Oito magníficas

Apesar do desfecho surpreendente das eleições nos Estados Unidos da América, Hillary Clinton será sempre uma das figuras incontornáveis de 2016.  Mas há outros nomes femininos a levar em conta na altura de fazer o balanço dos momentos e dos rostos mais marcantes. Estas são oito mulheres fabulosas. (Ler mais | Read more…)

Michelle Obama: Depois dela, diz um biógrafo, “o papel de primeira-dama jamais será igual”
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Michele Obama : A presidente ideal

Qual será o legado de Michelle Obama quando deixar a Casa Branca em Janeiro de 2017, três dias antes de completar 53 anos? Há momentos inesquecíveis. O seu karaoke, com Missy Elliott e James Corden, de This is for my Girls, hino de uma iniciativa com que pretende levar para a escola 62 milhões de meninas em todo o mundo.

O seu rap Go to College, com Jay Pharoah, para encorajar os jovens a seguir os estudos, no âmbito do programa Reach Higher. A sua Mom Dancing, com Jimmy Fallon, no manifesto Let’s Move, contra a obesidade infantil. “É sobretudo, este trabalho contra as desigualdades raciais, sociais e económicas que a distingue e que, provavelmente, definirá o que irá fazer” a seguir, diz Peter Slevin, autor de Michelle Obama, A Life.

O papel de primeira dama jamais será igual, acredita o biógrafo. Ela marcou a diferença, e entre os maiores contributos para “mudar a história da América” estão dois discursos memoráveis durante a campanha presidencial.

O primeiro, reflectindo sobre a educação das filhas, Malia e Sasha, numa “casa construída por escravos”, foi uma defesa de Hillary Clinton. O segundo foi um ataque a Donald Trump, orgulhoso dos seus actos de assédio sexual.

“É intolerável! Nenhuma mulher merece ser tratada deste modo. Nenhuma de nós merece este tipo de abuso.”

Que esta advogada afro-americana, formada em Princeton e Harvard, tenha sido a única pessoa que Trump nunca ousou criticar ilustra bem como Michelle LaVaughn Robinson foi mais do que a mulher de Barack Obama. Seria a sucessora “ideal”, não fosse a “candidata impossível”, comentou o diário francês Le Monde.

[Em 2019, segundo uma sondagem YouGov conduzida em 41 países, Michelle Obama foi considerada “a mulher mais admirada do mundo“, seguida de Oprah Winfrey, Angelina Jolie, a rainha Isabel II e  Emma Watson.]

Nadia Murad Basi, antiga escrava sexual do Daesh, recebeu o Prémio Sakharov do Parlamento Europeu (partilhado com Lamiya Aji Bashar, outra vítima do chamado “estado islâmico”) e o Prémio Vaclav Havel
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Nadia Murad Basi : De escrava a embaixadora

Aos 23 anos, Nadia Murad Basi entra na história das Nações Unidas. É a primeira vítima de crimes de guerra distinguida com o cargo de Embaixadora da Boa Vontade. A sua causa será a da Dignidade dos Sobreviventes do Tráfico de Seres Humanos. Será, também, uma luta contra o genocídio da minoria yazidi, etnicamente curda com uma religião que mistura Zoroastrismo, Cristianismo e Sufismo.

O tormento de Nadia começou em Agosto de 2014, quando o “estado islâmico” (Daesh) entrou em Kojo, a sua aldeia, no norte do Iraque. À chegada, os jihadistas fizeram um ultimato: convertam-se ou morrem como hereges.

Porque não capitularam, pelo menos 80 homens foram mortos. Seis eram irmãos de Nadia. As mulheres mais velhas, como a mãe, que ela nunca mais viu, terão tido o mesmo destino. Nadia e outras 150 raparigas, incluindo as irmãs, sobrinhas e primas, foram levadas para Mosul, e aqui reduzidas à condição de escravas sexuais.

Abusada diariamente pelos vários milicianos a quem era vendida, Nadia percebeu qual o objectivo dos carrascos: “A violação destrói as mulheres para sempre. Não se trata de crueldade oportunista, mas sim de um plano deliberado para aniquilar a identidade yazidi.”

Em Novembro de 2014, Nadia conseguiu escapar para um campo de refugiados. A Alemanha ofereceu-lhe asilo. Não foi Nobel da Paz, em Setembro, mas recebeu, em Outubro, dois dos mais prestigiados prémios de direitos humanos: o Prémio Sakharov do Parlamento Europeu (partilhado com Lamiya Aji Bashar, outra ex-escrava do Daesh) e o Prémio Vaclav Havel.

[Em 2018, Nadia Murada e o médico congolês  Denis Mukwege receberam o Prémio Nobel da Paz, pelos “seus esforços para pôr fim ao uso da violência sexual como arma de guerra e conflito armado”.]

A atleta incomparável: “Não sou o próximo Usain Bolt ou Michael Phelps. Sou a primeira Simone Biles”, afirma Simone Biles
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Simone Biles : Atleta perfeita

Ela só é pequena na altura: 1,44m. Na ginástica artística feminina, Simone Biles, 19 anos, é “a melhor do mundo”. Nos Jogos Olímpicos do Rio, ganhou quatro medalhas de ouro e uma de bronze nas cinco finais em que competiu.

A dificuldade e a graciosidade dos seus exercícios – no solo, na trave, no salto de cavalo – são como metáforas da sua vida desde que nasceu em Columbus, Ohio.

A mãe biológica, alcoólica e toxicodependente, não conseguia criar os oito filhos e abdicou dos direitos parentais. Simone, 5 anos, e a irmã Adria, de 3, foram adoptadas pelo avô materno, Ron, e pela segunda mulher, Nellie, que vivem em Houston (Texas). Desde logo, Simone chamou a atenção com saltos constantes por cima dos móveis.

Entrou num ginásio, por acaso, aos 6 anos, quando uma vaga de calor anulou uma visita do seu jardim infantil a um rancho. Ficou maravilhada e encantou Aimee Boorman, a treinadora que, a partir daí, a acompanha.

“O seu corpo compacto parecia ter sido criado para a ginástica”, observa Liz Clarke, no jornal The Washington Post. “A audácia fazia dela uma aluna ambiciosa. E quanto mais convivia com ginastas de elite mais evoluía de acrobata para artista.”

O caminho da perfeição não foi fácil. Para investir nos treinos, teve de desistir dos benefícios de uma escola pública. Enfrentou crises de autoconfiança.

Mas valeu a pena. São de ouro todas as medalhas que, desde 2013, conquistou nos campeonatos do mundo ou dos EUA. É incomparável: “Não sou o próximo Usain Bolt ou Michael Phelps. Sou a primeira Simone Biles.”

Chimamanda Ngozi Adichie: “Sou uma feminista que gosta de lip gloss e usa saltos altos, para si própria – não para os homens”
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Chimamanda Ngozi Adichie : Feminista e fashionista

Pode um génio feminista ser o rosto da campanha publicitária de um laboratório de cosméticos? Pode, diz Chimamanda Ngozi Adichie, que, seguindo o caminho inverso do movimento #nomakeup contra “a ditadura da perfeição”, aceitou dar a cara pela Boots Nº7.

“É uma afirmação política, e radical, que uma das maiores marcas britânicas tenha escolhido ser representada por uma nigeriana negra que escreve sobre feminismo e colonialismo”, anotou a revista Elle.

“Adoro maquilhagem e a maravilhosa possibilidade de uma transformação provisória”, explicou Adichie. “Não se trata de estar na moda ou do que ditam as regras. É simplesmente porque eu gosto.”

O contrato com a Boots é, também, uma forma de acabar com os anúncios que “infantilizam as mulheres”, prometendo-lhes “uma fantasia a que devem aspirar”, quando as suas fontes de inspiração já são mulheres reais. Como ela, “feminista que gosta de lip gloss e usa saltos altos, para si própria – não para os homens”.

E, para que não restem dúvidas sobre quem influencia quem, Adichie fez, sobre uma outra parceria, uma revelação tão surpreendente quanto o negócio com a Boots. Sim, ela deu licença a Beyoncé para usar, em ****Flawless, fragmentos da conferência TED Todos devemos ser feministas, mas a cada uma o seu girl power.

O feminismo dela não é meu, porque é do tipo de dar muito espaço à necessidade de homens”, esclareceu a premiada autora de Meio Sol Amarelo e Americanah. “Eu acho os homens adoráveis, mas as mulheres não devem relacionar com homens tudo o que fazem.”

Maria Grazia Chiuri: “A moda tem de se libertar das categorias estereotipadas de ‘masculino/feminino’, ‘jovem e não tão jovem’, ‘razão/emoção’, que são apenas aspectos complementares”
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Maria Grazia Chiuri : O New Look da Dior

Pela primeira vez em quase 7 décadas de existência, a casa fundada por Christian Dior tem uma directora criativa. A italiana Maria Grazia Chiuri é agora descrita como “a mulher mais poderosa na indústria de moda parisiense desde Coco Chanel”.

E se, em 1947, Dior e o seu New Look – “ombros doces, bustos suaves, cinturas marcadas e saias que explodem em volumes e camadas” – acompanharam as mulheres no regresso ao lar depois da guerra, Chiuri oferece-lhes uma outra revolução.

“A moda tem de corresponder a necessidades que mudam”, afirmou. “Tem de se libertar das categorias estereotipadas de ‘masculino/feminino’, ‘jovem e não tão jovem’, ‘razão/emoção’, que são apenas aspectos complementares.”

Na sua estreia, em Setembro, no desfile da colecção de pronto-a-vestir Primavera-Verão 2017, nos jardins do Museu Rodin, “a sensualidade da silhueta” manteve-se fiel ao espírito Dior.

A peça mais emblemática não foi, porém, um clássico modelo Bar (casaco preto com saia branca) mas sim uma T-shirt com a estampa We should all be feminists, lema de Chimamanda Ngozi Adichie, que aplaudia na primeira fila.

Para Chiuri, 52 anos, chegar ao “trono” da Dior é o ponto alto de uma carreira que começou, em 1989, na Fendi, onde ajudou a lançar, e tornar famosa, a mala Baguette.

Em 2007, antes de se retirar, Valentino foi buscar Chiuri e Pierpaolo Piccioli, formados no Istituto Europeo di Design, em Roma, para o seu departamento de acessórios. No ano seguinte, a dupla assumiria a liderança criativa da marca, salvando-a da obscuridade.

Theresa May é a segunda mulher na chefia do Governo depois da “Dama de Ferro” Margaret Thatcher – foi uma missão atribulada que chegou ao fim de Julho de 2019 com a “eleição” pelos conservadores de Boris Johnson como primeiro-ministro
© Annie Leibovitz | Vogue

Theresa May : Dama de Brexit

David Cameron deixou-lhe uma herança pesada, mas os amigos garantem que Theresa May enfrentará com “nervos de aço” a maior crise política e económica do país desde a II Guerra Mundial. “Brexit é Brexit”, disse ela, depois de 52% dos eleitores terem referendado o abandono (Leave) e não a permanência (Remain) na União Europeia.

Não deu mais explicações, e continua inabalável a segunda mulher na chefia do Governo depois da “Dama de Ferro” Margaret Thatcher. Os mercados alertam para o colapso financeiro nacional, e ela avança para o hard Brexit, saída dura da UE que pode custar aos cofres da nação mais de 65.000 milhões de libras anuais.

A Escócia faz renascer planos de independência, e May desvaloriza o risco de desintegração do Reino Unido. “Ela é uma força de tranquilidade e bom senso no mundo convulso de Westminster”, escreveu Peter Oborne, colunista do Daily Mail, jornal próximo dos Tories, no poder.

“A primeira-ministra, de 60 anos, nunca toma uma decisão até apurar os pormenores e avaliar as consequências.” Outros comentadores são menos elogiosos.

“A relutância da primeira-ministra em dizer o mínimo possível será insustentável e acarretará custos consideráveis”, avisou o deputado conservador Andrew Tyrie. Mesmo sem ela clarificar o rumo, sondagens dão ao seu partido um avanço de dois dígitos (19 pontos percentuais em Outubro) sobre os trabalhistas, liderados por Jeremy Corbyn.

Aos 60 anos, seis deles como ministra do interior, responsável por dossiers espinhosos como imigração e terrorismo, May parece imune às críticas.

[Em 2017, Theresa May antecipou eleições para 8 de Junho – algo que prometera não fazer – para garantir uma maioria parlamentar antes de as consequências do ‘Brexit’ se fazerem sentir. O Tories ficaram em primeiro lugar mas perderam a maioria.  Ela reconheceu a derrota pessoal, que a forçou a firmar uma aliança, envolvendo muitas concessões com o Partido Unionista Democrático/DUP da Irlanda do Norte.

Em 24 de Maio de 2019, incapaz de chegar a um acordo no Parlamento sobre o Brexit, anunciou a sua demissão para entrar em vigor em 7 de Junho.

Em 24 de Julho, abandonou o Nº 10 de Downing Street depois de Boris Johnson, seu antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, ter sido “eleito” primeiro-ministro pelos conservadores.]

Sia Furler: Há pelo menos duas décadas que escreve lírica e melodia para dezenas de super-estrelas pop, de Adele a Kate Perry, de Beyoncé a Rihanna, de Maroon 5 a Shakira
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Sia (Furler) : Mestre pop-indie

Ela foge da fama, ocultando o rosto, mas a Universidade de Adelaide quis mostrar o talento de uma das mais célebres australianas e criou o Sia Furler Institute for Contemporary Music and Media. Este novo centro de estudos é “homenagem à criatividade” da compositora e performer que “inspira jovens em todo o mundo”. Sia agradeceu o reconhecimento.

Há pelo menos duas décadas que escreve lírica e melodia para dezenas de super-estrelas pop, de Adele a Kate Perry, de Beyoncé a Rihanna, de Maroon 5 a Shakira.

A solo, já editou 7 álbuns, e o mais recente, This is Acting, introduz um novo conceito: são canções que clientes rejeitaram. Só um dos temas, One Million bullets, ela reservou para si própria.

Uma voz potente – revelada por David Guetta em Titanium (2011) – deu-lhe o êxito que ela não procurava. Viciou-se em drogas e álcool. Tentou o suicídio. A partir de 2014, depois de uma chuva de prémios cair sobre 100 forms of fear (onde se inclui o sucesso Chandelier), Sia decidiu proteger a privacidade. Todos a ouvem, mas ela esconde-se.

Em entrevistas e festas, vídeos e espectáculos – como o Festival Meo Sudoeste, onde, em Agosto, apareceu com uma peruca preta e loura que já se tornou marca registada. Os fãs aceitam este “anonimato”.

De outro modo, como explicar os milhões de discos vendidos, conseguindo o impossível? Manter uma alma indie apesar das “foleirices” (disse ela à Rolling Stones) que escreve para Celine Dion ou Britney Spears.

Tsai Ing-wen ganhou as eleições presidenciais em Taiwan mas a China não tem facilitado a sua missão desde a sua vitória
© Damir Sagolj | Reuters

Tsai Ing-wen : Uma líder histórica

Foi um triunfo pessoal e uma derrota para China. Em Janeiro, Tsai Ing-wen ganhou mais do que os votos necessários (56%) para ser a primeira mulher na Presidência de Taiwan. E o seu partido independentista, DDP, retirou a maioria no parlamento ao Kuomintang, favorável à reunificação com a China continental.

Pequim, que considera Taiwan uma província rebelde, não escondeu a irritação. Um oficial do Exército apontou falta competência a Tsai, 59 anos, por ser solteira.

“Não carrega o peso emocional do amor, da família e dos filhos, por isso, o seu estilo e estratégias políticas são mais pessoais e extremistas.”

Esta opinião, publicada pela Xinhua, seria retirada do site da agência oficial após uma torrente de críticas. Alguns sinalizaram as bem sucedidas e não casadas Park Geun-hye, Presidente da Coreia do Sul [que perderia o cargo em 2017, impugnada pela Assembleia Nacional, na sequência de um escândalo de corrupção], e Wu Yi, ex-vice-primeira-ministra chinesa.

Tsai queria formar-se em História, mas o negócio do pai exigiu que estudasse Direito. Fez um mestrado em Nova Iorque e o doutoramento em Londres. Foi professora em várias universidades taiwanesas antes de entrar na política. Aqui, as mulheres beneficiam de um sistema de quotas: constituem 1/3 dos deputados.

Em 2010, concorreu a presidente da Câmara de Taipé (a capital) e perdeu. Voltou a ser derrotada nas presidenciais de 2012. Ganhou em 2016.

O amor pelos animais (tem dois gatos e adoptou três cães idosos), reivindicar o direito à existência da democracia taiwanesa e a promessa de que apoiará leis contra a discriminação de género nas empresas terão ajudado à vitória.

© Francois Guillot | AFP | Getty Images

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente na revista MÁXIMA, edição de Dezembro de 2016 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese magazine MÁXIMA, December 2016 edition

“António Guterres é um ecuménico radical”

Mentor espiritual do novo secretário-geral da ONU, o antigo provincial português da Ordem Franciscana exalta o “modo exemplar” como ele “equilibra as convicções pessoais e o exercício não confessional de funções”. Este é o retrato do novo “líder do mundo” contado, na primeira pessoa (a partir de uma entrevista por e-mail), por um amigo inseparável: o padre Vítor Melícias. (Ler mais | Read more..)

Brilhante e solidário

António Guterres foi designado Secretário-Geral da ONU em Outubro de 2016. Incluiu entre as suas promessas o combate ao terrorismo e ao extremismo, à xenofobia e ao populismo 
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“Conheci António Guterres quando ele teria uns 18 anos e era o mais brilhante, e até hoje mais bem classificado, aluno do Instituto Superior Técnico, em Lisboa. [Terminou o curso de engenharia electrotécnica, em 1971, com 19 valores.]

Sendo eu, então, aluno de Direito na Universidade Clássica de Lisboa, onde acabara de entrar, vindo de Roma, com o curso de Direito Canónico, tive conhecimento de que um grupo de jovens universitários católicos liderados por Guterres desenvolvia, por sua própria iniciativa e com a designação de CASU (Centro de Ação Social Universitária), uma interessante atividade de voluntariado social nos bairros pobres de Lisboa, particularmente no Bairro da Curraleira.

Porque também eu, padre franciscano, e jovem, me começava a envolver em atividades de voluntariado social, designadamente no mundo da emigração e dos bombeiros voluntários, manifestei gosto em conhecê-los.

O meu colega de curso Carlos Santos Ferreira, amigo de infância de Guterres, promoveu um [primeiro] encontro num café, na esquina da Avenida de Roma com a Praça de Londres, no centro de Lisboa. Compareceram, também, Adelino Amaro da Costa [um dos fundadores do CDS] e, talvez, José Tribolet [criador do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores/INESC].

Todos falaram das suas atividades e sonhos de solidariedade. Percebi que era gente da mais elevada craveira intelectual e generosidade humana e cristã. Começámos, desde logo, a reunir-nos numa salinha da Capela das Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria, junto ao Campo Pequeno, onde eu ia celebrar aos domingos e o António [Guterres] fizera o infantário, quando menino.

Depois da missa, falávamos dos nossos projetos sociais e de problemas do país (pobreza, emigração, guerra colonial, censura), enquadrando-os num contexto de reflexão dos documentos do Concílio Vaticano II, e na necessidade de envolvimento social e político que o mesmo Concílio recomenda aos leigos.

O grupo começou, rapidamente, a crescer, sobretudo, com outros jovens de alta qualidade intelectual e humana convidados por Guterres. Foi preciso mudar para um sítio mais adequado e que não causasse suspeitas à omnipresente e sempre desconfiada polícia política (PIDE).

A luz de um grupo

Marcelo Rebelo de Sousa e António Guterres, amigos do “Grupo da Luz”
© Nuno Veiga | Lusa

Passámos então a reunir-nos no Convento dos Franciscanos, ao Largo da Luz, em Lisboa, onde eu residia. Normalmente, reuníamo-nos às terças feiras ou ao fim de semana. Por vezes, em fim de semana prolongado em casa ou quintas de pessoas amigas. Ou, episodicamente, na casa de algum dos jovens, do grupo, o que se verificou ser pouco recomendável, dadas as suspeitas presenças de pides, que, por vezes, rondavam a porta.

Nessas reuniões, nas quais eu celebrava eucaristias domésticas, vividas por todos com grande emoção, comentava-se o Concílio, partilhavam-se ideias e opções políticas. Comia-se o que cada um trazia para petiscar. Cimentavam-se amizades e cumplicidades.

No seio deste que ficou conhecido como “Grupo da Luz” se realizaram vários casamentos, se batizaram os respetivos filhos e se deu berço a grandes projetos e instituições que ainda hoje marcam a sociedade portuguesa.

As muitas lutas

A 10 de Outubro de 1999, Guterres foi reeleito primeiro-ministro, depois de o seu PS ganhar, nas legislativas, uma maioria relativa, com 44% dos votos. Nesse ano, tinha sido convidado para suceder a Jacques Santer na presidência da Comissão Europeia. Viúvo, com dois filhos e a poucos meses das eleições, não aceitou. O cargo foi ocupado pelo italiano Romano Prodi 
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A 16 de Dezembro de 2001, o PS perdeu as principais câmaras do país em eleições autárquicas e António Guterres demitiu-se do cargo de primeiro-ministro. Queria evitar que o país caísse num “pântano político”, justificou. Mais tarde, iria dar explicações de Matemática, como voluntário, em “bairros problemáticos” da Área Metropolitana de Lisboa
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O “Grupo da Luz” foi muito importante para António Guterres [que seria primeiro-ministro entre 1995 e 2002]. Na área social, destaco o seu papel na fundação da Deco [associação de defesa do consumidor], da APAV [apoio à vítima] ou do Conselho Português para os Refugiados; e a criação de um grupo específico de reflexão sobre a pobreza no país.

Na área política, Guterres participou na fundação da [associação cívica] SEDES e da ASDI [partido criado por antigos dirigentes do PPD/PSD]; fez parte da movimentação junto dos sindicatos e confederações empresariais para criar instrumentos de concertação como o Conselho Económico e Social.

Reconheci em Guterres capacidades de liderança assim que o conheci, mas, sobretudo, quando ele, pensadamente, anunciou que, para poder ser mais útil à humanidade e servir os mais pobres e excluídos, iria abandonar uma carreira de professor que prometia ser uma das mais brilhantes em Portugal, para aderir à intervenção política ativa.

Na ocasião, disse-lhe que pensasse duas vezes, pois que as duas atividades seriam compatíveis. Mas ele estava absolutamente determinado e, agora o digo, ainda bem.

Humanismo cristão

A memória de Portugal em Timor-Leste, sob a forma de uma bandeira, ficou escondida mais de 25 anos dos ocupantes indonésios. Com a independência, António Guterres, à data primeiro-ministro português, recebeu o símbolo, protegido com risco da própria vida por José “Puto” Afonso (esq.), em 2000
© António Cotrim | Lusa

António Guterres [nascido em Lisboa há 67 anos] é de uma família católica profundamente religiosa, mas de espírito aberto e muito marcada pela proverbial bondade e solidariedade das gentes da Beira. Mais concretamente, da aldeia das Donas, no concelho do Fundão, de onde são naturais e onde ele passou parte da sua meninice feliz.

Assim, em toda a sua vida familiar, académica, eclesial ou política sempre se conduziu pelos valores essenciais do humanismo cristão, com normal prática religiosa. Mas sem escravização a formalismos rituais e com enorme respeito pela diversidade de crenças e práticas religiosas.

Guterres é radicalmente ecuménico e pluralista, um homem do diálogo inter-religioso, de acordo, aliás, com o que defendíamos no “Grupo da Luz”, ao abrigo dos textos do Concílio.

Julgo que, tanto no Parlamento como no Governo de Portugal, e nas funções de alto comissário para os Refugiados, Guterres soube manter, de modo exemplar, o equilíbrio entre as convicções pessoais e o exercício não confessional de funções, como se espera de qualquer servidor público.

Uma nova missão

António Guterres, quando chefiava o ANCUR, rodeado por refugiados somalis no campo de Dagahaley, nos arredores de Dadaab, no Quénia, em 10 de Julho de 2011
© Rebecca Blackwell | AP

Internamente, ele destacou-se, sobretudo, na prioridade que soube dar às políticas sociais sobre as políticas financeiras. Valorizou sempre primeiro as pessoas. Das suas políticas, saliento a generalização do ensino pré-primário, o rendimento social mínimo garantido a toda a população, o complemento social para idosos pobres, os cuidados continuados de saúde e a humanização dos hospitais.

Internacionalmente, recordo o papel decisivo para a independência e ajuda a Timor-Leste, a excepcional presidência da UE [em 2000] e o Tratado de Lisboa [2007], bem como as relações Europa-África.

Também no ACNUR, a grande marca que ele deixa, em tempos de tão grave crise, é a do humanismo solidário e a ímpar capacidade de diálogo e de mobilização de boas vontades, bem como a omnipresença ao lado de quem sofre.

[Guterres foi escolhido, por unanimidade, no Conselho de Segurança da ONU para secretário-geral da organização] graças à sua notável inteligência, enorme experiência política e dos meandros internacionais, excepcional capacidade de comunicação. Reconheceu-se a honradez do seu caráter e a sua capacidade de diálogo, ponderação e partilha nas decisões.

Penso que a paz mundial, os problemas da Síria e dos refugiados, o relacionamento entre blocos e potências, incluindo, porventura, a reestruturação da ONU, são assuntos que não poderão estar ausentes das suas preocupações [como sucessor de Ban Ki-moon, a partir de 1 de Janeiro de 2017].”

António Guterres, em 9 de Abril de 2001, dia em quem se casou com Catarina Vaz Pinto, na capela de Santo Amaro, em Lisboa. A cerimónia foi celebrada pelo padre Vítor Melícias (dir.), que também abençoara o seu primeiro casamento, com Luísa Melo, em 1972
© noticiasmagazine.pt

Este artigo foi publicado originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Novembro de 2016 | This article was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, November 2016 edition

Tim Kaine: The Jesuit volunteer

The Virginia lawyer, governor and senator was picked by Hillary Clinton as her running mate to bring American Catholic voters back to Democrats in the November 8 elections. Is he up to the mission? [No, he wasn’t: Catholics – mainly white, not Hispanic – supported Donald Trump over Clinton by a 23-point margin (60% to 37%), according to the Pew Research Center.] (Read more…)

© Joe Raedle | Getty Images

There may be some truth to Richard Nixon’s adage that “the Vice President can’t help you – he only can hurt you”. But Hillary Clinton is hopeful that her running mate, Jesuit-educated Tim Kaine, is a safe choice.

[Neither was a safe choice. While Hillary Clinton won the popular vote by more than 2,86 billion ballots, according to the final results, 304 members of the Electoral College voted for Donald Trump, allowing him to be sworn in as president in January 2017. Meanwhile, Tim Kaine “resumed his old role” in the Senate, and ruled out the idea of another White House run in a recent interview with the “Richmond Times-Dispatch”, his hometown newspaper.]

Nixon, who brought power to the V.P. post while serving Dwight Eisenhower for eight years, was right on his assessment. Spiro Agnew, whom he selected to be his Vice President in 1969, became more of a burden than an asset. The former governor of Maryland managed to antagonize allies (conservatives) and enemies (the press). After his reelection in 1972, Nixon trusted him with no responsibilities. He was “unfit to govern”.

Timothy Michael Kaine is not “a relatively unknown” like Spiro Agnew, but concedes to being “a boring person”. He defines himself as “a man for the others” – a motto learnt with St Ignatius of Loyola missionaries that forever changed his personal and political life.

Him being a Catholic is “the key reason” why Hillary Clinton picked Tim Kaine as her running mate in the November 8 presidential elections, says Religion News Service’s editor David Gibson. It has already been the main reason why Joe Biden was Barack Obama’s pick in 2008.

“Since the 1970’s, each party [Democrat and Republican] is “guaranteed about 40% of the Catholic vote”, Gibson added. “But it’s that middle 20% that is in play, and in a close election winning that bloc is crucial” to Hillary and Donald Trump’s chances. “Now it seems almost a requirement to put a second in command who can tick the Catholic box.”

Trump – who studied for two years at Fordham University, a Jesuit school in the Bronx, before transferring to the University of Pennsylvania, “to test against the best” – is also aware of that requirement. His running mate, Indiana governor Mike Pence, “likes to call himself ‘evangelical Catholic’ even though he left the Catholicism of his birth to embrace Protestant evangelicalism while in college.”

Tim Kaine photographed with Nat, his first son, in 1990
© Richmond Times-Dispatch

The eldest son of an ironworker and a home economics teacher, Timothy M. Kaine was born in St Paul, Minnesota, on February 26, 1958, but grew up in the area of Kansas City, Missouri. His parents were “so devout”, Kaine told C-SPAN that, “if we got back from a vacation on a Sunday night at 7:30 p.m., they would know one church in Kansas City that had Mass that we can make it to.”

It was in Kansas that Kaine attended the all-boys Jesuit Rockhurst High School where he became a student leader. Afterwards he entered the University of Missouri to complete a bachelor’s degree in economics before being admitted to Harvard Law School.

At Harvard, he took a year off to volunteer with the Jesuit mission in El Progresso, Honduras. Here, he spent nine months (from 1980 to 1981) teaching carpentry and welding, and also learning Spanish.

“I came back with new lessons in humility and service, and I resolved to devote my talent and energy to helping others”, Kaine told to the Democratic convention, when accepting his V.P. nomination, in July [2016]. “My faith is my North Star for orienting my life. I think of El Progresso everyday. The people, aside from my family, are the most important in shaping who I am today. Since returning from Honduras 25 years ago, I have worked hard to serve my church, my family, community, city and state.”

While friends hail him as a genuine progressive (in Richmond, the formal capital of the Confederacy, Kaine has been a staunch defender of racial equality; his father-in-law, a former governor, faced a massive Democratic white supremacist establishment to impose integrated schools where he enrolled his children), critics underline the omissions in the Honduras narrative.

Tim Kaine teaching carpentry  in the Jesuit mission in El Progresso, Honduras, in September 1980
© Tim Kaine | Los Angeles Times

“In the 1980’s, Honduras was a crossroads of Cold War”, noted Greg Grandin, professor of Latin America History at New York University and author of Kissinger’s Shadow. “A year earlier, next door, Nicaragua’s Sandinistas had won their revolution. Father James Carney, a Chicago-born Jesuit priest who was executed in Honduras in 1983, recalled the moment [in his memoir]: ‘If Nicaragua won, El Salvador could win, and then Guatemala, and then Honduras could win.’”

At that same time, Grandin wrote in the newspaper The Nation, an article titled Eat, Pray, Starve: “CIA operatives quietly began to move into the Honduran capital, Tegucigalpa’s discreet Hotel Alameda, and began setting up the paramilitary network that would execute the Contra war [against the Sandinistas], that would claim 50,000 lives. (…) CIA agents also began to work closely with Honduras’s security forces, which began their campaign of political disappearances in late 1979”.

Grandin detailed a gloomy timeline: In March 1980, El Salvador’s Archbishop Oscar Romero was murdered. In January 1981, Ronald Reagan took office as President. The ambassador he appointed to Honduras, John Negroponte, “helped cover up the activities of [death squad] Battalion 316.”

On December 11, 1981 another battalion, US trained Atlacatl, “massacred upward of 900 people in the remote Salvador village of El Mozote – six of them were Jesuits.” In the meantime, “thousands of refugees, from Guatemala, El Salvador and Nicaragua, poured into Honduras.”

“Kaine could not have avoided become immersed in these socio-religious, political currents and crosscurrents”, asserts Grandin. He would have been “exposed” to debates in the Jesuit order, where some missionaries were defending the leftist Theology of Liberation and others, like his mentor, Father Jarrel “Patrício” Wade, committed to a “more pastoral than political ethics”.

“The losing ticket”: Tim Kaine and Hillary Clinton
© The New Republic

In his interview to C-SPAN, Kaine was asked about the lessons of the Honduran journey: “Happiness is not correlated with health”, he said. The dictatorship “really taught me things that we take for granted here… having a government that is the rule of the law.”

He didn’t utter a single word about the fact that the dictatorship was installed and funded by Washington. “In 1980, exactly the moment Kaine landed in El Progresso, Honduras was the second largest recipient of US economic assistance to Latin America, despite a sparse population of three million. It has received $35 million in military aid.”

A lawyer in Richmond, Tim Kaine entered public office only in 1994 when he run for and won the City Council. In 2005, he was elected Virginia’s governor. In the presidential campaign in 2008, he acted like a visionary endorsing not Hillary Clinton but Barack Obama (who, in the 2012 reelection bid, won the overall Catholic vote – 50% to 48%).

In 2009 – when a military coup in Honduras forced the elected Honduran president Manuel Zelaya into exile – Kaine rose to prominence to be chairman of the Democratic National Committee. In 2012, he was elected senator (joining the Armed Services, Budget, Foreign Relations and Aging Committees) – becoming the first one to deliver a speech in Spanish from the Senate floor.

While the Jesuits strongly condemned the Honduran coup, Kaine said nothing, except demanding an investigation when indigenous Lenca people leader and environmental activist Berta Cáceres was slain last March [2016]. On the contrary, he has been very active supporting deals that have led to displacement, poverty and migration, including the North American Free Trade Agreement (NAFTA) and the Central America Free Trade Agreement (CAFTA).

It seems like Kaine is adopting towards Honduras the same position he applies to issues such as the death penalty or abortion: “personal beliefs come second to legal and political implications.”

© Cliff Owen | AP

As a young attorney in Virginia, he used to offer legal advice free of charge to death row repentant inmates, but during his time as governor he oversaw 11 executions. “I have a moral position against the death penalty, but I took an oath of office to uphold it”, he said to The Washington Post in 2012. “Following an oath of office is also a moral obligation.”

As a heartfelt Catholic, he also opposes abortion, but has maintained a “100% pro-choice voting record” in the US Senate. On same sex-marriage and gay adoption, he used to align with the Church teachings but in 2012 he turned to be a supporter: “I believe all people, regardless of sexual orientation, should be guaranteed the full rights of the legal benefits and responsibilities of marriage under the Constitution.”

Kaine might look “too much of a moderate” to some Democrats, but what will attract voters, says Catholic veteran commentator E. J. Dionne, are his “working class roots and his focus on pocketbook issues like jobs, economic inequality and affordable health insurance.”

“Moreover, the issue that is far and most important to a key Catholic constituency – Hispanics – is immigration”, adds Religious News Service (RNS) editor David Gibson. “On that score Kaine, with his long support for immigration reform and his fluency in Spanish, easily beats Trump and provides a real opportunity for the Democratic vice presidential candidate to score point for Clinton.”

Last August [2016], RNS reported that Hillary Clinton was leading the Catholic vote 56% to 39%, “a sizeable gap unlikely to close much by November.” And if Trump-Pence “hope to persuade swing voters in battleground states such as Ohio and Florida, they must climb a steep mountain”. [Trump took both states.]

“It’s not only Latino Catholics who are turned off by the blustery billionaire – unsurprising given these voter’s Democratic leanings and Trump’s toxic anti-immigrant rhetoric. More intriguing (…) is the fact that many moderate and conservative Catholics also don’t seem to buy what Trump is selling.”

In 2015, Pope Francis had already given his opinion about “The Donald” when he stated: “A person who thinks only about building walls [Trump promised to erect one on the Mexican border], wherever they may be, and not building bridges, is not Christian.”

“It doesn’t take a high-priced political consultant to tell you that being on the wrong side of a widely popular Pope who has captivated people far beyond the Catholic Church is a bad place to be”, said John Gehring, author of The Francis Effect: A Radical Pope’s Challenge to the American Catholic Church.

[According to a Pew Research Center report, “the 2016 presidential exit polling reveals little change in the political alignments of U.S. religious groups. Those who supported Republican candidates in recent elections, such as white born-again or evangelical Christians and white Catholics, strongly supported Donald Trump as well. Groups that traditionally backed Democratic candidates, including religious “nones,” Hispanic Catholics and Jews, were firmly in Hillary Clinton’s corner.”]

JFK: The only Catholic President

John F. Kennedy's meeting with Pope Paul VI at the Vatican - July 2, 1963 - was historic: the first Roman Catholic President of the United States was seeing the Church's pontiff only days after his inauguration © All Rights Reserved

John F. Kennedy‘s meeting with Pope Paul VI (L.) at the Vatican, on July 2, 1963, was a historic event: the first Roman Catholic president of the United States was seeing the Roman Catholic leader only days after his inauguration
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It is estimated that 70 million of the 350 million residents of the United States are Catholic. So why hasn’t there been a Catholic president since John Fitzgerald Kennedy (JFK, 1961-1963), the only one since the United States was founded in 1776?

John Forbes Kerry was, in 2004, the only one Catholic presidential candidate among the 28 party nominees since Kennedy. And while there have been six Catholic vice presidential nominees, the first elected nationwide was Joe Biden, Barack Obama’s running mate in 2008.

“There’s no simple explanation but prejudice doesn’t seem to be the case”, said Newsweek’s Matthew Cooper, one of many commentators puzzled by this subject. America already had one Mormon nominee, Mitt Romney (Republican), and a Jewish V.P. nominee, Joe Lieberman (Democratic). “They didn’t fail because of bigoted views about their faith.”

“Part of the reason,” according to Cooper, “may be that the two [main] parties have tended to nominate from the South, which has been growing, and few from the Northeast, which is the most Catholic region and has lost population. Lyndon Johnson, Jimmy Carter, both Bushes and Bill Clinton all hail from Southern states. There hasn’t been a president from the northeast since Richard Nixon.”

Whatever the reasons, there is a certainty: Catholics in politics are no longer regarded as a liability.

In the 1960’s, JFK was compelled to publicly stand that he “wouldn’t take orders from Rome or let his faith affects his decisions in the Oval Office”.

In September 2015, in what would be unthinkable before and during Kennedy’s tenure, Pope Francis addressed a Joint Session of Congress, where 30% of all members are now Catholic. Moreover: six of nine Supreme Court justices were Catholic, the Vice President, Joe Biden, is Catholic, the then-Speaker of the House, John Boehner, was Catholic, and the Secretary of State, John Kerry, is Catholic.

Francis’ visit was not the first papal trip to the US, but it was the most important ever.

“It’s no secret that the Catholic Church in the United States faces a ‘best of times, worst of times’ moment in the early 21st century,” says John L. Allen Jr., editor of the Catholic website cruxnow.com. “New waves of immigration, principally from Latin America, are providing the Church with new energy and new human capital. But the Church’s existing base in the country is in decline. (…) The number of Catholics has dropped by 3 million since 2007 [now comprising 20%], and Catholics are now only one-fifth, rather than one-quarter, of the [total] American population.”

“At one level”, added the analyst, “the measure of Francis’ success in America will be whether future studies suggest at least some of that decline has been arrested, and whether the Pontiff inspires the Latino wing of the Church to take a more visible leadership role in American Catholic affairs.”

If the Pope succeeds, Catholics hope that there will be more many successors to JFK and Joe Biden on the top jobs.

President Barack Obama and Pope Francis stand together on stage during a state arrival ceremony for the pope, Wednesday, Sept. 23, 2015, on the South Lawn of the White House in Washington. (On September 23, 2016, Pope Francis became only the third pope to visit the White House. © Andrew Harnik | AP

President Barack Obama and Pope Francis stand together on stage during a state arrival ceremony for the Supreme Pontiff of the Catholic Church, on September 23, 2015, on the South Lawn of the White House in Washington
© Andrew Harnik | AP

These articles, now updated, were originally published in the WORLD MISSION magazine (Manila, Philippines), October 2016 edition

As mulheres de Hillaryland

Da inseparável conselheira Huma Abedin à filha única, Chelsea, Hillary Clinton rodeou-se de um círculo restrito onde amigas leais e de longa data se juntam a recém-chegadas estrategas e operacionais – as melhores do mundo. Uniram-se para fazer história na América. (Ler mais…)

© Jewel Samad | AFP | Getty Images

Uma das promessas de Hillary Rodham Clinton (HRC) é a de que, se vencer as eleições em Novembro [de 2016], a sua administração terá o mesmo número de mulheres e homens. Só exprimir este desígnio foi considerado histórico num país onde os homens constituem mais de 80% dos membros da Câmara dos Representantes e quase 90% dos governadores.

[Hillary conquistou 65.844.610 votos (48,2 %), contra 62.979.636 votos (46,1%) de Donald Trump, mas seria o republicano a tomar posse, em Janeiro de 2017, como 45º Presidente dos EUA, graças aos 306 votos que obteve no Colégio Eleitoral. Ela contou com 232.]

HRC quer provar que a sua vitória é importante não apenas porque seria a primeira Presidente dos EUA mas porque sempre tem lutado para que os direitos das mulheres sejam reconhecidos como direitos humanos.

A licença de maternidade, Family and Medical Leave, tornou-se lei federal em 1993 graças a ela, quando era primeira dama. O Paycheck Fairness Act – salário igual para trabalho igual – foi uma das suas batalhas legislativas como senadora.

E foi ela, como secretária de Estado, que abriu o primeiro Office of Global Women Issues, estabelecendo parcerias com mulheres em todos os continentes, para garantir que a igualdade de género seja pedra angular na política internacional.

Hillary aprendeu com os erros da campanha de 2008, quando perdeu para Barack Obama. Em 2016, distancia-se de um feminismo “só para brancas, cultas e de classe média”. A missão da sua Team for America é comprovar que ela “não é apenas um símbolo mas uma líder”.

Huma Abedin: A confidente

© Vanity Fair

Huma Mahmoud Abedin sonhava “ser a próxima Christiane Amanpour”, estrela da CNN. Inscreveu-se em Jornalismo na Universidade de George Washington, e ficou espantada quando um professor lhe ofereceu um livro de História dos Estados Unidos, dizendo: “Pelas conversas que temos tido nas aulas, acho que vai consultá-lo muitas vezes.”

Em 1996, terminada a licenciatura, concorreu a um lugar de estagiária na Casa Branca. Esperava trabalhar com o secretário para a imprensa, Mike McCurry. Colocaram-na noutro gabinete, o da primeira dama. Tinha 19 anos. Mal sabia ela que, duas décadas depois, iria tentar ajudar Hillary Clinton  a entrar na história da América como a primeira Presidente.

Uma vitória de Hillary nas eleições de 8 de Novembro será, também, uma vitória de Huma, directora-adjunta da sua campanha eleitoral – a “sombra”, a “confidente”, a “guardiã”, a “estratega”, o “canivete suíço que tudo resolve”.

Para chegar ao clã Clinton, observou a revista Madame Figaro, é melhor ter o número de telemóvel de Huma Abedin. “Ela é essencial, incontornável, vital.”

Huma admite que ficou surpreendida quando a colocaram no gabinete de Hillary, servindo de intermediária de mensagens políticas. “Que choque cultural!”, disse à Vogue. “Eu tinha crescido num país onde não havia eleições. Ninguém votava”.

O país onde Huma Abedin cresceu foi a Arábia Saudita, muito diferente de Kalamazoo, cidade no estado do Michigan, famosa pelas destilarias e cervejarias, onde nasceu em 1976. Tinha 2 anos quando os pais, o académico indiano Syed Zainul e a socióloga paquistanesa Saleha Mahmoud, a levaram para Jidá.

Mais liberal do que Riade, capital do reino, Jidá permitiu que Huma e os três irmãos fossem educados num ambiente multicultural. Frequentaram escolas inglesas. Em casa, treinavam o hindi, o urdu e o árabe. Nos tempos livres, tinham aulas de natação e equitação.

© Jonathan Ernst | Getty Images

Foi em Jidá que o pai de Huma fundou o think tank Institute of Muslim Minority Affairs e se tornou director do Journal of Muslim Minority Affairs. O objectivo era “assegurar os direitos legítimos” das minorias muçulmanas espalhadas pelo mundo.

Quando Syed Zainul morreu, em 1993, Saleha Mahmoud assumiu a direcção do instituto e da revista, cargos que ainda exerce. Vários artigos publicados entre 1996 e 2008, período em que Huma foi directora-adjunta, geraram controvérsia nos EUA.

Num dos textos, citado pelo New York Post, o autor argumenta que “mães solteiras ou casais gays com filhos não devem ser reconhecidos como famílias”. Críticos associaram os Abedin à Irmandade Muçulmana – improvável, porque a confraria é ilegal na Casa de Saud.

Em declarações à Vogue, Huma garantiu que Saleha é uma feminista que advoga mais poderes para as mulheres. Foi-lhe mais fácil defender a mãe do que o marido, Anthony Weiner, de quem aceitou divorciar-se, em Agosto, apenas depois de ele ser apanhado num terceiro escândalo sexual.

Weiner e Huma conheceram-se numa reunião do Partido Democrata, em 2001, durante o primeiro mandato de Hillary como senadora. Em 2008, começaram a namorar e em 2010 casaram-se. A cerimónia civil (ela é muçulmana e ele judeu) foi presidida por Bill Clinton.

Huma, que às vezes se imagina designer de moda, estava deslumbrante num vestido Oscar de la Renta, o seu criador favorito. Hillary aproveitou o momento para demonstrar o inestimável apreço pela sua conselheira: “Ela é, para mim, uma segunda filha”.

O primeiro Weinergate rebentou em 2011, já Hillary era secretária de Estado. Huma era vice-chefe de gabinete. Anthony enviara uma foto do pénis em erecção aos 45.000 seguidores no Twitter que se destinava a uma garota em Seattle. Demitiu-se da Câmara dos Representantes. Huma estava grávida e perdoou-o.

Em 2012, incentivado pela mulher, Weiner candidatou-se a mayor de Nova Iorque. Voltou a cair em tentação, com novos tweets sexualmente explícitos. Os Clinton distanciaram-se dele, mas não de Huma, que se dedicou 100% a Hillary (“O trabalho é a minha bússola”) e deixou Anthony a cuidar do filho Jordan, 4 anos, “o bem maior” que os mantivera juntos.

© USA Today

A 29 de Agosto, Huma perdeu a paciência. O New York Post, que a descrevera como “espia ao serviço da Arábia Saudita” publicou, em primeira página, o terceiro sexting do antigo congressista que derrubou uma carreira em ascensão.

Numa foto, que acompanha mensagens eróticas trocadas entre Janeiro 2015 e Julho passado, Weiner exibe os órgãos genitais sob a roupa interior, desta vez com Jordan a dormir ao seu lado.

“Após uma longa e dolorosa reflexão e dedicação ao meu casamento, decidi separar-me do meu marido”, anunciou Huma num comunicado oficial. “Anthony e eu continuaremos empenhados em fazer o melhor pelo nosso filho, que é a luz da nossa vida. Durante este período difícil, peço respeito pela nossa privacidade.”

O pedido foi ignorado pelo candidato republicano, Donald Trump: “Só estou preocupado com o país, porque Hillary Clinton foi negligente e descuidada ao permitir que Weiner estivesse tão próximo de informação altamente classificada [a que Huma tem acesso]”.

Subitamente, o “pesadelo” de Huma – foi assim que ela se referiu ao adultério de Anthony no premiado documentário Weiner –, parece ter ofuscado um escândalo de maiores proporções que também a fragiliza: o emailgate, mensagens privadas entre o Departamento de Estado e a Fundação Clinton.

Huma terá sido contactada para facilitar encontros entre Hillary e doadores da fundação que invocaram milionárias contribuições para terem esse privilégio. Aparentemente, Huma não comprometeu a chefe, mas os adversários republicanos alegam conflito de interesses.

Sob intensa pressão, Hillary e Huma têm erguido um muro de silêncio. São cada vez mais inseparáveis. Nos últimos anos, Huma revelou à Vogue que recebeu muitas propostas para deixar HRC. “Parava para pensar: ‘Será que eu gostaria tanto de fazer o que faço agora? A resposta nunca foi sim.’”

Stephanie Hannon: A primeira CTO

© flickr.com

Se Huma Abedin é uma “velha amiga”, Stephanie Hannon é uma recém-chegada, não menos valiosa. O seu currículo no Linkedin é impressionante. Desde que saiu da universidade de Harvard até entrar na equipa de Hillary como directora de tecnologia – a primeira mulher a desempenhar o cargo de CTO (Chief Techology Officer) numa campanha presidencial.

Um dos pontos altos da carreira, iniciada em 1996, foi o seu trabalho na Google. Foi ela quem, por exemplo, ajudou a expandir o Gmail, internacionalizando-o em 35 línguas, desenvolvendo mecanismos para o tornar mais fiável e prevenir o spam.

Outro exemplo: foi ela quem liderou o projecto Google Maps para a Europa, Médio Oriente e África, lançando domínios e códigos geográficos em 25 países.

Hannon trabalhou, também, para o Facebook, ajudando a rede de Zuckerberg a tornar-se “espaço seguro para a comunicação”. O seu último posto, antes de se juntar a Clinton, em 2015, foi o de directora de gestão de produto da Google, o que lhe permitiu “construir tecnologia inovadora (…) para responder a desastres naturais.” Esta tecnologia já foi testada, com êxito, por socorristas japoneses, depois de um sismo e um tsunami em 2011.

Em 2005, num discurso em Silicon Valley, Hillary apelou às mulheres para “estilhaçarem os tectos de vidro que ainda persistem na indústria tecnológica”.

Stephanie Hannon, que adora nadar com tubarões, sabe que, doravante, pode marcar a diferença. Disse à revista Fortune: “Ser CTO deve ser uma aspiração normal de qualquer rapariga. Foi por isso que aceitei deixar a Google e mudar-me de San Francisco para Brooklyn”, sede de campanha de Clinton.

Hannon chefia todas as operações digitais mas não está sozinha. O seu braço direito é Katie Dow, responsável pelas contas de FB, Instagram e outras. Foi ela que redigiu a famosa biografia de Hillary no Twitter: Wife, mom, grandma, women+kids advocate, FLOTUS, Senator, SecState, hair icon, pantsuit aficionado, 2016 presidential candidate).

Jennifer Palmieri: A supervisora de Lewinsky

© Charles Dharapak | AP

Foi numa festa de aniversário de Jennifer Palmieri, em 1995, que Bill Clinton conheceu Monica Lewinsky, a estagiária com quem o ex-Presidente manteria um caso extramarital que quase levou à sua impugnação.

Lewinsky estagiava na Casa Branca e a sua supervisora era Palmieri, assistente executiva de Leon Panetta, o chefe de gabinete de Clinton com quem iniciou a carreira na política quando ele era apenas congressista. (Panetta seria, posteriormente, chefe da CIA e secretário da Defesa.)

A lealdade da nativa de Pascagoula (Mississippi), hoje com 49 anos, foi recompensada. Bill promoveu-a a vice-secretária para a imprensa e, mais de duas décadas depois, Hillary convidou-a para ser directora de comunicação, o mesmo cargo que desempenhou sob a presidência de Barack Obama (2011-2015).

O caso Lewinsky faz parte do trajecto profissional de Palmieri, mas o escândalo que mais deixou marcas aconteceu em 2008 quando era conselheira de John Edwards.

Teve de fazer uma escolha: ou ignorava as mentiras de um dos mais promissores aspirantes a candidato presidencial democrata ou afastava-se deste antigo senador da Carolina do Norte que prometia acabar com a pobreza na América e acabou caído em desgraça. Escolheu a verdade.

Edwards contratara Palmieri como secretária nacional para a imprensa em 2004, quando concorreu pela primeira vez à Presidência. Era tão popular que o partido o considerou digno de ser vice-presidente de John Kerry. Nem um nem outro tiveram sorte: George W. Bush ganhou a eleição.

Quem convenceu Palmieri a trabalhar para o homem que, a princípio, via “apenas como um advogado manhoso” foi Elizabeth, mulher de Edwards. “Ele teria de ser um bom tipo para ela o aturar durante 26 anos”, escreveu num tributo à amiga que morreu de cancro, em 2010.

Na segunda corrida presidencial de Edwards, em 2008, Palmieri já só era consultora a tempo parcial do candidato, dedicando mais tempo ao think tank Center for American Progress, fundado por John Podesta, poderoso director da campanha de Hillary e o estratega que ajudou Bill Clinton a “controlar os danos” do escândalo Lewinsky.

Por respeito a Elizabeth, Palmieri fez tudo para que John Edwards fosse honesto sobre uma relação extraconjugal de que nasceu uma filha. Mas só quando se viu confrontado com acusações de desvio de fundos da campanha para ocultar o caso é que ele percebeu que comprometera, irremediavelmente, o futuro político.

Amanda Renteria: A alma latina

© Tom Williams | Roll Call | Getty Images

No mundo das campanhas eleitorais, dizia Mike Feldman, um dos principais conselheiros do ex-vice-presidente Al Gore, “aprende-se mais com quem perde do que com quem ganha”. John Edwards não é exemplo, mas talvez Amanda Renteria, derrotada em 2014, quando tentou conquistar um lugar no Congresso, tenha inspirado Hillary. Hoje, é a sua directora de política nacional.

Não é difícil buscar inspiração na californiana que transpôs as limitações de ser filha de um imigrante mexicano, antigo agricultor, para se afirmar como uma das figuras políticas mais importantes da equipa de Clinton. Na terra natal, Woodlake, o que esperavam dela era que soubesse limpar a casa, tivesse boas notas e fosse, no grupo folclórico, uma exímia “bailadora”.

Ser aluna excelente abriu-lhe as portas da Universidade de Stanford: foi a primeira hispano-americana a ser aqui admitida. Quando a notícia foi anunciada pelo intercomunicador da sua escola secundária, Renteria ficou extasiada, até que uma professora a chamou à parte e disse: “Este não é o teu sucesso mas o da nossa comunidade.”

Em Stanford, quando se apercebeu que o curso custava, por ano, 22 mil dólares, quase desistiu. Juntou-se às equipas de basquetebol (grande paixão) e softball da universidade, o que lhe ofereceu uma bolsa e a reputação de “ambiciosa e competitiva”. Concluídas as licenciaturas em Economia e Ciência Politica, foi trabalhar para o Goldman Sachs, o mais poderoso banco de investimento do mundo.

Foi breve a passagem pela instituição cujo presidente se define como “um banqueiro que faz o trabalho de Deus”. Um dia, ouviu a mãe dizer aos vizinhos que a filha não parecia orgulhosa do que fazia. Deixou Nova Iorque e voltou a Central Valley para ser professora de liceu. Um ano depois, foi fazer um MBA à Harvard Business School. Quando chegou ao Capitólio, em 2005, convenceu-se de que a política era a sua vocação.

Tinha 30 anos quando a senadora Diane Feinstein a escolheu para conselheira económica. Em 2008, Debbie Stabenow elevou-a chefe de gabinete: a primeira latina a ocupar este cargo na história do Senado americano. Ao lado de Stabenow, venceu várias batalhas legislativas, graças à capacidade de servir de ponte entre campos antagónicos.

Há dois anos, a democrata Renteria não conseguiu vencer o republicano David Valadao quando se candidatou ao Congresso. Isso não impediu Hillary de confiar nela a tarefa de mobilizar a comunidade hispânica, que não costuma afluir às urnas em grande número mas se sentiu injuriada quando o candidato republicano, Donald Trump, chamou aos imigrantes mexicanos “criminosos e violadores”.

Kristina Schake: Estratega da popularidade

© msnbc.com

Quem é que não viu a Mom Dance de Michelle Obama e Jimmy Fallon? Mas quantos sabem de quem foi a ideia de levar a primeira dama a participar nesta genial campanha televisiva para minorar o problema da obesidade infantil nos EUA?

A ideia foi de Kristina Schake, e tendo em conta que os vídeos destas performances foram visualizados por dezenas de milhões de pessoas, não admira que ela tenha sido escolhida para vice-directora de comunicação de Hillary.

Poucos acreditam que a ex-advogada formada em Yale, senadora e secretária de Estado venha a dançar com um comediante. Mas todos perceberam que o objectivo da contratação de Schake é melhorar a imagem da candidata sobre quem, em 2008, o então rival Obama ditou uma frase que ainda hoje ecoa: “Ela dirá qualquer coisa mas nada fará”.

Há quem diga que uma das primeiras impressões digitais de Schake foi deixada na Chevrolet Express blindada ou “Scooby Van” (evocativa da carrinha “Máquina Mistério” nos desenhos animados Scooby Doo) com que Hillary arrancou a sua campanha, no Iowa.

Transformar Michelle num ícone pop não é o único mérito de Kristina Schake, 45 anos, fascinada desde criança por museus e galerias de arte. Dedicada a várias causas, começou por ajudar o actor e realizador Rob Reiner a enfrentar as grandes tabaqueiras, conseguindo que fosse aplicado um imposto de 50 cêntimos sobre os maços de cigarros para financiar a educação de crianças.

O ponto alto do seu activismo social foi a luta para anular a Proposition 8, que proibia o casamento de pessoas do mesmo sexo na Califórnia. Foi uma batalha que travou com a ajuda da irmã Kori – uma republicana que foi conselheira de Condoleezza Rice e John McCain mas que, este ano, já anunciou que vai votar em Hillary.

Chelsea Clinton: A herdeira

© Newsweek

Ela será “a primeira filha” se HRC for eleita Presidente, mas o sonho não pára aqui. Perguntaram a Chelsea Clinton se concorrer ao lugar que agora a mãe disputa é uma possibilidade no futuro, e a resposta foi: “Certamente!”

William e Hillary criaram Chelsea para ser uma super-estrela, protegendo-a e, ao mesmo tempo, preparando-a para enfrentar os “males do mundo”.

Aos cinco anos, escreveu uma carta a Ronald Reagan (1911-2004). Pedia ao Presidente republicano que não visitasse o cemitério alemão de Bitburgo onde estão as campas de 49 oficiais das SS, responsáveis pelo Holocausto.

“Eu vi [o filme] Música no Coração. Os nazis não me parecem gente boa. Por favor não vá.” Ele foi, apesar das críticas, mas primeiro visitou o antigo campo de concentração de Bergen-Belsen.

Se Ronnie a desapontou, Bill ainda a desiludiu mais. Em 1997, acabara de entrar na Universidade de Stanford, para uma licenciatura em História, quando o pai se envolveu numa “relação inapropriada” com Monica Lewinsky.

Num “acto de rebelião”, deixou o aconchego da família. Foi estudar para Oxford, onde completou um mestrado em Relações Internacionais. Apesar de “confusa e magoada”, como Hillary descreve no livro Living History, encorajou os pais a não se divorciarem, mas o perdão demorou tempo.

Rejeitou os primeiros convites de Bill para fazer parte da Fundação Clinton, criada em 1997 e hoje avaliada em 2000 milhões de dólares. Optou por entrar na auditora McKinsey, com a (má) fama de aconselhar empresas sobre a melhor forma de despedir empregados.

Foi depois para um fundo de investimento em Wall Street. Concluiu que “o dinheiro não rege [a minha] vida”, e voltou à universidade. Em Columbia, fez um mestrado em Saúde Pública, e aqui foi convidada a ser professora.

Em 2010, casou-se com o banqueiro Marc Mezvinsky, numa cerimónia celebrada por um rabi e um pastor metodista. Bill terá expiado os pecados ao pagar a união que custou 3 milhões de dólares e um apartamento de 10,5 milhões, em Manhattan.

Em 2011, entrou finalmente na Fundação Clinton, onde é agora vice-presidente. No mesmo ano, a NBC contratou-a, por 660.000 dólares, como “correspondente especial”, emprego em part-time que gerou desconforto entre colegas. Diziam dela que era “o fantasma mais bem pago da estação”. Saiu em 2014.

Na fundação que investe sobretudo na saúde (dez milhões de pessoas beneficiam das suas campanhas de prevenção do HIV/sida) e na educação de meninas e mulheres, Chelsea não recebe salário.

Ela e o marido têm, cada um, uma fortuna avaliada em 15 milhões de dólares. Ao contrário do pai, ela oferece à instituição 100% dos honorários das suas conferências. Por uma palestra de 10 minutos cobra 65 mil dólares.

Hoje, com 36 anos e dois filhos, Chelsea enfrenta novo escândalo, tal como Huma Abedin: o emailgate, a troca de mensagens privadas que colocou sob fogo a Fundação Clinton. A filha de Bill e Hillary não parece preocupada.

Face a uma avalanche de críticas, admitiu que a instituição deixará de receber contribuições de estrangeiros se a mãe for Presidente e que o pai abandonará a direcção e administração. Ela continuará, porém, na liderança.

Porque o seu lema é igual ao título do livro que publicou em 2015: It’s Your World: Get Informed, Get Inspired & Get Going (“O mundo é teu: Mantém-te informada, Inspira-te e Segue em frente”). 

© Politico

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente na revista MÁXIMA, edição de Outubro de 2016 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese magazine MÁXIMA, October 2016 edition

Shimon Peres (1923-2016): O vendedor de sonhos

Morreu o último dos “pais fundadores” de Israel. Ofereceu ao país um arsenal nuclear e o mais poderoso Exército do Médio Oriente. Foi o artífice do projecto colonial nos territórios palestinianos. Os Acordos de Oslo deram-lhe um Nobel. O seu legado é uma mistura de guerra e paz. (Ler mais | Read more…)

© The New York Times

Benjamin Oron, antigo embaixador em Portugal, dizia que os israelitas tinham dois carros: um Subaru para todas as horas e um Mercedes topo de gama que só retiravam da garagem em situações excepcionais. Yitzhak Rabin era o Subaru. Shimon Peres era o Mercedes.

A realidade era menos diplomática. “Os israelitas desconfiavam de Shimon Peres, e isso explica por que é que, embora tenha desempenhado os principais cargos políticos [primeiro-ministro, chefe da diplomacia, titular da pasta da Defesa], nunca tenha vencido uma eleição nacional”, diz-me o jornalista Gideon Levy, seu assessor entre 1978 e 1982.

“Só depois dos 80 anos, quando chegou a presidente, cargo meramente cerimonial e uma escolha do Parlamento, é que começaram a amá-lo – um amor que ele sempre procurou”, acrescenta Levy, numa entrevista, por telefone.

Shimon Peres morreu  a 28 de Setembro, aos 93 anos. Sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) a 13 de Setembro, e não mais deixou o hospital onde tinha sido internado. É o último dos “pais fundadores” de Israel. “Todos os homens têm direito a sonhos grandes”, dizia. “Eu não escrevo história – faço história”.

Para perceber o amor intenso de Shimon por Israel é preciso remontar à shtetl de Vishneva, aldeia judaica “no coração da Rússia Branca”, actual Bielorrússia. Foi ali que nasceu Szymon Perski (nome iídiche), “quando a noite se tornou dia, a 21 de Agosto de 1923, num mundo em transição”, como relata num dos seus livros de memórias, Battling for Peace.

Shimon Peres com o mentor, David Ben-Gurion (centro) e o general Moshe Dayan (esq.), antigo chefe de Estado-Maior, em Telavive, Fevereiro de 1955
© Reuters

Em Vishneva, ocupada pelos polacos entre duas guerras mundiais, Peres sabia que os judeus eram discriminados. O pai comerciava em madeiras, cereais, açúcar e outros produtos. Impostos pesados levaram-no à falência. Em 1932, emigrou para Telavive, na Palestina do Mandato Britânico.

A mulher e os filhos de Getzel (Yitzhak) Perski juntaram-se-lhe em 1934. Por esta altura, metade dos residentes judeus de Vishneva tinham fugido para o que chamavam Eretz Yisrael (“Terra de Israel”). Os que ficaram, incluindo os avós de Shimon, foram queimados vivos, na sinagoga local, por tropas invasoras da Alemanha nazi e seus colaboracionistas.

Mudar para Telavive representou uma mudança de mundos. “Os goyim [gentios] já não eram o objecto das nossas conversas ansiosas: foram substituídos pelo ‘árabes’, que, apesar de nossos inimigos, não eram os nossos governantes”, refere Peres na autobiografia.

Foi para lutar contra os árabes, e o Mandato Britânico, que se juntou ao movimento resistência judaica Haganah. A eloquência dos seus escritos chamou a atenção de Berl Katznelson e David Ben-Gurion, líderes do Mapai, predecessor do Partido Trabalhista.

31 julho 1972: Shimon Peres com Golda Meir, que fala com Richard Nixon usando o primeiro telefone satélite israelita
© Daniel Rosenblum | Getty Images

Em 1948, quando os árabes declararam guerra ao novo Estado criado pelas Nações Unidas, Peres não estava entre os que se alistaram nas unidades de combate. Ben-Gurion enviara-o ao estrangeiro para comprar armas. Quando voltou, o mentor nomeou-o director do Ministério da Defesa.

A “desconfiança popular” terá começado aqui, apesar de terem sido as armas de Shimon Peres que permitiram a Israel formar o mais poderoso Exército do Médio Oriente e ter um arsenal nuclear “dissuasor” das ameaças árabes.

“Peres não era um sabra [natural de Israel], um soldado e aventureiro, mas um judeu do exílio que nunca enfrentou as balas”, observou Gideon Levy.

Esta é uma opinião partilhada por Colette Avital, embaixadora de Israel em Portugal entre 1998 e 1992, a primeira mulher a concorrer à presidência (contra Peres, que depois apoiaria) em 2007.

“A definição de Benjamin Oron, do Subaru e do Mercedes, é muito simpática mas não é correcta”, observou a diplomata, em entrevista que me deu, por e-mail. “A verdade é que Rabin e Peres eram muito diferentes um do outro e, durante a maior parte das suas vidas, tiveram uma relação difícil.”

“Depois do primeiro mandato como primeiro-ministro, em 1974, Rabin publicou as suas memórias e aqui pintava um retrato problemático. Dizia que Peres era ‘um intriguista compulsivo’. Isso contribuiu para alimentar a antipatia das pessoas.”

“Peres não fazia parte do establishment militar – não foi general nem pertenceu a nenhuma clique. Era considerado um outsider.”

“Toda a sua maneira de ser era europeia, demasiado elegante para o gosto dos israelitas”, notou Avital. “No início dos anos 1980, o bloco direitista Likud, de Menachem Begin, [que em 1977 retirou aos trabalhistas o monopólio do poder], conduziria uma campanha contra Peres, o derrotado.”

“Isso colou-se a ele. Essa imagem só terá começado a mudar quando integrou o governo de Ariel Sharon [para apoiar a retirada de Gaza em 2005] e, depois, quando chegou a Presidente, com os seus apelos ao consenso. Tornou-se, então, uma figura paternal.”

Shimon Peres com Anwar el-Sadat, durante a visita do Presidente egípcio a Jerusalém em Novembro de 1977: esta viagem histórica tê-lo-á transformado de “falcão” em “pomba”
© ABC News

“Durante muitos anos, houve um fosso enorme entre o modo como Israel o tratava e o resto do mundo o admirava. Há uma frase bíblica, ‘Ninguém é profeta na sua própria terra’, que é triste mas verdadeira. E isto aplica-se a Shimon Peres, ainda que tenha acabado por ser amado como tanto desejava.”

Para Avital, Peres “foi um homem de futuro, um visionário e pragmático, um optimista que acreditava na possibilidade de encontrar sempre soluções. Um homem para quem a segurança de Israel sempre ocupou um espaço privilegiado, sabendo, todavia, que é impossível ter segurança sem paz com os palestinianos – e com outros países na região.”

Gideon Levy, que trabalhou com Peres “nos anos negros da sua carreira, quando enfrentava Begin e Rabin”, descreve-o como “uma personagem complexa”. O que mais o impressionava era o autocontrolo. “Nunca conheci um ser humano que controlasse tão bem as suas emoções.”

Terá sido entre 1978 – após a visita do presidente egípcio Anwar Sadat a Jerusalém – e de 1982 – ano da invasão israelita de Beirute – que Shimon Peres se transformou “de falcão em pomba”, constatou Levy. “Até então, ele apoiava os colonatos – foi um dos fundadores do projecto colonial – mas, depois, começou a perceber que a ocupação não podia durar para sempre. Que era imoral.”

“Essa transformação foi muito influenciada pela Internacional Socialista. Eram os tempos de Mário Soares e Willy Brandt. Não nos esqueçamos que Peres se opunha a qualquer contacto com a OLP, mas foi ele quem abriu caminho aos Acordos de Oslo”, em 1993, advogando uma solução de dois Estados.

Shimon Peres, Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, quando receberam o Prémio Nobel da Paz
© Politico

Oslo permitiu que Peres, Rabin e Yasser Arafat partilhassem o Prémio Nobel da Paz 1994, mas colocou numa “situação precária” o empresário palestiniano-americano Sam Bahour, que, para viver com a mulher em Ramallah, na Cisjordânia, teve de esperar de 1993 até 2009 por um cartão de residência emitido pelo exército israelita. Até então, “só podia entrar e sair do país com vistos de turista válidos apenas por três meses.”

“Não permitirem que eu e outros regressemos numa base permanente, de modo a contribuir para uma realidade diferente no terreno, diz bem da intenção de Israel prolongar o conflito”, lamenta, por e-mail, o empreendedor que ajudou a criar a Companhia de Telecomunicações da Palestina. “Peres nada fez para mudar este sistema de controlo. Na verdade, ainda impôs mais controlos repressivos.”

“Peres será lembrado pelos palestinianos como mais um líder israelita que jamais foi julgado pelas atrocidades e crimes de guerra”, acusa Bahour. “Ele falava de paz mas nunca se desligou da ocupação militar.”

Gideon Levy, actual colunista do diário Ha’aretz, concorda com Bahour: “Peres conseguiu o Nobel mas, hoje, estamos mais longe da paz do que há 20 anos. Oslo foi uma armadilha. O objectivo nunca foi resolver o principal problema: os colonatos, que foram o maior erro da sua vida.”

“Jamais foi corajoso para assumir publicamente a sua responsabilidade, quando era ministro da Defesa. Como Presidente, preferiu não afrontar a maioria [que se opõe à retirada dos territórios ocupados]. Optou por agradar a toda a gente, para não perder o amor conquistado.”

Datas de uma longa vida

© The Globe and Mail

Não há um líder mundial que possa reclamar a longevidade política do israelita Shimon Peres: 75 anos. Ocupou todos os principais cargos do seu Estado.

1941: Secretário do movimento juvenil sionista HNoar HaOved VeHaLomed;

1947: Militante do Haganah, movimento de resistência judaica que precedeu as Forças de Defesa de Israel; não foi soldado mas encarregado de comprar as armas que permitiram ganhar a primeira guerra com o árabes, em 1948;

1953: Director-Geral do Ministério da Defesa, cargo; neste posto, planificou a guerra do Suez de 1956, desenvolveu as Indústrias Aeroespaciais e pôs em marcha o projecto da central nuclear de Dimona;

1959: Deputado pelo Mapai, futuro Partido Trabalhista, fundado por David Ben-Gurion, seu mentor;

1969: Ministro da Absorção dos Imigrantes;

1970: Ministro dos Transportes e Comunicações;

1974: Ministro da Defesa, responsável pelo início da construção de colonatos judaicos nos territórios palestinianos ocupados na guerra de 1967;

1984-1986: Primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros num governo de rotatividade e unidade nacional formado entre os trabalhistas e o bloco direitista Likud de Yitzhak Shamir;

1993: Artífice dos Acordos Oslo, que permitiram o reconhecimento mútuo de Israel e da OLP;

1994: Ganha o Prémio Nobel da Paz, com o primeiro-ministro Yitzhak Rabin e o líder palestiniano Yasser Arafat;

1995-1996: Assume a liderança do Partido Trabalhista e, interinamente, a chefia do Governo após o assassínio de Rabin; mandou matar o chefe dos bombistas do Hamas em Gaza, provocando uma vaga de atentados suicidas;  lançou uma campanha militar no Líbano, durante o qual foi cometido um massacre num edifício das Nações Unidas, em Qana, mas nem assim conseguiu vencer Benjamin Netanyahu;

2001: Ministro dos Negócios Estrangeiros num governo com o Likud de Ariel Sharon;

2005: Abandona o Partido Trabalhista para se juntar ao Kadima, formado por Sharon, que também deixou o Likud, para poder levar a cabo uma retirada unilateral, de colonos e soldados, da Faixa de Gaza;

2007-2014: Nono Presidente de Israel, eleito pelo Parlamento.

Na primeira pessoa

© The New York Times

Não há, na história do Judaísmo, qualquer desejo de dominar outro povo. O que acontece agora [ocupação dos territórios palestinianos] é um desvio.

(Jerusalem Post, 1988)

Foram precisos 25 anos para que o sionismo corrigisse o seu maior erro – a tentativa de ignorar a existência dos palestinianos nesta terra – e [os Acordos de] Oslo foram o início acertado dessa solução.

(Ma’ariv 2003)

Os optimistas e os pessimistas morrem da mesma maneira. Apenas vivem de forma diferente. Eu prefiro viver como optimista.

(Newsweek, 2005)

Fui controverso a maior parte da minha vida. Subitamente [como Presidente], tornei-me popular. Não sei quando é que eu estava errado, se no passado se no presente.

(Ha’aretz, 2007)

A maior parte dos nossos vizinhos acredita que Israel tem a capacidade de os destruir – essa é a opção nuclear. A suspeição deles é a nossa força.

(Yedioth Ahronoth, 2009)

Não haverá paz sem dois Estados. E nações sem paz estão condenadas a viver uma tragédia terrível, totalmente desnecessária.

(TIME, 2016)

© Elad Malka

Este artigo foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO em 1 de Outubro de 2016 | This article was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on October 1, 2016

Small, yet leading by example

While Portugal has more than doubled its quota to accommodate refugees, other E.U. countries are building fences and sealing off Europe’s internal borders. A deal with Turkey to secure this closure has been criticized as a moral failure. (Read more…)

People take part in a demonstration in support of migrants holding up placards saying 'Syrians Refugees welcome', in Lisbon, Portugal, 12 September 2015 © Antonio Cotrim | EPA

People take part in a demonstration in support of migrants holding up placards saying “Syrians Refugees welcome”, in Lisbon, Portugal, 12 September 2015
© Antonio Cotrim | EPA

A quote by William Arthur Ward, “The pessimist complains about the wind; the optimist expects it to change; the realist adjusts the sails”, decorates a room where Rui Marques welcomes the visitors at Padre Antonio Vieira Institute (IPAV), in Lisbon. It is also a life motto to the coordinator of the Refugee Support Platform (PAR). And it perfectly describes how Portugal is reacting to the world’s worst refugee crisis since Word War II.

Despite being a small country experiencing an economic crisis, Portugal has committed to receiving up to 10,000 refugees. It more than doubles its 4,486 quota under a European Union plan to relocate 160,000 asylum seekers stranded in the frontline states of Greece and Italy.

By June, Portugal has taken in 417 refugees [this number increased to 555 in September – 372 coming from Greece and 183 from Italy], mostly Syrians, Iraqis and Eritreans. Initially small, due to bureaucratic and logistic difficulties, the number of arrivals has been growing every week. The country is already the second largest host, after France (735), under the E.U. Relocation and Resettlement Program.

“It’s a great effort if we bear in mind that, altogether, the 28 E.U. countries accepted to relocate only 7,000 refugees [of the total number of 160,000],” says Rui Marques in an interview.

A Macedonian police officer raises his baton toward migrants to stop them from entering into Macedonia at Greece's border, near the village of Idomeni, Greece, Aug. 22, 2015 © Alexandros Avramidis | Slate.com

A Macedonian police officer raises his baton toward migrants to stop them from entering into Macedonia at Greece’s border, near the village of Idomeni, Greece, Aug. 22, 2015
© Alexandros Avramidis | Slate.com

“Portugal had all the excuses to close the door: a distant geographical location, high unemployment, and the fact that there is no Muslim communities here like in Germany, for example. In spite of our limitations, we have been very pro-active and available. We have set in motion the ability to put ourselves in others’ shoes.”

PAR is one of five Portuguese organizations involved in this national endeavor. It operates like a broad network with 300 members comprising foundations, universities, companies, and municipalities, more than 100 members who are host institutions, and 8,000 individual volunteers.

Refugee families, as the “most vulnerable”, are PAR’s priority, says Rui Marques. Host institutions offer each family free housing and access to education, work, medical treatment, and a monthly stipend to buy their food, medicine, for transport, and telecommunications.

To accommodate more that 4,500 refugees in the next two years, Portugal was promised by the E.U. almost €70.369 million until 2020. The annual contribution of the Portuguese government is €6,000 for each adult and €4,500 for each child.

A boy walks past tents in a Syrian Kurdish refugee camp in the Turkish town of Suruc
© Aris Messinis | AFP

Hungary has built razor-wire barriers on its borders with Serbia and Croatia. Austria erected a four-kilometer fence at the Slovenian border. Macedonia, Croatia and Slovenia are imposing harsher restrictions.

Rui Marques is proud of Portugal’s “example of European solidarity.” But he worries that it might be hindered by a controversial EU-Turkey refugee deal approved last March [2016].

The arrangement was praised by Germany as “a humane alternative to sealing off Europe’s borders”. It offers President Recep Tayyip Erdoğan €6 billion and political concessions, such as visa-free travel and negotiations for EU membership, if his government takes back refugees who reach Greece via Turkey.

Nearly 1.1 million refugees entered Germany in 2015. In April 2016, after the deal was put in place, only around 16,000 arrived, a smaller number when compared with the 120,000 that reached the country last December.

Arrivals through Greece have also dropped, from 26,971 in March to 3,462 in April. But more asylum seekers, primarily from Nigeria, Gambia, Somalia and other Sub-Saharan countries, are now making their way to Italy (9,149 in April), U.N.H.C.R. figures show.

[In 2016, according to the International Organization for Migration (IOM) and the EU border agency Frontex, quoted by Al Jazeera, “the number of refugees who arrived on Europe’s shores plunged by nearly two-thirds, but the number of those who died on the often perilous journey in the Mediterranean Sea rose sharply. About 364,000 people seeking work or refugee protection crossed the sea between January and December, compared to more than one million in 2015.]

Libyan fishermen throw a life jacket toward a rubber boat carrying 139 migrants
© The New Republic

“The refugee routes are changing but they don’t stop”, cautions Rui Marques. “I firmly support cooperation with Turkey but the deal [with President Erdoğan] provides an ill-fated compensatory package. Europe should not reward good behavior. Our values should be more important than our interests. The agreement is failing. It was a lost opportunity.”

Turkey is not complying with the promises made to the European Commission to guarantee temporary protection to refugees returning from Greece. “Some have been arbitrarily arrested, while others were detained for begging on the streets or selling tissues,” reports the Turkish human rights organization Mülteci Der, quoted by Spiegel Online.

“The Pakistanis, Afghans and Algerians who were deported from the islands of Lesbos and Chios in early April were almost all sent to a detention center in Kirklareli on the Turkish-Bulgarian border.”

Greek officials scaled down the procedures to send refugees back to Turkey, alleging that Turkey “is not a safe third country.” Amnesty International added fuel to this claim denouncing that “hundreds of refugees” have been forcibly deported from Turkey to Syria. Others were shot by troops at the Syrian-Turkish border.

Migrants that have passed a first fence look for another passage to access the Eurotunnel terminal on August 6, 2015 in Frethun near Calais, northern France © Philippe Huguen | AFP | Getty

Migrants that have passed a first fence look for another passage to access the Eurotunnel terminal, August 6, 2015 in Frethun near Calais, northern France
© Philippe Huguen | AFP | Getty

Rui Marques refuses to condemn Turkey’s overcrowded and insanitary confinement camps. “We have to look first at European camps, where children have been detained in dreadful conditions. There are horrifying stories about refugees being abused by traffickers. We need to be coherent and look at our own actions” before criticizing a country already holding 2.5 million refugees.”

“The E.U. assistance to Turkey is five years late,” he says. “We pretended for too long that it was not our business. We have been distancing ourselves from our values, embracing nationalism, which is the last station before war. We ignored how people were prepared to risk everything – to risk their lives.”

Or, as Somali-British poet Warsan Shire wrote: “You have to understand/no one puts their children in a boat/unless the water is safer than the land.”

One of the most appalling “European camps” is Idomeni, a Greek port city. Refugees “are losing hope that they will be able to join their families or find places to live in peace,” informs Doctors Without Borders/ Médicins Sans Frontières (MSF).

“Following the closure of the Balkans’ route to Europe, thousands of refugees are stranded, exposed to violence at the hands of border police or smugglers. Babies as young as six weeks have been treated for exposure to tear gas and ten-year old children for rubber bullet wounds.”

“Some of these children were born on European soil, others have been displaced for months, some for years”, says Emmanuel Massart, MSL field coordinator in Idomeni.

Migrants are escorted by police through fields towards a holding camp in the village of Dobova on October 26, 2015 in Rigonce, Slovenia. Thousands of migrants marched across the border between Croatia into Slovenia as authorities intensify their efforts to attempt to cope with Europe’s largest migration of people since World War II.
© Jeff J Mitchell | Getty Images

“Near the Albanian border, in Ioannina City, the Katsikas military-run camp hosts 1,500 asylum seekers who spend their days in the heat and freeze at night”, says the aid group. “They sleep in tents without mattresses and have nothing to keep warm on the cold, hard, and rocky ground.”

Due to the “squalid conditions” in Greece, MSF will no longer take money from any EU governments and institutions. This protest decision will cost the organization €60 million.

“For months MSF has spoken out about a shameful European response focused on deterrence rather than providing people with the assistance and protection they need”, says Jérôme Oberreit, MSF’s international secretary general.

“The EU-Turkey deal goes one step further and has placed the very concept of ‘refugee’ and the protection it offers in danger. We are calling on European governments to shift priorities: rather than maximising the number of people they can push back, they must maximise the number they welcome and protect.”

United Nations Secretary General Antonio Guterres, from Portugal, (2nd R) talks with Syrian women during a visit to the Zaatari refugee camp which shelters some 80,000 Syrian refugees on the Jordanian border with war-ravaged Syria on March 28, 2017
© Thomas Coex | AFP

Rui Marques, coordinator of Refugee Support Platform (PAR), Rui Marques, is proud of Portugal’s “example of European solidarity”
© Marisol González

This article, now updated, was originally published in the WORLD MISSION magazine (Manila, Philippines), September 2016 edition 

From torment to miracle

Europe is facing a refugee crisis of historic proportions. Since 2015, more than one million people crossed the Mediterranean fleeing war and persecution. Among the immigrants is the Darwish family. An example of resilience, courage and hope. (Read more…)

The Darwish family in Nazaré community center before moving to a new house © Marisol Gonzalez

The Darwish family in a community center in Nazareth (Nazaré), Portugal, June 2016, before moving to a new house, courtesy of a Catholic institution
© Marisol González

Talal Darwish has the smile of a happy man. The worst of a two-year journey to escape a bloody war in Syria ended last March when his family arrived in the Portuguese town of Nazaré from Greece. “We are finally safe,” he said.

The big waves of this seaside resort, 100 km north of Lisbon, made famous by American surfer Garret McNamara, might evoke the stormy crossing of the Mediterranean. It is only but a resemblance. Nazaré is now a paradise for Talal, his wife Mushira and their seven children after a long ordeal.

They reached Portugal under a European Union relocation and resettling program of 160,000 asylum seekers stranded in Greece and Italy. The Portuguese government offered to host 10,000 refugees, more than double its 4,486 quota.

The Darwishes are guests of Confraria de Nossa Senhora da Nazaré (Guild of Our Lady of Nazareth), a Catholic institution that is doing the utmost to provide the family with all they need.

Lodged in the local community centre until mid-June, they have now moved to a private house. It is a spacious building in the touristic old village of Sítio that was totally restored and furnished to accommodate them.

Mushira Mushira and her 4-month old baby Fatima, who was born in exile © Marisol González

Mushira Darwish, the mother, and her 4-month old baby Fatima, who was born in Turkey 
© Marisol González

The road to exile began in 2014. They left the city of Hama, located 200 km north of Damascus that has been for decades a resistance symbol to the Syrian regime.

“I remember the 1982 massacre”, says 42-year old Talal, sitting next to his wife, three sons and four daughters in one of the community center’s living rooms.

“I was a kid but everybody talked about it. The city was completely razed to the ground and, later, rebuilt as a message to the Muslim Brotherhood.”

At least 25,000 people were killed in Hama in 1982 after several opposition attempts to oust and kill President Hafez al-Assad. His son and successor, Bashar al-Assad, brought the war back in 2011 when he violently repressed peaceful demonstrators demanding political reforms.

Since then, Syria is engulfed in an all-out armed conflict entangling internal and external forces. The country is totally destroyed. A new regional map has been drawn.

At least 13.5 million Syrians need humanitarian assistance, 4.9 million are refugees and 6.3 million are internally displaced, according to the UNHCR. Half of those affected are children.

Talal Darwish tries to explain the perilous sea journey from Turkey to Greece, their last refuge before embarking to Portugal © Marisol González

Talal Darwish tries to explain the family’s perilous sea journey from Turkey to Greece
© Marisol González

“I was a farmer,” says Talal, his words translated from Arabic by Ben Salem Khalifa, a Tunisian businessman who settled in Nazaré and volunteered to assist his new friend.

“We had a normal life until it became unbearable. It was impossible to live under constant aerial strikes, bombs and bullets. Innocent people were being arrested at their homes and schools. The streets were full of bodies. For two years we ran from one place to another looking for shelter. One day I said enough is enough.”

They left with minimal belongings – the clothes they were wearing, a few carpets, pillows, some cash and a cellphone. “Only our lives mattered.”

It took them four days to reach the border with Turkey. Here, they shared a house with 20 other people. Until 2016, Talal, his 32-year old wife Mushira and their eldest son, 13-year old Saddam, worked in olive orchards. They saved money for a bigger dream.

After two more kids were born in the neighboring country, the Darwish family tried to enter Europe. “We paid $4,000 dollars to a smuggler to take us to Greece,” recalls Talal.

“It was a wild ride in several rubber dinghies, each one carrying 70 to 80 passengers. The sea was very rough. At least three people disappeared. We were rescued by the coast guard before reaching the shore.”

Three of the seven children of the Darwish family playing in their room in the community center: the people of Nazareth were very generous in their donations © Marisol González

Three of the Darwish family’s seven children play in their room at the community center: people of Nazareth welcomed the Syrian neighbours with generous donations
© Marisol González

They were fortunate. According to the International Organization for Migration (IOM), more than 3,770 migrants and refugees were reported to have died trying to cross the Mediterranean in 2015. Of those, more than 800 died in the Aegean crossing from Turkey to Greece. The Darwishes planned to join other relatives in Germany but accepted to be transferred to Portugal.

“We are grateful,” says Mushira, gently embracing her 4-month old baby Fatima, while calming down three other daughters – 5-year old Raghad, 3-year old Shahad and 2-year old Rimas – demanding her attention.

“We will stay in Portugal until the war ends. Afterwards we will return to Syria.”

Confraria da Nazaré decided to register as one of the host institutions of the Refugee Support Platform (PAR) in September 2015, after Pope Francis called on “every parish, religious community, monastery and sanctuary” to take in one refugee family.

“Tens of thousands of refugees, fleeing death in conflict, are on a journey of hope,” the Pontiff said in front of a crowd in St. Peter’s Square in Rome. “The Gospel calls us to be close to the smallest and to those who have been abandoned.”

In April, the Bishop of Rome put his words into action. After a visit to the Greek island of Lesbos, he took on his plane three families of refugees from Syria. The 12 people, six of them children, were housed by the Saint Egidio religious community in Rome.

Those families had been chosen out of some 3,000 people at a detention camp “simply because their paperwork was sufficiently in order to conclude a rapid agreement on their transfer with the Greek and Italian governments,” Francis told reporters. “I didn’t make a choice between Christians and Muslims. All refugees are children of God.”

Books and toys to learn Portuguese: the children are now fluent in the new language © Marisol González

Books & toys to better learn Portuguese: the Darwish children fluently speak their new language
© Marisol González

Susana Zarro, public relations officer at Confraria da Nazaré, remembers the day she received a call from the Jesuit Refugee Service to pick up the Darwishes. They arrived at a military airport in Lisbon together with 60 other refugees. “When I saw them, looking so fragile, I said to myself: ‘I hope that you will come with us to Nazaré’. And so it was.”

Everything was ready to welcome the guests. A large room with five colorful beds, packed with toys and clothes, bicycles and some books, a white satin double bedroom with a baby crib, a sizeable kitchen where Mushira displays her cooking skills.

As part of the integration’s process, the family immediately entered Portuguese language classes. Mushira is rather fluent by now, able to easily communicate with Susana and the journalists visiting the center.

Saddam and his brothers Ali (8-year old) and Khaled (10-year old) spend the days in the primary school, the youngest sisters in the kindergarten. Talal is registered with the employment center.

The family is united in grief and joy. Children listen attentively to what their parents say, obeying every order. When Ali tries to break his Ramadan’s fast, after a day at the beach with school colleagues with no food restrictions, Talal tenderly encourages the son to be brave. They are survivors after all.

“We will accept whichever jobs we will get,” she says. “We just want to be close to our children”. © Marisol González

“We will accept whichever jobs we will get,” in Portugal, says Mushira Darwish. “We just want to be close to our children”
© Marisol González

Ben Khalifa, the Tunisian translator, is helping the new Syrian friends to fulfil their religious obligations. “Every Friday I drive them to a nearby mosque,” proudly said the pious Muslim whose late wife was Catholic.

At 5p.m., Talal’s cellphone interrupts our conversation. A muezzin calls for the third afternoon prayer. It was Ben who helped install the musical app.

The Darwishes are among more than 1,800,000 refugees who have been crossing into Europe since 2015. These are numbers estimated by Frontex, the European Union external border force that monitors the different migrant routes. The war in Syria is the biggest driver of migration.

For Europe, the arrival of thousands of refugees is a challenge but could also be a game changer. They will “create more jobs, increase demand for services and products, and fill gaps in European workforces – while their wages will help fund dwindling pensions pots and public finances”, according to an investigation quoted by The Guardian.

This report, “Refugees Work: A Humanitarian Investment That Yields Economic Dividends”, was released by the Tent Foundation, a non-government organization, and the Open Political Economy Network, a new think tank.

“The main misconception is that refugees are a burden, but that’s incorrect,” said one the editor of that report, Philippe Legrain, former economic adviser to the president of the European Commission.

“To put it simply, refugees who take jobs also create them. When they spend their wages, they boost demand for the people who produce goods and services they consume.”

The mobile phone helps the family to communicate with relatives back in Syria but also to listen to the adhaan, the call to the five daily Muslim prayers © Marisol González

The mobile phone helps the family to communicate with relatives back in Syria, but also to listen to the adhaan, the call to the daily Muslim prayers
© Marisol González

Refugees could solve a huge demographic problem in Europe as well. “By 2030 the working-age population is projected to shrink by a sixth (8.7 million people), while the old-age population will grow by more than a quarter (4.7 million),” writes Legrain. As such, “an influx of younger refugees could help care and pay for the increasing population of pensioners.”

In Nazaré, the Darwish family is ready for a solid commitment. Talal used to drive a tractor in Turkey. Mushira cooked for more than 70 people. “We will accept whichever jobs we will get,” she says. “We just want to be close to our children”.

If they were looking for a miraculous place they have found it. They live on the top of a cliff were, according to a legend, on the foggy morning of September 14, 1182, a man called Dom Fuas Roupinho was rescued by divine intervention.

He found himself on the edge of a rocky point suspended over the sea while chasing a deer. When he realized the danger that he was facing, he prayed to an image of Our Lady with the Enfant in a small grotto nearby.

“His horse suddenly stopped, saving the rider and his mount from a drop of more than 100 metres that would certainly have caused their death.”

The Darwish’s new house is close to the Chapel of Memory that Fuas Roupinho ordered to be built over the grotto and to the Sanctuary of Our Lady of Nazaré, where the image of the black Madonna, breastfeeding baby Jesus is venerated by devout pilgrims.

The end of one journey marks the beginning of another.

Sítio da Nazaré, the new refuge of Darwish family © Marisol González

Sítio da Nazaré, 100 km north of Lisbon, Portugal, is a “provisional home”, say Talal and Mushira Darwish. They don’t give up going back to Syria after the civil war
© Marisol González

2015: The year of all records

The war in Syria has been the biggest driver of immigration but the ongoing conflicts in Afghanistan, Iraq and Eritrea are also leading people to look for new lives elsewhere.

65.03 million people were refugees (21.3 million) or forcibly displaced in their own countries (40.8 million) – the first time that the threshold of 60 million has been crossed;

4.9 million refugees are Syrians, the largest group, followed by 2.7 million Afghans and 1.1 million Somalis;

6.9 million Colombians are the largest group of internally displaced people, followed by those from Syria (6.6 million) and Iraq (4.4 million). The biggest producer of new internal displacement was Yemen – 2.5 million people, or 9% of its population;

51% of the world’s refugees are children – many were separated from their parents or travelled alone;

1 in every 113 people of the Earth’s 7.349 billion population is now either an asylum-seeker, internally displaced or a refugee;

1,000,73 reached Europe, across the Mediterranean – much more than the 280,000 the year before. Of these, 3,770 were missing, believed drowned in 2015. The death toll in 2016 (until last May) was 2,500;

3.2 million await decisions on asylum – the largest total recorded. Children represent 98,400 asylum requests – the highest total the UN refugee agency has seen;

Source: United Nations High Commissioner for Refuges (UNHCR)

"Rebel resistance in the Syrian city of Aleppo ended on Tuesday, December 13, 2016, after years of fighting and months of bitter siege and bombardment that culminated in a bloody retreat, as insurgents agreed to withdraw in a ceasefire", Reuters agency reported. "[It was a] victory for Syrian President Bashar al-Assad and his military coalition of Russia, Iran and regional Shi'ite militias. However, the war will still be far from over, with insurgents retaining major strongholds elsewhere in Syria, and the jihadist Islamic State group holding swathes of the east and recapturing the ancient city of Palmyra" © The New York Times

“Rebel resistance in the Syrian city of Aleppo ended on Tuesday, December 13, 2016, after years of fighting and months of bitter siege and bombardment that culminated in a bloody retreat, as insurgents agreed to withdraw in a ceasefire”, Reuters agency reported. “[It was a] victory for Syrian President Bashar al-Assad and his military coalition of Russia, Iran and regional Shi’ite militias. However, the war is far from over”
© The New York Times

This article, now updated, was originally published in the WORLD MISSION magazine (Manila, Philippines), September 2016 edition

Os refugiados que entraram na história olímpica

Popole Misenga e Yolande Mabika são sobreviventes de um dos conflitos africanos mais mortíferos. A guerra roubou-lhes quase tudo. A Cáritas ajudou-os na procura da dignidade. O judo fez deles “símbolos de esperança”. (Ler mais | Read more…)

Popole Misenga e Yolande, atletas da República Democrática do Congo que encontraram um lugar para os seus sonhos no Brasil © ACNUR

Popole Misenga e Yolande, atletas da República Democrática do Congo que encontraram um lugar para os seus sonhos no Brasil
© ACNUR

A “Guerra Mundial de África”, conflito em que se envolveram 9 países e causou quase 6 milhões de mortos, entre 1998 e 2003, na República Democrática do Congo, ainda atormenta Yolande Mabika e Popole Misenga. Mas, agora, mais do que nunca, é no tapete de judo que estes atletas da primeira equipa olímpica de refugiados travam os combates das suas vidas.

Foi no tatâmi que, nos últimos três anos, aprenderam a perder. E esta lição foi importante porque, até entrarem no Instituto Reação, no Rio de Janeiro, depois de conseguirem asilo no Brasil, em 2013, Yolande e Popole não estavam “programados” para derrotas.

“O espírito deles era vencer, vencer”, conta o mestre Geraldo Bernardes, escolhido pelo Comité Olímpico Internacional para ajudar Yolande e Popole a lutarem pelo sonho disputar os Jogos que decorreram de 5 a 21 de Agosto.

“Nos treinos com meus outros atletas, havia mais porrada do que fair play. O clima se tornou hostil até eu perceber e explicar o que se passava. Quando perdiam, lá no Congo, eram maltratados. Os colocavam numa jaula e eles passavam muita fome.”

strutura de treinamento Yolande Mabika no Instituto Reação, que lhe abriu as portas aos Olímpicos do Rio © Miriam Jeske | Brasil2016.gov.br

Yolande Mabika no Instituto Reação, que lhe abriu as portas aos Olímpicos do Rio
© Miriam Jeske | Brasil2016.gov.br

A primeira grande prova de Yolande, 28 anos, e Popole, de 24, depois da festa da inauguração dos Jogos, quando toda a equipa de refugiados foi aplaudida de pé no Estádio do Maracanã, estava marcada para quarta-feira, 10 de Agosto. Ela tinha pela frente a israelita Linda Bolder e ele o indiano Avtar Singh.

Mais afortunado do que Yolande, que sofreu um ippon a um minuto e 3 segundos da luta, Popole afastou Singh para enfrentar o sul-coreano Donghan Gwak, campeão mundial. As palmas e palavras de encorajamento dos espectadores na Arena Carioca 2 alentaram o jovem congolês. Ele aguentou durante 4 minutos e um segundo, tempo insuficiente para chegar ao pódio.

No passado recente, Popole seria duramente castigado pelo revés. Mas não foi essa a atitude de Geraldo Bernardes, o treinador que ele trata por pai e o ajudou a reencontrar “os valores do judo: disciplina, coragem, respeito, determinação e superação”.

“Saio muito feliz”, disse Popole aos jornalistas, após uma prestação descrita como excelente pelo mentor. “Lutei até ao fim contra um campeão do mundo. Nunca pensei chegar até aqui, e isto ficará registado na história dos Jogos Olímpicos do Rio. Vou continuar a treinar para ser também um campeão.”

Yolande também reagiu sem tristeza: “Não vou esquecer até morrer. Me senti brasileira, porque o Brasil inteiro me apoiou.”

Popole Misenga foi um dos atletas refugiados com melhor classificação nos Jogos Olímpicos Rio 2016 © Miriam Jeske | Brasil2016.gov.br

Popole Misenga foi um dos atletas refugiados com melhor classificação nos Jogos do Rio
© Miriam Jeske | Brasil2016.gov.br

Nascidos no antigo Zaire, deslocados como mais de dois milhões de compatriotas, Yolande e Popole integraram uma equipa de dez atletas de quatro países formada pelo COI para ser “símbolo de esperança” para os 65,3 milhões de pessoas que fogem de guerras e perseguições.

Representados pela bandeira e hino do COI, tal como os nadadores sírios Rami Anise e Yusra Mardini, o maratonista etíope Yonas Kinde e os corredores sul-sudaneses Anjelina Nada Lohalith, James Nyang Chiengjiek, Paulo Amotun Lokoro, Rose Nathike Lokonyen, Yech Pur Biel, os judocas congoleses desfilaram no Estádio Maracanã com o sorriso de quem esperava mais do que medalhas.

“Seria bom os jogos ajudarem a reencontrar minha família”, disse-me Yolande, antes da competição. “Me sinto tão sozinha.” Popole estava doente no dia em que falámos, por telefone, com a colega e o treinador. Também ele prometeu “fazer bonito” pelos parentes e amigos de quem tem saudades.

“Nasci em Kinshasa [a capital da RDC] mas depois me mudei para Bukavu”, conta Yolande. Foi nesta localidade, a mais flagelada pelo conflito, que perdeu o contacto com o pai, a mãe e os quatro irmãos. Era 1998. Ela tinha 10 anos. “Cheguei da escola, troquei de roupa e nunca mais os vi. Caíram bombas. Só vi mortos e feridos nas ruas.”

Resgatada pelas tropas congolesas, Yolande regressou num avião militar a Kinshasa. Aqui, num centro de acolhimento de deslocados, a maioria crianças desacompanhadas, começou as aulas de judo, que “foram defesa e sobrevivência”.

Yolande Mabika no dia em que competiu frente à israelita Linda Bolder © nbcolympic.com

Yolande Mabika no dia em que competiu frente à israelita Linda Bolder
© nbcolympic.com

Popole, que escapou de Kisangani, aos 6 anos, depois de presenciar o assassínio da mãe, também vivia em Bukavu, onde rebeldes faziam dos meninos soldados e das meninas escravas sexuais. Perdeu-se na floresta durante 8 dias e perdeu os 3 irmãos, até o levarem, de barco, para Kinshasa, onde conheceu Yolande. Tinha então 9 anos, e o judo também o salvou.

Tornou-se campeão nacional. Em 2010, ganhou uma medalha de bronze no Campeonato Africano de Sub-20. Em 2013, ele e Yolande foram convocados para o Campeonato Mundial no Rio.

“O horror parecia não ter fim”, disse ela, o português titubeante apesar de aulas duas vezes por semana. “Os técnicos da nossa delegação confiscaram passaportes e nos fecharam em um hotel. Sem dinheiro e sem comida. Não apareceram durante dois dias. Passámos fome. Eu desisti. Já tinha sofrido muito.”

“Dormi na rua e bati em todas as portas, procurando ajuda. Uma angolana me ofereceu sua casa numa favela, na Cidade Alta, onde há muitos africanos. Achei bem ir buscar Popole.”

No primeiro dia da competição, ele ainda vestiu um quimono emprestado e foi à luta. Sucumbiu à fraqueza, foi desqualificado e castigado. Os dois amigos decidiram ficar na Cidade Maravilhosa.

“Foi duro”, recordou Yolande. “O morro era muito violento, com polícias enfrentando traficantes. A guerra voltava sempre nos pesadelos. Felizmente, graças a um dinheirinho que o Comité Olímpico nos deu, já estou morando em um lugar melhor. Aluguei casa no Bom Sucesso, outra comunidade. Me sinto respeitada. Já não tenho mais vergonha de ser refugiada.”

Popole Misenga venceu o indiano Avtar Singh mas seria, logo a seguir, derrotado pelo sul-coreano Donghan Gwak, campeão mundial © Getty Images

Popole Misenga (dir.) venceu o indiano Avtar Singh (na foto) mas seria, logo a seguir, derrotado pelo sul-coreano Donghan Gwak, campeão mundial
© Getty Images

A maior ajuda foi dada pela Cáritas, que assiste e protege os que pedem asilo, em colaboração com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR).

Foi a instituição ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil que encaminhou Yolande e Popole para o Instituto Reação. Para chegarem aqui, demoram duas a três horas, apanhando vários autocarros. Treinam de segunda a sábado, uma média de cinco horas por dia.

Ao contrário de Yolande, Popole ainda habita o mesmo bairro, Brás de Pina. Casou-se com uma brasileira e ambos têm um filho. Sente-se integrado (“Agradeço a Deus, ao acordar, por sobreviver mais um dia.”) e não tenciona voltar ao Congo, país que dá ao Brasil o maior número de refugiados: 8500, dos quais 900.

Assusta a violência no estado do Rio de Janeiro onde vivem 900 daqueles refugiados. O Instituto de Segurança Pública registou um total de “17 mortos por dia”, um total de 2508, entre Janeiro e Maio de 2016. Apesar do aumento no número de homicídios, Yolande e Popole sentem-se mais seguros aqui do que na terra-natal.

Na RDC, terceiro país mais pobre do mundo apesar de ter os principais recursos naturais (ouro, estanho, tungsténio, coltan), a esperança de vida é de 48 anos para os homens e 51 para as mulheres.

Um acordo de paz foi firmado em 2002, mas a estabilidade permanece ilusória. Para perpetuar o poder herdado do pai em 2001, o Presidente, Joseph Kabila, tem recorrido a detenções arbitrárias de figuras da oposição. No leste, dezenas de grupos armados, alguns deles do Ruanda, que cobiça as riquezas do vizinho, continuam activos e acusados de crimes de guerra.

“Até os nossos militares só sabem fazer uma coisa: matar”, lamentou Popole Misenga, em declarações ao diário britânico The Guardian. “Vi demasiada guerra, demasiadas mortes. Quero manter-me puro para o meu desporto.”

Popole Misenga, Yolande Mabika e o treinador de ambos, Geraldo Bernardes, no Instituto Reação © Thierry Gozzer | O Gobo

Popole Misenga, Yolande Mabika e o treinador Geraldo Bernardes, no Instituto Reação
© Thierry Gozzer | O Gobo

A equipa olímpica de refugiados no dia da inauguração dos Jogos do Rio, no Estádio do Maracanã © AP

A equipa olímpica de refugiados na inauguração dos Jogos do Rio, em 5 de Agosto de 2016, no Estádio do Maracanã
© AP

Este artigo foi publicado originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Setembro de 2016 | This article was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, September 2016 edition

Geraldo Bernardes: Mais do que um treinador de “pobrinhos”

O mestre do Instituto Reação poderia ganhar a vida dando aulas de judo para uma elite. Preferiu investir nos mais desfavorecidos. Como Rafaela Silva, da Cidade de Deus, que ganhou uma medalha de ouro nos Jogos do Rio. E como Popole Misenga e Yolande Mabika, dois congoleses da primeira equipa olímpica de refugiados. (Ler mais | Read more…)

Geraldo Bernardes, o mestre que deu glória ao judo brasileiro © Pedro Kiriles | O Globo

Geraldo Bernardes, o mestre que deu glória ao judo brasileiro
© Pedro Kiriles | O Globo

Os treinos de judo de Geraldo Bernardes começaram quando tinha 15 anos, às escondidas do pai. Era, como ele diz, “um adolescente brigão”, e lutar, naquela época, “era visto como coisa de marginal”.

Só em 1972 a família teve conhecimento desta sua paixão ao verem-no num programa de televisão. Geraldo Bernardes já era casado e “campeão carioca”.

Em 1979, foi convidado para ser um dos técnicos da selecção brasileira. Ofereceria ao país seis medalhas olímpicas, em Seul, Barcelona, Atlanta e Sydney.

A mais recente glória na sua carreira é Rafaela Silva, a judoca da Cidade de Deus que ele acompanha desde os 8 anos e que conquistou a medalha de ouro nos Jogos do Rio depois de ter sido campeã do mundo.

Nesta entrevista, por telefone, o técnico de 73 anos enaltece a “vitória da superação” da jovem que foi vítima dos piores abusos racistas quando foi desclassificada em Londres, em 2012. E exulta com uma nova missão: lapidar dois outros “diamantes brutos”, os congoleses Popole Misenga e Yolande Mabika, atletas da primeira equipa olímpica de refugiados.

Quando criticam Geraldo Bernardes por ter trocado a “elite” pelos “pobrinhos”, ele responde: “Sempre acreditei nos atletas que vêm das comunidades. O desporto de alto rendimento é sacrifício. E eles estão acostumados a dar tudo de si.” Tóquio 2020 já está no horizonte de todos os que, no tatâmi (tapete), seguem as instruções do sensei.

 Rafaela Silva e o treinador Geraldo Bernardes, que a ajudou a ser campeã olímpica © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Rafaela Silva e o treinador Geraldo Bernardes, que a ajudou a ser campeã olímpica

Parabéns pela vitória de Rafaela Silva.

Têm sido dias muito cansativos, mas estou muito contente. Para mim, esta é uma vitória da superação de Rafaela. Em 2012, em Londres, ela perdeu a medalha, foi desclassificada. Em 2013, aqui no Rio de Janeiro, foi campeã do mundo. E agora, novamente no Rio, conseguiu ganhar a medalha de ouro. Poucas pessoas conseguiram esse feito.

Ainda é treinador dela?

Sim, ela continua sendo minha aluna desde os 8 anos de idade. Não fui o único a treiná-la para estes jogos. Há uma equipa pluridisciplinar, que inclui preparador físico, nutricionista, psicóloga… mais ou menos 15 pessoas. Porque uma atleta de nível olímpico, que treina 6 horas por dia, toda a semana, precisa mais do que um técnico.

Como foi que ela começou a treinar consigo?

Começou em 2000, quando abandonei a selecção brasileira e fundei o projecto social Judô Comunitário Geraldo Bernardes Body Planet. Flavio Canto [medalhista de bronze em Atenas-2004], que também era meu aluno, tinha seu projecto na Rocinha [a maior favela do Brasil], e Eduardo Macedo Soares, que também era meu aluno, tinha outro projecto, na Pequena Cruzada, na Gávea.

Em 2033, nos juntámos. Estávamos trabalhando na mesma direcção e fundámos o Instituto Reação, ONG que hoje tem cinco pólos e mais de 1200 alunos, crianças a partir dos 4 anos, adolescentes e jovens.

Geraldo Bernardes é um dos fundadores do Instituto Reação, projecto de inserção social através do desporto © Jornal Tipo Carioca

Geraldo Bernardes ajudou a fundar o Instituto Reação, projecto de inserção social através do judo
© Jornal Tipo Carioca

Como é que Rafaela Silva chamou a sua atenção?

Ela vinha da Cidade de Deus, uma comunidade carente, muito pobre. Os seus pais a levaram à academia onde eu treinava, porque ela não obedecia ninguém. Eles queriam que ela se afastasse de um ambiente de violência, droga, tiroteio entre traficante e polícia.

A agressividade dela era muito boa para o judo. Ela pulava muro, soltava pipa [papagaio de papel], jogava à bola nas ruas. Tinha aquele jeito de “a bola é minha e ninguém chuta”. Sua coordenação é muito boa. Sua atitude é de grande valor.

Se todas as qualidades fossem canalizadas para o judo, eu sabia que tinha na mão um diamante bruto, precisando ser lapidado. Era ela e Raquel, sua irmã, na altura com 11 anos.

Um dia, eu disse que as colocaria na selecção brasileira. Elas nunca tinham ouvido falar de selecção. Com o tempo, foram entendendo. Foram crescendo. Começaram por entrar na selecção de base, depois na de sub-15, sub-18, sub-21 e, finalmente, na selecção principal.

Rafaela foi campeã pan-americana. Foi campeã mundial júnior sub-21. Foi campeã mundial sénior e, agora, aos 24 anos, foi campeã olímpica.

O momento mais difícil, para Rafaela, foi a sua primeira olimpíada, Londres-2012, quando foi impedida de subir ao pódio…

Sim, depois da desclassificação devido a um golpe que a arbitragem considerou ilegal, ela chorou, admitiu o erro e lamentou ter sido eliminada. Foi muito xingada nas redes sociais. A chamaram de “macaca”. Escreveram que era “uma vergonha para a família”.

Rafaela quis desistir. Entrou em depressão. Mas houve uma menina psicóloga, Nell Salgado, que fez a cabeça dela, mais os parentes, amigos e eu. Todos nos unimos para que não abandonasse o judo.

Um tempo depois, em 2013, ela foi campeã mundial, aqui no Rio. Recuperou a confiança. E agora ganhou de novo. A luta final foi muito difícil, mas ela provou que estava preparada.

Popole Misenga, atleta olímpico congolês e o treinador que nele deposita muitas esperanças ©Orlando Barria | EFE

Popole Misenga, atleta olímpico congolês, e o treinador que nele deposita muitas esperanças
© Orlando Barria | EFE

Em 2013, quando Rafaela foi campeã do mundo, Popole e Yolande, os atletas congoleses da primeira equipa olímpica de refugiados que o senhor também treina, pediram asilo no Brasil e pensaram desistir das suas carreiras. Como foi ver Popole ganhar o primeiro combate?

Foi muito bom! Porque ele tinha poucos meses e não muitos anos de treino. Depois desse combate com o indiano [Avtar Singh], Popole deveria lutar com o sul-coreano que é o actual campeão mundial [Donghan Gwak]. Perdeu faltando 59 segundos, numa luta empatada.

Para a primeira vez que entrou no tatâmi, porque há muito tempo que não sabia o que era uma competição, ele foi excelente. Ainda que derrotado pelo coreano, Popole foi ovacionado por todo o mundo. E não porque as pessoas estavam com pena dele, por ser refugiado, mas pela qualidade que demonstrou.

Popole já ganhou sua medalha, a medalha social, que é a da transformação pessoal. Eu também ganhei uma medalha, por ter ajudado uma pessoa que tanto precisava de ajuda. Yolande não teve tanta sorte. Perdeu sua primeira luta. Mas o que interessa não é ganhar medalhas. Eles não são mais prisioneiros. Não são escravos, como eram antigamente.

O espírito que nos foi passado por Pierre de Coubertin é o de que a Olimpíada serve para promover a paz e a união. O mais importante não é o triunfo, mas o combate. Não é vencer, mas lutar bem. Popole e Yolande ganharam essa consciência. Vivem um momento diferente, em que o mais importante é querer o melhor para nós e para os outros.

Geraldo Bernardes supervisiona um treino da atleta olímpica congolesa Yolande Mabika, de preparação para os Jogos do Rio © International Olympic Committee Newsroom

Geraldo Bernardes supervisiona um treino da atleta olímpica congolesa Yolande Mabika, de preparação para os Jogos do Rio
© International Olympic Committee Newsroom

Este artigo foi publicado originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Setembro de 2016 | This article was originally published in the Portuguese news magazine “ALÉM-MAR, September 2016 edition