mas Bashar estava demasiado cego para ler o que o povo escrevia nas paredes”.

A “cegueira” de Bashar é atribuída por Abdulhamid ao poder incomensurável que os Assad acumularam desde o golpe de 1970, que levou Hafez a afastar os antigos companheiros de armas Nureddin al-Atassi (Presidente) e Salah Jadid (secretário-geral do Baas), expandindo a influência dos alauitas, graças a alianças com famílias poderosas, como os Makhlouf e os Shalish.

© Reuters

Comecemos por Hafez. Nasceu em Qurdaha, aldeia montanhosa a sudeste de Latakia, a cidade onde iniciou a vida militar e apurou o talento político que o levaria ao poder absoluto, em 1963.

Nessa caminhada, o homem cujo apelido significa “Leão” teve o apoio de Aniseh Makhlouf, uma garota por quem se apaixonou e com quem se casaria em 1958. Ela era filha de um distinto cirurgião; ele era filho de camponeses, nem ricos nem pobres mas respeitados.

O pai dela não aprovava esta união, mas ele foi buscá-la a casa e levou-a para Damasco. Ela fê-lo ascender ao topo do escalão social e tornou-se na sua melhor confidente. Ainda hoje, influencia as decisões do filho Bashar.

Hafez e Aniseh tiveram cinco filhos: Bushra, única rapariga, nascida em 1960 (a primogénita, com o mesmo nome, morreu na infância); Basil, herdeiro político designado que morreu num acidente de viação em 1994; Bashar, que veio ao mundo em 11 de Setembro de 1965; Maher, comandante da Guarda Republicana e da 4.ª Divisão de Blindados (forças de elite); e Majid, que não sobreviveu a uma overdose de drogas em 2010. (Fonte: aqui)

Pertencem todos ao ramo xiita dos alauitas, corrente do islão que a ortodoxia sunita vê como blasfemo por atribuir uma essência divina ao seu mais venerado líder espiritual, Ali ibn Abi Talib, genro de Maomé.

Muitos alauitas integram-se, por seu turno, numa de quatro grandes confederações tribais: os Haddadin, os Matawira, os Khaiyatin e os Kalbiya – os Assad estão ligados a esta última.

O nome “alauita” foi cunhado durante o Mandato Francês na Síria; antes da I Guerra Mundial, a comunidade era conhecida como Nusairita, designação inspirada em Muhamad ibn Nusayr, um pregador do século IX.

Segundo Abdulhamid, os verdadeiros decisores no país não eram o Governo ou o Parlamento, mas Bashar, Aniseh, Maher, Bushra e o seu marido, Assef Shawkat – um homem muito mais velho, promovido por Bashar a vice-ministro da Defesa mas de cujas ambições Basil e Hafez desconfiavam.

© The Forward

Militar de origens humildes, Shawkat [que morreria num atentado em Julho de 2012] enfrentou a “Esfinge de Damasco” e foi buscar ao palácio dos Assad a “solteira mais cobiçada da Síria”, de acordo com a biografia do defunto Presidente, escrita pelo jornalista britânico Patrick Seale.

Tal como a da sua mãe, a influência de Bushra, licenciada em Farmácia e conhecida como “dama de ferro”, era colossal. “Partilhando com o seu pai um misto de romantismo e obstinação”, notou o jornalista sírio Mohamad Daoud.”

Convenceu Hafez a não prender o tio Rifaat al-Assad, quando este tentou afastá-lo num golpe, em 1984, porque isso “seria a desgraça da família”.”

Abdulhamid, o presidente da Fundação Tharwa, adiantou que no círculo de Bashar estavam ainda Muhammad Makhlouf (irmão de Aniseh) e o seu filho, o muito contestado Rami, que se tornou tesoureiro da família na última década, detendo o monopólio de negócios lucrativos, como o dos telemóveis.

Ou, como especificou o israelita Eyal Zisser, tinha na sua posse “60% da economia síria”. Neste anel incluíam-se também os filhos de Jamil al-Assad (tio paterno já falecido), Asma Akhraz (a mulher de Bashar) e o seu pai, um famoso cardiologista; e um grupo de generais e oficiais alauitas.

“A partir de 2005, as opções de Bashar tornaram-se mais e mais uma decisão colectiva, com ele a consultar a sua pequena rede familiar, ou pelo menos o gabinete restrito que formou à sua volta – Maher, Bushra, Assef, Rami, a sua mãe e, ocasionalmente, Asma.”

“Não interessa saber quem advogava as políticas mais extremas porque, no final, era uma decisão conjunta, e Bashar fazia parte dela”, acusou o dissidente sírio Maleh.

Bashar tinha 29 anos quando o pai o foi buscar a Londres, onde estudava Oftalmologia, para ocupar o lugar do irmão Basil, morto misteriosamente num acidente de viação na estrada que liga as capitais da Síria e do Líbano, em 1994.

O funeral do filho favorito foi a única vez que os sírios viram chorar o homem a quem chamavam a “Esfinge de Damasco”.

Apesar da imagem de jovem moderno e interessado nas novas tecnologias, um estudo do Centro Herzliya, do qual faz parte a elite política e de segurança de Israel, nota que “a assimilação dos valores ocidentais” por parte do filho de Hafez “não podia ter sido profunda”.

Porque ele frequentou as escolas sírias no início do regime do Baas, e o conhecimento que adquiriu sobre história, relações internacionais e política regional “evidencia um mundo bidimensional” em que “árabes nobres e corajosos” enfrentam “judeus e potências coloniais conspiradoras”.

Quando foi “exposto ao pensamento ocidental, os seus ideais e valores políticos já haviam sido previamente moldados”.

© blogs.spectator.co.uk

Na Síria, ninguém conhecia Bashar até à morte de Basil – as ruas só começaram a ser ornamentadas com as fotos dos dois irmãos quando o herdeiro de Hafez morreu. Até assumir a chefia do Estado (a Constituição teve de ser mudada porque ele tinha apenas 35 anos), em 2000, o único cargo oficial que se conhecia a Bashar era o de presidente da Sociedade de Computação Síria.

Bashar cativou figuras como Ammar Waqqaf, presidente de uma empresa de consultoria de negócios com sede no Reino Unido, um dos membros fundadores do Syrian Social Club em Londres – ou como ele o definiu, numa entrevista que me deu, “uma organização livre formada pelos que pretendem reformar o regime, não derrubá-lo”.

“Nunca me encontrei com o presidente, mas estive presente em eventos nos quais ele também esteve. A imagem desta pessoa foi sempre a de um reformista racional na política interna, e de um tipo duro nas questões externas.”

“Não considero que tenha sido o arquitecto da “Primavera de Damasco”, embora esta tenha começado quando ele subiu ao poder. Creio que ele tentou institucionalizar o regime que herdou do seu predecessor e muitos sírios, eu incluído, votaram nele em 2000 tendo esse objectivo em mente.”

“A juventude, a educação no Ocidente e o seu casamento com uma londrina reforçaram a imagem de Bashar como um modernizador”, adiantou o consultor.

“O facto de ele estar sempre sob ataque desde a última década, de prosseguirem as tentativas de o demonizar, a ele e à sua mulher, e de uma parte dos sírios e muita gente fora da Síria o verem como responsável pelo banho de sangue faz com que na Síria muitos olhem para ele como a pessoa que, contra todas as adversidades, tem suportado uma pressão sem precedentes do mundo inteiro.”

“Esta firmeza é a principal razão por que a Síria ainda não se desintegrou numa guerra civil. O regime mantém-se de pé e o presidente é muito estimado”, acredita o alauita Waqqaf.

“É muito fácil acusar a “família presidencial” de corrupção quando esta questão é muito mais profunda”, lamentou. “Resolver o problema da corrupção tem muito pouco a ver com a mudança de Presidente e mais com uma mudança de cultura, o que não é fácil. Há muitas razões para o descontentamento na Síria – de identidade, económicas ou de liberdades políticas.”

“O elemento da identidade [a maioria sunita querer “impor-se” às minorias, como alega o regime], por exemplo, é um componente-chave que alimenta a crise actual e tem sido explorado, ao máximo, por forças estrangeiras”, frisou o consultor sírio.

© The New York Times

Joshua Landis, académico americano e especialista na Síria, a pátria da sua mulher, considera que a guerra em curso “é, simultaneamente, uma batalha pela democracia e um confronto confessional”, com os alauitas tentando escapar ao destino marginal dos cristãos no Líbano e dos sunitas no Iraque, países maioritariamente xiitas.

Ammar Waqqaf comenta: “Precisamos de nos lembrar que muitos sunitas se recusaram a participar na insurreição, e isso só pode ser entendido no contexto de uma luta pela identidade síria e não apenas na perspectiva de uma guerra confessional.”

“A ideia de armar a “sublevação” é o principal motivo para a carnificina a que estamos a assistir”, convenceu-se Waqqaf.

“Cerca de metade do total das vítimas desta crise são homens e mulheres que apoiam o Governo, sejam eles membros da Polícia e do Exército ou civis, que têm sido mortos a sangue frio. Tem havido manifestações em várias regiões da Síria e o Exército só foi colocado onde grupos armados estão activos e assumiram o controlo local.

Nenhum Estado pode permitir o precedente de um punhado de pessoas controlar partes do seu território, seja qual for a razão! Todos os sírios que ficaram sob o domínio de grupos armados têm o direito a ser “libertados” pelo Estado.”

Haitham al-Maleh reagiu deste modo: “Esta não é uma guerra confessional, mas pelos direitos dos cidadãos. Desde que o Baas se impôs que várias revoltas foram tentadas mas fracassaram porque não eram populares nem tinham dimensão nacional. Há mais de quatro anos que eu esperava por esta revolução.”

“Eu próprio, na época, disse ao chefe dos serviços de segurança, Hisham Ekhtiar, durante um interrogatório: “Vejo o sangue derramado nas ruas.” Deixei um aviso mas ninguém me ouviu, Estamos a assistir ao que eu previa.”

© New Statesman

Maleh não culpa os alauitas, “muitos dos quais não apoiam Assad, mas sim o regime, que usa as diversas comunidades para não morrer. Hafez e Bashar transformaram um exército do povo num exército ideológico que pertence ao Baas”.

Sobre o vaticínio de Landis de que embora o regime “esteja condenado no longo prazo ainda vai durar por mais tempo do que alguns antecipam”, o antigo juiz lembra: “Quem previa o colapso da URSS? Era uma das superpotências mas a sua derrocada foi fácil porque estava corrompida no interior. O regime sírio é muito parecido.”

Uma prova? “O Exército demorou um mês a entrar em Baba Amro, bairro da cidade de Homs, ainda que tenha usado armas pesadas: carros de combate, rockets e bombardeamentos aéreos”, indicou.

“Como é que pode controlar uma nação se teve dificuldade em subjugar Baba Amro? O chefe da Força Aérea reconheceu que precisou de ajuda externa e que não autorizou os soldados a terem férias. Isto mostra fraqueza e medo. A queda deste regime é previsível. Vai desabar como um castelo de cartas.”

“Não consigo prever uma saída para isto”, lamenta o consultor Waqqaf, num e-mail enviado de Londres. “A única solução sensível seria um novo cenário político que abrisse espaço a movimentos e figuras da oposição, de modo a que pudessem formar-se, crescer e ganhar maturidade e influência.”

“Essa esperança é ténue porque há mais figuras da oposição do que oposição. E estão demasiado influenciadas por jogadores regionais e internacionais para terem qualquer poder de decidir e sentarem-se à mesa com o actual Governo. Este, por seu lado, tem de chegar a um acordo com a oposição “disponível”, mas continuar a ser implacável com a insurreição armada até que ela seja totalmente derrotada.”

Haitham Maleh conclui: “A degradada situação económica, as crescentes deserções no Exército e a desobediência civil que se avizinha, em conjunto com a pressão externa, vão acabar com este regime.”

  • Em 2019, depois de muitos massacres e ataques com armas químicas, Bashar al-Assad continua no poder, graças ao apoio da Rússia e do Irão. As estimativas da ONU apontam para mais de 400 mil sírios mortos em oito anos de guerra. Até Março, cerca de 5,7 milhões tinham fugido do país, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Mais de 6,1 milhões são deslocados internos.

Haitham al-Maleh
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Nadim Shehadi
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Ammar Abdulhamid
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Eyal Zisser
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Ammar Waqqaf
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Joshua Landis
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Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 13 de Maio de 2012 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 13, 2012

O Mama Hope é uma história de amor

Inspirada pela mãe que “adoptou” um menino no Quénia e pelo avô que salvou 81 vidas na Segunda Guerra Mundial, a americana Nyla Rodgers criou uma organização não-governamental (ONG), para fomentar o potencial “contra a piedade em África”. (Ler mais | Read more…)

Nyla Rodgers e Bernard Olando, o irmão adoptivo, no Quénia, 2006
© Mama Hope

Em Setembro de 2002, Nyla Rodgers estava na Áustria, a completar um mestrado em Paz e Transformação de Conflitos, quando recebeu um telefonema da mãe, residente em Santa Barbara, na Califórnia, a contar-lhe como decidira “adoptar” — o termo correcto é sponsor (patrocinar) — uma criança órfã em África.

A decisão foi tomada numa noite em que Stephanie, antiga professora de dança e escrita criativa, viu um anúncio na televisão a pedir contributos individuais de 1000 dólares cada, para ajudar meninos e meninas cujos pais haviam morrido de sida.

“Outra pessoa teria mudado de canal, estava no intervalo de um programa, mas ela ficou entusiasmada; ligou imediatamente para a Associação Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, falou com a responsável pelo apelo, Anastasia Juma, e inscreveu-se”, contou-me Nyla, por telefone, a partir de São Francisco (EUA). É aqui que funciona a sede da organização não-governamental Mama Hope (Esperança de Mãe), que ela fundou.

O seu objectivo, através de projectos de sustentabilidade económica que apelam ao empreendedorismo e não à caridade, é “quebrar os estereótipos que vêem os africanos ora como vítimas ou agressores, ignorando o seu potencial de liderança”.

Para angariar o montante necessário para o sponsorhip, Stephanie organizou uma festa em sua casa com amigos, adiantou Nyla, uma loura jovial de 32 anos. Pouco tempo depois, recebia uma carta com a fotografia de Bernard Olando, 12 anos, natural de Kakemega, no Quénia.

Colocou o retrato do rapaz, de uniforme azul e sorriso tímido, numa moldura de prata, ao lado de outra com o rosto da “irmã” americana. As cartas trocadas entre dois continentes terminavam sempre da mesma forma: Love, your son Bernard/Love, your mother Stephanie.

Em 2005, quando planeava ir ao Quénia visitar Bernard, diagnosticaram a Stephanie um cancro nos ovários. Foi uma doença fulminante. A 2 de Janeiro de 2006, ela morreu, com 54 anos, e Nyla, que tinha 27, ficou devastada.

“Eu era única filha de uma mãe solteira; ela era tudo para mim. Quando desapareceu, foi como ter perdido toda a minha família”, recordou a fundadora do Mama Hope, um projecto que já “mudou a vida de 100 mil pessoas”, no Quénia, na Tanzânia, no Gana e no Uganda.

Semanas depois da perda daquela que considerava a sua “melhor amiga”, incapaz de superar o sofrimento, Nyla decidiu ir cumprir o sonho da mãe. Apanhou um avião e foi ver o “irmão” para lhe dizer o quanto era amado. “Quando lá cheguei fiquei estupefacta”, acrescentou.

“Esperavam-me, ao som de Amazing Grace, a canção tocada no funeral da minha mãe, não apenas Bernard, na altura com 16 anos, mas centenas de mulheres cujas vidas se tinham transformado com os mil dólares que ela enviara.”

Bernard segurava nas mãos uma foto de Stephanie que era também a favorita de Nyla — a última que tiraram juntas. O menino também já tinha perdido os seus pais biológicos, e ambos se sentiram muito próximos. “Tínhamo-nos um ao outro para partilhar a nossa tristeza.”

O sonho de Bernard, que concluiu entretanto o liceu com notas brilhantes, é ser médico num hospital do Mama Hope, e é para isso que está a estudar.

Nyla Rogers: “Não podemos chegar, como fazem algumas ONG, e impor o nosso modelo. Não podemos aparecer como peritos e ignorar os líderes comunitários. Nós temos de ser parceiros, não chefes”
© Mama Hope

Anastasia Juma, da associação que colocara o anúncio na televisão, informou todos os envolvidos no seu projecto de que Nyla iria suceder a Stephanie, porque esta, quando lhe comunicou que o cancro era incurável e não iria sobreviver, lhe dissera para não se preocupar.

Não tinha dúvidas de que a filha seguiria os seus passos. E Nyla, entendendo que “a dor pode ser transformada em amor”, não desapontou quem nela depositava esperanças.

“A primeira coisa a fazer é ouvir as comunidades”, explicou na entrevista. “Não podemos chegar, como fazem algumas ONG, e impor o nosso modelo. Não podemos aparecer como peritos e ignorar os líderes comunitários. Nós temos de ser parceiros, não chefes.”

“É claro que é mais fácil obter fundos se os dadores virem imagens de crianças subnutridas, mas não é isso que pretendemos: nós queremos dar a conhecer o potencial dos africanos para serem bem-sucedidos!”

Até agora, adianta Nyla, “garantimos o êxito de quase 100% dos nossos projectos, porque nunca avançamos sem antes assegurar a sua sustentabilidade.

“Por exemplo, quando se planeia a construção de uma escola, é preciso garantir que dois terços dos alunos podem pagar as aulas, porque isso permite que pelo menos 100 crianças beneficiem de ensino gratuito. A escola torna-se, assim, auto-suficiente.”

“Somos contra a caridade das celebridades porque cada vez que enviam materiais, como T-shirts ou calçado, que as pessoas nem sequer precisam, estão a prejudicar os artesãos e os comerciantes locais – estão a dificultar o desenvolvimento regional”, diz Nyla Rogers
© Mama Hope

A relação com os governos dos países onde o Mama Hope opera não é conflituosa, afirmou Nyla. “Não assumimos protagonismos, somos uma espécie de voluntários fora do radar que apenas dão apoio às comunidades — elas é que são soberanas. E são elas as estrelas. Não precisamos de George Clooney para promover o nosso trabalho.”

“Somos contra a caridade das celebridades porque cada vez que enviam materiais, como T-shirts ou calçado, que as pessoas nem sequer precisam, estão a prejudicar os artesãos e os comerciantes locais; estão a dificultar o desenvolvimento regional.”

Com ambições para se expandir por mais países africanos, o Mama Hope funciona apenas com três pessoas nos EUA — duas a tempo inteiro e uma a tempo parcial —, “propositadamente para que as comunidades locais desenvolvam as suas estruturas” esclareceu Nyla Rodgers.

Em Kisumu, no Quénia, a ONG da filha de Stephanie ajudou a construir um centro de acolhimento para crianças com histórias familiares de sida, negligência abusos e/ou pobreza.

Rapazes e raparigas são integrados num programa de reabilitação durante um ano até serem acolhidos em residências permanentes.

Em Budondo, no Uganda, arranjou financiadores para um centro de saúde que serve 18 mil pessoas, a maioria mulheres vulneráveis. Em Bawjiase, no Gana, está a ser erigido um orfanato que vai servir mais de 60 crianças. 

Para que os americanos e outros ocidentais”deixem de olhar para os africanos como coitadinhos”, Nyla Rogers e a sua equipa lançaram três vídeos que designaram por Stop the pityUnlock the potencial (o slogan na sua T-shirt)
© Mama Hope

Há outros projectos (de irrigação ou de florestação, por exemplo) já consolidados ou ainda no papel, à espera de fundos, que deixam Nyla “muito orgulhosa”.

Para que os americanos e outros ocidentais deixem de olhar para os africanos como coitadinhos, ela e a sua equipa lançaram recentemente três vídeos que designaram por Stop the pity — Unlock the potencial.

No primeiro a ser divulgado, vemos Alex, um miúdo da Escola St. Timothy, em Moshi, na Tanzânia a descrever o filme Commando, de Arnold Schwarzenegger. No final, surge a frase: “Acabe com o estereótipo: Alex não é uma criança soldado, uma vítima da sida, um órfão.

Alex é inteligente, curioso, feliz, esperançoso, atlético, criativo, bilingue, imaginativo, pleno de recursos, hilariante, honesto, ambicioso, sarcástico, afectuoso… Alex tem nove anos.”

Se Stephanie foi a fonte de inspiração para o Mama Hope, a figura que influenciou a escolha do mestrado de Nyla Rodgers foi o avô materno. “Ele combateu na Segunda Guerra Mundial e, no Dia D, desembarcou na Normandia como paramédico”, revelou nesta entrevista.

“Ele e outro colega, sozinhos, resgataram 81 prisioneiros e refugiaram-nos numa igreja. Quando chegaram para os matar, os nazis repararam que entre eles estavam não apenas soldados americanos mas também alemães. Pouparam-lhes a vida, talvez impressionados com aquele gesto de altruísmo.”

“O meu avô foi homenageado como um herói porque, aos 19 anos, ajudou a salvar 81 vidas; e eu aprendi, ao ouvir a história dele, tantas vezes contada pela minha mãe, que todas as vidas podem ser salvas”.

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 13 de Maio de 2012 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 13, 2012

Com Bouteflika não há “primavera argelina”

A UE legitimou os resultados das legislativas [de 2012], mas o académico Larbi Sadiki, especialista no Magrebe, desconfia que a vitória do antigo partido único sobre os islamistas “foi um golpe de um presidente civil”. (Ler mais| Read more…)

© Jean Gouders

Contra as expectativas de um triunfo islamista, a Frente de Libertação Nacional FLN), partido que deteve o monopólio do poder na Argélia desde a independência em 1962 até às primeiras eleições multipartidárias em 1990, venceu as legislativas do dia 10 [de Maio de 2012], mas não convenceu Larbi Sadiki.

“A democracia do pão ganhou o dia”, comentou o académico tunisino, especialista em questões do Magreb. “Este não foi, de modo algum, um teste democrático. Podemos dizer que a votação foi manipulada – tendo sido usados os mesmos métodos de suborno do Estado.”

Resultados anunciados pelo Ministério do Interior deram à FLN 220 dos 462 lugares do Parlamento, seguida da União Democrática Nacional (RCD), do primeiro-ministro Ahmed Ouyahia, relegando para terceira posição a aliança Argélia Verde, composta por partidos islamistas que já detinham quatro pastas ministeriais no Governo cessante.

A Frente das Forças Socialistas (FFS, com reduto na Cabília berbere) terá 22 deputados; o Partido dos Trabalhadores 20; os candidatos independentes 19; a Frente Nacional Argelina nove; e o Partido da Justiça e Desenvolvimento (pós-islâmico) sete.

Jose Ignacio Salafranca, o chefe da delegação de observadores da União Europeia (foram autorizados, pela primeira vez, 500 supervisores de vários organismos internacionais), reconheceu “algumas falhas” mas também “muitos pontos positivos”.

Estas eleições “constituíram o primeiro passo no caminho para as reformas que irão conduzir, por seu turno, a um maior aprofundamento da democracia e dos direitos humanos”, salientou.

Antes do escrutínio, descrito como “o mais livre e transparente”, o Presidente, Abdelaziz Bouteflika, dirigente da FLN, levou a cabo várias medidas, como o aumento dos subsídios dos bens básicos e dos salários, de modo a travar uma potencial revolta popular.

Era natural que o antigo partido único esperasse recompensa nas urnas. “Sim, houve uma mobilização para que a clientela do regime votasse”, diz-me Sadiki, em declarações por e-mail.

Abdelaziz Bouteflika e o seu irmão, Saïd (dir.), descrito como “ o principal actor do clã presidencial” na Argérlia
© lemag.ma

Quanto à denúncia da coligação islamista Argélia Verde de que houve “uma fraude generalizada” e não se responsabilizaria “pelo que vier a acontecer”, Sadiki, professor de História do Médio Oriente na Universidade de Exeter (Reino Unido) e antigo investigador do Carnegie Middle East Center (EUA), desvalorizou a “ameaça velada”.

Descreveu-a como “alusão ao passado recente quando a ‘democracia’ foi abortada pelo Estado. A leitura que eles [islamistas] fazem dos resultados é a de que a história se está a repetir: só que, desta vez, o golpe foi desferido por um esbanjador presidente civil e não pelos generais.”

A revista britânica The Economist notou que o poderoso establishment político-militar que domina a Argélia desde o fim do período colonial francês há 50 anos tomou todas as precauções para assegurar que o Parlamento será apenas “um mosaico de partidos sem uma voz dominante”.

Sadiki comentou: “Tudo foi conduzido para impedir uma vitória islamista. Não era plausível que a FLN ganhasse agora 200 lugares, depois de um recorde de fracassos e de um profundo descontentamento popular. [A vitória] deve-se à oculta e misteriosa manipulação por parte do [que os argelinos designam por Le] Pouvoir!

Por que motivo escapou a Argélia às revoluções da Primavera Árabe? Sadiki, autor de Arab Democratization: Elections without Democracy e The Search for Arab Democracy: Discourses and Counter-Discourses, corrobora as explicações de outros analistas regionais:

-“A espiral de violência e contra-violência, que [depois de o Exército ter anulado os resultados das eleições de 1991 e ilegalizado a vitoriosa Frente Islâmica de Salvação] causou 200 mil mortos, dezenas de milhares de feridos e milhares de desaparecidos, mitigou os protestos. O trauma da guerra civil prejudicou a capacidade de mudança através de uma sublevação.”

“Na Argélia, há uma espécie de aversão à mudança pela violência: a longa guerra contra a França pela independência causou 1,5 milhões de mortos; a guerra civil não foi menos sangrenta”, adiantou Sadiki. “A sociedade evita, deliberadamente, mergulhar noutra fase de violência.”

Bouteflika e o poderoso Exército: para muitos argelinos, uma parte e outra ambicionam o poder apenas para fins pessoais, não para servir o país
© alaraby.co.uk

“O Estado na Argélia”, adiantou Sadiki, “tem mostrado a sua resiliência e capacidade de se defender a si próprio por meios violentos durante um longo período de tempo. O Estado retém e defende prontamente o seu ‘monopólio sobre o uso legítimo da força’. Estes factores, referiu o colunista da Al Jazeera, são muito importantes para compreender por que a ‘Primavera Árabe’ não infectou a Argélia”.

Os resultados [eleitorais] não surpreenderam apenas por os islamistas terem sido relegados para a terceira posição, dado que eram os favoritos, mas também porque a afluência às urnas foi maior do que se esperava. As previsões eram as de que não ultrapassariam os 37% registados em 2007.

“Não há meios independentes para confirmar a veracidade desta participação anunciada pelo Governo”, observou Sadiki. “E mesmo que tenha sido de 42% não há razão para celebrar num Estado com 37 milhões de habitantes onde o número de eleitores é elevado [21,2 milhões] e menos de 50% votaram.”

“O grosso dos que afluíram às secções de voto terá sido composto por funcionários públicos e clientes do regime que tinham muito em jogo”, prosseguiu o académico.

“Os que votaram apoiaram a ‘legitimidade da provisão alimentar’ por parte do Estado. Números e estatísticas, em particular nestas eleições, não são barómetros precisos para avaliar as acções políticas do Estado argelino.”

“Não há dúvida”, realça Sadiki, na entrevista que nos deu, que “o deep state tem um braço longo na Argélia, e as suas mãos estão enfiadas nos cofres do Tesouro. Isto explica a coesão do regime e a sua aliança estreita com Le Pouvoir – sobretudo, com o aparelho militar e policial.”

“Os islamistas [tolerados e ‘moderados’, que Bouteflika levou para o Governo] vão continuar a servir um propósito: excluir os ilegalizados que ganharam as municipais em 1990 e as legislativas de 1991. Duvido que os islamistas – fazendo parte do sistema – sejam autorizados a ter um papel de liderança. Eles estão nos ‘bolsos’ do regime, e assim permanecerão.”

A reeleição de Bouteflika nas presidenciais de 2014 foi por muitos considerada uma fraude
© Louafi Larbi | Reuters

As vitórias de grupos islamistas após a queda dos ditadores são explicadas por Sadiki como o resultado de “uma espécie de ‘fadiga’ com as políticas secular-nacionalistas: as acções desses regimes desde a independência têm sido degradantes: conseguiram elevar as expectativas mas foram incapazes de cumprir as promessas que fizeram.”

“Falharam em todas as frentes de desenvolvimento humano e boa governação: elevado desemprego juvenil; brutalidade policial, inúmeros monopólios; políticos e económicos; o’ grande roubo’ do Estado por parte de famílias.”

“O que acontecia na Tunísia, no Egipto e na Líbia repete-se na Argélia, onde o irmão do Presidente, Saïd Bouteflika, tem estado envolvido na gestão dos assuntos do Estado”, prossegue o analista.

“É este fracasso que deixa as pessoas desiludidas”, notou Sadiki. “Até certo modo, podemos declarar que não se trata de os islamistas serem ‘populares’ mas sim de os actuais regimes, entre eles as monarquias árabes ricas em petróleo, serem ‘impopulares’. Não inspiram confiança.”

Quanto ao exemplo da Turquia, governada por um partido do “Islão político pragmático”, o AKP, de Recep Tayyip Erdoğan, e que muitos consideram estar a ser seguido pelas forças islamistas recém-chegadas ao poder, Sadiki é céptico.

“O modelo turco é uma mistura de islamistas e exército. Este modelo pode ser replicado no Egipto, mas duvido que pode ser aplicado na Tunísia, onde o exército é fraco.”

No poder desde 1999, Bouteflika (à esq.) ultrapassou a longevidade política do segundo presidente, Houari Boumédiène (à dir.), que governou de 1965 a 1976
© Saber68

Especulou-se que ass eleições [de Maio de 2012] terão sido as últimas sob a liderança de Bouteflika, 75 anos e a sofrer de um cancro que o poderá impedir de procurar novo mandato em 2014. Sadiki está convencido de que quando o Presidente sair de cena haverá “uma extraordinária mudança” na Argélia.

“Duvido que personalidades como [Abdelaziz] Belkhadem [líder da FLN] e Ouyahya [o primeiro-ministro cessante] possam sobreviver quando Bouteflika partir. Vão emergir novos rostos e uma nova política – e talvez seja, então, o momento de fazer reviver a ‘Primavera Árabe’ argelina. Vamos ouvir falar mais da Argélia nos próximos anos.”

“O país [o maior de África] depende das receitas do petróleo e do gás [é o quinto maior fornecedor deste recurso à Europa] e não estou a ver o Estado a adoptar uma posição hostil em relação à União Europeia: cada vez mais, tudo irá depender dos laços económicos com a UE.”

[2013: em Outubro, três meses depois de um problema cardiovascular o ter afastado de cena, Bouteflika reapareceu com a inabalável determinação de se manter no cargo.

2014: a 12 de Janeiro, voltou a ser hospitalizado em França; em Abril, foi reeleito para um quarto mandato com 83% dos votos – um analista comparou o regime a um “cartel económico; em Dezembro, foi internado novamente num hospital francês. 

2016: em Abril, foi admitido numa clínica em Genebra; em Novembro, o homem a quem alguns chamam “morto-vivo“, foi internado numa clínica em Grenoble, para novos “exames médicos”.

2019: em Abril, depois de gigantescos protestos populares iniciados em Fevereiro, os argelinos (e o exército – para preservar o seu poder – obrigaram Bouteflika a demitir-se, quando ele tentou candidatar-se a um quinto mandato.]

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Este artigo, com novo título, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 12 de Maio de 2012 | This article, under a new headline, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 12, 2012

Síria: Eles matam tudo e não deixam nada

Donatella Rovera, uma das principais responsáveis da Amnistia Internacional esteve, clandestinamente, durante dez dias na Síria. Viu sinais e ouviu testemunhos de crimes de guerra. (Ler mais | Read more…)

Borchin Refugee Camp, Hatay, Turkey. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Campo de refugiados sírios de Borchin, em Hatay, na Turquia
© The New Yorker

Na cidade de Idlib, a 16 de Abril, uma mulher espreitou pela janela e reparou como militares alinhavam oito jovens contra uma parede, alvejando-os nas costas.

“Naquele momento, eu não sabia que entre eles estava o meu filho”, que soldados tinham ido buscar a casa, revelou esta mãe a Donatella Rovera, Senior Crisis Response Adviser da Amnistia Internacional que esteve na Síria, no mês passado, durante dez dias, a preparar um relatório.

“O seu corpo foi encontrado numa escola não muito longe da nossa morada.”

Um outro homem foi também levado da residência de familiares, nas redondezas de Idlib, abatido a tiro e deixado a agonizar, mas sobreviveu, adiantou Rovera, numa entrevista por e-mail, na qual, “por motivos de segurança”, não explicou como entrou e saiu de um país que o regime de Bashar al-Assad fechou ao mundo.

“Quando três vizinhos o transportavam para um hospital de campanha [os estabelecimentos públicos não recebem os feridos vítimas das forças de segurança], o Exército ordenou-lhes que parassem; os quatro foram assassinados.

“

Em Sermin, a 23 de Março, “na presença da mãe e irmãs, três irmãos rondando os 20 anos de idade – Bilal, Yusef e Talal – foram retirados das camas onde dormiam por agentes de segurança que os mataram a tiro, na rua.”

“Depois, lançaram fogo aos cadáveres”, referiu a activista da organização de direitos humanos com sede em Londres. “A mãe disse-me: “Quando eu e a minha filha conseguimos sair, os corpos dos meus filhos ainda estavam a arder, a 20 metros da nossa casa, mas só os pudemos recolher à noite porque o Exército continuava a disparar.”

Civilians flee from fighting after Syrian army tanks enter the northwestern city of Idlib, Syria, Wednesday. Syrian President Bashar Assad ordered a referendum for later this month on a new constitution that would allow political parties other than his ruling Baath Party, the centerpiece of reforms he has promised to ease the crisis, even as the Syrian military on Wednesday besieged rebellious areas. @Associetd Press (AP)

Civis fogem de Idlib, depois de carros de combate do exército de Bashar al-Assad terem entrado nesta cidade do noroeste da Síria, em 2013
© Associated Press

Em Taftanaz, a 4 de Abril, um homem de 81 anos foi queimado vivo dentro de casa. A sua mulher, que estava com familiares do outro lado da rua quando soldados deitaram fogo à sua residência, narrou assim a perda sofrida, num encontro com Rovera:

“Quando regressei ao edifício carbonizado, não encontrei o meu marido. Fui ao encontro de soldados para lhes perguntar onde o tinham deixado. Pensava que o haviam detido. Um soldado respondeu-me: “Vai para dentro e procura por ele.” Voltei a entrar e encontrei o que restava dele num monte de cinzas””.

Na mesma povoação, dezenas de homens foram executados sem julgamento. Um deles tinha 75 anos. Foi alvejado na cabeça, dentro da própria casa, acrescentou a activista que há duas décadas reporta o que vê e ouve em zonas de conflito, como a Costa do Marfim, a Faixa de Gaza, a Líbia e o Sudão do Sul.

Na Síria, Donatella Rovera visitou várias povoações (Idlib, Saraqeb, Sermin, Taftanaz, Hazzano, Killi e outras) na província de Idlib no Noroeste.

“Apercebi-me de actos deliberados de vandalismo em larga escala, sobretudo centenas e centenas de habitações, lojas, centros de saúde e outras propriedades incendiadas pelo Exército sírio durante ataques recentes em todas estas (e muitas outras) localidades.Dezenas de homens – jovens e idosos, mas também algumas crianças – foram retirados das suas casas e executados extrajudicialmente, abatidos a tiro na cabeça e, em alguns casos, os seus corpos foram queimados.”

“Estes crimes injustificados foram cometidos em todas as localidades e não podem, por isso, ser classificados como acções isoladas de “elementos párias”. Pelo contrário, tudo aponta para uma política de represálias e castigo colectivo para intimidar e aterrorizar as populações nas áreas que apoiam a oposição.”

Segundo a Amnistia, Idlib está a sofrer o mesmo destino de Homs, cidade arrasada pelas tropas do Presidente Bashar al-Assad depois de vários quadros do Exército terem desertado. Uma mulher cuja habitação foi também incendiada, a 11 de Março, lamentou não poder queixar-se às autoridades, excepto se responsabilizar “terroristas”.

Os vizinhos testemunharam que foram soldados quem ateou o fogo. “Era pleno dia e havia carros de combate, militares e polícia secreta por toda a área – como é que aquilo pode ter sido feito por grupos armados? Não apresentei queixa.”

Zeino, uma criança que sobreviveu graças a água e açúcar depois de a sua mãe ter perdido a capacidade de amamentar, quarto dias após a fuga da família de Aleppo. © UNHCR | Ivor Prickett

Zeino, uma criança que sobreviveu graças a água e açúcar depois de a sua mãe ter perdido a capacidade de amamentar, quatro dias após a fuga da família de Aleppo
© ACNUR | Ivor Prickett

“Na cidade de Idlib”, salientou Donatella Rovera, nesta entrevista, “notei uma significativa presença do Exército, de forças de segurança e dos infames milicianos à paisana, os shabiha (que operam em conjunto com a polícia secreta).

Noutras localidades, o Exército estava sobretudo nos arredores, mas formando um cerco, com postos de controlo em todas as estradas principais e disparando frequentemente em direcção às povoações, causando vítimas civis”.

“As pessoas têm muito, muito medo, mas a maioria quer também que o mundo saiba o que se está a passar com elas e suas famílias”, sublinha Rovera. “A vida de toda a gente está em risco em situações como esta, e as forças sírias estão a visar abertamente os activistas que documentam as violações de direitos humanos e aqueles que estão a dar assistência médica aos feridos. Fui extremamente cuidadosa para não fazer nada que deixasse as pessoas em perigo.”

“O regime usa todo o tipo de argumentos para justificar a terrível repressão em curso contra manifestantes pacíficos desde os primeiros dias da sublevação [em Janeiro de 2011] – a  mais até do que há um ano – e os crimes contra a humanidade que as suas forças estão a cometer.

Ao mesmo tempo, quanto mais tempo for permitido que esta repressão brutal se mantenha, maior é o risco de divisões sectárias virem a ser mais e mais exacerbadas.”

Donatella Rovera não poupa críticas à comunidade internacional: “Falhou estrondosamente no seu dever de agir, para pôr fim a estas violações flagrantes dos direitos humanos, cometidas pelas forças sírias, as quais disparam, matam, prendem, torturam e fazem desaparecer manifestantes desarmados.”

A responsabilidade do resto do mundo face a estes abusos terríveis não depende da unidade ou não da oposição – essas são considerações meramente políticas”, conclui.

“O que pode ser feito agora? Para já, a nova missão da ONU na Síria deveria ter uma componente de direitos humanos e um número adequado de supervisores com as qualidades necessárias para investigar adequadamente os abusos que continuam a ser perpetrados.”

“É imperativo que os que são responsáveis por cometerem ou darem essas ordens tenham de responder pelas suas acções. É importante, para que seja feita justiça e para desencorajar abusos futuros.”

Há duas décadas que Donattela Rovera, da Amnistia Internacional, reporta o que vê e ouve em zonas de conflito, como a Costa do Marfim, Gaza, a Líbia e o Sudão. Na Síria, esteve clandestinamente em várias povoações (Idlib, Saraqeb, Sermin, Taftanaz, Hazzano, Killi e outras) na província de Idlib no Noroeste
© primanews.org

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmenteno jornal PÚBLICO, em 7 de Maio de 2012 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 7, 2012

Se Portugal vender ilhas, Vladi quer comprá-las

Johnny Depp, Tony Curtis, Nicolas Cage, Paul McCartney, Richard Branson e o príncipe William são alguns dos clientes de Farhad Vladi. Este alemão já vendeu e alugou mais de 2000 ilhas, das Bahamas à Nova Zelândia. Repetir a aventura de Robinson Crusoé não é um pesadelo. É um sonho que pode custar menos do que um apartamento em Nova Iorque. (Ler mais | Read more…)

A Ilha do Coco é uma ilha costa-riquenha situada no Oceano Pacífico, a 532 km a sudoeste do litoral sul da Costa Rica. A sua área é de 23,85 km², medindo 7,6 km de comprimento por 4,4 km de largura. A ilha tem uma grande biodiversidade. É a única ilha no Pacífico este com uma floresta tropical. O "mundo subaquático" do Parque Nacional da Ilha do Coco tornou-o famoso e é um dos melhores locais do mundo para ver espécies da zona pelágica como tubarões, raias, atuns e golfinhos. © Vladi Private Islands

Ilha do Coco, 532 km a sudoeste do litoral sul da Costa Rica é a única ilha no Oceano Pacífico Leste com uma floresta tropical
© Vladi Private Islands

Há 25 anos que Farhad Vladi tenta encontrar, sem êxito, “pedaços do paraíso” em Portugal, um país “bonito, com um clima ameno e uma situação política estável”. Por isso, o homem que inventou a profissão de “vendedor de ilhas” ficou intrigado quando leu que o cineasta Steven Spielberg tinha adquirido uma parte do arquipélago da Madeira.

“Como eu suspeitava, a informação era falsa”, exulta o dono da Vladi Private Islands, numa entrevista, por telefone.

“Como é que isso podia acontecer se eu e um dos meus mais fiéis colaboradores, meio alemão e meio português, tínhamos a certeza de que não há ilhas privadas à venda em Portugal?

Não é a primeira vez que isto acontece: quando eu estava a avaliar Scorpio, na Grécia, a pedido de da herdeira, Athina, apenas porque ela queria saber o custo real da propriedade, também se especulava que Madonna tinha comprado a ilha do magnata Onassis por 300 milhões de dólares.

O que aconteceu na realidade foi que, um dia, ao passar por… a cantora comentou, a propósito de um… que Scorpio deveria valer aquela quantia.”

Curiosamente, a carreira e reputação de Vladi como “o mais importante” empresário neste negócio foram lançadas também com uma notícia incorrecta que, em 1971, o levou até à Embaixada das Seychelles em Londres.

Em Munique, onde estudava macroeconomia, estava um dia a folhear o jornal Süddeutsche Zeitung quando deparou com a história de um inglês que comprara uma ilha por 500 marcos.

“Quando lá cheguei, só havia um funcionário que, julgando que eu era louco ou estava embriagado, me ordenou que abandonasse o local”, recorda o filho de uma alemã e de um iraniano.

A atitude do funcionário não o desencorajou. “Peguei em 100 marcos e enviei para um diário das Seychelles, não imaginando que daria para pagar um anúncio de página inteira, ‘Procura-se ilha para comprar’.”

“Recebi dezenas de ofertas mas quando cheguei à maravilhosa Cousine Island pediram-me 110.000 dólares, e eu não tinha esse dinheiro.

De regresso à Alemanha, contactei potenciais compradores e um deles ficou com a ilha que eu queria para mim. Foi também a minha primeira comissão, obtida graças à ajuda de um advogado que vivia do outro lado da ilha…, e que mais tarde seria eleito Presidente.”

Farhad Vladi, o inventor da profissão “Vendedor de ilhas”
© augsburger-allgemeine.de

Cousine Island pertence agora a uma companhia de helicópteros que a rentabiliza alugando-a a quem tenha interesse e dinheiro. Paul McCartney por exemplo, o cantor dos Beatles a quem a rainha de Inglaterra deu o título de Sir, festejou ali a sua lua-de-mel com Heather Mills. O casamento falhou, mas Vladi brinca que “a culpa não foi da ilha.”

Uma outra lua-de-mel, mais recentemente transaccionada, a “um preço mais baixo, que não pode ser revelado, foi a do príncipe William, segundo na linha de sucessão ao trono britânico, e Kate Middleton. A imprensa londrina especulou que a estadia do casal real em North Island, nas Seychelles, custou 45 mil libras por noite.

Outro cliente ansioso por fugir dos paparazzi, foi Johnny Depp, que chama à sua ilha nas Bahamas “Fuck Off island”.

Hoje em dia, refere Vladi, “ele nem sequer vive ali mas num barco de recreio que colocou à entrada”, sem perder o encanto de dormir e acordar rodeado de palmeiras suficientemente altas contra intrusos, águas cálidas e areia fina.

A ilha privada de Böedic, na França, que está à venda por € 9; Böedic fica situada no golfo de Morbihan, na região da Bretanha (França) @ Vladi Private Islands

A ilha privada de Böedic, em França, situa-se no golfo de Morbihan, na região da Bretanha
@ Vladi Private Islands

Vladi ficou contente por não ter sido a ele a vender a Mel Gibson a uma ilha nas Fiji, 22 quilómetros quadrados por 15 milhões de dólares, porque ele nunca conseguiu o sossego que pretendia, devido às pretensões da população local a partilhar o espaço.

“Nunca se deve comprar uma ilha habitada porque haverá sempre disputas – cometi esse erro uma vez e jurei que não o repetiria”, explicou.

Onassis e também Marlon Brando, depois de ter protagonizado Revolta na Bounty, despertaram em muitos milionários e celebridades o desejo de ter a sua ilha privada, para garantir privacidade ou como sinal de riqueza.

Vlad, agora com 66 anos, foi influenciado pela leitura de Robinson Crusoé, quando era criança. O romance de Daniel Defoe baseado na história verídica do náufrago Alexander Selkirk que sobreviveu cinco anos na ilha de South Sea, teve um grande impacto na vida do rapaz filho de uma alemã e de um iraniano.

Em 1970, sentado num restaurante de Munique a folhear o jornal Süddeutsche Zeitung, leu a notícia de que um inglês comprara uma ilha por 500 marcos. “Fiquei fascinado e viajei até Londres para contactar a Embaixada das Seychelles”, recorda. “Quando lhe disse que também queria comprar uma ilha.

“O milionário Onassis não foi o primeiro a ter uma ilha privada, mas foi o primeiro a demonstrar que não há melhor refúgio”, diz Farhad Vlad (na foto, em Halifax, Canadá)
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Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 3 de Maio de 2012 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 3, 2012