Iémen: O princípio do fim da guerra?

Durante cinco meses, de 2017 a 2018, Hisham al-Omeisy foi prisioneiro do movimento Houthi. Forçado ao exílio depois de libertado, nunca perdeu a esperança de que ele e a paz voltarão à região outrora conhecida como “Arábia Feliz”. Numa entrevista que me deu, este activista e analista político explica por que o reatamento dos laços entre sauditas e iranianos talvez ajude a minorar o que a ONU classificou de “a pior crise humana do mundo”. (Ler mais | Read more…)

Combatentes houthis são recebidos em apoteose ao chegar ao aeroporto de Sanaa, a capital iemenita, em 14 de Abril de 2023, depois uma troca de mais de 900 prisioneiros com a Arábia Saudita, sob mediação do Comité Internacional da Cruz Vermelha.
© Hani Mohammed | Associated Press | Arkansas Democrat Gazette

Em Abril, quando centenas de prisioneiros de guerra foram libertados, a tempo de celebrarem com as famílias a festa muçulmana de Eid al-Fitr, que assinala o fim do jejum do Ramadão, o iemenita Hisham al-Omeisy emocionou-se. “Que visão para olhos doridos”, escreveu ele no Twitter, onde tem quase 45 mil seguidores. “Ainda me lembro de que como os meus filhos correram para mim quando saí em liberdade. Não há sentimento no mundo que supere o alívio e a felicidade que então sentimos.”

Um destacado activista e analista político que, hoje no exílio, dirige a iniciativa Pathways for Reconciliation in Yemen, do European Institute of Peace (EIP), Omeisy foi preso em 14 de Agosto de 2017, aos 38 anos. Mais de uma dezena de agentes de segurança do movimento Ansar Allah (Partidários de Deus ou Houthi) foram buscá-lo a casa e isolaram-no em local secreto até o libertarem, em 15 de Janeiro de 2018. Nunca foi formalmente acusado. Nunca compareceu perante um juiz, como exige a Constituição iemenita. Nunca teve acesso a um advogado nem a visitas da família.

Assim que, em 2014, se apoderaram de Sanaa, a capital, e da maior parte do Norte do Iémen, os houthis e seus aliados começaram a silenciar os críticos que documentavam os abusos das várias facções beligerantes. Omeisy era uma figura pacífica, mas também uma influente e incómoda “estrela mediática”. A Amnistia Internacional e outras organizações dos direitos humanos relataram que numerosos activistas, jornalistas, líderes tribais e opositores “foram sequestrados, arbitrariamente detidos e torturados”.

Em oito anos, a guerra no Iémen causou, segundo a agência humanitária britânica Oxfam, 12 mil mortos civis e 4 milhões de deslocados, deixando 7,4 milhões de habitantes (25%) a sofrer de desnutrição, incluindo 2 milhões de crianças.
© Yahya Arhab | European Pressphoto Agency | The New York Times

A guerra – civil e por procuração, “a pior crise humana do mundo”, segundo o Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas – entrou em Março no seu nono ano, mas Omeisy acredita que ela, “inevitavelmente, chegará ao fim” – sem vencedores.

O ponto de viragem parece ter sido a inesperada decisão da Arábia Saudita de restabelecer laços diplomáticos com o rival Irão. A prioridade da Casa de Saud, constatam observadores regionais, “já não é derrotar os houthis e sim proteger as suas fronteiras” dos ataques (quase mil com mísseis e 350 com drones, que atingiram infra-estruturas cruciais como instalações petrolíferas, aeroportos e bases aéreas) dos rebeldes, presumivelmente apoiados por Teerão.

Numa entrevista que me deu, por e-mail, Hisham al-Omeisy analisa os acontecimentos mais recentes que podem (ou não) oferecer um futuro melhor à região em tempos conhecida como “Arábia Feliz”.

Qasim Shuwe, um rapazinho que seguia num autocarro escolar atingido por uma bomba saudita, quando circulava numa aldeia iemenita, em agosto de 2018, posa para a fotografia junto às campas de 44 colegas que não sobreviveram a esse ataque aéreo.
© Lynsey Addario | The New York Times

Espero que se encontre de boa saúde. Em 2017-2018, juntei-me a todos os que, nas redes sociais, apelaram à sua libertação durante os cinco meses em que esteve sob cativeiro do movimento Houthi. Por que era o senhor considerado uma ameaça?

Antes de mais, gostaria de agradecer a si e aos milhares de pessoas de todo o mundo pela solidariedade e apoio que me ofereceram, a mim e à minha família, durante a minha hora mais sombria. Eu tinha decidido ficar em Sanaa [depois que a guerra civil começou] e lutar dentro do meu país contra a injustiça. Fui testemunha de horrores inimagináveis e queria que o mundo soubesse o quanto o povo estava a sofrer.

Recusei-me a tornar a verdade agradável ou a criticar apenas uma parte, deixando outras incólumes. Por exemplo, eu condenava todos os constantes bombardeamentos sauditas, de casas a orfanatos e hospitais. Mas também criticava os houthis pelas atrocidades que cometiam em Áden e em Taiz, pela sua corrupção e pelas tácticas brutais que usavam até em Sanaa. É um facto que todas as partes deste conflito cometeram crimes contra o meu povo, e quem pagou, de longe, o preço mais elevado foram os civis.

Embora me tivessem tolerado durante algum tempo por eu criticar igualmente a coligação liderada pela Arábia Saudita, os houthis perderam a paciência e raptaram-me. Para ser honesto, eu sabia que esse dia iria chegar, porque já tinha visto outros desaparecerem antes de mim. Não conseguia, porém, ficar quieto. Não se tratava de ser corajoso. Simplesmente, não seria capaz de viver em paz comigo mesmo se fechasse os olhos.

Além da guerra, os desastres naturais e a pandemia de Covid-19 também abalaram profundamente o Iémen. O sistema nacional de saúde entrou em quase total colapso. “A cada duas horas, uma mulher iemenita morre durante a gravidez ou no parto de causas que seriam totalmente evitáveis”, se houvesse clínicas e hospitais a funcionar, diz a ONU
© Lorenzo Tugnoli | The Washington Post

Será possível contar-nos um pouco mais sobre esse pesadelo?

Sim, foi um pesadelo, e é difícil encontrar as palavras certas para descrever o que passei. Vou poupá-los aos pormenores, mas estar naquela masmorra, na minha cela solitária e escura, foi pior do que ser enterrado vivo com mil escorpiões vivos. Não entendo por que alguns dizem o que não nos mata torna-nos mais fortes.

O que posso dizer com toda a certeza é que ficamos mais sábios, cientes do nível de crueldade que o ser humano é capaz, e um pouco mais empáticos em relação ao sofrimento dos outros. Não desejo o que passei aos meus piores inimigos e morreria pelo seu direito a não serem sujeitos a este nível ou tipo de violação de direitos humanos.

Ainda recebe ameaças ou já se sente mais seguro?

Embora as ameaças nunca cessem, são agora menos e encontro-me num lugar seguro [no exílio]. No entanto, não fui nem sou caso único. Ainda há milhares de prisioneiros submetidos um tratamento muito pior.

Pelo menos 21,6 milhões de pessoas – uma em cada quatro – ainda precisam de ajuda humanitária no Iémen. Isso representa 80 por cento do país, onde 2/3 da população também sofrem de insegurança alimentar e têm dificuldade em pôr comida na mesa.
© Valerio Muscella | Care International

Em Abril, mais de 900 prisioneiros foram libertados pelos principais campos beligerantes. Como viu este processo?

Fiquei muito feliz. Precisamos de redobrar esforços para que todos sejam libertados e, mais importante, para que outros não venham a ocupar o seu lugar, pois voltaríamos à estaca zero – neste conflito, há milhões que ainda são reféns e vivem com medo de detenções extrajudiciais e desaparecimentos. Isto tem de parar!

A libertação dos prisioneiros foi entendida como uma medida que ajude a restaurar a confiança enquanto prosseguem iniciativas diplomáticas para pôr fim à guerra. É este também o seu entendimento?

Mais do que um sinal de boa vontade, foi, sim, uma medida para restaurar a confiança, o que ajudará a aliviar o sofrimento de milhares de prisioneiros e das suas famílias. Ajudará também nos esforços com vista a um desanuviamento.

A maioria das guerras termina com trocas de prisioneiros e um perdão geral. No Iémen, esperamos que as várias etapas da libertação e da troca de prisioneiros, em paralelo com outros gestos, possam aproximar as pessoas da mesa das negociações e melhorar as perspectivas do processo de paz.

A economia está de rastos e floresce o mercado negro. O investimento desapareceu, com a insegurança e a fuga de capitais. Os governos rivais em Áden e em Sanaa não partilham as receitas do Banco Central, em particular as provenientes da exploração petrolífera. Os salários dos 1,2 milhões de funcionários públicos são uma tábua de salvação, mas são pagos com atraso.
© Nusaibah Almuaalemi | Reuters

A troca de prisioneiros surgiu um mês depois da súbita decisão da Arábia Saudita e do Irão – dois países cuja rivalidade tem alimentado a guerra – de reatarem os laços bilaterais. Os houthis, por seu turno, têm mantido conversações directas com Riade, sobretudo desde que, em Abril de 2022, o presidente Abd-Rabbu Mansour Hadi, apoiado por Riade e Abu Dhabi, foi marginalizado e substituído por um “Conselho da Liderança Presidencial”, encarregado de negociar “um cessar-fogo permanente”. Como é que explica esta reviravolta?

Para ser honesto, não me surpreendeu a decisão saudita. [O reino] tem vindo a envolver-se positivamente com alguns Estados na região para apagar fogos em várias frentes: na Turquia, na Síria [para reabilitar o ditador Bashar al-Assad], no Qatar. Era natural que fizesse o mesmo no que respeita ao Irão. E, embora seja certo que o Irão exerce influência sobre os houthis, não gostaria de exagerar essa preponderância.

Os houthis [zaiditas, do ramo xiita do Islão a que pertence a maioria dos iranianos] têm a sua própria maneira de ser, as suas agendas locais, ambições expansionistas. E porque qualquer conflito tem de acabar de uma maneira ou de outra – nenhuma guerra dura para sempre -, o contencioso entre houthis e sauditas também tem de chegar ao fim.

Um bloqueio naval imposto pela coligação militar liderada pelos sauditas que, desde 2015, tenta derrubar os houthis, contribuiu para que dezenas de milhares de civis morressem de fome – o Iémen importa 90% do que consome e todos os produtos médicos.
© Abduljabbar Zeyad | Reuters | The Wire

Os sauditas já, há algum tempo, que haviam começado a diminuir as suas operações militares, como parte de uma estratégia de retirada deste pântano em que, para eles, se transformou o Iémen. Um passo em direção ao fim [da guerra] foi a visita a Sanaa [em 9 de Abril, de uma delegação de Riade, recebida no palácio presidencial pelo chefe do Conselho Supremo Político Houthi, Mahdi al-Mashat].

O que as pessoas precisam de entender é que o conflito no Iémen é complexo, multifacetado, com diversas acções envolvidas [incluindo a Al-Qaeda].

Um acordo entre sauditas e houthis poderá acabar com o aspecto regional do conflito, mas não significa, necessariamente, que os conflitos internos irão resolver-se como que por magia. O que é necessário é um processo mais abrangente, holístico e inclusivo, se quisermos mesmo obter uma paz real e duradoura no Iémen.

Omeisy diz que o seu país “é uma nação de muitas cores e origens, diversa e unida pela história”. As políticas de geografia e identidade “são estranhas e nocivas”.
© The Wall Street Journal

Muitos analistas referem que “o sectarismo e a geopolítica” são as “raízes históricas” do conflito. Outros, atribuindo as actuais divisões a forças externas, recordam que, no passado, os iemenitas “costumavam rezar nas mesmas mesquitas sem questionar a doutrina religiosa de cada um”. Qual é a sua opinião a este respeito?

Somos uma nação de muitas cores e origens, diversa e unida pela história da nossa terra. A retórica religiosa e a conversa sobre o sectarismo são fenómenos recentes alimentados por políticas de geografia e de identidade, estranhas e nocivas para nós.

Como muitos compatriotas, cresci sem saber nem me preocupar sobre quais são as doutrinas religiosas dos meus vizinhos. E, sim, íamos às mesmas mesquitas e ainda o fazemos em muitas localidades.

Infelizmente, há quem tente, implacavelmente, criar divisões e reforçar essas fracturas através de narrativas irresponsáveis que só servem objectivos míopes e egoístas, ao colocarem um grupo contra outro no actual conflito. O que temos assistido é a uma batalha pelo poder e pelo controlo, em que a religião é usada como instrumento para dividir e conquistar.

Felizmente, para a maioria dos iemenitas, a retórica de que um grupo é mais justo do que outro, ou de que um tem direito divino a governar sobre o outro, é simplesmente risível e ridículo – sabemos que isso é apenas exercer política por outros meios.

Uma tenente patrulha o quartel de uma unidade feminina de contraterrorismo numa base militar em Sanaa. Cerca de 1500 mulheres servem na polícia e em várias unidades como esta, segundo uma reportagem da National Geographic, que as descreveu como “cruciais numa cultura ultraconservadora que não permite aos homens revistarem mulheres suspeitas ou suspeitos disfarçados de mulheres”.
© Stephanie Sinclair | National Geographic

Há quem tema que a guerra termine com um pacto semelhante ao negociado entre os Estados Unidos e os talibãs no Afeganistão, que excluiu os restantes protagonistas (como mulheres e minorias). Também receia esse desfecho?

Temos de manter a esperança viva de poder dar um passo de cada vez, apesar de todas as adversidades, e de poder emanar um raio de luz no meio da escuridão. A guerra irá, inevitavelmente, terminar um dia.

É óbvio que há muitos cenários e planos que poderão não vir a ser a resolução perfeita – e o que nós mais receamos, em particular, é uma solução que reforce o estatuto predominante de um país fracturado, governado por diversos regimes, brutais e cleptocráticos.

Por isso, insistimos em que os processos sejam inclusivos e transparentes, para reduzir a influência dos senhores da guerra, limitar o nepotismo e a corrupção, assegurar uma democracia participativa e uma cidadania activa. Temos visto, em primeira mão, o que poderes excludentes e elitistas fazem a uma nação. Nenhum iemenita aceitaria viver sob tais condições.

Combatentes houthis envergando uniformes militares posam sobre um veículo blindado capturado ao exército durante confrontos junto da residência do ex-presidente Abed Rabbo Mansour Hadi em Sanaa, 22 de Janeiro de 2015. “A vingança nunca é a resposta certa”, diz Hisham al-Omeisy sobre o futuro.
© Hani Mohammed | Associated Press | TIME

Será que os houthis, que o raptaram e prenderam, vão desistir das suas ambições de dominar todo o Iémen? Há o perigo de uma sociedade maioritariamente tribal, onde “assassínios por vingança sempre foram um problema e onde os ressentimentos nem sempre são perdoados”, ficar permanentemente dividida, porque não pode haver vencedores nesta guerra?

Não é segredo que os houthis há muito têm ambições expansionistas, e que não vão mudar da noite para o dia. Muito sangue tem sido derramado e a guerra aprofundou rancores. E, embora nenhum iemenita possa prometer que, sentindo-se injustiçado/a, não irá procurar vingar-se, a chave aqui é identificar caminhos para a reconciliação.

Nem tudo está ainda perdido. Tivemos lições duras sobre como um ciclo vingativo de violência pode destruir toda a gente e queimar tudo à nossa volta. A vingança nunca é a resposta certa. Mas vão ser necessários esforços sérios para criar dividendos de paz, mecanismos para lidar com as transgressões do passado, uma justiça restaurativa e de responsabilização, a recuperação da confiança, o conserto dos laços quebrados. [É urgente que] todos enterrem o machado de guerra para haver uma visão de bem comum, para que as pessoas se sintam seguras e procurem a felicidade.

Depois de cinco anos no exílio, está agora mais confiante de que poderá em breve regressar ao Iémen?

Sim, não tenho dúvidas de que voltarei a casa. Não abandonarei o meu país nem os meus compatriotas.

O que temos assistido no Iémen é a uma batalha pelo poder e pelo controlo, em que a religião é usada como instrumento para dividir e conquistar.

Hisham al-Omeisy
Hisham al-Omeisy é um influente activista iemenita e analista político que, hoje no exílio, dirige a iniciativa Pathways for Reconciliation in Yemen, do European Institute of Peace (EIP).
© Cortesia de | Courtesy of Hisham al-Omeisy

Um conflito catastrófico

A situação no Iémen “é terrível, e o mais preocupante é que continua a deteriorar-se”, alerta o activista Hisham al-Omeisy. “Estamos a falar de 21,6 milhões de pessoas [uma em cada quatro] – um número impressionante – que precisam de ajuda. Isso representa 80 por cento do país, onde 2/3 da população também sofrem de insegurança alimentar e têm dificuldade em pôr comida na mesa.”

Além disso, acrescenta Omeisy, “faltam serviços básicos, como electricidade ou gestão de resíduos. São muitas as pessoas que não têm acesso a medicamentos e água potável. Onde as infra-estruturas locais foram danificadas, as falhas institucionais são imensas.”

Abdullah Saif Ahmed Numan e o neto, Mohammad, posam para a fotografia no edifício onde vivem no bairro de Al Dawah, que tem servido de linha da frente na dividida cidade de Taiz.
© Claire Harbage | National Public Radio (NPR)

A guerra que, segundo a agência humanitária Oxfam, causou em oito anos 12 mil mortos civis e 4 milhões de deslocados, deixando 7,4 milhões de habitantes (25%) a sofrer de desnutrição (incluindo 2 milhões de crianças), não é o único causador da dor e sofrimento no Iémen.

Também os desastres naturais e a pandemia de Covid-19 abalaram profundamente o país. O sistema nacional de saúde entrou em quase total colapso, refere a ONU. “A cada duas horas, uma mulher iemenita morre durante a gravidez ou no parto de causas que seriam totalmente evitáveis”, se houvesse clínicas e hospitais a funcionar.

Hisham al-Omeisy confirma estes dados funestos: “A economia está de rastos e floresce o mercado negro. O investimento desapareceu, com a insegurança e a fuga de capitais. [Os governos rivais em Áden e em Sanaa não partilham as receitas do Banco Central, em particular as provenientes da exploração petrolífera.] Os salários dos [1,2 milhões] de funcionários públicos são uma tábua de salvação, mas, quando não são pagos, aumentam as dificuldades de milhões de iemenitas.”

Em Bani Mansur, nos arredores de Sanaa, capital do Iémen, esta mãe cansada da guerra deu à sua bebé o nome de Kafaya, que significa “Basta”.
© Alex Potter | The Intercept

Um bloqueio naval imposto pela coligação militar liderada pelos sauditas que, desde 2015, tenta derrubar os houthis, também contribuiu para que dezenas de milhares de civis morressem de fome – o Iémen importa 90% do que consome e todos os produtos médicos.

Omeisy descreve o bloqueio como “uma série de restrições à importação de bens comerciais que estrangularam ainda mais o fluxo de bens essenciais, como medicamentos e gasolina.” O que ele verificou, entretanto, é que alguns destes constrangimentos “têm vindo a diminuir” graças aos esforços diplomáticos em curso.

Quanto a um cessar-fogo, negociado em 2022 pela ONU, Omeisy admite que “houve um certo abrandamento” nos combates, permitindo que fossem “retomados os voos comerciais no aeroporto de Sanaa” e que passem agora “mais navios pelo porto marítimo de Hodeida”.

No entanto, “a crise e as violações dos direitos humanos persistem”. O cerco dos houthis a Taiz, a terceira maior cidade do país, “que eu e muitas pessoas temos criticado desde o início da guerra, ainda não foi levantado”, lamenta o activista.

“As pessoas em Taiz sofrem imensamente porque as suas estradas estão fechadas e continuam a ser bombardeadas. É lamentável que estes problemas continuem relegados para o último lugar na lista de prioridades [das negociações de paz]”.

Crianças iemenitas apresentam a sua identificação para poderem receber alimentos distribuídos por uma associação de beneficiência em Sanaa.
© Hani Mohammed | Associated Press | Los Angeles Times
Cronologia: Unificação, destruição, reconciliação

1990: Apesar de uma vizinhança atribulada nos anos 1970-1980, a República Árabe do Iémen (Norte, tribal), com capital em Sanaa, une-se à República Popular Democrática do Iémen (Sul, marxista), com capital em Áden, dando origem à República do Iémen.

1993: Realizam-se inéditas eleições gerais, livres e multipartidárias. As mulheres participam também pela primeira vez. Ali Abdullah Saleh, que era o presidente do Norte desde 1978, assume a chefia do novo Estado unificado e conquista o apoio do influente grupo xiita zaidita Ansar Allah (Partidários de Deus), também conhecido por Movimento Houthi.

1994: Depois de dois meses de guerra civil em que forças unionistas do Norte derrotam forças separatistas do Sul, é aprovada uma nova Constituição.

2000: Saleh assina um acordo de demarcação de fronteiras com a vizinha Arábia Saudita e tenta desarmar os houthis, aliados no passado.

2004: Furioso com o pacto que Saleh firmou, o líder do Ansar Allah, Hussein Badreddin al-Houthi, inicia uma insurreição. Centenas de rebeldes são presos e ele é assassinado. Sucede-lhe o irmão, Abdul-Malik al-Houthi.

2009: Em Agosto, o exército de Saleh lança a Operação Terra Queimada, para esmagar a rebelião houthi, também envolvida em confrontos transfronteiriços com tropas sauditas.

2010: Em Fevereiro, Saleh e Abdul-Malik al-Houthi aceitam um cessar-fogo, mas pouco depois, o exército iemenita lança uma ofensiva para, simultaneamente, derrotar os houthis e a Al-Qaeda na Península Arábica. 

2011: A “Primavera Árabe” chega ao Iémen. Em janeiro, o povo sai à rua para exigir o fim de 33 anos de regime de Saleh. Este promete não se recandidatar, mas os protestos alastram. A repressão causa cerca de dois mil mortos. Em Abril, o partido de Saleh, Congresso Geral do Povo, concorda em ceder o poder, mas o presidente não. A influente federação tribal Hashid e vários comandantes militares decidem juntar-se à oposição. Confrontos começam em Sanaa, a capital. Em Junho, Saleh é gravemente ferido num atentado bombista e vai tratar-se à Arábia Saudita. Em Setembro, regressa ao palácio presidencial, mas só em Novembro, assina o acordo de transferência de poder. Sucede-lhe o “número dois”, Abd Rabbuh Mansour Hadi, que forma um “governo de unidade” e, dois anos depois, vence eleições presidenciais, sem adversários, para dois anos de mandato.

Apoiantes do presidente, Ali Abdullah Saleh, exibem cartazes com a sua fotografia e entoam slogans pró-regime durante uma manifestação em Sanaa, 14 de Outubro de 2011.
© AFP | Getty Images | CNN

2014: Em Fevereiro, um painel presidencial aprova um plano de transição para que o Iémen se organize numa federação de seis regiões. Entre Setembro e Outubro, os houthis assumem o controlo da maior parte de Sanaa e da cidade portuária de Hodeida, no Mar Vermelho.

2015: Em Janeiro, os houthis colocam Hadi sob prisão domiciliária, em Sanaa, e obrigam-no a demitir-se. No mês seguinte, Hadi foge para Áden, onde se proclama “presidente legítimo”. Em Março, o Estado Islâmico (Daesh) reivindica os seus primeiros atentados bombistas suicidas em mesquitas xiitas em Sanaa. Os houthis, que controlam o Norte, iniciam uma ofensiva contra as tropas de Hadi no Sul. Este foge para a Arábia Saudita. Pouco depois, os houthis conquistam Taiz, a terceira maior cidade do país, que continua por eles sitiada. Em Março, uma coligação de Estados árabes, liderada por Riade (incluindo os Emirados Árabes Unidos, o Egipto, Marrocos, a Jordânia, o Bahrein, o Sudão e o Kuwait), lança a Operação Tempestade Decisiva, em apoio do presidente destituído. A coligação bombardeia, por via aérea, alvos houthis, mas também mobiliza soldados para o terreno e impõe um bloqueio naval. A guerra merece o apoio dos EUA, que fornecem armas aos sauditas. Em Maio, o ex-presidente Saleh estabelece uma aliança formal com os houthis.

2017: Em Maio, os houthis clamam responsabilidade por um ataque com mísseis contra a Arábia Saudita, que atingem Riade, a capital. Organizações humanitárias alertam que a guerra está a causar milhares de mortos e feridos entre civis, a deixar milhares em risco de fome, além de uma epidemia de cólera. Em Dezembro, após realinhar com os sauditas, Saleh é morto em confrontos entre as suas forças e rebeldes houthis.

2018: Em Janeiro, o Conselho de Transição do Sul (STC, na sigla inglesa), um movimento separatista que, apoiado pelos Emirados Árabes Unidos, quer restaurar o antigo Iémen do Sul independente, conquista Áden e ocupa a sede do governo de Hadi. A oposição internacional às operações da coligação liderada pelos sauditas aumenta depois de um ataque aéreo matar mais de 20 civis numa festa de casamento. Em Maio, tropas dos Emirados entram na ilha de Socotorá e ocupam o aeroporto e porto marítimo, para irritação do Governo pró-saudita de Hadi. Em Julho, a coligação chefiada por Riade lança uma ofensiva no porto de Hodeida, agravando o drama humano na região. Os protestos internacionais sobem de tom quando um ataque aéreo saudita contra um autocarro escolar, causa 40 mortos, a maioria crianças.

Um cemitério em Sanaa para vítimas da guerra: pelo menos 19.200 civis, incluindo mais de 2300 crianças, foram mortos ou mutilados apenas em resultado dos ataques aéreos da coligação liderada pelos sauditas, entre 2015 e 2021. No mesmo período, o conflito causou também cerca de 4 milhões de deslocados internos e deixou ainda mais de 23,4 milhões de iemenitas a necessitar de assistência humanitária e outros 19 milhões a enfrentar insegurança alimentar.
© Yahya Arhab | EPA | The New York Times

2019: Em Junho, os houthis intensificam os ataques contra território saudita, lançando mísseis contra instalações petrolíferas e aeroportos. Em Julho, os Emirados dizem ter concluído a retirada das suas tropas do Iémen, mas, em Agosto, os aliados separatistas do STC conquistam as províncias de Áden, Abyan e Shabwa. Em Setembro, supostamente com “ajuda técnica” do Irão, os houthis lançam a Operação Vitória de Deus; atacando com drones instalações petrolíferas na Arábia Saudita, reduzindo para metade a capacidade de produção do reino. Em Novembro, tentando pôr fim aos combates no Sul, Riade e Abu Dhabi forçam um acordo de partilha de poder entre o governo de Hadi e o STC.

2020: Em Novembro, sauditas e houthis iniciam negociações secretas, com Riade a mostrar interesse num cessar-fogo e em pôr fim aos bloqueio aéreo e naval do Iémen, em troca da criação de uma zona-tampão entre as suas fronteiras e os territórios controlados pelos houthis. No mesmo mês, os houthis disparam um míssil conta a cidade costeira saudita de Jidá. Em Dezembro, o STC e o governo de Hadi formalizam um acordo de partilha de poder, em Áden.

2021: Em Janeiro, os houthis já têm sob sua alçada 70-80% da população iemenita. Em Fevereiro, a Administração Biden põe fim ao apoio dos EUA à guerra saudita no Iémen. Os houthis iniciam uma ofensiva em Marib, o último reduto das tropas de Hadi no Norte, nas proximidades dos mais ricos campos de petróleo do país e onde se abrigam um milhão de deslocados internos. Em Março, os rebeldes voltam a atacar, com mísseis e drones, instalações petrolíferas, aeroportos e bases aéreas sauditas. Riade retalia, mas também sugere um cessar-fogo, que inclua a reabertura do porto marítimo de Hodeida e do aeroporto de Sanaa. Os houthis rejeitam e exigem o levantamento total do bloqueio imposto pelos sauditas. Em Agosto, a Administração Biden retira os seus mais avançados sistemas de mísseis da Arábia Saudita. Em Agosto, o Sultanato de Omã tenta mediar um acordo entre sauditas e houthis. Em Setembro, um ataque da coligação chefiada pelos sauditas mata o presidente de facto do Iémen, o comandante supremo houthi, Saleh Ali al-Sammad.  Em Novembro, as forças da coligação abandonam as posições em Hodeida, permitindo que os rebeldes reconquistem a cidade.

2022: Em Janeiro-Fevereiro, os houthis lançam uma série de ataques sem precedentes contra os Emirados e a Arábia Saudita, apoderando-se de um navio de Abu Dhabi no Mar Vermelho. A coligação bombardeia Sanaa e Hodeida. Em Março, a Arábia Saudita anuncia o fim de todas as suas operações militares no Iémen, a partir do dia 30. Em Abril, pela primeira vez desde 2016, a ONU consegue convencer os beligerantes a aceitarem um cessar-fogo – que, embora frágil, se mantém. Aparentemente sob pressão de Riade e Abu Dhabi, o presidente Hadi demite o vice-presidente, Ali Mohsen al-Ahmar, detestado pelos houthis, e transfere o poder para um novo “Conselho da Liderança Presidencial”. A Arábia Saudita e os Emirados prometem 3000 milhões de dólares para apoiar a economia iemenita, à beira do colapso. Os houthis assinam um “plano de acção” para impedir o recrutamento de crianças para a guerra – um responsável admitiu que o movimento integrou pelo menos 18 mil no seu exército, algumas com 10 anos de idade.

2023: Em Março, a Arábia Saudita e o Irão concordam em restabelecer os laços bilaterais, renovando a esperança no processo de paz. Em Abril, emissários sauditas e omanitas visitam Sanaa para negociar – no palácio presidencial e com o comandante supremo dos houthis – um cessar-fogo permanente. No mesmo mês, rebeldes e tropas governamentais libertam, durante três dias, mais de 900 prisioneiros de guerra.

 Fontes:

Arab Center Washington D.C.; Al-Jazeera; Reuters

Os iemenitas esperam pelo fim da guerra destruiu o seu país, em tempos conhecido como “Arábia Feliz”.
© Getty Images | Al Jazeera

Estes artigos foram publicados na edição de Maio 2023 da revista ALÉM-MAR | These articles were published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, May 2023 edition.

Burkina Faso: Da tolerância ao terrorismo

No Sahel, região marcada por extremismos políticos e religiosos, o antigo Alto Volta era considerado um “lugar único de coexistência”. Numa família, os avós podiam ser animistas, o pai muçulmano, a mãe católica e os filhos protestantes. Tudo mudou em 2016, quando ressentimentos internos e instabilidade na vizinhança se juntaram para infernizar a pacífica “Terra do Povo Íntegro”. (Ler mais | Read more...)

A violência dos islamistas, mas também de forças governamentais, deixou cerca de 2 milhões de burkinabés na condição de deslocados internos, como esta mãe e os seus dois filhos.
© Henry Wilkins | Concern Worldwide

Enviada para o Burkina Faso, com a missão de ensinar inglês numa escola da diocese de Nouna, Janet E. Deinanaghan chegou em novembro de 2017 sentindo “um misto de receio e entusiasmo”. Nascida na Nigéria, teve de aprender uma nova língua (francês), uma nova cultura e um modo de vida diferente daquele a que estava habituada. A sua “primeira surpresa” foi “o espírito livre e a simplicidade da fé” das pessoas que encontrou.

“Não era tabu um cristão convidar um parente ou amigo muçulmano para assistir a uma cerimónia na nossa igreja e vice-versa”, disse esta missionária das Irmãs da Caridade de São Vicente de Paulo, num artigo publicado no site globalsistersreport.org. “A verdade é que não era sequer tabu, para uma católica, casar-se com um muçulmano, pois podia viver plenamente a sua fé cristã.” Janet conheceu um casal assim: por vezes, a mulher acompanhava o marido à mesquita e ele ia à missa com ela.

“Era uma visão bela e evangelizadora”, mas esta “liberdade maravilhosa” está agora a ser destruída por fanáticos que querem controlar o mundo e só aceitam a própria religião”, lamenta Janet E. Deinanaghan, orgulhosa do trabalho da sua congregação em Nouna, aqui presente desde 2009 e onde as irmãs vicentinas gerem duas “escolas inclusivas”, cuidando de mais de 3000 crianças, a maioria com necessidades especiais.

“Homens armados expulsaram-nos das nossas casas e mataram os nossos entes queridos, queixa-se a burkinabé Fatoumata, 67 anos. “Sem tecto para nos abrigarmos e nada para comer, fugimos.”
© Tom Peyre-Costa | Norwegian Refugee Council

Em Novembro de 2021, a escola de Janet foi atacada e obrigada a encerrar, até ter encontrado uns edifícios abandonados para continuar a sua pastoral educativa e social. “A situação é sombria”, reconhece. E não apenas devido às acções violentas de grupos jihadistas, mas também aos actos de represália do exército e da sua força auxiliar Voluntaires pour la défense de la Patrie (VDP, “Voluntários para a Defesa da Pátria”).

Nouna é uma povoação de pouco mais de 30 mil habitantes, na província de Kossi, no Noroeste, não muito longe do Mali. Em Janeiro deste ano, a Amnistia Internacional reportou um massacre de pelo menos 86 civis, incluindo crianças, após um assalto de islamistas a uma esquadra local, em 22 de Dezembro.

A matança foi atribuída a membros de uma comunidade tradicional de caçadores, designados por Dozo, que integram os VDP. Estes terão ido “de casa em casa em busca de muçulmanos Fulani”, que as autoridades acusam de “ajudar os terroristas” na região, disseram sobreviventes à Amnistia Internacional. Em 17 de Fevereiro, os alvos foram 51 soldados, uns mortos, outros feridos ou raptados numa emboscada perto de Deou, na província de Oudalan.

À espera de ajuda em Djibo, no Burkina Faso – cerca de 1/5 da população do antigo Alto Volta, ou 3,5 milhões de habitantes, precisa de assistência humanitária.
©Sam Mednick | Associated Press | The Guardian

De momento, há três organizações jihadistas activas no Norte e Leste do Burkina Faso: Ansarul Islam; Grupo para o Apoio do Islão e dos Muçulmanos (GSIM – fusão da Al-Qaeda no Magrebe Islâmico/AQIM com o Ansar Dine e o Al-Mourabitoun); Estado Islâmico no Grande Sara (ISGS)

Num país onde a família, o clã e a etnia (e há aqui mais de 60) sempre estiveram acima da religião, agravou-se o risco de uma guerra civil, alertam vários think-tanks e ONG. Não parece haver fim à vista para o ciclo de violência iniciado com o primeiro e audacioso ataque reivindicado pela Al-Qaeda em 15 de Janeiro de 2016, contra um hotel de luxo em Ouagadougou, a capital burkinabé, de que resultaram 30 mortos.  Em sete anos, mais de dez mil pessoas perderam a vida, mais de dois milhões fugiram de sua casas e pelo menos um terço do território nacional está sob controlo dos insurrectos.

Como é que o Burkina Faso, um país secular por muitos elogiado como “um lugar único de coexistência pacífica”, se tornou solo fértil para o extremismo que se apoderou do Sahel, onde partilha fronteiras porosas com o Mali, o Níger, o Benim, o Togo, o Gana e a Costa do Marfim? Para entender este presente tumultuoso recordemos primeiro o seu tortuoso passado.

O povo Mossi, com ligações ao Islão, já havia estabelecido um império – Moogo – no que é hoje o Burkina Faso. Era composto por 4 reinos principais e outros 17 mais pequenos.
© Anthony Labouriaux | Wikipedia

No século XV, à chegada ao golfo da Guiné, os Portugueses encontraram a foz de um rio que baptizaram de “Volta”. Talvez por o trajecto ser “sinuoso” ou porque aquela área demarcava “o ponto de retorno” para os seus navios que transportavam o ouro da região.

Aos três afluentes do rio chamaram Volta Negro, Volta Branco e Volta Vermelho, posteriormente registados como Mouhahoun, Nakambé e Nazinon. O nome do rio terá inspirado a designação e a iconografia da bandeira do que viria a ser a República do Alto Volta.

Antes de os Portugueses aparecerem, já os Mossi, com ligações ao Islão, aqui haviam estabelecido um império – Moogo – composto por quatro reinos principais e outros 17 mais pequenos, todos eles independentes, competindo entre si, mas liderados por um chefe supremo, Moogo Naaba, soberano de Ouagadougou, no Centro.

Os Mossis, ainda hoje a etnia maioritária (52% dos 22,1 milhões de habitantes), não eram os únicos povos do Moogo.  No Norte, instalaram-se os Peul (ou Fulani) e os Tuaregues; no Leste, os Gourmantché; a ocidente, os Bobo e os Bwa, no Sul os Gourounsi, os Lobi e os Dagara.

Em 1 de Setembro de 1896, tropas francesas ocuparam Ouagadougou, conquistando sucessivamente todos os reinos do Moogo. Três anos depois, autorizaram a evangelização destes territórios, que ficou a cargo da Sociedade dos Missionários de África, conhecidos como Padres Brancos devido à cor das suas vestes, típicas dos árabes do Norte de África.

Monsenhor Prosper Augustin Hacquard, vigário apostólico do Sara-Sudão, foi o primeiro missionário a chegar a Ouagadougou, em 20 de Março de 1899, e a primeira de muitas missões foi fundada a 140 quilómetros de distância, em Koupèla, em 1900.

Dois soldados burkinabés guardam uma igreja católica junto de um quartel em Kaya, em 10 de Abril de 2021. Um país que era símbolo de coexistência religiosa e pacífica está agora refém da violência atribuída a grupos como a Al-Qaeda e o Daesh.
© Sophie Garcia | Associated Press

Os Padres Brancos concentraram-se em acções educativas e sociais, com o objectivo de, em conjunto com as comunidades locais, “formar elites cristãs e competentes capazes de dirigir o país”. Não foi tarefa fácil, porque a administração colonial, apenas interessada em promover o poder e a cultura da França, considerava subversivas aquelas actividades.

O Alto Volta tornou-se uma colónia por decreto, em 1 de março de 1919, sendo suprimida por outro decreto em 1932, os seus territórios divididos entre a Costa do Marfim, o Sudão francês (actual Mali) e o Níger. Só em 1947, seriam restabelecidos os seus limites, graças à acção política do imperador mossi Naaba Saga, em colaboração com o primeiro vigário apostólico de Ouagadougou, o francês Joanny Thévenoud, nomeado em 1922 por Pio XII, o papa que abriu a porta à “africanização do clero voltaico”, ao fazer de Dieudonné Yougbaré o primeiro bispo negro da África Ocidental.

Monsenhor Thévenoud, ao leme durante 25 anos, destacou-se pela construção e renovação de vários estabelecimentos de ensino, o mais emblemático dos quais o seminário menor de Pabré. Fundado em 1925, foi a primeira escola secundária do país, onde estudaram alguns dos líderes que assumiram o comando do Estado pós-colonial.

Por exemplo, Maurice Yaméogo, primeiro presidente da República do Alto Volta independente (em 1960); Joseph Ouedraogo, presidente da Confederação Africana dos Trabalhadores Cristãos (CATC); Jean-Baptiste Ouedraogo, presidente do Conselho de Salvação do Povo (CSP), no poder de 1982 a 1993.

Celebração de uma missa na Catedral de Kaya, norte do Burkina Faso , em 16 de Maio de 2019.  A Igreja Católica formou as elites do país. Hoje, muitos muçulmanos queixam-se de serem marginalizados por políticos cristãos, segundo o International Crisis Group.
© Vatican News

A relação da Igreja com os novos dirigentes teve vários sobressaltos. O primeiro a desiludi-la foi “Monsieur Maurice”, como respeitosamente o trataram até à sua morte, em 1993. Primeiro, porque Yaméogo se divorciou da primeira mulher e se casou com a segunda; depois, porque ele planeava instaurar um regime de partido único; finalmente, porque, após uma “gestão danosa das finanças públicas”, cortou os subsídios às escolas primárias católicas, o que foi entendido como “uma declaração de guerra, ainda mais humilhante por ter emanado de um dos seus melhores filhos”, como anotou René Otayek, autor do ensaio L’Église Catholique au Burkina Faso. Un contre-pouvoir à contretemps de l’histoire.

O autocrata Yaméogo deixou sem voz a oposição, mas não conseguiu silenciar os críticos que se exprimiam através das centrais sindicais, como a CATC, dirigida por personalidades cristãs. A Igreja decidiu juntar-se aos protestos populares, que convidaram o exército a intervir – seria o primeiro de vários golpes de Estado. Em 3 de Janeiro de 1966, o coronel Aboubacar Sangoulé Lamizana, um muçulmano, forma o Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), prometendo restaurar o poder civil quatro anos depois.

Em 1970, como prometido, houve eleições, ganhas pela União Democrática Africana (RDA), mas foi breve a democracia, com querelas entre dirigentes. Em 1974-75, Lamizana dissolveu o Parlamento e tentou também impor um regime de partido único. Com o apoio da Igreja, os sindicatos conseguiram o regresso do poder civil.

No Burkina Faso, as regiões periféricas sentem-se marginalizadas pelos governantes em Ouagadougou, desde o período colonial. Muitos dos habitantes do Leste associam o Estado central ao povo Mossi, a maioria da população. Outras comunidades, como os Gourmantché e os Peul, queixam-se de que lhes são negados direitos políticos e económicos, e são cortejadas pelos islamistas.
© noria-research-com

Em 1977, foi promulgada uma nova Constituição e, no ano seguinte, realizaram-se eleições presidenciais, mas “o clientelismo, a corrupção e o nepotismo” estavam tão disseminados que, desta vez, o exército nem precisou de ser convidado: o coronel Saye Zerbo assumiu a presidência de um governo militar, incluindo neste membros da oposição ligados à Igreja.

Paul Zoungrana, o primeiro cardeal do país, exultou: “Deus teve misericórdia do Alto Volta!”. Para a Igreja, o primeiro pecado de Lamizana foi ter nacionalizado as escolas primárias católicas em 1969, mas o “pecado mortal pelo qual ele não podia ser absolvido foi a reorientação da diplomacia voltaica em direcção ao mundo árabe-islâmico”, comentou René Otayek, investigador emérito do Centre nacional de recherche scientifique, em Paris.

A sua opinião é partilhada por Magloire Somé, historiador na Universidade de Ouagadougou. O que “realmente assustou a Igreja” foi a decisão de Lamizana de se aproximar de petromonarquias, como a Líbia e a Arábia Saudita, e de, alegadamente, “ele ter a intenção de proclamar uma república islâmica”.

No Burkina Faso, um país maioritariamente muçulmano, os habitantes (como estes refugiados em Djibo) lamentam ser “vítimas dos jihadistas, das forças de segurança e dos voluntários” que combatem ao lado das tropas governamentais.
© Sam Mednick | The New Humanitarian

A estratégia de Lamizana era “diversificar as fontes de ajuda externa e acompanhar as evoluções diplomáticas regionais (alinhamento com os Estados subsarianos sobre as teses árabes em relação ao conflito com Israel), sem prejudicar o compromisso pró-ocidental do Alto Volta”, mas a Igreja “receava um complot muçulmano” e denunciou publicamente a adesão de “um Estado laico” à Organização da Conferência Islâmica, refere Otayek.

Saye Zerbo, que sucedeu a Lamizana, era amado pelo mundo rural e pelos chefes tradicionais, mas odiado pela Confederação Sindical Voltaica, próxima de associações de esquerda. Em 1981, quando a CSV foi dissolvida e o direito à greve abolido, o confronto tornou-se inevitável.

Em 7 de Novembro, jovens oficiais derrubaram o presidente em mais um golpe, criando o Conselho para a Salvação do Povo (CSP), liderado por Jean-Baptiste Ouedraogo, pediatra e comandante do exército, um cristão tal como Zerbo.

Thomas Sankara, ainda hoje venerado como herói da nação, era filho de um fervoroso catequista da paróquia de Paspanga, em Ouagadougou, sonhava um futuro como padre, casou-se pela igreja e baptizou os filhos. A sua mulher, Mariam, converteu-se ao Cristianismo.
© Daniel Laine | AFP | The Guardian

Foi um regime de curta duração: divisões no exército e no CSP explicam a tomada do poder, em 4 de Agosto de 1983, pelo capitão Thomas Sankara, um jovem para quem o pai, fervoroso catequista da paróquia de Paspanga, em Ouagadougou, sonhava um futuro como padre, um jovem que casou pela igreja e baptizou os filhos, e cuja mulher, Mariam, se converteu ao Cristianismo.

Determinado a “transformar a sociedade”, o presidente do novo Conselho Nacional da Revolução (CNR) decretou, em 4 de Agosto de 1984, que o Alto Volta passaria a chamar-se Burkina Faso, um nome composto por duas palavras que pertencem a línguas diferentes. Em moré, burkina significa “homem íntegro” e, em dioula, faso designa “o país de…”. 

Os Comités de Defesa da Revolução (CDR), criados como “órgãos básicos do poder popular”, passaram a dominar todos sectores da sociedade, relembra o historiador Magloire Somé. Sankara fez purgas no exército e na função pública. Afastou os que considerava corruptos ou desleais. Chefes tradicionais foram desprezados como senhores feudais. Os “obscurantistas e reaccionários” eram julgados como inimigos.

O Arcebispo de Ouagadougou, Philippe Ouedrago (à esq.), saúda o Imã da Grande Mesquita da capital burkinabé, El Hadj Aboubacar Sana (à dir), por ocasião da festa muçulmana de Eid al-Fitr, que assinala o fim do mês de jejum do Ramadão. Esta convivência desagrada aos islamistas.
© Ahmed Ouoba | AFP | Getty Images | Center for Strategic and International Studies

Se, para alguns, o carismático capitão agia como um “populista totalitário” – e a Amnistia Internacional criticou nos seus relatórios detenções arbitrárias e execuções extrajudiciais -, para outros, foi um herói que tomou medidas para prevenir a fome, garantir a auto-suficiência agrícola, construir escolas e centros de saúde, combater a desertificação do Sahel (plantando mais de dez milhões de árvores), proibir a mutilação genital feminina, a poligamia e os casamentos infantis.

Sob o regime de Sankara, com liberdades restringidas em nome da “luta contra o imperialismo”, a Igreja optou pelo silêncio e juntou-se a iniciativas governamentais, como as campanhas de vacinação contra a meningite e a febre amarela. Esta atitude permitiu, segundo Otayek, “uma certa compreensão recíproca”, selada com um “pacto de não agressão” após uma audiência entre o presidente e o cardeal Zoungrana, em 1983.

Talvez porque “a Igreja reconheceu como seus os valores revolucionários: sentido do trabalho, do esforço e do rigor, o respeito pelas questões públicas, o primado do interesse geral, a honradez e a sobriedade.” Os responsáveis católicos também “suspiraram de alívio”, adianta Otayek, por o projecto de Sankara de transformação total da sociedade contemplar “o controlo do Islão”. Este era “um mal maior” do que a revolução.

Um apoiante de Blaise Campaoré exibe a fotografia do ex-presidente, em Novembro de 2020, quando ele pretendia regressar do exílio. Campaoré, que mandou assassinar Sankara em 1987, manteve-se no poder durante 27 anos, até ser derrubado em 2014.
© Olympia de Maismont | AFP | France Info

Em 15 de Outubro de 1987, o “período revolucionário” chegou ao fim quando Sankara, 37 anos, foi derrubado pelo “número dois” do regime e seu “amigo”, Blaise Campaoré, que o mandou assassinar durante uma reunião do CNR.

O Burkina Faso mudou de rumo, para alívio da França, dos EUA e da Grã-Bretanha. Campaoré, que escapou a duas intentonas em 1989 e 2003, governaria como “homem forte” durante 27 anos. Ameaçado por uma insurreição popular, foi forçado a sair de cena em 30 de Outubro de 2014, quando tentava mudar a Constituição para prolongar o seu mandato.

A partida de Campaoré fragilizou o aparelho de segurança e abriu caminho à expansão do jihadismo, segundo o International Crisis Group. “A unidade de forças especiais, conhecida como Regimento de Segurança Presidencial (RSP), foi desmantelada e não foi substituída por outra equivalente. Os serviços secretos são débeis, incapazes de detectar ou prevenir ataques terroristas.”

Em 24 de Janeiro de 2022, incapaz de travar a ameaça jihadista, em parte porque o aparelho de segurança, sobretudo a unidade de forças especiais, ficou fragilizado após a partida de Blaise Campaoré, o recém-reeleito presidente Roch Marc Kaboré, foi derrubado num golpe militar.
© J. Penney | Reuters | DW

Roch Marc Christian Kaboré (outro político cristão), que sucedeu a Campaoré, em 29 de Novembro de 2014, foi incapaz de travar a ameaça jihadista. Pelo contrário. Em 24 de Janeiro de 2022, com a sociedade exigindo respostas perante o número crescente de ataques mortíferos, o recém-reeleito Kaboré foi derrubado num golpe pelo tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba, chefe de um Movimento Patriótico para a Salvaguarda e a Restauração (MPSR).

Damiba dissolveu o Governo e o Parlamento, suspendeu a Constituição, fechou as fronteiras e instaurou o recolher obrigatório. A 10 de Fevereiro, proclamou-se presidente, mas a 30 de Setembro, após uma série de motins em diversos quartéis, também ele foi destituído em mais um golpe de Estado.

O novo líder, capitão Ibrahim Traoré, prometeu uma “luta implacável contra o terrorismo”, mas a ONG International Crisis Group mostra-se céptica quanto aos resultados, se as frustrações dos líderes muçulmanos e da mais perseguida etnia, os Peul/Fulani, não tiverem resposta por parte dos governantes burkinabè.

Em Setembro de 2022, no segundo golpe de Estado num ano, o tenente-coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba (à esq.) foi derrubado pelo capitão Ibrahim Traoré (à dir.), que prometeu uma “luta implacável contra o terrorismo”.
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“Os muçulmanos ressentem-se com a discrepância entre os seus números – segundo um censo contestado, eles representam cerca de 60% da população, os cristãos 25% e os animistas 15% – e a sua baixa representação na elite política e na função pública”, alerta o ICG. “As frustrações por vezes são exageradas, mas a percepção é mais importante do que a realidade.” O Estado tem de ser um “interlocutor útil” para que os descontentes “não procurem outros meios de expressar os sentimentos”.

O grupo Ansarul Islam, responsável pela maior parte dos ataques terroristas, é principalmente um movimento de protesto que começou por desafiar a ordem social em Soum, província da região Sahel do Burkina Faso, onde nasceu Malam Ibrahim Dicko, o seu fundador.

Durante anos, revela o ICG, o pregador Malam apelou à “igualdade entre classes, questionando o domínio dos chefes tradicionais e o monopólio da autoridade da famílias de marabout – líderes religiosos – que ele acusava de enriquecerem à custa das populações”.

Os milicianos designados por Voluntários para a Defesa da Pátria que, em conjunto com as tropas governamentais, combatem os jihadistas no Burkina Faso refugiam-se em tradições espirituais antigas como forma de protecção, segundo uma reportagem da Associated Press. Pelo menos 15% da população identifica-se como animista.
© Sophie Garcia | AP

Ganhou uma “grande audiência” com esta retórica, sobretudo entre os jovens e os mais desfavorecidos da sua etnia, Peul/ Fulani.

Quando decidiu recorrer e intensificar a violência, no Norte e no Leste, “perdeu muitos seguidores”, mas o seu movimento, agora dirigido supostamente pelo irmão mais novo, Jafar Dicko (a morte de Malam, anunciada em 2017, é um mistério) continua a beneficiar de grandes apoios para continuar uma insurreição contra as autoridades locais e nacionais.

Na “Terra do Povo Íntegro”, organizações como a Al-Qaeda e o Daesh exploram as divisões locais para justificar a sua “guerra santa”, conclui o ICG.

Lamentavelmente, a sua jihad não permite vislumbrar a “dimensão social” de uma revolta travada em nome de “uma maioria silenciosa que não detém poder político nem religioso”.

Uma das piores crises humanas

© Raphael de Benguy | Action contre la faim

* No Burkina Faso, 40% dos seus 21,9 milhões de habitantes vive abaixo do limiar da pobreza. Estima-se que 5,5 milhões – incluindo 3,2 milhões de crianças – precisarão de ajuda humanitária em 2023. Pelo menos 83% da população é identificada como “multidimensionalmente pobre”. Se neste grupo se incluírem grupos vulneráveis, ou seja, quem corre o risco de cair na pobreza, a percentagem sobe para 91,2.

* Cerca de 1,9 milhões de pessoas (mais de 60% das quais crianças) são deslocadas internas – ou seja, 7% da população total do país; mais de 10 mil (civis e militares) foram mortas em consequência da violência, imparável desde 2016, que deixou o Burkina Faso na lista das piores crises humanas.

* O país enfrenta problemas graves a vários níveis: fragilidade política (dois golpes de Estado em 2022); pressões demográficas (a população mais do que duplicou entre 1996 e 2019); propagação de actos terroristas (grupos jihadistas usam crianças para trabalhar em minas artesanais ou como soldados – em Junho de 2021, “meninos de 12 e 14 anos participaram num massacre” de mais 130 aldeões perto da fronteira entre o Mali e o Níger, denunciou a embaixadora dos EUA na ONU); proliferação de redes criminosas; o impacto das alterações climáticas (secas, inundações, degradação dos solos); os efeitos da pandemia de Covid-19; escassez dos alimentos e escalada de preços (agravadas pela invasão russa da Ucrânia).

© noria-research.com

* A economia assenta sobretudo na agricultura e são limitados os recursos naturais: ouro, zinco, cobre, manganês, fosfato e calcário. Tem ainda reservas não exploradas de diamantes, bauxita, níquel e vanádio.

* As riquezas são extraídas por multinacionais, a maior das quais a canadiana Endeavour, criticadas por não investirem localmente os seus lucros. “A única coisa que recebemos são buracos, rios poluídos, poeiras que causam doenças, expulsões forçadas das nossas terras, e não sabemos a quem nos queixar desta injustiça, porque a nossa voz não é ouvida e as nossas reclamações são ignoradas”, lamentou-se um líder comunitário, citado pela ONG National Democratic Institute, em Washington.

* Estima-se que um total de 3,3 milhões de pessoas se encontram em situação de insegurança alimentar e que 3,5 milhões precisam de ajuda de emergência em seis das 13 regiões do país – Norte, Sahel, Centro-Leste, Centro-Norte. Boucle du Mouhon e Leste. Os mais desprotegidos são os nómadas e pastoralistas, mulheres que cuidam sozinhas das famílias, portadores de deficiência, idosos.

© brokenchalk.org

* Mais de 3 milhões de raparigas casam-se antes dos 15,16,18 anos, por vezes em contexto de grande coerção sobre as famílias. Muitas são vítimas de tráfico humano, para escravatura doméstica ou sexual em países como o Líbano e a Líbia.

* Devido à insegurança num país que tem 40% do território sob controlo de grupos terroristas, mais de 500 centros de saúde encerraram (192 permanentemente), deixando cerca de 2 milhões de pessoas expostas a doenças recorrentes, como cólera e meningite.

* Também fecharam mais de 4250 escolas (17%), deixando sem aulas 700 mil crianças (340 mil das quais meninas) e sem salário mais de 20 mil professores.

Fontes:

Banco Mundial; Comissão Europeia; Departamento de Estado norte-americano; Embaixada da Suécia em Ouagadougou, Organização Mundial da Saúde; Oxford Poverty and Human Development Initiative (OPHI); Programa Alimentar Mundial (PAM) das Nações Unidas; UNICEF

© UNICEF

Estes artigos foram publicados na edição de Abril de 2023 da revista ALÉM-MAR | These articles were published in the April 2023 edition of the Portuguese news magazine ALÉM-MAR

“Tirem as mãos de África!”

Sim à esperança, à reconciliação e ao perdão. Não à guerra, ao ódio, à exploração. Ninguém ficou indiferente às mensagens do chefe da Igreja Católica nos seis dias que duraram as suas visitas à República Democrática do Congo e ao Sudão do Sul. Para avaliar o impacto das palavras proferidas do Papa Francisco na sua quinta viagem apostólica a este continente, entrevistei o padre jesuíta congolês Toussaint Kafarhire Murhula e o bispo comboniano de Rumbek, Christian Carlassare. (Ler mais | Read more…)

Na sua visita à República Democrática do Congo, o chefe da Igreja Católica destacou o “carácter sagrado e inalienável da dignidade humana, a reivindicação da integridade territorial, que implica independência, soberania e autodeterminação”.
© Yara Nardi | Reuters | Rappler

Toussaint Kafarhire Murhula testemunhou “um momento realmente único”, uma paradoxal demonstração de júbilo num país em sofrimento. No dia 31 de Janeiro, ao longo de 27 quilómetros, desde o aeroporto internacional de Ndjili até ao Palais da la Nation (sede da presidência), no centro de Kinshasa, “multidões de fiéis católicos erguendo bandeiras, tambores, apitos, estandartes e muito mais” festejaram e agradeceram a muita ansiada visita do Papa Francisco.

Padre jesuíta e poeta, teólogo e cientista social, filósofo e crítico literário, nascido na República Democrática do Congo (RDC) – o maior país católico de África (mais de metade dos 95 milhões de habitantes) –, Murhula compreende “a alegria de toda a nação congolesa”.

Porque “nunca antes, nos últimos cinquenta anos, alguém tão importante se dirigira a este povo com gentileza, respeito, amor e compaixão imensos”, disse-me, numa entrevista por e-mail.

O Papa Francisco à chegada ao aeroporto de N’dolo, em Kinshasa, a capital congolesa, onde celebrou missa para quase um milhão de pessoas, em 1 de Fevereiro de 2022.
© AFP | eyeradio.org

“Pessoalmente, exultei quando ouvi o Papa pronunciar estas palavras: Enquanto vós, congoleses, lutais para salvaguardar a dignidade e a vossa integridade territorial, contra tentativas condenáveis de o fragmentar, venho até vós, em nome de Jesus, como um peregrino da reconciliação e da paz. Muito desejei estar aqui e, finalmente, venho trazer-vos a solidariedade, o afecto e o consolo de toda a Igreja, e aprender com o vosso exemplo de paciência, de coragem e de luta.”

Devido a problemas de saúde, a viagem apostólica de Francisco à RDC e ao Sudão do Sul, inicialmente agendada para 2022, foi protelada – mas não cancelada. Os preparativos foram retomados no ponto onde haviam sido interrompidos, mas agravou-se a insegurança no Leste, onde estão activos mais de 120 grupos armados e milícias, o mais brutal dos quais o Movimento 23 de Março (M23), e Goma, capital da província do Kivu-Norte, ficou de fora do itinerário.

Soldados congoleses patrulham a povoação de Kibumba, nas proximidades de Goma, uma das mais fustigadas pelos rebeldes do grupo M23. O recrudescimento dos combates impediu que o Papa se deslocasse à região, mas as vítimas da violência foram ter com ele a Kinshasa.
© Guerchom Ndebo | AFP | France 24

“Muitas pessoas pensaram que o recomeço dos combates por parte do M23 visou dissuadir o Papa de se deslocar à RDC”, observou Murhula, director do Centre Arrupe pour la Recherche et la Formation (CARF), um think-tank com sede na cidade de Lubumbashi, cuja missão é difundir uma visão cristã do desenvolvimento económico, sócio-político e cultural. “Talvez haja alguma verdade nisto. A visita permitiria lançar alguma luz sobre estas guerras ‘fabricadas’ no Congo”.

Os grupos rebeldes, alguns supostamente apoiados pelos vizinhos Ruanda e Uganda, saqueiam e destroem aldeias, assassinam os moradores, violam mulheres, roubam gado, pilham ouro, diamantes, lítio, cobalto e outras riquezas.

Desde a “Grande Guerra de África” de 1998-2002, que causou cerca de 2 milhões de mortos, ascendem a mais de 5,6 milhões os deslocados internos na RDC – número incomparável no continente –, aos quais se juntam mais de meio milhão de refugiados.

Fiéis saúdam o Papa Francisco, no aeroporto de N’dolo, em Kinshasa, em 1 de Fevereiro de 2022. “Nunca antes, nos últimos cinquenta anos, alguém tão importante se dirigira a este povo com gentileza, respeito, amor e compaixão imensos”, diz o padre jesuíta congolês Toussaint Kafarhire Murhula.
© Moses Sawasawa | Associated Press | NBC News

O alheamento do mundo perante o que se passa no Leste do antigo Zaire chocou o arcebispo de Kinshasa, cardeal Fridolin Ambongo, que, antes da visita do Papa, lamentou: “Mobilizam-se vastos meios para restaurar a ordem na Ucrânia [depois da invasão russa], mas no Congo a comunidade internacional diz que é impotente. Isso é uma injúria.”

O Papa, de 86 anos e precisando da ajuda de uma bengala ou de uma cadeira de rodas, não se deixou intimidar. Não foi a Goma, mas vítimas da violência em Goma foram ao seu encontro. Nas redes sociais, alguns criticaram-no por não ter sido mais explícito a identificar os culpados pelos crimes do passado e do presente, mas o sacerdote-académico que preside à African Studies Association of Africa (ASAA) e é membro da Rede Pastoral e de Teologia Católica Pan-Africana, defende-o: “A missão do Papa é espiritual e não política. Toda a gente de boa fé sabe quem são os responsáveis.”

A mensagem de Francisco “foi clara, inequívoca e directa”, insiste Murhula, dando como exemplo o seu primeiro discurso, quando se encontrou no Palácio da Nação com o presidente, Félix Tshisekedi, membros da sociedade civil e do corpo diplomático.

Francisco num encontro com jovens no Estádio dos Mártires, em Kinshasa, em 2 de Fevereiro de 2022. © Ciro Fusco | EPA | EFE | citizen.co.za

Enaltecendo a beleza natural do país que o acolheu, o visitante declarou: “É como um continente no grande continente africano. Parece que toda a terra respira. Se a geografia deste pulmão verde [tem a segunda maior floresta tropical, depois da Amazónia] é tão rica e matizada, já a história não se mostrou igualmente generosa. O vosso país é um verdadeiro diamante da Criação, mas todos vós sois infinitamente mais preciosos do que qualquer bem que brote deste solo fecundo.”

A seguir, o Papa fez um apelo veemente: “Tirem as mãos da República Democrática do Congo, tirem as mãos da África! Não sufoquem África: não é uma mina para explorar, nem uma terra para saquear. Que África seja protagonista do seu destino! (…) Não podemos habituar-nos ao sangue que, há décadas, corre ceifando milhões de vidas, sem que muitos o saibam. Seja conhecido tudo o que acontece aqui.”  

“São imagens revolucionárias”, maravilha-se Murhula. “Sobretudo quando nos habituámos a chavões e estereótipos negativos sobre a RDC. Que mais poderíamos querer ouvir nesta conjuntura crítica da história da nação? Era tudo o que o povo queria escutar.”

Depois de saudar os fiéis congoleses com as palavras bondéko (fraternidade) e esengo (alegria), o Papa Francisco relembrou-os de que, como cristãos, são chamados a “quebrar o ciclo da violência e a desmantelar as maquinações do ódio”.
© Daniel Ibanez | CNA | aciaafrica.org

Francisco não destacou apenas o “carácter sagrado e inalienável da dignidade humana, a reivindicação da integridade territorial, que implica independência, soberania e autodeterminação”, mas expôs também “a ingerência de vários actores internacionais, incluindo potências ocidentais, multinacionais e peões africanos, instrumentalizados para balcanizarem o Congo, influenciar e desestabilizar o seu destino.”

No segundo dia da visita papal, em 1 de Fevereiro, mais de um milhão de pessoas – e não apenas as “cerca de 120 mil” esperadas pelo Vaticano – assistiram a uma missa no aeroporto de N’Dolo, em Kinshasa, celebrada segundo o Missal romano para as dioceses do Zaire, em francês, tshiluba, lingala, suaíli e kikongo. Foi feriado nacional. Com as escolas fechadas e tolerância de ponto para os trabalhadores, as estradas tornaram-se ainda mais intransitáveis numa metrópole de 17 milhões de habitantes.

Muitas pessoas saíram de casa às 3-4 horas da madrugada, ou dias antes, algumas caminhando durante vários quilómetros, vindas de outras cidades ou países vizinhos para estarem mais perto do pape François. Sob um sol tórrido, homens e mulheres, crianças e jovens, leigos e religiosos formaram uma “maré humana”, rezando “pela paz e a justiça”, numa cerimónia repleta de canções e instrumentos musicais, hinos e danças tradicionais.

Na visita ao antigo Zaire, o Papa fez um apelo, quase uma intimação: “Tirem as mãos da República Democrática do Congo, tirem as mãos da África! Não sufoquem África: não é uma mina para explorar, nem uma terra para saquear. Que África seja protagonista do seu destino!
© Jerome Delay | Associated Press

De um grande altar vermelho e branco, após saudar os fiéis com as palavras bondéko (fraternidade) e esengo (alegria), o Papa relembrou-os de que, como cristãos, são chamados a “quebrar o ciclo da violência e a desmantelar as maquinações do ódio”. Ainda mais comovente seria o seu encontro, no salão da nunciatura apostólica, com as vítimas do terror no Leste.

“Perante a violência desumana”, disse Francisco, “só nos resta chorar, sem palavras, permanecendo em silêncio. Bunia, Beni-Butembo, Goma, Masisi, Rutshuru, Bukavu, Uvira… são lugares que os meios de comunicação internacionais quase nunca mencionam. Ali e noutros lugares, tantos irmãs e irmãos nossos, filhos da mesma humanidade, são reféns da arbitrariedade do mais forte, de quem tem na mão as armas mais potentes, armas que continuam a circular.”

O Papa apresentou uma proposta: “recomeçar com dois nãos – à violência e à resignação e dois sins” – à reconciliação e à esperança. Porque “o ódio é uma blasfémia que corrói os corações”, e porque é necessário “combater o desânimo, o desalento e a desconfiança que nos levam a crer ser melhor suspeitar de todos e viver separados do que dar as mãos e caminhar juntos”.

Freiras congolesas durante um encontro de oração presidido por Francisco na Catedral de Notre Dame, em Kinshasa, 2 de Fevereiro de 2023.
© Hugh Kinsella-Cunningham | The Nation

Antes de partir para o Sudão do Sul, o Papa encontrou-se com mais de 65 mil jovens, no Estádio dos Mártires em Kinshasa, pedindo-lhes que sejam “sonhadores indomáveis de um mundo mais unido”. Recebeu também em audiência padres e líderes jesuítas na linha da frente do trabalho da Igreja na RDC, que administra escolas e universidades, hospitais e clínicas, rádios e televisões, jornais e outras publicações.

A igreja congolesa, em particular a sua conferência episcopal (CENCO) “tem falhas como todas as instituições”, reconhece Toussaint Murhula, mas “conduziu a nação congolesa à democratização”, depois da ditadura de Mobutu Sese Seko, e mantém-se vigilante. Sobretudo em tempo de eleições, como as de Dezembro próximo, porque a “esfera pública morreu, ninguém respeita as leis, a oposição está enfraquecida e os ricos podem comprar a salvação”.

O Papa saúda o bispo Christian Carlassare e uma jovem da diocese de Rumbek, junto à Catedral de Santa Teresa, em Juba, capital do Sudão do Sul, 4 de Fevereiro de 2022 .
© National Catholic Register | Vatican Media

Em Juba, capital da mais jovem nação do mundo, o bispo comboniano da diocese de Rumbek, Christian Carlassare, conseguiu finalmente concluir a peregrinação “Caminhando pela Paz” (cerca de 200 quilómetros a pé), que teve de pôr em pausa em 2022, quando Francisco adiou a sua visita.

Tal como o pontífice, que para aqui viajou acompanhado do Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, e do Moderador da Assembleia-Geral da Igreja da Escócia, Iain Greenshields, numa missão ecuménica sem precedentes, também o italiano Carlassare se juntou a um grupo de “60 jovens de diferentes clãs e confissões religiosas” para, durante nove dias, partindo da capital do Estado dos Lagos e parando em diversas comunidades cristãs ao longo do trajecto, chegar a Juba, a 2 de Fevereiro.

O encontro com o Papa “foi um momento muito emocionante”, disse Carlassare ao site Vatican News, recordando o momento em que o pontífice agradeceu àqueles jovens “o exemplo” que deram a outros que há muito tempo “marcham com as espingardas às costas”, sem nunca terem recebido “o empurrão certo” para seguir o “caminho renovado da paz”.

A mais jovem nação do mundo ainda não se libertou da guerra civil, que causou cerca de 400 mil mortos, nem do tribalismo, nem da pobreza, apesar de rico em petróleo.
© Pablo Tosco | Oxfam

O Sudão do Sul, que se tornou independente do Sudão, em 2011, mas ainda não se libertou da guerra civil (400 mil mortos), nem do tribalismo, nem da pobreza, apesar de rico em petróleo, “tem uma história de deslocados em movimento, que cruzam o país de um lado ao outro”, lembra Carlassare. “Quantas pessoas [estima-se em dois milhões] não tiveram de deixar as suas casas e caminhar durante quilómetros, dias e dias, para chegar sabe-se lá onde, em busca da sobrevivência?”

Às cerca de cem mil pessoas que, em 5 de fevereiro, assistiram à missa num estádio com o nome e em memória do herói nacional John Garang, o Papa fez um novo apelo: “Mesmo que os nossos corações sangrem pelos males que sofremos, recusemos, de uma vez por todas, pagar o mal com mal.”

O apelo destinou-se igualmente aos líderes rivais do país: o presidente, Salva Kiir (católico, etnia Dinka), e o vice-presidente, Riek Machar (presbiteriano, etnia Nuer), mas também forças da oposição, signatários de um acordo de paz, cujas cláusulas continuam por aplicar, na sua maioria, desde há cinco anos.

Segundo a UNICEF, 75% das raparigas no Sudão do Sul não vão à escola, porque os pais preferem casá-las antes dos 18 anos, para poderem receber os dotes.
© Windle Trust International

É preciso “superar as antipatias e as aversões que com o tempo se tornam crónicas e arriscam colocar tribos e grupos étnicos uns contra os outros”, aconselhou Francisco. “Temos de aprender a aplicar o sal do perdão nas nossas feridas. O sal queima, mas também cura.”

Entre os mais indefesos nos conflitos que persistem em várias regiões do país, estão mulheres e meninas, a maioria dos deslocados, e o Papa não as esqueceu, ordenando os devidos respeito e protecção. Segundo a UNICEF, 75% das raparigas não vão à escola, porque os pais preferem casá-las antes dos 18 anos, para receber os dotes. O Sudão do Sul tem também a maior taxa de mortalidade materna do mundo.

Numa conversa que tivemos por WhatsApp, o bispo Carlassare exalta “o contributo importante” do Papa para que o Sudão do Sul se liberte da “armadura do passado” e escolha um futuro diferente. “Por um lado, ele pediu às instituições que se coloquem ao serviço dos mais vulneráveis, embora estas enfrentem grandes desafios sem soluções fáceis: fazer regressar os deslocados e refugiados, dar oportunidade a eleições democráticas, juntar as milícias num exército nacional unificado, promover o desarmamento e a segurança… além de fornecer serviços básicos.”

Devido às alterações climáticas, há três anos que as cheias do Nilo deixam submersas vastas áreas do Sudão do Sul que antes eram habitáveis.
© Peter Caton | Action Against Hunger | The Telegraph

No Sudão do Sul, o custo de vida é muito elevado e a moeda quase não tem valor, observa Dom Carlassare. Só quem trabalha para as agências humanitárias estrangeiras tem um bom salário. Devido às alterações climáticas, há três anos que as cheias do Nilo deixam submersas vastas áreas, antes habitáveis. As pessoas vivem em situação de trauma permanente.

“Não é um caminho fácil”, sublinha o missionário comboniano que, em 2021, sobreviveu a um atentado pouco depois da sua nomeação pelo Papa Francisco. “Na sua visita, o Santo Padre não se dirigiu apenas às instituições (e às pessoas que possam representar as elites), mas a toda a nação [dizendo]: é preciso um esforço conjunto para a paz na solidariedade, um esforço das bases; não à violência e sim ao diálogo; as armas não podem falar mais alto; mais confiança e coesão social; não mais abusos e sim respeito pela dignidade humana, em especial das mulheres; não mais manipulação dos jovens e sim educação e possibilidade de se exprimirem positivamente.” Com o Papa, diz Carlassare, a Igreja do Sul do Sudão é chamada a estar ao serviço da justiça, da paz e da reconciliação. Não está num sprint, mas numa maratona.”

Oração ecuménica presidida pelo Papa no Mausoléu John Garang, em Juba, 4 de Fevereiro de 2023. É preciso “superar as antipatias e as aversões que com o tempo se tornam crónicas e arriscam colocar tribos e grupos étnicos uns contra os outros”, aconselhou Francisco. “Temos de aprender a aplicar o sal do perdão nas nossas feridas. O sal queima, mas também cura.”
© Paul Haring | CNS | America Magazine

 “África tem um papel importante a desempenhar” e não apenas para a Igreja, frisa Carlassare. “O último sínodo considerou este continente o pulmão do mundo. A visão de São Comboni, que vislumbrou um futuro importante para África, está a tornar-se realidade.”

Quanto às fracturas expostas pelo processo sinodal – “o momento mais decisivo da igreja” (ver entrevista abaixo com Stan Chu Ilo) –, o bispo de Rumbek desvaloriza-as: “Em África, não vejo categorias de conservadores e progressistas, ou elas assumem diferentes cores e inquietações. Em África, são muito importantes os valores tradicionais, por isso, a Igreja tem raízes profundas assentes na doutrina e na disciplina. Por outro lado, África ensina-nos formas diversas de entender a vida, a comunidade, o discipulado.”

“A diversidade na Igreja não deve promover divisões, mas responsabilidade, diálogo e respeito”, conclui Carlassare. “O Papa Francisco não é conservador nem progressista. Apenas está aberto ao diálogo sobre temas a que no passado poucos prestavam atenção. O importante é saber se, na Igreja, estamos mais preocupados com a instituição, as normas e as tradições humanas ou se oferecemos a nossa vida a Cristo e ao Evangelho.”

OS ENTREVISTADOS
Toussaint Kafarhire Murhula, padre jesuíta e poeta, teólogo e cientista social, filósofo e crítico literário, nascido na República Democrática do Congo, preside à African Studies Association of Africa (ASAA) e é membro da Rede Pastoral e de Teologia Católica Pan-Africana
© Cortesia de | Courtesy of Toussaint Kafarhire Murhula
O bispo comboniano Christian Carlassare (à esq.) com alguns membros da sua comunidade na diocese de Rumbek, Sudão do Sul.
© Vatican News

“Os Africanos não são mais religiosos por causa do Catolicismo, mas são mais católicos porque são religiosos”

Na sua viagem ao antigo Zaire e ao novo Sudão do Sul, o Papa Francisco foi ao encontro de “pessoas de fé que não desistem da esperança”, diz-me Stan Chu Ilo, académico que se tornou num dos maiores especialistas do Catolicismo no continente africano. É aqui, onde se “reinventa e reinterpreta o Cristianismo com uma nova linguagem e vigor espiritual”, que está “a grande esperança” da Igreja.

© Issouf Sanogo AFP | Getty Images | USA Today

Professor de Cristianismo Mundial e Estudos Africanos no Centro para o Catolicismo Mundial e Teologia Intercultural na Universidade DePaul, em Chicago, Illinois (EUA), o padre Stan Chu Ilo, é considerado uma eminência no estudo das culturas e tradições religiosas em África.

Na Universidade de Durham, na Inglaterra, Ilo é professor honorário de Religião e Teologia, e no Instituto de Estudos Africanos da Universidade da Nigéria, país onde nasceu, é investigador visitante. É ainda coordenador da Rede Pastoral e de Teologia Católica Pan-Africana (PACTPAN) e do projecto Doing Theology from the Existential Peripheries, do Dicastério da Santa Sé para o Desenvolvimento Integral.

Entre os vários livros que coordenou, para os quais contribuiu e de que é autor, destaque para The Church and Development in AfricaWealth, Health, and Hope in African Christian Religion; A Poor and Merciful Church: The Illuminative Ecclesiology of Pope FrancisHandbook of African Catholicism; e Ecological Ethics for Human Flourishing; An African Commentary on Laudato Si’. O sacerdote e académico deu-me esta entrevista por e-mail.

© Catholic Agency for Overseas Development (Cafod) | The Tablet

Recebido efusivamente em Kinshasa e em Juba, o Papa Francisco condenou séculos de exploração, os massacres, as violações, a destruição de aldeias, “o veneno” do ódio e da guerra. De todas as suas mensagens, qual a que captou mais a sua atenção?

O Papa Francisco dirigiu mensagens muito fortes e proféticas a três grupos de pessoas. O primeiro, o das potências estrangeiras, principalmente ocidentais, e da China, a quem intimou tirem as mãos de África. E isto é tão mais verdade quanto, no caso do Congo, tem sido uma história longa e triste de escravatura, colonialismo brutal sob os Belgas e exploração contínua por parte do Ocidente.

O mesmo se pode dizer, até certo ponto, em relação ao Sudão do Sul. As guerras travadas até hoje naqueles dois países são alimentadas por actores externos que obtêm imensos proveitos com armas que fornecem. Sempre que há uma guerra, alguém lucra com ela. A guerra é um negócio chorudo. Milhões de pessoas morrem e cometem-se genocídios. Não há responsabilização devido aos interesses económicos estrangeiros.

© The Wall Street Journal

No segundo grupo estão os líderes africanos. No Congo e no Sudão, o que temos visto nas últimas cinco décadas? Uma sucessão de ditadores, corruptos e opressores, que exploram o seu próprio povo e, lamentavelmente, continuam a agir como os colonialistas ocidentais, desviando recursos e travando guerras destrutivas contra populações, segundo linhas étnicas e regionais.

Os jogos de poder no Congo e no Sudão são sinais do fracasso de Estados pós-coloniais em África, incapazes de desenvolverem instituições inclusivas e estruturas democráticas, de promover o bem comum, a boa governação e a justiça.

O terceiro grupo para quem o Papa falou foi o das vítimas da guerra: pobres, mulheres, crianças. Aos milhões de Congoleses e Sul-Sudaneses que vivem em campos de deslocados internos, Francisco ofereceu uma mensagem de conforto e esperança, de que a Igreja está a seu lado e Deus está com eles. Também pediu justiça para os que sofrem a violência, as mulheres violadas e os jovens a quem negam o futuro.

Em última análise, todas estas mensagens foram ao cerne da questão: não pode haver desenvolvimento nem prosperidade humana enquanto perdurar a guerra, o ódio, a corrupção. Não pode haver paz se as causas da guerra e do ódio não forem eliminadas.

© Victoria Arthur

Perante a injustiça e os abusos, disse o Papa, a Igreja “não pode ser neutral”. Como estudioso do Catolicismo Africano, consegue comparar as igrejas na RDC e no Sul do Sudão, a influência política que exercem, a missão social que realizam?

No Congo, a Conferência Episcopal (CENCO) tem sido a voz mais forte na defesa dos pobres e das vítimas da guerra. Não sei onde estaria hoje o Congo se os seus bispos não se tivessem insurgido contra a classe política e uma liderança corrupta que tantas vezes transformaram o país num projeto criminoso, ao ambicionar o poder vitalício, como se a presidência e o Estado fossem bens pessoais e o país o seu feudo.

No Sudão do Sul, esta situação repete-se. Os dois principais gladiadores, o presidente, Salvar Kiir, e o vice-presidente, Riek Machar, não gostam um do outro e usam as suas diferenças étnicas como arma para dividir o povo. Embora seja uma das nações mais pequenas de África, em termos de população, e a mais jovem, este é um país traumatizado pela violência e a opressão. O povo empobreceu neste Estado falhado.

© Center for Religion and Civic Culture

A Igreja funciona no Sudão do Sul como um bálsamo que cura. É um oásis de esperança, facilitando acesso à educação, a cuidados de saúde e à alimentação os sul-sudaneses, incluindo aos que vivem em campos de refugiados em Adjumani, no norte do Uganda.

No Sudão do Sul, a Igreja nunca foi neutral. Os bispos colocaram-se ao lado dos pobres, dos deslocados, dos que lutam pela paz. Destaco o projeto singular do bispo emérito de Torit, Paride Taban, que criou a “Aldeia da Santíssima Trindade de Kuron” [no estado de Equitoria Oriental], onde são bem-vindas todas as pessoas de diferentes tribos, raças e religiões, para demonstrar que que é possível viver juntos em paz, apesar das diferenças religiosas, políticas, étnicas ou raciais.

© Tom Perna

Na RDC, em particular, será que a ascensão das igrejas protestantes, pentecostais ou evangélicas ameaça a posição central da Igreja Católica? Qual o peso específico das igrejas fundadas por Africanos?

O Congo sempre foi terreno fértil para igrejas africanas indígenas e independentes. Tenho um amigo teólogo que, há alguns anos, me disse ter plantado no Congo mais de 300 igrejas nos últimos dez anos. Um dos primeiros financiadores das igrejas africanas, Simon Kimbangu [1887-1991], começou a sua missão no Congo, onde a igreja hoje chamada Kimbanguista se vangloria de ter mais de um milhão de membros.

As novas igrejas que o meu amigo e outros estão a fundar no Congo pertencem à tradição pentecostal e são designadas localmente como Églises de Réveil [Igrejas do Despertar]. Ganharam muita visibilidade e representam um desafio para a Igreja Católica em termos de mensagem e influência.

Muitas delas são fundadas por líderes sem uma sólida formação teológica e muitas vezes aproveitam-se da credulidade de pessoas simples, em grande sofrimento e dor, mais vulneráveis a qualquer religião que lhes ofereça esperança, mesmo que seja uma falsa esperança.

Estas igrejas acusam a Igreja Católica de exercer influência indevida no país e de beneficiar do reconhecimento e do privilégio que lhes são negados. Não acho que tenham um impacto significativo no futuro da nação, mas é certo que fazem parte do ressurgimento dos grupos pentecostais e evangélicos em África, criados por africanos atentos às questões com que as pessoas lidam no quotidiano e que se dizem alternativa à Igreja Católica e algumas denominações protestantes.

Creio que estas igrejas não irão desaparecer rapidamente, mas também não acredito que, num futuro próximo, possam suplantar a Igreja Católica no Congo.

© The Economist

No Sudão do Sul, o Papa fez questão de se fazer acompanhar do Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, e do Moderador da Assembleia-Geral da Igreja da Escócia. Quão importante foi esta missão ecuménica?

Foi uma estreia e de grande simbolismo em muitos aspectos. Primeiro, porque estes são os líderes dos principais grupos religiosos no Sudão do Sul, por isso, inspiram imenso respeito. Espero que as pessoas tenham levado a sério a sua mensagem. Segundo, porque é bom vê-los a dar o exemplo de que, quando as pessoas se unem, são capazes de grandes feitos, incluindo coisas difíceis como fazer a paz entre inimigos jurados.

Estes três líderes têm estado activos no Sul do Sudão através de várias organizações cristãs envolvidas em ajuda humanitária, serviços sociais e negociações de paz entre beligerantes. A sua presença foi, por isso, a reafirmação de algo que cada um deles já faz há vários anos.

© Emeric Fohlen | Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS)

Esta foi a quinta viagem de Francisco a África. Todas as suas visitas têm sido inspiradoras, mas os seus apelos à paz e à reconciliação são ignorados por líderes políticos e militares. É uma causa perdida ou espera um legado mais duradouro?

O Papa não é um santo milagreiro. Veio como mensageiro da paz. Foi uma visita simbólica, uma afirmação de esperança no que é possível, de estímulo a não desesperar, por muito má que seja a situação. Temos, contudo, de ser realistas sobre a natureza complexa não apenas da RDC e do Sul do Sudão, mas também de África. O que precisamos é de uma solução política – e não religiosa – para os problemas

Líderes como o Papa Francisco dão-nos coragem, apelam a uma mudança de mentalidade e de caminho, para uma experiência de conversão.

A minha esperança é a de que, depois de ouvirem as palavras, por vezes duras, do Papa, os políticos no Congo e no Sudão do Sul mudem de atitude, trabalhando a favor e não contra os interesses das populações. Mas, sim, é verdade que em lugares como a República Centro Africana, que Francisco visitou em 2015, nada parece ter mudado. Na RDC, continuam as batalhas no Leste, com os rebeldes do M23 a causar estragos.

No Sudão do Sul, cometeram-se massacres na capital regional, em vésperas da chegada do Papa. No entanto, as pessoas de fé não podem desistir da esperança.

© Arlette Bashizi The Washington Post

Num artigo recente, para o site The Conversation, o senhor considerou que a viagem do Papa à RDC e ao Sudão do Sul coincidiu com “o momento que mais irá definir a Igreja Católica” – o processo sinodal, que “tem exposto fracturas” sobre temas vários, como o celibato, as mulheres na liderança, uma maior abertura à comunidade LGBTQI+. Em África, o professor destaca que “altos responsáveis da igreja do continente ainda não abraçaram a reforma mais ambiciosa desde o Concílio Vaticano II em 1965”. É isto um desafio ao pontificado de Francisco?

Não é um desafio ao pontificado de Francisco, mas ao Cristianismo, em geral, e ao Catolicismo, em particular. Creio que o processo sinodal é um momento especial para a Igreja iniciar um diálogo interno de forma aberta. Mas é normal haver desentendimentos. O que falta à igreja é desenvolver a atitude de olhar para as duas faces da moeda, e isto é um problema muito ocidental.

De um modo geral, os Africanos veem as coisas não de uma maneira dialéctica, mas complementar. Não se trata de LGBTQ contra heterossexuais, mulheres versus homens, padres casados vs padres celibatários, mas sim o conceito de ambos/para.

Por exemplo, mulheres e homens, LGBTQ e heterossexuais, padres casados e celibatários. No pensamento africano, estes não são se opõem, mas complementam-se. Não é uma coisa simples. As pessoas têm de compreender que há uma relação entre todos nós e que temos de abandonar o pensamento binário.

© Ernst Ulz | Wikipedia

Propus que o Papa Francisco fosse um árbitro neutro no actual debate fracturante na Igreja sobre a dignidade e os direitos das pessoas do mesmo sexo, para que actue como um moderador do diálogo.

Tal como o Papa Francisco pediu que os não-africanos “tirem as mãos de África” em termos económicos e políticos, também devem “tirar as mãos de África” em matéria de questões morais.

Francisco deve continuar a encorajar a abertura da Igreja ao diálogo sobre alguns dos temas morais contestados, sem tomar partido.

© Samuel James | The New York Times

Os católicos africanos são “a grande esperança” da Igreja Católica, não apenas porque aumentam em número, escreveu o senhor, mas porque se “reinventam e reinterpretam o Cristianismo, infundindo-lhe uma nova linguagem e vigor espiritual no seu modo único de adorar a Deus”. Como é fazem isso? Como é que a Igreja consegue cativar tantos jovens em África e continua a perdê-los na Europa e na América?

É preciso entender que não é agora que os africanos são mais religiosos. Os Africanos são, de um modo geral, pessoas muito religiosas. Não são mais religiosos por causa do Catolicismo, mas são mais católicos porque são religiosos.

No Catolicismo, encontraram algo que já existia nas suas crenças tradicionais. Portanto, os jovens em África também acham o Cristianismo muito atractivo pela mesma razão. Tudo se resume à realidade cultural que os rodeia. Em África, porque a religião é parte integrante da vida quotidiana, o Cristianismo capta a imaginação dos jovens, que têm contacto com a religião desde o berço.

Além disso, há muitos aspectos das culturas e espiritualidades dos Africanos que encontraram lugar no Catolicismo moderno, como a dança, actividades carismáticas e de justiça social, que atraem muito mais jovens em África do que na Europa.

© Samuel James | The New York Times

Jorge Mario Bergoglio, da Argentina, tem dedicado grande atenção ao Sul Global (ainda que só um africano desempenhe um importante cargo executivo no Vaticano: o arcebispo Protase Rugambwa, da Tanzânia, secretário do Dicastério para a Evangelização dos Povos). Se o próximo papa for africano, de que país poderá vir?

Não tenho certezas sobre quem será o próximo papa. Na minha cultura, não falamos sobre o sucessor de ninguém que amamos enquanto estiver vivo(a). Seria contra a cultura africana falar sobre o sucessor do Papa Francisco. Mas espero que ele nomeie mais africanos para serem prefeitos de alguns dos dicastérios da Cúria Romana. Nós, Africanos, merecemos mais lugares de alto nível à mesa da Igreja.

Sim, há uma possibilidade real de o próximo papa ser oriundo de África, mas deixamos o futuro nas mãos de Deus e rezamos pelo sucesso do pontificado de Francisco, principalmente que este processo sinodal nos permita caminhar para uma Igreja aberta, inclusiva, fiel e frutífera, a exemplo do Senhor.

Professor de Cristianismo Mundial e Estudos Africanos no Centro para o Catolicismo Mundial e Teologia Intercultural na Universidade DePaul, em Chicago, Illinois (EUA), o padre Stan Chu Ilo, é considerado uma eminência no estudo das culturas e tradições religiosas em África.
© Cortesia de | Courtsey of Stan Chu Ilo

Estes artigos foram publicados na edição de Março 2023 da revista ALÉM-MAR | These articles were published in the March 2023 edition of the Portuguese news magazine ALÉM-MAR

2023: Crises que não podemos ignorar

Iniciada em Fevereiro de 2022, a brutal invasão russa da Ucrânia, o maior conflito na Europa desde 1945, monopolizou a atenção e ofuscou outros dramas no resto do mundo. Neste Ano Novo, as mais importantes organizações humanitárias suplicam que não se feche os olhos aos países que têm sido esquecidos. (Ler mais | read more...)

Quase 6 milhões de pessoas fugiram da Ucrânia para outros países europeus desde a invasão russa, em Fevereiro de 2022, até Maio do mesmo ano; outros 8 milhões ficaram em situação de deslocados internos, segundo agências humanitárias da ONU.
© Bloomberg.com

Os números divulgados por agências das Nações Unidas são alarmantes. O mundo enfrenta “a maior crise alimentar da história moderna”, motivada por conflitos e choques climáticos, pelos efeitos de uma pandemia que resiste e pela ameaça de uma recessão global.

Em 2022, viviam em condições de insegurança alimentar pelo menos 222 milhões de pessoas em 53 países. Em 37, a fome era um “risco real” para 45 milhões. As previsões para 2023 parecem mais sombrias.

O objetivo de pôr fim à pobreza extrema, que afecta agora uns 90 milhões de pessoas, “já não é alcançável”.  Não se criam empregos suficientes, mas aumentam imenso os preços dos produtos básicos. A saúde é assustadoramente frágil: a Covid-19 continua em mutação, com poucas vacinas administradas nos países mais pobres. Há novos surtos de Monkeypox (varíola dos macacos), Ébola e cólera; há menos testes, tratamento e prevenção de enfermidades como a sida.

O mundo enfrenta “a maior crise alimentar da história moderna”, motivada por conflitos e choques climáticos, pelos efeitos da pandemia de Covid-19 e pela ameaça de recessão global.
© Jayanta Dey | Reuters

As alterações climáticas (2022 foi o ano mais quente, com secas e inundações devastadoras) obrigaram a respostas de emergência em pelo menos 15 dos países mais desprotegidos. Segundo a ONU, estima-se que, até ao final deste século, “as mortes causadas pelo calor extremo poderão ser comparáveis, em magnitude, a todos os cancros e doenças infecciosas”.

Conflitos violentos continuam a dizimar civis, sobretudo quando se atacam escolas e hospitais em áreas densamente povoadas. Os mais vulneráveis têm sido crianças. Guerras e “desastres que não são naturais” deixaram 103 milhões de pessoas – 1% da população mundial – em situação de deslocadas, uma tendência que persiste desde há 20 anos, mas que agora “atingiu um recorde”, segundo o ACNUR. Cerca de dois terços dos refugiados e requerentes de asilo são originários de países onde falta comida para subsistir.

Em 2022, segundo a ONU, viviam em condições de insegurança alimentar pelo menos 222 milhões de pessoas em 53 países; em 37, a fome era um “risco real” para 45 milhões.
© Daniel Berehulak | The New York Times

A nível mundial, em maior número do que os homens e rapazes, as mulheres e raparigas continuam a ser as principais vítimas da pior pobreza – pelo menos 338 milhões –, a vasta maioria delas na África subsariana e na Ásia do Sul e Central. Os cálculos da ONU apontam para “quatro gerações, ou 142 anos” até ser possível chegar à paridade de género.

A violência em relação às meninas aumentou com a pandemia: pelo menos 113 milhões correm o risco de ser arrastadas para casamentos infantis. A covid também teve impacto na educação: nos países de baixos rendimentos, as crianças foram sujeitas a um confinamento mais prolongado; dos 1600 milhões impedidas de frequentar a escola, 1300 milhões não tinham internet em casa, nem manuais para estudar.

Para 2023, prevê-se que “uma em cada 23 pessoas” – um total sem precedentes de 339 milhões – precisará de assistência humanitária. Isto é o equivalente ao terceiro país mais populoso do mundo – os EUA. Só as Nações Unidas e organizações suas parceiras planeiam socorrer este ano 230 milhões em 69 países, o que exigirá fundos de 51.500 milhões de dólares. O que se segue são algumas das crises que não devemos ignorar.

África

Mulheres que fugiram da seca na Somália fazem fila para receber alimentos distribuídos por voluntários num campo para pessoas deslocadas no bairro de Daynille, nos arredores de Mogadíscio, a capital, em 5 de Junho de 2019.
© Farah Abdi Warsameh | Associated Press| The Washington Post

Dos 16,8 milhões de habitantes da Somália (três milhões dos quais deslocados internos), quase metade, ou 7,8 milhões, vão precisar de ajuda internacional até meados de 2023, porque a um conflito armado que dura há três décadas juntou-se uma seca de que não há memória, alerta o International Rescue Committee (IRC). Todos os dias há somalis a morrer de fome.

Num país que importa mais de 90% dos seus alimentos, profundamente dependente dos cereais que (agora não) chegam da Ucrânia ou da Rússia, o número de pessoas que, este ano, poderá enfrentar “níveis de segurança alimentar graves ou catastróficos” deverá ascender a 8,3 milhões.

Na Etiópia, a invasão russa da Ucrânia também abalou a economia, a acção combinada de uma seca prolongada no Sudeste (seis anos consecutivos sem chuva, com um subsequente surto de cólera por falta de água potável), e uma guerra na região do Tigré, no Norte (considerada “a mais mortífera de 2022”, interrompida em Novembro por um frágil cessar-fogo) deixou 20 milhões em insegurança alimentar e 3,5 milhões na condição de deslocados internos. De um total de 120,8 milhões de habitantes, 26,6 milhões precisam de assistência humanitária urgente.

Etíopes que fugiram da guerra no Tigray procuram abrigo num campo na fronteira com o Sudão.
© Mohamed Nureldin Abdallah | Reuters | The Guardian

No Burkina Faso, que enfrenta “a maior crise humana da sua história”, segundo a ONU, uma em cada quatro pessoas precisa de ajuda, ou seja 4,7 milhões dos 22,1 milhões de habitantes. Num Estado onde grupos jihadistas controlam cerca de 40% do território, mais de 1,76 milhões são deslocados internos. A estes juntam-se 29 mil refugiados, a maioria proveniente do Mali, também fustigado por ataques da Al-Qaeda e do Daesh. Em países vizinhos, há também 55 mil refugiados e requerentes de asilo naturais do Burkina Faso.

Na República Democrática do Congo (RDC, ex-Zaire), 26,4 milhões dos 95,2 milhões de habitantes necessitam de ajuda humanitária. Este é um país onde operam mais de cem grupos armados no Leste e onde 5,6 milhões de pessoas são deslocados internos. A situação já era grave antes de o grupo rebelde M23, supostamente apoiado pelo Ruanda, ter desencadeado uma nova ofensiva em Março de 2022. O reaparecimento do M23 fez aumentar não apenas o número dos que fogem de casa (quase meio milhão só na província de Ituri, no Kivu Norte), mas também o dos que são vítimas de assassínios e violações.

Com eleições gerais previstas para este ano, teme-se um crescendo de tensões políticas e uma escalada nos combates, o que por sua vez agravará os problemas com a saúde (surtos recorrentes de cólera, paludismo, sarampo, Ébola, peste bubónica) e alimentação (um em cada quatro congoleses enfrenta níveis graves de insegurança alimentar, o que obriga muitas famílias a retirar os filhos da escola ou a tomar outras decisões que sacrificam o seu futuro).

A UNICEF estima que mais de 125 mil crianças no Chade com menos de 5 anos de idade precisam de tratamentos para salvar as suas vidas, porque sofrem de desnutrição severa.
© Ben Curtis | Associated Press

No Sudão do Sul, 9,4 milhões dos 11,6 milhões de habitantes precisam de ajuda humanitária. Pelo menos 2,3 milhões são refugiados – “a maior crise em África” –, metade dos quais crianças, que fogem sozinhas. Estima-se que 7,8 milhões de sul-sudaneses vão enfrentar insegurança alimentar nunca vista, nem durante o auge da guerra civil (2013-2020), o que “forçará uma em cada quatro pessoas a fazer escolhas: comer ou vender o que têm para sobreviver”.

O cessar-fogo na mais jovem nação do mundo não impediu a proliferação de grupos armados, envolvidos numa série de conflitos. As alterações climáticas, com secas e inundações, têm destruído colheitas e exacerbado doenças. As receitas do petróleo não são suficientes para amparar uma economia que também sofreu o impacto da guerra na Ucrânia.

No Chade, conflitos armados prolongados e instabilidade política permanente fizeram deste país, em termos globais, “o menos capaz de enfrentar as alterações climáticas”, segundo o IRC. No Índice de Desenvolvimento Humano, ocupa o segundo pior lugar (190º em 191). Pelo menos 6,9 milhões dos 17,4 milhões de habitantes precisam de ajuda. Um milhão de deslocados à força coexiste com cerca de 580 mil refugiados vindos de Estados vizinhos, como o Sudão.

Más colheitas, devido a chuvas constantes em 2022 (“uma catástrofe” para a agricultura e a pecuária), a subida dos preços dos cereais e fertilizantes importados da Ucrânia, a falta de acesso a água potável, à saúde e à educação contribuíram para aumentar a pobreza, a insegurança alimentar (que afecta 6,1 milhões de chadianos – 2,1 milhões dos quais em “fase severa”) e as doenças (sarampo, paludismo e poliomielite atacam mais de 2 milhões).

Américas

Imigrantes venezuelanos em Bogotá, a capital da Colômbia, vendem artesanato feito a partir de notas que perderam o valor no seu país, afectado por uma grave crise económica.
© Reg Natarajan | Wikipedia

No Haiti, a violência é frenética desde o assassínio do presidente Jovanel Möise em 2021. Desesperado, o seu sucessor, Ariel Henry, pediu apoio militar estrangeiro por não ser capaz de conter os bandos armados que controlam agora mais de metade do país.

Eles “sufocam” a capital, Port-au-Prince, bloqueiam estradas, controlam terminais de combustível e rotas de distribuição de bens essenciais. O “reino de terror” que eles impõem inclui “o recurso a violações para punir e intimidar civis, muitos deles crianças com 10 anos de idade”, denuncia a ONU.

O país está “à beira do precipício”, adverte o IRC, devido “a uma instabilidade política incontrolável, à actividade criminosa e aos problemas económicos que o afligem”. Os preços dos alimentos subiram 30%. Um surto de cólera, activo desde Outubro de 2022, vai causar ainda mais mortos. Dos 11, 7 milhões de haitianos, 5,2 milhões precisam de ajuda; 4,7 milhões enfrentam insegurança alimentar; mais de 113 mil são deslocados.

Na Venezuela, pelo menos 7 milhões dos 29,3 milhões de habitantes precisam de assistência. Há 12,3 milhões em insegurança alimentar – três em cada quatro vivem abaixo do limiar de pobreza –, mais de 8 milhões têm dificuldade em conseguir ajuda médica e 9,3 milhões não têm acesso a medicamentos. Mais de 7 milhões de venezuelanos abandonaram o país desde 2014.

Uma hondurenha e os seus filhos atravessam o que resta de uma ponte destruída pelo furacão Iota, em 2022. O país vive crises atrás de crises.
© Getty | International Rescue Committee

Em 2023, também necessitarão de ajuda países como a Colômbia (7,7 milhões), El Salvador (1,1 milhões), a Guatemala (5 milhões) e as Honduras (3,2 milhões). Neste último, as crises “são multidimensionais e cumulativas, num contexto de grande fragilidade, devido a conflitos políticos e sociais, aos efeitos das alterações climáticas, a deslocamentos forçados e a migrações”.

Pelo menos 59% da população (4,9 milhões, incluindo 500 mil crianças) vive na pobreza, agravada pela subida dos preços do milho branco (70%), dos fertilizantes (88%) e da energia (30%). As Honduras registam uma das maiores taxas de homicídio da região (6,79 por 100 mil habitantes), só ficando atrás da Jamaica e da Venezuela.  O ratio de 6,8 femicídios por cada 100 mil mulheres é “o mais elevado de toda a América Latina e Caraíbas”, quase triplicando o ratio global de 2,3.

Ásia

De um total de 170 países, o Afeganistão é o pior para a inclusão das mulheres – proibidas de estudar e de trabalhar, cada vez mais vítimas de todo o tipo de abusos.
© Getty Images | Foreign Policy

No Afeganistão, onde quase toda a população (97%) vive na pobreza e 91% do rendimento familiar é gasto em comida, 28,3 milhões dos 40,8 milhões de habitantes precisam de assistência humanitária. Mais de 18 milhões enfrentam níveis graves de insegurança alimentar. Cerca de 2,7 milhões são deslocados internos. De um total de 170 países, este é o pior para a inclusão das mulheres – proibidas de estudar e trabalhar, vítimas de todo o tipo de abusos -, e também para a justiça e a segurança.

Os serviços de saúde e educação, com as despesas reduzidas em 81%, não conseguem atender às muitas necessidades. Além das políticas repressivas dos talibãs, que regressaram ao poder em 2020 após duas décadas de guerra, a miséria afegã é também agravada pelas alterações climáticas. Três anos de seca e inundações derreteram glaciares nos Himalaias, arrasaram colheitas, ceifaram vidas.

O Paquistão é extremamente vulnerável às alterações climáticas: em 2022, registou temperaturas acima dos 45ºC e depois huvas de monção torrenciais, cheias e desabamentos de terras.
© Getty Images | Inside Climate News

País particularmente vulnerável aos choques climáticos, o Paquistão sofreu, em 2022, primeiro uma intensa onda de calor, com temperaturas acima dos 45ºC, que causou incêndios florestais, destruiu colheitas (mais de 50%) e cortou a electricidade.

Vieram depois chuvas de monção torrenciais, cheias e desabamentos de “proporções épicas”, que afectaram cerca de 33 milhões de pessoas, destruindo casas, estradas e pontes. Isto, em combinação com uma crise económica, uma crise da dívida e uma crise política, aumentou a necessidade de ajuda internacional para socorrer 20,6 milhões dos 229,5 milhões de paquistaneses, 4,7 milhões dos quais em insegurança alimentar.

Europa

Em Março de 2022, o International Rescue Committee (IRC) calculava que, dos 43,2 milhões de ucranianos, 17,6 milhões necessitam de ajuda humanitária.
© Comité Internacional da Cruz Vermelha

A guerra na Ucrânia completa em 2023 o seu primeiro aniversário, e parece não ter fim à vista. É considerado “o pior conflito na Europa desde 1945”. Cerca de oito milhões de ucranianos fugiram, a maioria para países vizinhos, como a Polónia, e não sabem quando poderão regressar. Outros oito milhões são deslocados internos.

Os que continuam no país são obrigados pelos bombardeamentos russos a viver sem água, comida, cuidados de saúde e higiene, luz ou aquecimento, porque as infra-estruturas são diariamente destruídas pelas tropas enviadas pelo Kremlin.

A guerra no país que era o “celeiro do mundo” está a causar nos países mais pobres “uma crise alimentar de longa duração”. Na imagem, um centro de armazenagem de cereais em Odessa.
© Simon Townsley | The Telegraph | Groupe de la Banque Africaine de Développement

Em Dezembro, o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (OHCHR) tinha verificado um total de 6919 civis mortos – 429 dos quais crianças – e mais de 11 mil feridos, desde que começou a invasão ordenada por Vladimir Putin, em 24 de Fevereiro de 2022.

Por seu turno, o ICR (International Rescue Committee) calcula que, dos 43,2 milhões de ucranianos, 17,6 milhões necessitam de ajuda humanitária. As consequências da guerra na Ucrânia – “o celeiro do mundo”, cujas exportações de cereais e sementes desceram de 7 milhões de toneladas métricas por mês para 3,5 milhões devido ao bloqueio russo de portos por onde se escoava 95% da produção – continuam a fazer-se sentir nos países mais pobres, causando uma “crise alimentar de longa duração”.

Médio Oriente

Dos 31,2 milhões de iemenitas, 21,6 milhões precisam de ajuda humanitária, entre eles 2,2 milhões de crianças desnutridas.
©Ahmad al-Basha | AFP | Getty Images | CNN

O Iémen, com 80% da população a viver abaixo da linha de pobreza, entra em 2023 em risco de escalada de uma guerra que já dura há nove anos, alerta o IRC. Todas as tréguas têm sido de curta duração.

Dos 31,2 milhões de iemenitas, 21,6 milhões precisam de ajuda humanitária, entre eles 2,2 milhões de crianças desnutridas. Em 2022, mais de 4 milhões de iemenitas eram deslocados internos e 17 milhões enfrentavam níveis graves de insegurança alimentar.

Pelo menos 1,2 milhões de funcionários públicos recebem apenas esporadicamente – ou nem sequer recebem – o seus salários desde 2016. Noventa por cento dos alimentos no Iémen são importados – 42% da Ucrânia e da Rússia. Com o trigo a escassear e os preços a aumentar, vai ser cada vez mais difícil o sustento das famílias.

No Líbano, os cerca de 1,5 milhões de refugiados sírios – ¼ da população -, têm-se tornado “bodes expiatórios” dos males do país.
© Civil Society Centre

No Líbano, incapaz de resolver uma dupla crise, política e económica, pelo menos 2,3 milhões dos 6,7 milhões de habitantes – mais de 80% dos quais a viver na pobreza – precisam de ajuda internacional. Pelo menos 70% das famílias pedem empréstimos para comprar alimentos. A libra libanesa perdeu 95% do seu valor. A taxa de desemprego é de quase 30%.

O primeiro surto de cólera desde 1993 propagou-se rapidamente. Esta situação, causada por décadas de “má governação e corrupção generalizada”, depois agravada pela pandemia, castiga com mais severidade os 1,5 milhões de refugiados sírios – ¼ da população -, que se têm tornado “bodes expiatórios” dos males do país.

O ano de 2022 foi um dos mais mortíferos na Cisjordânia devido ao número crescente de ataques de colonos judeus. Aumentou também, segundo a ONU, o êxodo forçado dos habitantes das aldeias beduínas – mais de 1100 pessoas expulsas das suas terras desde Janeiro.
© Maya Alleruzzo | Associated Press | Al Jazeera

Na Palestina, com 5,3 milhões de habitantes e há mais de cinco décadas sob ocupação israelita, precisam de ajuda 2,1milhões (61% dos quais na Faixa de Gaza, há 15 anos bloqueada por terra, mar e ar). A situação está a agravar-se desde que chegou ao poder um governo israelita da ultra-direita, que prometeu aos palestinianos mais repressão e menos direitos.

As Nações Unidas consideraram 2022 “um dos anos mais mortíferos” da história recente do conflito israelo-palestiniano, em grande medida devido a um crescendo de ataques de colonos judeus, uma tendência que deverá continuar.

Na Síria, que 12 anos de guerra e penúria transformaram num “narco-Estado”, onde 90% da população vive abaixo do limiar da pobreza e onde o Daesh, apesar de derrotado continua a ser uma ameaça, 15,3 milhões de um total de 19,4 milhões de habitantes precisam de ajuda internacional. Pelo menos 12 milhões de sírios sofrem de insegurança alimentar, 75% não têm acesso aos produtos e serviços básicos.

Em 2022, o primeiro surto de cólera em mais de uma década, com mais de 45 mil casos, expôs a fragilidade das infra-estruturas de abastecimento de água e de saúde. Um terço dos hospitais e quase todos os centros de cuidados primários não funcionam.

No Nordeste, uma região controlada por grupos rebeldes curdos, mas onde também estão presentes forças dos EUA, da Rússia, do Irão e da Turquia, teme-se agora que Ancara avance com uma invasão terrestre, que causará ainda maior instabilidade.

Na Síria, depois de 12 anos de guerra e penúria, 15,3 milhões de um total de 19,4 milhões de habitantes precisam de ajuda internacional. © Felipe Dana | Associated Press | NPR

Fontes:

Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (OHCHR), Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), International Committee of the Red Cross (ICRC),International Crisis Group (ICG), International Rescue Committee (IRC), Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas (PAM).

Este artigo foi publicado na edição de Fevereiro de 2023 da revista ALÉM-MAR | This article was published in the February 2023 of the Portuguese news magazine ALÉM-MAR

Cabo Delgado: “A insurgência tem um projecto político baseado na religião”

O conflito que dura há cinco anos no Norte de Moçambique já causou mais de 4000 mortos e quase um milhão de deslocados. Os atacantes recorrem a todos os meios violentos para impor uma ideologia jihadista. Numa entrevista que me deu, o historiador Eric Morier-Genoud analisa esta guerra contra o Estado e a sociedade, e diz que a riqueza de uma província pobre não é uma maldição. (Ler mais | Read more…)

A maioria dos muçulmanos em Cabo Delgado não se identifica com o grupo que, tentando impor uma rígida doutrina islâmica, há vários anos aterroriza esta província moçambicana.
© plataformamedia.com

Eric Morier-Genoud foi um dos primeiros investigadores a estudar a seita que atormenta o “Cabo Esquecido” (1), inicialmente autoproclamada Ahlu Sunnah Wal-Jamâa e hoje identificada como Al-Shabaab. Cinco anos após o início da insurreição do grupo agora associado ao Daesh, o professor de História Africana na Queen’s University de Belfast, Reino Unido, autor de um dos ensaios mais recentes e de referência sobre este fenómeno – A Insurgência Jihadi em Moçambique: Origens, Natureza e Início (2) – ajuda-nos a compreender quem, afinal, são e o que pretendem os “mashababos” ou “machababos”, como os rebeldes são conhecidos não apenas no Norte, mas por todo o país (3).

Especializado em política e religião, guerra e resolução de conflitos na África Austral, Morier-Genoud tem publicados vários livros e artigos sobre o Islão e também sobre a Igreja Católica em Moçambique, com destaque para Catholicism and the Making of Politics in Central Mozambique, 1940-1986, obra centrada na Diocese da Beira, no seu primeiro bispo, Sebastião Soares de Resende, e nos muitos missionários que, antes e depois da independência, lutaram contra um Estado colonial repressivo.

Soldados moçambicanos patrulham as ruas de Palma, em Cabo Delgado. 
© João Relvas | EPA | The Guardian

O conflito armado em Cabo Delgado eclodiu em Outubro de 2017, mas, segundo a sua investigação A Insurgência Jihadi em Moçambique, o grupo que aterroriza a província terá nascido uma década antes, em 2007, no distrito de Balama, ou até mais cedo, em 1989-1990, no distrito de Nangade. Como é que se deu a metamorfose deste grupo, originalmente apenas de contestação às autoridades muçulmanas locais, para outro de carácter militar, com alvos específicos?

A origem exacta da seita Al-Shabaab [“Juventude, em árabe], que se transformou em meados da década de 2010 num grupo terrorista, continua imprecisa. Serão necessários muito mais estudos para esclarecermos o assunto por completo. Mas já sabemos o básico: que esta seita (um grupo religioso pouco institucionalizado e em alta tensão com o Estado e a sociedade) nasceu no fim dos anos 2000 e estava bem implantada na província de Cabo Delgado nos anos 2010.

Os membros da seita ganharam confiança, a partir de meados dos anos 2012-2013, e começaram a intervir na sociedade, para combater o que achavam ser pecado. Por exemplo, a educação não religiosa e o álcool. Isso levou a vários confrontos, alguns violentos, com outros muçulmanos, com a sociedade e com elementos do Estado. Além dos confrontos, houve prisões e condenações. Esta dinâmica resultou numa maior radicalização da seita, que começou, provavelmente em 2015 ou 2016, a treinar-se para um combate armado contra o Estado e a sociedade, que considerava “ímpia”. Em outubro de 2017 passou definitivamente ao ataque.

Residentes de Cabo Delgado, agora na situação de deslocados internos, aqui numa reunião da comunidade em Tara Tara, distrito de Matuge.
© Alfredo Zuniga | AFP | Al Jazeera

Por que é que o senhor ainda descreve o Al-Shabaab como uma “nova seita”? Em que se distinguem os membros deste grupo dos sufis e dos wahhabitas, uma vez que todos são sunitas (4)?

O Al-Shabaab emergiu como novo grupo, com ideias e práticas religiosas novas, em que se destacam a aplicação integral da Sharia [lei islâmica] e um programa para se distanciar do Estado laico. Os seus membros tentaram, de início, tomar o controlo das mesquitas já existentes, mas, quando não conseguiram (pois as suas ideias eram radicais de mais, tanto para sufis como wahhabitas), estabeleceram as suas próprias mesquitas, em redor das quais criaram micro-sociedades regidas unicamente pela Sharia.

Proibiram os seus seguidores de entrar em contacto com o Estado (escolas, hospitais, polícia, etc.) e de socializar com outros muçulmanos que não pensassem como eles. Cortaram até [relações] com familiares que não aderissem à seita. Isto chamamos sociologicalmente de seita – antes de 2017 a população e o governo em Cabo Delgado também chamavam o grupo de “seita religiosa”.

Agora, Al-Shabaab, sufis e wahhabitas são todos sunitas, sim, mas têm projetos religiosos, sociais e políticos bastante diferentes. O CISLAMO [Conselho Islâmico de Moçambique] pode ser conservador social e religiosamente, mas aceita e respeita o Estado laico e trabalha com todos na sociedade – tal como os sufis. Esta é uma diferença enorme e essencial.

De início, o Al-Shabaab podia parecer próximo do CISLAMO, mas discordava deste profundamente sobre a relação com o Estado laico e outros crentes – hoje discordam profundamente sobre à questão do uso da violência. Assim sendo, o CISLAMO sempre se opôs ao Al-Shabaab e assim continua.

Várias aldeias em Cabo Delgado têm sido incendiadas, impedindo o regresso dos seus moradores.
© agencia.ecclesia.pt

Em 2017, o senhor dizia que a rebelião era “principalmente um fenómeno religioso” e que o então autodenominado Ahlu Sunnah Wal-Jamâa (5) pretendia, acima de tudo, “criar uma contra-sociedade”. A sua perspectiva mudou, depois dos estudos recentes no terreno?

Ahlu Sunnah Wal-Jamâaé o nome que designa a maioria ortodoxa dos muçulmanos em qualquer país. Os membros do Al-Shabaab tentaram dar a si mesmos este nome, para se colocarem ao lado dos que estão correctos religiosamente, os que são ortodoxos e os que devem ser seguidos.

Os outros muçulmanos, e a sociedade em geral, negaram-lhes esta pretensão e chamaram à seita Al-Shabaab – um termo derrogatório que alude à sua suposta juventude ou imaturidade, e também uma referência aos jihadistas violentos da Somália com o mesmo nome.

A seita acabou por se apropriar desta designação e, desde o início do conflito, nunca se identificou como Ahlu Sunnah Wal-Jamâa, assumindo-sehabitualmente como “Al Shabaab”.

Quanto à questão de esta ser ou não uma insurreição religiosa, não mudei de ideias. Temos de distinguir os estudos que procuram entender as causas da insurgência dos que procuram entender quem são o insurgentes e o que querem.

A maior parte dos estudos realizados desde 2017 invoca as causas da insurgência, que investigadores relacionam com a pobreza, a marginalização de parte da população, expectativas frustradas e influências externas (incluindo a ideologia jihadista). Quanto a mim, procuro entender o que os insurgentes querem e como se identificam – qual o seu projecto para o presente e o futuro.

O que demonstrei, em conjunto com outros investigadores, é que os insurgentes têm um projecto que não é bem religioso, mas sim político-religioso. Isto é: têm um projecto político baseado na religião. Querem uma sociedade regida exclusivamente pela religião, ou melhor, regida pela versão deles da religião islâmica. Portanto, se as causas da insurgência são as acima mencionadas, já a identidade do grupo e o projecto pelo qual ele luta é um projeto político-religioso – um projecto jihadista.

Com as estradas bloqueadas pelos insurrectos, a ajuda alimentar aos que se refugiram em Pemba, junto de amigos e familiares, tem chegado por via marítima.
© Roberto Paquete | DW

Há uma ideia generalizada de que o Al-Shabaab atrai, sobretudo, muçulmanos pobres e marginalizados, das etnias muani e macua (6), mais próximas da Renamo (oposição), mas há testemunhos (7) de que, nas fileiras dos rebeldes, se encontra também “um número crescente de jovens macondes”. Como explica a capacidade de recrutamento junto de uma etnia habitualmente associada ao Cristianismo e à Frelimo (no poder)?

Guerras são assuntos complexos. Começam duma certa maneira e depois ganham dinâmicas próprias. É correta a avaliação de que a insurgência começou com muçulmanos que eram na sua maioria muanis e macuas. Mas depois há recrutamento de gente (inclusive de muitas crianças) que o grupo armado apanha e mobiliza à força. Há também adesão voluntária de gente insatisfeita. Entre todos eles, especialmente os raptados, pode haver macondes e pessoas de qualquer outra etnia.

Mas, as ditas etnias não são algo de homogéneo. Há muanis no Governo, há macondes na oposição; há muanis que são cristãos e há macondes que são muçulmanos. O Governo português já estava atento ao avanço do Islão entre os macondes nos anos 1960, durante a guerra de libertação. Portanto, é muito possível que haja macondes na insurgência – macondes muçulmanos. Agora, que haja cristãos não convertidos ao Islão entre os jihadistas, duvido.

Crianças num campo para deslocados internos em Metuge, província de Cabo Delgado.
© UNICEF

A alegada adesão dos macondes surpreende tendo em conta que a guerra dos “machababos” tem sido impiedosa: massacres, execuções, raptos, violações, decapitações, tráfico de seres humanos, escravatura sexual, destruição de aldeias, mais de 4000 mortos, quase um milhão de deslocados. Como é que o grupo consegue apoios preciosos – há relatos (7) sobre mulheres que são espias e agem até como comandantes; sobre comerciantes que contribuem com fundos; sobre soldados que mudam de campo; sobre famílias que encorajam os filhos a juntar-se aos insurrectos…?

Os insurgentes são brutais e violentos, mas não de maneira indiscriminada. São extremamente violentos em combate e com prisioneiros, mas não com a população que vive com eles e dentro dos seus campos, onde reina uma certa ordem e calma, se seguirem as regras deles. Que tenham alguns apoios entre a população baralha muitos observadores, mas este assunto é complicado e tem de ser analisado com alguma subtileza.

Por um lado, há familiares e gente que se sente marginalizada na sociedade sob controlo do Governo, podendo prestar apoios pontuais ou estratégicos. Há também quem esteja disposto a vender informação ou bens aos terroristas que pagam por isso. Por outro lado, há gente presa em combate e forçada a juntar-se aos insurgentes. E há todos os que não têm alternativa numa situação de guerra, em que indivíduos têm de escolher um ou outro campo.

Estudos sobre diversos conflitos mostram que, em zonas e tempo de guerra, a população muitas vezes não tem escolha, em determinados momentos, a não ser manter-se neutra ou colaborar para sobreviver. O colaboracionismo pode ser uma excepção, único e pontual, mas também constante. Há diferentes casos. A situação é sempre complexa, tudo no contexto da violência extrema e de morte possível a qualquer momento.

A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) alerta para a necessidade de mais ajuda humanitária a quem foge dos incessantes ataques terroristas em Cabo Delgado.
© Igor Barbero | MSF

Quais as estimativas quanto ao número de efectivos do Al-Shabaab – centenas ou milhares? Quem os treina? Quem os arma? O seu poder bélico já não é, seguramente, só facas, catanas e espingardas rudimentares, como em 2017.

Não existem informações públicas precisas sobre os efectivos do Al-Shabaab, quem o treina ou arma. Talvez saibam o Governo e os seus aliados. Mas, com o passar dos anos, temos visto evolução no que toca ao material e aos métodos usados pelos insurgentes.

A partir de 2019, ganharam confiança, meios e técnicas, desferindo ataques ousados em Mocímboa da Praia e Palma, entre outras [localidades]. Uma boa parte do material que usaram vinha dos paióis do exército que eles atacaram e pilharam. Especialistas identificaram as armas como sendo provenientes do stock do Estado.

Quanto aos treinos, é possível que o Estado Islâmico [ou Daesh] tenha mandado formadores, ou fornecido conselhos à distância. Mas, desde [que começou em Julho e Agosto de 2021] a intervenção militar do Ruanda e da SADC [comunidade que inclui países como a África do Sul e Angola], vemos um enfraquecimento dos insurgentes assim como uma mudança de tática, sobretudo após perderem as suas maiores bases. Eles dividiram-se em grupos pequenos e passaram a uma táctica clássica de guerrilha, em movimento constante, com ataques oportunistas, evitando grandes confrontos, etc.

Neste contexto de guerrilha, é difícil fazer uma avaliação clara da situação dos insurgentes, pois uma parte dos seus ataques é agora de propaganda, para dar a impressão de que são fortes e estão presentes em muitos focos.

Moçambicanos deslocados em Montepuez. Cabo Delgado é uma província com vários recursos naturais, mas essa riqueza, explorada por companhias estrangeiras, ainda não chegou à população.
© pulitzercenter.org

No entanto, diz-se que a aliança entre o Daesh e o Al-Shabaab, agora integrado na “Província da África Central do Estado Islâmico”, terá permitido uma escalada nos ataques terroristas, que alastraram ao Sul, e alguns têm questionado a eficácia das ofensivas das tropas moçambicanas em concertação com outras forças (8).

Os membros do Al-Shabaab lançaram ataques na província de Niassa, em 2021, e na província de Nampula, em 2022, mas não se instalaram ali militarmente. Retiraram-se após os ataques. Não se sabe bem se foram lá tentar instalar-se e falharam, ou se foram para recrutar novos elementos, dispersar as tropas governamentais, ou fazer publicidade.

Seja como for, esses ataques em novas províncias surgiram como reposta ao sucesso das forças da SADC e do Ruanda. O risco agora é que, num futuro próximo, os insurgentes venham a instalar-se naquelas províncias porque já conhecem o caminho. Impedir que possam voltar é o desafio do Governo e dos seus aliados.

Civis que fugiram dos ataques terroristas aguardam a sua vez para receber cuidados médicos num centro de saúde na cidade de Pemba.
© Mariana Alcoforado | Comité Internacional da Cruz Vermelha

A parceria com o Daesh está para durar ou há tensões, traições e deserções entre militantes e dirigentes, nacionais e estrangeiros [tanzanianos, congoleses, somalis, sudaneses, sul-africanos… (3)], do Al-Shabaab? Isso poderá vir a fragilizar o grupo?

Sobre a relação dos insurgentes com o Daesh existe pouca informação. Sabemos que contactaram o Daesh em 2018 e que a aliança foi formalizada em meados de 2019. De início, o Al-Shabaab fazia parte da “Província da África Central” do Estado Islâmico, mas, desde Maio de 2022, o Daesh designa-o “Província de Moçambique”.

Pode ser que seja sinal de estreitamento de relações dos insurgentes com o Daesh, mas pode ser também um exercício de relações públicas para esconder o enfraquecimento do grupo. Em qualquer dos casos, é uma demonstração de que a aliança continua.

No final de 2022, quase um milhão de pessoas estavam na condição de deslocados internos em Cabo Delgado, devido aos combates entre grupos terroristas e forças governamentais.
©Médicos Sem Fronteiras (MSF)

O investigador moçambicano João Feijó (7) diz que o êxodo da população e a consequente diminuição da produção de alimentos acessíveis aos insurgentes, os quais “nunca se interessaram em semear e cultivar, apenas em roubar e saquear”, poderá obrigá-los a aumentar os ataques em “zonas de produção e armazenamento, rotas de transporte ou zonas fronteiriças”. Isso, acrescenta Feijó, retira-lhes “vantagem em termos de camuflagem, acesso a informações, logística e recrutamento”. Como avalia este cenário?

O João Feijó e sua equipa fazem um excelente trabalho de investigação. Partilho a sua dúvida: como é que os insurgentes pensam sustentar-se em termos de alimentos se não se dedicam à agricultura e afastam população [dos campos] com ataques, saques e assassinatos?

A alimentação é um problema para eles: o Governo fala regularmente que há fome entre os insurgentes e quem fugiu da insurgência diz a mesma coisa, sobretudo durante o período menos produtivo. Talvez o Governo consiga usar este facto para melhor combater os insurgentes, mas é também possível que os Al-Shabaab mudem de posicionamento e começam a produzir comida.

Uma horta familiar num campo de realojamento em Montepuez, Cabo Delgado.
© Adriana Bianco | Programa Alimentar Mundial da ONU

Em 2017 e ainda hoje, vários analistas incluem entre as causas para a insurgência o nepotismo e a corrupção ligados à exploração de gás e petróleo por gigantes estrangeiros numa província depauperada e privada da meios de subsistência tradicionais. Outros associam-na à exploração ilegal de madeira e de pedras preciosas (como rubis), ou à caça furtiva e contrabando na porosa fronteira com a Tanzânia. (9) As riquezas do pobre “Cabo Esquecido” são “uma maldição” ou há formas de conter o terrorismo em Moçambique?

As riquezas não são uma maldição em si. A questão é como são geridas e os seus benefícios partilhados. Esse assunto é importantíssimo e continua a merecer grande debate em Moçambique. Nos últimos anos, tem-se falado muito dum Fundo Soberano para onde canalizar os futuros lucros do gás explorado em Cabo Delgado, e [em Novembro – mês em que foi anunciado o arranque das exportações de gás natural liquefeito da Bacia do Rovuma] o Conselho de Ministros aprovou tal projecto. Esperamos que ajude o país.

O que se fala em Moçambique não é tanto de uma maldição dos recursos, mas sim de uma “maldição anterior aos recursos”, pois os ganhos a obter com a exploração do gás ainda não começaram a chegar.

Estamos ainda na fase de investimento. A questão é mais a das expectativas que se criaram à volta das riquezas que estão por vir. Nos últimos dois-três anos, o Governo tem tentado reduzir essas expectativas, sublinhando que os lucros não chegarão imediatamente e que o povo moçambicano deve ser paciente.

Atija Bacar, a mãe (à esq.) e a sua neta passam os dias perto da sua tenda, num campo de deslocados que recebe ajuda dos Médicos Sem Fronteiras, em Mueda, Moçambique.
© Mariana Abdalla | MSF

Fontes:

(1) In: Insurgency, Illicit Markets and Corruption: The Cabo Delgado conflict and its regional implications; Global Initiative Against Transnational Crime, Fevereiro 2022;

(2) A versão portuguesa deste estudo, originalmente publicado em 2020 no Journal of Eastern African Studies, Vol XIV, Nº 3, foi editada em Março de 2021 pelo Instituto de Estudos Sociais e Económicos IESE), em Maputo; (https://www.iese.ac.mz/wp-content/uploads/2021/03/Cadernos-21_EricM-G.pdf)

(3) In: Cabo Delgado: Insurgents, Jihadists or Terrorists, de Fernando Jorge Cardoso, IMVF Policy Paper, Setembro 202. Este autor recusa descrever o Al-Shabaab como “grupo jihadista”, preferindo o termo “seita terrorista”, envolvida “não numa guerra civil ou revolta popular [mas] numa guerra contra o Estado e a população, a maioria muçulmanos”;

(4) Sobre os sunitas moçambicanos, sufis e wahhabitas, ver L’Islam au Mozambique après l’indépendance: histoire d’une montée em puissance, de Eric Morier-Genoud, “L’Afrique Politique”, 2002; sobre a animosidade e conflitos entre sufis e wahhabitas, ler também Transformations de l’Islam à Pemba au Mozambique, “Revue Afrique Contemporaine”, 2009; e Roots of Diversity in Mozambican Islam, “Lusotopie”, 2007, da autoria de Liazzat J. K. Bonate, historiadora da Universidade das Índias Ocidentais, em Trindade e Tobago, e investigadora principal do projecto God, grievance, and greed;

(5) Com o nome Ahlu Sunnah Wal-Jamâa, o grupo quis apresentar-se como “adepto da tradição profética [de Maomé] e da congregação”, para se “destacar das comunidades locais que supostamente praticavam um Islão degradado”, dizem os investigadores moçambicanos Saide Habibe, Salvador Forquilha e João Pereira, autores em Radicalização Islâmica no Norte de Moçambique: O Caso de Mocímboa da Praia, 2019;

(6) In: Assimetrias no Acesso ao Estado: Um Terreno Fértil de Penetração do Jihadismo Islâmico?, de João Feijó, “Observador Rural”, Nº 93, Junho 2020;

(7) In: Caracterização e Organização Social dos Machababos a Partir dos Discursos de Mulheres Raptadas, de João Feijó, “Observador Rural”, Nº 109, Abril 2021;

(8) No artigo Irá a intervenção estrangeira pôr fim ao terrorismo em Cabo Delgado?, “Policy Brief”, Institute for Securities Studies, Outubro 2021, Borges Nhamirre questiona a viabilidade e a transparência dos acordos do Governo de Maputo com forças regionais e internacionais (uma delas o grupo russo de mercenários Wagner, que abandonou Moçambique em 2019, depois de “rejeitado o seu plano para bombardear bases do Al-Shabaab”];

(9) In: Violent Extremism in Mozambique: Drivers and links to transnational organizes crime, Institute for Security Studies, de Martin Ewi , Liesl Louw-Vaudran , Willem Els , Richard Chelin , Yussuf Adam and Elisa Samuel Boerekamp,  “Southern Africa Report”, 51, Agosto 2022.

Eric Morier-Genoud, professor de História Africana na Queen’s University de Belfast, Irlanda do Norte, Reino Unido, há muito que estuda o grupo moçambicano Al-Shabaab, agora associado ao Daesh.
© Cortesia de | Courtesy of Eric Morier-Genoud

Cristãos de Moçambique: “A coragem de permanecer fiéis”

A relação entre a minoria católica e a maioria muçulmana em Cabo Delgado sempre foi harmoniosa. O conflito instigado pelo grupo Al-Shabaab “não é religioso” e a solução “não pode ser apenas a força militar”, assegura a Irmã Blanca Núbia Zapata, obrigada pela insurreição a mudar-se de Macomia para Pemba, capital da província.

Jovens católicos moçambicanos durante uma das cerimónias religiosas que marcou a visita do Papa Francisco, em Setembro de 2019
© Vatican News

Blanca Núbia Zapata Castaño, religiosa colombiana que pertence à Congregação das Irmãs Carmelitas Teresas de São José, está desde 2004 em Moçambique, um país onde, garante, “a convivência entre cristãos e muçulmanos sempre foi pacífica”. Tudo parecia correr bem até que, em 2020, o conflito em Cabo Delgado lhe bateu à porta.

A missão de Blanca Núbia e de outras três Irmãs era “tomar conta de uma escola secundária, um lar de jovens estudantes e uma escolinha”, no distrito de Macomia, norte da província, diz-me, em entrevista por WhatsApp e e-mail.

“Nos primeiros 15 anos, dedicámo-nos à educação formal de centenas de rapazes e raparigas que passaram pelas nossas instituições. Conseguimos implementar um projecto educativo que visava formar o homem do futuro. Apostámos no desenvolvimento do espírito ecológico dos nossos jovens e iniciámos com sucesso o projecto de estudo da Encíclica Laudato sì (1) e a plantação de uma floresta com 20 mil árvores.”

A Ir. Banca Núbia, da Congregação das Irmãs Carmelitas Teresas de São José, é uma das missionárias em Cabo Delgado.
© Cortesia de Blanca Núbia Zapata

Em 2020, insurrectos do grupo Al-Shabaab chegaram a Macomia, e a Ir. Blanca e as outras religiosas tiveram de se mudar para Metoro, “um lugar mais seguro”, onde foram “bem acolhidas” pelas Irmãs Filhas de Jesus. Em 30 de Julho de 2021, iniciaram uma segunda missão no distrito de Ancuabe.

“Além da educação das crianças na escolinha comunitária, conseguimos continuar o projecto de cuidar da nossa casa comum, plantando mais 11 mil árvores, trabalho feito com a participação activa da comunidade local e dos irmãos deslocados pelo conflito”, refere. “Esta iniciativa resultou bem porque cristãos e muçulmanos abraçaram juntos a causa de protecção do ambiente.”

Em Junho de 2022, o conflito alastrou-se a Ancuabe e, mais uma vez, as Irmãs tiveram de se afastar, refugiando-se em Pemba, capital de Cabo Delgado, onde aguardam “pacientemente as condições de segurança” para voltarem a um dos dois lugares de onde saíram.

O projecto “Casa Comum” ajudou a plantar milhares de árvores, no distrito de Ancuabe.
© Cortesia de | Courtesy of Blanca Núbio Zapata

“Na primeira fase do conflito, não houve um alvo religioso específico”, anota a Ir. Blanca. “A destruição de capelas, igrejas e missões é, na maioria dos casos, consequência de ataques indiscriminados e confrontos militares em aldeias e vilas, que levam à destruição de todo tipo de infra-estruturas, principalmente as governamentais.”

“Irmãos deslocados contam que, quando os chamados insurgentes aparecem nas aldeias, primeiro disparam para o ar, assim anunciando a sua chegada”, acrescenta a religiosa. “As pessoas fogem imediatamente. Quem tiver a ‘má sorte’ de ser apanhado, é morto ou raptado. No nosso caso, nas experiências de abandonar as nossas duas missões, seguimos o ritmo do povo. Afastámo-nos mal ouvimos que havia insurgentes por perto, por prudência e porque fomos alertadas para o perigo.”

Um dos crimes mais horrendos foi o assassínio, em Novembro último, da Irmã comboniana Maria De Coppi, de 83 anos, alvejada com um tiro na cabeça, na missão de Chipene, província de Nampula, diocese de Nacala, no Sul. Neste ataque, foram também incendiados e destruídos uma igreja, um hospital, uma escola primária e secundária, os aposentos das religiosas e as viaturas ao serviço da missão de São Pedro de Lúrio, fundada em 1963 pela Ir. Maria, depois de “uma longa viagem de barco”, de Itália, onde nasceu, até Moçambique, segundo informou a agência Fides.

Mulheres da missão católica de Salaue Ancuabe, Cabo Delgado.
© Cortesia de| Courtesy of Blanca Núbio Zapata

Os dois padres responsáveis pela missão conseguiram escapar aos tiros e às chamas. Os restantes religiosos, religiosas e leigos também sobreviveram, procurando refúgio em Nacala, a segunda cidade de Nampula. A missão de Chipene não foi a primeira visada pelos extremistas que a população chama de “machababos”. Em Abril e em Outubro de 2020, também a missão de Nangololo, a segunda mais antiga da diocese de Pemba (distrito de Muidumbe), fundada em 1924, havia sido totalmente destruída. 

“A lamentável morte da Ir. Maria aconteceu dois dias antes de eu sair para férias”, diz Blanca Núbia. “Doeu-me muito. Para os missionários, este acontecimento marcou um antes e depois na nossa vida, dado que até 2022, nem mulheres, nem crianças, nem crentes de uma religião especifica tinham sido alvo de mortes violentas, embora alguns sejam vítimas de rapto. Foi o que sucedeu com duas freiras da nossa diocese sequestradas [de Mocímboa da Praia] no ano 2020 [em 11 de Agosto], mas felizmente libertadas [em Setembro, após 24 dias de cativeiro]”.

A Igreja católica é a maior instituição religiosa em Moçambique (2), presente em todo território nacional. Em Cabo Delgado, onde a maioria é muçulmana, mais de 35% da população define-se como católica. “As relações inter-religiosas, em particular entre católicos e muçulmanos, são muito boas – institucionalmente e individualmente”, confirma o historiador Eric Morier-Genoud, em entrevista que me deu.

Crianças na escola primária que as Irmãs Carmelitas Teresas de São José dirigem no distrito de Macomia, Cabo Delgado.
© Cortesia de | Courtesy of Blanca Núbio Zapata

“Desde o início da insurgência, a Igreja em Cabo Delgado tem feito um grande trabalho de ajuda humanitária e envolveu-se com muçulmanos em várias iniciativas, incluindo de diálogo ecuménico. O único problema é com os jihadistas, que odeiam não apenas os cristãos, mas todos os muçulmanos que não seguem as suas ideias.”

O ataque à missão de Chipene “foi intencional, mas não se sabe ainda claramente a razão”, observa Morier-Genoud, investigador com várias obras publicadas sobre o Islão e o Catolicismo em Moçambique. “Antes de chegarem, os insurgentes queimaram uma mesquita. Na própria missão, mataram a Irmã Maria de Coppi, mas não foram atrás dos dois padres escondidos nos seus quartos. Depois, queimaram um carro e dois edifícios, antes de atravessarem o rio para voltarem à sua base em Cabo Delgado.”

“O ataque, por ter sido contra a Igreja Católica, e o assassínio de uma Irmã tornaram-se notícia” em todo o mundo, adianta Morier-Genoud. “Será que era essa a intenção dos insurgentes – ganhar visibilidade internacional e dar a impressão de que já estavam activos na província de Nampula?” Certo é que “o bispo da diocese veio a público repetir que não há guerra religiosa no Norte– mensagem que os líderes muçulmanos também enfatizam.”

Deslocados devido à violência armada, vivem agora numa das zonas de acolhimento de Metuge, a 50 quilómetros da capital provincial, Pemba.
© Ricardo Franco | Agência Lusa | MZ News

“Sempre admirei e admiro as comunidades cristãs de Moçambique, pela coragem de quererem permanecer fiéis, apesar das dificuldades quando não há missionários ou sacerdotes permanentes para as acompanhar”, destaca a Ir. Blanca.

Com as suas “próprias estruturas básicas para funcionarem como igreja local”, as celebrações ficam a cargo destas comunidades, que demonstram “zelo no cuidado das coisas de Deus e uma fé muito viva, manifestada sobretudo com cânticos e danças.”

“Nos meus 18 anos em Cabo Delgado, nunca antes ouvira falar de confrontos religiosos”, sublinha Blanca Núbia. Sempre se “respeitaram as diferentes tradições”. E dá como exemplo “as escolas e os lares de estudantes a que se candidatam jovens cristãos e muçulmanos, e de outras confissões.”

“É difícil entender os motivos quem levam alguém a aderir a este tipo de grupos, mas convém dizer que Cabo Delgado é uma província tradicionalmente esquecida pelos governos moçambicanos”, alerta a Ir. Blanca.

Há 18 anos em Cabo Delgado, a Irmã Blnaca Núbio nunca antes ouvira falar em “confrontos religiosos”, e destaca que católicos e muçulmanos sempre viveram em harmonia na província.
© Luísa Nhantumbo | Agência Lusa | TSF

No Norte, “há muita pobreza, fraco desenvolvimento a todos os níveis e uma grande desigualdade, se comparamos com outras províncias no Centro e no Sul. Há muito desemprego e falta de horizontes para os jovens. A agricultura de subsistência é insuficiente para acalmar a fome do povo. É verdade que nada disto é motivo válido para aderir a um grupo criminoso, podendo existir outras motivações mais profundas com raízes políticas, económicas, culturais e religiosas, mas é necessário avaliar cada caso.”

Em 11 de Novembro, o mês em que começaram exportações de gás natural liquefeito da Bacia do Rovuma, a Conferência Episcopal de Moçambique emitiu uma nota pastoral na qual critica a corrupção em Cabo Delgado, onde “há uma minoria rica que pode pagar todo o tipo de luxos”, enquanto a maioria “não tem sequer o básico para sobreviver”.

Os bispos denunciaram que “milhares de famílias continuam a ser retiradas de suas terras férteis” a favor de investimentos estrangeiros, “dos quais praticamente não tiram qualquer benefício”, e consideraram que a solução para a pobreza e as desigualdades “não pode ser apenas o uso da força militar”.

A Irmã Blanca Núbia está de acordo: “Vê-se claramente que a resolução do conflito requer, além de uma resposta militar – que é necessária -, uma forte vontade política e económica para criar alternativas que ajudem o povo a viver com dignidade. Nenhum povo merece ser despojado e maltratado por causa das riquezas existentes no chão que pisa com os seus pés descalços.”

“Dói muito ver o sofrimento deste povo, com fome de pão e de água, sem um tecto digno onde se proteger do sol e da chuva, sem um pedaço de terra onde semear”, conclui a Ir. Blanca. “Dói mais ainda ouvir todos os dias no telejornal falar de centenas de milhões de dólares destinados às vítimas do conflito, mas pouco ou quase nada chegar ao destino final. É claro que só a força militar não resolverá o conflito. Seja Deus a nossa luz, que apague toda escuridão do pecado social que nos atinge.”

A Irmã Blanca Núbia brinca com crianças na missão de Macomia, em Cabo Delgado.
© Cortesia de |Courtesy of Blanca Núbio Zapata

(1) Na Encíclica Laudato si’ (“Louvado sejas”: Sobre o Cuidado da Casa Comum), publicada em 2015, o Papa Francisco critica o consumismo e apela a acções globais concertadas para combater as alterações climáticas e proteger o ambiente.

(2) No recenseamento de 2017, cerca de 60% dos moçambicanos afirmaram ser cristãos, a maioria católicos, e 30% muçulmanos. Cabo Delgado, Niassa e Nampula são as únicas das dez províncias moçambicanas com uma população predominantemente muçulmana.

O balanço de cinco anos de guerra em Cabo Delgado feito pelas Nações Unidas é terrível: mais de 4000 mortos e quase um milhão de pessoas forçadas a abandonar as suas casas.

Estes dois artigos foram publicados na edição de Janeiro de 2023 da revista ALÉM-MAR | These two articles were published in the January 2023 edition of the Portuguese news magazine ALÉM-MAR.

Bacia do Congo: O “pulmão” de África e os seus guardiões

A segunda maior floresta tropical do mundo contribui para a sobrevivência da humanidade. Para os povos indígenas, é mais do que isso: representa a própria vida. É necessário, por isso, mudar as regras que negam poder de decisão às comunidades autóctones na conservação do seu “paraíso verde”. É esta a convicção do artífice de uma lei histórica de protecção do Povo Pigmeu na República Democrática do Congo. (Ler mais | Read more…)

© Thomas Nicolon | Reuters | Al Jazeera

A COP 27 terminou em Novembro, em Sharm el-Sheikh (Egipto), e Patrick Saidi Hemedi não viu ali grande vontade de Estados, doadores e filantropos “impedirem que a Terra-mãe continue a arder”. Mas este activista congolês transfere agora a esperança para a COP15, que se realiza de 7 a 19 de Dezembro, em Montreal (Canadá), confiando em que os povos indígenas – menos de 5% da população global, mas protectores de mais de 80% da biodiversidade do mundo – serão, finalmente, reconhecidos como os verdadeiros guardiões dos ecossistemas do planeta.

Coordenador nacional da Dinâmica dos Grupos de Povos Autóctones (DGPA), uma rede de 45 organizações que fazem campanha pelas populações indígenas em todo o território da República Democrática do Congo (RDC) – onde se situa 60% da Bacia do Congo –, Saidi descreve-se como “actor principal” num processo que “durou 14 anos”, para proteger os direitos dos Pigmeus Indígenas na região conhecida como “pulmão de África”.

A missão da DGPA foi galardoada em 2015 com o prestigiado Prémio Equador, uma iniciativa conjunta da Noruega e da ONU, para apoiar os que lutam para “proteger a natureza, reduzir a pobreza e promover a capacidade de superação face às alterações climáticas”.

“Eu defendo o reconhecimento e a protecção dos Pigmeus Indígenas na RDC, a segurança das suas terras ancestrais, a valorização das suas práticas tradicionais, conhecimentos e gestão dos recursos naturais, da agricultura à silvicultura, da mineração à energia”, explica Saidi numa entrevista que me deu por e-mail.

© Brent Stirton | Getty Images | lifegate.com

O processo por ele iniciado há mais de uma década permitiu que, em 2022, a RDC, um dos seis países da África Central pelos quais se estende a Bacia do Congo (ver caixa), aprovasse uma histórica “Lei de Protecção e Promoção dos Direitos dos Povos Pigmeus Indígenas”.

Após uma longa espera, o projecto que havia sido aprovado pelo Parlamento em 2021 e aguardava a assinatura do presidente, Felix Tshisekedi, foi simbolicamente promulgada, após publicação na Gazeta Oficial, em 16 de Novembro, dois dias antes da data prevista para o encerramento da COP 27, conferência das Nações Unidas sobre as alterações climáticas [que só treminou.

Numa mensagem que nos fez chegar, dirigida a todos os que advogam a causa da mais vulnerável das comunidades dependentes da floresta, entre 700 mil e 2 milhões de pessoas, Saidi exultou: “Esta lei é o resultado das reivindicações dos Povos Pigmeus de diferentes províncias [do antigo Zaire] e das organizações que se batem pelos seus direitos. (…) A sua promulgação era a condição sine qua non para que seja respeitada por todos”, sobretudo “depois de a RDC e a CAFI [Central African Forest Initiative, Iniciativa Florestal da África Central, liderada pela ONU] terem renovado a sua parceria” para combater a desflorestação da Bacia do Congo.

A lei que Saidi descreve como “um referencial que dará respostas concretas a exigências sociais claramente expressas” é um acto de contrição pela “discriminação e outros abusos” que têm permitido, segundo a Human Rights Watch (HRW), a “marginalização política, administrativa, económica, social e cultural” dos Pigmeus Indígenas Congoleses.

Ratificada a lei, eles verão aceites as suas “tradições e farmacopeia legal” (fórmulas e métodos de preparação de medicamentos) e ser-lhes-á garantido “um acesso mais fácil à justiça e a serviços básicos”, como educação e saúde. Também será consagrado “o direito às suas terras e aos recursos naturais de que são proprietários, que ocupam ou usam”.

© iStock 3000RISK | iucn.org

Autor do livro Les Peuples Autochtones Pygmées et la Problèmatique foncière en RDC, Saidi diz estar “inteiramente de acordo” com os activistas que acreditam na possibilidade de, neste mês de Dezembro, a Conferência de Biodiversidade da ONU (COP 15) vir a ser um marco tão importante como foi o Acordo de Paris de 2015, quando os líderes mundiais assumiram o objectivo de manter o aumento da temperatura média do planeta abaixo dos 2ºC em relação aos níveis pré-industriais, prometendo também ajudar os países em desenvolvimento a reduzir as suas emissões de dióxido de carbono e a resistir aos efeitos das alterações climáticas.

“Temos de aproveitar a COP 15 para destacar o papel e as contribuições dos povos indígenas no que toca à preservação da biodiversidade à escala global”, salienta Saidi, que é também vice-presidente da REPALEF (Rede de Populações Autóctones e Locais para a Gestão Duradoura dos Ecossistemas Florestais na RDC), e co-presidente da PACDEF (Peace-building and Capacity Development Foundation), a qual, em articulação com “líderes tradicionais, partidos políticos, igrejas, jovens, mulheres, veteranos de guerra, portadores de deficiência e de VIH”, milita por “uma sociedade de cidadãos livres, conscientes das suas obrigações e direitos”.

“Está hoje claramente reconhecido que os povos indígenas e as comunidades locais vivem em harmonia com a natureza”, realça Saidi. “O seu conhecimento tradicional é uma inspiração para acabar com a crise da biodiversidade”.  Nada deve ser decidido sem consultar previamente estas comunidades, em particular no que concerne à gestão das áreas protegidas.

Ele aconselha os doadores a abandonar o “modelo de conservação em fortaleza” (parques naturais), porque deixou de ser “ético e eficaz” – há muitas “expropriações e injustiças” -, optando por um novo paradigma, em que os povos indígenas serão “figuras centrais”, com direito a serem ouvidos e a tomar decisões.

O que o Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais (WRM, World Rainforest Movement) também atesta e critica é as comunidades “perderem as suas terras e principais meios de sustento em benefício de áreas protegidas impostas sem o seu consentimento, apesar de “dependerem, manejarem e coexistirem com as suas florestas de forma sustentável desde há gerações”.

© whc.unesco.org

Estes povos “têm de obedecer a regras que não lhes foram devidamente explicadas, com guardas florestais armados arbitrariamente, acusando-os, de forma desproporcional, de ‘caça ilegal’ em vez de perseguirem verdadeiros criminosos. As organizações de conservação são rápidas quanto se trata de relatar o número de prisões e apreensões de caçadores ilegais e o número de guardas florestais que perdem a vida a proteger a vida selvagem (…), mas tais números escondem uma história mais complexa e sombria.”

“Por cada rede de caçadores ilegais desmantelada, quantos indígenas que caçavam para a sua subsistência foram presos, praticamente sem direito a um julgamento justo?”, pergunta o WRM, num dos seus boletins. “Por cada guarda florestal que morre tragicamente defendendo espécies ameaçadas, quantos moradores locais foram arbitrariamente detidos, extorquidos, torturados ou mortos por outros agentes? (…) As áreas protegidas acabam por se sobrepor às terras de posse consuetudinária”, o que muitas vezes conduz à “transferência física de aldeias inteiras onde as pessoas ficam com o seu acesso à terra restringido ou totalmente proibido.”

O WRM dá o exemplo da Reserva Tumba Ledima, no ocidente da RDC, sujeita a uma “conservação da vida selvagem imposta de cima para baixo, ao estilo militar”, como é norma na Bacia do Congo. “Como não tiveram voz activa na criação e gestão desta reserva, pelo menos 100 mil pessoas foram duramente atingidas pelas restrições à caça e à pesca, impostas pelos administradores, ao ponto de o Programa Alimentar Mundial da ONU ter sido forçado a intervir para fornecer ajuda suplementar”.

© Nanna Heitmann | The New York Times

As ameaças às comunidades indígenas “não estão apenas nas motosserras e nas escavadoras das multinacionais que extraem recursos naturais”, lembra Irene Wabiwa Betoko, dirigente da Greenpeace Africa. A “conservação em fortaleza” e não participativa acaba por “fechar terras e florestas à maior parte da actividade humana”, com isso prejudicando quem depende delas para a subsistência diária”.

As ameaças aos Pigmeus Indígenas da RDC são muitas, lamenta Saidi. Não são apenas “privados das suas terras e espoliados dos seus espaços ancestrais, o que conduz automaticamente à sua pobreza”, também são “desprezados e desrespeitados por comunidades de não pigmeus, que os comparam a animais da floresta devido ao seu modo de vida tradicional”.

São ainda “discriminados, estigmatizados e rejeitados com base nas suas origens étnicas e raciais, o que reforça a sua precariedade”. Tudo isto contribui para que os Pigmeus Congoleses sintam “um complexo de inferioridade, que os leva a distanciar-se da sociedade, tentando assim fugir da difamação e da servidão”. O problema é que “continuam subjugados por comunidades dominantes que os exploram para trabalhos forçados”.

Não raras vezes, os povos indígenas são igualmente vítimas de massacres. Entre 1 e 3 de Fevereiro de 2021, por exemplo, pelo menos 66 pessoas da comunidade Yeke, num distrito do território de Monkoto, na RDC, foram assassinadas por homens da etnia Nkundo.

Entre as vítimas, estavam 40 crianças, 22 homens e 4 mulheres, revelaram testemunhas, sobreviventes, activistas e governantes provinciais ouvidos pela HRW. Foram também queimadas mais de mil casas, escolas, igrejas e centros de saúde. Inicialmente, “foi aberto um inquérito, mas não progrediu para investigação e, mais de um ano depois, ninguém foi acusado por este crime, praticamente ignorado pelos media locais – o caso acabou encerrado”.

© wanderingthru.com

Ainda que perseguidos e ostracizados, “os Pigmeus Indígenas da RDC continuam a desempenhar um papel inegável na protecção da floresta tropical da Bacia do Congo”, insiste Patrick Saidi Hemedi. “Hoje em dia, qualquer acção de conservação que não se baseie nos direitos e no reconhecimento das capacidades de gestão tradicional e nacional da biodiversidade por parte dos povos autóctones estará condenada ao fracasso e expõe o planeta perigosamente às alterações climáticas.”

“A única maneira de salvar a Bacia do Congo é reconhecer os direitos consuetudinários das comunidades indígenas e locais, considerá-las protagonistas da conservação e não obstáculos, dar-lhes directamente os meios que lhes permitam continuar a ser guardiões” deste “paraíso verde”, através da “transmissão intergeracional de conhecimentos e práticas tradicionais”. Porque, “se a sobrevivência da humanidade depende das florestas tropicais, para os nativos, elas representam a sua própria vida”.

Em Agosto último, apesar de protestos de ambientalistas nacionais e estrangeiros, o Governo de Tshisekedi avançou com um leilão de 30 blocos de petróleo e gás em áreas florestais da Bacia do Congo, onde existe “a maior área de turfa tropical do mundo”. Alguns blocos “vão incluir o Parque Nacional de Virunga, que é património mundial da UNESCO”.

“O impacto desta exploração não será pequeno, dado que as turfas funcionam como sumidouro de carbono, possuindo imensas reservas no seu subsolo, além de abrigarem mais de mil espécies de aves e a maior concentração de primatas do mundo”, alerta a newsletter ClimaInfo. “Estes são os últimos refúgios da biodiversidade natural”, enfatizou Ken Mwathe, da BirdLife International, citado pela agência Associated Press.

© Nanna Heitmann | The New York Times

Patrick Saidi admite que a decisão das autoridades congolesas “será gravemente prejudicial aos Pigmeus Indígenas que dependem da biodiversidade”, mas também diz que “é importante apoiar os Estados da Bacia do Congo que procuram políticas de diversificação, para que a floresta não seja o único recurso e fonte de financiamento do seu desenvolvimento”.

A este respeito, um dos homens mais ricos de África, Mo Ibrahim, já antes havia censurado “a hipocrisia” dos países industrializados, que construíram a sua prosperidades graças aos combustíveis fósseis e agora quererem dissuadir as nações do continente de explorarem as suas vastas riquezas energéticas. “Acho obsceno que a Europa esteja numa corrida ao gás, mas recuse essa opção aos africanos”, disse Ibrahim, citado pelo diário britânico The Guardian.

“Todos estamos conscientes da importância e do papel que as florestas da Bacia do Congo desempenham na luta global contra as alterações climáticas, bem como da necessidade de preservar os reservatórios de carbono”, adianta Saidi. “É muito importante que os países industrializados apoiem as nações em desenvolvimento na aplicação das suas NDC [Contribuições Nacionalmente Determinadas, os compromissos voluntários assumidos pelos signatários do Acordo de Paris para reduzir as emissões de CO2]. “

“Mas também é importante que os países em desenvolvimento estejam conscientes de que não têm tecnologia suficiente para lidar com as alterações climáticas. É uma situação complexa e os povos indígenas, que são as principais vítimas, são reduzidos ao papel de meros observadores”.

Um paraíso ignorado

@ worldatlas.com
  • A Bacia do Rio Congo, do tamanho da Índia ou de dez Alemanhas, é a segunda maior floresta tropical da Terra, mas só recebe 11,5% dos fundos internacionais para a sua protecção. A bacia da Amazónia, que tem sido considerada “o pulmão do mundo” recebe 34% e a do Sudeste Asiático 54,5%.
  • A Bacia do Congo estende-se por seis países da África Central: Camarões, Gabão, Guiné Equatorial, República Centro Africana, República do Congo (Brazaville) e República Democrática do Congo (RDC-Kinshasa).
  • Conhecida como “o pulmão de África”, a região é habitada desde há mais de 5000 anos, oferecendo alimentos, água, medicamentos e abrigo a cerca de 75 milhões de pessoas – 40 milhões só na RDC, onde se situa 60% da Bacia do Congo.
  • Riquíssima em biodiversidade, a Bacia do Congo alberga umas 600 espécies diferentes de árvores e cerca de 10.000 espécies de plantas – 1/3 das quais não se encontra em nenhuma outra parte da Terra. Aqui se abrigam ainda 400 espécies conhecidas de mamíferos (como elefantes, chimpanzés e gorilas, alguns em risco de extinção) 700 de peixes, 900 de borboletas, 1200 de pássaros e 300 de répteis.
  • A Bacia do Congo armazena 8% de todo o carbono presente nas florestas tropicais do mundo, ajudando a regular o clima. Ali se produz 75-95% de chuva, através da evaporação local e da evapotranspiração, mais do que os 50% gerados pela Amazónia, por exemplo.
  • A Bacia do Congo absorve 1500 milhões de toneladas de dióxido de carbono – cerca de 4% das emissões globais – algumas das quais serão libertadas na atmosfera se a floresta for aberta à extracção de gás e petróleo.
  • As principais causas da degradação da Bacia do Congo só na RDC são a produção de carvão e a agricultura de corte e queimada. Seguem-se a extração de madeira e a mineração. Entre 1990 e 2000, estima-se que a floresta congolesa tenha perdido mais de 90 000 km2, quase equivalente à área de Portugal. Até 2030, teme-se que “outros 250.000 km2 venham a desaparecer”, isto é, 10% de toda a área. O maior temor é o de que, em 2100, já não haja floresta tropical na Bacia do Congo, caso se mantenham os elevados índices de crescimento populacional e de procura de recursos energéticos.
Pigmeus: termo pejorativo?
© John Nelson | forestpeoples.org

Terá sido no final do século XIX que os primeiros exploradores europeus, à chegada à região, começaram a chamar aos habitantes da floresta da Bacia do Congo “pigmeus” ou “anões”, porque eram “baixos” e viviam em “casas diferentes” das outras pessoas instaladas na costa.

Posteriormente, passaram a ser designados pelos nomes locais “Batwa, Bambuti, Babinga”, que tinham o mesmo significado. Hoje em dia, alguns antropólogos e etnologistas recomendam que se use o conceito de “nativo” ou “indígena” porque “pigmeu” é pejorativo.  Nos Camarões, a palavra “pigmeu” é considerada um insulto e no Congo Brazaville é um termo proibido e sancionado pelo Código Penal.

No caso da República Democrática do Congo, o activista Patrick Said Hemedi explica-me que foi decidido usar “o conceito de pigmeu, mesmo sendo pejorativo, para identificar adequadamente os nativos e não os confundir com outros grupos indígenas não pigmeus”. No Congo-Brazaville, por exemplo, “a não utilização do termo ‘pigmeu’ significa que os pigmeus não podem beneficiar de uma lei específica que o país adoptou a seu favor”

“Porque hoje todos se querem identificar como autóctones, os pigmeus são engolidos por esta massa humana e não podem usufruir dos seus direitos”, lastima-se Saidi. “Isso acontece também no Ruanda e um pouco no Burundi. Na RDC, quisemos evitar esta situação.”

© Kate Eshelby | Survival International

Se, inicialmente, “pigmeu” servia para descrever “pessoas de baixa estatura, nómadas, caçadores-colectores”, rapidamente se percebeu que esta descrição poderia ser aplicada a outros grupos étnicos, diversos e heterogéneos num território vastíssimo, concorda o jesuíta congolês Rigobert Minani, da Rede Eclesiástica para a Floresta da Bacia do Congo.

“Os grupos identificados como ‘pigmeus’ ou ‘povos autóctones’ são grupos étnicos distintos, falam línguas diferentes na Bacia do Congo e distribuem-se de forma descontínua do Oceano Atlântico à região dos Grandes Lagos, e em ambos os lados do Equador”, acrescenta o padre Minani.

“A maioria deles não se mistura nem se conhece uns aos outros. A dimensão de cada grupo varia entre dezenas ou milhares (Baka, Aka, Mbuti…) e menos de 500 (Bedzan). Os chamados pigmeus vivem em contacto próximo com outras comunidades de não-pigmeus, partilhando a mesma língua, o que, por vezes, não facilita a sua identificação”.

O termo “povos autóctones”, preferido pelas ONG “tem raízes na luta pelos direitos dos indígenas na América Latina, na Austrália ou na África do Sul”, informa Rigobert Minani, mas em África ainda se debate “quem é e não é autóctone”. Se na América é fácil definir quem foram “os primeiros ocupantes”, em África, “sabe-se que, antes da colonização, muitas tribos migraram por diferentes razões”, por isso, como classificar “os primeiros habitantes?”

Fontes:

Eclesial Network for the Congo Basin Forest; Indigenous Peoples of Africa Co-ordinating Committee (IPACC); Interfaith Rainforest Initiative; Movimento Mundial pelas Florestas Tropoicais; Norway International Climate and Forest Initiative; Rainforest Foundation Norway (RFN); World Wild Fund (WWF).

© DIPY | synchronicityearth.org

Estes artigos, agora actualizados, foram publicados originalmente na edição de Dezembro de 2022 da revista ALÉM-MAR | These articles, now pudated, were originally published in the December 2022 edition of the Portuguese news magazine ALÉM-MAR.

Mulheres do Irão: Mais de um século de luta

Os protestos das iranianas que, desde Setembro, enchem as ruas exigindo o direito de decidir a vida não começaram no dia da morte de Mahsa Amini. Há pelo menos 150 anos que elas se insurgem contra os poderes políticos e religiosos que lhes roubam a liberdade. (Ler mais | Read more…)

Num protesto em Erbil, no Curdistão iraquiano, manifestantes exibem a fotografia da jovem curda iraniana Mahsa (Jina) Amini, cuja morte, sob custódia da odiada “polícia da moralidade” em Teerão, desencadeou uma verdadeira revolução de mulheres contra o regime teocrático
© Safin Hamed | Agence France-Presse | Getty Images | The New York Times

Foi o Xiismo Duodecimano, imposto pelos Safávidas (1501-1736) como religião do Estado a um país então maioritariamente sunita, que “mudou inextricavelmente a história das mulheres iranianas”, afirma Mahnaz Afkhami, a primeira (e única) ministra dos Assuntos da Mulher do Irão, de 1975 até ser forçada ao exílio pela revolução islâmica de 1979.

Para os ulama (clero), acrescenta Afkhami, em In the Eye of the Storm: Women in Post-revolutionary Iran, “foi Deus, na sua infinita sabedoria e justiça, que definiu a subordinação da mulher”. A realidade é que isso era “apenas a palavra” de chefes religiosos “com poder político e moral”.

O culminar desta transformação deu-se, no século XVII, quando o teólogo Muhammad Baqir Majlisi, invocando em vão o profeta Maomé, “elevou a obediência e a subserviência da esposa ao marido como principal dever religioso” reconhece a historiadora Guity Nashat, em Women and Revolution in Iran. O casamento tornou-se “o rito de passagem, em que a mulher deixava de ser uma ‘não pessoa’ para se tornar uma pessoa”.

Manda Zand Ervin, em The Ladies’ Secret Society: History of the Courageous Women of Iran, é implacável no julgamento de Majlisi: Ele “declarou guerra às mulheres”, deliberando que “tinham de ser supervisionadas, como os portadores de doenças mentais, os criminosos ou as crianças”; classificou-as como “propriedade dos homens”, responsáveis pela “honra” destes, e “simples objetos sexuais”; assegurou-se que “não seriam vistas nem ouvidas”.

Protesto de iranianas e outros activistas em Istambul, Turquia. Com a fotografia de Mahsa Amini, gritam “morte ao ditador, numa referência ao Ayatollah Ali Khamenei, Supremo Líder da República Islâmica
 © Ashkan Shabani | Redux | TIME

Depois dos Safávidas, vieram os Qajar (1789-1925), um período em que muitas mulheres, em especial nas classes média e alta, “com uma admiração acrítica pela civilização europeia” e mais acesso à educação, ganharam “maior visibilidade e intervenção na sociedade”, segundo Nashat. Mas foi também esta tribo túrquica-tártara, anota Hamideh Sedghi, em Women on Politics in Iran: Veiling, Unveiling, and Reveiling, que impôs às mulheres o chador (longo manto da cabeça aos pés), o rubandeh (véu para o rosto) e as chaqchur (calças muito largas).

“Três peças que representavam identidade de zai’feh (sexo fraco) e estatuto de moti’eh (obediente à vontade do homem)”. Isoladas do mundo em espaços sem janelas, nos seus andaruni (pátio interior) e birun (pátio exterior), ligados por um só corredor apara evitar o olhar de estranhos, “o nome comum para esposa era manzel, que se traduz por ‘casa’”.

Guity Nashat repara que a exigência de as mulheres se taparem era vulgar nas áreas urbanas, mas não tanto entre as tribos nómadas ou nas zonas rurais, onde “cultivavam os campos ao lado dos homens”. Foi o que ali testemunhou Lady Mary Sheil (*), casada com um oficial e diplomata britânico na corte do xá: “Os interesses [das mulheres] identificam-se com os dos maridos; o divórcio é raro; e o número de esposas limita-se a uma.”

Não era isto o que acontecia, por exemplo, no harém de Nasir al-Din, que, especifica Nashat, tinha “quatro esposas permanentes e 91 temporárias, servidas por 1200 criadas, incluindo 300 escravas, vivendo no andaruni sob o olhar atento de 90 eunucos”, descritos por Montesquieu, em Cartas Persas, como “guardas fiéis, agindo como flagelo do vício e pilar da fidelidade”.

Manifestação de mulheres curdas, em Beirute, capital do Líbano, em homenagem a Mahsa (Jina) Amini
 © Marwan Naamani | Associated Press | TIME

Em Crowning Anguish: Memoirs of a Persian Princess: From the Harem to Modernity, vemos Taj al-Saltaneh (1884-1936), uma das filhas do xá Nasir al-Din, revoltada contra a clausura e o machismo que afetavam a sua independência e a de uma nação vendida pelo pai a estrangeiros.

“A vida das mulheres persas consiste em duas coisas: branco e preto. Quando saem para passear, são imagens assustadoras de luto negro. Quando morrem, são envoltas em branco. Sou uma destas mulheres malditas. Prefiro muito mais a brancura do sudário do que a figura hedionda do luto.”

Crítica da “existência desesperada das mulheres separadas da humanidade e equiparadas a animais selvagens e bestas”, Taj al-Saltaneh não foi a primeira a rebelar-se abertamente contra as convenções do seu tempo e a pagar um preço elevado: morreu na miséria. Antes dela, enfatiza Guity Nashat, já Qurratu’l-‘Ayn Tahereh (1814-1852) se afirmara como “a mulher mais extraordinária do século XIX no Irão”.

Nascida Fatimah Baraghani em Qazvin, no nordeste da Pérsia, filha de um mujtahid (intérprete das escrituras) que encorajou a sua educação desde criança, Tahereh (“A Pura”) viria a tornar-se uma distinta teóloga e poeta. Casou-se com um primo aos 14 anos e teve três filhos, mas foi forçada a abandoná-los quando se afirmou discípula fervorosa do movimento Bábí, atraída pela sua defesa dos direitos das mulheres.

Ela opunha-se à poligamia e ao véu. Foi a primeira mulher a removê-lo em público perante uma horrorizada plateia, na Conferência de Badasht, que marcaria a ruptura da nova religião monoteísta, surgida em 1844, com a lei islâmica.

Em Londres, tributo da diáspora iraniana e de outros activistas à jovem curda Mahsa Amini
© Maja Smiejkowska | Reuters | Japan Times

Ao participar em debates religiosos, desafiando os maiores estudiosos do Islão, Tahereh “penetrou num domínio exclusivamente masculino”, realça Farzaneh Milani, em Veils and Words: The Emerging Voices of Iranian Women Writers. “Ela ofereceu a si mesma um papel público e um lugar público: uma transgressão tripla – verbal, espacial e física.”

A lealdade ao Babismo – de onde emergiu a Fé Bahá’í (hoje a maior e mais perseguida minoria religiosa do Irão) – condená-la-ia à morte. Foi presa e executada, depois de três bábís terem tentado assassinar Nasir al-Din, em 1852.

Recusando ser “prisioneira de estereótipos, imagens e ideais impostos pela tradição”, Tahereh quis “subverter as narrativas da sua cultura e escrever a própria história”, modificando a sua vida e a de outras mulheres, acrescentou Milani. Ninguém a podia ignorar. Uns santificaram-na; outros demonizaram-na.

Em Jewels of Allah: the Untold Story of Women in Iran, Nina Ansary qualifica Tahereh de “primeira mártir sufragista do Irão”, citando as suas últimas palavras, antes de a estrangularem com um lenço de seda: “Matem-me, se quiserem; mas não conseguirão travar a emancipação das mulheres.”

Os protestos da diáspora iraniana em várias cidades do mundo amplificaram a voz das mulheres oprimidas pelo regime da República Islâmica
© Zan Kose | AFP | Getty Images | Foreign Policy

De certa maneira, a “herege” Tahereh abriu caminho à “libertina”Taj al-Saltaneh (assim eram chamadas pelos detractores) e a outras mulheres que haveriam de desempenhar papéis notáveis em várias revoltas contra uma dinastia despótica.

Em 1890-1891, ficou na história o “Protesto do Tabaco”. Furiosos por Nasir al-Din ter concedido o monopólio sobre a produção, venda e exportação de todo o tabaco da nação a uma empresa inglesa, os iranianos iniciaram um gigantesco boicote, obrigando o xá a ceder.

No harém, 85 esposas do rei destruíram à sua frente todos os hookhas ou cachimbos de água, e a favorita e mais influente, Anis al-Dowleh, encorajou ativamente as greves dos que vendiam e fumavam tabaco.

Dos envolvidos neste movimento popular, a mais aguerrida seria a ativista laboral Zainab Pasha, que liderou “um grupo de 3000 mulheres armadas” para impedir a abertura do bazar de Tabriz. Já antes se havia destacado em motins contra a subida do preço do pão.

Sem nunca esconder a face com o véu negro, amarrando o chador à cintura e nas mãos um inseparável bastão de pregos e metal, Zainab humilhava os homens que se acobardavam. “Se não ousarem combater a opressão, se tiverem medo de lutar com ladrões que vos roubam a riqueza, a honra e a pátria, então fiquem em casa; lutaremos nós contra os malfeitores”, cita-a Janet Afary, em The Iranian Constitutional Revolution: Grassroots Democracy, Social Democracy, and the Origins of Feminism.

Os esforços colectivos contra os Qajar, subservientes a interesses britânicos e russos a quem venderam recursos do país, culminariam na Revolução Constitucional de 1905-1911, na qual as mulheres, salienta Afary, “desempenharam um papel único para transformar uma revolução essencialmente política [instigada por ulema, bazaaris e intelectuais] no início de uma revolução social”.

Vigília em West Hollywod, Califórnia, EUA, organizada pela influente Iranian American Women Foundation (IAWF), em solidariedade com as mulheres do Irão
© Associated Press | Indian Express

Estas mulheres “exibiram um poder que mudou o curso da história, para elas e para os homens”, acentuou Hamideh Sedghi. Eram “nacionalistas e anti-colonialistas”. Queriam um Irão “soberano e livre da hegemonia estrangeira; exigiam uma Constituição, educação e emancipação.”

Para alcançar estes objetivos, “usaram os véus como protecção e esconderijo de armas e mensagens”, revela Guity Nashat. Formaram também sociedades secretas (anjomans e dowrehs) para apoiar os constitucionalistas. O seu “ímpeto revolucionário” contribuiu para que, em 1906, o xá Mozafar al-Din assinasse o decreto que criou a primeira Assembleia Nacional Consultiva (Majlis), e ratificasse uma Constituição.

Não obstante uma luta abnegada, as mulheres não conseguiram emancipar-se: a Constituição negou-lhes todos os direitos políticos. O clero xiita foi o maior opositor, comparando-as a “forasteiros, catraios, gente maldosa, assassinos, ladrões e criminosos”. Elas não cruzaram os braços.

Em 1911, com a Rússia a ameaçar invadir o Irão aproveitando-se de uma crise constitucional, “pelo menos 300” mulheres avançaram sobre a Assembleia para impedir a capitulação dos deputados.

Depois da morte de Mahsa Amini, a chamada “geração Z”, dentro e fora do Irão, tem liderado os protestos contra a opressão das mulheres pelos mullahs
© Francisco Seco | AP | Shutterstock | The Cut

“Vestiam-se com mantos negros e véus brancos caíam-lhes sobre o rosto”, descreve, em The Strangling of Persia: a Personal Narrative, Morgan Shuster, um americano nomeado pelo parlamento tesoureiro-geral da Pérsia. “Muitas tinham pistolas debaixo das saias ou nas dobras das mangas.”

“Dirigiram-se ao Majlis e ali se reuniram, exigindo que o presidente as deixasse entrar. (…) Estas mães, esposas e filhas persas exibiram ameaçadoramente os seus revólveres e confessaram a decisão de matar maridos e filhos, e deixar para trás os próprios cadáveres, se os deputados vacilassem no dever de defender a liberdade e a dignidade do povo e da nação persas.”

Naquele momento, sublinhou Shuster, as iranianas “tornaram-se as mulheres mais progressistas, se não as mais radicais do mundo; que esta constatação incomode ideias que duram há seculos não faz diferença – é um facto.”

Shuster era o alvo do ultimato da Rússia, que ocupara o Azerbaijão, a pretexto de “manter a lei e a ordem”, e exigia a sua demissão por ter enviado cobradores de impostos para aquela província do Noroeste. Os deputados renderam-se e ninguém agradeceu às mulheres os seus sacrifícios. Pelo contrário, renegaram-nas como “imorais” e “apóstatas”.

A longo prazo, porém, desenvolveu-se a consciência de que “a única maneira de travar o declínio do país era educar as mulheres”, observa Guity Nashat. “Considerá-las inferiores e mantê-las ignorantes era um desperdício”. As autoridades religiosas reagiram mal à abertura das escolas para raparigas, incitando à sua destruição e a ataques contra alunas e professoras. As mulheres persistiram.

Junto à Câmara dos Representantes em Haia, Países Baixos, uma manifestante ergue um cartaz contra o regime iraniano e em solidariedade com Mahsa Amini, vítima da “polícia da moralidade”
© Lex van Lieshout | ANP | AFP | Le Monde

Depois da I Guerra Mundial, com o país à beira da desintegração, o general britânico Edmond Ironside achou que, para se salvar “do caos e dos bolcheviques”, a Pérsia “precisava de uma ditadura militar”, como refere Homa Katouzian, em The Persians: Ancient, Mediaeval and Modern Iran.

O escolhido para tal missão foi o mirpanj (coronel) Reza Khan que, em 1925, com a sua Brigada de Cossacos (uma criação russa), derrubou o último xá Qajar e fundou uma nova dinastia: Pahlavi.

Assim que consolidou o poder, o novo monarca mostrou-se determinado a “ocidentalizar” a Pérsia. Marginalizou e depauperou o clero, abriu uma universidade e o mercado de trabalho às mulheres, principalmente nas cidades. A medida mais controversa foi a abolição do véu, em 1936. A polícia tinha ordens para rasgar ou confiscar o chador e o hijab em plena rua. Muitas mulheres, sentindo-se “nuas e pecadoras”, fecharam-se em casa; alguns homens suicidaram-se, diz Katouzian.

A repressão que acompanhou a proibição do véu “prejudicou a causa das mulheres”, concordam Guity Neshat e Hamideh Sedghi, admitindo que o objetivo do primeiro xá Pahlavi era apenas “transferir o poder patriarcal da alçada do clero para a do Estado”.

A própria filha, Ashraf Pahlavi, assume isso, na autobiografia Faces in a Mirror: “Nunca senti que ele abandonaria o rigoroso controlo que exercia sobre nós”. Perante o seu pedido para estudar no estrangeiro, como o irmão, o pai resmungou: “Que disparate!”

Uma mulher queima um hijab, em Sulaymaniyah, no Iraque, em apoio à luta das iranianas
© Shwan Mohammed | AFP | Getty Images | people.com

Em 1941, quando o rei que deu à Pérsia o nome de Irão foi forçado a abdicar a favor do filho, Mohammad Reza Pahlavi, os ulema tudo fizeram para recuperar privilégios e preponderância. Mas o movimento de mulheres que emergiu durante a Revolução Constitucional não permitiu um regresso ao passado.

O véu passou a ser uma opção, não uma obrigação. Surgiram muitas organizações femininas, a mais importante ligada ao Tudeh, o Partido Comunista, atraindo jovens para uma luta velha. Mohammad Reza permitiu esta liberdade até Mohammad Mossadegh, o primeiro-ministro que nacionalizara o petróleo, se tornar o líder mais popular. A polícia secreta SAVAK encheu as prisões de opositores.

Em 1953, depois de a CIA derrubar Mossadegh, o Shahanshah (rei dos reis) tentou redimir-se lançando uma “Revolução Branca”, com reformas e leis audaciosas. Dez anos depois, pela primeira vez, as iranianas ganhavam o direito de voto e a ser eleitas.

Não que as achasse meritórias, mas porque um obscuro ayatollah – Ruhollah Khomeini – ameaçava o Trono do Pavão e ele precisava de aliados. “Sem querer parecer rude, as mulheres só são iguais à luz da lei, não por serem capazes”, declarou o imperador à jornalista Oriana Fallaci, em 1971 (**). “Elas nunca produziram nada de grandioso.”

Mulheres curdas sírias em Hasakeh numa manifestação de homenagem à curda iraniana Mahsa (Jina) Amini
© Agence France-Presse | Middle East Eye

Em Fevereiro de 1979, Khomeini regressou do exílio em Paris para proclamar, em Teerão, uma República Islâmica. O fim de 2500 anos de monarquia foi celebrado por uma esmagadora maioria de mulheres, que se juntou às manifestações contra o último xá. O desencanto foi imediato.

De 8 a 14 de Março, milhares saíram à rua reclamando a liberdade prometida, não “recuar à condição de cães”. (***). “Não esperavam que as conquistas das últimas cinco décadas fossem suspensas ou anuladas”, salienta Haleh Esfandiari, em Reconstructed Lives: Women & Iran’s Islamic Revolution.

“Não imaginavam ter novamente de pedir permissão aos homens para trabalhar, que um novo código penal lhes impusesse castigos [como apedrejamentos e chicotadas] ou que perdessem o direito de escolher o que vestir.”

Muitas políticas opressivas da teocracia continuam em vigor 43 anos depois, mas as mulheres, incluindo as conservadoras e religiosas, não abdicaram dos direitos adquiridos. “Embora oprimidas de muitas maneiras”, comenta Esfandiari, “recusaram abandonar o espaço público e são parte de uma sociedade civil que se ergue e revolta contra o Estado”, criando mártires, como Neda Agha-Soltan, e heroínas, como Nasrin Sotoudeh.

Os imparáveis protestos desde a morte, em 16 de Setembro, de uma jovem curda, Mahsa (Jina) Amini, sob custódia da detestada “polícia da moralidade” por ter mostrado uns fios de cabelo, já não são apenas mais uma rebelião contra o hijab, obrigatório desde 1983. Violentamente reprimidos, tornaram-se na maior ameaça existencial à ditadura dos ayatollahs e dos Pasdaran (Guardas da Revolução), porque uniram, pela primeira vez, um país que nunca encontrou o equilíbrio entre a alma persa e a alma islâmica.

(*) Glimpses of Life and Manners in Persia

(**) Interviews with History and Conversations with Power

(***) “Iran women march against restraints on dress and rights”, The New York Times, 11 de Março de 1979

Adeptos da selecção iraniana no Campeonato do Mundo de Futebol em Doha, Qatar, erguem cartazes com o slogan da revolução contra os mullahs: Mulher-Vida-Liberdade
© Clive Brunskill | Getty Images |

Este artigo foi publicado originalmente na edição de Novembro de 2022 da revista ALÉM-MAR | This article was originally published in the November 2022 edition of the Portuguese news magazine ALÉM-MAR.

Vozes do Irão: “Ou vencemos, ou vencemos”

As mulheres iranianas cansaram-se dos mullahs que, em público e em privado, controlam os seus corpos e os seus amores, roubam as suas alegrias e desfazem os seus sonhos. Na linha da frente da luta por direitos e dignidade humana, elas conseguiram algo sem precedentes: unir o país contra um “regime imoral”. (Ler mais | Read more…)

Ozan Kose | AFP | Getty Images | Bloomberg

Todas as noites, Nahid (*) vai para as ruas de Teerão juntar-se a outras mulheres que, desde 16 de Setembro, protestam contra a violência a que estão sujeitas todos os dias. Chega de motorizada, com lenços coloridos que lhe escondem o cabelo louro e máscaras que protegem o rosto luminoso.

“Já queimei o meu hijab em muitas fogueiras”, exulta esta fotógrafa de 30 anos, numa troca de mensagens, por WhatsApp. “Vi amigos serem feridos e desconhecidos serem mortos. A polícia de choque ataca-nos com gases de pimenta e lacrimogéneo, bastões e balas reais.”

Seja na longa avenida Valiasr, que antes se chamava Pahlavi, ou na Praça Ferdowsi, tributo ao poeta que, com Shahmaneh (“Livro dos Reis”), salvou a língua, a história e a mitologia dos persas, “estamos num campo de batalha e não há abrigos onde nos possamos esconder”, acrescenta Nahid. “Os hospitais recusam muitos do que lá chegam pedindo socorro.”

“Há em nós uma sensação de heroísmo”, diz a activista. “Não temos medo. O regime é que tem medo, porque usa o hijab obrigatório como arma. Não quer mudar nada. Só lhe interessa sobreviver e, para isso, prende e mata quem o contraria. Este regime imoral nega-nos direitos humanos básicos e está apavorado, pois não tem resposta ao que é novo. Estamos a morrer pela vida, pela liberdade. Só pode haver um final: ou vencemos, ou vencemos.”

A fúria de Nahid, em crescendo desde que, pela primeira vez, em 2014, foi condenada a um ano de prisão e 91 chicotadas (a pena seria suspensa) pelo “crime” de aparecer num vídeo a dançar sem véu, explodiu quando Mahsa Amini, uma jovem curda, morreu três dias depois de ter sido detida, em 13 de setembro, pela Gasht-e Ershad (“polícia da moralidade”), porque o seu hijab destapava alguns fios de cabelo.

© nbcnews.com

Oriunda de Saqqez, no Noroeste, Mahsa, que na verdade se chama Jina, nome curdo que teve de sacrificar por outro persa, porque as autoridades suprimem o nacionalismo das minorias étnicas, estava de férias em Teerão, acompanhada do irmão, antes de ingressar na faculdade para estudar biologia. Sonhava ser médica.

Vestida de negro, de nada lhe valeu a larga túnica que ocultava as formas do corpo, como exige a lei. Uma “patrulha da virtude” implicou com o seu “imodesto” hijab, ligeiramente descaído, e conduziu-a numa carrinha para um infame centro de interrogatório conhecido como “Vozara”.

Aida Ghajar, jornalista no website IranWire, exilada em Paris desde 2010, foi a primeira a noticiar a morte de Mahsa/Jina. “Vi no Twitter alguém comentar que uma garota de 22 anos estava em coma depois de levada para o Vozara”, conta-me por telefone. “Comecei a investigar. Uma das minhas fontes identificou a vítima como Mahsa Amini, e pôs-me em contacto com o irmão.”

Ao irmão, os polícias disseram que Mahsa iria “ter uma hora de treino sobre como usar bem o hijab” e depois seria libertada, adianta Ghajar. Ao fim de uma hora, o irmão foi à sua procura. Viu partir uma ambulância a grande velocidade sem saber que transportava a irmã. Dirigiu-se então ao hospital de Kasra, onde o informaram que Mahsa estava em coma e não sobreviveria. “Ela entrou saudável na carrinha; como acabou morta?”, questionou o irmão.

Médicos legistas oficiais justificaram que Mahsa morrera de “ataque cardíaco” e garantiram que “não havia sinais de ferimentos na cabeça e no rosto”. Sem relatório da autópsia, a família alega que a jovem, sempre saudável, foi espancada violentamente. O pai arranjou um advogado porque o regime está a pressioná-lo a fazer “uma confissão gravada” para corroborar a versão oficial.

© Associated Press

O funeral de Mahsa Amini foi um ponto de viragem. A partir de Saqqez, na província do Curdistão, os protestos rapidamente se alastraram a mais de 80 outras cidades iranianas, incluindo os santuários xiitas de Qom e Mashhad, berços de Khomeini e Khamenei, unindo todos os grupos étnicos, classes sociais, mulheres e homens, religiosos e ateus.

Se inicialmente, a reação do poder foi contida, enquanto o atual presidente, Ebrahim Raisi, discursava na ONU, em Nova Iorque, assim que ele regressou, imediatamente mobilizou os Guardas da Revolução e a milícia Basij, para esmagarem uma revolta em que abundam palavras de ordem como “Morte ao ditador” e “Abaixo a República Islâmica”.  

Aida Ghajar está horrorizada com os números da repressão, que visam não apenas manifestantes, mas também jornalistas, sindicalistas e outros. Só em Teerão, cerca de 3000 pessoas terão sido encarceradas na terrível prisão de Evin.

Quanto aos mortos – alguns deles raparigas mais novas do que Mahsa Amini (uma delas tinha 10 anos), a ONG Iran Human Rights, com sede na Noruega, estima que totalizem “pelo menos 76, podendo ser mais”, sobretudo em regiões rebeldes, como Gilan, Azerbaijão Ocidental e Kermanshah.

© Yasin Akgul | AFP | Getty Images | today.com

Sayeh (**), que nasceu há 41 anos na cidade de Ahvaz, no Kuzestão, província na fronteira com o Iraque, no Sudoeste, onde a minoria árabe é tão marginalizada como os curdos no Noroeste, não se deixa intimidar e continua a juntar-se aos protestos em Teerão, onde hoje vive e trabalha.

É funcionária pública e está à espera de ser despedida em breve, porque insiste em denunciar “a injustiça, a hipocrisia e a corrupção” dos empregadores. “Só me falta entregar a tese para me doutorar em Direito Internacional, mas despromoveram-me de gerente a secretária, a favor de homens sem qualificação profissional, mas leais a políticos”, lamenta Sayeh, numa troca de mensagens, via Telegram.

“Abriram-me um inquérito e reduziram-me o salário a metade, porque sabem que não aceito uma posição subalterna, e porque sou contra o hijab obrigatório. Se não me renovarem o contrato, terei de viver das minhas poupanças e ajudas do meu irmão. Será duro, porque nada é fácil neste país, em particular para uma mãe solteira”.

Sayeh tem orgulho na militância política desde os tempos em que frequentou a Universidade de Ahvaz. Em 2020, chegou a concorrer ao 11º Majlis (Parlamento), mas a candidatura foi chumbada pelo Conselho dos Guardiões. Pertenceu a um partido reformista, mas hoje tem uma certeza: “Um regime totalitário não pode ser reformado”.

© Francisco Seco | Associated Press

“No Irão ninguém faz planos de futuro”, queixa-se. “As regras são cada vez mais rígidas. O regime controla o que vestimos e como devemos rezar. Vigia-nos em espaços públicos e privados. Temos receio de nos apaixonar e amar. O pai é quem escolhe com quem nos podemos casar. Há pais a casar filhas aos 9 anos. A mulher, mesmo vítima de violência doméstica, precisa de autorização do marido para se divorciar. Às mulheres é exigido que fiquem em casa, a cuidar dos filhos e a servir os maridos. Não saem do país sem licença de um guardião masculino. A República Islâmica está a caminho de uma talibanização.”

“Quando soube que Mahsa Amini tinha morrido, enchi-me de lágrimas e de ódio”, confessa Sayeh. “Colocámo-nos no seu lugar e, naquele momento, sentimo-nos estranhas na nossa pátria, sozinhas em toda a Terra. Eu estava doente, mas a minha filha de 15 anos insistiu em que deveríamos ir para a rua protestar. ‘Temos de decidir o nosso próprio destino’, disse-me ela, e eu concordei. Porque também ela, que recusa o hijab, já antes havia sido apanhada pela Gasht-e Ershad.”

É um sentimento partilhado pela fotógrafa Nahid, que se lembra de como ficou em choque ao saber da morte brutal de Mahsa Amini. “Podia ter sido a minha irmã ou a minha mãe. Eu própria já fui detida tantas vezes. E tantas vezes tive de correr para escapar às garras desta polícia”.

© Agence France-Presse | DW

Nahid e Sayed estão convencidas de que os atuais protestos não são como outros que, depois de reprimidos, caíram no esquecimento. “Desta vez, as mulheres estão na liderança, e se o regime não capitular, também não nos renderemos”, acredita Nahid. “Vamos inspirar outras mulheres.”

Sayed também realça que esta revolta é diferente. “O regime não está disposto a ceder em termos sociais, económicos e de segurança. Pelo contrário, fechou espaços alternativos, deixando as pessoas sem esperança. Também não faz concessões quanto ao acordo nuclear, porque sabe que as sanções internacionais só beneficiam e enriquecem quem está no poder. Esperam-nos um rio de sangue e dias amargos. Mas tenho a certeza de que este movimento de mulheres é o prelúdio de mudança do futuro do Irão.”

Nos Estados Unidos, para onde se mudou em 1978, antes de o país natal se transformar numa teocracia, a iraniana-americana Haleh Esfandiari recorda que esta é a segunda vez em que as mulheres “estão na linha da frente” dos protestos contra a imposição do hijab. A primeira grande marcha foi em 8 de Março de 1979, Dia Internacional da Mulher. “Já nessa altura foram agredidas por vigilantes.”

Podem as manifestações atuais levar a mudanças mais do que simbólicas, como retirar das ruas as carrinhas verde-branco da Gasht-e Ershad? “É muito cedo para dizer, mas, para o regime, é um aviso do quão grande é a insatisfação da nova geração”, responde-me, por e-mail, a autora de My Prison, My Home, as memórias dos 110 dias que esteve em isolamento na cadeia de Evin, em 2007, sob a acusação de espionagem, quando foi visitar a mãe de 93 anos.

© Associated Press | Le Monde

Esfandiari, ex-professora de Língua Persa na Universidade de Oxford e fundadora do Programa de Médio Oriente no Woodrow Wilson International Center for Scholars, em Washington, estudou durante vários anos o impacto da revolução islâmica sobre as mulheres iranianas.

Em Reconstructed Lives: Women & Iran’s Islamic Revolution, reconhece que “muitas tinham grandes expectativas”, mas logo perceberam que “teriam de recuperar os direitos perdidos e muito mais”. Uma das mulheres que ela entrevistou conta como preferiu “submeter-se a 70 chicotadas do que assinar uma declaração falsa de que se vestia como uma prostituta”.

Nos últimos 43 anos, salienta Esfandiari, “são palpáveis as conquistas das mulheres iranianas”, sobretudo no campo da educação. “Não porque o regime seja benévolo, mas porque se recusaram a ficar em casa e a abdicar do que haviam conseguido. O progresso e o sucesso obtidos desde a revolução são exclusivamente obra das mulheres.”

Para esta académica, apesar de o hijab continuar a ser “a medida com que a República Islâmica mede a sua legitimidade”, a realidade é que “a obsessão com os corpos e a aparência das mulheres tem sido um fracasso”, e a morte de Mahsa Amini comprova-o. “Nada indica que vai acabar o assédio nas ruas, as prisões, a tortura e a morte, mas as mulheres iranianas continuarão a sua luta pela igualdade e liberdade de escolha.”

© msnbc.com

Sanam Vakil, autora de Action and Reaction: Women and Politics in Iran e vice-diretora do programa de Médio Oriente e Norte de África na Chatham House, em Londres, está também pessimista quanto à resposta do regime. “O Presidente Raisi vem de um campo conservador e, para preservar o poder, importa-lhe reforçar as leis islâmicas”, explica-me, por e-mail, a iraniana que é também professora na School of Advanced International Studies (SAIS) da Universidade Johns Hopkins, em Bolonha, Itália.

O mesmo acontece com Ali Khamenei: “Ele e a linha dura que o rodeia acreditam que só a repressão lhes assegura autoridade e controlo. A legitimidade advém do monopólio da força. O compromisso, para ele, equivale a fraqueza.” No entanto, “mesmo que o regime continue a fechar portas, a sociedade civil encontrará meios de abrir janelas”, conclui Vakil.

Em 1979, Mohammad Reza Pahlavi preferiu largar o trono a resistir aos que o derrubaram. No site The Intercept, o analista Murtaza Hussain não augura nada de bom para a República Islâmica. “O Irão está tão isolado do resto do mundo que os seus líderes têm poucos lugares preciosos para onde fugir. E a crescente repressão interna indica que prefere a destruição total do país (…) a uma transferência pacífica de poder. Mesmo que se forme um movimento de oposição credível no exterior, não existe nenhum no interior.”

© EPA | nbcnews.com

Haleh Esfandiari não acredita no prognóstico de alguns exilados de que “a República Islâmica está condenada a desaparecer”. Enquanto trabalhadores, organizações governamentais, setor privado e o bazar [cujo financiamento foi crucial para a queda do Xá] não derem as mãos, não vejo iminente o colapso do regime.”

É uma análise que não difere da do iraniano Karim Sadjadpour, do Carnegie Endowment for International Peace, em Washington. “Não duvido que haja fissuras internas e apetite para uma mudança fundamental dentro da sociedade”, disse Sadjadpour a Fareed Zakaria, na CNN. “mas para uma sublevação popular ser bem-sucedida não bastam as pressões de baixo, são necessárias pressões no topo. Até agora, não vemos isso no Exército ou nos Guardas da Revolução.”

“Há, porém, uma incerteza: a saúde frágil de Ali Khamenei.” O que acontecerá quando ele morrer? Será substituído por um líder fraco ou forte? “O mais provável”, vaticina Sadjadpour, “é a ascensão de alguém do aparelho militar, que substituirá o nacionalismo xiita pelo nacionalismo iraniano.”

(*) Pseudónimo para proteger a identidade da entrevistada.

(**) Sayeh pediu que não se revelasse o seu apelido

De Reza a Raisi: Sem véu e com véu
© Hnegameh Golestan | cbc.ca

Em 8 de janeiro de 1936, Reza Khan, o fundador da dinastia Pahlavi, tomou uma decisão cujas ondas de choque ainda hoje abalam o Irão; emitiu um decreto, Kashf-e hijab, para proibir o lenço e a capa que ocultavam o rosto, o cabelo e o corpo das mulheres. A polícia recebeu ordens para multar as desobedientes, “confiscar véus valiosos ou arrancá-los à força”. Dia e noite, agentes patrulhavam as ruas “munidos de tesouras” para rasgar os chadors.

Esta “emancipação à bruta” escandalizou não só as muçulmanas conservadoras nas áreas rurais (80% da população), mas também a antiga elite Qajar, próxima do clero xiita. Para um aristocrata, “ver estranhos a apalpar a sua mulher em público era uma desonra”. Para as mulheres, retirar o véu era “ofensa à castidade”. A maioria isolou-se em casa e retirou as filhas da escola.

Reza Khan queria transformar o Irão num país moderno e secular, e a verdade é que ofereceu oportunidades de educação e emprego às mulheres, principalmente em centros urbanos, mas, a curto e longo prazo, estas políticas tiveram um impacto reduzido devido à sua “força arbitrária”.

© Hengameh Golestan | cbc.ca

Mohammad Reza Pahlavi, o imperador que sucedeu ao pai em 1941, deu às mulheres a opção de usar ou não véu, minissaia ou manteau, e até de se desnudarem em palco, alargando horizontes da cultura à política. Em 1963, as mulheres conquistaram o direito de voto e a ser eleitas para o Parlamento e governos locais. O país ganhou, pela primeira vez, duas ministras e várias ministras-adjuntas, diretoras-gerais e embaixadoras.

Em 1967, graças às novas deputadas, foi aprovada uma histórica Lei de Proteção da Família, que retirou aos homens o monopólio do poder no que toca ao casamento, ao divórcio e à tutela dos filhos. Até 1978, o “rei dos reis” ofereceu “igualdade de direitos, crescimento económico e desenvolvimento urbano”, mas a sua polícia secreta, SAVAK, também instituiu um sistema repressivo que silenciava os críticos, fossem comunistas do Tudeh ou nobres no palácio, o que abalou a sua legitimidade política.

Em 1979, quando o ayatollah Khomeini, exilado em Paris, voltou à pátria para derrubar 2500 anos de monarquia e instaurar o “governo do jurista” (velayat-e faqi), na vanguarda da revolução islâmica contra a “ocidentoxicação” estavam milhões de mulheres. Esperavam “uma expansão, não uma contração” dos direitos adquiridos.

Rapidamente perderam as ilusões. O primeiro alarme surgiu nas montras das lojas, quando os manequins perderam cabeças e olhos, o vermelho dos lábios e as unhas pintadas, porque era preciso “obliterar toda a identidade feminina”.

Imediatamente, o chador negro tornou-se o uniforme oficial das mulheres em cargos oficiais. Em 1983, a partir dos 7 anos, o hijab passou a ser obrigatório. Quase todas as leis, incluindo a da Proteção da Família, foram desmanteladas ou suspensas. Um novo código penal instituiu o apedrejamento até à morte por adultério ou 70 chicotadas por infringir o código de “vestuário modesto”.

© Hengameh Golestan | cbc.ca

Das subsequentes vagas de execuções, uma das vítimas foi Farrokhroo Parsa, primeira mulher a exercer uma pasta ministerial (Educação), fuzilada em 8 de maio de 1980, em Teerão. Da prisão escreveu aos filhos: “Recebo a morte de braços abertos. Não aceito usar o chador e recuar na história.”

É certo que as mulheres retiveram o direito de votar e ser membros do Parlamento, mas o topo da hierarquia é inalcançável. Encheram as universidades (são mais de 60%), mas negaram-lhes profissões como juíza. Shirin Ebadi, que seria Prémio Nobel da Paz em 2003, resignou-se à posição de advogada, apesar de, ao início, não lhe parecer “de modo nenhum contraditório” apoiar Khomeini, que “escondia sob o manto da religião a sua luta contra as verdadeiras injustiças”.

Os velhos de turbante que, inadvertidamente, introduziram as mulheres no espaço público quando as exortaram a participar nas marchas contra o Xá e a votar no referendo que criou a República Islâmica, e quando precisaram delas para ser o ganha-pão enquanto homens e meninos morriam na guerra com o Iraque, não esperavam que elas se mostrassem tão intrépidas. Sobretudo não as mais devotas, confortáveis nos seus hijab e chador, que aproveitaram uma educação “ocidentalizada” para defender o que hoje designam por “feminismo islâmico”, numa irmandade com o “feminismo secular”.

Na luta contra oito governos misóginos nos últimos 43 anos, talvez o adversário mais feroz das mulheres iranianas seja o atual presidente, Ebrahim Raisi. Foi ele quem reforçou as políticas que vigiam, perseguem e matam quem, como diz o poeta Sadegh Sarmad, “fugiu da gaiola e quebrou as asas, mas continua a voar”.

As fotos deste segundo artigo ilustram a primeira grande manifestação contra a imposição do hijab no Irão, no dia 8 de Março de 1979, ano da revolução islâmica de Khomeini.

Mahsa Jina Amini, a jovem curda cuja morte, quando estava sob custódia da “polícia da moralidade”, desencadeou a revolução das mulheres do Irão contra o uso obrigatório do véu e contra o regime teocrático
© Zuma Press | Wall Street Journal

Estes dois artigos foram originalmente publicados na edição de 6-12 de Outubro de 2022 da revista VISÃO | These two articles were originally published in the Portuguese news Magazine VISÃO, 6-12 October 2022 edition

Na Ásia, os católicos não andam em busca de conversões

Das montanhas de Timor-Leste às estepes da Mongólia, os novos e velhos cardeais do continente “são preciosos”, porque estão habituados a viver em “sociedades plurirreligiosas”, diz-me o teólogo e antropólogo Michel Chambon. O mundo deles “não é binário: Catolicismo vs Protestantismo (América); Cristianismo vs Secularismo (Europa); Cristandade vs Islão (África)”. Ao promover nas suas escolas “uma educação moderna e não sectária, como nenhuma outra religião o faz”, o Catolicismo asiático “não pode ser reduzido a uma comunidade confessional, que só cuida de si mesma”. (Ler mais | Read more…)

© Asia One | AFP

Investigador na Universidade Nacional de Singapura, Michel Chambon é também um dos coordenadores da Initiative for the Study of Asian Catholics, um projecto colaborativo do Asia Research Institute criado para “promover a investigação científica social sobre os católicos asiáticos nas sociedades contemporâneas”.

Teólogo e antropólogo francês, Chambon tem estudado as várias comunidades católicas e protestantes na China, Taiwan e Hong Kong. Autor do livro Making Christ Present in China: Actor-Network Theory and the Anthropology of Christianity, os seus mais recentes projectos centram-se na expansão da Ordem Militar Soberana de Malta na região Ásia-Pacífico, e na prática do Cristianismo nos lares chineses. Falei com ele, numa troca de correspondência por e-mail, para perceber a ênfase asiática das escolhas cardinalícias do Papa Francisco.

© Mario Jonny dos Santos | Getty Images | Learn Religions

No dia 27 de agosto, o número de cardeais nascidos ou escolhidos para o seu ministério na Ásia subiu para 21 entre os 132 cardeais eleitores que poderão ser chamados a participar no conclave que elegerá o próximo papa. Na Ásia, 18 países têm agora um ou mais cardeais e 15 são cardeais eleitores. Até que ponto podem eles influenciar a direcção futura da Igreja e as suas prioridades?

Segundo Gerard O’Connell [autor da obra The Election of Pope Francis: An Inside Account of the Conclave That Changed History], os cardeais asiáticos desempenharam um papel importante na eleição do Papa Francisco. Juntos, tinham uma visão clara do que queriam: teria de ser um não eurocêntrico, alguém profundamente pastoral, capaz de reformar a Cúria Romana e dar atenção à periferia, etc.

Após a primeira volta da votação, o pequeno grupo asiático apresentou [o argentino Jorge Maria] Bergoglio como segundo candidato e, com isso, chamou a atenção dos outros [purpurados]; as votações seguintes fizeram o resto.  Isto significa que a influência [do grupo asiático] não se limita ao seu número. Talvez seja o contrário.

Um pequeno grupo pode ser mais unido, os seus membros conhecem-se uns aos outros, e a sua visão terá maior probabilidade de ser ouvida fora do seu círculo. Por isso, o que importa é saber se os cardeais asiáticos podem produzir e partilhar uma visão comum capaz de se destacar entre muitas outras opções, afiliações, prioridades e preferências que os cardeais de todo o mundo tenham. Se os asiáticos forem mais numerosos, mas menos unidos, a sua influência será menor e não necessariamente “asiática”.

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Francisco visitou até agora mais países na Ásia do que em qualquer outro continente – de bastiões do Catolicismo, como as Filipinas e a Coreia do Sul, até às comunidades minoritárias no Sri Lanka, na Birmânia, no Bangladesh, na Tailândia e no Japão. Ignorou convenções para nomear cardeais em nações periféricas como o Brunei (embora o escolhido em 2020, tenha morrido em 2021, de ataque cardíaco, sete meses depois de designado por Francisco). Também proclamou cardeais asiáticos para postos importantes no Vaticano. Concorda com os que dizem que o papa “está a mudar o eixo da Cristandade do até agora dominante Ocidente para o Sul Global”?

Creio que o Papa Francisco está simplesmente a pôr em prática o [Concílio] Vaticano II [1961-1965] – a fazer com que a liderança da Igreja se mantenha alinhada com o resto do Catolicismo; está a transformar a Cúria Romana e o Colégio dos Cardeais numa instituição verdadeiramente global (já não italiana nem europeia). O Vaticano II é isto. No entanto, não creio que haja uma oposição Ocidente-Sul.

Vejamos as estatísticas referentes ao Colégio dos Cardeais: o segundo país mais representado depois da Itália é os Estados Unidos da América. Em termos de geopolítica, isso é normal. A Igreja sempre integrou um número suficiente de pessoas do país mais poderoso da Terra, para ter a certeza de que a sua liderança global estará à altura da superpotência do momento.

Precisamos de cardeais norte-americanos para garantir que o Catolicismo Global pode lidar com a América. E, enquanto os EUA permanecerem a superpotência, a presença de cardeais norte-americanos continuará a ser forte – o mesmo aconteceu antes com a França e a Espanha. Então, o que me parece interessante é que, se olharmos para as estatísticas (número de católicos por continente e número de cardeais), só dois continentes estão sobrerrepresentados no Colégio dos Cardeais: a Europa (principalmente a Itália – o quintal seguro do Vaticano) e a Ásia.

© World Watch Monitor

As Américas e África estão largamente subrepresentadas – sobretudo se olharmos para o número de católicos [637 milhões e 236 milhões, respetivamente]. Na Ásia, vemos a mesma dinâmica a nível regional. As Filipinas [85,4 milhões] têm menos cardeais do que a Índia, onde há apenas 19 milhões de católicos.

Acho mesmo que o Papa Francisco está simplesmente a aplicar o Vaticano II. Este concílio foi claro: as outras religiões não são produto do demónio nem um erro a erradicar. Têm algo de bom e precisamos de as ouvir com atenção.

Não podemos assumir, implicitamente, que a missão da Igreja é converter toda a gente e recriar uma quase Cristandade. Sociedades multirreligiosas são a norma. São uma dádiva de Deus, e precisamos de aprender a valorizar outras tradições e crenças.

Neste contexto, os cardeais asiáticos (excepto nas Filipinas) são preciosos, porque estão habituados a viver em sociedades e sistemas políticos que, do ponto de vista religioso, são verdadeiramente diversos. Eles não vivem num mundo binário: Catolicismo vs Protestantismo (Américas); Cristianismo vs Secularismo (Europa); Cristandade vs Islão (África).

© licas.news

Ao tornar os cardeais asiáticos proporcionalmente mais importantes, o papa assegura que a visão teológica e eclesiológica do Vaticano II está verdadeiramente enraizada no topo da liderança da Igreja.

Para algumas pessoas, o papa escolheu mais cardeais asiáticos na esperança de conseguir mais convertidos/as na Ásia (um continente em que os católicos são raros). Eu recuso esta leitura. Nunca vi provas de que a nomeação de um cardeal aumentasse as conversões e o recrutamento. Esta abordagem do género “teoria de mercado” é ridícula.

Pelo contrário, precisamos de procurar outras razões que expliquem a sobrerrepresentação da Ásia no Colégio dos Cardeais. Para mim, a principal razão destas nomeações está na importância das sociedades plurirreligiosas. Isto tem de ser visto como a “normalidade” em que a Igreja precisa de se exprimir. E os cardeais asiáticos são os mais bem equipados para o fazer.

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Na Ásia, importado durante o período colonial, o Catolicismo ainda é considerado uma religião “estrangeira” ou a Igreja é hoje mais local e indígena? Como define os católicos nativos, os papéis que desempenham nas suas sociedades e a coexistência com outros crentes?

O Catolicismo na Ásia não foi importado durante o período colonial. O Cristianismo estava presente na Índia nos primeiros séculos (com os dicípulos de São Tomé) – e nunca desapareceu. Também esteve presente na China, no século VII (Igreja Siríaca) – e só depois desapareceu.

O papa enviou delegados à China no século XIII. Chegaram depois mais missionários com os mercadores portugueses que andavam pela Ásia –, mas isto não fazia ainda parte do processo colonial (o dos séculos XVIII-XX de que todos falamos).

Por outras palavras, não podemos dizer que o Catolicismo chegou com o colonialismo. Talvez o Catolicismo asiático tenha sido “alimentado” pelo colonialismo, mas nem isso significa que as populações locais tivessem sido subjugadas ou que sofreram uma lavagem cerebral.

© The New York Times

Outro exemplo é o Vietname. Aqui, o Cristianismo foi perseguido pelos governos de Dai Viet e Annam, no século XVII, porque era [visto como] uma ameaça à piedade filial e à família tradicional (cruciais para a ordem social).

Na península vietnamita, só no século XIX é que o Cristianismo começou a ser acusado de ser “estrangeiro” – isto no contexto de uma intensa colonização francesa e de uma nacionalismo moderno que associava o Catolicismo à hegemonia ocidental.

De volta à sua questão, sim, é claro que a Igreja na Ásia é local e indígena: 99% dos seus fiéis e líderes nasceram aqui. Mas, mais uma vez, a situação difere de país para país. Em Estados como a Tailândia e o Camboja, os católicos são muitas vezes parte de minorias étnicas marginalizadas (Karen, Viet, Chineses, etc..) e, por isso, acusados de “não pertencer” ali. Quem tem o poder de definir uma “verdadeira pertença” e a “identidade nacional”?

Na Índia, a situação é diferente, mas comparável: a maioria dos católicos da Igreja Latina [não os da Igreja Siro-Malabar ou da Igreja Ortodoxa Síria Malankara] são Dalits [outrora conhecidos pela designação pejorativa de ‘intocáveis’] – e são discriminados em termos de casta e económicos. Mas, é essencial ser hindu para ser indiano? Estas são hoje questões controversas – em todo o continente.

© Greg Baker | Agence France-Presse | Getty Images | The New York Times

Quanto ao papel que desempenham, dou apenas um exemplo: à excepção da China e da Coreia do Norte, os católicos administram escolas primárias e secundárias em todo o continente. E, de um modo geral, só 5% dos alunos destas escolas católicas são católicos.

Ou seja, o Catolicismo asiático ensina centenas de milhares de crianças não-católicas sem, de modo algum, as obrigar a converterem-se.

Através de milhares de escolas, muitas delas excelentes, o Catolicismo asiático promove uma educação moderna e não sectária, como nenhuma outra religião o faz. O Catolicismo na Ásia não pode, portanto, ser reduzido a uma comunidade confessional, que só cuida de si mesma. As coisas são mais subtis e estão mais entrelaçadas.

© Reuters | americamagazine.org

Muitos católicos na Ásia, sobretudo no Sul e Sudeste, não são apenas indigentes. Também se queixam de “não ter poder nem voz”. Será que a hierarquia da Igreja segue as recomendações do Papa Francisco para ser “protectora dos mais pobres, fracos e vulneráveis” ou é uma liderança “fechada numa fortaleza”, como alguns lastimam?

É preciso cuidado com estas generalizações. Em muitas partes da Ásia, temos grupos de católicos ricos e influentes ao lado de menos afortunados – e até num mesmo país (como a Tailândia, a Índia ou o Sri Lanka). Não há nada homogéneo ou fácil de apresentar.

Se dermos atenção à hierarquia e à sua atitude em relação aos vulneráveis, encontramos de tudo: padres e bispos muito comprometidos com os pobres; os que são a favor de desafiar as autoridades locais; os que não consideram o confronto a posição mais sensata; os que acreditam genuinamente que a Igreja não deve negligenciar outras questões e missões. Temos todo um espectro de atitudes motivadas por uma vasta diversidade de razões.

© Pontifical Mission Society

Isto não significa, naturalmente, que uns são bons e outros maus. A Igreja tem várias maneiras de lidar com as autoridades locais e promover mudanças sociais. Por exemplo, sabemos que o cardeal [Malcom Ranjith] do Sri Lanka nunca foi um crítico do governo corrupto do país.

Foi mesmo um apoiante durante muito tempo – até aos não resolvidos ataques bombistas da Páscoa [de 2019, cujos autores nunca foram detidos] e à recente crise política [que obrigou a família Rajapaksa a abandonar o poder, em julho].

Só então é que ele começou a contestar os líderes governamentais e se tornou um forte opositor político. Como se vê, uma única pessoa pode incorporar diferentes abordagens, dependendo da época e das circunstâncias.

© Paul Haring | CNS | detroitcatholic.com

Num artigo no site The Diplomat, o senhor destaca que, embora os católicos representem menos de 5% da população da maioria dos países asiáticos, “o significado” do Catolicismo na região “não se pode limitar a uma contagem do número de fiéis”. Timor-Leste tem agora o primeiro cardeal, tal como a Mongólia, com a sua pequena comunidade de 1300-1500 almas. O arcebispo indiano de Hyderabad vai ser o primeiro cardeal Dalit. Pode ajudar-nos a compreender a importância de cada uma destas escolhas?

Cada uma delas tem múltiplos significados e várias implicações. Não as posso considerar mono-dimensionais, nem tenho a pretensão de me considerar um perito nestas três situações (conheço melhor o caso de Singapura). No entanto, posso realçar alguns elementos que acho importantes.

Timor-Leste é o país mais católico da Ásia – há 40 anos que é católico e há 22 que é independente. Actualmente, o país ainda está num processo de construção nacional, com enormes problemas económicos, e no meio de grandes tensões internacionais e ganância.

A igreja local também enfrenta os seus próprios desafios – encontrar o caminho certo para combinar cultura tradicional (e modos de autoridade) com o Catolicismo – numa altura em que duas em cada três dioceses não têm uma liderança clara.

Assim, o cardeal é a única figura estável de autoridade no país, reconhecido e apreciado pela maioria das pessoas, que talvez possam ajudar a igreja local e o país a não implodirem. Elevar [Virgílio do Carmo da Silva] a cardeal é uma maneira de reforçar o seu peso político e ajudar na transformação de um país muito jovem e subdesenvolvido.

© Cristian Gennari | CNS | catholicnews.com

A Mongólia é um caso muito diferente: Uma pequena população católica num vasto território multirreligioso (maioritariamente budista) – encravado entre dois regimes autoritários. A igreja local é muito jovem e humilde.

A escolha de um jovem missionário italiano [Giorgio Marengo] é ousada: o papa não seguiu um certo nacionalismo moderno, para o qual só membros do clero local podem ser líderes de topo da igreja local (filipinos nas Filipinas, vietnamitas no Vietname, etc).

Depois de um século de respeito católico por esta ideologia “nacionalista”, o papa recorda-nos que a Igreja continua soberana e está acima deste nacionalismo de vistas curtas. Numa era de nacionalismo asiático ascendente – esta é uma mensagem interessante da Igreja Católica (Universal) às sociedades asiáticas (bastante diversas) e a estados-nações invejosos.

Imaginem um missionário vietnamita ser nomeado cardeal de Singapura ou um missionário filipino ser nomeado cardeal de Tóquio (e o mesmo se aplicando a um vietnamita para cardeal de Paris…)? Penso que a Mongólia é um dos raros países asiáticos capaz de aceitar este convite com abertura universal.

Rolex Dela Pena | CNS | EPA | amaericamagazine.org

No caso do arcebispo [Anthony Poola] de Hyderabad, continuamos numa dinâmica totalmente diferente. A questão Dalit na Índia é extremamente profunda e sensível, mas precisa de ser enfrentada – desde que a Igreja na Índia não seja reformulada/reformatada dentro do sistema de castas do Hinduísmo.

Ainda que o rito católico da Índia conte um grande número de fiéis Dalit, os seus líderes não são Dalits. Isso poderia introduzir o sistema de castas na Igreja e levantar questões em termos da igualdade universal cristã.

Embora a Igreja tente não responder às provocações e aos ataques de hindus extremistas, é preciso encontrar meios para demonstrar que ela não apoia – nem sequer implicitamente – o sistema de castas, o que perturba imenso alguns nacionalistas hindus e até suscita violência.

Portanto, ao escolher alguém de origem Dalit para cardeal – uma personalidade gentil, calorosa e amigável – o papa envia um sinal. Não vai resolver tudo, porque esta questão é maior do que a própria Igreja – mas, pelo menos, não se pode acusar a Santa Sé de ter fechado os olhos ao problema ou – no outro extremo – de ser conflituosa. Ela usa as suas próprias ferramentas para encarar o problema e, com sorte, ajudar a Igreja na Índia.

Ted Aljibe | AFP | Getty Images | Bloomberg

Diz que conhece melhor o caso de Singapura. Como analisa a escolha de William Goh, arcebispo desde 2013 e agora o primeiro cardeal do país – o primeiro de origem chinesa entre os cardeais eleitores – num país onde os católicos representam 360 mil pessoas numa população de 5,6 milhões?

Embora Singapura seja um importante centro asiático com uma comunidade católica vibrante, a cidade-Estado nunca teve um cardeal. Em comparação com outros na região, isto era claramente uma anomalia. A principal razão é a experiência traumática da Operação Espectro.

Em Maio de 1987, foi organizada uma operação policial em larga escala para, segundo a versão oficial, impedir um golpe comunista contra o Estado. Porém, muitos viram isto como uma tentativa de impedir o envolvimento sócio-político de vários católicos de Singapura, e um aviso a todos os grupos religiosos. Após esta operação, a Igreja retirou-se para o interior dos seus santuários.

As mega-igrejas evangélicas tornaram-se na principal força do Cristianismo em Singapura, e o Vaticano decidiu esperar antes de dar maior proeminência eclesial a um arcebispo altamente controlado [pelas autoridades].

No entanto, 35 anos depois, a situação mudou. Singapura evoluiu e o Vaticano há muito que trabalha pela integração das forças de Singapura na liderança regional e global da Igreja. Singapura tem muito para partilhar.

Os seus modelos de coesão social, estabilidade política e capacidade de superação económica são fontes valiosas de inspiração. E, uma vez que Hong Kong não pode, de momento, desempenhar o seu papel regional [devido à repressão por parte de Pequim], o Vaticano pretende que as dimensões multirreligiosa e internacional de Singapura possam contribuir mais para as igrejas asiáticas.

© Noah Seelam | AFP | Getty Images CBCNews

E quanto às Filipinas, país com a terceira maior população católica do mundo (depois do Brasil e do México)? Em 1986, foi um cardeal poderoso, Jaime Sin, que inspirou a chamada “Revolução Popular”, a qual ajudou a derrubar Ferdinand Marcos. Agora que o filho do defunto ditador inicia o seu próprio caminho presidencial (graças aos votos de muitos católicos), depois do mandato hostil de Rodrigo Duterte, alguns analistas especulam que a Igreja “está a perder a sua influência social e política”. Concorda?

Não tenho a certeza de que o cardeal Sin tenha “inspirado” a revolução. A ideia que tenho é a de que foi capaz de, cuidadosamente, avaliar a situação e compreendeu ter chegado a hora de o ditador partir. Na minha opinião, ele agiu mais como um coordenador e árbitro entre as várias forças do que como um iniciador. Sobre a situação atual nas Filipinas, convido a que ouçam a gravação da nossa mesa-redonda de Junho (https://www.isac-research.org/roundtable), uma conversa muito rica e cheia de nuances.

Se tivermos de simplificar, concordo consigo: sim, a Igreja (sobretudo os bispos filipinos) está a perder a sua influência social e política.

Nas últimas eleições [em Maio, que deram a vitória aos filhos de duas dinastias: Ferdinand Marcos Jr. e Sara Duterte], vimos os bispos a dar lições à população e aos pobres sobre como deveriam votar [a ex-vice-presidente Loni Lobredo seria a candidata favorita] –, mas os resultados foram noutra direcção.

© South China Morning Post

O senhor há muito que estuda os católicos na China. Qual o impacto do poder crescente de Xi Jinping e do Partido Comunista sobre a vida e a missão da Igreja na Ásia?

Com Xi Jinping, o sistema político chinês tornou-se mais intrusivo em todos os sectores da sociedade. XI, e com ele o partido, está obcecado em controlar os cidadãos. Até um grupo de dança ou uma associação de idosos tem de provar a sua lealdade ao partido. E o seu controlo também se sente, cada vez mais, entre os grupos religiosos e círculos católicos.

Todavia, embora os católicos sejam muito escrutinados pelo Estado ateu e ‘suspeitos’ de seguir uma potência estrangeira arcaica – o papado –, o partido tem vindo a matizar a sua abordagem. Primeiro, porque, hoje em dia, o partido já não é bem “anti-religioso”. Só quer controlar cada aspecto da sociedade e, na realidade, deixou de promover uma ideologia religiosa (ateísta).

As religiões podem existir na China e até ser úteis para fornecer, como terceiros, serviços sociais onerosos (cuidados com as pessoas mais velhas, etc). Além disso, o acordo provisório assinado entre a Santa Sé e Pequim [em Setembro de 2018] deu garantias ao partido de que os católicos são leais e, até certa medida, estão controlados (o que é menos verdade em relação aos protestantes, e as suspeições do partido viram-se agora para este ramo do Cristianismo, considerado demasiado próximo dos EUA).

© Manjunath Kiran | AFP | Getty Images | pewresearch.org

Por fim, quais são, para si, os principais desafios que as igrejas asiáticas enfrentarão no futuro?

Precisaria de um livro inteiro para responder a esta pergunta. Devemos ter em mente que não há muito em comum entre o rico Japão, o atormentado Afeganistão e a diversificada Indonésia [onde, apesar de o país ser predominantemente muçulmano, tem maiorias católicas na Ilha das Flores e em algumas partes da Papua – “minorias que contribuem para a coesão nacional e a integridade territorial” do Estado, como atesta Chambon].

Não podemos caracterizar a Ásia nem a Igreja na Ásia como realidades homogéneas. Em todo o continente, são vários os desafios: pobreza crescente, secularização, envelhecimento das populações, regimes autoritários, nacionalismo agressivo… Mas tudo depende de região para região.

Michel Chambon, autor de Making Christ Present in China: Actor-Network Theory and the Anthropology of Christianity
© Cortesia de | Courtesy of Michel Chambon

Francisco vira-se para o “Oriente”

São da Ásia-Oceania 22% dos 83 bispos a quem o Papa Francisco entregou o anel de sinete e o barrete vermelho desde o início do seu pontificado. E serão eles a maioria dos 132 eleitores entre os 227 membros (com e sem direito a voto) do Colégio de Cardeais que, num conclave, escolherão o próximo chefe da Igreja Católica.

Dos 16 purpurados eleitores apresentados no último consistório, em Agosto, 6 são de uma região que já tem 31 cardeais em 18 países, do Bangladesh ao Tonga. O que mais surpreendeu alguns dos analistas não foi sequer o número – o maior, em comparação com 4 da Europa, 3 da América Latina e Caraíbas, 2 da África Subsariana e um da América do Norte -, mas sim os lugares de onde vieram. Vejamos quem são os seis e as suas comunidades.

Virgílio do Carmo Silva

© Paul Haring | CNS | Sunday Examiner

Nascido há 54 anos em Venilale, que antigamente se chamava “Vila Viçosa”, uma povoação conhecida pelas cavernas construídas pelos invasores japoneses durante a II Guerra Mundial e que mais tarde serviriam de esconderijo aos guerrilheiros da Fretilin na luta contra os ocupantes indonésios, o arcebispo de Díli, Virgílio do Carmo Silva, nem queria acreditar quando, em 29 de Maio, recebeu um telefonema da Santa Sé informando-o de que seria o primeiro cardeal de Timor-Leste, nação que festejou recentemente duas décadas de independência e onde a Igreja Católica celebrou 500 anos de existência.

“Foi um presente de Deus”, congratulou-se, em entrevista ao site Vatican News, o prelado a quem os missionários Salesianos de Dom Bosco abriram as portas na adolescência, para ele estudar e onde descobriu a vocação sacerdotal. O novo cardeal concluiu os estudos em Manila (Filipinas); foi ordenado padre em 1998 após uma licenciatura em Roma; seria depois superior provincial dos salesianos em Timor-Leste e, em 2016, nomearam-no bispo de Díli.

Situado no Sudeste Asiático, Timor-Leste é, em termos de percentagem, “o maior país católico da Ásia”: 97% de fiéis versus 83% nas Filipinas. “Muitos acham que a prevalência do Catolicismo se deve ao seu passado de colónia portuguesa, mas quando Portugal se retirou, em Novembro de 1975, menos de 20% dos timorenses eram católicos”, explicam os investigadores Bernardo Brown e Michel Chambon num ensaio publicado na plataforma digital The Diplomat.

“Foi só durante a brutal ocupação indonésia (1975-1999) que os timorenses se converteram em massa. Portanto, o Catolicismo em Timor-Leste não é um produto da colonização ocidental, mas algo mais recente e ligado às dinâmicas inter-asiáticas”.

Uma grande parte da população timorense passa todos os anos “uma época de fome”
© The Missionaries of the Poor

O Catolicismo, adiantam Brown e Chambon, “ajudou a atrair a atenção internacional para a violenta colonização indonésia”. E, quando esta terminou com a independência, foi a fé católica que ajudou os timorenses a “reconciliarem-se com o inimigo”. Aos que tentam desvalorizar Timor-Leste como “uma ilha pequena e periférica”, Brown e Chambon relembram que o país “tem um território 20 vezes maior do que o de Singapura, e está localizado no nexo de importantes tensões geopolíticas, entre a Austrália e a China.”

O grande problema, reconhecido pelo novo cardeal, é que Timor-Leste se mantém um Estado onde, apesar da riqueza do petróleo e por causa da corrupção, a maioria dos seus 1,4 milhões de habitantes vive em pobreza extrema. O desemprego afecta 75% das pessoas com menos de 35 anos.

Dependente da agricultura de subsistência, uma grande parte da população passa anualmente “uma época de fome”. Pelo menos 50% das crianças sofre de desnutrição. Em Díli e noutras cidades, faltam serviços básicos, como água potável, saneamento, saúde e educação (só metade dos habitantes é alfabetizada).

A Covid-19 agravou ainda mais a situação. O cardeal Virgílio Silva promete que uma das suas prioridades será impedir que, em busca de um futuro melhor no estrangeiro, os jovens abandonem o país que precisa deles.

Giorgio Marengo

Daniel Ibáñez | CNA | The Catholic Times

Não é fácil a missão de Giorgio Marengo, arcebispo de Ulan Bator, capital da Mongólia, um país da Ásia Central fronteiriço com a China, onde as temperaturas nos longos invernos, de Setembro a Abril, são muitas vezes de 40ºC negativos, e onde os seus 1300-1500 fiéis são uma minúscula minoria entre mais de três milhões de habitantes, metade dos quais segue o Budismo Tibetano e outra metade não tem religião.

Ser escolhido pelo Papa Francisco para, aos 48 anos, se tornar o mais jovem membro (eleitor) do Conselho de Cardeais, foi primeiro “uma surpresa” e depois “o sentimento de que o Santo Padre se preocupa, admira e reconhece uma Igreja em minoria absoluta, em contexto de marginalidade e pequenez”, afirmou Marengo.  

Nascido em Cuneo, uma comuna da região de Piemonte, no Norte de Itália, Marengo é missionário da Consolata desde 2000, depois de estudos em Filosofia e um doutoramento em Missiologia em Roma. Foi ordenado sacerdote em 2001 e é prefeito apostólico desde 2020, sucessor do filipino Wenceslau Padilla, o primeiro bispo, que serviu durante duas décadas.

A política do Império Mongol no que toca às religiões sempre foi a de “promover a tolerância”, característica já demonstrada pelo anterior império Kara Khitai (1131-1218), lembra Timothy May, historiador do Império Mongol, sobre o qual escreveu seis livros, um deles uma enciclopédia.

“No início do séc. XI, contactos entre mercadores e missionários facilitaram a conversão da [tribo] Kereit, na Mongólia Central, ao Cristianismo Nestoriano ou Igreja do Oriente. Em 1009, numa carta enviada ao patriarca da Igreja do Oriente, em Bagdad, os Kereit pediam padres e diáconos para os baptizarem. “Não há números exactos, mas crê-se que 20.000 Kereit se converteram – um exemplo seguido pelos Naiman, Merkit e Onggut.”

Gengis Cã sentado no trono com a mulher, numa ilustração do século XV. O imperador mongol não perdoava quem ameaçasse os seus domínios, mas tentou sempre ser tolerante com as diferentes religiões nos territórios que conquistava
© DeAgostini | Getty Images | The New York Times

Todas estas tribos viriam a integrar o Estado Mongol unificado por Gengis Cã em 1206, e muitas princesas e rainhas da linhagem daquele guerreiro continuaram a praticar os rituais da Igreja do Oriente, refere May. Porque os nestorianos, apesar de não serem uma maioria, assumiram papéis importantes no aparelho administrativo do império, as suas esposas cristãs eram vistas pelo papa como “o caminho para converter o Cã”.

Predominantemente xamanistas, os Mongóis não tinham um cânone religioso nem uma mitologia específica. Valorizavam apenas questões espirituais com impacto na vida mundana. Para eles, não existia salvação da alma, excepto quando “a alma era roubada por um espírito maligno”. É certo que veneravam alguns deuses, como Koke Mongke Tenggeri (O Eterno Céu Azul), mas estes eram divindades distantes. Como salienta Timothy May, “um Cã na Terra seria sempre um Cã no Céu”.

Se eram tolerantes com outras crenças – poupavam as estruturas religiosas dos territórios que invadiam, não se intrometiam em disputas religiosas, não impunham os seus valores espirituais e até pediam aos povos subjugados que rezassem por eles –, os Mongóis também traçaram uma “linha vermelha”: ninguém podia “ameaçar a estabilidade e a supremacia do seu império”.

No séc. XIII, depois de vários esforços fracassados para atrair os Mongóis, o Papa Inocêncio IV reconheceu que “era necessária alguma flexibilidade”: em 1245, emitiu uma bula papal que concedia aos missionários privilégios especiais para facilitar conversões rápidas, designadamente “o direito de ouvir confissões em toda a parte (e não só em terreno sagrado), de absolver os excomungados e de dispensar os convertidos de várias irregularidades nos rituais”, explica May.

Ou seja, o Papa encorajou “não apenas uma aculturação selectiva, em que os Mongóis e outros poderiam adoptar o Cristianismo, mas também a manutenção da sua própria cultura”. A lista do papa visava “18 diferentes grupos étnicos e seitas religiosas”.

Ritual xamanista de convocação dos espíritos na Mongólia
© escapetomongolia.com

Seja como for, os missionários não exerceram grande influência sobre os Mongóis, que não apreciavam o seu “complexo de superioridade ocidental” e, de um modo geral, “mantiveram-se leais aos seus fundamentos pagãos, mesmo entre que haviam incorporado a doutrina nestoriana”, segundo Timothy May.

“O optimismo renasceu com a divisão do Império Mongol”, quando o Ilcanato da Pérsia, “em busca de aliados contra os Estados muçulmanos que o cercavam”, decidiu contactar Roma”, revela May. “Em 1274, enviados do Ilcã Abaqa levantaram o primeiro obstáculo ao firmarem uma aliança e receberem o baptismo. Ao fazê-lo, estes diplomatas já não eram infiéis e podiam negociar em nome de Abaqa.”

Determinado a converter os Mongóis, o Papa ofereceu-lhes como contrapartida uma aliança militar, incluindo uma ofensiva contra os Mamelucos do Egipto, mas acabou por não cumprir as suas promessas, e os Mongóis perderam o incentivo da conversão. Se tal não impediu o envio de missionários que terão convertido “cerca de 30 mil indivíduos”, a maioria nestorianos e não-cristãos, o seu êxito “foi efémero, porque não conseguiram atrair para o clero ninguém das fileiras do império”.

Até à divisão deste império, conclui Timothy May, os Mongóis resistiram sempre à conversão porque acreditavam, segundo o seu conceito de Tengerismo ou Xamanismo, que tinham “o direito divino de conquistar o mundo”. Neste contexto, “por que haveriam eles de se converter, ao Cristianismo ou ao Islão, se todos adoram o mesmo Deus?”

Essa era também a razão por que não perseguiam ninguém por motivos religiosos, além de que, em seu entender as religiões monoteístas “não lhes ofereciam ganhos estratégicos”.

Crianças católicas na Mongólia
© Vatican News

Só quando a unidade mongol se desintegrou é que a religião começou a ter importância para os Cãs, “à medida que procuravam vantagens sobre os seus opositores”. Com os descendentes de Gengis Cã em guerra uns com os outros em vez de conquistarem o mundo, “muitos procuraram conforto na fé, primeiro por interesse próprio, depois por devoção sincera”.

Expulso nos anos 1300, o Catolicismo reapareceu na Mongólia em 1922, para voltar a falhar devido ao controlo soviético da região. Após a revolução de 1990, subsequente ao colapso da URSS, missionários católicos chegaram para reconstruir a Igreja “do zero”, anota Ray Cavanaugh, no site Catholic World Report.

“As primeiras missas realizaram-se num hotel. A comunicação era difícil porque não havia católicos mongóis nem textos em mongol, nem missionários que falassem a língua” – o que já não acontece com o cardeal Marengo, que é fluente em mongol. O primeiro padre mongol, Joseph Enkh Baatar, foi ordenado em 2016, aos 29 anos, e o segundo em 2021. O Vaticano estabeleceu relações diplomáticas com Ulan Bator há 30 anos.

A Igreja, que conseguiu implantar-se na região ainda que com dimensão apenas para uma prefeitura apostólica, e não uma diocese, está ausente da maioria das províncias, as quais, à excepção de alguns centros urbanos, são das regiões mais escassamente povoadas do mundo.

Mas está presente em escolas, bibliotecas, clínicas, centros de ajuda a alcoólicos [o país tem uma das maiores taxas de alcoolismo] e outros de apoio a crianças portadoras de deficiência. Segundo dados de 2017, não há seminários na Mongólia. Há seis igrejas, três em Ulan Bator, onde os serviços religiosos, em mongol, inglês ou coreano, são conduzidos por 33 padres e 44 freiras.

A vida entre os nómadas das estepes da Mongólia “não é para fracos”, diz o padre salesiano polaco Jaroslav Vracovsky, citado por Ray Cavanaugh. “Mas este é um dos melhores lugares para os missionários serem pastores, com o cheiro das verdadeiras ovelhas, partilhando a vida do seu rebanho.”

Anthony Poola

© Mahesh Kumar A. | Associated Press | economictimes.indiatimes.com

Arcebispo de Hyderabad desde 2020, Anthony Poola, de 61 anos, é agora o primeiro cardeal Dalit – a mais marginalizada e oprimida casta na Índia, a que pertencem dois terços (65%) dos 18 milhões de católicos do país. É também o primeiro cardeal do povo dravídico Telugo, ou seja, mais de 75 milhões de pessoas que habitam os estados de Andhra Pradesh (onde ele nasceu, na aldeia de Chindhukur, distrito de Kurnool) e de Telangana.

Se hoje se evita o termo pejorativo “intocáveis” (resquício do colonialismo britânico) e se a discriminação com base no sistema de castas foi abolida pela Constituição indiana há mais de 70 anos, a realidade é que os Dalits continuam a ser perseguidos e relegados a trabalhos braçais, como constata o site católico Aleteia.

No dia 29 de maio, quando amigos em Itália o informaram de que, na Praça de São Pedro, o Papa Francisco o havia nomeado cardeal, Anthony Poola pensou que era uma “notícia falsa”, porque se via apenas como “um simples padre e missionário”. Quem o conhece descreve-o como “um cavalheiro culto, gentil e generoso com todos, com um amor especial pelos pobres”.

Formado no seminário indiano de Bangalore, Anthony Poola foi ordenado padre em 1992, servindo várias paróquias da diocese de Cuddapah até 2001. A sua vocação, disse ao website Vatican News, deve-a à generosidade dos missionários jesuítas que financiaram os seus estudos. “Eles cuidaram de mim, ajudaram-me a ir à escola e reconheceram o meu valor.”

A elevação de Anthony Poola a “Príncipe da Igreja” é significativa porque há muito tempo que activistas na Índia exigiam a presença de mais Dalits na hierarquia eclesiástica
© ActionAid | alliancemagazine.org

Em 2003, após concluir um mestrado em pastoral da saúde na Universidade de Loyola, em Chicago/EUA, o novo cardeal regressou à pátria para dirigir, durante quatro anos, a Fundação Cristã para as Crianças e os Idosos.

Em 2008, foi nomeado bispo de Kurnool, onde se manteve 12 anos. No mesmo período, foi presidente da Sociedade de Serviço Social de Andhra Pradesh. Foi ainda secretário-geral do Conselho de Bispos Católicos Telugo, de 2014 até 2020, ano em que Francisco o nomeou Bispo de Hyderabad, no vizinho estado de Telangana.

A elevação de Anthony Poola a “Príncipe da Igreja” é significativa porque há muito tempo que activistas exigiam a presença dos Dalits na hierarquia. No estado de Tamil Nadu, por exemplo, só uma das 18 dioceses tem um prelado Dalit. Dos 215 bispos da Índia, apenas 11 são Dalits, tal como são apenas dois entre 31 arcebispos.

Filipe Neri Ferrão

© Goa News

O arcebispo de Goa, colónia portuguesa durante quatro séculos e um estado indiano desde 1961, é o primeiro cardeal de uma arquidiocese com 265 anos. Presidente da Conferência Episcopal da Índia (CCBI, que representa o rito latino da Igreja Católica), Filipe Neri António Sebastião do Rosário Ferrão, de 69 anos, é também membro da comissão central da Federação de Conferências Episcopais da Ásia.

Natural da aldeia goesa de Aldona, estudou num seminário em Poona, cidade do estado de Maharashtra, e foi ordenado padre diocesano em 1979. Formou-se em teologia bíblica, em Roma, e em teologia pastoral, na Bélgica.

Em 1993, tornou-se bispo auxiliar de Goa e arcebispo de Goa e Damão em 2003, com o título, atribuído por João Paulo II, de “Patriarca das Índias Orientais”. Agora, além de arcebispo, será também cardeal-patriarca de Goa (mas não de Damão).

A elevação de Ferrão é significativa. A arquidiocese de Goa e Damão só teve o seu primeiro bispo goês em 1978, apesar de o antecessor, o açoriano José Vieira Alvernaz, que era arcebispo e cardeal-patriarca, ter saído do território em 1961 e resignado em 1975. 

Em Goa, várias igrejas e conventos foram classificados Património da Humanidade pela Unesco (na foto, a Basílica do Bom Jesus, onde estão depositados os restos mortais de São Francisco Xavier
© David Parker | Alamy | The Washington Post

Na Índia, que tem o maior número de cardeais na Ásia (seis, cinco deles eleitores), estão registados mais de 20 milhões de católicos (a maior igreja denominação cristã do país), constituindo cerca de 1,55% dos 1380 milhões de habitantes, de maioria hindu.  Das suas 174 dioceses, organizadas em 29 províncias eclesiásticas, 132 pertencem ao rito latino, 31 à Igreja Siro-Malabar e 11 à Igreja Ortodoxa Síria Malankara.

Goa, onde ainda se fala português, é o mais pequeno dos estados indianos, em território e o quarto menor em população (1,8 milhões), mas o mais rico em PIB per capita da Índia. Muitas das suas igrejas e conventos foram classificadas Património da Humanidade pela Unesco.

O Cristianismo entrou na Índia em 52 d.C. com o apóstolo Tomé que evangelizou a costa de Malabar. Os seus discípulos ficaram conhecidos como “Nasrani”, ou “Seguidor de Jesus de Nazaré”, na língua siríaca (dialecto do aramaico). No séc. XVI, com os portugueses, chegaram vagas de missionários que deram ao Catolicismo a forma que ainda hoje assume.

Promovida em 1557 a Sé Metropolitana das dioceses de Moçambique, Ormuz, Cochim, Melliapor, Malaca, Nanquim, Pequim (China) e Funay (Japão), Goa era considerada a “Roma do Oriente”.

Além da evangelização, os portugueses investiram também na construção de escolas, liceus, institutos técnicos e profissionais. Hoje, com 25% de fiéis (os hindus, com 66%, são o maior grupo religioso), Goa mantém-se “o coração católico da Índia”.

William Goh

© Roman Catholic Archdiocese of Singapore

Arcebispo de Singapura desde 2013, William Goh Sen Chye, 64 anos, é também o primeiro prelado de etnia chinesa entre os cardeais eleitores que serão chamados a escolher o sucessor de Francisco.

Ordenado padre em 1985, depois de estudos no seu país e em Roma, desempenhou vários cargos, designadamente os de reitor do Seminário Maior de Singapura, director do Centro Arquidiocesano de Espiritualidade Católica e presidente da Conferência de Bispos da Malásia, Singapura e Brunei (MSB) para o Apostolado do Mar.

Líder de uma comunidade de “mais de 373 mil” fiéis, apoiados por “160 padres em 32 paróquias, comissões, conselhos e outras organizações”, segundo a Catholic Foundation of Singapore, William Goh diz que a sua elevação ao Conselho de Cardeais reflecte “o papel pequeno, mas activo” que a sua igreja tem desempenhado num país onde os católicos permanecem uma minoria, embora “muito envolvida com as comunidades locais e imigrantes”.

Um recenseamento conduzido em 2020 indicou que 18,9% dos 5,6 milhões habitantes da cidade-Estado se identificam como cristãos – 37,1% dos quais católicos e 62,9% “outros” (sobretudo protestantes).

Os católicos são muito participativos no campo da educação, com 51 escolas frequentadas por 45 mil alunos, “independentemente da raça, língua ou religião”. Todos os anos, “uma média de 80 jovens obtêm licenciaturas ou bacharelatos em Teologia”.

Num país onde os católicos permanecem uma minoria, a Igreja desempenha um “papel pequeno, mas activo”
© newliturgicalmovement.org

No campo social, a Arquidiocese de Singapura, que em 2021 comemorou 200 anos, gere 40 associações e outros grupos de caridade que beneficiam mais de 50 mil pessoas, católicas ou não. Entre os que usufruem desta assistência humanitária estão “mais de 4700 migrantes” e “mais de 7700 trabalhadores estrangeiros”, que recebem refeições e cursos de formação profissional gratuitos.

As origens do Cristianismo em Singapura remontam à presença portuguesa na Ásia, mais especificamente à diocese de Malaca, estabelecida logo após a conquista deste território por Afonso de Albuquerque, em 1511.

Numa missa de acção de graças pela sua elevação, em 8 de Setembro, o novo cardeal Goh lamentou “a polarização do mundo” e identificou a sua missão: “Se quisermos construir uma sociedade coesa, como igreja e comunidade, teremos de ser líderes na promoção da harmonia e da solidariedade entre todos os seres humanos”

Lazzaro You Heoung-sik

© Max Rossi | Reuters | japantimes.co.jp

Arcebispo-bispo emérito de Daejeon, o recém-proclamado cardeal sul-coreano Lazzaro You Heoung-sik é prefeito do Dicastério do Clero, um dos postos-chave da Cúria Romana.

Nasceu em Nonsan, província de Chungcheongnan-do, em 1957. Ordenado padre em 1979, foi presidente da Comissão Justiça e Paz da Conferência Episcopal da Coreia. Também presidiu à Cáritas regional, que ajuda cerca de cinco milhões de pobres na Coreia do Norte, onde já esteve quatro vezes, convicto de que a reconciliação é possível na península dividida.

Igualmente escolhido por Francisco, a Coreia do Sul tem um segundo cardeal, Andrew Yeom-Soo-jung, arcebispo metropolitano emérito de Seul, membro dos dicastérios da Evangelização e do Clero, nascido em 1943, em Suwon, numa família de cinco gerações de católicos.

No país a que um imperador da dinastia Ming, fascinado com a serenidade da paisagem, deu o nome de “Terra da Manhã Calma”, o número de católicos mais do que duplicou nos últimos vinte anos: são hoje 5,8 milhões, ou 11% da população. A Igreja sul-coreana não foi criada por missionários, como aconteceu noutras regiões da Ásia. Foram coreanos que, inspirados pela doutrina cristã propagada na China, levaram a Bíblia para a Coreia.

Embora os primeiros cristãos fossem aristocratas, a Igreja sul-coreana rapidamente se abriu a todas as classes
© Foreign Policy

“Os ensinamentos do Catolicismo desafiaram muitas normas sociais coreanas e a filosofia de Confúcio”, explicou-me, numa recente entrevista, Kirsteen Kim, professora de Teologia e Cristianismo Global no Seminário Fuller, em Pasadena (Califórnia) e autora de A History of Korean Christianity.

“O país abriu-se a uma prática ritual heterodoxa e à modernidade, sobretudo à promoção da língua coreana e à alfabetização para as mulheres e o cidadão comum.”

Entre os primeiros cristãos estava Yi Seung-hun, baptizado por um jesuíta francês numa igreja de Pequim, em 1784. Quando regressou à pátria, Yi baptizou outros coreanos, e juntos formaram a primeira comunidade cristã local – um caso único no mundo, que precedeu o Decreto Apostolicam Actuositatem, sobre o Apostolado dos Leigos, promulgado pelo Papa Paulo VI em 1965.

Embora os primeiros cristãos fossem aristocratas, a Igreja rapidamente se abriu a todas as classes. O primeiro padre coreano foi Kim Dae-geon, conhecido como Santo André Kim, ordenado em 1845 em Xangai, após ter estudado num seminário em Macau, para onde foi aos 15 anos e onde ainda hoje se reza uma missa semanal em coreano em sua honra.

O preço a pagar pelas conversões na Coreia foi “uma severa perseguição, durante quase um século até aos anos 1870”, lembra Kirsteen Kim. Um dos primeiros perseguidos foi André Kim. Quando as autoridades descobriram que ele tinha em sua posse textos e imagens cristãos, e se preparava para fazer entrar no país sacerdotes franceses, foi preso e decapitado, em 1846.

Alarmado com as notícias de incursões estrangeiras, o Governo intensificou a repressão em 1866: entre 8000 e dez mil pessoas, “metade da comunidade católica”, terão sido mortas.

André e outros 102 mártires foram canonizados por João Paulo II na sua visita à Coreia do Sul em 1984. Em 2014, quando esteve em Seul, também Francisco beatificou outros 124 mártires.

O preço a pagar pelas conversões na Coreia foi um século de “perseguição severa”, diz a professora de Teologia Kirsteen Kim. Um dos primeiros perseguidos foi o primeiro padre, Kim Dae-geon, conhecido como Santo André Kim
© padrepauloricardo.org

A Igreja Católica (sobretudo a dos EUA), adianta Kirsteen Kim, foi crucial no apoio ao líder sul-coreano Syngman Rhee (casado com uma católica) e à causa de uma Coreia do Sul separada do Norte. “No contexto de uma perceptível ameaça comunista global, a Santa Sé foi a primeira a reconhecer a nova república em 1948.”

Na década de 1980, a Igreja “desempenhou igualmente “um papel importante no movimento de democratização que pôs fim a 30 anos de poder militar”. O cardeal Kim Su-hwan, em particular, foi uma “figura destemida que desafiou o regime em nome dos oprimidos”.

Hoje, com uma “abundância de vocações” (10.170 freiras e 1560 frades), a Igreja assume um papel missionário global, enviando padres e irmãos para vários países, de Moçambique à Nova Zelândia. Este movimento contemporâneo “é o resultado da expansão da própria Igreja e do crescimento da economia”, avalia Kirsteen Kim.

“A riqueza e elevados níveis de educação permitiram aos coreanos explorarem o mundo e deixar nele a sua marca. A grande diáspora coreana (fruto de anos de conflito na península) facilita este movimento missionário. Desde os anos 1990 que o Vaticano tem encorajado a Coreia do Sul a afirmar-se como centro nevrálgico católico para a Ásia do Leste.”

CNS | Vatican Media | Catholic New York

Estes artigos foram publicados originalmente na edição de Outubro de 2022 da revista ALÉM-MAR | These articles were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, October 2022 edition.