Claudia Cardinale: Última vedeta de um cinema que desapareceu

A musa de Fellini, a Angelica de Visconti, a Aida de Zurlini, a Jill de Sergio Leone completou 70 anos de vida e 50 de carreira [em 2009]. Viajemos então na mala da rapariga que dançou para nós uma inesquecível valsa. (Ler mais | Read more…)

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Claudia Cardinale (CC) decidiu que se manteria uma actriz europeia. A italiana recusou um contrato de exclusividade com Hollywood, onde lhe deram o camarote de Marilyn Monroe e onde conheceu um dos seu ídolos, Alfred Hitchcock
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Quantas vidas cabem em 70 anos de Claudia Cardinale? Em 50 de carreira, que o Festival de Cannes homenageou em 2009, ela foi o corpo, a voz, os olhos e o sorriso de Carmelina, de Assuntina, de Ginetta, de Aida, de Angiolina, de Angelica, de Sandra, de Maria, de Jill… “Milhares de vidas,” em 96 filmes, ou como ela própria disse. Sono stata puttana e principessa. Dalla Russia all’Australia, l’Africa, l’America del Nord e del Sud.

Sorte a nossa, Claude Josephine Rose Cardin não ter seguido o sonho de infância, que era ser professora em Tunes, onde nasceu a 15 de Abril de 1938, filha do italiano Franco e da francesa Yolanda.

Sorte a nossa, ela ter vencido um concurso de misses, cujo prémio a levou a Veneza, onde foi cortejada por produtores e realizadores. Sorte a nossa, ela ter mudado de ideias – recusara inicialmente todos os convites, regressando a casa –, e ter trocado o Magreb por Roma, onde se inscreveu no Centro Sperimentale di Cinematografia.

Ficamos agradecidos ao já defunto Franco Cristaldi, o produtor que a descobriu como “jovem promessa” com quem Claudia Cardinale viveu (ela nunca confirmou o casamento) até 1975 uma tumultuosa história.

Terá sido ele o autor do contrato que, diz a “lenda” a proibia de engordar e cortar o cabelo? Certo é que nem ele sabia que ela tinha tido um filho aos 17 anos. Um menino que ela apresentava a todos como irmão e a quem só contou a verdade quando ele completou 19 anos.

Estaria escrito nas estrelas? À chegada a Veneza, o primeiro filme que viu foi Notti Bianchi e, em 1960, lá estava ela a brilhar em Rocco e suoi fratelli (“Rocco e os seus irmãos”), do mesmo realizador, Luchino Visconti. Antes, já tinha exibido beleza e talento em I soliti ignoti, de Mario Monicelli (1958), e em Maledetto imbroglio, de Pietro Germi (1959).

“Para dizer a verdade, desde o primeiro momento em que me viu, Luchino gostou de mim”, exultou Claudia, citada pelo diário britânico The Guardian. “Nós tínhamos um maravilhoso relacionamento. Era simplesmente fantástico. (…) Eu achava que ele nem dava pela minha presença, e um dia [durante as filmagens de Rocco], numa cena com muita gente, ele grita: ‘Não me mates, La Cardinale!’ Foi então que eu percebi que ele estava a olhar para mim, e que me estava a ver.”

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Em La ragazza com la valigia (“A rapariga da mala”), filme realizado por Valerio Zurlini e no qual, desempenhando o papel de uma prostituta que se sente perdida, contracena com Jacques Perrin. Ela tinha 23 anos e ele 19
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Falar de Visconti é falar de Il gattopardo (“O Leopardo”), obra-prima onde CC – sim, é como ela gosta de ser tratada, indiferente às comparações com BB (Brigitte Bardot) – incarna Angelica, a noiva burguesa do aristocrata Tancredi Falconeri (Alain Delon) que dança “o fim de uma ordem social” numa inesquecível valsa com o príncipe de Salina (Burt Lancaster).

“Não esperava que ele [Visconti] me convidasse”, conta. “Para mim, foi realmente o momento mais importante. Até porque, na mesma altura, eu estava a fazer o Otto e mezzo (“8 ½”), de Fellini, e Federico queria que eu estivesse morena e mais escura. Tinha de mudar a cor do cabelo de duas em duas semanas.”

“Era como teatro”, adiantou CC, sobre a rodagem de O Leopardo, com Visconti. “Era tudo decidido antes. Não havia improvisação. Trabalhávamos à volta de uma mesa. E os técnicos e as outras pessoas, da fotografia, das luzes, vinham no fim quando tudo estava pronto e já estávamos a representar. Tudo era preparado. (…) Ele sabia o que queria. E, é claro, era um acontecimento estar ali com ele. Eu só fazia o que ele me pedia para fazer. Um dia, disse-me: ‘Lembra-te, tens de separar a boca dos olhos. Os olhos têm de fazer exactamente o contrário do que tu dizes.’”

Há ainda mais detalhes no Guardian: “No primeiro dia em que chegámos, Luchino falava comigo, como sempre em francês, chamava-me Claudine, nunca Claudia. Aproximou-se e disse: ‘Senhor Lancaster, por favor, dance’. Começámos a dançar e ele gritou: ‘Páre!’ Pegou na minha mão e disse: ‘Quando o senhor Lancaster estiver pronto, voltaremos’.”

“Quase desmaiei, fiquei corada porque ele [o actor norte-americano] era um gigante, uma divindade. Fomos para outro lado, bebemos champanhe, falámos. Chegou então uma assistente a informar que o senhor Lancaster estava pronto. Voltámos. Luchino quis deixar bem claro, naquele instante, que era ele o mestre do set. E depois ficaram muito, muito amigos. Mas, o primeiro momento foi realmente difícil.”

Tu és tão bela. Faltam-me as palavras. Fazes o meu coração bater como o de um liceal. Não acreditas, pois não? Tu inspiras tanto respeito. (…) Sabes por que sorris desse modo? Nunca sei se me estás a julgar, a absolver ou a fazer troça de mim.

Guido Anselmi/Marcello Mastroianni, em 8 ½, de Federico Fellini

Com Visconti, “era impossível sorrir ou balbuciar uma palavra no set”, revela CC. Por outro lado, a direcção, quase em simultâneo, de 8 ½, a obra maior de Federico Fellini que nasceu de um bloqueio criativo, não podia ser mais diferente. “Era só improvisação, e podíamos gritar ou cantar. (…) Quando eu filmava, Marcello [Mastroianni, o protagonista] não estava lá. Federico sentava-se junto a mim. Era ele que falava comigo e eu respondia-lhe. Não havia guião. (…) Fellini era um mágico. Adorei trabalhar com Federico Fellini. Ele olhava para mim como seu fosse a rapariga do seu sonho no filme”.

É também importante saber que “Federico Fellini foi o primeiro a usar a minha voz. Eu tinha uma voz muito estranha. A minha educação era francesa e, ainda que a nacionalidade fosse italiana, eu não falava uma palavra de italiano.”

“As minhas raízes eram africanas. Eu sou tunisina, de três gerações. Quando cheguei para o meu primeiro filme [Anneaux d’Or, de René Vautier, 1956], não conseguia pronunciar uma palavra. Pensava que estava na lua. Não entendia o que falavam. Eu falei francês [no filme] e fui dobrada.”

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Em Rocco e suoi fratelli (“Rocco e os seus irmãos’), de Luchino Visconti. Disse ela: “Eu achava que ele nem dava pela minha presença, e um dia (…) numa cena com muita gente, ele grita: ‘Não me mates, La Cardinale!’ Foi então que eu percebi que ele estava a olhar para mim, e que me estava a ver”
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E o que diz CC de Sergio Leone, que a dirigiu em C’era una volta in West (“Aconteceu no Oeste”, 1968)? “Não percebo por que era ele considerado em Itália um realizador de categoria B. Não entendo”, confessa Claudia.

“Ele inventou os detalhes, o modo como mexemos os olhos, as mãos. Além disso, foi o primeiro a usar a música antes de começarmos o filme. Antes de cada cena, ele punha a tocar a música de Jill [McBain, o papel que ela representa]. Era fantástico, porque me tornava imediatamente a personagem. Depois da música, eu era Jill, a emoção, tudo.”

E Marcello Mastroianni, o Guido Anselmi (alter ego de Fellini em 8 ½) ou o Antonio Magnano de Il bell’Antonio (Mauro Bolognini, 1960)? “Não gosto muito de falar sobre isso”, admitiu CC, a quem se atribuem romances fugazes com alguns colegas, como Jean-Paul Belmondo e Peter Sellers, que sobre ela disse ser “a melhor invenção de Itália depois do esparguete”.

E porquê? “Porque Marcello sempre me disse que estava apaixonado por mim. Para mim, trabalho é uma coisa e a vida privada é outra. Tudo bem separado. Mas, com Marcello, tivemos durante toda a vida um óptimo relacionamento. Ele era um actor maravilhoso.” (The Guardian)

E Brigitte Bardot, co-protagonista de Les pétroleuses (1971)? “Era muito engraçada, tinha um certo medo de mim”, diverte-se CC a falar sobre BB. Costumava dizer-me: ‘Tu não és uma mulher, és um homem’. Porque eu gostava do perigo. E, entre cenas, eu levava-a no meu cavalo, subia às montanhas, e ela tinha um medo de morte. Mas foi fantástico. Os jornalistas e outras pessoas que nos rodeavam pensavam que nos íamos matar uma à outra. Mas, juntas, divertimo-nos imenso. Ficaram desapontados por não nos matarmos.”

Sabes que mais? Se eu fosse a ti, ia ali dar de beber aos rapazes. Nem podes imaginar como um homem se alegra por ver uma mulher como tu. Só de olhar para ela. E se um deles te der uma palmada no traseiro faz de conta que não foi nada. Ganharam o direito a isso.

 (Cheyenne/Jason Robards, em Era uma vez no Oeste, de Sergio Leone)
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Em Il gattopardo (“O Leopardo”), obra-prima do grande cineasta italiano Luchino Visconti, onde Claudia Cardinali incarna Angelica, a noiva burguesa do aristocrata Tancredi Falconeri (Alain Delon). Aqui ela dança “o fim de uma ordem social” numa valsa inesquecível com o príncipe de Salina (Burt Lancaster)
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Deixemos agora outros falar sobre Claudia Cardinale. Augusto M. Seabra, crítico, sociólogo e programador, que participou com ela no júri do Festival de Cannes em 1993, jamais esquecerá “o privilégio que foi conviver e trabalhar durante 12 dias” com CC.

“Até então nunca tinha tido uma experiência tão próxima do que é, de facto, uma star”, descreveu, numa entrevista que me deu. “Ela tem um magnetismo e, perante a pressão dos fotógrafos, que é uma experiência intimidante e fisicamente desgastante, ela tinha a capacidade de se voltar para cada um deles e fazer a pose e o sorriso.”

Judy Davis, uma outra actriz do júri, que acabara de fazer Maridos e Mulheres, com Woody Allen, não estava lidar bem com a situação, ao contrário de Claudia. “Houve momentos em que tive de a amparar”, acrescentou Seabra.

“Devo dizer que num júri, os actores são os elementos mais difíceis para uma discussão, porque têm uma visão muito particular”, salienta Seabra. “Claudia fez uma enorme diferença, pela sua capacidade de falar do cinema. Não é propriamente um segredo que tenha ficado nos bastidores do festival, mas uma história conhecida, que houve uma forte polarização neste júri.”

“Havia um grande favoritismo à partida para um filme, que era O Piano, de Jane Campion, e ela foi uma das primeiras pessoas que se ligou à minha posição de que tinha de ser um ex-aequo d’O Piano e do Adeus minha concubina [de Chen Kaige]. Foi a posição que veio a ganhar, com o júri empatado 5 a 5, e o voto de desempate a ser o do presidente do júri, Louis Malle.”

Nas horas em que o júri ficou retido numa villa, sem contactos com o exterior, até partir para a gala final e o anúncio dos prémios, Seabra lembra-se ainda de como Claudia ficou “estupefacta” por ter de se vestir e fazer a toillete dentro da casa onde estavam. Foi um de vários episódios de 12 dias em que ambos evocaram memórias.

“Quando lhe falei de um papel marcante dela, que está um bocadinho esquecido, em A rapariga da mala [La ragazza com la valigia, 1961], de Valerio Zurlini e com Jacques Perrin ela só dizia: ‘Que realizador tão difícil’. Também achava que um dos filmes que fez com o Visconti, Vaghe stelle dell’Orsa (1965), foi uma experiência muito complicada e que o filme não funcionou.”

“Mas ela tinha uma relação quase filial com o Visconti, e a passagem para um realizador como o Zurlini não lhe deixou as melhores recordações. Talvez não tenha presente como o papel dela marcou tanta gente, ainda que o seu estatuto ímpar tivesse ficado registado em O Leopardo.”

Seabra rende-se: “É preciso dizer que Claudia Cardinale continua uma presença fascinante, ao contrário de outro ícone dos anos 60, Brigitte Bardot, cuja imagem já não diz nada, excepto a do filme do [Jean-Luc] Goddard [Le Mépris, 1963]. CC sobrevive, e de que maneira! Ela tem um magnetismo e uma inteligência muito especiais. Sublinho que ela é extremamente inteligente. Não é apenas uma cara bonita. Está para além disso. É uma presença completamente resplandecente e isso tem a ver com um carisma muito pessoal, a tal star quality”.

Se tivesse de programar um ciclo dedicado a CC, Seabra escolheria três filmes: O Leopardo, A rapariga da mala e Aconteceu no Oeste. No filme de Sergio Leone, onde contracena com Henry Fonda, Jason Robards e Charles Bronson, “ela tem um grande papel”.

Aida (…) não sei por que te digo isto, mas quando te encontrei, pensei que à mínima coisa que tu precisasses de mim, eu viria a correr. Tu és a única pessoa que precisa de mim. Talvez não. Mas que interessa.

(Lorenzo Feinardi/Jacques Perrin, em A rapariga da mala)
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Em Otto e mezzo (“8/2”) a obra maior de Federico Fellini que nasceu de um bloqueio criativo. “Era só improvisação, e podíamos gritar ou cantar”, diz Claudia. “Quando eu filmava, Marcello [Mastroianni, o protagonista] não estava lá. Federico sentava-se junto a mim. Era ele que falava comigo e eu respondia-lhe. Não havia guião. (…) Fellini era um mágico. Ele olhava para mim como seu fosse a rapariga do seu sonho no filme”
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Por que é que Jorge Silva Melo, cineasta, dramaturgo, encenador, actor, ensaísta, também gosta de Claudia Cardinale? Porque “ela é de uma bondade e um sorriso de uma generosidade contagiante”, disse-nos, também ele efusivo, como se falasse de um grande amor.

Ficou preso ao seu fascínio desde que a viu num “filme muito bonito, de Mario Monicelli, chamado Gangsters Falhados [I Soliti Ignoti], e depois em Rocco e os seus irmãos, com um bebé ao colo. Todas as ideias sobre a maternidade, a doçura, o redondo das formas estão naquela mulher.”

Para Silva Melo, CC “era nos anos [19]60 o que, nos anos [19]50, foi a sueca Ingrid Bergman: a presença de uma mulher simples, irradiando candura, frescura. Depois, o que ela teve de extraordinário na sua carreira foi não só ter feito grandes filmes, como entrou numa produção média italiana de grandíssima qualidade – os filmes com Francesco Maselli, que é um realizador de que eu gosto particularmente, chamado Os Delfins [I Delfini, 1960], sobre a jovem aristocracia italiana hesitante com os tempos modernos e com os compromissos com o Partido Comunista; os filmes com [Luigi] Comencini, como A rapariga de Bube [La ragazza di Bube, 1963] ou um filme muito bonito [de Pietro Germi] chamado Un maledetto imbroglio, baseado num romance lindíssimo do [Carlo Emilio] Gadda.”

“Para mim, há dois momentos importantes: um é A rapariga da mala, onde ela é absolutamente extraordinária, com a chamada graça vulgar. Porque é uma mulher vulgar. E, no entanto, aquele sorriso, aquela beleza, transforma a vulgaridade. Ela começa o filme a urinar numa estrada, e com que graça faz isso.”

“Numa cena que podia ser escabrosa, que delícia de graça. Depois, o Visconti encontra nela a burguesia ascendente e, realmente, a dança que ela faz com o príncipe, Burt Lancaster, é um dos momentos sublimes da história do cinema.”

“Eu conheci vários realizadores que trabalharam com ela, entre os quais Francesco Maselli, de quem sou amigo”, refere Silva Melo. “O Maselli disse-me: ‘Uma filmagem com a Claudia Cardinale é a paz, ela está atenta a todos os pequenos conflitos que existem entre todas as pessoas, resolve tudo e tu nem notas. Quando a tens no elenco, ela organiza as coisas, há uma espécie de candura’. Raffaello, o pintor, teria gostado de a conhecer. Claudia Cardinale é uma figura luminosa, bela e com um sorriso que é único.”

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Em C’era una volta in West (“Aconteceu no Oeste), de Sergio Leone e com Jason Robards, “Não percebo por que era ele considerado em Itália um realizador de categoria B”, lamenta Claudia “Ele inventou os detalhes, o modo como mexemos os olhos, as mãos. Além disso, foi o primeiro a usar a música antes de começarmos o filme”
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E diz mais Silva Melo: “Ela parece que nem representa. Entre A rapariga da mala, onde faz uma jovem prostituta perdida, hesitante e com um passado duro e duvidoso, ou a jovem burguesa Angelica de O Leopardo, há uma grande versatilidade. Ela não mostra só uma grande actriz. Ela está lá. Tão simplesmente como isso.”

“Chega, está lá e a gente acredita. Ela é a aventureira de Aconteceu no Oeste ou de Os profissionais [1966, novamente com Burt Lancaster], de Richard Brooks, no tempo de Hollywood. Nós acreditamos que aquela mulher é assim. E isso é um segredo que poucos actores conseguem.”

Apesar de lhe reconhecer toda esta grandeza, Silva Melo admite que CC foi, de certo modo, menorizada. “Porque era uma altura em que muitos intelectuais achavam que as belezas italianas eram só sex-appeal. Esqueciam-se que muitas das actrizes do cinema italiano tinham vindo do mundo das misses e dos modelos.”

“Ela ganhou um concurso de beleza, como todas as actrizes dos anos 19]50 em Itália, mesmo as que fizeram os filmes mais intelectuais, como a Lucia Bosé [que trabalhou com Michelangelo Antonioni e Dino Risi], vinham dos concursos e isso era normal. A Lucia Bosé [que foi Miss Itália em 1947] era filha de um padeiro milanês, como é que ela podia ser conhecida em Roma?”

“Claro que se dizia [de CC] que ‘ela é uma brasa; é só uma boazona”. Mas, em Itália, não era assim. Dos realizadores que existiam entre 1957-1958 e em 1968, todos trabalharam com Claudia Cardinale. Com [Mauro] Bolognini ela faz um papel num lindíssimo filme, Senilidade [Senilità, 1961], baseado num romance do [Italo] Svevo, onde é uma jovem por quem um velho se apaixona. Extraordinário. Ela foi uma presença muito sólida. É um bem-estar. Não se sente nenhuma inquietação naquela pessoa, mas sim uma espécie de plenitude solar.”.

Se tivesse de escolher um título que definisse CC, Silva Melo nem hesitaria: “’Luminosa’. A luminosidade interior dela, como os modelos de Raffaello. Não são os projectores que a iluminam. A luz emana dela. Talento tem com certeza, mas o sorriso nunca é objecto de talento. Vem de dentro. E aquele sorriso é único.”

“Ela viveu um momento particularmente importante. O grande apogeu do cinema médio italiano, não só dos grandes mestres. Ela fazia quatro, cinco filmes por ano, de grande qualidade, que já não se fazem. Ela conseguia trabalhar num mesmo ano com Visconti, com Fellini, com Comencini, com Bolognini.”

“Isso permitia a existência de actores fantásticos, e Claudia Cardinale teve essa sorte. Ela é a última vedeta de um cinema que desapareceu. Em França é a Catherine Deneuve, essa última vedeta, um bocadinho mais nova. A seguir vieram actrizes brilhantes, mas que duraram pouco tempo. São usadas pelo cinema e deitadas fora.”

Deves tudo a ti mesma. (…) Ninguém pode resistir à tua beleza

(Don Fabrizio, príncipe de Salina/Burt Lancaster, em O Leopardo)
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Sobre Brigitte Bardot, co-protagonista de Les pétroleuses, diverte-se Claudia: “Ela era muito engraçada, tinha um certo medo de mim. Costumava dizer-me: ‘Tu não és uma mulher, és um homem’. Porque eu gostava do perigo. E, entre cenas, eu levava-a no meu cavalo, subia às montanhas, e ela tinha um medo de morte. Mas foi fantástico. Os jornalistas e outras pessoas pensavam que nos íamos matar uma à outra. Mas, juntas, divertimo-nos imenso”
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A actriz Beatriz Batarda, também ela aclamada em filmes como A Costa dos Murmúrios ou Noite Escura, realça em CC “a beleza natural e selvagem, quase inigualável”. Além disso, assegura, “não há mais ninguém com aquele olhar muito particular que ela tem. O que impressiona no seu trabalho é ser de um modernismo incrível.”

“Embora não tenha sido com certeza ela que inventou isso, depois de ela aparecer começou a pegar muito aquela maneira de representar. Só confia no estar, estar no momento, estar muito presente, sem esforço de representação, sem ilustrar nada, sem impor nada. Apenas tem a presença de quem está disponível para o momento que está a ser filmado, que está a acontecer, e reage com a subtileza de quem tem essa disponibilidade. E isso é, de facto, muito moderno”.

Porquê? “Porque quando ela apareceu, ainda se cultivava muito o registo bastante teatral no cinema. Enfim, das mulheres da geração dela, ela não foi uma pioneira, mas abriu uma maneira diferente para as mulheres de estar em película, no cinema.”

Beatriz Batarda também destaca a versatilidade de CC nos seus vários filmes, e explica: “Há muitas coisas que influenciam o trabalho de um actor, não só a personagem mas o realizador que nos está a dirigir, e muitas vezes o produto final, o efeito final, é muito condicionado até pela relação entre as pessoas e aquilo que é pedido, mas também pela natureza da relação.”

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Embaixadora da UNICEF, militante ecologista e defensora direitos das crianças, das mulheres e dos homossexuais, CC usa cremes mas não pensa recorrer à cirurgia plástica para esconder o envelhecimento: “Incomoda-me as mulheres todas refeitas, de bocas com silicone. Parecem todas iguais, uns robôs”
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Sobre a opção de Claudia Cardinale de se manter uma actriz europeia, que recusou um contrato de exclusividade com Hollywood, onde lhe deram o camarote de Marilyn Monroe e onde conheceu um dos seu ídolos, Alfred Hitchcock, Beatriz Batarda encontra “muitas justificações possíveis”, e considera “complicado fazer um julgamento de atitude”.

Em seu entender, “pode ter sido uma forma de se defender, pela relação que tinha com o inglês, ou uma maneira de defender a vida privada, porque na Europa tudo é mais anónimo e discreto, mais fácil de controlar [ainda que não tenham sido silenciados os rumores de um affair de CC com o ex-Presidente francês Jacques Chirac]. Acho que os actores devem ser fiéis com o que se identificam. Há uns que têm perfil para fazer filmes industriais, como os da cultura americana, e outros têm mais perfil para cinema de autor. É honesto e genuíno para cada um dos lados.”

Para alguém que tem em O Leopardo e Rocco e os seus irmãos dois dos seus “filmes preferidos”, Beatriz Batarda confessa que “adoraria, aspiraria” a rever-se como actriz em Claudia Cardinale. “Ela tem uma solidez e uma segurança interior! Ainda me falta muito para chegar lá”.

Hoje, CC vive em Paris, sempre apoiada pelo seu companheiro, Pasquale Squitieri, que reside em Roma e de quem tem uma filha, também chamada Claudia. “Pasquale é louco e inteligente”, disse a “diva” numa reportagem da revista brasileira Caras. “Não me apaixono por gente muito normal. Gosto de pessoas divertidas. Ele compreende o meu ritmo de vida, e eu, o dele.” É ele quem dirige agora uma mini-série Viaggio de un’italiana, escrita por Giordano Bruno Guerri, para a Odeon TV.

Ela encontrou, entretanto, uma nova paixão: o teatro. Silva Melo, que continua a seguir-lhe os passos, navegando na Internet, lendo La Reppublica ou quando revisita os seus lugares de filmagem em Itália, diz que ela participou [recentemente] numa peça anónima, do século XVII, chamada A Veneziana. E também representou Doce Pássaro da Juventude, de Tennessee Williams.

Além disso, Claudia Cardinale continua o seu activismo. Embaixadora da UNICEF, ecologista militante e sempre em luta pelos direitos das crianças, das mulheres e dos homossexuais. “Digo sempre, sou la ragazza com la valigia. Tenho muita energia para gastar ainda.”

E não, não está a pensar em fazer cirurgia plástica. “Tenho rugas, mas uso cremes. Cada idade tem a sua beleza. Incomoda-me as mulheres todas refeitas, de bocas com silicone. Parecem todas iguais, uns robôs. A beleza não tem importância. O que vale é o que se consegue transmitir.”

Tanti auguri [muitos parabéns] Claudia!

Portrait of Claudia Cardinale, 2013 @Hans Broek

Retrato de Claudia Cardinale, 2013
© Hans Broek

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 2009 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO in 2009

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