“Dining with al-Qaeda” não é um livro de culinária

O Médio Oriente são “muitos mundos”. Hugh Pope percorreu-os durante 30 anos e agora revela, numa obra notável, as suas várias histórias, incluindo as que o Wall Street Journal omitiu e as que Robert Fisk “inventou”. A viagem começa num bordel na Síria, onde o antigo aluno de Oxford rapidamente percebeu que não bastava ser fluente em árabe, persa e turco para compreender uma região complexa. (Ler mais | Read more…)

Hugh Pope e o seu livro Dining with Al-Qaeda
© hughpope.com

Depois de três décadas como correspondente no Médio Oriente de vários “media” internacionais e, em particular, do Wall Street Journal (WSJ), Hugh Pope desistiu de ser repórter. As dificuldades que tantas vezes encontrou para poder contar o que viu e ouviu deixaram-no frustrado.

Os seus artigos foram frequentemente reescritos – e até não publicados – para poder agradar a uma audiência muito singular.

“Quando, por exemplo, escrevi que os palestinianos foram ‘forçados a deixar’ as suas casas e a exilar-se, os vigias do lobby pró-Israel (…) activaram uma campanha para exigir o uso da palavra ‘fugiram’”, conta Pope, actualmente director Projecto Turquia/Chipre do think tank International Crisis Group, em Istambul.

“Quando escrevi que três milhões de palestinianos fora da Palestina pré-1948 são ‘refugiados’, forçados ao exílio pela expansão de Israel, e estão impedidos de regressar, os ‘lobbyistas’ quiseram que [o WSJ] os dividisse em refugiados originais e seus descendentes. (…) Com todas estas omissões e subterfúgios, fomos acrescentando mais um tijolo à grande muralha de incompreensão que agora separa a América do Médio Oriente.”

Ao longo de mais de 300 páginas, sem seguir uma ordem cronológica, Hugh Pope ajuda-nos a descodificar a complexidade do que ele designou por “os muitos mundos” do Médio Oriente.

Um Médio Oriente que inclui Wau, no Sul do Sudão, onde se encontrou “pela primeira vez face a face com a fome”; o Irão onde, depois de uma visita ao túmulo de Hafez, cujos poemas são mais vendidos do que o livro sagrado dos muçulmanos, percebeu que “Morte à América” pode querer dizer apenas “América, por favor, mostra que gostas de mim”; o Afeganistão, onde o governador taliban do Banco Central o recebeu de olhos no chão, descalço e sem nunca lhe apertar a mão –, mas confiante de que iria atrair muitos investidores estrangeiros; a Arábia Saudita, onde o dissidente Sami Angawi tentou provar-lhe que pouco distingue a Al-Qaeda dos wahhabitas no poder: “É a diferença entre Marlboro e Marlboro Light”.

Foi ao reino onde os suicidas dos atentados terroristas do 11 de Setembro são admirados (por alguns) como “rapazes maravilhosos”, que Hugh Pope foi buscar a ideia para o título do seu livro. Dining with al-Qaeda – Three decades exploring the many worlds of the Middle East é o capítulo em que narra o encontro com um da’i, ou missionário, da rede de Osama bin Laden. Intimidado com a hostilidade do jovem de 24 anos,

Wau, no Sudão, um dos “muitos mundos” do Médio Oriente de Hugh Pope
© YouTube

Hugh iniciou assim a conversa: “Sei que a imprensa ocidental pode parecer distante e hostil, mas isso é porque a vossa voz não é ouvida. As pessoas não estão familiarizadas com a vossa perspectiva. Se aceitar falar comigo, posso dar a conhecer o vosso ponto de vista”. Depois de uns minutos de silêncio, o interlocutor perguntou: “Devo matá-lo?”

Pope escapou ao destino do seu colega Daniel Pearl (decapitado no Paquistão) porque conhecia bem as escrituras e as Hadith (tradições) de Maomé. Argumentou que o seu visto de entrada na Arábia Saudita seria equivalente ao salvo-conduto que os estrangeiros cristãos recebiam do profeta do Islão.

“Realmente o visto está assinado pelo rei, mas há teólogos que consideram o rei ilegítimo”, contrapôs o discípulo de Bin Laden. “Mas as orações de sexta-feira são rezadas em nome dele”, contestou Pope. “É verdade. Tudo bem. Aceito que tem autorização para estar aqui”, condescendeu o da’i, que a partir daí ofereceu a Pope “uma nova perspectiva” sobre a Al-Qaeda.

“Para meu espanto”, confessa o repórter várias vezes confundido com o actor Hugh Grant, o Journal não estava interessado neste relato. A principal razão prendia-se com o facto de o missionário não estar identificado. Obviamente que ele não me iria dar o seu nome e toda a história da sua vida, tendo sido preso quatro vez pela polícia saudita desde o 11 de Setembro.”

Esta é uma entrevista, por e-mail, com Hugh Pope, que já anteriormente publicara duas obras de referência, Turkey Unveiled (com a sua ex-mulher, Nicole Pope) e Sons of the Conquerors: The Rise of the Turkic World:

O túmulo do grande poeta Hafez na cidade iraniana de Shiraz : um dos “muitos mundos” do Médio Oriente de Hugh Pope
© Getty Images | NPR

Reconheceu que o título do seu livro, por alguns considerado enganador, “iria sempre chamar a atenção”. Pode explicar o processo que conduziu a Dining with al-Qaeda?

De início, pretendia realçar a natureza pessoal do livro e dar-lhe o título de Mr. Q, I Love You [o do primeiro capítulo]. Mas o meu editor e outros não gostaram e sugeriram Eating Chinese with Al-Qaeda (título de outro capítulo). Um velho colega do Wall Street Journal notou que isto soava a canibalismo, então decidi brincar com a ideia Dining Out with Al-Qaeda.

A minha filha Vanessa achou, no entanto, que bastava ‘Dining with Al-Qaeda’. Sim, o título chama a atenção, e até tenho recebido mensagens de pessoas que retiraram o livro das prateleiras das livrarias pensando que se tratava de receitas de culinária!

Outros pensaram que era um estudo sobre a própria organização, mas creio que o livro consegue transmitir a mensagem básica de que é um olhar sobre o Médio Oriente a partir de perspectivas inusitadas.

Também creio que contém muitas mensagens sobre como o Ocidente deve aproximar-se da região, com mais empatia e compreensão, o que poderá contribuir para reduzir o apoio à al-Qaeda.

Por que sentiu a necessidade de escrever este livro – e porquê agora? São memórias?

O livro é um conjunto de várias coisas: memória de acontecimentos cómicos e trágicos, uma tentativa de mostrar todas as correntes que atravessam as vidas e as políticas no Médio Oriente, e é também um estudo sobre como o jornalismo pode, sem intenção, contribuir para a incompreensão da região, particularmente na América. O que tentei fazer foi escrever sobre coisas que eu, pessoalmente, vi ou com as quais tive experiência directa.

O livro é invulgar porque tenta mostrar os laços entre o mundo árabe, o persa e o turco que compõem o principal triângulo do universo do Médio Oriente, em conjunto com outros elementos importante como os mundos judaico, curdo, afegão. Não é um livro com um ângulo restrito (o Irão nuclear, Israel-Palestina, Afeganistão-Paquistão…)

A razão por que senti necessidade de escrever este livro foi a experiência dolorosa de cobrir o Iraque, antes, durante e depois da invasão norte-americana em 2003.

Eu era o único repórter do ‘Wall Street Journal’ enviado ao Iraque no ano anterior à invasão, e senti-me muito frustrado por tão poucas pessoas nos Estados Unidos poderem ser persuadidas de que a guerra era desnecessária, algo que eu tentava arduamente explicar.

O Afeganistão dos Taliban: um dos “muitos mundos” do Médio Oriente de Hugh Pope
© Sky News

Na luta constante com os seus editores (sobretudo no WSJ) para não ceder aos “interesses” de audiências e grupos de pressão americanos, sentiu que também frustrou as esperanças dos povos do Médio Oriente de serem compreendidos? Foi essa frustração que o levou a desistir de ser jornalista e dedicar-se ao International Crisis Group?

Sim, senti algumas frustrações quando trabalhava para editores americanos. Como faço notar, abundantemente, no meu livro, os meus editores no Wall Street Journal eram muito honestos, rigorosos, exigentes, representado o pináculo da nossa profissão [Pope exemplifica em Dining with Al-Qaeda] a extrema dificuldade em conseguir ter uma notícia publicada na primeira página do WSJ].

Só quando comecei este livro me dei conta de quanto a nossa forma de escrever é distorcida por preconceitos, tabus e (nos bastidores) por interesses e grupos políticos. Demorei algum tempo a examinar, a uma nova luz, a evolução dos meus artigos através do processo de edição e descobri, repetidas vezes, tendências que, no passado, não havia detectado.

O mais surpreendente, para mim, não foi a tendência para proteger Israel, mas o modo como os artigos tendiam a ser conforme os desejos dos leitores americanos por histórias optimistas, finais felizes e personagens heróicas nos papéis principais.

No American story-telling, são estas características que mais atraem, mas pouco têm a ver com a realidade do Médio Oriente.

Depois da guerra do Iraque pedi uma licença ao Journal para construir uma casa e, talvez, escrever um livro. Quando deixei o WSJ, tive muita sorte quando me ofereceram um emprego no International Crisis Group.

Não sabia naquela altura, mas descobri que escrever para o ICG é o que eu sempre quis que o jornalismo fosse – intenso, reportagem factual de acontecimentos importantes, sem embelezamentos para agradar à audiência.

A Arábia Saudita wahhabita : um dos “muitos mundos” do Médio Oriente de Hugh Pope
© Newsweek

De um bordel na Síria até à guerra no Iraque, que aventuras e acontecimentos foram os mais extraordinários e marcantes desta sua “viagem” [que inclui guerras mas também romances fugazes e tentativas fracassadas de o recrutar como espião]?

As aventuras e acontecimentos mais complicados foram, creio eu, os mais memoráveis. Foram aqueles que senti que poucas pessoas poderiam suportar.

Estar dez semanas numa pequena terrinha do Sul do Sudão cercada por guerrilheiros rebeldes como um dos poucos estrangeiros e o único repórter; ver em primeira mão o medo e bravura dos homens nas linhas da frente da guerra Irão-Iraque.

O dia em que testemunhei, por mero acaso, o início da revolta tchetchena contra a Rússia ou descobrir-me fechado num bordel enquanto uma grande revolta [da Irmandade Muçulmana contra o anterior Presidente, Hafez al-Assad] era suprimida numa cidade síria.

Para algo ser memorável creio que é preciso ter sido perigoso ou inesperado – o que é mais raro do que se pensa, até mesmo no jornalismo. Nunca procurei o perigo, mas em países instáveis, o perigo por vezes encontra-nos.

Por que sentiu necessidade de expor as fiskeries do veterano Robert Fisk? Será que podemos estabelecer um paralelo entre histórias alegadamente “inventadas” por Fisk e as realidades supostamente “omitidas” pelo WSJ?

Sim, existe um paralelo: não há uma realidade única. Jornalistas e jornais são falíveis, e toda a gente deveria pensar cuidadosamente sobre o que está a ler, nunca suspender as suas faculdades críticas, por muito que as frases tenham ‘glamour’ ou por muito reputado que seja o autor.

Robert Fisk não é o único jornalista que claramente extrapolou a exactidão do seu jornalismo, mas porque informações e alegações de Fisk tiveram impacto no decurso da minha vida e carreira [Pope recebeu ordem de expulsão da Turquia, em 1991, por causa de um artigo, “sem qualquer fundamento”, sobre rebeldes curdos que Fisk publicou no diário britânico The Independent para o qual ambos trabalhavam] senti que a sua escrita, por muito brilhante e influente que seja, merece um exame crítico.

Robert Fisk, diz Hugh Pope, “não é o único jornalista que claramente extrapolou a exactidão do seu jornalismo, mas porque informações e alegações [deste jornalista do diário britânico The Independent] tiveram impacto no decurso da minha vida e carreira senti que a sua escrita, por muito brilhante e influente que seja, merece um exame crítico”
© Palestine Chronicle

Agora que está dedicado ao Projecto Turquia/Chipre do ICG, ajude-nos a avaliar, resumidamente, os vários focos de tensão na região. Comecemos pelo Irão …

Eu escrevo sobretudo sobre o triângulo Turquia-Chipre-União Europeia, mas tem havido uma grande procura de informação sobre as relações da Turquia com o Irão e sobre se elas demonstram que a Turquia se “está a afastar do Ocidente”.

No Crisis Group, não temos prova disso. Já em 2010 apresentámos um relatório sobre a Turquia no Médio Oriente – incluindo as suas relações com o Irão – e estamos prestes a publicar outro que detalha as razões por que a Turquia considera que um compromisso é preferível a sanções, e por que razão a Turquia partilha genuinamente o objectivo do Ocidente de que o Irão não deve possuir armas nucleares.

O Afeganistão…

O Afeganistão tem apenas um interesse indirecto para o Projecto Turquia/Chipre, uma vez que a Turquia só desempenha ali um papel [militar] não combatente, estando a tentar desenvolver melhores relações entre Cabul e Islamabad.

O Iraque, vizinho da Turquia…

O Iraque é frequentemente avaliado nos nossos relatórios, um deles, o de 2008 que refere uma melhoria revolucionária nas relações com os curdos iraquianos.

A Turquia, o centro do seu projecto…

O gabinete do ICG em Istambul olha, sobretudo, para o papel da Turquia no que diz respeito aos aspectos internacionais das crises nas regiões – não para os assuntos internos turcos. Contudo, damos atenção à situação doméstica sob o prisma do processo de adesão à UE, e num próximo relatório abordaremos aspectos da insurreição do PKK [Partido dos Trabalhadores do Curdistão, separatista].

Hugh Pope está agora dedicado ao Projecto Turquia/Chipre do International Crisis Group
© Reuters

O conflito Israel-Palestina…

Israel tornou-se um problema, no último ano, à medida que as relações [com Ancara] se deterioraram, afectando subsequentemente os laços da Turquia com os EUA, com países árabes e outros. Este será o tema central de um relatório que será publicado durante o mês de Setembro. Centrar-se-á na Turquia, Israel e o Irão, e argumentará que a Turquia não procurou o conflito e que foi excessiva a acção israelita, da qual resultou a morte de 90 pessoas, contra uma flotilha liderada por turcos para quebrar o bloqueio de Gaza.

A Síria e o Líbano…

Estes países fazem parte dos nossos relatórios sobre a Turquia e o Médio Oriente porque nunca desde o fim do Império Otomano estiveram tão próximos da Turquia. Argumentamos que o esforço da Turquia para desenvolver estas relações, de modo a garantir estabilidade e prosperidade – comércio e viagens mais livres, a integração de economias e infra-estruturas, incluindo [nestas parcerias] a Jordânia e, possivelmente, outros países do Médio Oriente – é um dos acontecimentos mais positivos registados desde há vários anos no Médio Oriente.

Finalmente, como avalia as políticas do Presidente Barack Obama em relação aos “muitos mundos” do Médio Oriente?

Como digo, em Dining with al-Qaeda, ele representa uma nova empatia face ao Médio Oriente. Isto talvez tenha sido exagerado quer pelas pessoas do Médio Oriente (que vêem Barack ‘Hussein’ Obama como estando naturalmente do seu lado) quer pelos conservadores nos Estados Unidos e em Israel (que receiam que ele esteja realmente do lado do Médio Oriente).

Duvido que o establishment norte-americano esteja prestes a fazer mudanças substanciais numa política fortemente implantada na região, sobretudo numa altura de grande envolvimento dos EUA no Iraque e no Afeganistão, ou que vá haver mudanças fundamentais em relação a Israel ou no que diz respeito aos radicais anti-EUA.

Em todo o caso, o modo como Obama estendeu a mão, primeiro à Turquia e depois ao mundo árabe, mostrou que está a tentar mudar o modo como os Estados Unidos são vistos, e que ele compreende que há “muitos mundos no Médio Oriente”.

Hugh Pope

Este artigo foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 15 de Outubro de 2010 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on October 15, 2010

A “nobre Pérsia” e o “desventurado Irão” de Shirin Ebadi

Por que é que os iranianos saíram à rua numa “revolução verde”? A resposta está em A Gaiola de Ouro, da juíza-advogada que, em 2003, ganhou o Prémio Nobel da Paz. (Ler mais | Read more…)

Shirin Ebadi, Prémio Nobel da paz, quando veio a Lisboa apresentar A Gaiola de Ouro
© Enric Vives-Rubio

Esta é a história de Abbas, de Javad e de Ali, mas é também a história da “nobre Pérsia e do desventurado Irão”. Esta é a história de uma família e de uma nação “desfeitas, dilaceradas, destruídas pelo ódio político trazido como um vento maléfico pela revolução islâmica”.

Depois de lerem A Gaiola de Ouro (Ed. Esfera dos Livros), disse-nos a autora, Shirin Ebadi, “vão compreender as razões por detrás da fúria do povo contra o governo, e porque milhões de iranianos foram para as ruas protestar [em 2009, contra a reeleição, alegadamente fraudulenta, do [anterior] Presidente Mahmoud Ahmadinejad]”.

A ira popular “não foi motivada apenas pelas eleições mas pelo que se passa neste país nos últimos 30 anos”, acrescentou a advogada que recebeu o Nobel da Paz em 2003.

O livro de Shirin Ebadi, proibido no Irão, só podia começar no cemitério de Khavaran, onde o regime dos Mullahs enterra os seus “traidores”.

Não é difícil de imaginar que as valas comuns neste lugar onde os mortos não têm nomes, nem campas nem flores tenham voltado a encher-se nos últimos dias de repressão. Assim como se voltaram a encher as prisões e as celas de isolamento ou de “tortura branca”.

Relatórios e imagens divulgados pela Amnistia Internacional e pela Human Rights Watch não são muito diferentes da descrição que Ebadi – a primeira mulher juíza no Irão mas impedida de exercer o cargo – faz da sua própria detenção. “A porta fecha-se atrás de mim com um clique seco”, escreveu.

“Encontro-me num compartimento de três metros por dois. Quatro paredes cinzentas e lisas, sem escritos. Do tecto pende uma lâmpada de luz fraca. Não há janela. O pavimento está coberto por uma alcatifa impregnada de pó e excrementos. (…) Não há nenhum ruído à minha volta, nenhum lamento, nenhuma respiração.” (Pp 61-64)

Shirin Ebadi (centro) em 21 de Dezembro de 2008, à saída do Centro de Protecção dos Direitos Humanos no Irão, depois de a polícia ter efectuado uma rusga e encerrado as instalações
© Vahid Salemi | AP

Os destinos de Abbas, de Javad e de Ali foram mais funestos. Javad, por exemplo, saiu da infame prisão de Evin para o cemitério de Khavaran. Queriam forçá-lo à humilhação de passar pela “rampa do arrependimento”, mas ele manteve-se fiel às suas convicções.

Militante do Tudeh, o partido comunista que ajudou o Ayatollah Khomeini a derrubar o Xá Mohammad Reza Pahlavi para depois ser aniquilado pela revolução islâmica, Javad é uma das “personagens” mais tocantes do livro de Ebadi.

Ninguém ficará também indiferente ao fim trágico de Abbas, um general tão leal ao imperador que, quando este se exilou, tudo à sua volta ruiu.

A viver nos EUA sem poder regressar, perdeu os bens, confiscados no Irão, perdeu a mulher, que morreu de cancro, e perdeu a vida, quando se suicidou ao descobrir o segredo do seu filho mais querido.

Inesquecível é igualmente a figura de Ali, o irmão mais novo de Abbas e de Javad. Fiel devoto de Khomeini, apercebe-se de como o regime traiu as suas promessas, quando vai trabalhar para os serviços de segurança depois de a sua mulher e único filho terem sido mortos durante a guerra com o Iraque.

Tal como o ayatollah seu mentor, Ali pediu asilo político à França, mas como ele próprio dissera quando era um “revolucionário”, para justificar os condenados e os executados em nome de Deus: “A República Islâmica não faz nada sem uma razão”. A brutalidade com que o mataram impressiona.

Finalmente, temos Pari, a irmã de Abbas, de Javad e de Ali. Médica e professora universitária, resistiu a não deixar o país, mas que podia fazer depois de ter sido despedida e de o seu consultório ter sido completamente vandalizado.

Em cima da secretária colocaram a cabeça cortada de um cão, estilhaçaram vidros, rasgaram cortinas, danificaram instrumentos, pisaram comprimidos, espremeram tubos de pomada pelos móveis e pelo cão, queimaram o certificado de licenciatura. (pp 207 e 208).

Foi Pari, destroçada com o seu drama familiar, que pediu à melhor amiga, Shrin Ebadi, um livro em memória dos três homens para quem a “gaiola de ouro” nunca se abriu.

Shirin Ebadi
Cortesia de | Courtesy of © Pedro Vieira

Este artigo, agora revisto, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO | This article, now revised, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO

Roxana e Mehrnoushe: Dois anjos em Evin

A jornalista Roxana Saberi queria escrever um livro sobre um país “misterioso e incompreendido”. A documentarista Mehrnoushe Solouki queria filmar uma “terra maldita”. O regime islâmico não gostou. Levou-as para a secção 209 de Evin. Em Between Two Worlds: My Life and Captivity in Iran e Fatwa de Sang, elas descrevem como o Irão se tornou numa grande prisão. Estas são as suas histórias, contadas na primeira pessoa. (Ler mais | Read more...)

A mais vil prisão iraniana era um antigo jardim, a norte de Teerão, no sopé das montanhas Evin, onde há 35 anos um dos primeiros-ministros do Xá criava coelhos
© Wikipedia

Lembram-se de mim? Sou a jornalista Roxana Saberi que, de Janeiro a Maio de 2009, passou 100 dias na prisão de Evin, em Teerão, e a quem o namorado, o perseguido cineasta curdo Bahman Ghobadi, escreveu uma linda carta de amor: My Iranian girl with Japanese eyes and an American ID is in jail. Shame on me! Shame on us!

Fui detida no dia do aniversário de Bahman, sábado, 9 da manhã, 31 de Janeiro. Ding-dong. Ding-dong. Ding-dong. A campainha da porta não parava de tocar. Eu acabara de acordar e ainda estava de pijama.

Pelo intercomunicador, um tipo de meia-idade disse-me que era o carteiro. Vesti à pressa a minha rooposh (túnica) até aos joelhos e tapei o cabelo com um lenço branco, para o receber. Abri apenas uma fresta, e ele passou-me uma folha de papel.

O meu modesto conhecimento da língua farsi só me permitiu ler “Prisão de Evin“. Fiquei apavorada. Tentei fechar a porta entreaberta, mas quatro homens forçaram a entrada. Ficaram chocados de ver o meu chador a tapar o piano, na sala.

Revistaram tudo, de livros a fotos de família. Confiscaram CD, DVD e até extractos bancários. Que sorriso vitorioso o deles quando encontraram os meus dois passaportes, o americano e o iraniano. Já não poderia deixar o país.

Eu vivia num quinto andar. Se habitasse o rés-do-chão, ter-me-ia lançado de uma janela para a rua. “Temos de a levar para interrogatório”, disse-me um deles.

Não deram justificações, e eu pensei que o meu ‘crime’ talvez fosse o de ter continuado a enviar notícias para vários media com os quais colaborava, como a BBC, a Fox e a National Public Radio, apesar de, em 2006, me ter sido retirada a licença. As autoridades sabiam o que eu fazia, e nunca tentaram impedir-me.

Talvez eu devesse ter partido nessa altura, mas achei que era uma oportunidade de escrever um livro sobre um país de enorme riqueza histórica e cultural, ainda um mistério, para mim, e incompreendido por uma grande parte do mundo. Seria um retrato do Irão pelos olhos dos iranianos.

O meu pai, Reza, nasceu em Tabriz, no Noroeste do Irão. Apesar de pobre, conseguiu formar-se em Literatura Inglesa e viajar pelo mundo. Foi no Japão, onde era professor, que conheceu a minha mãe, Akiko. Para a família dela, namorar um estrangeiro era tabu. Por ambos se terem encontrado duas vezes, ela ficou de castigo durante semanas e teve de rapar a cabeça.

Reza voltou ao Irão, mas não deixou de enviar cartas a Akiko através de um amigo comum. Numa dessas cartas, ela encontrou um bilhete só de ida para Teerão. Viajou em segredo e os dois casaram-se em 1971. Dois anos depois, foram viver para os Estados Unidos.

Antes de partir, fiquei a saber que muitos iranianos seguiram de perto a minha história2, diz Rosxana Saberi". "Um taxista recusou cobrar-me uma viagem. No bazar de Teerão, fiquei perplexa ao ver à venda “lenços Roxana”, azuis como aqueles que apareciam numa foto publicada nos jornais – sinal de admiração por alguém que enfrentou as agruras de Evin". @ROXANA SABERI

“Muitos iranianos seguiram de perto a minha história”, diz Roxana Saberi. “Um taxista recusou cobrar-me uma viagem. No bazar de Teerão, fiquei perplexa ao ver à venda ‘lenços Roxana’, azuis como os que apareciam numa foto publicada nos jornais – sinal de admiração por alguém que enfrentou as agruras de Evin”
© Roxana Saberi

Eu nasci em Belleville (New Jersey) mas, quando tinha dois anos e o meu irmão quatro, mudámo-nos para Fargo (Dakota do Norte). Aqui, Akiko é patologista; Reza escreve livros de filosofia e traduz poesia persa.

Na pacata Fargo, durante muito tempo, estive apenas concentrada em integrar-me numa escola de alunos louros de olhos azuis. Mas, à medida que o tempo passava, sentia que algo me faltava.

Em 1997, para conseguir uma bolsa que pagasse um mestrado em Jornalismo, candidatei-me a Miss Fargo. Apesar de mal poder andar de saltos altos e de me aterrorizar a ideia de desfilar em fato de banho, ganhei e fui coroada Miss Dakota do Norte. Cheguei também a finalista no concurso Miss América.

Já tinha completado um segundo mestrado, em Relações Internacionais, e trabalhava como jornalista em Houston (Texas), quando recebi um convite para ser correspondente no Irão. Em Fevereiro de 2003, deixei a América com destino ao país que, um ano antes, George W. Bush incluíra num “Eixo do Mal”. Nunca imaginei que iria agonizar numa cela exígua e imunda de Evin.

Em isolamento, não tinha jornais, livros, televisão, caneta, papel. As guardas eram o meu único contacto humano. Sem relógio, os minutos eram horas e as horas eram dias.

Após dois dias de solidão e escuridão, ofereceram-me havâ-khori. Seria sinónimo de liberdade? Não, apenas uma caminhada de 20 minutos, para ver a luz e esticar as pernas, num pátio de muros e arame farpado. Sem jardins e sem flores, parecia uma jaula.

Demorei a chegar ao estádio de Saeb Tabrizi, poeta persa do século XVII: “Quando um pássaro entende que é mais do que a sua jaula, já é livre.”

Em penosos interrogatórios, algemada e de olhos vendados, sucumbi à pressão. A minha única saída era admitir um crime que não cometi, e depois pedir perdão. Prometeram libertar-me se confessasse que recebia dinheiro da CIA.

Exigiram que denunciasse uma das pessoas que eu entrevistara. Dei um nome, de alguém que estava longe e a quem não poderiam fazer mal. Propuseram depois que eu espiasse para eles. Só então me deixaram telefonar ao meu pai.

O iraniano Reza Saberi e a sua mulher, a japonesa Akiko, pais de Roxana, aguardam no exterior da prisão de Evin, em Teerão, que a sua filha fosse libertada, em 11 de Maio de 2009. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

O iraniano Reza Saberi e a mulher, a japonesa Akiko, pais de Roxana, aguardam no exterior da prisão de Evin que a filha fosse libertada, em 11 de Maio de 2009
© Atta Kenare | AFP | Getty Images

“A tua família não pode saber onde estás para que possas colaborar connosco no futuro”, avisou um dos interrogadores, a que chamei Javan, porque parecia os javân (jovens) do Norte de Teerão, com o seu ar ocidentalizado, blue jeans e blusão de cabedal.

“Diz ao teu pai que foste detida por comprar bebidas alcoólicas.” Assim se espalhou a informação de que fui detida por consumir álcool, proibido na República Islâmica.

Não fui libertada como prometeram. Ficaram furiosos por o meu pai ter alertado gente influente para o meu desaparecimento. Transferiram-me para a secção 209, reservada aos prisioneiros políticos, para onde levei os meus únicos objectos: dois cobertores com que dormia no chão, escova e pasta de dentes.

Foi aqui que conheci Roya, Vida, Leila, Elham, Samira, Silva Harotonian, Narguess, Mahvash e Fariba. Fiquei impressionada com a coragem delas. Foram submetidas às mesmas pressões mas não sucumbiram. Inspiraram-me.

Decidi arriscar pôr em perigo a liberdade em troca da verdade. Reneguei a confissão. Todas as minhas companheiras de cela me ensinaram lições importantes.

Fariba e Mahvash, por exemplo, ensinaram-me que devemos tentar transformar os desafios em oportunidades. Que não devemos odiar nem mesmo aqueles que nos enganaram profundamente. Podemos converter a nossa fúria em energia positiva, num poder que faz avançar o mundo.

Fariba e Mahvash, que entraram no terceiro ano de prisão sem culpa formada, são dirigentes da comunidade bahá”í, a maior minoria religiosa do Irão, privada de todos os direitos básicos. Mais tarde, quando me apercebi de que o mundo exterior já tinha conhecimento do meu paradeiro, que os media estavam a noticiar o meu caso e que havia muitos apelos internacionais à minha libertação, ainda ganhei mais força interior.

Iniciei uma greve de fome e enfrentei sem medo os carcereiros e os magistrados, que entretanto me acusaram de espionagem. No final do meu julgamento, a 11 de Maio de 2009, o veredicto foi uma pena suspensa de dois anos de cadeia (inicialmente eram oito) e a proibição de trabalhar no Irão nos cinco anos seguintes. Duas horas depois, eu estava livre.

Roxana Saberi, em 2005, no Irão, com Mohammad Khatami, antes de o ex-presidente ser substituído, nesse ano, por Mahmoud Ahmadinejad. © Roxana Saberi

Roxana Saberi, em 2005, no Irão, com Mohammad Khatami, antes de o ex-presidente ser substituído, nesse ano, por Mahmoud Ahmadinejad
© Roxana Saberi

Antes de partir, fiquei a saber que muitos iranianos seguiram de perto a minha história. Um taxista recusou cobrar-me uma viagem. No Grande Bazar de Teerão, fiquei perplexa ao ver à venda “lenços Roxana”, azuis como aqueles que apareciam numa foto publicada nos jornais – sinal de admiração por alguém que enfrentou as agruras de Evin.

Escrevi Between Two Worlds: My Life and Captivity in Iran (“Entre Dois Mundos”,) para que todos saibam que muitos iranianos inocentes continuam sujeitos às mesmas iniquidades que enfrentei.

Muitos sofrem mais do que eu sofri. No meu caso, creio que a atenção internacional ajudou a pressionar as autoridades a libertarem-me, e acredito que é necessária uma atenção semelhante para todos os que ainda são tratados injustamente no Irão.

Não sei ao certo quais as razões por que me prenderam. Talvez, devido a uma luta pelo poder entre as várias facções no regime. Depois de eu ter renegado a minha confissão falsa, o principal interrogador admitiu saber desde o início que eu não era uma espia (algo que o adjunto do procurador sugeriu que eu era – em privado, é claro!).

Talvez os meus captores quisessem usar a minha confissão falsa para intimidar os iranianos que advogam melhores relações com o Ocidente. Na altura, o Presidente Barack Obama falava sobre uma maior aproximação ao Irão, e muitos iranianos da linha dura não estavam interessados nisso.

Talvez quisessem que a minha confissão falsa reforçasse a alegação de que a América colocou espiões por todo o Irão. Justificariam, deste modo, um maior controlo sobre a sociedade e o silenciamento das críticas, sob pretexto de proteger a segurança nacional.

Os meus raptores também pareciam genuinamente ressentidos por eu ter entrevistado tantos iranianos para um livro que eu queria publicar no estrangeiro, fora do alcance da censura deles.

Não sei também quais as razões que conduziram à minha libertação, mas creio que a pressão internacional teve muito a ver com isso. As notícias sobre as minhas duas semanas de greve de fome aborreceram os meus captores, e o regime terá concluído que manter-me na prisão seria muito mais oneroso do que libertarem-me.

“Em 2003, deixei a América com destino a um país que, um ano antes, George W. Bush incluíra num ‘Eixo do Mal’. Nunca imaginei que iria agonizar numa cela exígua e imunda de Evin, lamenta a iraniana-americana Roxana Saberi
© jezebel.com

Ainda me sinto culpada por várias declarações que fui forçada a fazer e a repetir (várias vezes) em vídeo. Alguns activistas de direitos humanos e antigos presos políticos têm-me dito para não ser tão dura comigo, que outros na mesma situação também cederam às pressões.

O que os meus captores me obrigaram a fazer na prisão é “tortura branca”, cujos efeitos deixam marcas psicológicas em todos os que passam por situações semelhantes. Escrever sobre a minha experiência e falar sobre ela tem-me ajudado a cicatrizar as feridas, porque acho importante as pessoas saberem que o que me aconteceu ainda acontece a muitos outros.

Tive muita sorte e, agora, sinto a responsabilidade de usar a liberdade para falar em nome dos que lutam para que as suas vozes sejam ouvidas.

No dia em que recuperei em liberdade, os meus captores ainda me ameaçaram. Se eu revelasse os “acordos” que me propuseram, mandariam matar-me. Ouvi dizer que fizeram ameaças iguais a outros prisioneiros. Sei que, no passado, responsáveis iranianos estiveram envolvidos em assassínios de dissidentes no estrangeiro.

Na prisão, tentei superar o medo. Ter medo agora seria uma vitória para os meus captores. Acredito no valor das mensagens que tento transmitir, e tenciono continuar a denunciar as violações de direitos humanos. De momento, talvez as autoridades iranianas tenham outras prioridades, que não ordenar a minha morte.

“Pensei que o meu ‘crime’ talvez fosse o de ter continuado a enviar notícias para vários media com os quais colaborava, como a BBC, a Fox e a National Public Radio, apesar de, em 2006, me ter sido retirada a licença”, diz Roxana Saberi (Na foto, em reportagem durante comemorações da morte de Khomeini em 2004)
© AFP

Espero ainda publicar o livro sobre o Irão que me levou até Evin. Inclui muitas histórias interessantes sobre os iranianos. Há mais de cem anos [desde a revolução constitucional de 1905-1911] que há um movimento pela democracia no Irão.

Acredito que uma maioria quer um governo democrático que respeite os direitos humanos. Alguns reclamam mudanças no quadro da República Islâmica; muitos exigem todo um novo sistema de governo.

Um dos factores que alimentam este desejo de um governo mais democrático é puramente demográfico: cerca de dois terços da população tem menos de 30 anos.

Muitos iranianos não tinham nascido quando aconteceu a revolução islâmica ou não se lembram dela. Muitos outros que contactam o mundo exterior conhecem os seus direitos, e exigem que eles sejam respeitados. Mais e mais mulheres frequentam as universidades.

Numerosos jovens mudaram-se das aldeias para as cidades só para frequentar uma faculdade. Aqui, expõem-se a novas ideias e fazem novas exigências à sociedade e ao regime.

É impossível prever quanto tempo vai demorar até que este clamor de democracia tenha resposta (depende de muitas condições dentro e fora do país), mas acredito que será bem-sucedido.

Mehrnoushe Solouki numa “terra maldita”

A documentarista Mehrnoushe Solouki foi parar a Evin, a mais vil prisão iraniana, onde esteve Roxana, quando filmava, em Lanat Abad (Terra Maldita), rituais fúnebres das minorias religiosas da sua pátria. @MEHRNOUSHE SOLOUKI

A documentarista Mehrnoushe Solouki foi parar a Evin quando filmava em Lanat Abad (Terra Maldita) rituais fúnebres das minorias religiosas da sua pátria
© Mehrnoushe Solouki

Chamo-me Mehrnoushe Solouki mas, em casa, tratam-me por “Nazi”. Não, não é engano. Nada tenho a ver com o Nationalsozialismus de memória sinistra. Em persa, “Nazi” significa “graça”, e é assim que alguns pais chamam os filhos em sinal de afecto.

Digo isto para entenderem que não é por ser “Nazi” que fui parar à mais vil prisão iraniana – um antigo jardim, a norte de Teerão, no sopé das montanhas Evin, onde há 35 anos um dos primeiros-ministros do Xá criava coelhos.

Fui parar à cadeia de Evin por ter filmado Lanat Abad, a “Terra Maldita”, na qual o regime despejou em valas comuns os corpos de cerca de 10 mil opositores (números da Amnistia Internacional), entre 1988 e 1989 – um dos piores crimes da Revolução Islâmica.

Homens, mulheres e crianças foram enforcados ou fuzilados, no final da guerra Irão-Iraque, em obediência a um édito (fatwa) do Ayatollah Khomeini depois de os Mujahedin-e-Khalq [MEK, Combatentes do Povo], aliados de Saddam Hussein [e por isso odiados pela maioria dos iranianos, que os consideram um culto terrorista], terem lançado a Operação Luz Eterna, para derrubar a teocracia que dez anos antes ajudaram a instaurar.

Tropecei em Lanat Abad quando fazia um documentário sobre os rituais fúnebres dos zoroastras, judeus, cristãos arménios e baháís. Era uma encomenda de uma instituição ecuménica canadiana para o Festival Métropolis de Montreal.

Queria filmar o cemitério de Khavaran, um espaço simbólico onde estão reunidas todas as minorias religiosas, e onde a estética e a arquitectura funerárias contrastam com as normas dos muçulmanos xiitas – a maioria da população.

Lanat Abad – sem lápides, sem fotos, sem flores – fica bem próxima de Golestân Javid, espécie de gueto onde os bahá’ís, perseguidos como apóstatas, enterram quase clandestinamente os seus entes queridos, deixando sobre os túmulos doces e chocolates. O meu assistente, Rasoul, bem me avisara que não deveria “desenterrar os mortos” de Khavaran.

Um dia, à saída da produtora de Bahman Kiarostami, filho do grande cineasta Abbas, seis tipos corpulentos bloquearam-me a passagem. Exigiram que lhes desse o disco rígido onde estavam as minhas filmagens de Lanat Abad. Recusei, mas eles foram até ao laboratório e confiscaram o que procuravam.

Não satisfeitos, levaram-me para Evin. Com uma venda nos olhos, fizeram-me atravessar um labirinto de corredores até chegar a uma cela de seis metros de largura por dez de comprimento, na secção 209 de Evin. Sem janelas e sem móveis.

Fui privada de tudo. Só tinha um livro, o Corão, mas eu não sei ler árabe. Não tinha caneta nem papel para escrever. Nada, nenhum sinal de vida.

Davam-me arroz e carne vermelha num prato de plástico. Mas um morto não come. Dormia no chão sob uma luz fluorescente, acesa dia e noite. A isto, chamam “tortura branca”.

Ficamos com a sensação de que estamos num mundo vazio de tudo, e que nem Deus nos ouve. Por vezes, tinha a impressão de que as paredes se estreitavam e me sufocavam cada vez mais.

"Tinha nove anos quando o Xá deixei o Irão em Janeiro de 1979. Só a perspectiva de, no cinema, não ter de me levantar para ouvir um hino em honra do imperador pareceu-me justificação suficiente para apoiar a sua queda", disse Mehrnoushe. @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

“Tinha 9 anos quando o Xá deixou o Irão em Janeiro de 1979. Só a perspectiva de, no cinema, não ter de me levantar para ouvir um hino em honra do imperador pareceu-me justificação suficiente para apoiar a sua queda”, diz Mehrnoushe Solouki
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Nunca convivi com outros prisioneiros na minha cela. Estava sozinha, mas ouvia vozes e gritos. Durante várias noites, ouvi os gritos de sofrimento de um jovem. Mais tarde, vim a saber que era Sina, um independentista curdo. Morreu sob tortura.

Os meus captores eram o malvado Gôlestan e o bom Rézaî, nomes falsos, é claro. Rézaî era um jovem bem vestido e de barba feita, nada parecido com os Pasdaran [Guardas da Revolução]. A primeira frase que me dirigiram foi: “Será libertada dentro de cinco dias, se tudo correr bem…”

Passei 35 dias em isolamento. Depois, mais um ano retida e sequestrada no Irão, sem poder deixar o país, até ao pagamento de uma fiança. Não, não tive vergonha de confessar o que os interrogadores queriam ouvir – preenchi 700 páginas de confissão.

No Irão, mentir é uma questão de sobrevivência. Desde muito nova que aprendi a mentir. Vejamos: fui uma das apoiantes mais entusiastas da revolução.

Tinha nove anos quando o Xá deixei o Irão em Janeiro de 1979. Só a perspectiva de, no cinema, não ter de me levantar para ouvir um hino em honra do imperador pareceu-me justificação suficiente para apoiar a sua queda.

Que felicidade, a cena surreal em que ajudei a minha vizinha Mitra a distribuir, de Cadillac, sanduíches e refrigerantes aos “jovens revolucionários”. Todos pareciam festejar a partida do ditador e o regresso do teólogo que ele exilara em Paris.

O meu pai, antigo militante comunista, era uma excepção: “Saberão vocês quem são os mullahs?” Tinha razão. Meses depois, a vizinha Mitra, sempre elegantemente vestida, bem penteada e de unhas pintadas, foi obrigada a despedir-se, por se recusar a usar o véu. Refugiou-se no estrangeiro.

O meu pai, que trabalhava num banco privado, onde os empregados eram accionistas, perdeu todos os seus investimentos. Sem dinheiro, teve de vender a nossa grande moradia e comprar um apartamento pequeno.

Khavaran, o cemitério sem lápides e flores, onde o regime iraniano despejou em valas comuns os corpos de cerca de 10 mil opositores, entre 1988 e 1989 – um dos piores crimes da revolução islâmica. @Mehrnoushe Solouki

Khavaran, cemitério sem lápides e flores, onde o regime despejou, em valas comuns, os corpos de cerca de 10 mil opositores, assassinados entre 1988 e 1989 (durante a guerra com o Iraque) – um dos piores crimes da Revolução Islâmica
© Mehrnoushe Solouki

A revolução também me obrigou a viver várias vidas: uma de mini-saia, em casa e nas noites com os amigos; outra de chador, na escola e na rua. Convenci-me que eu era duas pessoas num só corpo. Para soltar as amarras, fui ter aulas de teatro com uma companhia profissional.

Comecei como figurante, na peça Sohrab e Rostam. Na mitologia iraniana, Sohrab correspondia ao rei Édipo, com a diferença de que, no combate entre pai e filho, é o pai (Rostam) que mata o filho (Sohrab).

Quando a encenadora Pary Banu (Lady) Saberi, uma famosa actriz dos anos 1960 – a primeira a ter a coragem de se despir em palco -, se converteu ao islão para obter financiamento, fiquei decepcionada. Não quis mais participar num espectáculo onde o passado (o pai) mata o futuro (o filho).

Eu fantasiava representar Ofélia tal como Shakespeare a imaginara, não segundo códigos religiosos. Queria que Masha, uma das Três Irmãs, de Tchekov, pudesse dizer que amava outro homem que não o seu marido.

Para contornar as restrições, eu e os meus amigos formámos um grupo e actuávamos numa cave. Os censores acabaram com o nosso sonho. Os meus pais também não queriam que eu fosse actriz, profissão comparada à de palhaço. Preferiam que escolhesse Medicina ou Engenharia, para me fazer respeitar.

Em 1995, sentindo-me prisioneira até na minha casa, comprei um visto no mercado negro, no Grande Bazar de Teerão, e voei para Paris. Licenciei-me em Literatura Francesa na Universidade de Teerão. Conhecia Malraux, Camus, Ionesco… O francês era uma língua rara e prestigiada no Irão.

Na bagagem levei o meu livro sagrado, o [dicionário] Petit Robert. Por força de mentir dia e noite, acabei por me esquecer onde estava a verdade. Na prisão, os interrogadores exigiam que eu mentisse, e eu tinha de alinhar no jogo. Em Evin, o silêncio significa morte.

Também conhecia a natureza do regime com que deveria alinhar no jogo da mentira. Consegui várias vezes manter-me tranquila e esconder a minha ira. Era um corpo prisioneiro mas um pensamento livre.

Não tive vergonha de confessar contra mim própria, porque não denunciei outros. Nem as famílias das vítimas nem as personalidades com quem me encontrei. Para mim, a verdade não é a preto e branco. Não há infelicidade absoluta e felicidade absoluta.

No dia em que me libertaram de Evin, em Março de 2007, deram-me um formulário para preencher sobre as condições prisionais e o comportamento dos guardas. Havia quatro respostas: “Excelente”, “Bom”, “Menos bom”, “Mau”. O hábito de mentir ajudou-me a responder “Bom” às duas questões.

“A História ensina-nos que os regimes tirânicos, ainda que convencidos da sua força, não resistem indefinidamente a povos persistentes e pacíficos”, diz a documentarista franco-iraniana, autora de Fatwa de Sang
© Mehrnoushe Solouki

Escrevi Fatwa de Sang (“Fatwa de Sangue”) porque queria falar de mim própria, dos prisioneiros de consciência que foram executados em 1988 e daqueles que foram encarcerados pelo governo que resultou de um golpe de Estado após as eleições de Junho de 2009. Centenas de jornalistas, feministas e estudantes continuam atrás das grades.

Sou um ser humano que não pode permanecer em silêncio. Os direitos humanos são uma língua universal, uma cultura que une todas as nações do mundo, embora as ditaduras aleguem que se trata de uma “questão interna”.

Quando deixei o Irão, em Janeiro de 2008, senti uma enorme fúria contra os que me detiveram durante tanto tempo. Apercebi-me que estava a tornar-me violenta. Se começasse a agir como aqueles que eu condenava, nada me distinguiria deles. Tive de aprender a acalmar-me. Só depois disso consegui escrever Fatwa de Sang.

Este livro deveria ter sido publicado em Julho de 2009. Duas grandes editoras francesas mostraram interesse: a Denoël, filial da Gallimard, e a Harmattan, mas os factos narrados no capítulo sobre a Operação Théo fizeram-nas hesitar em publicar a obra na íntegra. Agradeço a Michel Lafon ter aceitado o desafio.

A Operação Théo foi lançada, em Junho de 2003, pelo Ministério do Interior francês contra membros exilados dos Mujahedin, a pedido do regime iraniano.

A França e o Irão planeavam assinar contratos de 25.000 milhões de euros no sector do gás e do petróleo. Em protesto, alguns activistas iranianos imolaram-se pelo fogo junto a embaixadas francesas na Europa.

De quem foi a culpa? Senti-me cúmplice. Eu participei nas rusgas policiais como intérprete. O dinheiro que recebi ajudou-me a pagar os estudos e a deixar de trabalhar em part-time no McDonalds.

Sou sincera e falo sem rodeios: a minha libertação não foi uma vitória diplomática para a França, embora os meus melhores amigos sejam franceses e eu tenha dupla nacionalidade, iraniana e francesa.

Em Abril de 2009, mudei-me mesmo para Paris, depois de ter sido atacada no prédio onde residia, no centro de Montreal. Infelizmente, a polícia canadiana recusou garantir a minha segurança e perseguir o agressor. Escolhi viver na Europa.

O disco rígido que continha a montagem das minhas filmagens de Khavaran continua confiscado. As cassetes foram devolvidas aos meus pais, mas as imagens foram danificadas pelos aparelhos usados pelas autoridades. Ainda assim, consegui recuperar uma parte.

Não tenciono voltar ao Irão. Tenho a vida que quero. Faço o trabalho que gosto. Sou livre. Se voltasse, seria condenada a quatro anos de cadeia com pena suspensa, como deliberou o juiz.

Ainda não acabei a minha história de Khavaran. Quem é responsável? Quem? Por eu ter questionado os seus fundamentos, o regime ficou irritado.

Em Junho de 2009, o povo iraniano superou o medo e mostrou-se determinado a empreender uma mudança democrática. Nos confrontos, as mulheres estão na linha da frente. Direi mesmo que o “movimento verde” é um movimento feminino.

O povo iraniano, com a sua coragem imensa, mostra que o respeito pelos direitos humanos é fundamental para definir uma sociedade, seja qual for a sua cultura. O “movimento verde” continuará o seu caminho, no interior e exterior do Irão.

A História ensina-nos que os regimes tirânicos, ainda que convencidos da sua força, não resistem indefinidamente a povos persistentes e pacíficos. O regime ficou mais inflexível porque está à beira de ruir.

Uma ala feminina da prisão de Evin, onde a jornalista Roxana Saberi e a dcumentarista Mehrnoushe Solouki estiveram encarceradas
© AFP | Getty Images

Estes dois artigos, agora actualizados e com outros títulos, foram publicados originalmente no jornal PÚBLICO, em 12 de Junho de 2010 | These two articles, now updated and under different headlines, were originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on June 12, 2010

“Negar a dor dos outros é um sintoma de indiferença moral”

Considerada uma das maiores especialistas em terrorismo nos EUA, Jessica Stern pertenceu ao Conselho Nacional de Segurança do ex-Presidente Bill Clinton. Em 1973, foi violada por um homem que terá sido vítima de padres pedófilos. Também suspeita que o seu avô, judeu, abusou dela. E admite que a sua avó tenha sido molestada por nazis. No Paquistão e no Afeganistão, ouviu histórias de rapazes violados em escolas islâmicas. Perdeu a vergonha e publicou um livro, Denial, onde conta tudo. História contada aqui na primeira pessoa. (Ler mais | Read more….)

© USA Today

 

Era 1 de Outubro de 1973. Eu tinha 15 anos e a minha irmã 14. O nosso pai, que é físico, estava na Noruega, de visita a um instituto de tecnologia.

Nós, como era hábito todas as segundas-feiras, depois das aulas de ballet, fomos para casa de Lisa, a primeira de três madrastas desde a morte da nossa mãe.

Nessa noite, em particular, ficámos sozinhas a fazer os trabalhos da escola. O bairro era seguro. Não havia necessidade de trancar a porta à chave.

Quem é que iria fazer mal a duas crianças em Concord (Massachusetts), considerada por muitos o berço dos Estados Unidos? Este é o lugar onde se inscreveu a frase “shot heard round the world“, de Ralph Waldo Emerson, para referir o primeiro tiro da Revolução Americana, na batalha iniciada em 19 de Abril de 1775.

Esta é uma cidade pequena, com pequenos crimes, onde o Concord Journal ainda noticia acidentes envolvendo ovelhas e vacas. Mas foi nesta cidade, há mais de três décadas, que Brian X. Beat, vindo da povoação vizinha de Milford, entrou no nosso quarto, e abusou de mim e da minha irmã.

Ameaçou-nos com uma arma. A arma, disse ele, depois de nos obrigar a prometer que não o denunciávamos, era uma pistola de fulminantes. Daquelas com que os garotos antigamente brincavam aos cowboys.

No total, de 1971 a 1973, Brian Beat violou 44 raparigas, entre os nove e os 19 anos. Uma delas matou-se. Foi condenado por três destes crimes, a 18 anos de cadeia. Ele era uma pessoa traumatizada. Descobriu na infância que a sua mãe o abandonara e que tinha sido adoptado pela tia.

Frequentara uma igreja e um liceu onde vários padres pedófilos foram alvo de processos criminais. O psiquiatra na cadeia não o avaliou como perigoso, mas, uma manhã, quando a mãe adoptiva saía de casa, encontrou-o enforcado na soleira da porta.

Perguntam-me por que é que eu, elogiada como “a maior especialista em terrorismo nos Estados Unidos”, professora na Faculdade de Direito da Universidade de Harvard e antiga consultora de segurança do Presidente Bill Clinton, decidi partilhar com estranhos traumas, segredos e pensamentos mais íntimos.

Pois bem, Denial – A Memoir of Terror não era o que eu planeava escrever. Eu queria escrever outro livro sobre terrorismo, depois de Terror in the Name of God – Why Religious Militants Kill.

© Getty Images | wired.com

Como experiência, escrevi uma pequena brochura, a relatar a minha violação. Tencionava usar a história para contar como é sentirmo-nos aterrorizados. Não tinha a certeza, naquela altura, se me identificaria com o “eu” nessa brochura.

Quando o meu editor a viu, sugeriu-me que deitasse o resto do livro fora, e escrevesse outro sobre a minha violação e a reacção do meu marido. Fiquei assustada. Tive medo de que, ao escrever sobre a minha própria experiência de terror, pudesse arruinar a minha carreira.

Durante seis meses, continuei a escrever o meu livro sobre terrorismo, que ainda não acabei. No entanto, nos dias que passava na biblioteca, cedi a uma irresistível curiosidade; voltei à esquadra na minha cidade natal e requeri os ficheiros completos.

O agente que fez as cópias dos ficheiros leu-os e ficou surpreendido com a quantidade de informação que continham. Ficou intrigado por o crime nunca ter sido resolvido.

Quando a violação ocorreu, em 1973, a Polícia estava em negação: não acreditou em mim e na minha irmã quando dissemos que não conhecíamos o violador, ou que este crime tão brutal pudesse ter sido cometido na nossa terrinha segura e suburbana. Isto não é diferente do que está a acontecer agora, na Igreja Católica. Incredulidade e negação são os caminhos mais fáceis.

Trinta e cinco anos depois, a Polícia acreditou finalmente em mim. Percebeu que se tratava de um violador em série de crianças e que talvez ainda estivesse a monte.

Assim que reabriu o caso, foi irresistível escrever um livro sobre a investigação. Eu sabia que o “verdadeiro crime” poderia interessar a outras pessoas. Mas, mais do que isso, senti necessidade de escrever sobre o que é viver com a memória da violação e do abuso.

Na realidade, nunca tinha “sentido” a raiva e a dor que eu deveria ter sentido enquanto criança. Também eu estava em negação. O que senti foi vergonha.

No entanto, ao revisitar a violação 35 anos depois, dei por mim a sentir raiva – não apenas contra o meu violador, mas contra todos os violadores de crianças, em todo o mundo, incluindo os membros do clero que abusam de crianças. Eu queria sentir isso!

Sim, é verdade que há questões em aberto no meu livro. Também fui violada pelo meu avô? A minha avó, judia como eu, foi violada por soldados nazis?

© unicef.org.uk

O meu violador foi vítima de padres pedófilos? Não tenho a certeza do que o meu avô me fez. Ele era um cientista brilhante que, involuntariamente, matou a minha mãe devido a um excesso de raios X.

Com base numa carta encontrada 50 anos depois de a minha mãe a ter escrito, fiquei a saber que eu demonstrava, aos três anos (idade em que eu e a minha irmã ficámos órfãs) o que hoje os assistentes sociais considerariam sinais preocupantes de possíveis abusos sexuais.

Esses comportamentos, se hoje fossem observados por alguém de fora da família, teriam desencadeado uma investigação mais profunda.

A minha avó contou-me que, quando eu era miúda, a minha madrasta a tinha avisado de que o meu avô abusava sexualmente de mim. A minha avó achou que esta informação era a “prova” de que a minha madrasta era instável. Nunca questionou o meu avô.

Na altura, quando ela me narrou isso, há cerca de 30 anos, eu já sabia o que era ser violada sob a ameaça de uma arma. Foi o que me aconteceu aos 15 anos, e essa memória ficou registada na polícia e no hospital.

Mas eu não compreendia o que queria dizer abuso sexual de crianças; ou o que, se fossem verdadeiras, as informações da minha madrasta poderiam significar para a minha saúde mental a longo prazo.

Quando era miúda, sei que tinha pesadelos com um pénis flácido, e que tinha pavor de alguns recantos da casa – mas sonhos e sensações não provam nada. Lembro-me de o meu avô tomar banho comigo, quando eu já tinha idade suficiente para sentir repugnância pelo seu corpo.

Sei também que, na minha adolescência, ele era um homem libertino, cujo interesse nos meus mamilos me deixava desconfortável – também era uma pessoa adorável.

Que paradoxo! O incidente do banho não pode, isoladamente, ser considerado abuso sexual, mas não tenho a certeza do que mais ele me fez, porque as minhas recordações são muito vagas.

Compreendo que isto possa frustrar os leitores, mas a incerteza frustrante na mente dos leitores reflecte a minha própria névoa frustrante (ou será protectora?). Este não saber precisamente o que ocorreu faz parte da dor com que muitas vítimas vivem.

Também não tenho certezas sobre se a minha avó foi violada, porque ela já morreu e não lhe perguntei. Embora o meu pai tenha feito parecer como violação a cena em que descreve soldados nazis das SS fechados no quarto com a sua mãe, na Alemanha, por volta de 1944, ele insiste em que ela tinha “joelhos de lavadeira”, e ninguém olharia para ela como um objecto sexual.

A violação tem sido, porém, usada como arma de guerra. Contra os mais novos e os mais velhos, não apenas contra os que são vistos como objectos sexuais. Por isso, não acho que sejam convincentes os argumentos do meu pai, embora também não possa afirmar que ele está errado.

E o meu violador? Terá sido violado por padres? Também neste caso encontrei apenas indícios circunstanciais, nada que se assemelhe a provas.

Há muitas razões para suspeitar que ele foi vítima de abusos – não apenas porque estes se registaram regularmente na sua igreja e povoação, mas também devido aos rituais (deixava pedras e poemas) que ele reproduzia em alguns dos crimes que cometeu.

Era uma pessoa confusa quanto à sua sexualidade. Cliente assíduo de bares de gays, justificou a recusa em servir no Exército com a sua homossexualidade, mas tinha relações sexuais com mulheres e violou muitas meninas.

© everydayfeminism.com

Infelizmente, os abusos sexuais de crianças são um problema relativamente comum. Ocorrem por todo o mundo e em todas as religiões, não apenas na Igreja Católica.

Também são relativamente comuns em escolas seculares. É sempre uma tragédia quando acontecem. Às vezes, as vítimas pensam que, psicologicamente, não ficaram afectadas, mas o impacto pode ser enganador, à medida que o tempo passa.

Só depois de investigar a minha própria violação e de me permitir a mim própria sentir o terror, a raiva, a tristeza que eu sempre mantivera escondidos é que compreendi a importância de algo que ouvi no Paquistão mas tinha receio de divulgar publicamente – os abusos sexuais de crianças nas madrassas [escolas religiosas] paquistanesas e a violação de rapazes no Afeganistão.

Aqui, estes abusos são geralmente cometidos às quintas-feiras, também conhecidas como “o dia de amar os homens”, porque as orações islâmicas de sexta-feira “absolvem os pecadores”.

É extraordinário que estes abusos sexuais sejam frequentemente discutidos nos media paquistaneses e não sejam conhecidos no Ocidente. Todavia, os militares ocidentais sabem muito bem que comandantes e senhores da guerra afegãos andam a violar rapazes, mas não falam sobre isso, e nunca lemos sobre isso nos jornais.

Os membros dos grupos terroristas jihadistas que entrevistei para o meu último livro falavam-me sobre as humilhações da civilização islâmica, alegadamente às mãos do Ocidente, como um dos factores que os levou a escolher essa “profissão”.

Comecei a interrogar-me sobre se este sentimento de humilhação, rotineiramente descrito pelos islamistas mais extremistas, poderia ter sido causado por violações ou abusos sexuais.

Vou ser franca: não acredito que violações ou abusos sexuais sejam “a raiz” do terrorismo. Mas acredito que podem ser um factor de risco. É minha esperança fervorosa que, ao revelar este segredo aberto, mais estudos possam vir a ser realizados – por médicos, teólogos, académicos, ONG.

© South China Morning Post

Será muito difícil, porque a vergonha deixa as vítimas passivas, tal como aconteceu durante tantos anos na Igreja Católica. Talvez, quando a condenação surgir, como se verifica agora na Igreja Católica, e as vítimas [no Afeganistão e Paquistão] decidirem falar, a prática destes abusos termine.

Eis o que eu acho que o Papa e a Igreja Católica devem compreender. Negar a dor dos outros é um sintoma de indiferença moral.

A negação ajuda o espectador, que não suporta viver com o conhecimento da dor da vítima, sobretudo quando se sente, de algum modo, responsável por ela. Mas a negação é, em muitos casos, um ataque secundário.

A vítima, também ela, não suporta acreditar. Pode enterrar e desvalorizar a sua dor, ou dissociar-se dela. Pode entregar-se ao álcool ou às drogas, tornar-se inconscientemente promíscua, compelida a repetir uma e outra vez a violação, ora no papel de vítima, ora no de perpetrador.

Ser tratada como objecto no sonho de um perpetrador, e não como objecto do seu próprio sonho, já é suficientemente mau. Mas quando os observadores se tornam cúmplices das vítimas no desejo destas de esquecimento, também se tornam perpetradores.

Quando as autoridades não acreditam na vítima, quando os espectadores recusam o que não suportam saber, roubam à vítima a sua existência normal neste mundo. Observador e vítima estão em conluio para a negação ou o esquecimento e, ao fazerem isso, repetem os abusos.

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A fundação espanhola Aid to Children and Adolescents at Risk (ANAR) criou um outdoor revolucionário, para ajudar crianças vítimas de abusos a pedirem ajuda sem correr mais riscos. Através de uma camada superior lenticular, o cartaz mostra imagens diferentes de acordo com o ângulo de visão do leitor. Um adulto com mais de 1,35m de altura vê apenas uma criança triste e a mensagem: “Às vezes, os maus tratos infantis só são visíveis para a criança que sofre”. Os mais novos e mais baixinhos, com 1,20m, vêem feridas no rosto do menino no cartaz, e outra mensagem (com o telefone da fundação): “Se alguém te magoar, liga e nós ajudamos-te”. O vídeo pode ser visto aqui

Não posso dizer que o meu violador já não me atormenta, depois de descobrir que ele morreu. Ainda me atormenta, mas menos. Acredito que ter sido violada influenciou as minhas escolhas profissionais, de amigos, de parceiros.

Eu queria ser escritora mas saltei as cenas bélicas de Guerra e Paz e a minha tese de doutoramento foi sobre armas químicas, centrada na mecânica da violência e com pouca atenção às baixas humanas. A violência repugnava-me e fascinava-me.

Tornei-me também demasiado protectora do meu filho. Não sou uma pessoa diferente por ter confrontado os meus terrores. Ainda não suporto determinados sons e odores. O cheiro de míldio deprime-me. Um ruído estridente deixa-me à beira de gritar.

O que é diferente, agora, é eu compreender tudo isso, e estar alerta quando isso acontece. As minhas relações com a família e os outros são agora mais honestas.

É importante reconhecer a sensação de medo porque isso nos dá segurança. Eu ia sem medo entrevistar terroristas aos seus campos de treino. Agora, quando é necessário sentir medo, já reconheço essa sensação.

Por causa disso e por ter um filho, já não vou para o terreno entrevistar terroristas. Só entrevisto antigos terroristas, ou jovens que se sentem atraídos para a ideia de terrorismo mas que, provavelmente, jamais entrarão num grupo terrorista.

Uma pessoa perguntou-me se aconselharia outras vítimas de violação a procurar e a confrontar os violadores. Não o faria, excepto em caso de extrema necessidade. Revisitar um trauma, como a violação, pode ser muito desestabilizador.

A minha irmã e eu não recebemos terapia depois de termos sido violadas, porque, naquela época, ninguém entendia o impacto emocional a longo prazo. Mas acho que a terapia pode ser uma boa ideia.

Nos ficheiros que encontrei na esquadra, a polícia atestou que eu era “stern” (dura) – que é, curiosamente, o meu apelido. Não gosto da palavra “vítima” nem da palavra “sobrevivente”.

Somos vítimas e sobreviventes, é certo, mas não gostaria que me definissem como tal. Preferia ser conhecida como uma pessoa que deu o seu melhor para amar a sua família e que, como pessoa, tentou compartilhar a verdade, mesmo que tenha sido, ou precisamente por ser, muito difícil.

Jessica Stern @DR (Direitos Reservados | All Rights Reserved)

Jessica Stern, a autora de Denial – A Memoir of Terror

Este artigo, agora com um título diferente e actualizado, foi originalmente publicado no jornal PÚBLICO em 14 de Maio de 2010, a partir de uma entrevista por “e-mail” com Jessica Stern e baseada no seu livro “Denial – A Memoir of Terror”| This article, now under a different headline and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 14, 2010, based on an e-mail interview with Jessica Stern and on her book “Denial – A Memoir of Terror”

Don’t look at Jessica Stern as a victim or a survivor

She is the author of Terror in the Name of God – Why Religious Militants Kill, an expert who served on the staff of President Bill Clinton’s National Security Council, from 1994 to 1995. In a new book, Denial – A Memoir, she breaks the story of being herself terrorised and traumatised.  (Read more…)

© National Public Radio

’s CV is impressive: former “Superterrorism Fellow” at the Council on Foreign Relations; National Fellow at Stanford University’s Hoover Institution and director for Russian, Ukrainian and Eurasian Affairs at the National Security Council, under President Bill Clinton. Considered “the foremost U.S. expert on terrorism”, she is a lecturer at Harvard University’s Kennedy School of Government.

In 2004, she published a “crucial and provocative” book, Terror in the Name of God – Why Militants Kill, after interviews with extremist Christians, Jews and Muslims, providing what was considered “unprecedented insight to acts of inexplicable horror”.

She has now a new new book, Denial – A Memoir, on her own terror and trauma, revisiting her past in 1973, when she, then 15, and her  14-year-old sister were raped by a gunman who entered their home in the suburbs of Boston.

She gave me this interview on the eve of Pope Benedict XVI to Portugal, in middle of sex abuses scandals that afflicted the Roman Catholic Church.

After your second book on terrorism, you found yourself “wanting to understand what had happened to [me] during and after [my] rape”. I understand the need to reinvestigate your past (a 33-year-old case) and no longer “to hide the shame”, but why writing a book, sharing with strangers  the trauma, family secrets, intimate thoughts?

This is not the book I set out to write. I meant to write yet another book on terrorism.  As an experiment, I wrote a short vignette, describing my rape, intending to use the story to describe what it feels like to be terrorised. I wasn’t sure, at the time, whether I would identify the “I” in that vignette as myself.

When my editor saw the vignette, he suggested that I throw the rest of the book out, and write a book, instead, about my rape and my unusual reaction to it.  I was stunned. I was worried that writing about my own experience of terror would ruin my career.

For six months, I continued writing my book on terrorism.  But, on the days I wasn’t at the library, I gave in to an irresistible curiosity; I went back to the police in my hometown and requested the complete file.

The officer who copied the file for me read it and was astonished by how much information there was in the file, and puzzled that the crime had not been solved. When the rape occurred in 1973, the police were in denial.

They did not believe my sister and me when we told them we did not know the rapist, or that such a brutal crime could have occurred in our safe, suburban town.  It’s not that different from what is happening in the Catholic Church today.  Disbelief and denial are the easier course.

© psychiatryadvisor.com

Thirty-five years later, however, the police finally believed me. It did not take very long to realize that this was a serial rapist of children, who might still be at large, even though my rape had occurred so many years before.

The police reopened the case. Once they did that, it was hard for me to resist writing a book about the investigation.

I knew that the “true-crime” aspect of the story would be of interest to other people. But more than that, I felt a need to write about what it feels like to live with the memory of rape and abuse.  I had never really felt the rage and pain that I ought to have felt as a child.

I, too, was in denial.  Instead, I felt shame.  Revisiting the rape thirty-five years after it occurred, I found myself feeling rage – not only at my own rapist, but at all rapists of children, all over the world, including members of the clergy who abuse or rape children.  I wanted to.

Some parts of your book are not very clear. Did your grandfather (who killed your mother) abuse you? Why didn’t you confront him? Could the Nazis have raped your grandmother? Was your rapist a victim of “predatory priests” and became a serial rapist (44 women) because of his own trauma?

© Medical News Today

I could not answer these questions definitively because I was not able to prove “yes” or “no.”  I am not certain what my grandfather did to me.

I know, based on a letter we found nearly fifty years after my mother wrote it, that I displayed at age three what childcare providers would now consider worrying behaviours indicative of possible sexual abuse, behaviours that today – were they observed by someone outside the family – a would likely trigger further investigation.

My grandmother told me that when I was a child, my step-grandmother had told her that my grandfather was sexually abusing me.  But my grandmother imparted this information to me only as “proof” that my step-grandmother was unstable, not as an issue that she should have raised with my grandfather.

At the time she told me this – some thirty years ago – I knew what rape at gunpoint meant, since it happened to me when I was fifteen, and there were police and hospital records available to back up my memory.

But I didn’t understand what childhood sexual abuse meant; or what it might mean for my long-term mental health, if my step-grandmother’s claims were actually true.

I know that I had recurring nightmares about a flaccid penis when I was a small child, and that I had a horror of certain places in the house – but dreams and feelings do not prove anything. I know that my grandfather took me in the shower with him, when I was old enough to feel utterly repulsed by him.

I know that he was a lecherous, vulgar man whose interest in my breasts during my teenage years made me excruciatingly uncomfortable; even as he was also a loving man.

It is paradoxical. The shower incident alone would be considered a form of sexual abuse, but beyond what I’m reporting here, I’m not sure what he did because my memory is too hazy.

I realize this may be frustrating for the reader, but the frustrating uncertainty in the reader’s mind reflects a frustrating (but perhaps protective?) haziness in my own.

This not-knowing precisely what occurred is part of the pain that many victims live with.  [I did not query my father about this because he would not have witnessed what occurred. My sister and I spent a lot of time without him at our grandparents’ house.]

As for whether the Nazis raped my father’s mother, I do not answer that question definitely either, because my grandmother is dead and I cannot ask her.  Even though my father described a scene that sounded like a rape, he insists that his mother had “washer woman knees” and that no one would ever see her as a sexual object.

But rape is used as a weapon of war.  It is used against the very old and the very young, not just against those considered to be sexual objects.  So I don’t find my father’s arguments persuasive, but I cannot prove him wrong.

Finally, there is the question: Was my rapist abused by a priest? Here, too, there is circumstantial evidence, but nothing close to proof.

There are many reasons to suspect that he was – not only because of the abuse that was repeatedly reported to have occurred in his church and in his town, but also because of rituals he appeared to be reenacting during some of his rapes.

He was clearly confused about his sexuality.  He frequented gay bars and he told the US military that he could not serve on account of his homosexuality. But he had sexual relations with women as well, and he raped many young girls.

© South China Morning Post

Everyday, newspapers all over the world are full of reports on  sexual scandals in the Catholic Church. Rabbis have also been accused of molesting Jewish children. And you wrote about sexual abuses of madrassa students in Pakistan and rape of boys in Afghanistan, two Muslim countries. Did your trauma affect the way you look at God, religion and/or human nature? Have you got an answer to your question, “Could sexual traumas be a form of humiliation that contributes to contemporary Islamist terrorism?”

Sadly, sexual abuse of children is a relatively common problem.  It occurs around the globe and across religions, not just in the Catholic Church.  It was also relatively common in secular, boarding schools. It is always a tragedy, whenever it occurs.

Sometimes the victims imagine themselves to be largely unaffected, psychologically; but the impact can sneak up on you, over time.

It was only after investigating my own rape, and allowing myself to feel the terror and rage and sadness that I had long kept under wraps, that I understood the importance of something I had heard about in Pakistan but was afraid to discuss in print – the sexual abuse of children in Pakistani madrassas and the rape of boys in Afghanistan.

It is remarkable that this sexual abuse is frequently discussed in the Pakistani media, but it is unknown in the West.  And Western soldiers are clearly aware that Afghan warlords and commanders are raping boys, but they do not talk about it, and you never read about it in the media.

The members of jihadi terrorist groups that I interviewed for my last book frequently spoke about the humiliation of Islamic civilization, allegedly at the hands of the West, as one of the factors that led them to choose their profession.

I have begun to wonder whether this feeling of humiliation, routinely described by Islamist extremist terrorists, could sometimes have been caused by rape or sexual abuse.  To be clear: I do not believe that sexual abuse or rape is a “root cause” of terrorism.  But I do believe that it might be one risk factor.

It is my fervent hope that publicizing this open secret will result in further study  – whether by physicians, theologians, scholars, or NGO’s.  But it will be very hard, because shame keeps victims quiet, just as occurred for so many years in the Catholic Church.

Eventually, I imagine that the damn will burst, just as it has in the Catholic Church, and victims will finally speak up, and the practice, one hopes, will finally stop.

Here is what I think is most important for the Pope and the Catholic Church to understand.  Denying the pain of others is a symptom of moral laziness.

Denial helps the bystander, who cannot bear to live with the knowledge of the victim’s pain, especially when he feels in any way responsible for it.  But denial is, in many ways, a secondary assault.

The victim, too, cannot bear to believe. He may bury or dissociate from or disown his pain. He may drink or take drugs or become unwittingly promiscuous, compelled to repeat the violation again and again, sometimes in the role of victim, sometimes in the role of perpetrator.

To be treated as an object in a perpetrator’s dream, rather than the subject of your own- these are bad enough. But when observers become complicit in the victim’s desire to forget, they become perpetrators, too.

When authorities disbelieve the victim, when bystanders refute what they cannot bear to know, they rob the victim of normal existence on the earth. Bystander and victim collude in denial or forgetting, and in so doing, repeat the abuse.

© Thomson Reuters Foundation News

You kept on investigating your rapist after you got the news that he was dead. “I need to put him in a coffin, and to do that, I need to understand him”, you said. Did you manage that? Is he haunting you, yet?

I cannot say that he is not haunting me any more.  But he is haunting me a lot less.

You complained that you were unable of feeling fear. Now that you “learned to recognise the sensation of fear”, will you go on interviewing terrorists? Why is it important the “terror feeling”?

It is important to recognise the sensation of fear because fear can keep us safe.  Now, most of the time when it is appropriate to feel fear, I recognise the sensation.  In part as a result of this, and in part because I have a child, I cannot interview terrorists in the field anymore.

Now I only interview former terrorists, or youth who are attracted to the idea of terrorism but are unlikely ever to join terrorist groups.

You recognised as one of the effects of post traumatic stress disorder (PTSD) the “difficulty of accepting love or trusting others to care of you”. And you said: “I have learned (I hope) to love”. Are you a different person now? 

I believe that being raped influenced all my relationships, including with my family.  I am sure it influenced my choice of friends and partners, and that it made me over-protective of my child. I am not a different person as a result of having confronted my terrors.  I still cannot stand certain sounds and scents.

The scent of mildew makes me depressed. A clicking sound often makes me feel ready to scream. What is different is that I understand more about these triggers, and can sometimes even anticipate them. I think that my relationships with my family and others are much more honest now.

© thedenverchannel.com

“I know I will never be cured”, you also said. What advice would you give to other rape victims and to those experiencing PTSD?

One person asked me if I would advise other rape victims to try to find and confront their rapists.  I would not, unless they feel the need, very strongly.  Revisiting a trauma like rape can be quite destabilizing.

My sister and I didn’t receive therapy at the time of our rape because no one understood the long-term impact, at the time.   But I think therapy is probably a good idea. I have a long list of resources at jessicasternbooks.com – both for victims or rape and for people suffering from PTSD.  We are adding to the list as we discover more.

In your police file you were described as “stern” – your surname. Do you agree? You don’t like the words “victim” and “survivor”. What’s the best definition?

I think we are all victims and survivors. But I would not want to be defined as either one.  I would prefer to be known as a person who did her best to love her family and as a person, who tried to impart the truth, even, or especially, when it is most difficult.

Jessica Stern is considered “the foremost U.S. expert on terrorism”
© media.npr.org

Parts of this interview were included in an article originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 14, 2010

“O maior pecado dos papas foi a ânsia do poder”

João XII foi assassinado “quando se encontrava na cama com uma mulher casada”. Bento IX era suspeito de “violações, adultérios e outros actos indizíveis”. Alexandre VI foi “amante das próprias filhas, com as quais teve vários filhos”. Na Roma dos imperadores, os escândalos não eram silenciados, reconhece um sacerdote e historiador. Os crentes distinguiam entre pontificado e pontífice. Aceitavam uma Igreja Católica de santos e pecadores. (Ler mais | Read more…)

© Catholic Journal

 

Juan María Laboa Gallego, biógrafo dos 268 papas dos últimos 20 séculos, não dá resposta à sua própria pergunta: A Igreja Católica teria menos pecadores se o pescador Simão, que Jesus chamou Pedro e encarregou de dirigir a primeira comunidade de cristãos, tivesse ficado em Jerusalém e não fosse, acompanhado da sua mulher, evangelizar Roma?

Simão/Pedro era um homem casado, que vivia em Cafarnaun e pescava no lago de Tiberíades, na Galileia. “Não era um intelectual, não era padre nem sonhava ser padre”, diz-nos o sacerdote e académico Laboa Gallego, a propósito da primeira figura da sua História dos Papas – Entre o Reino de Deus e o Poder Terreno (Esfera dos Livros), que veio apresentar em Lisboa.

“Vamos imaginar que Pedro permanecia em Jerusalém e que os papas viviam em Jerusalém. Seria a Igreja diferente? A realidade é que, para o bem e para o mal, em Roma estava o poder. Estava uma maneira própria de governar de imperadores e famílias políticas. Essa maneira de governar era muito pecaminosa.”

“Quem são os que ficaram em Jerusalém? Os pobres, os cristãos palestinianos, os perseguidos, os que estão constantemente sob pressão de outras religiões”, pergunta e responde Gallego, que nasceu em San Sebastían, no Norte de Espanha, mas durante 12 anos viveu e ensinou na Universidade de Roma e, há quatro décadas, estuda a cidade e os seus papas.

“É como se a coroa de espinhos, o sofrimento de Cristo, tivesse ficado em Jerusalém, enquanto a tiara, glória e poder da Igreja, ficaram em Roma”, afirmou.

“Não saberemos se a história seria diferente em Jerusalém”, admite Laboa Gallego. “Certo é que a Igreja dos três primeiros séculos, a das perseguições, é uma igreja muito pobre, muito mais simples, mais caritativa. Porque tem um maior sentido de comunidade. Nos primeiros três séculos, os cristãos são perseguidos [Pedro é martirizado em Roma] mas depois, quando eles próprios perseguem os pagãos, já estão a copiar o Império Romano.”

“As dioceses já eram províncias romanas antes de pertencerem aos bispos. Jesus tem uma frase muito poderosa: ‘Não deveis agir como o resto do mundo’. Isto é, com poder, com ambição. Mas esta é uma tentação de todos os cristãos. Não apenas dos papas.”

“Em Jerusalém, era mais difícil essa tentação. Em Roma, era muito mais fácil, porque os papas eram, de certo modo, os herdeiros dos imperadores. Isso ajuda a explicar que haja vários papas indignos.

Foto 2-Papa João XII

João XII, O libertino

Recuemos então à primeira parte do século X, a uma época caracterizada por Juan María Laboa Gallego como de “revoltas permanentes, intrigas e violência crónica”, com repercussões directas na “dignidade da Igreja”.

É neste tempo, em que Teofilacto, administrador e controlador das finanças do pontificado, cônsul e comandante de milícia, domina a vida política de Roma, através da sua mulher, Teodora, e das filhas Marózia e Teodora II, que aparece como “um dos piores papas”: Octaviano ou João XII (955-964).

“O papado foi o joguete e o instrumento das paixões de três mulheres intrigantes e descaradas que profanaram ainda mais o significado religioso do pontificado, não tanto pela sua obscenidade ou porque o transformassem num bordel, mas porque o converteram em algo insignificante”, reprova Gallego.

A cortesã Marózia foi amante do Papa Sérgio III (904-911), “uma personagem anódina, mesmo cruel e sanguinária, ao ponto de assassinar os seus dois predecessores”.

Foi também Marózia, ostentando o “título inédito de senadora e patrícia”, que mandou prender e matar (asfixiado com uma almofada) o Papa João X (914-928), por desconfiar que ele queria libertar-se da tutela da poderosa família Túsculo.

Outra “criatura” de Marózia terá sido Estêvão VII (928-931), aparentemente, também assassinado. Gallego nota que a passagem deste pelo trono “teve tão escassa relevância que alguns historiadores da sua época nem sequer o citam, passando directamente de João X para João XI.

Este, cujo pontificado durou de 931 a 935, era filho de Marózia e de Sérgio III. Foi papa aos 20 anos, por exigência da mãe, cujo terceiro casamento (com Hugo, rei de Itália) ele próprio celebrou.

Hugo ousou criticar publicamente Alberico II, filho do primeiro matrimónio de Marózia, e o enteado, beneficiando de apoio popular, mandou prender a mãe e o meio-irmão João XI.

Governou depois como “senador dos romanos”, elegendo quatro papas (Leão VII, Estêvão VIII, Marinho II e Agapito II), que se “dedicaram exclusivamente às suas atribuições espirituais”.

A decadência voltou à cidade quando o moribundo Alberico obrigou o clero e a nobreza a jurarem que o seu filho Octaviano, de 17 anos, seria o Sumo Pontífice. Assim em 955, “sem estudos eclesiásticos nem predisposição pessoal”, Octaviano tornou-se João XII (955-964) ou, como o define Laboa Gallego, “um pobre homem, preguiçoso, ímpio, de vida escandalosa, simoníaco” (aquele que compra incumbências, instituições ou bens espirituais).

Em 960, para se livrar da ameaça que representava Berengário, soberano da Itália Setentrional, o novo papa corou imperador Otão I da Alemanha, mas esta decisão retirou-lhe autoridade, tendo sido forçado a fugir de Roma para a Córsega.

Furioso por João XII se ter aliado ao filho de Berengário, seu inimigo, Otão I convocou um concílio romano onde condenou o Papa por “traição, apostasia e vida imoral”, substituindo-o por Leão VIII. Este não foi aceite pelos romanos, que abominavam os germânicos.

Quando o imperador deixou a cidade, João XII regressou e impôs o terror, mas acabou “assassinado enquanto se encontrava na cama com uma mulher casada, provavelmente pela mão do marido enganado”.

 Apesar de João XII merecer o seu desdém como Papa, Laboa Gallego considera que as nomeações de Otão I, II e III foram de “transcendência histórica”. Ao romperem com a “submissão total do papado a famílias absolutamente nefastas”, conferiram à Igreja uma “ideia de universalidade”, então inexistente, com decisões que não se limitavam a Roma, mas a Portugal e a Espanha, à Inglaterra e à Alemanha.

“É tristíssimo o período dominado por Marózia e Teodora II, uma família que não tem qualquer ideia de Igreja”, lamenta o espanhol Gallego. “Os que governavam Roma só queriam que os papas fossem seus servos.”

Foto 3-Papa Bento IX

Bento IX, O escandaloso

No catálogo dos papas “sem atracção nem força interior, oportunistas, manipuladores do seu cargo, simoníacos, alheios a qualquer vontade de reforma”, Laboa Gallego inclui também Bento IX, eleito em Outubro de 1032, supostamente, graças a pressões do seu pai, Alberico III, conde de Túsculo.

A Enciclopédia Católica, caracterizando-o como “desgraça na cadeira de Pedro” (praticaria sexo com animais na residência papal em Latrão, e “comandaria assaltos a peregrinos, ricos e idólatras”, nos cemitérios romanos), refere que teria entre 18 e 20 anos. Outras fontes sugerem 11 ou 12 anos de idade. Laboa Gallego apenas atesta que, durante os primeiros 12 anos do seu mandato, Bento IX levou “ uma vida dissoluta e escandalosa”.

Acusado pelo bispo Benno de Piacenza de “múltiplos e vis adultérios e assassínios”, e pelo Papa Vítor III de “violações, assassínios e outros actos indizíveis”, que o tornaram uma figura “abominável e execrável”, Bento IX foi obrigado a abandonar Roma depois de a cidade se cansar da sua “imoralidade” e das “tropelias da família tusculana”, confirma Laboa Gallego.

Em 1045, um outro pontífice, Silvestre II, ocupou o lugar deixado vago por Bento IX, mas este, que não se resignara à perda, regressou 49 dias depois para o expulsar.

No entanto, não ficou muito tempo no trono. Em menos de dois meses, em Julho de 1046, este sobrinho dos papas Bento VIII e João XIX abdicou a favor do padrinho, João Graciano, que adoptou o nome de Gregório VI.

Laboa Gallego desconhece as causas que levaram Bento IX a abdicar (alguns mencionam que queria casar-se com uma irmã), mas não nega que o padrinho lhe ofereceu “uma enorme soma em dinheiro”.

Os dois foram chamados a comparecer perante um sínodo reformador, em Sutri, perto de Roma, “a fim de esclarecer se tinham acedido aos seus cargos por simonia”.

Silvestre, que voltara a ser bispo de Sabina, faltou à chamada e não foi castigado, porque se mantivera distante de tudo. Bento IX também não compareceu, mas foi deposto formalmente. Gregório, o único presente, foi forçado pelo rei Henrique III e pelos bispos a reconhecer-se culpado e a renunciar.

Para retirar o controlo do papado às famílias romanas, o rei elegeu Clemente II (1046-1047), o primeiro alemão na cadeira de Pedro. Em 1048, porém, oito meses após a sua morte, Bento IX regressou à cidade e ao seu antigo posto, que ocupou por breves instantes até voltar a ser expulso, por ordem imperial.

Morreu em 1056, nas suas terras tusculanas, mas nunca reconheceu o sucessor, Dâmaso II. Também este teve um pontificado curto: morreu ao fim de 23 dias, provavelmente de malária.

No seu livro, Laboa Gallego explica: “Apesar da ínfima qualidade humana e moral de muitos destes papas, o que contava para o cristianismo era a instituição como tal, não a personalidade deste ou daquele papa, que para os contemporâneos tinha um escasso interesse. Manteve-se o princípio que distinguia entre o cargo e a pessoa que o exercia.”

“Somente se tivermos em consideração a mentalidade medieval, segundo a qual os critérios de valoração subjectiva tinham muito menos importância que no nosso tempo, é que podemos compreender que a imoralidade de muitos destes papas apresentasse menos consequências negativas para a instituição do papado do que poderíamos imaginar nos nossos dias.”

“Esta distinção era feita pelas pessoas mais simples”, sublinha o historiador, na entrevista. “Todos sabiam se um padre ou um papa era pecador, mas nunca punham em dúvida os sacramentos da Igreja. Agora, enfrentamos uma situação muito mais complexa. Hoje, crentes e não crentes exigem mais coerência: se queres que os outros sejam bons, deves tu começar por ser bom.”

Foto 4-Inocêncio VIII

Inocêncio VIII, O ganancioso

Bento IX pertence à Roma que Laboa Gallego designa por “pecadora, humilhada e violada”, mas Inocêncio VIII (1484-1492), incluído no capítulo da “Roma criadora, magnífica, rejeitada, penitente”, não foi de modo algum um papa virtuoso.

A eleição deste homem que se chamava João Baptista Cibo “foi comprada a ouro”, segundo algumas fontes; “graças a favores sexuais”, segundo outras.

“Casou o seu filho Franceschetto com uma filha de Lourenço de Medici [O Magnífico, de Florença], no Vaticano, numa cerimónia que escandalizou muitos, já que era a primeira vez que um papa apresentava ostensivamente os seus filhos e filhas.”

Mais tarde, o Papa elevou a cardeal outro filho de Lourenço, João de Medici, que tinha apenas 14 anos de idade, satisfazendo os objectivos políticos de uma família poderosa.

Ávido por dinheiro, Inocêncio “vendeu descaradamente os cargos da Cúria”, que se tornou “um grande mercado de vaidades, ambições e despropósitos”, critica Laboa Gallego. “Os que tinham comprado os postos procuravam amortizá-los quanto antes e, naturalmente, o bem da Igreja não constava nos seus projectos.”

A necessidade de dinheiro levou-o a organizar uma cruzada contra os turcos mas como os príncipes cristãos recusaram financiá-la, Inocêncio VIII acabou por firmar “o primeiro acordo diplomático com os infiéis”. Neste caso, com o sultão Bayaceto II, em 1489.

No âmbito deste pacto, o Papa acolhia em Roma o irmão e rival do sultão em troca de um tributo de 40 mil ducados anuais.

Foto 5 Alex Bórgia VI

Alexandre VI, O incestuoso

Depois de Inocêncio VIII chegou à Cúria Rodrigo de Borja y Borja, que adoptou o nome de Alexandre VI (1492-1503) e ganhou fama “não pelos seus valores religiosos, mas pela forma de vida sensual, pelo modo desinibido de utilizar o poder, pela personalidade frequentemente escandalosa dos seus filhos, e pelas lendas e calúnias elaboradas durante o seu pontificado”, observa Laboa Gallego.

O historiador atenua ser difícil distinguir “as acusações falsas contra um dos papas mais caluniados da história, obra dos seus inumeráveis inimigos tanto do mundo político como do eclesiástico, do cúmulo de actuações imorais, prepotentes e desmedidas” de Alexandre e da sua família.

Das várias lendas que envolvem Alexandre VI estão as de que “comprou o papado” e foi “amante das próprias filhas, com as quais teve vários filhos”; que teria participado na “orgia mais depravada de todos os tempos na residência papal”; e a de que envenenou muitos cardeais ricos da Europa depois de deliberar que após a morte destes a Igreja herdaria as suas fortunas.

O sucessor de Inocêncio VIII era “amante do luxo e do fausto” e a sua vida era abertamente licenciosa”, não duvida Laboa Gallego. Alexandre VI teve pelo menos nove filhos, entre os quais se destacaram os da sua amante Vannozza Catanei: João (o predilecto, foi assassinado e atirado ao rio Tibre), César (talvez o mais beneficiado, com inúmeros privilégios e territórios da Igreja), Lucrécia e Jofre. Como papa, teve outra amante oficial, Júlia Farnese, e uma outra desconhecida de quem teve mais dois filhos.

Gallego é implacável na avaliação de Alexandre/Borja: “Conseguiu o papado graças às divisões fratricidas existentes entre os cardeais e, sobretudo, às atractivas e generosíssimas promessas feitas a quem votasse nele.

Necessitou com frequência de dinheiro e utilizou todos os meios para o conseguir, quer vendendo o cardinalato, quer esfolando os judeus abastados, quer ameaçando ou abençoando.”

Em 1497, quando o filho João foi morto, Alexandre anunciou aos príncipes da cristandade que ia mudar a Igreja e o Vaticano. Uma bula, elaborada por uma “comissão de reforma”, proibia os cardeais de possuírem mais do que um bispado e benefícios superiores a 6000 ducados.

Também ficariam interditos de participar em “diversões mundanas – como o teatro, os torneios e os jogos de carnaval”. Teriam de residir na Cúria e “ser austeros nos gastos”, incluindo os da própria sepultura. Os que não cumprissem seriam severamente punidos.

A bula não chegou, porém, a ser aplicada, e Alexandre voltou à sua vida de “sensualidade, hedonismo e frivolidade”.

Gallego conclui: “Não foi edificante, na verdade, este papa, embora ainda hoje seja difícil distinguir entre os dados objectivos e a feroz lenda negra que o perseguiu, a ele e aos seus filhos, mas não há dúvida de que ficou na história não só pelos seus deslizes morais, mas também porque representa como poucos os vícios, a falta de valores e as características do Renascimento.”

 “Antigamente, as pessoas aceitavam que a Igreja fosse, ao mesmo tempo, santa e pecadora”, justifica o historiador dos papas. “O cristão era olhado sempre como um pecador. Nós, pelo contrário, adoptámos uma postura boa na teoria, mas impraticável: víamos os sacerdotes todos como santos.”

“Achávamos que a Igreja era santa. Mas isso não é verdade. Os sacerdotes têm mais responsabilidades, mas nós somos homens. Somos todos pecadores! Uma coisa é certa: depois do que passámos [dos escândalos de pedofilia no clero], vamos passar a ser muito mais humildes.”

“Há 40-50 anos, a sociedade guardava todos os seus segredos”, lembra Gallego. “Uma família, por exemplo, tinha um filho com síndroma de Down e ocultava-o. Porque achava, talvez, que era uma vergonha. Até podia cuidar dele, gostar dele, mas escondia-o em casa.”

“Hoje, somos muito mais livres e mais exigentes no que diz respeito à honradez exterior. Há 40 anos, quando um padre engravidava uma mulher, ela ficava para trás e ele mudava de paróquia. Porquê? Para não escandalizar. Isso correspondia a uma época.”

© lifesitenews.com

“Temos de procurar a santidade, mas tenhamos consciência de que somos pecadores”, frisa Laboa Gallego. “Esta é a grande lição dos tempos actuais. Temos de aceitar, não digo com tranquilidade, mas sim com humildade, as debilidades dos cristãos, dos clérigos e da Igreja. S. Paulo dizia: ‘Quero o bem e muitas vezes faço o mal’.

Ora, o que eu aprendi nestes 40 anos que dedico à história da Igreja e dos cristãos é que, na vida de cada um e na da Igreja, o pecado e a graça de Deus estão muito misturados. No século XX, muitos escritores abordaram esta questão.”

“O inglês Graham Greene, em O poder e a Glória, conta como um padre no México, bêbado e mulherengo, se vê ameaçado de morte em plena revolução”, exemplifica Laboa Gallego.

“Os revolucionários exigem que ele abandone, publicamente, o sacerdócio se quiser salvar a vida. Ele, que era pecador, responde: ‘Não posso desiludir a minha gente. Não posso fugir às minhas responsabilidades na Igreja.’ Mataram-no. Na vida da Igreja mistura-se muito o pecado e a graça.”

“Hoje, descobrimos os padres pederastas, mas não falamos dos milhares de monjas, sacerdotes e cristãos laicos que estão ao lado dos marginais, dos mais pobres, dos anciãos, das crianças abandonadas”, lamenta o historiador.

“O governo de Madrid, que é socialista e anticlerical, já reconheceu que as paróquias que se situam nas áreas mais carenciadas são as que conseguem manter a paz social.”

“Sim, esta é uma Igreja de pecado – isso já ficou demonstrado. Muitos cristãos, e não apenas sacerdotes, que têm a obrigação de ser honrados são pecadores”, aceita Laboa Gallego. O que tem de fazer Bento XVI?

“Por um lado, tomar consciência de que não se pode tolerar nem ocultar o pecado na Igreja. Temos também de ensinar aos cristãos que todos somos débeis. Que só Cristo não peca, porque é Deus.”

“Em vez de nos escandalizarmos com os pecados dos outros, devemos perguntar o que devemos fazer por um mundo melhor”, recomenda o teólogo e historiador.

“Não temos a obrigação de ser santos, mas temos de imprimir um sentido de optimismo. No Antigo Testamento, Deus diz a Moisés: ‘Vou destruir essa cidade porque está cheia de pecado’. Moisés implora: ‘Senhor, e se há 40, 30, 20 justos?’ Deus anui: ‘Bem, então irei salvá-los’.”

© lifesitenews.com

“O facto de os padres e os papas pecarem não quer dizer que não tenham medo do Inferno”, ironiza Laboa Gallego. “O problema é que o pecado é mais forte do que eles. Muitos terão sentido terror, mas eram muito fracos.”

“A Igreja tem de se limpar destes pecados da pedofilia. Não podemos, todavia, esperar que todos sejamos puros. Temos de procurar que estes pecados não se repitam. Temos de ser mais transparentes na Igreja, mas temos de aceitar que somos fracos.”

“Só há um pecado fundamental: a ânsia de dominar e de poder”, vinca Laboa Gallego. “Jesus disse: ‘Eu vim para servir e não para ser servido’. Ele ensinou que, na Igreja, quem governa deve servir.”

“O grande pecado não é o sexo, que é uma consequência. O grande pecado é a ânsia de poder, de dominar. Este é mais forte. Em muitos pecados, incluindo o da pederastia, pior do que o sexo é o desejo de dominar – dominar uma criança, dominar uma mulher.”

Se querem perceber porque o “maior pecado” da Igreja Católica não é o sexo mas a ânsia de poder, vejam o filme Irmão Sol, Irmã Lua, do italiano Franco Zefirelli, recomenda Laboa Gallego que, na História dos Papas, reconstrói a cena em que Inocêncio III recebe Francisco de Assis.

“Numa majestosa sala de audiências, Inocêncio está rodeado pela sua brilhante corte de cardeais e curiais, todos envergando trajes luxuosos. Do pináculo da sua glória, o Papa vê confusamente um grupo apinhado de frades: não os distingue. Não capta o seu sentido. Levanta-se do trono e decide descer.”

“À medida que se aproxima, vão-lhe deslizando a capa magna e vão caindo as vestes sobrepostas, a mitra, as jóias, os anéis e as cruzes. Ao mesmo tempo descobre, cada vez mais nitidamente, os rostos de Francisco e dos seus irmãos andrajosos. Quando chega ao nível destes, cobre-o apenas a alva branca – mas vê, ouve, interpreta (…) e produz-se uma sintonia real entre ambos.”

De regresso ao trono, “numa lenta marcha-atrás, Inocêncio vai subindo de costas os escalões, caem sobre ele as gemas e os luxos, até o cobrirem, e vai perdendo em igual medida a visibilidade, até que de novo só percebe vagamente Francisco”.

Esta cena mostra, que “uma Igreja rica e poderosa pode mover-se pouco, adaptar-se menos, mal pode evangelizar”.

Juan María Laboa Gallego

Este artigo, agora revisto, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 9 de Maio de 2010 | This article, now revised, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on May 9, 2010

O tanque de “Shmulik” na guerra de “Arik”

A invasão do Líbano de 1982 foi a guerra mais impopular de Israel. Planeada por Ariel Sharon para destruir a OLP, falhou os objectivos. Com ela nasceu um movimento pacifista em Telavive e uma Intifada na Palestina. (Ler mais | Read more…)

Lebanon, de Samuel Maoz, retrata uma guerra onde os feridos têm nome de código de “flores” e os mortos de “anjos”

A guerra de Samuel Maoz não começou no Líbano às 3h00 da madrugada de 6 de Junho de 1982. Começou em 1977 com um “terramoto” político em Israel: a vitória do partido Likud nas eleições que fizeram de Menachem Begin primeiro-ministro, pondo fim a mais de quatro décadas de hegemonia trabalhista (antes e depois da criação do Estado).

Com a ascensão da direita, um nova política foi posta em marcha. Para o anterior chefe do Governo, Yitzhak Rabin, do Labour, um Líbano fraco, com cristãos a combater muçulmanos e palestinianos, reduzia a ameaça na fronteira Norte de Israel. Begin era mais ambicioso.

Pretendia unir as milícias cristãs – e, em particular, a mais poderosa delas, Kataeb (Falange) – numa força paramilitar que permitisse “erradicar a OLP”, de Yasser Arafat, apresentada no programa político do Likud como “organização de assassinos”.

Não será por acaso que Lebanon, o filme de Shmulik, diminutivo de Maoz e da personagem autobiográfica, inclui um miliciano falangista e um prisioneiro sírio.

Eles fazem parte da guerra onde os feridos têm nome de código de “flores” e os mortos de “anjos”. A guerra que fez nascer na antiga Praça dos Reis, em Telavive, o movimento Peace Now.

A guerra que abriu o caminho aos massacres de Sabra e Shatila. A guerra que inspirou a primeira Intifada na Cisjordânia e Faixa de Gaza, em 1987. É esta guerra que vemos através do periscópio do tanque de Shmulik, começou assim:

Confortado com as negociações de paz em curso com o Egipto de Anwar el-Sadat, Menachem Begin obrigou a OLP a adoptar uma posição defensiva em todas as frentes.

Em 1978, Arafat ofereceu-lhe a oportunidade para a primeira invasão terrestre do Líbano. Na manhã de 11 de Março, um grupo de 11 comandos da Fatah, a maior facção da OLP, comandados por uma mulher, iludiu os radares devido ao mau tempo e desembarcou numa praia a sul do porto israelita de Haifa.

Cada um deles estava munido de metralhadoras, granadas e dinamite. Avançaram três quilómetros até à principal auto-estrada para Telavive e sequestraram um autocarro com 63 passageiros a bordo.

A polícia, o exército e a guarda fronteiriça moveram uma perseguição aos atacantes, que disparavam pelas janelas e fizeram explodir granadas no seu interior. Quando tudo terminou, contaram-se 46 mortos – 37 israelitas e nove palestinianos – e quase 80 feridos.

O que ficou conhecido como “massacre na estrada costeira” foi, até então, o mais devastador ataque palestiniano desferido a partir do Líbano.

A 14 de Março, os israelitas lançaram a Operação Pedra da Sabedoria, envolvendo 28 mil homens. Bombardearam bases da guerrilha e campos de refugiados no Sul do Líbano e em Beirute.

“O Líbano,é fácil de comer, mas difícil de digerir”, dizia o líder cristão falangista Bashir Gemayel, aliado de Israel que seria assassinado pela Síria, num acto de vingança, depois de os tanques de Ariel Sharon terem entrado em Beirute e cercado, pela primeira vez, uma capital árabe, em 1982. (Na foto, uma cena do filme)

Uma semana depois, declarado um cessar-fogo, tinham sido mortos 200 combatentes da OLP, 20 soldados israelitas e cerca de mil civis palestinianos e libaneses.

Mais de dez aldeias foram arrasadas e 6000 casas destruídas; centenas de milhares de pessoas ficaram sem lar e tornaram-se exiladas no seu próprio país. Estas estimativas são da Cruz Vermelha Internacional.

A 19 de Março, o Conselho de Segurança apelou à retirada israelita e criou uma Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL), para servir de “tampão”.

No entanto, nem a presença destes “capacetes azuis”, nem a “zona de segurança” na fronteira, entregue por Israel à milícia cristã Exército do Sul do Líbano, antes de retirar os seus soldados em 1978, impediu que os guerrilheiros palestinianos continuassem a atacar povoações na Galileia com rockets Katyusha.

Em 1981, o ministro israelita da Defesa, Ariel Sharon, começou a delinear planos de nova invasão, alegando que um cessar-fogo negociado pelo emissário norte-americano Philip Habib estava a “servir de cobertura” aos guerrilheiros para expandirem as suas forças e lançarem ataques. A ONU – e os Estados Unidos – não corroboraram essas alegações.

O general Arik, encorajado pelos seus contactos em Beirute com Bashir Gemayel, o implacável líder da Falange que não hesitara em matar, ao estilo da Mafia, os rivais cristãos que se opunham a uma aliança com Israel, elaborou uma “pequena” e uma “grande” versão da Operação Pinhal.

A mais modesta, previa um avanço das tropas israelitas até Sídon, no Sul do Líbano. A mais ambiciosa, incluía uma progressão até à auto-estrada Beirute-Damasco.

Em 25 de Maio, num frente-a-frente com William Haig, secretário de Estado do Presidente Ronald Reagan, em Washington, Sharon pediu “luz verde” para invadir o “País do Cedro” e destruir a OLP.

O anfitrião, embora inimigo visceral da organização palestiniana, terá acendido uma “luz amarela”. O bastante para o visitante regressar a Israel confiante de que os EUA não travariam os seus planos.

Só faltava um pretexto. E ele chegou, oficialmente, a 3 de Junho de 1982, quando um atirador palestiniano, do grupo de Abu Nidal, disparou sobre o embaixador de Israel em Londres, Shlomo Argov, deixando-o gravemente ferido.

Para “falcões”, como Sharon, não havia diferença entre Abu Nidal e Yasser Arafat, apesar de o primeiro ter sido banido da Fatah, por ter tentado assassinar o segundo.

O chefe de Estado-Maior das Forças Armadas de Israel, Rafael Eitan, confessou: “Ergui uma máquina militar no valor de biliões de dólares. Tenho de a usar.”

Lebanon, que se estreou no Festival de Veneza, em 2009, foi totalmente filmado no interior de um carro de combate, “um lugar quente, suado e enferrujado com odores de homens e medo”. Na foto, cena do filme

Na mesma noite de 3 de Junho de 1982 em que o embaixador Shlomo Argov quase foi morto em Londres, a polícia britânica responsabilizou os serviços secretos iraquianos e ilibou a OLP pelo atentado.

Indiferente, Begin ordenou um castigo imediato, com raides aéreos a alvos palestinianos. Só informou o seu governo na manhã seguinte, numa reunião de emergência. À tarde, a OLP ripostou com tiros de metralhadora e morteiros contra a Galileia.

A 5 de Junho, numa outra reunião na casa de Begin em Jerusalém, foi aprovada uma incursão de 40 quilómetros no Sul do Líbano, para destruir os arsenais da OLP. Sharon afiançou: “A operação durará apenas 24 horas” e “Beirute está fora de questão”. Nem uma nem outra promessa foram cumpridas.

Em 6 de Junho de 1982, o “Napoleão do Médio Oriente” entrou no Líbano com 80 mil soldados em 1240 carros de combate e mais de 1500 outros veículos blindados – um deles o tanque de Shmulik. Nem nos seus piores pesadelos, Arafat imaginava que Sharon fosse cercar Beirute.

Arafat não esperava também que a UNIFIL nada fizesse para travar o início da Operação Paz para a Galileia no Sul do Líbano, região conhecida como “Fatahlândia”, onde a OLP tinha 6000 de um total de 15 mil combatentes profissionais, além de voluntários.

A 6 de Junho, Sharon fez avançar as tropas israelitas não só por terra, mas também por mar e ar. Na madrugada de 7 de Junho, tinha atingido os seus “limitados objectivos”: silenciar as armas palestinianas e evitar um confronto com os sírios, que desde o início da guerra civil libanesa (1976) já tinham quase 30 mil soldados no país vizinho.

Um a um, foram caindo os bastiões mais importantes da guerrilha, como o Castelo de Beaufort (que inspirou outro filme israelita, dirigido por Joseph Cedar) e os campos de refugiados de Al Rashidiya e Ain al-Hilweh.

No dia 9, os sírios viram destruídas 17 baterias de mísseis e 29 caças, no Vale de Bekaa.

No dia 13, Pierre e Bachir Gemayel, o pai fundador e o filho herdeiro da milícia falangista criada em 1936 e inspirada no modelo nazi (os seus elementos faziam saudações de braço no ar, usavam capacetes coloniais, camisas e gravatas caqui), juntaram-se aos generais israelitas para celebrar a chegada de Sharon aos subúrbios de Beirute.

A capital libanesa seria, porém, um osso duro de roer. Uns dez mil guerrilheiros palestinianos, milicianos libaneses e o que restava do contingente sírio resistiram a um apertado cerco.

Sharon queria que os Gemayel conquistassem Beirute Ocidental, mas os falangistas recusaram. Os israelitas tiveram de fazer o trabalho sujo, bombardeando incessantemente o sector muçulmano da cidade, deixando os habitantes sem água, luz e alimentos, aterrorizando-os com explosões de carros armadilhados.

A guerra que abriu o caminho aos massacres de Sabra e Shatila. A guerra que inspirou a primeira Intifada na Cisjordânia e Faixa de Gaza, em 1987. É esta guerra que vemos através do periscópio do tanque de Shmulik,

Os EUA voltaram a enviar o seu emissário Philip Habib, para negociar tréguas mas também uma retirada dos guerrilheiros palestinianos e dos soldados sírios.

Em Israel, a pressão política aumentou sobre Begin e Sharon, para justificarem os cerca de 19 mil mortos (700 deles israelitas) e mais de 30 mil feridos da Operação Paz para a Galileia.

A 1 de Agosto, o Governo israelita aceitou um cessar-fogo na condição de, à mínima violação, poder atacar. Ainda a reunião não tinha acabado e já o aeroporto de Beirute estava a ser bombardeado.

No dia 4, Sharon ordenou uma ofensiva total para matar Arafat na autoproclamada “República Fakhani”, o bairro onde funcionava o seu quartel-general, e não hesitou em arrasar edifícios com bombas de vácuo, numa tentativa vã de matar o inimigo.

Perante um ultimato israelita para se render “em 24 horas”, e aconselhado por destacadas figuras libanesas a “partir com honra”, o chefe da OLP aceitou dispersar os seus 10 mil guerrilheiros por oito países árabes.

Os primeiros partiram, no dia 20. Ele, a quem o seu povo chamava afectuosamente Al-Kitiyar (O Velhote), fez questão de ser o último a sair da Watan al-badeel, ou “pátria substituta”, no dia 30.

Samuel Maoz, o israelita realizador de Lebanon
© The Wall Street Journal

Este homem, que durante o cerco de Beirute trocara o inseparável kaffiyeh por um boné dos generais alemães, não podia aceitar uma derrota humilhante. Para Arafat, a resistência tinha sido “heróica, histórica, sangrenta, gloriosa”.

Os palestinianos tinham arrastado Israel para o atoleiro libanês, uma ocupação que viria a revelar-se mais insuportável (terminou em 2000) do que a da Cisjordânia e Gaza; e o mundo viu como os israelitas bombardeavam indiscriminadamente civis para exibir a sua superioridade militar.

Uma superioridade, alguns dirão invencibilidade, que Samuel Maoz questiona, quando nos mostra quatro soldados vulneráveis, perturbados com as ordens para disparar a matar, sensíveis ao sofrimento do inimigo (sírio), traídos pelo aliado (falangista).

Os mesmos aliados falangistas que, durante três dias e três noites, em Setembro de 1982, banharam de sangue os campos de refugiados de Sabra e Shatila: 1500 mortos, segundo os palestinianos; entre 700 e 800 mortos, segundo uma comissão de inquérito israelita, que forçou a demissão de Arik.

Os massacres “vingaram” o assassínio do entretanto eleito Presidente Bashir Gemayel. A sua morte, num brutal atentado bombista ordenado pela Síria de Hafez al-Assad, inviabilizou o sonho de Sharon e Begin de ver o Líbano tornar-se no segundo país árabe a assinar a paz com Israel.

O Líbano, dizia Gemayel, “é fácil de comer, mas difícil de digerir.”

In this June 15, 1982 file picture, Israeli Defence Minister Ariel Sharon, foreground, rides an armored personnel carrier on a tour of Israeli units advancing to the outskirts of Beirut, Lebanon. (THE @ASSOCIATED PRESS / Israeli Defence Ministry / File)

15 de Junho de 1982: Ariel Sharon (Arik), o “arquitecto” da invasão do Líbano, planeada para “erradicar a OLP”, visita unidades militares sob seu comando, nos arredores de Beirute
© The Associated Press | Israeli Defence Ministry

Este artigo foi publicado originalmente no Jornal PÚBLICO em 30 de Abril de 2010 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on April 30, 2010

Quando os terroristas aceitam ir para a “rehab”

Jessica Stern trabalhava em Washington quando decidiu “fazer o que os académicos raramente fazem: falar com terroristas”. Dos vários encontros que teve resultou um livro, Terror in the Name of God – Why religious militants kill. Agora a sua missão é reabilitar terroristas, seja em Roterdão, Bagdad ou Minneapolis.  (Ler mais | Read more…)

© John Moore | Getty Images | The Independent

Na Primavera de 2000, quando estudava a liderança dos grupos terroristas no âmbito de uma bolsa da Universidade de Harvard, onde hoje dá aulas, Jessica Stern encontra-se, em Lahore, com um “quadro superior” da Harkat-ul-Mujahideen (HUM), organização que engloba vários grupos extremistas, supostamente ligada à al-Qaeda e ao directório dos serviços secretos paquistaneses (ISI).

No seu gabinete, numa das vielas da cidade, depois de oferecer à visitante porta-chaves, posters e calendários decorados com espingardas Kalashnikov, o homem por ela identificado apenas como Yusuf confessa-lhe que “já não acredita na causa”. Quer desistir.

No dia seguinte, Yusuf aparece para continuar a conversa, no hotel onde Jessica Stern se alojara. “Tenho medo – por mim e por ele”, escreve a autora de Terror in the Name of God – Why religious militants kill.

“Ele trabalha para uma organização que matou tanta gente. Mas agora diz ter mudado de ideias. Será que o ISI me montou uma armadilha? Será que querem ver como eu reajo perante esta situação? Será que, apesar de eu ter sido totalmente franca com eles em relação às minhas entrevistas, eles ainda pensam que trabalho para a CIA?”

Jessica Stern opta por ficar no lobby, na esperança de que a ruidosa música do piano abafe o som dos queixumes que vai ouvir. Yusuf diz que ganha um bom salário, “melhor do que no sector civil”, mas sente-se frustrado porque os seus chefes “estão a ficar cada vez mais ricos com a jihad“.

As aparências iludem. “Eles têm escritórios sujos e servem-nos comida má para provar que não têm dinheiro, mas vivem em mansões”, lamenta.

As organizações jihadistas recebem “muitos donativos” e uma grande parte vai para os líderes, beneficiários do “estatuto VIP” oferecido por vários governos paquistaneses, que os ajudam em campanhas de angariação de fundos e no treino militar.

Muitos dos que entram nas organizações jihadistas “provêm das classes mais pobres – 85 por cento vivem abaixo da linha de pobreza; 12 por cento pertencem à classe média, e cerca de três por cento são ricos”, especifica.

Yusuf quer escrever um livro para contar tudo o que sabe e “não sai nos jornais”. Acaba por deixar a HUM, mas a integração no “sector civil” não é fácil. Sem editora para lhe publicar a obra e assegurar subsistência, propõe-se escrever um artigo para um jornal liberal paquistanês lido pelas elites, mas este não garante segurança pessoal.

Os amigos aconselham-no a desistir dos seus planos e a manter-se afastado durante alguns anos. Ele estava, porém, determinado a ser “um mártir por uma nova causa, como se, apesar de ter deixado a jihad, não pudesse jamais abandonar uma vida de perigo e sacrifício – desta vez uma jihad contra os jihadistas”, constatou Stern.

© John Moore | Getty Images | Newsweek

Depois de “fazer o que os académicos raramente fazem: falar com terroristas”, Jessica Stern foi chamada a envolver-se em projectos de “reabilitação [rehab]” de terroristas, na Holanda, no Iraque, na Grã-Bretanha, na Arábia Saudita e nos Estados Unidos.

O seu currículo impressiona. Quando escreveu Terror in the Name of God, aclamado pelo New York Times como notable book of the year, em 2003, ela era Superterrorism fellow no Council on Foreign Relations (Washington), ao qual continua associada. Pertenceu ao Conselho Nacional de Segurança do ex-Presidente Bill Clinton, em 1994-95.

É também membro da Comissão Trilateral (organização internacional privada criada em 1973 por David Rockefeller e que hoje congrega 325 personalidade e líderes de diversas áreas da América do Norte, Europa e Japão).

É National Fellow da Hoover Institution e Fellow do Fórum Económico Mundial. Fez um mestrado em Engenharia Química no prestigiado MIT (Massachusetts Institute of Technology) e o doutoramento em Política Pública na Universidade de Harvard.

Numa entrevista, por e-mail, Jessica Stern revela que Yusuf ainda lhe escreve, “de vez em quando, a contar as dificuldades da sua transição”. Ela não o considera, porém, “um tipo particularmente espiritual”. As razões da sua frustração “são outras”, que não explicita.

O seu arrependimento nada tem a ver com o de um combatente na Caxemira que ela conheceu e cita sob anonimato: “É errado ser zelota e fundamentalista.”

Os terroristas arrependidos não são todos iguais, vinca Stern, apontando o caso de um neonazi que se “reformou” depois de convencido de que não podia continuar a querer “livrar o mundo” de casais racialmente mistos, de homossexuais e de judeus.

“Este homem era muito devoto e, por isso, foi-lhe muito doloroso ter de reconhecer que tinha, segundo ele, interpretado mal as palavras de Deus.” Na Arábia Saudita, muitos dos “terroristas recuperados” que Stern conheceu “mudaram o comportamento mais do que as ideias”.

Em Terror in the Name of God, Jessica Stern tenta responder a questões que há muito a intrigavam: “Por que é que a mesma fé em Deus que inspirou Miguel Ângelo e Mozart também inspira vários crimes? Por que é que os textos religiosos dão aos terroristas justificação para matar inocentes e a outros dão inspiração para a caridade?”

Os terroristas religiosos – sejam eles judeus como Yoel Lerner, que conspira para assassinar os árabes de Israel; cristãos como Paul Hill [1954-2003] que matava médicos e enfermeiros nos Estados Unidos, por ajudarem mulheres a abortar; ou muçulmanos como Já’afar Umar Thalib, teólogo indonésio que instiga massacres e conversões forçadas dos que não professam o Islão – sentem-se “ameaçados pela propagação de valores como o secularismo e as liberdades individuais”.

© Brennan Linsley | AP | axios.com

Nos grupos terroristas, observou Stern, “os fracos tornam-se fortes, os egoístas tornam-se altruístas, dispostos a sacrificar a própria vida na convicção de que a sua morte servirá o bem público. Entram numa espécie de transe, onde o mundo se divide em bem e mal, vítima e opressor.”

“Não há espaço para o ponto de vista do outro. Porque acreditam que a sua causa é justa (…), até o crime mais hediondo consideram justificável. Acham que têm razão, não apenas política mas moralmente. Acreditam que Deus está do lado deles”.

Se Deus “fica silencioso”, os terroristas imitam o opressor. “O objectivo é vencer a qualquer preço”, adianta Stern. “Com o tempo, o cinismo começa a sobrepor-se. O terrorismo torna-se numa carreira, tanto quanto uma paixão. O que começa por ser um fervor moral transforma-se em organização sofisticada. O ressentimento ganha a forma de ganância – por dinheiro, poder político ou atenção.”

“Devemos compreender esta dinâmica e explorá-la de todas as maneiras possíveis, semeando a discórdia, a confusão e até a rivalidade entre terroristas, e entre terroristas e os seus patrocinadores”, recomenda Stern. Terá sido, então, no decurso das suas conversas com terroristas que ela, tantas vezes compelida a ocultar a sua origem judaica, descobriu ser possível reabilitá-los?

“Para ser honesta, a experiência de falar com eles deixou-me bastante céptica quanto à capacidade de estranhos conseguirem “desradicalizar” terroristas diligentes e profissionais”, esclarece a mulher elogiada como “a maior especialista em terrorismo nos Estados Unidos”.

Stern começou por se envolver no processo de “desradicalização” em 2005, meses depois de o cineasta holandês Theo van Gogh, ter sido assassinado por um islamista. As autoridades da cidade de Roterdão contrataram-na para ajudar a “desenvolver um conceito de cidadania que incluísse os nascidos na Holanda, os imigrantes e seus filhos”.

O município estava preocupado com “a ideia de que a jihad estava a atrair não apenas jovens muçulmanos mas também recém-convertidos ao islão”.

Stern considera que “os extremistas mais perigosos, no Ocidente, tendem a ser os convertidos ao Islão takfir“, o que legitima a morte dos outros como infiéis. Esta “ideologia extremista” atrai também os “muçulmanos renascidos”, de uma maneira geral, jovens que “procuram uma forma de islão mais “pura” do que o islão sincrético e etnicamente moderado praticado pelos seus pais, e que encontram apoio [em sites islamistas] na Internet”.

Em 2007, Stern foi recrutada por uma empresa ao serviço do Exército norte-americano para desenvolver um programa de reabilitação para “os cerca de 26 mil “terroristas”” detidos em Camp Bucca (entretanto encerrado) e Camp Cropper, no Iraque.

Nestas prisões, sob supervisão da Task Force 134, “era imperativo encontrar uma maneira de afastar os mais perigosos entre eles, integrando na sociedade os detidos que constituíssem um perigo menor, sem com isso colocar em risco as populações”, disse-nos Stern.

“Concluímos que a vasta maioria dos “terroristas” capturados não eram, na realidade, terroristas. Alguns eram insurrectos, no sentido de que combatiam pessoal militar e não civil.”

© John Moore | pri.org

Stern surpreendeu-se quando reparou no “número elevado de jovens” que detonavam bombas “não por estarem interessados na ideia de uma guerra santa, mas por dinheiro – precisavam de emprego”. O esforço de reabilitar estes detidos “parece ter resultado, mas é difícil perceber se o sucesso se deve ao programa aplicado ou porque muitos dos terroristas não eram terroristas”, afirmou.

As mesmas dúvidas se colocam em relação aos esforços que estão a ser empreendidos na Arábia Saudita, de onde eram originários 11 dos 19 bombistas suicidas dos ataques de 11 de Setembro de 2001 nos EUA. O reino garante que já conseguiu reabilitar “80 a 90 por cento” dos seus terroristas.

Stern interroga-se: “O que significa isto? É certo que os terroristas envelhecem como todos nós, mas será que alguns destes “beneficiários” (o termo saudita para os que se submetem à reabilitação) estavam predispostos a desistir de lutar?”

“Será que o mais importante não é a vigilância pós-libertação e o resto do programa de reabilitação é apenas uma fachada? Não podemos saber sem termos acesso às pessoas que se sujeitaram a esses programas – de preferência, antes e depois.”

Em 2009, Stern visitou um centro de reabilitação em Riad, onde terroristas condenados aprendem a reintegrar-se na sociedade através da “reeducação religiosa, aconselhamento psicológico e ajuda para encontrar emprego”.

Pergunto-lhe: de que vale este esforço se a doutrina oficial da Arábia Saudita, o wahhabismo, é a mesma adoptada por Osama bin Laden e pela Al-Qaeda? “O governo saudita insiste em que a principal razão para o terrorismo é a ignorância sobre a verdadeira natureza do islão”, responde Stern. “Os teólogos envolvidos na reabilitação de terroristas ensinam que só os Estados e não indivíduos, como Bin Laden, podem declarar uma guerra santa.”

Se os programas de reabilitação ajudam a diminuir o número de terroristas, Stern evoca também um outro factor: “Os milhares de civis muçulmanos mortos pela al-Qaeda e grupos afiliados no Iraque, Afeganistão ou Argélia mancharam a sua reputação de movimento islâmico de vanguarda.”

© Brennan Linsley | Associated Press | Los Angeles Times

Vários líderes islamistas que em tempos apoiavam Bin Laden, “como Sayyid Imam al-Sharif [conhecido por Al-Fadl], o padrinho ideológico da organização, renegaram-na publicamente”. Além disso, várias sondagens indicam que a popularidade da al-Qaeda entre as populações muçulmanas “está em declínio.”

Reabilitar terroristas, a avaliar pela experiência saudita, é extremamente oneroso, observou Stern. Estarão os governos interessados em investir os fundos necessários? “Creio que sim”, responde a especialista. “Vários países iniciaram programas de desradicalização, incluindo Singapura e a Líbia. Os líbios fizeram um grande esforço para neutralizar o Grupo de Combate Islâmico.”

“Isso não significa, todavia, que os programas são sempre bem-sucedidos, ou que não existam interesses e facções concorrentes dentro dos governos a promover o contraterrorismo e a desradicalização. Na Europa, sinto que estão a levar muito a sério os programas que têm como finalidade a prevenção do terrorismo.”

O problema mais grave, reconhece Stern, é que “os muçulmanos moderados tendem a ser olhados com menos credibilidade” quando recebem fundos de governos ocidentais no combate ao extremismo. “Recentemente, fui contactada por um dirigente da comunidade somali-americana que se mostrou muito preocupado com a aparente radicalização na mesquita de Abubakar As-Sadique, em Minneapolis.”

À maior cidade do estado do Minnesota têm chegado, nos últimos anos, vários imigrantes e refugiados da Somália, e estes pouco têm em comum com os muçulmanos dos Estados Unidos. Têm sido comparados aos paquistaneses no Reino Unido e aos marroquinos na Holanda, que se sentem discriminados nas escolas e no mercado de trabalho. O primeiro bombista suicida norte-americano era de origem somali.

O líder comunitário que abordou Stern “pretendia obter mais informação sobre os programas de desradicalização no estrangeiro. Gostaria de visitar a Muslim Contact Unit em Londres [parceria entre forças especiais e líderes comunitários muçulmanos estabelecida em 2002], para ter algumas ideias. A fonte de financiamento mais fácil, para ele, seria o FBI, mas ele receia que, ao aceitar fundos da polícia federal, a sua comunidade olhe para ele como um fantoche”.

Foi isso que aconteceu à Quilliam Foundation, no Reino Unido, formada por dois antigos membros da organização islamista Hizb ut-Tahrir. Assim que este think tank anti-extremista recebeu cerca de um milhão de libras do governo britânico, perdeu o respeito dos muçulmanos britânicos.

Em 2003, surgiu uma alternativa: Hanif Qadir e o seu irmão, antigo membro de um gang local, criaram a Active Change Foundation, organização que dirige um grupo juvenil e um ginásio, no norte de Londres, com o apoio da Polícia Metropolitana (Scotland Yard).

Qadir contou a Jessica Stern como em 2002, a caminho do Afeganistão, depois de contratado pela al-Qaeda, mudou de ideias ao ouvir que os “voluntários” estavam a ser usados como “carne para canhão”.

Desde então, tem-se dedicado a encorajar jovens a “exprimir a sua raiva sobre o tratamento dos muçulmanos no Iraque, na Palestina e noutros locais, mas canalizando-a para uma acção política pacífica”. A razão do seu êxito está em trabalhar “por detrás do muro de silêncio” com as comunidades que a sociedade deixou nas margens.

Jessica Stern
© Boston University

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi originalmente publicado no jornal PÚBLICO, em 1 de Abril de 2010 | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on Abril 1, 2010

 

Lashkar-e-Taiba: Fixem este nome

Usado pelos serviços secretos paquistaneses como arma para controlar o Afeganistão e destruir a Índia, o “Exército dos Puros” já é considerado “tão ou mais perigoso do que a Al-Qaeda”. Tornou-se numa ameaça global. (Ler mais| Read more…)

Activistas paquistaneses do Jamaat-ud-Dawa (JuD), uma organização de “caridade”, considerada um ramo do grupo islamista ilegalizado Lashkar-e-Taiba (LeT), protestam, na cidade de Lahore, contra o domínio da Índia sobre uma parte de Caxemira © AFP

Activistas paquistaneses do Jamaat-ud-Dawa (JuD), organização de “caridade” considerada um ramo do grupo islamista ilegalizado Lashkar-e-Taiba (LeT), protestam, na cidade de Lahore, contra o domínio da Índia sobre uma parte de Caxemira
© AFP

Ashley J. Tellis, senior associate do Carnegie Endowment for International Peace em Washington, foi chamado ao Comité de Relações Externas da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos [em 2010] para avaliar o grau de ameaça do Lashkar-e-Taiba (Exército dos Puros).

A conclusão a que chegou foi lida logo no início da audiência: “Depois da al-Qaeda, o LeT é o grupo terrorista mais importante e com um alcance global, a operar a partir da Ásia do Sul.”

A revista Newsweek  já havia soado o alarme, citando outros analistas: “O LeT poderá ser uma ameaça maior do que a al-Qaeda devido à sua sofisticação tecnológica, a uma rede mais vasta de recrutamento e angariação de fundos, aos laços estreitos com protectores no Governo paquistanês e ao facto de permanecer um alvo de baixo perfil para a espionagem ocidental”.

À semelhança da organização de Osama bin Laden, o LeT tem uma ideologia jihadista centrada em estabelecer um “califado islâmico universal”, de Lahore a Londres.

Ao contrário da al-Qaeda, porém, não é um grupo terrorista apátrida, notou Ashley J. Tellis, um dos maiores especialistas em questões de segurança.

Os membros do LeT são, na maioria, paquistaneses; a sua principal base de operações é o território paquistanês; o seu grande patrono continua a ser o Estado paquistanês, em particular o Exército e o directório dos serviços secretos, Inter-Services Intelligence (ISI).

O LeT, braço armado do Markaz Dawat-ul Irshad (MDI) ou Centro de Proselitismo e Prédica, existe desde 1987, mas só em 26 de Novembro de 2008, por alguns classificado como “o 11 de Setembro indiano” – uma série de atentados terroristas em Bombaim/Mumbai de que resultaram pelo menos 173 mortos e 308 feridos, entre eles 26 estrangeiros de 15 nacionalidades –, é que o mundo testemunhou a sua força letal.

O MDI foi fundado por Hafiz Muhammad Saeed e Zafar Iqbal, numa altura de grande efervescência islâmica no Paquistão, durante a ditadura militar de Zia ul-Haq (1977-88). Este general ter-lhe-á terá oferecido o terreno para o seu quartel-general e centro teológico, mais tarde construídos com dinheiros de Bin Laden, em Muridke, nos arredores de Lahore.

Apostado numa educação religiosa mais especializada, incluindo aulas de ciência e inglês, do que os seminários tradicionais (madrassas), o MDI, rebaptizado Jama’at-ud-Dawat (Jud) após uma cisão, combinou sempre os conceitos de da’wat (ensino) e jihad (guerra santa) o que facilitou o recrutamento de combatentes para o LeT.

Durante muito tempo, o LeT foi visto apenas como mais um dos vários grupos de guerrilha na Caxemira. No entanto, lembrou Ashley J. Tellis, o LeT “nunca fez parte da insurreição indígena” no território de maioria muçulmana perdido pelo Paquistão em 1947, quando o monarca hindu de Jammu e Caxemira optou por manter estes dois estados na Índia, após a divisão da jóia do império britânico.

Na sequência de mortíferos atentados em Bombaim/Mumbai, em 2008, os Estados Unidos colocaram o líder do Lashkar-e-Taiba, Hafiz Muhammad Saeed, na lista dos terroristas mais procurados do mundo. A recompensa oferecida pela sua captura era de 10 milhões de dólares. [Foi preso na sua casa em Lahore pelas autoridades paquistanesas, em 2008 – na foto]
© indusscrolls.com

A maioria dos membros do LeT provém do Punjab, e é precisamente a sua origem punjabi (como a de muitos oficiais paquistaneses), a lealdade ao Estado, a “ideologia inflexível” e a forma intrépida de combater que tornou este grupo “tão atractivo” para o ISI.

As primeiras operações de guerrilha ordenadas pelo amir (chefe) Hafiz Saeed ocorreram nas províncias afegãs de Kunar e Paktia, onde o LeT tinha vários campos para treinar mujahedin na guerra (1979-89) contra os invasores soviéticos – campos que depois seriam incorporados na rede da al-Qaeda.

A missão primeira do LeT era “expulsar os infiéis” comunistas de um país islâmico, mas os seus mentores, os generais Akhtar Abdur Rahman e Hamid Gul, directores-gerais do ISI na época, ambicionavam mais.

“Controlar o Afeganistão foi um objectivo que dominou as políticas estratégicas de Islamabad durante os anos 1980 e 1990”, declarou Tellis, num anterior depoimento em 2009, perante o Comité de Segurança Interna do Senado norte-americano.

A derrota infligida pelos Mujahedin apoiados pelo ISI à URSS incentivou parte do establishment militar paquistanês a “prosseguir um desígnio ainda maior: a destruição da Índia”.

O ISI começou a transferir a área de acção do LeT do Afeganistão para a Caxemira, em 1993, quando percebeu que poderia mais facilmente controlar o Lashkar-e-Taiba do que uma débil organização de resistência local, como a Frente de Libertação de Jammu e Caxemira, facilmente esmagada pelas forças indianas quando se sublevou em 1989.

Fiéis da doutrina wahhabita (Saeed e Iqbal formaram-se em Medina, na Arábia Saudita), os radicais do LeT introduziram “uma brutalidade sem precedentes nas suas operações militares, porque não tinham quaisquer afinidades com a população local”, observou Tellis.

Numa entrevista, em 1999, Saeed disse que a Caxemira era “a porta de saída para conquistar a Índia”, e prometeu que o LeT não iria parar até que a Índia seja “integrada no Paquistão”.

Para atingir estes objectivos, o ISI ofereceu-lhe, segundo Tellis, “um forte apoio operacional, material e financeiro – incluindo bases no Nepal, no Sri Lanka e no Bangladesh”. A convicção, entre os militares paquistaneses, era a de que “a guerra nunca poderia ser ganha se as hostilidades se confinassem a Jammu e Caxemira”.

Assim, com a bênção do ISI, o LeT, membro da Frente Islâmica Mundial de Bin Laden, expandiu a luta armada a outras regiões da Índia: ataques em Nova Deli, em 2001 (um arrojado assalto ao Parlamento) e 2005; em Bangalore, em 2005; em Varanasi e Nagpur, em 2006; em Bombaim/Mumbai, em 2006 e em 2008.

Bombaim/Mumbai 2008: A cidade que é centro de negócios, entretenimento e moda, considerada pelos indianos “o seu Wall Street, a sua Hollywood, o seu Milão”, ficou paralisada ao longo de 60 horas. Os terroristas atacaram, em simultâneo, dez símbolos de modernidade e prosperidade, designadamente, os hotéis Oberoi Trident e Taj Mahal Palace & Tower (na foto), o Leopold Cafe (frequentado por turistas), um cinema e um centro judaico
© Associated Press

Embora em Julho de 2006 as sete bombas que destruíram vários comboios em Bombaim tenham causado mais vítimas (209 mortos e 700 feridos), “a audácia, complexidade e diversidade de alvos” dos atentados de Novembro de 2008 mostraram que o LeT passou a outro nível na guerra contra a “aliança de cruzados, sionistas e hindus”, constatou Tellis, num relatório da Rand Corp., de que foi co-autor.

A cidade que é centro de negócios, entretenimento e moda, considerada pelos indianos “o seu Wall Street, a sua Hollywood, o seu Milão”, ficou paralisada ao longo de 60 horas. Os terroristas chegaram por mar, para evitar os postos de controlo nas fronteiras terrestres e aéreas. Usaram armas sofisticadas e tecnologia topo de gama para localizar os seus alvos.

Atacaram em simultâneo dez símbolos de modernidade e prosperidade, designadamente, os hotéis Oberoi Trident e Taj Mahal Palace & Tower, o emblemático Leopold Cafe, frequentado por turistas, um cinema e um centro judaico.

O LeT negou envolvimento, mas o único atacante capturado com vida incriminou a organização de Hafiz Saeed. Em Outubro de 2009, um americano de origem paquistanesa, David Coleman Healey, foi preso em Chicago, sob a alegação de ter colaborado com o LeT (e com o ISI) nos atentados em Bombaim.

Planearia igualmente um ataque contra o jornal dinamarquês que publicara caricaturas de Maomé em 2005. Informações extraídas a Healey pelo FBI permitiram que o Bangladesh detivesse, posteriormente, vários operacionais do LeT que estariam a preparar-se para fazer explodir as embaixadas dos EUA e da Grã-Bretanha em Dacca.

O LeT terá oferecido, sem condições, os seus campos de treino e fundos a todos os jihadistas interessados em atacar na Europa ou na América, em combater no Iraque e no Afeganistão. Continuará a dar abrigo a fugitivos da al-Qaeda, e estará a cooperar com os Taliban, apesar das diferenças teológicas que os separam.

Os Taliban são deobanditas, seguidores da escola hanafita de jurisprudência sunita, enquanto o LeT pertence à seita Ahl-e-Hadith (Povo das Tradições do Profeta) que só aceita o Corão e as palavras e actos de Maomé, rejeitando como “imitações” as escolas do direito islâmico.

Muçulmanas da região de Caxemira, região disputada pelo Paquistão, no funeral de um dos seus familiares, militante do LeT, morto num combate com forças de segurança indianas. @Tauseed Mustafa | Getty Images

Muçulmanas na Caxemira durante o funeral de um dos seus familiares, militante do LeT, morto num combate com forças de segurança indianas.
© Tauseed Mustafa | Getty Images

Nas últimas duas décadas, o LeT tem-se tornado cada vez menos dependente dos militares paquistaneses. Pelo menos financeiramente.

As “acções de caridade” do JuD (o seu braço político), desde ajudar refugiados do terramoto de 2005 na Caxemira até ao acolhimento de refugiados na turbulenta Província do Noroeste, sensibilizaram generosos doadores, dentro e fora do Paquistão. Esta popularidade torna o LeT quase intocável, comparado com outros grupos extremistas que têm sido ilegalizados, depois de pressões internacionais.

O LeT ainda precisa de “santuários e protecção política para os seus líderes, informações de espionagem sobre ameaças e alvos seleccionados, assistência para se infiltrar em terceiros países”, referiu Ashley J. Tellis, mas já “não necessita da aprovação formal do ISI” para atacar em benefício próprio.

Se quiserem evitar uma outra guerra entre dois vizinhos que são potências nucleares, recomenda Tellis, os EUA têm de pressionar os que no Paquistão continuam a receber fundos de Washington ao mesmo tempo que impedem a reconciliação com a Índia. Se não eliminar o LeT, conclui o analista, o ISI terá de ser responsabilizado pelas acções dos que, aparentemente, agem por sua procuração.

Soldado indiano de guarda numa rua durante o recolher obrigatório em Srinagar, depois de o Governo em Nova Deli ter anunciado a intenção de revogar o artigo 370 da Constituição, que garante um estatuto especial a Caxemira, cujo controlo também é reclamado pelo Paquistão
© Tauseff Mustafa | AFP | Getty Images | VOX

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO em 21 de Março de 2010 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on March 21, 2010