Cabo Delgado: “A insurgência tem um projecto político baseado na religião”

O conflito que dura há cinco anos no Norte de Moçambique já causou mais de 4000 mortos e quase um milhão de deslocados. Os atacantes recorrem a todos os meios violentos para impor uma ideologia jihadista. Numa entrevista que me deu, o historiador Eric Morier-Genoud analisa esta guerra contra o Estado e a sociedade, e diz que a riqueza de uma província pobre não é uma maldição. (Ler mais | Read more…)

A maioria dos muçulmanos em Cabo Delgado não se identifica com o grupo que, tentando impor uma rígida doutrina islâmica, há vários anos aterroriza esta província moçambicana.
© plataformamedia.com

Eric Morier-Genoud foi um dos primeiros investigadores a estudar a seita que atormenta o “Cabo Esquecido” (1), inicialmente autoproclamada Ahlu Sunnah Wal-Jamâa e hoje identificada como Al-Shabaab. Cinco anos após o início da insurreição do grupo agora associado ao Daesh, o professor de História Africana na Queen’s University de Belfast, Reino Unido, autor de um dos ensaios mais recentes e de referência sobre este fenómeno – A Insurgência Jihadi em Moçambique: Origens, Natureza e Início (2) – ajuda-nos a compreender quem, afinal, são e o que pretendem os “mashababos” ou “machababos”, como os rebeldes são conhecidos não apenas no Norte, mas por todo o país (3).

Especializado em política e religião, guerra e resolução de conflitos na África Austral, Morier-Genoud tem publicados vários livros e artigos sobre o Islão e também sobre a Igreja Católica em Moçambique, com destaque para Catholicism and the Making of Politics in Central Mozambique, 1940-1986, obra centrada na Diocese da Beira, no seu primeiro bispo, Sebastião Soares de Resende, e nos muitos missionários que, antes e depois da independência, lutaram contra um Estado colonial repressivo.

Soldados moçambicanos patrulham as ruas de Palma, em Cabo Delgado. 
© João Relvas | EPA | The Guardian

O conflito armado em Cabo Delgado eclodiu em Outubro de 2017, mas, segundo a sua investigação A Insurgência Jihadi em Moçambique, o grupo que aterroriza a província terá nascido uma década antes, em 2007, no distrito de Balama, ou até mais cedo, em 1989-1990, no distrito de Nangade. Como é que se deu a metamorfose deste grupo, originalmente apenas de contestação às autoridades muçulmanas locais, para outro de carácter militar, com alvos específicos?

A origem exacta da seita Al-Shabaab [“Juventude, em árabe], que se transformou em meados da década de 2010 num grupo terrorista, continua imprecisa. Serão necessários muito mais estudos para esclarecermos o assunto por completo. Mas já sabemos o básico: que esta seita (um grupo religioso pouco institucionalizado e em alta tensão com o Estado e a sociedade) nasceu no fim dos anos 2000 e estava bem implantada na província de Cabo Delgado nos anos 2010.

Os membros da seita ganharam confiança, a partir de meados dos anos 2012-2013, e começaram a intervir na sociedade, para combater o que achavam ser pecado. Por exemplo, a educação não religiosa e o álcool. Isso levou a vários confrontos, alguns violentos, com outros muçulmanos, com a sociedade e com elementos do Estado. Além dos confrontos, houve prisões e condenações. Esta dinâmica resultou numa maior radicalização da seita, que começou, provavelmente em 2015 ou 2016, a treinar-se para um combate armado contra o Estado e a sociedade, que considerava “ímpia”. Em outubro de 2017 passou definitivamente ao ataque.

Residentes de Cabo Delgado, agora na situação de deslocados internos, aqui numa reunião da comunidade em Tara Tara, distrito de Matuge.
© Alfredo Zuniga | AFP | Al Jazeera

Por que é que o senhor ainda descreve o Al-Shabaab como uma “nova seita”? Em que se distinguem os membros deste grupo dos sufis e dos wahhabitas, uma vez que todos são sunitas (4)?

O Al-Shabaab emergiu como novo grupo, com ideias e práticas religiosas novas, em que se destacam a aplicação integral da Sharia [lei islâmica] e um programa para se distanciar do Estado laico. Os seus membros tentaram, de início, tomar o controlo das mesquitas já existentes, mas, quando não conseguiram (pois as suas ideias eram radicais de mais, tanto para sufis como wahhabitas), estabeleceram as suas próprias mesquitas, em redor das quais criaram micro-sociedades regidas unicamente pela Sharia.

Proibiram os seus seguidores de entrar em contacto com o Estado (escolas, hospitais, polícia, etc.) e de socializar com outros muçulmanos que não pensassem como eles. Cortaram até [relações] com familiares que não aderissem à seita. Isto chamamos sociologicalmente de seita – antes de 2017 a população e o governo em Cabo Delgado também chamavam o grupo de “seita religiosa”.

Agora, Al-Shabaab, sufis e wahhabitas são todos sunitas, sim, mas têm projetos religiosos, sociais e políticos bastante diferentes. O CISLAMO [Conselho Islâmico de Moçambique] pode ser conservador social e religiosamente, mas aceita e respeita o Estado laico e trabalha com todos na sociedade – tal como os sufis. Esta é uma diferença enorme e essencial.

De início, o Al-Shabaab podia parecer próximo do CISLAMO, mas discordava deste profundamente sobre a relação com o Estado laico e outros crentes – hoje discordam profundamente sobre à questão do uso da violência. Assim sendo, o CISLAMO sempre se opôs ao Al-Shabaab e assim continua.

Várias aldeias em Cabo Delgado têm sido incendiadas, impedindo o regresso dos seus moradores.
© agencia.ecclesia.pt

Em 2017, o senhor dizia que a rebelião era “principalmente um fenómeno religioso” e que o então autodenominado Ahlu Sunnah Wal-Jamâa (5) pretendia, acima de tudo, “criar uma contra-sociedade”. A sua perspectiva mudou, depois dos estudos recentes no terreno?

Ahlu Sunnah Wal-Jamâaé o nome que designa a maioria ortodoxa dos muçulmanos em qualquer país. Os membros do Al-Shabaab tentaram dar a si mesmos este nome, para se colocarem ao lado dos que estão correctos religiosamente, os que são ortodoxos e os que devem ser seguidos.

Os outros muçulmanos, e a sociedade em geral, negaram-lhes esta pretensão e chamaram à seita Al-Shabaab – um termo derrogatório que alude à sua suposta juventude ou imaturidade, e também uma referência aos jihadistas violentos da Somália com o mesmo nome.

A seita acabou por se apropriar desta designação e, desde o início do conflito, nunca se identificou como Ahlu Sunnah Wal-Jamâa, assumindo-sehabitualmente como “Al Shabaab”.

Quanto à questão de esta ser ou não uma insurreição religiosa, não mudei de ideias. Temos de distinguir os estudos que procuram entender as causas da insurgência dos que procuram entender quem são o insurgentes e o que querem.

A maior parte dos estudos realizados desde 2017 invoca as causas da insurgência, que investigadores relacionam com a pobreza, a marginalização de parte da população, expectativas frustradas e influências externas (incluindo a ideologia jihadista). Quanto a mim, procuro entender o que os insurgentes querem e como se identificam – qual o seu projecto para o presente e o futuro.

O que demonstrei, em conjunto com outros investigadores, é que os insurgentes têm um projecto que não é bem religioso, mas sim político-religioso. Isto é: têm um projecto político baseado na religião. Querem uma sociedade regida exclusivamente pela religião, ou melhor, regida pela versão deles da religião islâmica. Portanto, se as causas da insurgência são as acima mencionadas, já a identidade do grupo e o projecto pelo qual ele luta é um projeto político-religioso – um projecto jihadista.

Com as estradas bloqueadas pelos insurrectos, a ajuda alimentar aos que se refugiram em Pemba, junto de amigos e familiares, tem chegado por via marítima.
© Roberto Paquete | DW

Há uma ideia generalizada de que o Al-Shabaab atrai, sobretudo, muçulmanos pobres e marginalizados, das etnias muani e macua (6), mais próximas da Renamo (oposição), mas há testemunhos (7) de que, nas fileiras dos rebeldes, se encontra também “um número crescente de jovens macondes”. Como explica a capacidade de recrutamento junto de uma etnia habitualmente associada ao Cristianismo e à Frelimo (no poder)?

Guerras são assuntos complexos. Começam duma certa maneira e depois ganham dinâmicas próprias. É correta a avaliação de que a insurgência começou com muçulmanos que eram na sua maioria muanis e macuas. Mas depois há recrutamento de gente (inclusive de muitas crianças) que o grupo armado apanha e mobiliza à força. Há também adesão voluntária de gente insatisfeita. Entre todos eles, especialmente os raptados, pode haver macondes e pessoas de qualquer outra etnia.

Mas, as ditas etnias não são algo de homogéneo. Há muanis no Governo, há macondes na oposição; há muanis que são cristãos e há macondes que são muçulmanos. O Governo português já estava atento ao avanço do Islão entre os macondes nos anos 1960, durante a guerra de libertação. Portanto, é muito possível que haja macondes na insurgência – macondes muçulmanos. Agora, que haja cristãos não convertidos ao Islão entre os jihadistas, duvido.

Crianças num campo para deslocados internos em Metuge, província de Cabo Delgado.
© UNICEF

A alegada adesão dos macondes surpreende tendo em conta que a guerra dos “machababos” tem sido impiedosa: massacres, execuções, raptos, violações, decapitações, tráfico de seres humanos, escravatura sexual, destruição de aldeias, mais de 4000 mortos, quase um milhão de deslocados. Como é que o grupo consegue apoios preciosos – há relatos (7) sobre mulheres que são espias e agem até como comandantes; sobre comerciantes que contribuem com fundos; sobre soldados que mudam de campo; sobre famílias que encorajam os filhos a juntar-se aos insurrectos…?

Os insurgentes são brutais e violentos, mas não de maneira indiscriminada. São extremamente violentos em combate e com prisioneiros, mas não com a população que vive com eles e dentro dos seus campos, onde reina uma certa ordem e calma, se seguirem as regras deles. Que tenham alguns apoios entre a população baralha muitos observadores, mas este assunto é complicado e tem de ser analisado com alguma subtileza.

Por um lado, há familiares e gente que se sente marginalizada na sociedade sob controlo do Governo, podendo prestar apoios pontuais ou estratégicos. Há também quem esteja disposto a vender informação ou bens aos terroristas que pagam por isso. Por outro lado, há gente presa em combate e forçada a juntar-se aos insurgentes. E há todos os que não têm alternativa numa situação de guerra, em que indivíduos têm de escolher um ou outro campo.

Estudos sobre diversos conflitos mostram que, em zonas e tempo de guerra, a população muitas vezes não tem escolha, em determinados momentos, a não ser manter-se neutra ou colaborar para sobreviver. O colaboracionismo pode ser uma excepção, único e pontual, mas também constante. Há diferentes casos. A situação é sempre complexa, tudo no contexto da violência extrema e de morte possível a qualquer momento.

A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) alerta para a necessidade de mais ajuda humanitária a quem foge dos incessantes ataques terroristas em Cabo Delgado.
© Igor Barbero | MSF

Quais as estimativas quanto ao número de efectivos do Al-Shabaab – centenas ou milhares? Quem os treina? Quem os arma? O seu poder bélico já não é, seguramente, só facas, catanas e espingardas rudimentares, como em 2017.

Não existem informações públicas precisas sobre os efectivos do Al-Shabaab, quem o treina ou arma. Talvez saibam o Governo e os seus aliados. Mas, com o passar dos anos, temos visto evolução no que toca ao material e aos métodos usados pelos insurgentes.

A partir de 2019, ganharam confiança, meios e técnicas, desferindo ataques ousados em Mocímboa da Praia e Palma, entre outras [localidades]. Uma boa parte do material que usaram vinha dos paióis do exército que eles atacaram e pilharam. Especialistas identificaram as armas como sendo provenientes do stock do Estado.

Quanto aos treinos, é possível que o Estado Islâmico [ou Daesh] tenha mandado formadores, ou fornecido conselhos à distância. Mas, desde [que começou em Julho e Agosto de 2021] a intervenção militar do Ruanda e da SADC [comunidade que inclui países como a África do Sul e Angola], vemos um enfraquecimento dos insurgentes assim como uma mudança de tática, sobretudo após perderem as suas maiores bases. Eles dividiram-se em grupos pequenos e passaram a uma táctica clássica de guerrilha, em movimento constante, com ataques oportunistas, evitando grandes confrontos, etc.

Neste contexto de guerrilha, é difícil fazer uma avaliação clara da situação dos insurgentes, pois uma parte dos seus ataques é agora de propaganda, para dar a impressão de que são fortes e estão presentes em muitos focos.

Moçambicanos deslocados em Montepuez. Cabo Delgado é uma província com vários recursos naturais, mas essa riqueza, explorada por companhias estrangeiras, ainda não chegou à população.
© pulitzercenter.org

No entanto, diz-se que a aliança entre o Daesh e o Al-Shabaab, agora integrado na “Província da África Central do Estado Islâmico”, terá permitido uma escalada nos ataques terroristas, que alastraram ao Sul, e alguns têm questionado a eficácia das ofensivas das tropas moçambicanas em concertação com outras forças (8).

Os membros do Al-Shabaab lançaram ataques na província de Niassa, em 2021, e na província de Nampula, em 2022, mas não se instalaram ali militarmente. Retiraram-se após os ataques. Não se sabe bem se foram lá tentar instalar-se e falharam, ou se foram para recrutar novos elementos, dispersar as tropas governamentais, ou fazer publicidade.

Seja como for, esses ataques em novas províncias surgiram como reposta ao sucesso das forças da SADC e do Ruanda. O risco agora é que, num futuro próximo, os insurgentes venham a instalar-se naquelas províncias porque já conhecem o caminho. Impedir que possam voltar é o desafio do Governo e dos seus aliados.

Civis que fugiram dos ataques terroristas aguardam a sua vez para receber cuidados médicos num centro de saúde na cidade de Pemba.
© Mariana Alcoforado | Comité Internacional da Cruz Vermelha

A parceria com o Daesh está para durar ou há tensões, traições e deserções entre militantes e dirigentes, nacionais e estrangeiros [tanzanianos, congoleses, somalis, sudaneses, sul-africanos… (3)], do Al-Shabaab? Isso poderá vir a fragilizar o grupo?

Sobre a relação dos insurgentes com o Daesh existe pouca informação. Sabemos que contactaram o Daesh em 2018 e que a aliança foi formalizada em meados de 2019. De início, o Al-Shabaab fazia parte da “Província da África Central” do Estado Islâmico, mas, desde Maio de 2022, o Daesh designa-o “Província de Moçambique”.

Pode ser que seja sinal de estreitamento de relações dos insurgentes com o Daesh, mas pode ser também um exercício de relações públicas para esconder o enfraquecimento do grupo. Em qualquer dos casos, é uma demonstração de que a aliança continua.

No final de 2022, quase um milhão de pessoas estavam na condição de deslocados internos em Cabo Delgado, devido aos combates entre grupos terroristas e forças governamentais.
©Médicos Sem Fronteiras (MSF)

O investigador moçambicano João Feijó (7) diz que o êxodo da população e a consequente diminuição da produção de alimentos acessíveis aos insurgentes, os quais “nunca se interessaram em semear e cultivar, apenas em roubar e saquear”, poderá obrigá-los a aumentar os ataques em “zonas de produção e armazenamento, rotas de transporte ou zonas fronteiriças”. Isso, acrescenta Feijó, retira-lhes “vantagem em termos de camuflagem, acesso a informações, logística e recrutamento”. Como avalia este cenário?

O João Feijó e sua equipa fazem um excelente trabalho de investigação. Partilho a sua dúvida: como é que os insurgentes pensam sustentar-se em termos de alimentos se não se dedicam à agricultura e afastam população [dos campos] com ataques, saques e assassinatos?

A alimentação é um problema para eles: o Governo fala regularmente que há fome entre os insurgentes e quem fugiu da insurgência diz a mesma coisa, sobretudo durante o período menos produtivo. Talvez o Governo consiga usar este facto para melhor combater os insurgentes, mas é também possível que os Al-Shabaab mudem de posicionamento e começam a produzir comida.

Uma horta familiar num campo de realojamento em Montepuez, Cabo Delgado.
© Adriana Bianco | Programa Alimentar Mundial da ONU

Em 2017 e ainda hoje, vários analistas incluem entre as causas para a insurgência o nepotismo e a corrupção ligados à exploração de gás e petróleo por gigantes estrangeiros numa província depauperada e privada da meios de subsistência tradicionais. Outros associam-na à exploração ilegal de madeira e de pedras preciosas (como rubis), ou à caça furtiva e contrabando na porosa fronteira com a Tanzânia. (9) As riquezas do pobre “Cabo Esquecido” são “uma maldição” ou há formas de conter o terrorismo em Moçambique?

As riquezas não são uma maldição em si. A questão é como são geridas e os seus benefícios partilhados. Esse assunto é importantíssimo e continua a merecer grande debate em Moçambique. Nos últimos anos, tem-se falado muito dum Fundo Soberano para onde canalizar os futuros lucros do gás explorado em Cabo Delgado, e [em Novembro – mês em que foi anunciado o arranque das exportações de gás natural liquefeito da Bacia do Rovuma] o Conselho de Ministros aprovou tal projecto. Esperamos que ajude o país.

O que se fala em Moçambique não é tanto de uma maldição dos recursos, mas sim de uma “maldição anterior aos recursos”, pois os ganhos a obter com a exploração do gás ainda não começaram a chegar.

Estamos ainda na fase de investimento. A questão é mais a das expectativas que se criaram à volta das riquezas que estão por vir. Nos últimos dois-três anos, o Governo tem tentado reduzir essas expectativas, sublinhando que os lucros não chegarão imediatamente e que o povo moçambicano deve ser paciente.

Atija Bacar, a mãe (à esq.) e a sua neta passam os dias perto da sua tenda, num campo de deslocados que recebe ajuda dos Médicos Sem Fronteiras, em Mueda, Moçambique.
© Mariana Abdalla | MSF

Fontes:

(1) In: Insurgency, Illicit Markets and Corruption: The Cabo Delgado conflict and its regional implications; Global Initiative Against Transnational Crime, Fevereiro 2022;

(2) A versão portuguesa deste estudo, originalmente publicado em 2020 no Journal of Eastern African Studies, Vol XIV, Nº 3, foi editada em Março de 2021 pelo Instituto de Estudos Sociais e Económicos IESE), em Maputo; (https://www.iese.ac.mz/wp-content/uploads/2021/03/Cadernos-21_EricM-G.pdf)

(3) In: Cabo Delgado: Insurgents, Jihadists or Terrorists, de Fernando Jorge Cardoso, IMVF Policy Paper, Setembro 202. Este autor recusa descrever o Al-Shabaab como “grupo jihadista”, preferindo o termo “seita terrorista”, envolvida “não numa guerra civil ou revolta popular [mas] numa guerra contra o Estado e a população, a maioria muçulmanos”;

(4) Sobre os sunitas moçambicanos, sufis e wahhabitas, ver L’Islam au Mozambique après l’indépendance: histoire d’une montée em puissance, de Eric Morier-Genoud, “L’Afrique Politique”, 2002; sobre a animosidade e conflitos entre sufis e wahhabitas, ler também Transformations de l’Islam à Pemba au Mozambique, “Revue Afrique Contemporaine”, 2009; e Roots of Diversity in Mozambican Islam, “Lusotopie”, 2007, da autoria de Liazzat J. K. Bonate, historiadora da Universidade das Índias Ocidentais, em Trindade e Tobago, e investigadora principal do projecto God, grievance, and greed;

(5) Com o nome Ahlu Sunnah Wal-Jamâa, o grupo quis apresentar-se como “adepto da tradição profética [de Maomé] e da congregação”, para se “destacar das comunidades locais que supostamente praticavam um Islão degradado”, dizem os investigadores moçambicanos Saide Habibe, Salvador Forquilha e João Pereira, autores em Radicalização Islâmica no Norte de Moçambique: O Caso de Mocímboa da Praia, 2019;

(6) In: Assimetrias no Acesso ao Estado: Um Terreno Fértil de Penetração do Jihadismo Islâmico?, de João Feijó, “Observador Rural”, Nº 93, Junho 2020;

(7) In: Caracterização e Organização Social dos Machababos a Partir dos Discursos de Mulheres Raptadas, de João Feijó, “Observador Rural”, Nº 109, Abril 2021;

(8) No artigo Irá a intervenção estrangeira pôr fim ao terrorismo em Cabo Delgado?, “Policy Brief”, Institute for Securities Studies, Outubro 2021, Borges Nhamirre questiona a viabilidade e a transparência dos acordos do Governo de Maputo com forças regionais e internacionais (uma delas o grupo russo de mercenários Wagner, que abandonou Moçambique em 2019, depois de “rejeitado o seu plano para bombardear bases do Al-Shabaab”];

(9) In: Violent Extremism in Mozambique: Drivers and links to transnational organizes crime, Institute for Security Studies, de Martin Ewi , Liesl Louw-Vaudran , Willem Els , Richard Chelin , Yussuf Adam and Elisa Samuel Boerekamp,  “Southern Africa Report”, 51, Agosto 2022.

Eric Morier-Genoud, professor de História Africana na Queen’s University de Belfast, Irlanda do Norte, Reino Unido, há muito que estuda o grupo moçambicano Al-Shabaab, agora associado ao Daesh.
© Cortesia de | Courtesy of Eric Morier-Genoud

Cristãos de Moçambique: “A coragem de permanecer fiéis”

A relação entre a minoria católica e a maioria muçulmana em Cabo Delgado sempre foi harmoniosa. O conflito instigado pelo grupo Al-Shabaab “não é religioso” e a solução “não pode ser apenas a força militar”, assegura a Irmã Blanca Núbia Zapata, obrigada pela insurreição a mudar-se de Macomia para Pemba, capital da província.

Jovens católicos moçambicanos durante uma das cerimónias religiosas que marcou a visita do Papa Francisco, em Setembro de 2019
© Vatican News

Blanca Núbia Zapata Castaño, religiosa colombiana que pertence à Congregação das Irmãs Carmelitas Teresas de São José, está desde 2004 em Moçambique, um país onde, garante, “a convivência entre cristãos e muçulmanos sempre foi pacífica”. Tudo parecia correr bem até que, em 2020, o conflito em Cabo Delgado lhe bateu à porta.

A missão de Blanca Núbia e de outras três Irmãs era “tomar conta de uma escola secundária, um lar de jovens estudantes e uma escolinha”, no distrito de Macomia, norte da província, diz-me, em entrevista por WhatsApp e e-mail.

“Nos primeiros 15 anos, dedicámo-nos à educação formal de centenas de rapazes e raparigas que passaram pelas nossas instituições. Conseguimos implementar um projecto educativo que visava formar o homem do futuro. Apostámos no desenvolvimento do espírito ecológico dos nossos jovens e iniciámos com sucesso o projecto de estudo da Encíclica Laudato sì (1) e a plantação de uma floresta com 20 mil árvores.”

A Ir. Banca Núbia, da Congregação das Irmãs Carmelitas Teresas de São José, é uma das missionárias em Cabo Delgado.
© Cortesia de Blanca Núbia Zapata

Em 2020, insurrectos do grupo Al-Shabaab chegaram a Macomia, e a Ir. Blanca e as outras religiosas tiveram de se mudar para Metoro, “um lugar mais seguro”, onde foram “bem acolhidas” pelas Irmãs Filhas de Jesus. Em 30 de Julho de 2021, iniciaram uma segunda missão no distrito de Ancuabe.

“Além da educação das crianças na escolinha comunitária, conseguimos continuar o projecto de cuidar da nossa casa comum, plantando mais 11 mil árvores, trabalho feito com a participação activa da comunidade local e dos irmãos deslocados pelo conflito”, refere. “Esta iniciativa resultou bem porque cristãos e muçulmanos abraçaram juntos a causa de protecção do ambiente.”

Em Junho de 2022, o conflito alastrou-se a Ancuabe e, mais uma vez, as Irmãs tiveram de se afastar, refugiando-se em Pemba, capital de Cabo Delgado, onde aguardam “pacientemente as condições de segurança” para voltarem a um dos dois lugares de onde saíram.

O projecto “Casa Comum” ajudou a plantar milhares de árvores, no distrito de Ancuabe.
© Cortesia de | Courtesy of Blanca Núbio Zapata

“Na primeira fase do conflito, não houve um alvo religioso específico”, anota a Ir. Blanca. “A destruição de capelas, igrejas e missões é, na maioria dos casos, consequência de ataques indiscriminados e confrontos militares em aldeias e vilas, que levam à destruição de todo tipo de infra-estruturas, principalmente as governamentais.”

“Irmãos deslocados contam que, quando os chamados insurgentes aparecem nas aldeias, primeiro disparam para o ar, assim anunciando a sua chegada”, acrescenta a religiosa. “As pessoas fogem imediatamente. Quem tiver a ‘má sorte’ de ser apanhado, é morto ou raptado. No nosso caso, nas experiências de abandonar as nossas duas missões, seguimos o ritmo do povo. Afastámo-nos mal ouvimos que havia insurgentes por perto, por prudência e porque fomos alertadas para o perigo.”

Um dos crimes mais horrendos foi o assassínio, em Novembro último, da Irmã comboniana Maria De Coppi, de 83 anos, alvejada com um tiro na cabeça, na missão de Chipene, província de Nampula, diocese de Nacala, no Sul. Neste ataque, foram também incendiados e destruídos uma igreja, um hospital, uma escola primária e secundária, os aposentos das religiosas e as viaturas ao serviço da missão de São Pedro de Lúrio, fundada em 1963 pela Ir. Maria, depois de “uma longa viagem de barco”, de Itália, onde nasceu, até Moçambique, segundo informou a agência Fides.

Mulheres da missão católica de Salaue Ancuabe, Cabo Delgado.
© Cortesia de| Courtesy of Blanca Núbio Zapata

Os dois padres responsáveis pela missão conseguiram escapar aos tiros e às chamas. Os restantes religiosos, religiosas e leigos também sobreviveram, procurando refúgio em Nacala, a segunda cidade de Nampula. A missão de Chipene não foi a primeira visada pelos extremistas que a população chama de “machababos”. Em Abril e em Outubro de 2020, também a missão de Nangololo, a segunda mais antiga da diocese de Pemba (distrito de Muidumbe), fundada em 1924, havia sido totalmente destruída. 

“A lamentável morte da Ir. Maria aconteceu dois dias antes de eu sair para férias”, diz Blanca Núbia. “Doeu-me muito. Para os missionários, este acontecimento marcou um antes e depois na nossa vida, dado que até 2022, nem mulheres, nem crianças, nem crentes de uma religião especifica tinham sido alvo de mortes violentas, embora alguns sejam vítimas de rapto. Foi o que sucedeu com duas freiras da nossa diocese sequestradas [de Mocímboa da Praia] no ano 2020 [em 11 de Agosto], mas felizmente libertadas [em Setembro, após 24 dias de cativeiro]”.

A Igreja católica é a maior instituição religiosa em Moçambique (2), presente em todo território nacional. Em Cabo Delgado, onde a maioria é muçulmana, mais de 35% da população define-se como católica. “As relações inter-religiosas, em particular entre católicos e muçulmanos, são muito boas – institucionalmente e individualmente”, confirma o historiador Eric Morier-Genoud, em entrevista que me deu.

Crianças na escola primária que as Irmãs Carmelitas Teresas de São José dirigem no distrito de Macomia, Cabo Delgado.
© Cortesia de | Courtesy of Blanca Núbio Zapata

“Desde o início da insurgência, a Igreja em Cabo Delgado tem feito um grande trabalho de ajuda humanitária e envolveu-se com muçulmanos em várias iniciativas, incluindo de diálogo ecuménico. O único problema é com os jihadistas, que odeiam não apenas os cristãos, mas todos os muçulmanos que não seguem as suas ideias.”

O ataque à missão de Chipene “foi intencional, mas não se sabe ainda claramente a razão”, observa Morier-Genoud, investigador com várias obras publicadas sobre o Islão e o Catolicismo em Moçambique. “Antes de chegarem, os insurgentes queimaram uma mesquita. Na própria missão, mataram a Irmã Maria de Coppi, mas não foram atrás dos dois padres escondidos nos seus quartos. Depois, queimaram um carro e dois edifícios, antes de atravessarem o rio para voltarem à sua base em Cabo Delgado.”

“O ataque, por ter sido contra a Igreja Católica, e o assassínio de uma Irmã tornaram-se notícia” em todo o mundo, adianta Morier-Genoud. “Será que era essa a intenção dos insurgentes – ganhar visibilidade internacional e dar a impressão de que já estavam activos na província de Nampula?” Certo é que “o bispo da diocese veio a público repetir que não há guerra religiosa no Norte– mensagem que os líderes muçulmanos também enfatizam.”

Deslocados devido à violência armada, vivem agora numa das zonas de acolhimento de Metuge, a 50 quilómetros da capital provincial, Pemba.
© Ricardo Franco | Agência Lusa | MZ News

“Sempre admirei e admiro as comunidades cristãs de Moçambique, pela coragem de quererem permanecer fiéis, apesar das dificuldades quando não há missionários ou sacerdotes permanentes para as acompanhar”, destaca a Ir. Blanca.

Com as suas “próprias estruturas básicas para funcionarem como igreja local”, as celebrações ficam a cargo destas comunidades, que demonstram “zelo no cuidado das coisas de Deus e uma fé muito viva, manifestada sobretudo com cânticos e danças.”

“Nos meus 18 anos em Cabo Delgado, nunca antes ouvira falar de confrontos religiosos”, sublinha Blanca Núbia. Sempre se “respeitaram as diferentes tradições”. E dá como exemplo “as escolas e os lares de estudantes a que se candidatam jovens cristãos e muçulmanos, e de outras confissões.”

“É difícil entender os motivos quem levam alguém a aderir a este tipo de grupos, mas convém dizer que Cabo Delgado é uma província tradicionalmente esquecida pelos governos moçambicanos”, alerta a Ir. Blanca.

Há 18 anos em Cabo Delgado, a Irmã Blnaca Núbio nunca antes ouvira falar em “confrontos religiosos”, e destaca que católicos e muçulmanos sempre viveram em harmonia na província.
© Luísa Nhantumbo | Agência Lusa | TSF

No Norte, “há muita pobreza, fraco desenvolvimento a todos os níveis e uma grande desigualdade, se comparamos com outras províncias no Centro e no Sul. Há muito desemprego e falta de horizontes para os jovens. A agricultura de subsistência é insuficiente para acalmar a fome do povo. É verdade que nada disto é motivo válido para aderir a um grupo criminoso, podendo existir outras motivações mais profundas com raízes políticas, económicas, culturais e religiosas, mas é necessário avaliar cada caso.”

Em 11 de Novembro, o mês em que começaram exportações de gás natural liquefeito da Bacia do Rovuma, a Conferência Episcopal de Moçambique emitiu uma nota pastoral na qual critica a corrupção em Cabo Delgado, onde “há uma minoria rica que pode pagar todo o tipo de luxos”, enquanto a maioria “não tem sequer o básico para sobreviver”.

Os bispos denunciaram que “milhares de famílias continuam a ser retiradas de suas terras férteis” a favor de investimentos estrangeiros, “dos quais praticamente não tiram qualquer benefício”, e consideraram que a solução para a pobreza e as desigualdades “não pode ser apenas o uso da força militar”.

A Irmã Blanca Núbia está de acordo: “Vê-se claramente que a resolução do conflito requer, além de uma resposta militar – que é necessária -, uma forte vontade política e económica para criar alternativas que ajudem o povo a viver com dignidade. Nenhum povo merece ser despojado e maltratado por causa das riquezas existentes no chão que pisa com os seus pés descalços.”

“Dói muito ver o sofrimento deste povo, com fome de pão e de água, sem um tecto digno onde se proteger do sol e da chuva, sem um pedaço de terra onde semear”, conclui a Ir. Blanca. “Dói mais ainda ouvir todos os dias no telejornal falar de centenas de milhões de dólares destinados às vítimas do conflito, mas pouco ou quase nada chegar ao destino final. É claro que só a força militar não resolverá o conflito. Seja Deus a nossa luz, que apague toda escuridão do pecado social que nos atinge.”

A Irmã Blanca Núbia brinca com crianças na missão de Macomia, em Cabo Delgado.
© Cortesia de |Courtesy of Blanca Núbio Zapata

(1) Na Encíclica Laudato si’ (“Louvado sejas”: Sobre o Cuidado da Casa Comum), publicada em 2015, o Papa Francisco critica o consumismo e apela a acções globais concertadas para combater as alterações climáticas e proteger o ambiente.

(2) No recenseamento de 2017, cerca de 60% dos moçambicanos afirmaram ser cristãos, a maioria católicos, e 30% muçulmanos. Cabo Delgado, Niassa e Nampula são as únicas das dez províncias moçambicanas com uma população predominantemente muçulmana.

O balanço de cinco anos de guerra em Cabo Delgado feito pelas Nações Unidas é terrível: mais de 4000 mortos e quase um milhão de pessoas forçadas a abandonar as suas casas.

Estes dois artigos foram publicados na edição de Janeiro de 2023 da revista ALÉM-MAR | These two articles were published in the January 2023 edition of the Portuguese news magazine ALÉM-MAR.

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