Shirin Ebadi: “As pessoas precisam de heróis que cuidem delas”

A mulher que, aos 23 anos, se tornou na primeira juíza do Irão não percebe por que o regime islâmico que a forçou a abandonar o cargo (só pode ser advogada) a colocou numa lista de alvos a abater. “Não sou líder da oposição, só quero mudar a sociedade”, diz a Prémio Nobel da Paz 2003. Em Lisboa, para lançar mais um livro, A Gaiola Dourada, falámos com ela.  (Ler mais | Read more…)

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Ela chega sem o hijab (lenço), “símbolo da mais ampla ausência de direitos das mulheres”, como escreveu nas suas memórias. E não vem de largo chador negro a ocultar as formas do corpo. Traz um fato justo, calças às riscas e casaco às flores, onde o verde – cor da “revolução de veludo” que abalou o Irão – sobressai, ainda que pálido, numa mistura de ocre e amarelo.

Shirin Ebadi, a advogada que em 2003 ganhou o Prémio Nobel da Paz, não esconde nada. Nem o bâton dos lábios, nem o cansaço de muitas horas de viagem e entrevistas para lançar, em Lisboa, a sua mais recente obra, A Gaiola de Ouro (Esfera dos Livros).

Sentada numa poltrona do bar de um hotel – sosseguem os radicais que ela só bebeu água com uma rodela de limão -, vai sorrindo, tímida, para o fotógrafo e, com a ajuda de uma tradutora, responde em farsi e voz poderosa, a perguntas em inglês.

Há apenas uma pergunta para a qual ela não tem resposta. “Não sei por que me querem matar”, diz-nos, quando inquirida sobre a descoberta que fez, no Outono de 2000, ao folhear os ficheiros da investigação criminal aos homicídios premeditados de vários intelectuais.

Na altura, narrou ela em O Amanhecer do Irão (Ed. Guerra e Paz), os seus olhos pousaram na transcrição de uma conversa entre o ministro dos Serviços Secretos e o membro de um esquadrão da morte.

A ordem tinha sido dada: “A próxima pessoa a morrer é Shirin Ebadi.” A única recomendação do ministro, apesar da insistência do mercenário em avançar, era a de que o crime não poderia ser cometido no mês sagrado em que os muçulmanos jejuam do nascer ao pôr do sol.

Tomada por um “avassalador sentimento de descrença”, a primeira juíza iraniana, impedida de exercer o cargo pela revolução islâmica que ela fervorosamente abraçou em 1979, interrogou-se: “Por que é que eles me odeiam tanto? O que é que eu fiz para desencadear um ódio desta espécie? De que modo é que eu criei estes inimigos, de tal modo ansiosos por derramar o meu sangue que não podem sequer esperar que o Ramadão chegue ao fim?”

“Não sei por que me querem matar”, repete Ebadi. “Não estou a competir com eles politicamente, nem sou líder da oposição. Quando faço críticas, é para que o Governo entenda o que está mal e corrija os seus erros. Estou muito surpreendida por me odiarem tanto, a ponto de desejarem a minha morte. E penso: ‘Se isto é o que querem para mim, o que farão com os verdadeiros rivais políticos?’ Eu apenas luto por uma sociedade melhor.”

Não pensem, porém, que ela tem medo. “O medo é como a fome”, afirma, interrompendo um bocejo de fadiga, olhos melancólicos subitamente iluminados.

“Não se trata de uma questão de vontade. Não temos vontade de ter fome. Apenas temos fome. Não queremos ter medo. Apenas o sentimos. Depois de anos a enfrentar adversidade, aprendi a controlar as situações de perigo e de medo. E aprendi a deixar de ter medo. Eles [no regime] tentam assustar-nos para deixarmos de fazer o nosso trabalho. Mas nós temos de fazer precisamente o contrário de tudo o que eles desejam.”

Ebadi não tem guarda-costas, porque no Irão não há segurança privada. “Tenho polícias que me espiam mais do que me protegem”, ri-se. “Ter ganho o Prémio Nobel obriga o Governo a pensar duas vezes antes de me fazer mal.” Isso não quer dizer que ela não receba ameaças. Nem impediu que a sede do Centro dos Defensores dos Direitos Humanos em Teerão, de que é presidente, fosse vandalizada perante a complacência das autoridades.

Um dos advogados do centro, Abdolfattah Soltani, foi levado para a cadeia de Evin, sem culpa formada, após as manifestações contra a reeleição do Presidente, Mahmoud Ahmadinejad, em Junho. Uma das condições para ser libertado era deixar de trabalhar com Ebadi.

[Em 2012, um “tribunal revolucionário” condenou Soltani a 18 anos de prisão, sob a acusação de “difundir propaganda antigovernamental” e “pôr em perigo a segurança nacional ao receber um prémio ilegal” – referência ao Prémio Internacional Nuremberga. Proibiram-no também de exercer a sua profissão durante 20 anos. A Amnistia Internacional descreve-o como “prisioneiro de consciência” e “um defensores mais corajosos dos direitos humanos”.]

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Evin é um lugar amargamente familiar para Ebadi. Em Junho de 2000, foi despejada aí, numa cela imunda, onde ficou em isolamento, depois de ter gravado a confissão de um miliciano envolvido na vaga de assassínios de dissidentes ordenada pelos ultraconservadores para prejudicar o então Presidente reformista, Mohammad Khatami.

Foi confundida, por guardas e reclusos, com uma prostituta, uma toxicodependente e uma estrela pornográfica. “Não passava pela cabeça de ninguém que uma mulher pudesse ser prisioneira de consciência!?”, escandalizou-se.

Em 1998, já o seu cunhado Fuad, de 17 anos, havia sido enforcado em Evin, onde cumpria uma pena de 20, por vender livros de propaganda da organização Mujahedin-e Khalq (Combatentes do Povo). “Depois de executarem Fuad, recusaram dizer ao meu marido onde o enterraram”, conta Ebadi. “Teria de esperar pelo menos um ano. Até lá não poderia realizar um funeral. Não poderia contar a ninguém. Não poderia vestir-se de luto.”

“Ao fim de um ano, soubemos que ele estava na parte velha do cemitério [de Behest-e Zahra, em Teerão], onde já não sepultavam pessoas há uns 15 anos. Fizeram isto porque não queriam que se soubesse quantas pessoas ali foram depositadas. Descobrimos que, numa semana, pelo menos 3000 tinham sido executadas. Foi muito doloroso. Fuad era um rapaz maravilhoso – e estava inocente. Este acontecimento e outros mudaram muito a minha vida.”

Fuad teve o fim de Javad, um dos protagonistas de A Gaiola de Ouro. Militante do extinto partido comunista Tudeh, foi executado em Evin, sob a acusação de traição, e lançado numa vala comum em Kharavan, o lugar reservado aos “apóstatas”. Javad é irmão de Abbas, general do exército do Xá, e de Ali, discípulo do ayatollah Khomeini. Os destinos dos três irmãos são trágicos. E é Pari, a irmã e amiga de Ebadi, quem pede que a história destes homens seja conhecida.

“Através desta família eu quis contar uma parte da história do Irão”, justifica Ebadi. “A razão está na citação que faço do famoso sociólogo iraniano Ali Shariati: ‘Se não podeis eliminar a injustiça, pelo menos contai-a a todos.” Pari, a irmã e amiga, foi obrigada a trocar Teerão por Londres, depois de tantos desgostos e ataques pessoais.

Ebadi não coloca sequer essa possibilidade, e admite que os laços de amizade quase se extinguem com a distância. “Não, não deixarei o Irão, ainda que o meu trabalho fosse muito mais fácil num país democrático”, frisa. “Permiti que as minhas duas filhas fossem estudar para o estrangeiro, porque elas prometeram voltar.”

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Um dos casos judiciais que agora preocupam Ebadi é o de sete dirigentes bahá’ís – toda a liderança da maior minoria religiosa não muçulmana do Irão (300.000 fiéis) – que há mais de um ano estão detidos em Evin. “Não fomos autorizados a vê-los e só há um mês nos deixaram ler os seus processos”, afirma a advogada, que se indigna com a perseguição a uma comunidade que nasceu na Pérsia há 150 anos e nunca deixou de ser perseguida, apesar de pregar a obediência ao governo e proibir a filiação partidária.

A religião é vista como uma heresia, por venerar Bahá’u’lláh, profeta posterior a Maomé, e ter o seu próprio livro sagrado, Kitáb-i-Aqdas, ainda que aceite o Corão e a Bíblia. Também a olham como “conspiração sionista”, porque Bahá’u’lláh está sepultado no Monte Carmelo, em Israel (aconteceu assim porque ele morreu no exílio na Palestina otomana em 1892) e porque a sede internacional, Casa Universal da Justiça, funciona na cidade israelita de Haifa.

“Já consegui, finalmente, ver os processos e concluí que não há qualquer razão para estarem detidos”, vinca Ebadi. “Eles são acusados de espionagem e de atentar contra a segurança do Estado. Já são acusações formais. Mas não há qualquer prova! Segundo as leis do Irão, eles são inocentes!”

“Pedimos que o seu julgamento seja público, porque queremos que os iranianos vejam com os próprios olhos o que vai dizer a acusação, o que nós, advogados, vamos dizer e o que vai acontecer a estes bahá’is”, entusiasma-se Ebadi. “Espero, sinceramente, que o julgamento [várias vezes adiado e agora protelado para 14 de Outubro] seja público, justo e livre. Para já, sabemos que as famílias já os podem visitar e que eles se encontram bem.”

Apesar de tudo, Shirin Ebadi está inquieta com a situação no Irão, de onde está ausente desde 11 de Junho. “Parti um dia antes das eleições, porque tinha vários compromissos, [já marcados há muito tempo].”

“As pessoas continuam os protestos, mas, infelizmente, o Governo também continua a reprimir violentamente as pessoas. Muitos iranianos têm sido presos, torturados, violados, mortos. Pelo menos 72 mortes estão confirmadas oficialmente, mas temos a certeza de que o número é maior. Porquê? Porque o regime está a enterrar as suas vítimas sem as identificar.”

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“Há uma separação cada vez maior entre o povo e o Governo”, frisa Ebadi. “Quando o fosso se alarga, é inevitável que o Governo fique cada vez mais fraco. É certo que o Governo não foi derrubado, mas seguramente que ficou enfraquecido. Jamais esqueceremos a violência nas ruas.”

Sobre a decisão do [anterior] Presidente de incluir mulheres no seu Governo, pela primeira vez desde a queda da monarquia há 30 anos, Ebadi ironiza: “O senhor Ahmadinejad pensou em dar um presente às mulheres e em conquistar o seu apoio.” Das três escolhidas, só uma foi aprovada pelo Parlamento.

“Temos agora uma ministra [da Saúde, que se demitiu por discordar das políticas do Executivo para este sector] que antes foi deputada. Conhecemos muito bem as suas ideias e o que pensa sobre determinadas questões.” Marzieh Vahid-Dastjerdi “não aceita a igualdade entre homens e mulheres e concorda com a poligamia”, sublinha. “Sim, é verdade que temos uma ministra, mas o que importa é a mentalidade do titular do cargo e não se é homem ou mulher.”

A Revolução Islâmica, lembra Ebadi, aprovou muitas leis discriminatórias. “O valor da vida de uma mulher é metade do de um homem. Se um homem e uma mulher forem atropelados juntos, ou ambos forem mortos num atentado terrorista, o dinheiro que é dado à família da mulher é metade do que é dado à família do homem. Em tribunal, o testemunho de uma mulher não é suficiente. Serão precisas duas mulheres para haver equivalência ao depoimento de um homem.”

No entanto, observa Shirin Ebadi, as mulheres representam mais de 65% dos estudantes universitários no Irão. Muitas são académicas, advogadas, médicas, engenheiras e continuam a lutar contra estas leis. Vimo-las em fotos e vídeos das recentes manifestações. Se elas continuarem os protestos, a tarefa do senhor Ahmadinejad será muito mais complicada.”

A mudança no Irão tem de ser interna, acredita Ebadi. “Prevejo que serão adoptadas mais sanções [na ONU], mas sou contra isso, porque será o povo o mais penalizado. Mas também acho que o regime deve suspender o programa de enriquecimento de urânio, para não estarmos sujeitos às ameaças de intervenção militar.”

Quando perguntamos se não há consenso no Irão sobre o programa nuclear ser “um direito nacional”, a resposta é curta e firme: “Não!” Ebadi adverte, porém, que em caso de intervenção militar (e Israel mantém esta opção na mesa), os iranianos vão esquecer-se das divergências com o poder, vão unir-se e defender o seu país.” Ela está confiante: “Não acredito que um ataque seja possível.”

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Que ninguém se deixe iludir com a baixa estatura e a aparência frágil de Shirin Ebadi. Aos 62 anos, mantém-se obstinada. “Já vos disse que sou teimosa”, observou na autobiografia, quando enumera as muitas vezes que desafiou os Mullahs.

Quando foi, por exemplo, ao Parlamento e, invocando o manual xiita da jurisprudência, base de formação dos teólogos, humilhou os conservadores provando que nada justificava que uma mulher precisasse de autorização do homem para se divorciar. Era suficiente deixar de gostar dele. Eles inventaram um estratagema para a fazer sair da sala e chumbaram o seu projecto de lei.

E quando os Mullahs aplicaram o código penal que permitia aos homens “manterem-se pessoas” e às mulheres “tornarem-se propriedade”, Ebadi foi com o marido, Javad, a um notário assinar um acordo pós-nupcial que lhe garantia, a ela, o direito de se separar e a preferência da custódia dos filhos. O notário ficou perplexo e, imaginando que Javad era analfabeto, quase o admoestou: “Por que está a fazer isto?” Ele retorquiu: “Quero salvar a minha vida.”

Javad, engenheiro electrotécnico, foi o único pretendente de Ebadi que “não teve medo” de casar com a juíza Ebadi. Ele provinha de um contexto social conservador, mas deixou que ela fosse igual a si própria, encorajando o desempenho da profissão, mas sem facilitar nas tarefas domésticas.

Por isso, quando lhe perguntamos por que é que uma mulher que combate o regime não conseguiu convencer Javad a cozinhar, limpar a casa e educar as filhas, Ebadi solta uma gargalhada: “O meu marido sempre protegeu o meu trabalho, mas não percebe nada de cuidar de uma casa. Às vezes, sim, ele tenta ajudar, mas fica tudo uma confusão, e eu digo-lhe que prefiro ser eu a fazer.”

[No seu livro Until We Are Free: My Fight for Human Rights in Iran, publicado em 2016, Shirin denuncia que o regime encorajou o marido a manter relações extraconjugais, para exercer ainda mais pressões sobre ela. Ela conta que “agentes iranianos se aproveitaram da solidão de Javad e contrataram uma mulher para o seduzir. O encontro de ambos num apartamento em Teerãofoi gravado em vídeo, para o  poderem incriminar. Detido em Evin, o marido foi “chicoteado por beber álcool e condenado a ser apedrejado, por adultério”. Para recuperar a liberdade, denunciou a mulher como “agente do Ocidente”. O casal divorciou-se depois deste drama.]

Os iranianos olham para esta mulher com admiração. Mas ela recusa ser vista como heroína, mesmo que os iranianos “não apenas se apaixonem por heróis, como se apaixonam pelo seu próprio amor por eles”, como escreveu nas suas memórias.

“Quando as pessoas sentem necessidade de heróis, é porque se sentem oprimidas”, declara. “As pessoas precisam de heróis que cuidem delas. Os iranianos têm sido muito bons para mim. Eles amam-me.”

@DR

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Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO, em 13 de Setembro de 2009 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on September 13, 2009 

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