O “crime” de ser bahá’í está a ser pago na cadeia

Os sete líderes da maior minoria religiosa iraniana estão presos há mais de um ano sem julgamento. Algumas acusações podem condená-los à morte, mas o Governo de Teerão sabe que eles são inocentes. (Ler mais | Read more…)

Dia de oração no antigo Centro Bahá'í em Lisboa: uma religião olhada com suspeita pela PIDE mas reconhecida, em Portugal, oficialmente, depois da revolução de 25 de Abril de 1974. @ NUNO FERREIRA SANTOS

Encontro de fiéis no antigo Centro Bahá’í em Lisboa: uma religião olhada com suspeita pela PIDE, a antiga polícia secreta, mas reconhecida oficialmente, em Portugal, depois da revolução de 25 de Abril de 1974
© Nuno Ferreira Santos

Às 3h30 de 14 de Maio de 2008, agentes secretos chegaram a casa de Fariba Kamalabadi, em Teerão. Traziam um mandado de busca. Demoraram três a quatro horas a revistar tudo. Detiveram-na e confiscaram vários objectos, desde computadores a fotos da família.

Iraj Kamalabadi, um dos cinco irmãos, que vive na Califórnia, denuncia: “Foi um plano concertado para deter todos os líderes bahá’is. As suas moradias foram invadidas à mesma hora.”

A psicóloga Fariba, de 46 anos, foi levada para a prisão de Evin no mesmo dia que o empresário Jamaloddin Khanjani, de 75, o industrial Afif Naemi, de 47, o engenheiro agrícola Saeeid Rezaie, de 51, o antigo assistente social Behrouz Tavakkoli, de 57, e o optometrista Vahid Tizfahm, de 37.

A professora Mahvash Sabet, de 55, já tinha sido presa a 5 de Março de 2008, em Mashhad, para onde fora convocada pelo Ministério dos Serviços Secretos, sob o pretexto de responder sobre um funeral no cemitério bahá’i.

Depois de meses de isolamento, só muito recentemente os sete dirigentes da maior minoria religiosa do Irão ficaram a conhecer acusações formais: “espionagem a favor de Israel, insulto a santidades religiosas, propaganda contra a República Islâmica e corrupção na Terra”. Iraj Kamalabadi, numa entrevista, por telefone, não se conforma: “Eles são inocentes e só estão presos por serem bahá’is”.

A lei prevê a pena de morte para espionagem e “corrupção na Terra”, mas o Centro de Defesa dos Direitos Humanos do Irão, cuja presidente, a Prémio Nobel da Paz Shirin Ebadi, integra a equipa de advogados, garante que não há provas para os condenar e recomenda que o julgamento, marcado para 18 de Outubro, após vários adiamentos, seja aberto ao público.

Iraj confia em que as pressões internacionais salvem a sua irmã e os outros do fim que tiveram, depois da revolução islâmica de 1979, as primeiras assembleias espirituais nacionais bahá’is no Irão – conselhos consultivos de nove membros eleitos pelos crentes e que regem a vida de uma comunidade sem clero.

Em 21 de Agosto de 1980, os nove foram raptados. “Nunca mais ninguém os viu, estarão mortos”, afirma o consultor que, em 1977, foi estudar para Boston e não mais pôde regressar a casa.

A 27 de Dezembro de 1981, na segunda assembleia, só um dos nove sobreviveu ao pelotão de fuzilamento. Em 1984, da terceira assembleia, quatro dos nove foram executados.

“Em meados dos anos 1980, o Governo decretou que as assembleias espirituais deviam ser dissolvidas”, conta Iraj. “Como os Bahá’is são obedientes às leis dos países onde vivem, a comunidade dissolveu as suas instituições. Foi então criada, com consentimento das autoridades, uma associação informal, os Yaran [em persa, significa “Amigos que ajudam”], que administra as necessidades básicas dos Bahá’is.” Os sete detidos em Março e em Maio eram os líderes Yaran.

Os sete líderes bahá’ís na prisão desde a Primavera de 2008. Da esquerda para a direita: Afif Naeimi, Vahid Tizfahm, Mahvash Sabet, Jamaloddin Khanjani, Fariba Kamalabadi, Saeid Rezaie e Behrouz Tavakkoli, @Iran Press Watch

Os sete líderes bahá’ís presos em 2008. Da esquerda para a direita: Afif Naeimi, Vahid Tizfahm, Mahvash Sabet, Jamaloddin Khanjani, Fariba Kamalabadi, Saeid Rezaie e Behrouz Tavakkoli
© Iran Press Watch

A perseguição não é novidade para Fariba Kamalabadi, mãe de três filhos que sonhava ser médica mas que, tal como todos os bahá’is, em 30 anos de revolução, não pôde entrar na universidade. “É a terceira vez que é detida”, refere Iraj.

“A primeira foi há cinco anos; a segunda há três anos e meio. Também o nosso pai esteve na prisão. Levaram-no de pijama. Severamente torturado, morreu pouco depois de ser libertado, com problemas cardíacos agravados pelos maus tratos.”

Iraj acredita que a sua irmã não esteja a ser molestada fisicamente, mas alerta para a degradação das condições em que ela e os outros seis líderes se encontram.

“Nos primeiros meses de isolamento, foram submetidos a duros interrogatórios”, conta. “As celas não têm ventilação, nem luz natural. Deram-lhes um cobertor e uma almofada. A comida é horrível, e as porções têm vindo a ser gradualmente reduzidas. Os utensílios onde os alimentos são cozinhados e servidos não são lavados. Até o pão é bolorento.”

Desde os protestos contra os resultados das eleições presidenciais de Junho, adianta Iraj, as celas “ficaram sobrelotadas com novos presos. Muitos contraíram doenças. A minha irmã estava a tomar medicamentos para o colesterol e batimentos cardíacos irregulares. Na prisão, não lhe permitem tratar-se.”

“Está gravemente doente. Quando a minha mãe foi autorizada a visitá-la, há três meses – pela primeira vez – não reconheceu a própria filha: só pele e osso. Todos sofrem de má nutrição. A pele revela os sintomas de não estar exposta ao sol. Porque a maior parte do tempo é passada a dormir ou sentados no chão, têm problemas de ossos.”

O atleta olímpico Nelson Évora é um dos bahá'ís mais famosos em Portugal. A sua caminhada religiosa e carreira desportiva foram muito influenciadas pelo seu treinador e grande amigo, João Ganço. @NUNO FERREIRA SANTOS

O atleta olímpico Nelson Évora é um dos bahá’ís mais famosos em Portugal. A sua caminhada religiosa foi muito influenciada pelo treinador João Ganço
© Nuno Ferreira Santos

No meio da adversidade, Fariba conseguiu um pequeno milagre. “Um dia, quando se aproximava o 14.º aniversário da filha mais nova [Taraneh Taefi], não encontrando nada para lhe dar de presente, reparou que na refeição vinha uma cenoura podre”, conta Iraj.

“Notou que na base da cenoura havia raízes a rebentar. Embrulhou-a em papel humedecido em água, e os rebentos começaram a crescer, mesmo sem luz solar. Quando a família a foi visitar, ela ofereceu a cenoura à filha como prenda de anos. Foi um momento muito comovente.”

Iraj repete que não há qualquer justificação para os sete líderes dos Yaran não serem libertados. As autoridades “sabem que as acusações são falsas, mas infligem dor devido a uma profunda hostilidade face aos bahá’is.”

Apesar de tudo, sente-se encorajado com as mudanças de mentalidade que a sociedade tem demonstrado. “Em Fevereiro [de 2009], um grupo de académicos, escritores, jornalistas, artistas, activista iranianos publicou uma carta aberta intitulada Nós temos vergonha. Num gesto sem precedentes, reconheceram ter ignorado, desde há 150 anos, o sofrimento dos Bahá’is.”

Inquirida sobre as expectativas em relação às próximas negociações do Irão com o grupo 5+1 (EUA, Reino Unido, França, Rússia, China e Alemanha), Diane Ala’i, representante da Comunidade Bahá’i Internacional na ONU, em Genebra, diz-nos que só tem um pedido: “Ponham os direitos humanos na agenda e não os sacrifiquem em nome de outros interesses.”

Bahais Photo 4

Numa cerimónia pública nos EUA, a jornalista Roxana Saberi, que esteve presa no Irão sob a acusação de espionagem, exibe uma pulseira e uma bolsa, confeccionadas e oferecidas pelas companheiras de cela Fariba Kamalabadi e Mahvash Sabet, líderes da comunidade bahá’í, que permanecem na cadeia de Evin, em Teerão
© Roxana Saberi

O namorado de Roxana Saberi fazia anos a 31 de Janeiro. A sua “rapariga iraniana, de olhos japoneses e nacionalidade americana”, faltou à promessa de saírem juntos porque, este ano, entrou nesse dia na penitenciária de Evin, em Teerão.

E foi aqui, numa cela da “secção 209”, reservada aos prisioneiros de consciência, que ela conheceu Mahvash Sabet e Fariba Kamalabadi, duas líderes da comunidade bahá’i detidas desde Março e Maio de 2008, respectivamente.

“Mahvash esteve em isolamento durante os primeiros seis meses e Fariba durante quatro”, relata Saberi numa entrevista que aceitou dar-nos, por e-mail, depois de deixar claro que não falaria da sua própria experiência [na altura estava a preparar o livro com as memórias do seu cárcere]. Pela sua vívida descrição, não é difícil, porém, perceber que as condições a que foi submetida até à libertação, a 11 de Maio, não foram muito diferentes.

“A cela em Evin tem dois por três metros”, precisou Saberi. “Junto ao tecto havia duas pequenas janelas fechadas, cobertas por placas metálicas com buracos. Uma luz intensa acesa, permanentemente. O chão de cimento estava coberto por um fino tapete castanho. Dorme-se em cobertores sobre o chão.”

“Havia uma bacia, mas, para usar a sanita ou o chuveiro, era preciso pressionar um botão na parede para chamar uma guarda que deixasse ir à casa de banho. Nos primeiros meses, [Mahvash e Fariba] quase não tinham visitas da família. Não tinham caneta nem papel. Apenas os livros islâmicos permitidos pelas autoridades. Só vários meses depois tiveram acesso a outros livros e a um televisor.”

“Não fiquei com a sensação de que Mahvash e Fariba temessem a morte”, diz a filha do iraniano Reza e da japonesa Akiko. “Pelo contrário, estão dispostas a aceitar o que lhes for exigido para manter a sua fé e o bem-estar da comunidade bahá’i do Irão.”

“Acredito que terem fé e princípios ajuda a que se mantenham espiritual e psicologicamente fortes, apesar das pressões que lhes são impostas e das violações dos seus direitos básicos.”

Da secção 209, “muitas outras prisioneiras entraram e saíram, mas Mahvash e Fariba ficaram para trás”, lamenta Roxana, uma das que conseguiram sair quando o regime percebeu que a condenação internacional pela sua prisão o prejudicava.

Repórter freelance para vários jornais, rádios e cadeias de televisão desde que se mudara para Teerão em 2003, Roxana Saberi foi primeiro acusada de ter comprado uma garrafa de vinho e depois de trabalhar sem credenciais. Em Abril, surgiu a acusação de espionagem e a condenação a oito anos de cadeia.

A 11 de Maio, a sentença foi reduzida, após um recurso, para dois anos de pena suspensa. Quatro dias depois, deixaram-na partir para os EUA. Entre a primeira sentença e a libertação fez uma greve de fome de duas semanas, que terminou com o internamento numa clínica.

Roxana, de 32 anos, Miss Dakota 1997 e quase Miss América 1998, já estava há dez dias em Evin quando a deixaram contactar o pai. Foi o pai que informou o namorado, o cineasta Bahman Ghobadi, a quem ela mentira, num telefonema abruptamente interrompido, dizendo que faltara à sua festa de anos porque precisara de ir a Zahedan.

Ele, cujos filmes se vendem no mercado negro depois de banidos, seguiu-a até Zahedan, mas não a encontrou. Foi então que decidiu escrever uma carta aberta ao regime: Shame on you; shame on us.

Mais de 20 mil mortos em 150 anos

Abdu’l-Baha, líder da Comunidade Bahá’í entre 1892 e 1921, era filho de Baha’u'llah, venerado como “o mais recente Manifestante num processo de “revelação progressiva”. Alguns muçulmanos, xiitas e sunitas, consideram-no uma “figura herege” e perseguem os seus fiéis, porque o último profeta, para o Islão, é Maomé. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Abdu’l-Baha, líder da Comunidade Bahá’í entre 1892 e 1921, era filho de Baha’u’llah, venerado como “o mais recente Manifestante num processo de “revelação progressiva”. Alguns muçulmanos, xiitas e sunitas, consideram-no uma “figura herege” e perseguem os seus fiéis, porque o último profeta, para o Islão, é Maomé

Os Bahá’is são perseguidos no Irão desde que a sua religião foi fundada em 1844, mas a Revolução Islâmica de 1979 parece ter feito da extinção desta comunidade – cerca de 300 mil pessoas – um dos seus objectivos ideológicos, negando-lhe os mais básicos direitos de cidadania.

As perseguições começaram com Báb, o primeiro profeta, várias vezes preso até ser fuzilado, em 1850. O sucessor, Bahá’u’lláh, foi preso e forçado ao exílio: morreu na Palestina Otomana, em 1892. Para os muçulmanos xiitas do Irão, a ideia de que poderia haver “mensageiros de Deus” depois de Maomé era uma “heresia”.

Se os Bahá’is foram responsáveis por revoltas contra a dinastia Qajar, incluindo uma tentativa de assassínio do xá Nasir al-Din Shah, em 1852, com Bahá’u’lláh adoptaram uma filosofia de obediência e lealdade ao Governo. A nova religião continuou, porém, a ser vista como uma ameaça teológica (e política) ao xiismo.

De 1917 a 1979, sob o reinado do primeiro Xá Pahlavi, Reza Khan, os Bahá’is não eram autorizados a ter as suas escolas e os funcionários públicos foram despromovidos ou despedidos. Os casamentos dos Bahá’is não eram reconhecidos – os casais podiam ser presos por adultério e os filhos considerados “ilegítimos”.

Com a chegada ao poder do Ayatollah Khomeini, os Bahá’is foram acusados de “associação ao regime do xá, colaboração com a polícia secreta SAVAK, oposição à Revolução Islâmica e espionagem a favor de Israel.”

À acusação de serem “heréticos” e “inimigos do Islão”, os Bahá’is lembram que a sua fé é reconhecida como religião independente, até por juristas muçulmanos. Quanto a serem “agentes do sionismo”, insistem que ela se baseia no facto de o seu profeta, Bahá’u’lláh, estar sepultado no Monte Carmelo, onde morreu em exílio forçado – quando Israel ainda não existia -, e de a sede internacional (Casa Universal da Justiça) funcionar em Haifa.

Face à acusação de estarem “envolvidos em prostituição”, lembram que os seus rituais de casamento não são reconhecidos e por isso as mulheres bahá’is são tratadas, pelo Governo, como “prostitutas”. Quanto à acusação de “adultério e imoralidade”, vêem-na como a recusa em aceitar uma religião que defende a igualdade entre homens e mulheres e não aceita a segregação.

Desde a Revolução Islâmica de 1979, pelo menos 200 bahá’is foram mortos ou executados no Irão, elevando para mais de 20 mil as vítimas das perseguições iniciadas há 150 anos.

[Em 2008, os sete líderes foram libertados foram condenados a vinte anos de cadeia, e foram libertados em 2018, depois de cumprida uma década da sentença.]

Evin Prison’s Section 209 @Human Rights Activists in Iran)

A secção 209 da Prisão de Evin, onde estão detidos os líderes bahá’ís
© Human Rights Activists in Iran

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 20 de Setembro de 2009 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on September 20, 2009

Irão está interessado nos moldes portugueses

Um sector que exporta 90% do que produz pode ter encontrado mais um mercado, após uma primeira visita colectiva efectuada  em mais de 30 anos. (Ler mais | Read more…)

A Indústria Portuguesa de Moldes tinha em 2009 um total de 535 empresas, com mais de 8000 trabalhadores, concentradas nas regiões da Marinha Grande e Oliveira de Azeméis
© Ricardo Graça | Jornal de Leiria

A primeira missão colectiva da Indústria Portuguesa de Moldes ao Irão em mais de 30 anos levou a que várias empresas iranianas – incluindo os dois maiores construtores automóveis – considerassem pedir a alguns dos visitantes a cotação de novos projectos que depois serão avaliados em concurso.

“Algumas empresas portuguesas já estavam directa ou indirectamente a cotar projectos para empresas iranianas”, disse-nos Manuel Oliveira, secretário-geral da Associação Nacional da Indústria de Moldes (Cefamol), que promoveu a visita de 13 representantes do sector à República Islâmica, entre 3 e 10 deste mês [Setembro de 2009].

Agora, na avaliação do lançamento de novos produtos, há a expectativa de que outros potenciais clientes estabeleçam também eles contacto com as empresas nacionais.

Os 13 empresários portugueses que se deslocaram ao Irão para “conhecer a realidade do mercado, dar a conhecer os seus produtos e serviços, identificar e explorar oportunidades comerciais concretas”, estão convencidos de que “vale a pena apostar” neste país, declarou, por seu turno, Telmo Fernandes, da consultora Market Access, encarregada pela Cefamol de preparar a missão.

“O Irão tem potencial no médio e longo prazo de constituir um destino alternativo relevante das exportações.”

A comitiva, que incluiu representantes das empresas A. Silva Godinho, Geco, LN Moldes, Moldes RP, Moldit, Moldoplástico, Moldworld, Moliporex, Ribermold, SET, Socem, Tecmolde e Topo, visitou 20 empresas iranianas injectoras de plástico, que fabricam peças essencialmente para os sectores automóvel e da embalagem.

No final, notou Telmo Fernandes, os visitantes constataram “haver oportunidades de negócio concretas a explorar”, porque a indústria portuguesa “encontra-se bem posicionada para responder e apresentar soluções às necessidades iranianas, nomeadamente na procura de maior eficiência produtiva local”.

A indústria de moldes portuguesa tem interesse em negociar com os construtores automóveis Iran Khodro (na foto, um dos seus trabalhadores monta um Peugeot 206 numa fábrica estatal próxima de Teerão) e Saipa são os dois maiores grupos desta indústria que é a segunda maior da República Islâmica
© Ebrahim Noroozi | TIME

De particular interesse para os empresários portugueses serão os contactos estabelecidos com as sub-holdings responsáveis pelos fornecimentos e selecção de fornecedores do Iran Khodro e do Saipa.

Estes dois grupos são os maiores construtores automóveis do Irão. Juntos fabricaram, em 2008, cerca de um milhão de viaturas – uma subida de 10% face ao ano anterior. Esta indústria é a segunda maior do país, depois do petróleo e seus derivados, com um crescimento da ordem dos 25%.

Na competição com as empresas asiáticas de moldes, que, com baixos preços, também têm vindo a abordar o Irão, Manuel Oliveira, da Cefamol, destaca “o valor acrescentado da oferta portuguesa, a experiência no sector automóvel, a qualidade e a competitividade na relação custo/benefício”. Realçou o time-to-market e a capacidade de engenharia e produção nacional.

“O apoio à concepção e desenvolvimento de novos produtos e a capacidade de oferecer ciclos de produção mais rápidos, com maior quantidade de peças num menor espaço de tempo, permite diferenciar a nossa oferta da concorrência, sendo diferente o preço medido na compra com o preço medido pela produção originada”, explicou.

Não obstante os riscos que o Irão envolve – o regime permanece sob a ameaça de mais sanções internacionais que afugentam investidores estrangeiros -, a Market Access considera que este mercado pode “incrementar significativamente” o valor “até agora residual” das trocas comerciais com Portugal, em sectores tão diversos como os moldes, construção, petroquímica, mobiliário, utilidades domésticas, produtos alimentares e outros.

O atractivo da antiga Pérsia? É um país de 70 milhões de habitantes, com estimativas de crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB) de 2,9% em 2010, de 3,5 em 2011 e de 4,1 em 2012.

Para a Indústria Portuguesa de Moldes – 535 empresas com 8350 trabalhadores, concentradas nas regiões da Marinha Grande e Oliveira de Azeméis -, o Irão oferece a possibilidade de aumentar ainda mais as exportações, que, em 2008, atingiram 343 milhões de euros, ou seja, cerca de 90% do valor total da produção (377 milhões).

As sanções americanas ao Irão abalaram a economia da República Islâmica
© Essam al-Sudani | Reuters

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 19 de Setembro de 2009 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on September 19, 2009 

Shirin Ebadi: “As pessoas precisam de heróis que cuidem delas”

A mulher que, aos 23 anos, se tornou na primeira juíza do Irão não percebe por que o regime islâmico que a forçou a abandonar o cargo (só pode ser advogada) a colocou numa lista de alvos a abater. “Não sou líder da oposição, só quero mudar a sociedade”, diz a Prémio Nobel da Paz 2003. Em Lisboa, para lançar mais um livro, A Gaiola Dourada, falámos com ela.  (Ler mais | Read more…)

© Courrier international

Ela chega sem o hijab (lenço), “símbolo da mais ampla ausência de direitos das mulheres”, como escreveu nas suas memórias. E não vem de largo chador negro a ocultar as formas do corpo. Traz um fato justo, calças às riscas e casaco às flores, onde o verde – cor da “revolução de veludo” que abalou o Irão – sobressai, ainda que pálido, numa mistura de ocre e amarelo.

Shirin Ebadi, a advogada que em 2003 ganhou o Prémio Nobel da Paz, não esconde nada. Nem o bâton dos lábios, nem o cansaço de muitas horas de viagem e entrevistas para lançar, em Lisboa, a sua mais recente obra, A Gaiola de Ouro (Esfera dos Livros).

Sentada numa poltrona do bar de um hotel – sosseguem os radicais que ela só bebeu água com uma rodela de limão -, vai sorrindo, tímida, para o fotógrafo e, com a ajuda de uma tradutora, responde em farsi e voz poderosa, a perguntas em inglês.

Há apenas uma pergunta para a qual ela não tem resposta. “Não sei por que me querem matar”, diz-nos, quando inquirida sobre a descoberta que fez, no Outono de 2000, ao folhear os ficheiros da investigação criminal aos homicídios premeditados de vários intelectuais.

Na altura, narrou ela em O Amanhecer do Irão (Ed. Guerra e Paz), os seus olhos pousaram na transcrição de uma conversa entre o ministro dos Serviços Secretos e o membro de um esquadrão da morte.

A ordem tinha sido dada: “A próxima pessoa a morrer é Shirin Ebadi.” A única recomendação do ministro, apesar da insistência do mercenário em avançar, era a de que o crime não poderia ser cometido no mês sagrado em que os muçulmanos jejuam do nascer ao pôr do sol.

Tomada por um “avassalador sentimento de descrença”, a primeira juíza iraniana, impedida de exercer o cargo pela revolução islâmica que ela fervorosamente abraçou em 1979, interrogou-se: “Por que é que eles me odeiam tanto?”

“O que é que eu fiz para desencadear um ódio desta espécie? De que modo é que eu criei estes inimigos, de tal modo ansiosos por derramar o meu sangue que não podem sequer esperar que o Ramadão chegue ao fim?”

“Não sei por que me querem matar”, repete Ebadi. “Não estou a competir com eles politicamente, nem sou líder da oposição. Quando faço críticas, é para que o Governo entenda o que está mal e corrija os seus erros.”

“Estou muito surpreendida por me odiarem tanto, a ponto de desejarem a minha morte. E penso: ‘Se isto é o que querem para mim, o que farão com os verdadeiros rivais políticos?’ Eu apenas luto por uma sociedade melhor.”

© Bruce Gilbert | Columbia Law School

Não pensem, porém, que ela tem medo. “O medo é como a fome”, afirma, interrompendo um bocejo de fadiga, olhos melancólicos subitamente iluminados.

“Não se trata de uma questão de vontade. Não temos vontade de ter fome. Apenas temos fome. Não queremos ter medo. Apenas o sentimos. Depois de anos a enfrentar adversidade, aprendi a controlar as situações de perigo e de medo.”

“E aprendi a deixar de ter medo. Eles [no regime] tentam assustar-nos para deixarmos de fazer o nosso trabalho. Mas nós temos de fazer precisamente o contrário de tudo o que eles desejam.”

Ebadi não tem guarda-costas, porque no Irão não há segurança privada. “Tenho polícias que me espiam mais do que me protegem”, ri-se. “Ter ganho o Prémio Nobel obriga o Governo a pensar duas vezes antes de me fazer mal.”

Isso não quer dizer que ela não receba ameaças. Nem impediu que a sede do Centro dos Defensores dos Direitos Humanos em Teerão, de que é presidente, fosse vandalizada perante a complacência das autoridades.

Um dos advogados do centro, Abdolfattah Soltani, foi levado para a cadeia de Evin, sem culpa formada, após as manifestações contra a reeleição do Presidente, Mahmoud Ahmadinejad, em Junho. Uma das condições para ser libertado era deixar de trabalhar com Ebadi.

[Em 2012, um “tribunal revolucionário” condenou Soltani a 18 anos de prisão, sob a acusação de “difundir propaganda antigovernamental” e “pôr em perigo a segurança nacional ao receber um prémio ilegal” – referência ao Prémio Internacional Nuremberga. Proibiram-no também de exercer a sua profissão durante 20 anos. A Amnistia Internacional descreve-o como “prisioneiro de consciência” e “um defensores mais corajosos dos direitos humanos”.]

© Los Angeles Times

Evin é um lugar amargamente familiar para Ebadi. Em Junho de 2000, foi despejada aí, numa cela imunda, onde ficou em isolamento, depois de ter gravado a confissão de um miliciano envolvido na vaga de assassínios de dissidentes ordenada pelos ultraconservadores para prejudicar o então Presidente reformista, Mohammad Khatami.

Foi confundida, por guardas e reclusos, com uma prostituta, uma toxicodependente e uma estrela pornográfica. “Não passava pela cabeça de ninguém que uma mulher pudesse ser prisioneira de consciência!?”, escandalizou-se.

Em 1998, já o seu cunhado Fuad, de 17 anos, havia sido enforcado em Evin, onde cumpria uma pena de 20, por vender livros de propaganda da organização Mujahedin-e Khalq (Combatentes do Povo).

“Depois de executarem Fuad, recusaram dizer ao meu marido onde o enterraram”, conta Ebadi. “Teria de esperar pelo menos um ano. Até lá não poderia realizar um funeral. Não poderia contar a ninguém. Não poderia vestir-se de luto.”

“Ao fim de um ano, soubemos que ele estava na parte velha do cemitério [de Behest-e Zahra, em Teerão], onde já não sepultavam pessoas há uns 15 anos. Fizeram isto porque não queriam que se soubesse quantas pessoas ali foram depositadas.”

“Descobrimos que, numa semana, pelo menos 3000 tinham sido executadas. Foi muito doloroso. Fuad era um rapaz maravilhoso – e estava inocente. Este acontecimento e outros mudaram muito a minha vida.”

Fuad teve o fim de Javad, um dos protagonistas de A Gaiola de Ouro. Militante do extinto partido comunista Tudeh, foi executado em Evin, sob a acusação de traição, e lançado numa vala comum em Kharavan, o lugar reservado aos “apóstatas”.

Javad é irmão de Abbas, general do exército do Xá, e de Ali, discípulo do ayatollah Khomeini. Os destinos dos três irmãos são trágicos. E é Pari, a irmã e amiga de Ebadi, quem pede que a história destes homens seja conhecida.

“Através desta família eu quis contar uma parte da história do Irão”, justifica Ebadi. “A razão está na citação que faço do famoso sociólogo iraniano Ali Shariati: ‘Se não podeis eliminar a injustiça, pelo menos contai-a a todos.” Pari, a irmã e amiga, foi obrigada a trocar Teerão por Londres, depois de tantos desgostos e ataques pessoais.

Ebadi não coloca sequer essa possibilidade, e admite que os laços de amizade quase se extinguem com a distância. “Não, não deixarei o Irão, ainda que o meu trabalho fosse muito mais fácil num país democrático”, frisa. “Permiti que as minhas duas filhas fossem estudar para o estrangeiro, porque elas prometeram voltar.”

© François Mori | AP

Um dos casos judiciais que agora preocupam Ebadi é o de sete dirigentes bahá’ís – toda a liderança da maior minoria religiosa não muçulmana do Irão (300.000 fiéis) – que há mais de um ano estão detidos em Evin.

“Não fomos autorizados a vê-los e só há um mês nos deixaram ler os seus processos”, afirma a advogada, que se indigna com a perseguição a uma comunidade que nasceu na Pérsia há 150 anos e nunca deixou de ser perseguida, apesar de pregar a obediência ao governo e proibir a filiação partidária.

A religião é vista como uma heresia, por venerar Bahá’u’lláh, profeta posterior a Maomé, e ter o seu próprio livro sagrado, Kitáb-i-Aqdas, ainda que aceite o Corão e a Bíblia.

Também a olham como “conspiração sionista”, porque Bahá’u’lláh está sepultado no Monte Carmelo, em Israel (aconteceu assim porque ele morreu no exílio na Palestina otomana em 1892) e porque a sede internacional, Casa Universal da Justiça, funciona na cidade israelita de Haifa.

“Já consegui, finalmente, ver os processos e concluí que não há qualquer razão para estarem detidos”, vinca Ebadi. “Eles são acusados de espionagem e de atentar contra a segurança do Estado. Já são acusações formais. Mas não há qualquer prova! Segundo as leis do Irão, eles são inocentes!”

“Pedimos que o seu julgamento seja público, porque queremos que os iranianos vejam com os próprios olhos o que vai dizer a acusação, o que nós, advogados, vamos dizer e o que vai acontecer a estes bahá’is”, entusiasma-se Ebadi.

“Espero, sinceramente, que o julgamento [várias vezes adiado e agora protelado para 14 de Outubro] seja público, justo e livre. Para já, sabemos que as famílias já os podem visitar e que eles se encontram bem.”

Apesar de tudo, Shirin Ebadi está inquieta com a situação no Irão, de onde está ausente desde 11 de Junho. “Parti um dia antes das eleições, porque tinha vários compromissos, [já marcados há muito tempo].”

“As pessoas continuam os protestos, mas, infelizmente, o Governo também continua a reprimir violentamente as pessoas.”

“Muitos iranianos têm sido presos, torturados, violados, mortos. Pelo menos 72 mortes estão confirmadas oficialmente, mas temos a certeza de que o número é maior. Porquê? Porque o regime está a enterrar as suas vítimas sem as identificar.”

© The New York Times

“Há uma separação cada vez maior entre o povo e o Governo”, frisa Ebadi. “Quando o fosso se alarga, é inevitável que o Governo fique cada vez mais fraco. É certo que o Governo não foi derrubado, mas seguramente que ficou enfraquecido. Jamais esqueceremos a violência nas ruas.”

Sobre a decisão do [anterior] Presidente de incluir mulheres no seu Governo, pela primeira vez desde a queda da monarquia há 30 anos, Ebadi ironiza: “O senhor Ahmadinejad pensou em dar um presente às mulheres e em conquistar o seu apoio.” Das três escolhidas, só uma foi aprovada pelo Parlamento.

“Temos agora uma ministra [da Saúde, que se demitiu por discordar das políticas do Executivo para este sector] que antes foi deputada. Conhecemos muito bem as suas ideias e o que pensa sobre determinadas questões.”

Marzieh Vahid-Dastjerdi “não aceita a igualdade entre homens e mulheres e concorda com a poligamia”, sublinha. “Sim, é verdade que temos uma ministra, mas o que importa é a mentalidade do titular do cargo e não se é homem ou mulher.”

A Revolução Islâmica, lembra Ebadi, aprovou muitas leis discriminatórias. “O valor da vida de uma mulher é metade do de um homem. Se um homem e uma mulher forem atropelados juntos, ou ambos forem mortos num atentado terrorista, o dinheiro que é dado à família da mulher é metade do que é dado à família do homem.”

“Em tribunal, o testemunho de uma mulher não é suficiente. Serão precisas duas mulheres para haver equivalência ao depoimento de um homem.”

No entanto, observa Shirin Ebadi, as mulheres representam mais de 65% dos estudantes universitários no Irão. Muitas são académicas, advogadas, médicas, engenheiras e continuam a lutar contra estas leis.”

“Vimo-las em fotos e vídeos das recentes manifestações. Se elas continuarem os protestos, a tarefa do senhor Ahmadinejad será muito mais complicada.”

A mudança no Irão tem de ser interna, acredita Ebadi. “Prevejo que serão adoptadas mais sanções [na ONU], mas sou contra isso, porque será o povo o mais penalizado. Mas também acho que o regime deve suspender o programa de enriquecimento de urânio, para não estarmos sujeitos às ameaças de intervenção militar.”

Quando perguntamos se não há consenso no Irão sobre o programa nuclear ser “um direito nacional”, a resposta é curta e firme: “Não!” Ebadi adverte, porém, que em caso de intervenção militar (e Israel mantém esta opção na mesa), os iranianos vão esquecer-se das divergências com o poder, vão unir-se e defender o seu país.” Ela está confiante: “Não acredito que um ataque seja possível.”

© fondazionepesenti.it

Que ninguém se deixe iludir com a baixa estatura e a aparência frágil de Shirin Ebadi. Aos 62 anos, mantém-se obstinada. “Já vos disse que sou teimosa”, observou na autobiografia, quando enumera as muitas vezes que desafiou os mullahs.

Quando foi, por exemplo, ao Parlamento e, invocando o manual xiita da jurisprudência, base de formação dos teólogos, humilhou os conservadores provando que nada justificava que uma mulher precisasse de autorização do homem para se divorciar.

Era suficiente deixar de gostar dele. Eles inventaram um estratagema para a fazer sair da sala e chumbaram o seu projecto de lei.

E quando os Mullahs aplicaram o código penal que permitia aos homens “manterem-se pessoas” e às mulheres “tornarem-se propriedade”, Ebadi foi com o marido, Javad, a um notário assinar um acordo pós-nupcial que lhe garantia, a ela, o direito de se separar e a preferência da custódia dos filhos.

O notário ficou perplexo e, imaginando que Javad era analfabeto, quase o admoestou: “Por que está a fazer isto?” Ele retorquiu: “Quero salvar a minha vida.”

Javad, engenheiro electrotécnico, foi o único pretendente de Ebadi que “não teve medo” de casar com a juíza Ebadi. Ele provinha de um contexto social conservador, mas deixou que ela fosse igual a si própria, encorajando o desempenho da profissão, mas sem facilitar nas tarefas domésticas.

© CNN

Por isso, quando lhe perguntamos por que é que uma mulher que combate o regime não conseguiu convencer Javad a cozinhar, limpar a casa e educar as filhas, Ebadi solta uma gargalhada: “O meu marido sempre protegeu o meu trabalho, mas não percebe nada de cuidar de uma casa. Às vezes, sim, ele tenta ajudar, mas fica tudo uma confusão, e eu digo-lhe que prefiro ser eu a fazer.”*

Os iranianos olham para esta mulher com admiração. Mas ela recusa ser vista como heroína, mesmo que os iranianos “não apenas se apaixonem por heróis, como se apaixonam pelo seu próprio amor por eles”, como escreveu nas suas memórias.

“Quando as pessoas sentem necessidade de heróis, é porque se sentem oprimidas”, declara. “As pessoas precisam de heróis que cuidem delas. Os iranianos têm sido muito bons para mim. Eles amam-me.”

*[No seu livro ‘Until We Are Free: My Fight for Human Rights in Iran’, publicado em 2016, Shirin denuncia que o regime encorajou o marido a manter relações extraconjugais, para exercer ainda mais pressões sobre ela. Ela conta que “agentes iranianos se aproveitaram da solidão de Javad e contrataram uma mulher para o seduzir.

O encontro de ambos num apartamento em Teerão foi gravado em vídeo, para o  poderem incriminar. Detido em Evin, o marido foi “chicoteado por beber álcool e condenado a ser apedrejado, por adultério”. Para recuperar a liberdade, denunciou a mulher como “agente do Ocidente”. O casal divorciou-se depois deste drama.]

@DR

© Hans Joergen Brun

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 13 de Setembro de 2009 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on September 13, 2009 

Claudia Cardinale: Última vedeta de um cinema que desapareceu

A musa de Fellini, a Angelica de Visconti, a Aida de Zurlini, a Jill de Sergio Leone completou 70 anos de vida e 50 de carreira [em 2009]. Viajemos então na mala da rapariga que dançou para nós uma inesquecível valsa. (Ler mais | Read more…)

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Claudia Cardinale (CC) decidiu que se manteria uma actriz europeia. A italiana recusou um contrato de exclusividade com Hollywood, onde lhe deram o camarote de Marilyn Monroe e onde conheceu um dos seu ídolos, Alfred Hitchcock

Quantas vidas cabem em 70 anos de Claudia Cardinale? Em 50 de carreira, que o Festival de Cannes homenageou em 2009, ela foi o corpo, a voz, os olhos e o sorriso de Carmelina, de Assuntina, de Ginetta, de Aida, de Angiolina, de Angelica, de Sandra, de Maria, de Jill… “Milhares de vidas” em 96 filmes, ou como ela própria disse. Sono stata puttana e principessa. Dalla Russia all’Australia, l’Africa, l’America del Nord e del Sud.

Sorte a nossa, Claude Josephine Rose Cardin não ter seguido o sonho de infância, que era ser professora em Tunes, onde nasceu a 15 de Abril de 1938, filha do italiano Franco e da francesa Yolanda.

Sorte a nossa, ela ter vencido um concurso de misses, cujo prémio a levou a Veneza, onde foi cortejada por produtores e realizadores. Sorte a nossa, ela ter mudado de ideias – recusara inicialmente todos os convites, regressando a casa –, e ter trocado o Magreb por Roma, onde se inscreveu no Centro Sperimentale di Cinematografia.

Ficamos agradecidos ao já defunto Franco Cristaldi, o produtor que a descobriu como “jovem promessa” com quem Claudia Cardinale viveu (ela nunca confirmou o casamento) até 1975 uma tumultuosa história.

Terá sido ele o autor do contrato que, diz a “lenda” a proibia de engordar e cortar o cabelo? Certo é que nem ele sabia que ela tinha tido um filho aos 17 anos. Um menino que ela apresentava a todos como irmão e a quem só contou a verdade quando ele completou 19 anos.

Estaria escrito nas estrelas? À chegada a Veneza, o primeiro filme que viu foi Notti Bianchi e, em 1960, lá estava ela a brilhar em Rocco e suoi fratelli (“Rocco e os seus irmãos”), do mesmo realizador, Luchino Visconti. Antes, já tinha exibido beleza e talento em I soliti ignoti, de Mario Monicelli (1958), e em Maledetto imbroglio, de Pietro Germi (1959).

“Para dizer a verdade, desde o primeiro momento em que me viu, Luchino gostou de mim”, exultou Claudia, citada pelo diário britânico The Guardian. “Nós tínhamos um maravilhoso relacionamento. Era simplesmente fantástico. (…) Eu achava que ele nem dava pela minha presença, e um dia [durante as filmagens de Rocco], numa cena com muita gente, ele grita: ‘Não me mates, La Cardinale!’ Foi então que eu percebi que ele estava a olhar para mim, e que me estava a ver.”

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Em La ragazza com la valigia (“A rapariga da mala”), filme realizado por Valerio Zurlini e no qual, desempenhando o papel de uma prostituta que se sente perdida, contracena com Jacques Perrin. Ela tinha 23 anos e ele 19

Falar de Visconti é falar de Il gattopardo (“O Leopardo”), obra-prima onde CC – sim, é como ela gosta de ser tratada, indiferente às comparações com BB (Brigitte Bardot) – incarna Angelica, a noiva burguesa do aristocrata Tancredi Falconeri (Alain Delon) que dança “o fim de uma ordem social” numa inesquecível valsa com o príncipe de Salina (Burt Lancaster).

“Não esperava que ele [Visconti] me convidasse”, conta. “Para mim, foi realmente o momento mais importante. Até porque, na mesma altura, eu estava a fazer o Otto e mezzo (“8 ½”), de Fellini, e Federico queria que eu estivesse morena e mais escura. Tinha de mudar a cor do cabelo de duas em duas semanas.”

“Era como teatro”, adiantou CC, sobre a rodagem de O Leopardo, com Visconti. “Era tudo decidido antes. Não havia improvisação. Trabalhávamos à volta de uma mesa. E os técnicos e as outras pessoas, da fotografia, das luzes, vinham no fim quando tudo estava pronto e já estávamos a representar. Tudo era preparado. (…) Ele sabia o que queria. E, é claro, era um acontecimento estar ali com ele. Eu só fazia o que ele me pedia para fazer. Um dia, disse-me: ‘Lembra-te, tens de separar a boca dos olhos. Os olhos têm de fazer exactamente o contrário do que tu dizes.’”

Há ainda mais detalhes no Guardian: “No primeiro dia em que chegámos, Luchino falava comigo, como sempre em francês, chamava-me Claudine, nunca Claudia. Aproximou-se e disse: ‘Senhor Lancaster, por favor, dance’. Começámos a dançar e ele gritou: ‘Páre!’ Pegou na minha mão e disse: ‘Quando o senhor Lancaster estiver pronto, voltaremos’.”

“Quase desmaiei, fiquei corada porque ele [o actor norte-americano] era um gigante, uma divindade. Fomos para outro lado, bebemos champanhe, falámos. Chegou então uma assistente a informar que o senhor Lancaster estava pronto. Voltámos. Luchino quis deixar bem claro, naquele instante, que era ele o mestre do set. E depois ficaram muito, muito amigos. Mas, o primeiro momento foi realmente difícil.”

Tu és tão bela. Faltam-me as palavras. Fazes o meu coração bater como o de um liceal. Não acreditas, pois não? Tu inspiras tanto respeito. (…) Sabes por que sorris desse modo? Nunca sei se me estás a julgar, a absolver ou a fazer troça de mim.

Guido Anselmi/Marcello Mastroianni, em 8 ½, de Federico Fellini

Com Visconti, “era impossível sorrir ou balbuciar uma palavra no set”, revela CC. Por outro lado, a direcção, quase em simultâneo, de 8 ½, a obra maior de Federico Fellini que nasceu de um bloqueio criativo, não podia ser mais diferente. “Era só improvisação, e podíamos gritar ou cantar. (…) Quando eu filmava, Marcello [Mastroianni, o protagonista] não estava lá. Federico sentava-se junto a mim. Era ele que falava comigo e eu respondia-lhe. Não havia guião. (…) Fellini era um mágico. Adorei trabalhar com Federico Fellini. Ele olhava para mim como seu fosse a rapariga do seu sonho no filme”.

É também importante saber que “Federico Fellini foi o primeiro a usar a minha voz. Eu tinha uma voz muito estranha. A minha educação era francesa e, ainda que a nacionalidade fosse italiana, eu não falava uma palavra de italiano.”

“As minhas raízes eram africanas. Eu sou tunisina, de três gerações. Quando cheguei para o meu primeiro filme [Anneaux d’Or, de René Vautier, 1956], não conseguia pronunciar uma palavra. Pensava que estava na lua. Não entendia o que falavam. Eu falei francês [no filme] e fui dobrada.”

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Em Rocco e suoi fratelli (“Rocco e os seus irmãos’), de Luchino Visconti. Disse ela: “Eu achava que ele nem dava pela minha presença, e um dia (…) numa cena com muita gente, ele grita: ‘Não me mates, La Cardinale!’ Foi então que eu percebi que ele estava a olhar para mim, e que me estava a ver”

E o que diz CC de Sergio Leone, que a dirigiu em C’era una volta in West (“Aconteceu no Oeste”, 1968)? “Não percebo por que era ele considerado em Itália um realizador de categoria B. Não entendo”, confessa Claudia.

“Ele inventou os detalhes, o modo como mexemos os olhos, as mãos. Além disso, foi o primeiro a usar a música antes de começarmos o filme. Antes de cada cena, ele punha a tocar a música de Jill [McBain, o papel que ela representa]. Era fantástico, porque me tornava imediatamente a personagem. Depois da música, eu era Jill, a emoção, tudo.”

E Marcello Mastroianni, o Guido Anselmi (alter ego de Fellini em 8 ½) ou o Antonio Magnano de Il bell’Antonio (Mauro Bolognini, 1960)? “Não gosto muito de falar sobre isso”, admitiu CC, a quem se atribuem romances fugazes com alguns colegas, como Jean-Paul Belmondo e Peter Sellers, que sobre ela disse ser “a melhor invenção de Itália depois do esparguete”.

E porquê? “Porque Marcello sempre me disse que estava apaixonado por mim. Para mim, trabalho é uma coisa e a vida privada é outra. Tudo bem separado. Mas, com Marcello, tivemos durante toda a vida um óptimo relacionamento. Ele era um actor maravilhoso.” (The Guardian)

E Brigitte Bardot, co-protagonista de Les pétroleuses (1971)? “Era muito engraçada, tinha um certo medo de mim”, diverte-se CC a falar sobre BB. Costumava dizer-me: ‘Tu não és uma mulher, és um homem’. Porque eu gostava do perigo. E, entre cenas, eu levava-a no meu cavalo, subia às montanhas, e ela tinha um medo de morte. Mas foi fantástico. Os jornalistas e outras pessoas que nos rodeavam pensavam que nos íamos matar uma à outra. Mas, juntas, divertimo-nos imenso. Ficaram desapontados por não nos matarmos.”

Sabes que mais? Se eu fosse a ti, ia ali dar de beber aos rapazes. Nem podes imaginar como um homem se alegra por ver uma mulher como tu. Só de olhar para ela. E se um deles te der uma palmada no traseiro faz de conta que não foi nada. Ganharam o direito a isso.

 (Cheyenne/Jason Robards, em Era uma vez no Oeste, de Sergio Leone)
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Em Il gattopardo (“O Leopardo”), obra-prima do grande cineasta italiano Luchino Visconti, onde Claudia Cardinale incarna Angelica, a noiva burguesa do aristocrata Tancredi Falconeri (Alain Delon). Aqui ela dança “o fim de uma ordem social” numa valsa inesquecível com o príncipe de Salina (Burt Lancaster)

Deixemos agora outros falar sobre Claudia Cardinale. Augusto M. Seabra, crítico, sociólogo e programador, que participou com ela no júri do Festival de Cannes em 1993, jamais esquecerá “o privilégio que foi conviver e trabalhar durante 12 dias” com CC.

“Até então nunca tinha tido uma experiência tão próxima do que é, de facto, uma star”, descreveu, numa entrevista que me deu. “Ela tem um magnetismo e, perante a pressão dos fotógrafos, que é uma experiência intimidante e fisicamente desgastante, ela tinha a capacidade de se voltar para cada um deles e fazer a pose e o sorriso.”

“Judy Davis, uma outra actriz do júri, que acabara de fazer Maridos e Mulheres, com Woody Allen, não estava lidar bem com a situação, ao contrário de Claudia. “Houve momentos em que tive de a amparar”, acrescentou Seabra.

“Devo dizer que num júri, os actores são os elementos mais difíceis para uma discussão, porque têm uma visão muito particular”, salienta Seabra.

“Claudia fez uma enorme diferença, pela sua capacidade de falar do cinema. Não é propriamente um segredo que tenha ficado nos bastidores do festival, mas uma história conhecida, que houve uma forte polarização neste júri.”

“Havia um grande favoritismo à partida para um filme, que era O Piano, de Jane Campion, e ela foi uma das primeiras pessoas que se ligou à minha posição de que tinha de ser um ex-aequo d’O Piano e do Adeus minha concubina [de Chen Kaige]. Foi a posição que veio a ganhar, com o júri empatado 5 a 5, e o voto de desempate a ser o do presidente do júri, Louis Malle.”

Nas horas em que o júri ficou retido numa villa, sem contactos com o exterior, até partir para a gala final e o anúncio dos prémios, Seabra lembra-se ainda de como Claudia ficou “estupefacta” por ter de se vestir e fazer a toillete dentro da casa onde estavam. Foi um de vários episódios de 12 dias em que ambos evocaram memórias.

“Quando lhe falei de um papel marcante dela, que está um bocadinho esquecido, em A rapariga da mala [La ragazza com la valigia, 1961], de Valerio Zurlini e com Jacques Perrin ela só dizia: ‘Que realizador tão difícil’. Também achava que um dos filmes que fez com o Visconti, Vaghe stelle dell’Orsa (1965), foi uma experiência muito complicada e que o filme não funcionou.”

“Mas ela tinha uma relação quase filial com o Visconti, e a passagem para um realizador como o Zurlini não lhe deixou as melhores recordações. Talvez não tenha presente como o papel dela marcou tanta gente, ainda que o seu estatuto ímpar tivesse ficado registado em O Leopardo.”

Seabra rende-se: “É preciso dizer que Claudia Cardinale continua uma presença fascinante, ao contrário de outro ícone dos anos 60, Brigitte Bardot, cuja imagem já não diz nada, excepto a do filme do [Jean-Luc] Goddard [Le Mépris, 1963].”

“CC sobrevive, e de que maneira! Ela tem um magnetismo e uma inteligência muito especiais. Sublinho que ela é extremamente inteligente. Não é apenas uma cara bonita. Está para além disso. É uma presença completamente resplandecente e isso tem a ver com um carisma muito pessoal, a tal star quality”.

Se tivesse de programar um ciclo dedicado a CC, Seabra escolheria três filmes: O Leopardo, A rapariga da mala e Aconteceu no Oeste. No filme de Sergio Leone, onde contracena com Henry Fonda, Jason Robards e Charles Bronson, “ela tem um grande papel”.

Aida (…) não sei por que te digo isto, mas quando te encontrei, pensei que à mínima coisa que tu precisasses de mim, eu viria a correr. Tu és a única pessoa que precisa de mim. Talvez não. Mas que interessa.

(Lorenzo Feinardi/Jacques Perrin, em A rapariga da mala)
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Em Otto e mezzo (“8/2”) a obra maior de Federico Fellini que nasceu de um bloqueio criativo. “Era só improvisação, e podíamos gritar ou cantar”, diz Claudia. “Quando eu filmava, Marcello [Mastroianni, o protagonista] não estava lá. Federico sentava-se junto a mim. Era ele que falava comigo e eu respondia-lhe. Não havia guião. (…) Fellini era um mágico. Ele olhava para mim como seu fosse a rapariga do seu sonho no filme”

Por que é que Jorge Silva Melo, cineasta, dramaturgo, encenador, actor, ensaísta, também gosta de Claudia Cardinale? Porque “ela é de uma bondade e um sorriso de uma generosidade contagiante”, disse-nos, também ele efusivo, como se falasse de um grande amor.

Ficou preso ao seu fascínio desde que a viu num “filme muito bonito, de Mario Monicelli, chamado Gangsters Falhados [I Soliti Ignoti], e depois em Rocco e os seus irmãos, com um bebé ao colo. Todas as ideias sobre a maternidade, a doçura, o redondo das formas estão naquela mulher.”

Para Silva Melo, CC “era nos anos [19]60 o que, nos anos [19]50, foi a sueca Ingrid Bergman: a presença de uma mulher simples, irradiando candura, frescura. Depois, o que ela teve de extraordinário na sua carreira foi não só ter feito grandes filmes, como entrou numa produção média italiana de grandíssima qualidade – os filmes com Francesco Maselli, que é um realizador de que eu gosto particularmente, chamado Os Delfins [I Delfini, 1960], sobre a jovem aristocracia italiana hesitante com os tempos modernos e com os compromissos com o Partido Comunista; os filmes com [Luigi] Comencini, como A rapariga de Bube [La ragazza di Bube, 1963] ou um filme muito bonito [de Pietro Germi] chamado Un maledetto imbroglio, baseado num romance lindíssimo do [Carlo Emilio] Gadda.”

“Para mim, há dois momentos importantes: um é A rapariga da mala, onde ela é absolutamente extraordinária, com a chamada graça vulgar. Porque é uma mulher vulgar. E, no entanto, aquele sorriso, aquela beleza, transforma a vulgaridade. Ela começa o filme a urinar numa estrada, e com que graça faz isso.”

“Numa cena que podia ser escabrosa, que delícia de graça. Depois, o Visconti encontra nela a burguesia ascendente e, realmente, a dança que ela faz com o príncipe, Burt Lancaster, é um dos momentos sublimes da história do cinema.”

“Eu conheci vários realizadores que trabalharam com ela, entre os quais Francesco Maselli, de quem sou amigo”, refere Silva Melo.

“O Maselli disse-me: ‘Uma filmagem com a Claudia Cardinale é a paz, ela está atenta a todos os pequenos conflitos que existem entre todas as pessoas, resolve tudo e tu nem notas. Quando a tens no elenco, ela organiza as coisas, há uma espécie de candura’. Raffaello, o pintor, teria gostado de a conhecer. Claudia Cardinale é uma figura luminosa, bela e com um sorriso que é único.”

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Em C’era una volta in West (“Aconteceu no Oeste), de Sergio Leone e com Jason Robards: “Não percebo por que era ele considerado em Itália um realizador de categoria B”, lamenta Claudia Cardinale. “Ele inventou os detalhes, o modo como mexemos os olhos, as mãos. Além disso, foi o primeiro a usar a música antes de começarmos o filme”

E diz mais Silva Melo: “Ela parece que nem representa. Entre A rapariga da mala, onde faz uma jovem prostituta perdida, hesitante e com um passado duro e duvidoso, ou a jovem burguesa Angelica de O Leopardo, há uma grande versatilidade. Ela não mostra só uma grande actriz. Ela está lá. Tão simplesmente como isso.”

“Chega, está lá e a gente acredita. Ela é a aventureira de Aconteceu no Oeste ou de Os profissionais [1966, novamente com Burt Lancaster], de Richard Brooks, no tempo de Hollywood. Nós acreditamos que aquela mulher é assim. E isso é um segredo que poucos actores conseguem.”

Apesar de lhe reconhecer toda esta grandeza, Silva Melo admite que CC foi, de certo modo, menorizada. “Porque era uma altura em que muitos intelectuais achavam que as belezas italianas eram só sex-appeal. Esqueciam-se que muitas das actrizes do cinema italiano tinham vindo do mundo das misses e dos modelos.”

“Ela ganhou um concurso de beleza, como todas as actrizes dos anos 19]50 em Itália, mesmo as que fizeram os filmes mais intelectuais, como a Lucia Bosé [que trabalhou com Michelangelo Antonioni e Dino Risi], vinham dos concursos e isso era normal. A Lucia Bosé [que foi Miss Itália em 1947] era filha de um padeiro milanês, como é que ela podia ser conhecida em Roma?”

“Claro que se dizia [de CC] que ‘ela é uma brasa; é só uma boazona”. Mas, em Itália, não era assim. Dos realizadores que existiam entre 1957-1958 e em 1968, todos trabalharam com Claudia Cardinale.”

“Com [Mauro] Bolognini ela faz um papel num lindíssimo filme, Senilidade [Senilità, 1961], baseado num romance do [Italo] Svevo, onde é uma jovem por quem um velho se apaixona. Extraordinário. Ela foi uma presença muito sólida. É um bem-estar. Não se sente nenhuma inquietação naquela pessoa, mas sim uma espécie de plenitude solar.”.

Se tivesse de escolher um título que definisse CC, Silva Melo nem hesitaria: “’Luminosa’. A luminosidade interior dela, como os modelos de Raffaello. Não são os projectores que a iluminam. A luz emana dela. Talento tem com certeza, mas o sorriso nunca é objecto de talento. Vem de dentro. E aquele sorriso é único.”

“Ela viveu um momento particularmente importante. O grande apogeu do cinema médio italiano, não só dos grandes mestres. Ela fazia quatro, cinco filmes por ano, de grande qualidade, que já não se fazem. Ela conseguia trabalhar num mesmo ano com Visconti, com Fellini, com Comencini, com Bolognini.”

“Isso permitia a existência de actores fantásticos, e Claudia Cardinale teve essa sorte. Ela é a última vedeta de um cinema que desapareceu. Em França é a Catherine Deneuve, essa última vedeta, um bocadinho mais nova. A seguir vieram actrizes brilhantes, mas que duraram pouco tempo. São usadas pelo cinema e deitadas fora.”

Deves tudo a ti mesma. (…) Ninguém pode resistir à tua beleza

(Don Fabrizio, príncipe de Salina/Burt Lancaster, em O Leopardo)
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Sobre Brigitte Bardot, co-protagonista de Les pétroleuses, diverte-se Claudia: “Ela era muito engraçada, tinha um certo medo de mim. Costumava dizer-me: ‘Tu não és uma mulher, és um homem’. Porque eu gostava do perigo. E, entre cenas, eu levava-a no meu cavalo, subia às montanhas, e ela tinha um medo de morte. Mas foi fantástico. Os jornalistas e outras pessoas pensavam que nos íamos matar uma à outra. Mas, juntas, divertimo-nos imenso”

A actriz Beatriz Batarda, também ela aclamada em filmes como A Costa dos Murmúrios ou Noite Escura, realça em CC “a beleza natural e selvagem, quase inigualável”. Além disso, assegura, “não há mais ninguém com aquele olhar muito particular que ela tem. O que impressiona no seu trabalho é ser de um modernismo incrível.”

“Embora não tenha sido com certeza ela que inventou isso, depois de ela aparecer começou a pegar muito aquela maneira de representar. Só confia no estar, estar no momento, estar muito presente, sem esforço de representação, sem ilustrar nada, sem impor nada. Apenas tem a presença de quem está disponível para o momento que está a ser filmado, que está a acontecer, e reage com a subtileza de quem tem essa disponibilidade. E isso é, de facto, muito moderno”.

Porquê? “Porque quando ela apareceu, ainda se cultivava muito o registo bastante teatral no cinema. Enfim, das mulheres da geração dela, ela não foi uma pioneira, mas abriu uma maneira diferente para as mulheres de estar em película, no cinema.”

Beatriz Batarda também destaca a versatilidade de CC nos seus vários filmes, e explica: “Há muitas coisas que influenciam o trabalho de um actor, não só a personagem mas o realizador que nos está a dirigir, e muitas vezes o produto final, o efeito final, é muito condicionado até pela relação entre as pessoas e aquilo que é pedido, mas também pela natureza da relação.”

Embaixadora da UNICEF, militante ecologista e defensora direitos das crianças, das mulheres e dos homossexuais, Claudia Cardinale usa cremes, mas diz que não pensa recorrer à cirurgia plástica para esconder o envelhecimento: “Incomoda-me as mulheres todas refeitas, de bocas com silicone. Parecem todas iguais, uns robôs”
© celebritynetworth.com

Sobre a opção de Claudia Cardinale de se manter uma actriz europeia, que recusou um contrato de exclusividade com Hollywood, onde lhe deram o camarote de Marilyn Monroe e onde conheceu um dos seu ídolos, Alfred Hitchcock, Beatriz Batarda encontra “muitas justificações possíveis”, e considera “complicado fazer um julgamento de atitude”.

Em seu entender, “pode ter sido uma forma de se defender, pela relação que tinha com o inglês, ou uma maneira de defender a vida privada, porque na Europa tudo é mais anónimo e discreto, mais fácil de controlar [ainda que não tenham sido silenciados os rumores de um affair de CC com o ex-Presidente francês Jacques Chirac].”

“Acho que os actores devem ser fiéis com o que se identificam. Há uns que têm perfil para fazer filmes industriais, como os da cultura americana, e outros têm mais perfil para cinema de autor. É honesto e genuíno para cada um dos lados.”

Para alguém que tem em O Leopardo e Rocco e os seus irmãos dois dos seus “filmes preferidos”, Beatriz Batarda confessa que “adoraria, aspiraria” a rever-se como actriz em Claudia Cardinale. “Ela tem uma solidez e uma segurança interior! Ainda me falta muito para chegar lá”.

Hoje, CC vive em Paris, sempre apoiada pelo seu companheiro, Pasquale Squitieri, que reside em Roma e de quem tem uma filha, também chamada Claudia.

“Pasquale é louco e inteligente”, disse a “diva” numa reportagem da revista brasileira Caras. “Não me apaixono por gente muito normal. Gosto de pessoas divertidas. Ele compreende o meu ritmo de vida, e eu, o dele.” É ele quem dirige agora uma mini-série Viaggio de un’italiana, escrita por Giordano Bruno Guerri, para a Odeon TV.

Ela encontrou, entretanto, uma nova paixão: o teatro. Silva Melo, que continua a seguir-lhe os passos, navegando na Internet, lendo La Reppublica ou quando revisita os seus lugares de filmagem em Itália, diz que ela participou [recentemente] numa peça anónima, do século XVII, chamada A Veneziana. E também representou Doce Pássaro da Juventude, de Tennessee Williams.

Além disso, Claudia Cardinale continua o seu activismo. Embaixadora da UNICEF, ecologista militante e sempre em luta pelos direitos das crianças, das mulheres e dos homossexuais. “Digo sempre, sou la ragazza com la valigia. Tenho muita energia para gastar ainda.”

E não, não está a pensar em fazer cirurgia plástica. “Tenho rugas, mas uso cremes. Cada idade tem a sua beleza. Incomoda-me as mulheres todas refeitas, de bocas com silicone. Parecem todas iguais, uns robôs. A beleza não tem importância. O que vale é o que se consegue transmitir.”

Tanti auguri [muitos parabéns] Claudia!

© livejournal.com

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2009 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2009

“Crime” of being a Baha’i is paid in jail

The seven leaders of the largest religious minority in Iran – five men and two women – have been held for more than a year without trial. Some charges carry the punishment of death, but the regime knows that they are innocent. (Read more…)

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The seven Baha’i community leaders imprisoned since 2008, with 20-year sentences – the longest of any current prisoners of conscience. Here, in a photograph before their arrest: Behrouz Tavakkoli and Saeid Rezaie (front); Fariba Kamalabadi, Vahid Tizfahm, Jamaloddin Khanjani, Afif Naeimi and Mahvash Sabet (standing)

At 3:30 AM on May 14, 2008, intelligence agents arrived at the home of Fariba Kamalabadi in Tehran.  They had a search warrant.  It took them three or four hours to search the rooms.

They arrested her and confiscated several items, from computers to family photos. Iraj Kamalabadi, one of five brothers, who lives in California, complains: “It was a concerted plan to arrest all the Baha’i leaders.  Their houses were raided at the same time.”

Psychologist Fariba, 46, was taken to Evin Prison on the same day that the entrepreneur Iraj Kamalabadi, 75, industrialist Afif Naeimi, 47, the agricultural engineer Saeeid Rezaie, 51, the former social worker Behrouz Tavakkoli, 57, and optometrist Afif Naemi, 37.

Professor Mahvash Sabet, 55, has been detained earlier, on March 5, 2008, in Mashhad, where she had been summoned by the Ministry of Intelligence, under the pretext of answering questions about a funeral at the Baha’i cemetery.

After months of isolation, the seven leaders of the largest religious minority in Iran only recently knew the formal charges against them: “spying on behalf of Israel”, “insulting religious sanctities”, “propaganda against the Islamic Republic” and “corruption on earth.”

Iraj Kamalabadi, in a phone interview with us, does not accept these charges: “They are innocent and have only been arrested for being Baha’is.”

The law provides the death penalty for espionage and “corruption on earth”, but the Center for Human Rights in Iran, whose president, Nobel Peace Prize winner Shirin Ebadi, is part of a team of lawyers, ensures that there is no evidence to condemn them, and recommended that the trial, scheduled after several postponements for October 18, be open to the public.

Iraj hopes that international pressure will save his sister and the other detainees from the fate of the National Spiritual Assemblies of the Baha’is of Iran (advisory boards of nine members, elected by the believers that govern community life, without any clergy) after the 1979 Islamic revolution.

On August 21, 1980, the nine members of the first Assembly were kidnapped.  “No one ever saw them again, they are probably dead,” said the consultant, who in 1977 went to study in Boston, and could no longer return home.

In the midst of adversity, Fariba Kamalabadi experienced a small miracle. "One day, when the 14th birthday of her youngest daughter, Taraneh Taef (in the photo) was near, not having anything to give her, she noticed that the meal that was served had a rotten carrot", says Iraj, the brother of the imprisoned leader."She also noted that the carrot had roots growing. She wrapped it in paper moistened with water, and the plant began to grow even without sunlight. When the family went to visit, she offered the carrot to her daughter as a birthday present. it was a very moving moment." @ All Rights Reserved

In the midst of adversity, Fariba Kamalabadi experienced a small miracle. “One day, when the 14th birthday of her youngest daughter, Taraneh Taef (in the photo) was near, not having anything to give her, she noticed that the meal that was served had a rotten carrot”, says Iraj, the brother of the imprisoned leader.”She also noted that the carrot had roots growing. She wrapped it in paper moistened with water, and the plant began to grow even without sunlight. When the family went to visit, she offered the carrot to her daughter as a birthday present. it was a very moving moment”

On December 27, 1981, only one member of the second Assembly survived the firing squad.  In 1984, four out of nine members of the third Assembly since the Revolution were executed.

“In the mid-1980s, the government ordered that Baha’i Spiritual Assemblies should be dissolved,” says Iraj. “Because Baha’is are obedient to the laws of the countries where they live, the community dissolved all its institutions at the local and national level.”

“An informal association was then established, with the consent of the authorities, called the Yaran [in Persian, meaning “Friends”], to administer the basic needs of the Baha’i community.  “The seven leaders arrested in March and May were the Yaran.”

The persecution is not new to Fariba Kamalabadi, a mother of three children who dreamed of becoming a doctor but who, like all Baha’i youth, during the 30 years since the revolution, could not enter university.  “It’s the third time she has been arrested,” said Iraj.

“The first was about five years ago; the second was three and a half years ago.  Our father also spent some time in prison.  They arrested him at home and took him wearing his pajamas.  He was severely tortured, and died shortly after being released, due to heart problems aggravated by abuse.”

Iraj believes his sister is not being physically abused, but warns against the deterioration of conditions under which she and six others leaders are living.  “In the first months of isolation, they were subjected to harsh interrogation,” he says.

“Their cells have no ventilation or natural light.  They were given a blanket and a pillow.  They fold the blanket; the bottom serves as a mattress and the upper part as a cover.  The food is horrible, and the portions have been gradually reduced.  The utensils with which food is cooked and served have not been washed.  Even the bread is moldy.”

Since the protests against the results of presidential elections in June, says Iraj, the cells “have been overcrowded with new detainees.  Many have contracted diseases.  Before being arrested, my sister was taking medication for cholesterol and an irregular heartbeat.  In prison, they do not allow you to treat yourself.  She is seriously ill.”

“When my mother was allowed to visit her, three months ago – the first time – she could not recognize her own daughter – only skin and bone.  They all suffer from malnutrition.  Their skin shows signs of not being exposed to the sun.  Because most of their time is spent sleeping or sitting on the floor, they also have bone problems.”

A Taj or head-dress worn by Baha'u'lláh, the present Prophet of the Bahá'í Faith. @ All Rights Reserved

A Taj or head-dress worn by Baha’u’lláh, the present Prophet of the Bahá’i Faith

In the midst of adversity, Fariba experienced a small miracle.  “One day, when the 14th birthday of her youngest daughter [Taraneh Taef] was near, not having anything to give her, she noticed that the meal that was served had a rotten carrot,” says Iraj.

“She also noted that the base of the carrot had roots growing.  She wrapped it in paper moistened with water, and the plant began to grow, even without sunlight.  When the family went to visit, she offered the carrot to her daughter as a birthday present.  It was a very moving moment.”

Iraj repeats that there is utterly no reason why the seven leaders – the Yaran – should not to be immediately released.  The authorities “know that the accusations are false, but they inflict pain due to a deep hostility towards Baha’is.”

Aside from all that, he is encouraged by the changes of mentality that Persian society has shown.  “In February [2009], a group of academics, writers, journalists, artists, and Iranian activists published an open letter entitled “We Are Ashamed”.  In an unprecedented move, they admitted having ignored, for 150 years, the plight of the Baha’is.

Questioned about her expectations for the coming negotiations between Iran and the Group of 5+1 (U.S., UK, France, Russia, China and Germany), Diane Ala’i, the Representative of the Baha’i International Community at the UN in Geneva, tells me that she has only one request:  “Put human rights in the agenda, and do not sacrifice it on behalf of other interests.”

[In 2018, Behrouz Tavakkoli, Saeid Rezaie, Fariba Kamalabadi, Vahid Tizfahm, Jamaloddin Khanjani, Afif Naeimi and Mahvash Sabet were all released after serving a 10-year prison sentence for merely practicing their faith.]

The article was translated  by Mr. Marco Oliveira (follow his blog here) and provided to Iran Press Watch. (See: IranPressWatch)

The Arc gardens, behind the Shrine of the Báb. Shrine of the Báb is a structure in Haifa, Israel where the remains of the Báb, founder of the Bábí Faith and forerunner of Bahá'u'lláh in the Bahá'í Faith, have been buried; it is considered to be the second holiest place on Earth for Bahá'ís, after the Shrine of Bahá'u'lláh in Acre. Its precise location on Mount Carmel was designated by Bahá'u'lláh himself to his eldest son, `Abdu'l-Bahá, in 1891. `Abdu'l-Bahá planned the structure, which was designed and completed several years later by his grandson, Shoghi Effendi. Crowning the design, as anticipated by `Abdu'l-Bahá, is a dome, which is set on an 18-windowed drum. That, in turn, is mounted on an octagon, a feature suggested by Shoghi Effendi. An arcade surrounds the stone edifice. A restoration project of the exterior and interior of the shrine started in 2008 and was completed in April 2011 @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

The Arc gardens, behind the Shrine of the Báb – a structure in Haifa, Israel where the remains of thefounder of the Bábí Faith and forerunner of Bahá’u’lláh in the Bahá’i Faith, have been buried. It is considered to be the second holiest place on Earth for Bahá’is, after the Shrine of Bahá’u’lláh in Acre. Its precise location on Mount Carmel was designated by Bahá’u’lláh himself to his eldest son, `Abdu’l-Bahá, in 1891. A restoration project of the exterior and interior was completed in April 2011

This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on September 20, 2009 

Biografia de uma família entre Meca e Las Vegas

Depois dos ataques da al-Qaeda nos Estados Unidos, em 11 de Setembro de 2001, o mercado editorial foi inundado com “biografias”, algumas sérias e outras oportunistas, de Osama bin Laden. O jornalista norte-americano Steve Coll, duas vezes premiado com o Pulitzer, foi mais longe e oferece-nos a história mais completa de um clã oriundo de uma terra com nome árabe de “A morte está entre nós” e que o FBI descreveu como sendo “99,999999% de variante não-maléfica”. (Ler mais | Read more…)

Mohammed bin Laden The grand patriarch of the bin Laden family, a billionaire industrialist and father of Osama, appears in a 1964 painting. @Photo Essays - TIME

Mohammed bin Laden, industrial bilionário, pai de Osama. Pintura de 1964
© TIME

Os Bin Ladens – Uma família árabe no século americano (Ed. Tinta da China, 2008) é o resultado de uma longa investigação que incluiu mais de 150 entrevistas nos Estados Unidos, Arábia Saudita, Iémen, Grã-Bretanha, Suíça, Alemanha e Israel, além da pesquisa de documentos judiciais e administrativos e correspondência original.

O objectivo, bem conseguido, foi o de retratar os Bin Laden no microcosmo da família real saudita e no macrocosmo das relações entre Washington e a Casa de Saud, antes e depois do 11/9.

Em mais de 650 páginas, Coll expõe, de forma brilhante, a luta contínua dos 24 filhos e 29 filhas de Mohamed bin Laden para conciliar tradição, religião e modernidade, aversão e atracção pelo Ocidente, “num mundo sem fronteiras”.

A história desta família começa com a fuga de Awad bin Laden da região desértica de Hadhramauth, no Iémen. Embora tivesse sido “uma poderosa federação”, com governantes e xeques, por volta do século XVII, a tribo Kenda a que pertenciam os Bin Laden tornara-se, devido à guerra incessante, “um mero clã familiar” de umas 400 a 500 pessoas em luta pela sobrevivência.

Quando a mais temível tribo Obeid exigiu (e ameaçou) Awad que pagasse 40 riais pela morte de um boi que pedira emprestado para lavrar a terra, o avô paterno de Osama não teve remédio se não abandonar a sua aldeia ancestral de Gharn Bashireih.

Instalou-se em Doan, também no Iémen, fora do alcance dos Obeid, Trabalhou arduamente e morreu jovem. Teve três filhos: Mohamed, Abdullah e Omar (que não escapou às doenças que então afligiam as crianças).

Osama bin Laden, num retrato aos 16 anos, em 1973, um ano antes de se casar com a sua prima Najwa. @Photo Essays - TIME

Osama bin Laden, aos 16 anos, em 1973, um ano antes de se casar com a sua prima Najwa
© TIME

Aos 12 anos, órfão de pai, Mohammed juntou-se a caravanas de camelos e seguiu viagem a pé até ao porto de Mukalla. Daqui, velejou para África e arranjou trabalho na Etiópia, onde perdeu o olho direito (agredido por um patrão ou vítima de um acidente laboral – há as duas versões).

Regressado a Doan, depois de um forte terramoto na Abissínia que devastou a economia local, voltou a partir, desta vez com o irmão Abdullah, em direcção a Jidá, na Arábia Saudita.

A descrição que Coll faz de Jidá quando Mohamed aqui chega, crê-se que em 1925, é tão minuciosa como todas as estórias, ora deliciosas ora amargas, que vai contando ao longo do livro.

Nesta cidade onde as temperaturas “subiam muito acima dos 37 graus no Verão e os ventos impregnados de sal do Mar Morto asfixiavam a respiração, os jornais desfazem-se em farrapos, os fósforos recusam-se a acender e as chaves enferrujam no bolso. (…) Os produtos à venda no mercado estão cobertos com tantas moscas que não se sabe qual é a sua cor sem primeiro as afastar.” (p.39)

Foi nesta Jidá que durante mais de mil anos “serviu de porta de entrada para Meca”, atraindo muçulmanos de África, do Sudeste Asiático, da Índia e da Europa, que Mohamed e Abdullah, “tão pobres que de início dormiam numa vala cavada na areia”, cobertos com sacos, começaram a erguer um vasto e opaco império– sem livros de contabilidade e com contas offshore.

Alguns dos muitos membros da família Bin Laden durante umas férias na Suécia, em 1971. São contraditórias as versões sobre se Osama terá viajado com os seus parentes. Nesta foto está assinalada a sua presença, mas uma cunhada, Carmen, diz que não é ele mas um dos seus irmãos @Scanpix/ Sipa Press

Alguns dos muitos Bin Laden em férias na Suécia, em 1971. São contraditórias as versões sobre se Osama terá viajado com os seus familiares. Nesta foto está assinalada a sua presença, mas uma cunhada, Carmen, diz que não é ele, mas sim um dos seus irmãos
© Scanpix/ Sipa Press

O primeiro emprego de Mohamed foi de carregador, no comércio ligado aos peregrinos. Pouco tempo depois, vendia por conta própria alimentos grelhados no mercado de Nadha, rua paralela à linha costeira de Jidá.

Atraído pela indústria ligada à construção civil, foi procurando trabalhos ocasionais neste sector. Em 1931, já tinha a sua pequena empresa de edifícios. Com a chegada da Grande Depressão, Mohamed voltou a empreender viagem, desta vez até Dhahran, onde foi assentador de tijolos e pedreiro.

Por esta altura, em 1933, os americanos já se tinham instalado na Arábia Saudita para explorar as riquezas petrolíferas recém-descobertas no reino fundado um ano antes por Abdulaziz Ibn Saud. Ainda que alguns possam não achar relevante, é um excelente trabalho jornalístico o perfil do monarca absoluto traçado por Coll, repórter da New Yorker que antes foi editor no The Washington Post.

Abdulaziz era “casado com 153 virgens e outras cem mulheres”. Adorava aparelhos de rádio para ouvir as notícias no seu palácio – a Marconi ajudou-o com este revolucionário sistema de comunicação a “seguir o rasto de potenciais rebeldes” e ele convenceu os eruditos islâmicos a aceitarem os programas de música da BBC dizendo-lhes que o problema estava nos botões e não nas emissões.

Caçava antílopes com falcões, avariando em corridas no deserto os mais de 250 automóveis Ford e Chevrolet oferecidos por executivos americanos.

Em 1945, quando Abdulaziz se encontrou com Franklin Roosevelt, a bordo do navio de guerra Quincy Jones, para firmar uma aliança que ainda hoje é estratégica, anfitrião e visitante “começaram a falar acerca das maravilhas da cadeira de rodas, tendo o Presidente americano presenteado o rei com um dos últimos modelos.” (Pp 46-54).

Omar bin Laden, um dos filhos de Osama, com a mulher, Jane Felix-Browne, uma inglesa com o dobro da sua idade, seis casamentos e avó, durante uma visita a Roma, “para promover a paz e ter uma audiência com o Papa”
© thestar.com

Foi em Dhahran que Mohamed bin Laden chamou a atenção de um pedreiro americano, que o considerou “mesmo muito bom”. Em poucas semanas, o novo consórcio criado para explorar o petróleo – Arabian American Oil Company (ARAMCO) ­ promoveu-o a capataz da equipa de assentadores de tijolos e, meses depois, voltaria a ser promovido a supervisor.

Ao fim de um ano e meio, provadas as suas capacidades de dirigir pessoas e levá-las a executar o trabalho, Mohamed informou a ARAMCO que queria ter o seu próprio negócio. A ARAMCO aceitou atribuir-lhe empreitadas, porque era difícil recrutar americanos para a Arábia Saudita. Em 1935, o sucesso do iemenita era tão grande que se tornou independente do consórcio para se tornar dependente dos favores reais.

Começou por construir casas para alguns príncipes e “não se sabe bem quando e como Bin Laden conheceu Abdulaziz, mas rapidamente muitas ordens reais o autorizaram a estabelecer projectos em Riade”, o mais importante dos quais o primeiro palácio [de al-Murabba] inteiramente de pedra construído na capital.

Aqui, Mohamed concebeu uma “solução engenhosa” para o soberano chegar “com dignidade” à sala onde recebia os súbditos. Tratava-se de “uma rampa de pedra circular que ia da estrada particular do palácio até ao segundo andar. Era suficientemente larga e robusta para que Abdulaziz pudesse seguir num dos seus Ford directamente até ao Majlis, sair do automóvel e sentar-se no trono.”

Estes e outros projectos deram a Mohamed, já um homem rico, confiança necessária para se casar. Tinha quase 40 anos. Por volta de 1943, nasceu a primeira filha, Aisha, o nome da mulher favorita do profeta Maomé. Depois arranjou um segundo casamento com uma rapariga de 14 anos e nasceu o primogénito, entre 1944 e 1945.

Chamou-lhe Salem, em homenagem a um amigo. Osama é filho de uma síria, que tinha 14 anos quando se casou e menos de 18 quando Mohamed se divorciou dela (embora sempre a tivesse apoiado financeiramente – até lhe arranjou outro marido).

A ruptura familiar, que incluiu processos de divórcio mediáticos, como o de Carmen (na foto) e Yeslam bin Laden, permitiram concluir que Osama não era tão rico quanto se pensava. Nem tão devoto quanto clamava ser – não se importou que o seu grupo de construção civil transformasse a casa de Maomé em Meca numa… “cintilante casa de banho pública”
© deseretnews.com

Waffah Dufour, uma das sobrinhas de Osama bin Laden, filha do meio-irmão Yeslam, posa para uma sessão fotográfica da edição de 2006 da revista GQ. Sobre o tio, disse a aspirante a estrela pop, nascida na Califórnia e residente em Nova Iorque: “Não tenho nada a ver com esse homem.” E apelou aos americanos: “Não me rejeitem, acolham-me de braços abertos, porque os vossos valores são os meus”
@ Reuters

Salem ocupa uma grande parte do livro de Coll e, com ele e os seus Fokker-27, Learjet 25-D, Hwker-125, Boeing e um aeroporto em Houston (Texas), apercebemo-nos da paixão desenfreada e por vezes fatal que os Bin Laden têm por aviões.

Mohamed foi o primeiro possuir um avião particular na Arábia Saudita e morreu quando o seu piloto americano despenhou o aparelho numa arrojada descolagem.

Salem, perito em acrobacias, também perdeu a vida numa pista, mas antes pagou aulas de voo à meia-irmã favorita, Randa, que sobreviveu por um triz a uma aterragem forçada. Outros na família sentiram o mesmo apelo pela aviação.

Em 2001, seriam os aviões a arma usada por Osama (um dos raros que não aprendeu a voar) para destruir as Torres Gémeas em Nova Iorque.

Com Salem ganhamos também a percepção da luta que a família exerce pela influência social – podem ter-se tornado milionários mas, ainda vistos como hadhramis iemenitas, nunca poderão unir-se pelo casamento a membros da Casa de Saud.

Coll descreve Salem, o bon vivant, como o oposto de Osama, o “príncipe do terror”, que só merece destaque a partir do capítulo X.

Enquanto o filho mais velho de Mohamed, que se tornou no patriarca da família após a morte do pai, gosta de álcool e rock & roll, o filho número 17 proíbe que na sua casa se veja os “blasfemos” vídeos da Disney e se beba por palhinhas porque estão não existiam no tempo do Mensageiro de Alá (pp 214-215).

Enquanto o primeiro esbanjava dinheiro em extravagantes festas de jet-set, o segundo angariava fundos para os Mujahedin afegãos (ainda que Salem tivesse ajudado nesta missão, com apoio de Ronald Reagan).

Em 2019, citando fontes de espionagem dos Estados Unidos, vários media (NBC News, New York Times, Wall Street Journal) noticiaram que Hamza bin Laden, filho da mulher favorita de Osama (aqui numa foto do seu casamento encontrada pela CIA no esconderijo do líder da Al-Qaeda quando ele foi assassinado) teria sido morto em 2017, impedindo-o de suceder ao pai 
© AP | Shutterstock

Enquanto Salem sonhava construir em Jidá “uma propriedade familiar que se assemelhasse às Nações Unidas”, para acomodar quatro mulheres a quem propôs casamento (uma norte-americana, uma alemã, uma britânica e uma francesa); Osama planeava uma jihad (guerra santa) global.

Incapaz de encaixar na vida louca de Salem e de outros parentes, entre Meca e Las Vegas, Osama foi-se afastando cada vez mais da família, e a família foi obrigada ao corte (quase) total de relações quando ele renegou a Casa de Saud. Após a morte de Salem, os Bin Laden viveram altos e baixos mas nunca pensaram que um irmão tímido e discreto se tornasse num bárbaro terrorista, apátrida e fugitivo.

A ruptura familiar, que incluiu processos de divórcio mediáticos, como o de Carmen e Yeslam, permitiram concluir que Osama afinal não é tão rico quanto se pensava. E não é tão devoto quanto clama ser.

Não se importou, aparentemente, que o Bin Laden Group, de que era accionista, transformasse a mítico e original moradia onde Maomé viveu em Meca antes das revelações divinas numa… “cintilante casa de banho pública”. (pp. 445-447).

Foto 7

Filhos e netos de Bin Laden ficaram à guarda das autoridades paquistanesas, num apartamento em Islamabad, depois que o pai e avô foi morto, em 2011
© Zakaria al-Sadah | MCT

Depois do 11/9, consciente da importância que os Bin Laden representavam para a Arábia Saudita e dos interesses dos EUA na Arábia Saudita, o embaixador do reino em Washington convenceu as autoridades americanas a fretarem aviões para recolherem – na Florida, na Califórnia e em Boston – vários elementos da família que se tornara indesejada.

Rapidamente, porém, tudo a voltou à normalidade. Os Bin Laden continuam a ser um dos maiores conglomerados da Arábia Saudita – da construção civil às telecomunicações. Um irmão é um dos principais accionistas do Hard Rock Café Middle East. Outros financiam filmes de Bollywood ou gerem prisões privadas nos EUA.

O actual patriarca, Badr, engenheiro formado na Universidade de Miami, tem um contrato para erguer o edifício mais alto no emirado do Dubai – entre os seus amigos estão Carlos, herdeiro do trono de Inglaterra, e os ex-presidentes norte-americanos George H. Bush (pai de W.) e Jimmy Carter.

Apesar de alguns ”deslizes” do autor, como chamar al-Quds, termo árabe para Jerusalém, à mesquita de al-Aqsa, naquela cidade (p.459) e de erros do tradutor/revisor como “interviu” em vez de “interveio” (p. 110),

Os Bin Ladens, tal como o anterior livro de Coll que lhe valeu um Pulitzer, Ghost Wars: The Secret History of the CIA, Afghanistan and Bin Laden, from the Soviet Invasion to Sept. 10, 2001, é indispensável a quem procure entender a relação bizarra entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita – o maior produtor mundial de petróleo e o primeiro exportador do fundamentalismo islâmico, wahabita, antes do Irão, xiita, em 1979.

Mesmo que Osama jamais tivesse existido, a assombrosa história dos Bin Laden merecia ser contada.

[Osama bin Laden, foi executado no seu refúgio em Abbottabad, no Paquistão, durante a ‘Operação Neptune Spear’, por  forças especiais americanas, em 2 de Maio de 2011. O ataque contra o seu refúgio foi lançado, na véspera, a partir do Afeganistão, o país para onde o corpo foi levado para ser identificado e lançado ao mar, 24 horas após a sua morte. A organização do “príncipe do terror’ confirmou o óbito a 6 de Maio, com anúncios em vários ‘sites’ islamistas.]

Bin Laden, em 1984, no Afeganistão, onde pôs a sua fortuna ao serviço dos geurrilheiros que travavam uma "guerra santa islâmica" contra os invasores comunistas soviéticos. @Photo Essays - TIME

Osama bin Laden, em 1984, no Afeganistão, onde pôs a sua fortuna ao serviço dos  que travavam uma “guerra santa islâmica” contra os invasores comunistas soviéticos.
© TIME

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente na revista “Relações Internacionais / R:I”, em Setembro de 2009 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese journal “Relações Internacionais / R:I” in September 2009

Mahnaz Afkhami: Memórias de uma ministra do Irão

Khomeini acusou-a de “prostituição” quando ela ofereceu igualdade de direitos às iranianas. O Xá cedeu aos ayatollahs e demitiu-a em 1978. O exílio salvou-a de um pelotão de fuzilamento, mas não lhe devolveu a identidade perdida. Mahnaz Afkhami foi a última ministra do Irão até Ahmadinejad incluir três mulheres no seu Governo. Hoje, aos 68 anos, é um ícone feminista no mundo muçulmano. Esta é a sua história – na primeira pessoa. (Ler mais | Read more…)

Mahnaz Afkhami faz parte da história do Irão
© BBC

A 1 de Janeiro de 1976 fui nomeada ministra de Estado para os Assuntos da Mulher – a primeira a exercer este cargo no Irão, e a segunda em todo o mundo, depois da francesa Françoise Giroux. O convite chegou num telefonema do primeiro-ministro Amir-Abbas Hoveyda, em Dezembro de 1975, e não foi uma surpresa total.

A minha vida há muito que estava ligada à defesa dos direitos das mulheres. Nasci em 1941, na província central iraniana de Kerman, de uma família tradicional. Quando eu tinha 13 anos, a minha mãe, uma pessoa muito independente, separou-se do meu pai e foi viver para os Estados Unidos.

Aos 17 anos, eu segui as pisadas dela e fui trabalhar como balconista para pagar os meus estudos. Quando o patrão me despediu, temporariamente, para me contratar de novo e assim não ter de me pagar merecidas férias, apresentei queixa.

Ganhei o processo com a ajuda de um sindicato onde me inscrevera. Convenci-me de que não devemos calar as injustiças, e aprendi o valor da solidariedade.

Em 1967, concluídos os estudos nas universidades de São Francisco e do Colorado, regressei ao Irão, para ser professora de Literatura Inglesa na Universidade Nacional. Juntei-me a outras estudantes e fundámos a Associação das Mulheres Universitárias.

Em 1970, fui escolhida para secretária-geral da Organização das Mulheres do Irão (OMI) e, em 1975, quando a ONU instituiu oficialmente o Ano Internacional da Mulher, estávamos no apogeu de uma campanha pela nossa independência numa cultura dominada pelos homens e pela religião.

Realizávamos conferências e seminários. Publicávamos livros e panfletos. Organizámos o primeiro festival de cinema de mulheres no Médio Oriente.

Ajudámos a preparar um Plano de Acção Mundial aprovado pela Assembleia Geral da ONU. No mesmo ano, o Irão propôs e contribuiu com dois milhões de dólares para a criação do Internacional Centre for Research and Training of Women.

Mahnaz Afkhami num encontro com membros da Organização das Mulheres do Irão, no centro de apoio à família em Tabriz, 1975
© iranian.com

O nosso trabalho tornou mais visíveis as questões das mulheres, e eu estive directamente associada a esse trabalho. Não fiquei, pois, surpreendida com o convite de Hoveyda.

O primeiro-ministro ligou-me quando eu estava numa reunião de direcção da OMI. Afastei-me e fui atender o telefone no meu escritório. Ele pediu-me segredo, até eu tomar uma decisão e não pude satisfazer a curiosidade dos meus colegas.

Dias depois, fui apresentada como ministra ao Xá Mohammad Reza Pahlavi e à sua mulher, Farah Diba. O imperador congratulou-me e realçou a importância do papel das mulheres no desenvolvimento. A imperatriz desejou-me felicidades. Na altura, ninguém sabia o que uma ministra para os Assuntos da Mulher deveria fazer.

Actualmente, há mais de 100 titulares deste cargo, mas nesse tempo era apenas Françoise Giroux, e o seu mandato foi breve. A ausência de um modelo permitiu-nos definir a nossa própria agenda e conceptualizar a postura que considerávamos adequada, de maneira a enfrentar pouca oposição dentro do Governo.

Mahnaz Afkhami (ao centro) com a grande feminista marroquina Fatima Mernissi (à esq.), a escritora e académica Deniz Kandiyoti, da Turquia, e a empresária e política Yasmeen Murshed, do Bangladesh, em 1996
© The New York Times

Havia pelo menos 12 ministérios e agências governamentais que lidavam de perto com questões das mulheres, designadamente, os da Agricultura, da Educação, do Planeamento e Orçamento, da Saúde e Economia. Sugeri que fosse criada uma comissão, chefiada pelo primeiro-ministro, na qual participariam aqueles ministérios.

A comissão reunir-se-ia uma vez por ano, e eu encontrar-me-ia uma vez por mês com altos funcionários, para avaliar a situação. Foi interessante ver o nível de resistência – talvez nem fosse tanto resistência, mas sim falta de consciência para a possibilidade de as mulheres serem líderes.

Por exemplo, o homem que distribuía os documentos, a princípio, não me identificou a mim, uma jovem, como presidente da mesa, e foi entregar os papéis ao homem que na sala era o mais velho e com mais cabelos brancos.

Outro exemplo: o guarda que saudava os ministros à entrada para o gabinete do chefe do Governo demorou vários dias a perceber se tinha ou não de saudar uma mulher – mesmo sendo ela ministra.

Foi, apesar de tudo, um período muito produtivo. Introduzimos horários de trabalho flexíveis para as mães e salários com benefícios iguais para as trabalhadoras com crianças pequenas; abrimos centros para os filhos nos locais de emprego; aprovámos uma nova lei da família que dava direitos às mulheres iguais aos dos homens – em particular no divórcio e custódia dos filhos; e ajudámos várias mulheres a chegar a cargos de topo no Governo.

À excepção, talvez, da Tunísia, nenhum outro país muçulmano aprovou, nos últimos 30 anos, legislação tão liberal como esta. Para os mullahs no Irão, as leis que deram mais direitos às mulheres eram piores do que a reforma agrária, que lhes retirou privilégios.

A turbulência começou no final de 1977 e agravou-se em 1978. É certo que muitas mulheres participaram nas manifestações contra o Xá, mas o que elas exigiam era mais liberdade, mais igualdade e mais justiça.

Não previam que grupos islâmicos, os principais instigadores e apoiantes do Ayatollah Khomeini, acabariam por instaurar o único governo teocrático do mundo.

Mahnaz Afkhami, ministra de Estado para os Assuntos da Mulher (à esquerda), com Homa Rouhi, vice-ministra das Minas e Indústrias
© Bron Iran | Flickr

Em 1968, Farrokhroo Parsa foi a primeira iraniana promovida a ministra, da Educação. Em 1980, foi fuzilada por recusar o véu
© iranian.com

Não previram que uma das primeiras decisões de Khomeini – ainda antes de haver uma Constituição ou um governo – seria abolir a lei da família, tolerar a poligamia, segregar os espaços públicos e tornar o hijab (lenço) obrigatório. Em Março de 1979, um mês depois da revolução, as mulheres realizaram as primeiras manifestações contra os ditames islâmicos.

Eu tinha ido a Nova Iorque, no final de 1978, para negociar os termos da criação, na capital iraniana, do United Nations Research and Training Institute for Women. A viagem deveria durar duas semanas, mas as negociações demoraram mais do que se esperava e, no final, a situação degradara-se tanto no Irão que o meu regresso teria sido perigoso.

O Xá cedeu aos ayatollahs e demitiu-me. Fechou o meu ministério, julgando que assim parava a revolução. Khomeini emitira uma fatwa (édito religioso) em 1963, quando as mulheres se tornaram emancipadas, decretando que qualquer actividade política por parte delas era equivalente a “prostituição”.

As acusações de “corrupção na Terra” e “guerra contra Deus” eram dirigidas contra todos os que o sistema considerava serem opositores dos princípios da República Islâmica.

Eu e Farrokhroo Parsa, designada ministra da Educação em 1968, fomos as primeiras acusadas daquelas ofensas. Sob estas acusações, um pelotão de fuzilamento executou a minha amiga e mentora, em 8 de Maio de 1980. Ela já não estava no Governo, mas estava no país. Eu tive a sorte de estar fora do alcance dos revolucionários.

Na prisão, a senhora Parsa escreveu aos filhos: “Estou disposta a receber a morte de braços abertos em vez de viver na vergonha e ser forçada a usar o véu. Não vou ceder aos que esperam que eu lamente 50 anos de esforços pela igualdade entre homens e mulheres. Não estou disposta a usar o chador e recuar na história.”

Farrokhroo Parsa deixou uma carreira na Medicina para se dedicar à educação feminina. Foi professora de Biologia num liceu de Teerão. Vinha de uma família de activistas. A sua mãe, Fakhr-e Afagh, fundou um dos primeiros jornais feministas e foi forçada a um exílio interno pela sua militância.

Uma das primeiras mulheres eleitas para o Parlamento iraniano, em 1963, Farrokhroo Parsa foi ministra da Educação durante vários anos. Quando eu assumi a direcção da OMI, ela fez-me uma visita de cortesia.

Pedi-lhe apoio na revisão dos textos escolares para que melhorassem a imagem das mulheres. Ela disse-me: “Prometo fazer o que puder, mas não se esqueça que eu sou ministra da Educação e não ministra para as mulheres.”

Estas palavras mostraram-me que, para mudar a condição das mulheres, era necessário haver um cargo governamental com autoridade. Ela formou mesmo uma comissão para rever os livros escolares, e pediu conselhos à OMI – e esta foi outra das acusações no seu julgamento “revolucionário”.

Eu e Farrokhroo Parsa fomos as únicas ministras do Xá, embora houvesse outras mulheres activas em todas as áreas, na política, nas artes, nos negócios. Havia, por exemplo, três vice-ministras, das Minas, da Indústria e do Trabalho. Havia governadoras, embaixadoras e deputadas.

É claro que a identidade é tudo na vida de um exilado. O governo revolucionário iraniano ficou com a minha casa, os meus livros, as minhas fotografias, tudo o que me pertencia. A maior perda foi a da identidade – o sentido de quem sou. Quando somos transplantados para um cenário diferente, tudo é posto em causa ou acaba perdido.

Mahnaz Afkhami: “Em termos de acção política, as mulheres iranianas têm demonstrado uma extraordinária maturidade e sofisticação. A campanha para reformar as opressivas leis da família assentou num movimento de base, democrático e não-ideológico”
© U.S. Virtual Embassy Iran

Eu tive sorte de, através do meu trabalho no Irão, ter estabelecido uma boa rede internacional de mulheres activistas. Escrevi um livro chamado Women in Exile, que é a história do meu exílio e as histórias das mulheres de 12 países que, tal como eu, acabaram por ser exiladas.

Elas levaram-me a trabalhar com o movimento internacional de mulheres e esse trabalho permitiu-me manter a minha identidade como feminista e activista dos direitos humanos.

Em 2000, fundei em Washington a Women’s Learning Partnership for Rights, Development and Peace (WLP). Sou presidente desta ONG e directora executiva da Foundation for Iranian Studies.

A WLP é uma parceria de 20 organizações, a maioria em países predominantemente muçulmanos. Damos cursos de liderança e gestão, adaptados em particular às culturas e línguas dos países onde trabalhamos. Já publicámos os nossos trabalhos em duas dezenas de línguas. Um dos países é o Irão. Ajudamos a que as vozes das mulheres iranianas sejam ouvidas pelo mundo.

A decisão do Presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad de propor a nomeação [em Agosto de 2009] de três ministras – Marzieh Vahid Dastjerdi (Saúde), Fatemeh Ajorlou (Assuntos Sociais) e Sousan Keshvarz (Educação) – é um sinal da proeminência e da visibilidade das mulheres nas últimas eleições e nos protestos pós-eleitorais. Neste sentido, é um sinal positivo.

[A ginecologista Marzieh, foi a única nomeada. Seria demitida, em 2012, por ter o Executivo face à escassez de vacinas e de medicamentos para doenças como cancro e esclerose múltipla].

Dado que as opiniões de Ahmadinejad e das que ele escolheu para ministras são reaccionárias, não creio que tentarão ou serão capazes de trabalhar em benefício das mulheres.

Dastjerdi é apoia a segregação nos hospitais e centros de cuidados médicos. Ajorlou é defensora do uso do chador. As três têm uma postura ultraconservadora em relação ao papel das mulheres na família e na sociedade.

Apesar de tudo, estou confiante. Em termos de acção política, as mulheres iranianas têm demonstrado uma extraordinária maturidade e sofisticação. A campanha que lançaram de recolha de milhões de assinaturas para reformar as opressivas leis da família assentou num movimento de base, democrático e não-ideológico.

Activistas foram de porta em porta, de cabeleireiros a mercearias, onde quer que as mulheres se encontrassem, para explicar as leis e ouvir as suas opiniões. Construíram uma vasta rede, usando SMS e e-mail, o Twitter e o Facebook.

Chegaram a acordo sobre uma série de reivindicações. Convenceram os candidatos às eleições presidenciais de Junho da razão dos seus clamores e mostraram o poder de estarem unidas.

Essas mulheres estão no coração do movimento pela mudança. Não tenho dúvidas de que ganharão a batalha pela liberdade e pela justiça. Enfrentam violência e opressão num futuro imediato. Mas a história está do lado delas.

A 13 de Agosto de 2013, dando seguimento à promessa de “criar mais empregos para as mulheres”, o Presidente Hassan Rouhani nomeou Elham Aminzadeh (na foto) para o cargo de vice-presidente, responsável pelas questões jurídicas. O sucessor de Ahmadinejad enalteceu “a competência científica e as qualidades no campo da Justiça, além da experiência no ramo legislativo”, da escolhida. Aminzadeh, ex-deputada do Majlis, completou um PhD em Direito Internacional, na Universidade de Glasgow (Escócia), e é professora na Universidade de Allameh Tabatabaei, em Teerão
© Twitter

Em Setembro de 2013, Masoumeh Ebtekar foi escolhida por Rouhani para o cargo de vice-presidente responsável pela protecção do Ambiente. Antiga vereadora na Câmara de Teerão, já havia sido vice-presidente de Mohammad Khatami. Em 1979, a actual reformista foi porta-voz do grupo de jovens estudantes que ocuparam a Embaixada dos EUA na capital iraniana
© ABC News

Marzieh Afkham, primeira embaixadora do Irão num país estrangeiro (Malásia), em 2015, foi também a primeira mulher a assumir as funções de porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, em 2013
© The Iran Project

Este artigo, agora revisto e actualizado,  foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 27 de Agosto de 2009, a partir de uma entrevista por ‘e-mail’ com Mahnaz Afkhami e da sua biografia oficial | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on August 27, 2009, based on an e-mail interview with Mahnaz Afkhami and on her official biography 

De génio e de louco Ahmadinejad tem um pouco?

O Parlamento do Irão ameaçou chumbar [em Agosto de 2009] alguns ministros do Governo de Mahmoud Ahmadinejad, o que seria um duro revés. O Presidente reeleito [substituído após as eleições de Junho de 2013] nunca parece preocupado. Acredita que tem um halo divino e é invencível na missão de “apressar o regresso do Messias”.  (Ler mais | Read more…)

© Platon Antoniou

 

Ahmadinejad, o quarto filho de Ahmad e Syedeh Khanum, nasceu Mahmoud Sabaghian a 28 de Outubro de 1956 em Aradan, no sopé das montanhas Alborz. Viviam num casebre de adobe tão frágil que, quando ruiu, passou a ser usado pelos vizinhos como galinheiro.

Naqueles tempos em que senhores feudais eram donos das terras e dos que nelas trabalhavam, Ahmad teve uma mercearia e depois uma barbearia, mas fechou-as porque não ganhava para o sustento.

Por volta de 1958, sem ocupação e sem dinheiro, juntou-se aos que fugiam dos campos para as cidades e foi para Narmak, subúrbio de Teerão, trabalhar como ferreiro na construção civil.

Se foi difícil trocar Aradan por um quarto alugado em Narmak, mais terá sido a decisão de mudar de apelido. Sabaghian (ou Saborjhian) significa, em persa, “mestres tintureiros”, sugerindo que os antepassados laboravam no negócio de tingir lã para tapetes.

Esta actividade associada às zonas rurais era olhada com desdém pelos naturais de Teerão, que chamavam aos imigrantes do interior dehati, expressão depreciativa para “camponeses”.

A mudança de nome (cuja origem judaica tem sido especulada mas não confirmada) indiciaria um corte com o passado. “Ahmadi” deriva de Ahmad (Justo), um dos títulos do mensageiro de Alá, e de Hamd (Elogio de Deus). “Nejad” significa “raça”. As duas palavras conjugadas, Ahmadinejad, podem traduzir-se por “da raça de Ahmadi” ou “da raça do profeta Maomé”.

Em Narmak, onde Syedeh Khanum (literalmente, “senhora descendente do profeta”) deu à luz mais três filhos, num total de sete, quatro raparigas e três rapazes, Mahmoud Ahmadinejad frequentou a escola primária pública de Sa’adi e o (mais caro) liceu privado de Daneshmand.

É recordado por colegas como um rapaz inteligente, estudioso e obediente. Acordava muito cedo para rever os apontamentos e era sempre pontual.

Se era aplicado nos estudos, Mahmoud também gostava de jogar futebol, rondar a escola das meninas com a sua bicicleta branca, escalar as montanhas e fazer piqueniques.

Os amigos ainda o levavam ao cinema para ver filmes (ocidentais) de animação, mas nunca o terão convencido a beber cerveja e vodka depois das orações da tarde.

Mahmoud Ahmadinejad numa visita a uma central de enriquecimento de urânio, 320 quilómetros a sul de Teerão, a capital, em 8 de Abril de 2008. Foi neste ano que anunciou a instalação de milhares de novas centrifugadoras, para acelerar o programa nuclear iraniano. @AP | Iranian President's Office

Mahmoud Ahmadinejad numa visita a uma central de enriquecimento de urânio, 320 quilómetros a sul de Teerão, a capital, em 8 de Abril de 2008. Foi neste ano que anunciou a instalação de milhares de novas centrifugadoras, para acelerar o programa nuclear iraniano
© Associated Press

Mahmoud terminou o liceu como melhor aluno em muitas disciplinas. Em 1975, concorreu à universidade numa altura em que os testes de admissão eram extremamente duros.

A meio do exame, sob intensa pressão psicológica, o nariz começou a sangrar. Não desistiu e ficou em 132ª lugar entre 200 mil candidatos a dez mil vagas. Foi uma posição inferior à que aspirava (“um dos dez melhores”), mas ainda assim distinta.

As boas notas ter-lhe-iam permitido frequentar qualquer universidade, e foi aceite por várias, incluindo a prestigiada Amir Kabir. Por ser perto de casa, optou pelo instituto politécnico de Narmak, mais tarde designado Universidade de Elm-o-Sanat (Ciência e Tecnologia). Inscreveu-se no curso de engenharia civil e começou aqui a sua carreira política.

Na universidade, Mahmoud Ahmadinejad tornou-se discípulo do filósofo Ali Shariati e do Ayatollah Ruhollah Khomeini, ambos opositores do Xá.

Clandestinamente, fazia passar de mão em mão os livros proibidos de Shariati, Islamologia, em particular – onde o Islão é definido como uma ideologia política (de esquerda) e não apenas religião.

Também distribuía os sermões do exilado Khomeini, pregando em cassete o conceito de velayat-e faqhi, ou república governada por um mullah.

O Irão ficou mais isolado com Ahmadinejad
© The New Yorker

Em 1979, quando 2500 anos de monarquia chegaram ao fim, Ahmadinejad e os seus dois irmãos, todos “dissidentes”, passaram a integrar os “Comités Revolucionários”.

À entrada da casa em Narmak – ainda viviam todos juntos, os homens no piso de cima e as mulheres no de baixo -, ergueram uma barricada de sacos de areia e numa esquina montaram um posto de vigia. Policiavam o bairro com armas roubadas dos paióis do Exército.

Por esta altura, Mahmoud estava ligado à sociedade islâmica Hojjatieh, dedicada ao culto do “12º Imã desaparecido” do Islão xiita e à perseguição da comunidade Bahá’í. Estes laços criaram-lhe um dilema.

Para os seguidores do Hojatieh, só o Mahdi (Messias), quando regressasse, poderia criar um Estado islâmico ideal; Khomeini, por seu lado, defendia maior envolvimento dos religiosos na política.

O conflito de Mahmoud resolveu-se quando o ayatollah renegou a Hojatieh como “aberração”, e a seita, oportunista e sem escrúpulos, se acomodou ao novo regime.

Sem a Hojatieh, Mahmoud virou-se para as sociedades islâmicas de direita que se agitavam nas universidades. Rapidamente chamou a atenção do Ayatollah Mohammad Beheshti, um dos membros do círculo restrito de Khomeini, que o colocou na liderança da Organização para a Consolidação da Unidade (OCU), onde conheceu os homens que viriam a ser os seus mentores, Ali Khamenei, e o seu rival, Akbar Hashemi Rafsanjani.

Mahmoud Ahmadinejad e o Ayatollah Khamenei, seu ex- mentor
© Radio Farda

Na OCU, cujo objectivo era erradicar a ameaça que os grupos marxistas e da esquerda islâmica representavam para o poder supremo de Khomeini, o jovem Mahmoud enfrentou um excepcional desafio.

Quando foi necessário aprovar a ocupação da Embaixada dos Estados Unidos em Teerão – para mostrar que a direita era tão ou mais “progressista e anti-imperialista” que a esquerda -, ele e outro membro da OCU votaram contra.

A acção contra o “ninho de espiões” foi levada a cabo sob a bandeira dos Estudantes Seguidores da Linha do Imã. Khomeini deu a sua bênção ao facto consumado. Mahmoud ficou de fora: achava que o “grande Satã” era a União Soviética comunista; os EUA eram apenas um “pequeno Satã”.

Uma fotografia a preto e branco dos sequestradores, publicada durante as presidenciais de 2005, levou a que alguns dos 52 antigos funcionários da embaixada, reféns durante 444 dias, identificassem um dos estudantes barbudos como sendo Ahmadinejad.

A CIA analisou a imagem e garantiu que não. Ele não foi um dos líderes da ocupação, mas poderá ter conduzido interrogatórios a vários cativos na prisão de Evin.

A OCU voltaria a enfrentar divisões em 1980, quando Khomeini ordenou o encerramento de todas as universidades, depois de um violento assalto à de Teerão, por as considerar um bastião do secularismo contra a instauração da teocracia.

Desta vez, os que se opuseram foram os Estudantes Seguidores da Linha do Imã, receosos de que a chamada “revolução cultural” minasse a união com a esquerda durante a ocupação da embaixada.

Ahmadinejad, pelo contrário, integrou um dos “comités de selecção”, encarregado de garantir as credenciais islâmicas dos candidatos às universidades.

As actividades “revolucionárias” interromperam os estudos de Ahmadinejad mas não lhe afectaram a vida amorosa. Em 1980, aos 24 anos, casou-se no campus da Universidade de Elm-o-Sanat com a sua colega Azam Al Sadat Farahi, ainda mais religiosa do que ele.

Com uma licenciatura em engenharia mecânica e um mestrado em Educação, Farahi anda sempre coberta com o chador negro. Só foi vista em público pela primeira vez em 2006, durante uma visita oficial do marido à Malásia.

O casal tem três filhos – uma rapariga (a engenheira eléctrica Zahra) e dois rapazes (o engenheiro civil Mahdi e o estudante de engenharia mecânica Alireza). Vivem num antigo palácio do Xá, agora residência de presidentes, na Avenida Pasteur, em Teerão.

Da sala de estar retiraram os móveis, as mesas, as cadeiras, os sofás. Moradores e visitantes sentam-se nas carpetes, apoiados em almofadas.

os dois anos de Ahmadinejad no Quartel-General de Ramazan permitiram-lhe uma rede de contactos cruciais para ascender à presidência da Câmara de Teerão, em 2003, e da República, em 2005 e 2009. (AP Photo/Mehr News, Sajjad Safari)

Bastaram dois anos para Mahmoud Ahmadinejad criar uma rede de contactos cruciais para ascender, primeiro à presidência da Câmara de Teerão, em 2003, e depois da República, em 2005 e em 2009
© Sajjad Safari | Mehr News | AP Photo

Foram “razões de segurança” que ditaram a mudança de um apartamento de três quartos, em Narmak, e a troca do seu automóvel Peugeot, comprado há 30 anos e sem ar condicionado, por um jipe blindado com motorista.

Um ritual que Mahmoud ainda repetirá é o de levar uma lancheira com o almoço cozinhado pela mulher. Hábito de “homem do povo” dado a conhecer quando estava na Câmara, onde trocou um gabinete luxuosamente decorado pelo antecessor reformista pela modesta sala da secretária.

Em 1980, com o país mergulhado num clima de guerra civil – mais de 6000 pessoas executadas por um regime paranóico , Ahmadinejad foi convidado a ser governador distrital de Maku por um antigo colega da Universidade de Elm-o-Sanat que seria o mais poderoso conselheiro presidencial, Mojtaba Hashemi Samareh.

Distrito do Azerbaijão Ocidental, província fronteiriça com Turquia e a Arménia, Maku tinha 70 mil habitantes divididos entre azeris xiitas de expressão turca e curdos sunitas. A missão de Ahmadinejad era forjar uma aliança com os xiitas, tranquilizar os curdos e cooperar com os Pasdaran (Guardas da Revolução) na luta contra a guerrilha do Partido Democrático do Curdistão (iraniano).

Em Setembro de 1980, quando o governador persa procurava vencer desconfianças locais, o Exército iraquiano invadiu o Irão, no sul da fronteira conjunta, ocupando grande parte da província do Kuzestão, de maioria árabe.

Os Peshmerga (combatentes curdos) em Maku viram na incursão de Saddam Hussein – que iniciou oito anos de guerra – a oportunidade de realizar o sonho de um Estado que incluísse os curdos do Irão, do Iraque, da Síria e da Turquia.

Ahmadinejad pediu ajuda aos Guardas da Revolução, aos quais estava ligado desde a criação deste corpo paramilitar, em 1979, e foi implacável.

Em 1983, quando o designaram conselheiro do governador-geral de Sanandaj, centro da província do Curdistão iraniano, após dois anos como governador distrital em Maku e outros dois como governador distrital de Khoy, no Azerbaijão Ocidental, já havia suprimido a insurreição curda, com milhares de mortos.

Com a sua mulher, Azam Al Sadat Farahi. @DR (Direitos reservados | All Rights Reserved)

Ahmadinejad com a mulher, Azam Al Sadat Farahi

Em 1986, sem sobressaltos em Sanandaj e com a reabertura das universidades, Ahmadinejad decidiu terminar a licenciatura e cumprir os dois anos de serviço militar obrigatório em atraso. Juntou-se aos Guardas da Revolução no Quartel-General de Ramazan, em Kermanshah, a mais curda das províncias do Sul.

Tal como aconteceu em 1979, com a ocupação da Embaixada dos EUA, está envolta em mistério a participação de Ahmadinejad numa das mais emblemáticas operações das Forças Especiais de Ramazan.

Em 18 de Setembro de 1987, quando Teerão precisava desesperadamente de uma vitória militar, um comando dos Pasdaran infiltrou-se 180 quilómetros no interior do Curdistão iraquiano (Norte) e incendiou a refinaria de petróleo de Kirkuk, que abastecia as tropas de Saddam.

Para Ahmadinejad, que teria integrado a equipa de apoio logístico aos rebeldes da União Patriótica do Curdistão (iraquiano), esta terá sido a missão de combate mais “heróica” – só sobreviveram três dos sabotadores.

O que é intrigante é nunca ter publicado fotos suas desse período, uma vez que nas campanhas eleitorais é sempre apresentado como “veterano de guerra”.

Uma coisa é certa, os dois anos de Ahmadinejad no Quartel-General de Ramazan permitiram-lhe uma rede de contactos cruciais para ascender à presidência da Câmara de Teerão, em 2003, e da República, em 2005 e 2009. O terreno começou a ser preparado em 1993 quando o ministro do Interior Ali Mohammad Besharati o nomeou governador-geral da província de Ardabil, no Noroeste.

A agenda em Ardabil era clara: mobilizar os Mullahs, o Bazar, os Pasdaran e a milícia Basij para que a “linha dura” voltasse a ocupar a chefia do Estado.

O candidato de Besharati era Ali Akbar Nategh-Nouri, presidente do Majlis (Parlamento) e Ahmadinejad tudo fez para que ele fosse eleito, desde afixar cartazes até vender ilegalmente petróleo refinado ao Azerbaijão, para obter fundos.

Protestos contra a reeleição em 2009. @DR (Direitos reservados | All Rights Reserved)

Protestos contra a reeleição de Ahmadinejad em 2009

O esforço foi inglório. Nas presidenciais de 1997, convencidos de que a vitória de Nategh-Nouri estava assegurada, muitos potenciais eleitores não votaram. Venceu por esmagadora maioria o reformista Mohammad Khatami, que logo substituiu todos os governadores, entre eles, o de Ardabil.

Com tempo livre, Ahmadinejad regressou à Universidade de Elm-o-Sanat, onde fez o doutoramento em engenharia de transportes e planeamento (com uma tese sobre “asfalto a frio”), e retomou o emprego de professor assistente.

Em 1999, quando surgiu a oportunidade de eleições locais, Ahmadinejad concorreu ao conselho municipal de Teerão, com o apoio de dois blocos conservadores.

Recebeu apenas 100 mil votos e ficou em 23º lugar. Não esmoreceu e, nas legislativas de 2000, integrou a lista de uma coligação de grupos direitistas. Mais uma vez, os candidatos reformistas obtiveram o controlo do Majlis.

Nas presidenciais de 2001, quando Khatami foi reeleito, os consternados ultraconservadores reagiram com todos os meios ao seu dispor. Usaram o sistema judiciário para fechar jornais críticos, os tribunais para prender reformistas, o Conselho dos Guardiões para vetar leis aprovadas pelo Parlamento, as milícias Basij e Ansar-e Hezbollah para intimidar estudantes e partidos políticos.

Ahmadinejad fazia parte de toda esta estratégia, delineada em reuniões secretas do movimento neoconservador Abadgaran Iran-e Islami (Construtores do Irão Islâmico).

Nas eleições locais de 2003, esta coligação conquistou a maioria no conselho municipal de Teerão, onde só perdeu um lugar. Em 3 de Maio, com 12 votos a favor, duas abstenções e dois votos contra, Ahmadinejad foi eleito presidente da Câmara.

Nas legislativas de 2004, beneficiando da apatia e divisões no campo reformista, os conservadores voltaram a ganhar, passando a dominar o Majlis, pela primeira vez desde 1979.

Em 2005, o laico Ahmadinejad candidatou-se ao lugar de Khatami, um Seyyed de turbante negro, defensor de um diálogo de civilizações e de uma democracia islâmica. Sob o lema “Nós podemos fazer”, apresentou um programa centrado na economia e quase omisso em questões religiosas. Não foi fácil.

Mahmoud Ahmadinejad, tendo em pano de fundo os ayatollahs Khomeini e Khamenei: um líder excêntrico e messiânico
© The New York Times

Aconselhado pelo seu próprio campo a desistir, Ahmadinejad recusou e fez bem. Mohammad Bagher Ghalibaf, candidato favorito do Supremo Líder, Ayatollah Khamenei, caiu em desgraça com dois erros: exigiu uma investigação às fontes de rendimento dos Guardas da Revolução e descreveu-se como um “Reza Khan hezbollahi“.

A comparação com o primeiro Xá [Reza Khan] Pahlavi apavorou os mullahs, já inquietos com as sondagens que davam uma vitória a Rafsanjani.

Poucos dias antes do escrutínio, Khamenei convocou uma reunião de alto nível e deu ordens para que Ahmadinejad fosse eleito. Agentes das forças de segurança infiltraram-se nas secções de voto e arranjaram mais “seis milhões de boletins” para assegurar o resultado pretendido. Rafsanjani foi inesperadamente batido.

As “irregularidades grosseiras” foram repetidas nas presidenciais de Junho último, mas desta vez, e apesar de violentamente atacada, a oposição não silenciou os protestos contra a “vitória roubada” a Mir-Hossein Mousavi, um conservador moderado, apoiado por Rafsanjani e pelos reformistas.

Para Ahmadinejad, o seu sucesso não se deve a uma fraude organizada, como alegam os adversários, mas à “bondade especial do Mahdi”, cujo “regresso iminente” ele prepara com afinco para mudar o Irão e o mundo, sem fazer compromissos.

Esta obsessão com a chegada do Messias faz parte, segundo o historiador iraniano Ali Ansari, de uma “estratégia de hegemonia” que assenta em quatro componentes: populismo político e económico, repressão, crise permanente nas relações externas e culto da personalidade do Presidente.

O último Xá também dizia que os imãs xiitas lhe apareciam em sonhos, mas o misticismo de Ahmadinejad, sob influência do temível Ayatollah Mohammad-Taqi Mesbah-Yazdi, seu guia espiritual, parece superar tudo.

Em 2004, ordenou secretamente a construção de uma grande avenida em Teerão por onde passaria o Mahdi; um ano depois, atribuiu 17 milhões de dólares à mesquita de Jamkaran para atrair seguidores desta mitologia; em 2006, foi ainda mais longe.

Na Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque, concluiu o discurso com uma prece suplicando “a vinda do Prometido”. Num posterior encontro (gravado em vídeo) com o Ayatollah Javadi-Amoli, na cidade santa de Qom, Ahmadinejad disse que alguém na audiência tinha visto um halo verde à volta da sua cabeça. “Eu próprio o senti”, exultou. “A atmosfera na sala mudou durante 27-28 minutos, e nenhum dos líderes pestanejou.”

Perplexo, Amoli aconselhou friamente o Presidente a concentrar-se nas suas promessas eleitorais, em vez de querer usurpar a prerrogativa dos mullahs de serem “a consciência moral da nação”.

[Em 2013, num resultado surpreendente, as eleições presidenciais foram ganhas por um teólogo pragmático, Hassan Rouhani, que tem tentado emendar o que Ahmadinejad arruinou: O seu primeiro grande êxito foi um acordo nuclear com os EUA de Barack Obama e outras potências ocidentais  – um compromisso que seria destruído por Donald Trump.]

[Fontes:  ‘Ahmadinejad – The Secret History of Iran’s Radical Leader’, Kasra Naji; ‘Iran Under Ahmadinejad – The Politics of Confrontation’, Ali M. Ansar; ‘The Nuclear Sphinx of Tehran – Mahmoud Ahmadinejad and The State of Iran’, Yossi Melman e Meir Javedanfar; ‘The Ayatollah Begs to Differ – The Paradox of Modern Iran’, Hooman Majd; ‘Treacherous Alliance – The Secret Dealings of Israel, Iran and the U.S’., Trita Parsi. ]

 

Este artigo, agora revisto e actualizado. foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 23 de Agosto de 2009 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on August 23, 2009

Há uma “oportunidade histórica” para a “questão curda”

Um quarto de século depois de iniciar a luta armada, o líder do PKK apresenta um “Roteiro” à Turquia para solucionar um conflito com 40 mil mortos. (Ler mais | Read more…)

Milhares de curdos exibem bandeiras do PKK e imagens do seu líder, Abdullah Öcalan, na cidade de Diyarbakir, no Sueste da Turquia, em 21 de Março de 2013, quando se julgava próximo um acordo de paz. © AP Photo

Milhares de curdos exibem bandeiras do PKK e imagens do seu líder, Abdullah Öcalan, em Diyarbakir, Sueste da Turquia, em  2013, quando julgavam estar próximo um acordo de paz
© Associated Press

Eram 19h30 locais, a 15 de Agosto de 1984, quando 30 rebeldes das Hêzên Rizgariya Kurdistan (HRK – Forças de Libertação do Curdistão) entraram em Eruh, povoação de 4000 habitantes nas montanhas do Sudeste da Turquia.

Divididos em três grupos, apoderaram-se de uma guarnição militar e mataram um soldado. Ocuparam uma mesquita e, por um dos altifalantes do templo, anunciaram a sua presença. Antes de recuarem para os seus refúgios, alardeando o feito de terra em terra, proclamaram na praça central o “início da guerra de libertação curda”.

Vinte e cinco anos depois deste primeiro ataque do braço armado do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), espera-se que o seu fundador revele hoje [15 de Agosto de 2009] um “Roteiro” para solucionar um conflito que já causou 30 mil a 40 mil mortos.

As propostas de Abdullah Öcalan, a cumprir uma pena perpétua desde a sua captura em 1999, deverão ser lidas pelos seus advogados durante o 1.º Festival de Arte e Cultura em Eruh – localidade governada pelo Partido para uma Sociedade Democrática (DTP), “braço político” do PKK.

Segundo o diário turco Today’s Zaman, o Roteiro de Öcalan poderá incluir “expressões que se aproximam de um pedido de desculpas” e até “uma autocrítica”. Composto por quatro capítulos (“Introdução, Princípios, Um Modelo de Solução e Princípios de Paz”), reivindica mais direitos e mais autonomia, cessar-fogo e uma amnistia, uma revisão constitucional e uma “comissão da verdade”.

O que hoje [15 de Agosto de 2009] será conhecido começou com um pedido de Öcalan aos seus advogados para contactarem intelectuais, escritores e organizações da sociedade civil. De 86 horas de reuniões (gravadas) com 55 personalidades saíram várias recomendações, que o chefe do PKK prometeu incluir na sua redacção final.

O Governo turco, por seu lado, acelerou uma “iniciativa para resolver a questão curda” e, embora as suas ideias sejam ainda vagas, sobressai a vontade de levantar as restrições à expressão da identidade curda, oferecer uma amnistia aos “militantes de base” do PKK e aumentar os incentivos económicos nas áreas de maioria curda.

Combatentes curdos do PKK entram na zona de Herror, nordeste de Dahuk, norte do Iraque
© Ceerwan Aziz | AP | The National

O que levou o único prisioneiro da fortaleza de Imrali, no mar de Mármara, e o Governo a procurar uma saída para a mais longa insurreição curda na Turquia? Para Sahin Alpay, professor de Ciência Política na Universidade de Bahcesehir, em Istambul, são quatro as principais razões.

“Os militaristas em ambos os campos compreenderam que não há solução militar; Ancara reconheceu que a política de negação da identidade curda já não é sustentável; os curdos do Iraque perceberam que precisam do apoio da Turquia (contra os árabes) quando os americanos se retirarem; todos (incluindo os EUA e a União Europeia) querem estabilidade para construir e operar os pipelines que atravessarão as regiões curdas da Turquia e do Iraque”, especificou Alpay, numa entrevista, por e-mail.

Convencido de que o Governo de Ancara não só tem “algum apoio dos militares” como está a “negociar indirectamente com o PKK e Öcalan”, o veterano analista Alpay acredita que será possível abrir o caminho da paz.

“Öcalan detém uma substancial influência e, embora os principais partidos da oposição [ultranacionalista], CHP e MHP, tenham uma atitude muito negativa, a maioria da opinião pública [na Turquia] é favorável a medidas para pôr fim às hostilidades – a minha previsão é a de que os partidos que se opõem à iniciativa do Governo serão duramente penalizados nas eleições parlamentares de 2011”.

O académico Henri Barkey, do Carnegie Endowment for International Peace, em Washington, autor de Turkey’s Kurdish Question, avalia assim o que será a reacção na Turquia às propostas do PKK: “Vão ignorar o Roteiro e fingir que nunca aconteceu, mas se contiver elementos de valor, o AKP [Partido da Justiça e Desenvolvimento, no poder] vai usá-los, sem dizer que são as ideias de Öcalan.”

As autoridades turcas “vão (e devem) apelar ao PKK para pôr fim à luta armada”, disse-nos Barkey, por correio electrónico. Inquirido sobre quais as linhas vermelhas que não podem ser ultrapassadas, o antigo conselheiro do Departamento de Estado norte-americano respondeu: “O Governo não pode ser visto a dialogar com Öcalan e não pode concordar em discutir uma federação ou autonomia – o resto é semântica”.

Os sinais mais fortes de mudança na Turquia surgiram em 2005 quando o primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdoğan, reconheceu, na província de Diyarbakir, no Sudeste, que o Estado cometeu "erros" na sua relação com os curdos, @Umit Bektas | Reuters

Sinais mudança surgiram em 2005 quando Recep Tayyip Erdoğan reconheceu, na província de Diyarbakir, no Sudeste, que o Estado cometeu “erros” na sua relação com os curdos, segundo a analista Amberin Zaman
© Umit Bektas | Reuters

Numa entrevista à Rádio Europa Livre, Barkey adiantou: um dos principais problemas é a revisão da Constituição, de modo a que “a definição de cidadania seja mais inclusiva” para os curdos. Öcalan quer, alegadamente, um regresso à de 1921, que dava amplos poderes a parlamentos provinciais, nos campos da educação, saúde ou desenvolvimento económico.

Rever a Constituição, explica Barkey, “é ir contra a própria definição do Estado turco, tal como concebida por Mustafa Kemal Atatürk, e há muitas pessoas para quem tudo o que o fundador disse é sacrossanto, imutável e intocável.”

O maior obstáculo, diz Barkey, poderá ser o Tribunal Constitucional (TC). Mesmo que o Governo consiga aprovar a sua iniciativa no Parlamento, onde o AKP tem maioria absoluta e o apoio de outros partidos, os juízes do TC, “que não é um organismo independente, mas muito ideológico”, poderão chumbar o que foi aceite pelos deputados.

Ainda que isso possa acontecer, Barkey admite que os militares, cujas opiniões influenciam os veredictos do TC, “concluíram que jamais poderão vencer a guerra contra o PKK, ou os curdos.”

Há outro factor, salienta o professor na Universidade de Lehigh: “Nos últimos anos, o DTP aproximou-se ainda mais do PKK. Os curdos sempre se envolveram em política e raramente sob uma bandeira que destruísse a sua identidade curda – os deputados curdos do AKP são tão nacionalistas como os do AKP.”

Os sinais mais fortes de mudança na Turquia surgiram em 2005 quando o primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdoğan, reconheceu, na província de Diyarbakir, no Sudeste, que o Estado cometeu “erros” na sua relação com os curdos, salientou Amberin Zaman, do German Marshall Fund dos EUA, correspondente da revista The Economist e colaboradora do site de referência Al Monitor..

Seguiram-se contactos secretos entre o chefe dos serviços de espionagem, Emre Taner, e o governo regional curdo no Norte do Iraque, para convencer os rebeldes do PKK, entrincheirados nas montanhas que separam o Iraque do Irão, a depor as armas. Esta diligência falhou devido aos entraves colocados pelos “falcões” no Exército turco e no PKK.

Outro sinal foi a decisão da Administração de George W. Bush, em 2007, de partilhar em tempo real dados recolhidos por satélite sobre as actividades do PKK, permitindo que aviões de guerra turcos bombardeassem as suas bases no Norte do Iraque.

“Isso mudou, dramaticamente, o equilíbrio de forças”, vincou Amberin, correspondente da revista The Economist em Ancara. “O PKK foi obrigado a ficar na defensiva e sofreu pesadas perdas. Dissipou-se a percepção de que os EUA favoreciam os curdos iraquianos em detrimento da Turquia (devido à recusa de Ancara em abrir o seu território a uma segunda frente contra Saddam Hussein em 2003).”

Março 2016: Milhares de curdos protestam em Diyarbakir, a capital de facto do Curdistão turco, exigindo que as forças de segurança de Ancara terminem um cerco ao distrito de Sur e permitam que os civis possam sair do território sitiado
© Lazar Simeonov | The Nation

A nomeação, em Agosto de 2008, do general Mehmet İlker Başbuğ como chefe do Estado-Maior das Forças Armadas Turcas (TSK) foi outro sinal. Em 15 de Abril último, o general usou a expressão “povos da Turquia” e não “turcos.

Falou dos curdos e da necessidade de rever a lei para que membros do PKK possam entregar as armas e deixar as montanhas. Considerou que “um terrorista também é um ser humano”. Curdos e turcos definiram este discurso como “histórico”.

O Exército tem mantido o silêncio à medida que o Governo vai procurando apoios para a sua iniciativa. A imprensa turca vê nisto uma estratégia: se o plano resultar, o Exército vai recolher os louros; se falhar, juntar-se-á à oposição contra o AKP.

Outro sinal vital: numa recente entrevista a um jornal turco, Murat Karayılan, o principal comandante militar do PKK, disse que a independência já não está na agenda da organização. Mostrou-se disponível para negociar através de “terceiras partes” – alusão implícita ao DTP -, “se fosse necessário”.

Posteriormente, o líder do DTP, Ahmet Türk, lamentou um ataque do PKK contra soldados e deixou um aviso: “Os que procuram uma solução devem tirar o dedo do gatilho”.

Foi uma rara manifestação de independência do líder do DTP (o PKK costuma assassinar os críticos), notou Amberin Zaman, e Erdogan recompensou-o com um primeiro encontro, no dia 5 de Agosto, no Parlamento.

Em todo este processo, uma das figuras mais optimistas é o Presidente Abdullah Gül. “Encontraremos uma solução”, declarou ao jornal Sabah. “Esta questão [curda] é a mais importante questão na Turquia. Não enterremos as cabeças na areia. Temos aqui uma oportunidade histórica.”

Henri J. Barkey

Sahin Alpay

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 15 de Agosto de 2009 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on August 15, 2009