O tanque de “Shmulik” na guerra de “Arik”

A invasão do Líbano de 1982 foi a guerra mais impopular de Israel. Planeada por Ariel Sharon para destruir a OLP, falhou os objectivos. Com ela nasceu um movimento pacifista em Telavive e uma Intifada na Palestina. (Ler mais | Read more…)

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O actor israelita Yoav Donat, como Shmulik, protagonista autobiográfico do filme de Maoz.
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A guerra de Samuel Maoz não começou no Líbano às 3h00 da madrugada de 6 de Junho de 1982. Começou em 1977 com um “terramoto” político em Israel: a vitória do partido Likud nas eleições que fizeram de Menachem Begin primeiro-ministro, pondo fim a mais de quatro décadas de hegemonia trabalhista (antes e depois da criação do Estado).

Com a ascensão da direita, um nova política foi posta em marcha. Para o anterior chefe do Governo, Yitzhak Rabin, do Labour, um Líbano fraco, com cristãos a combater muçulmanos e palestinianos, reduzia a ameaça na fronteira Norte de Israel. Begin era mais ambicioso.

Pretendia unir as milícias cristãs – e, em particular, a mais poderosa delas, Kataeb (Falange) – numa força paramilitar que permitisse “erradicar a OLP”, de Yasser Arafat, apresentada no programa político do Likud como “organização de assassinos”.

Não será por acaso que Lebanon, o filme de Shmulik, diminutivo de Maoz e da personagem autobiográfica, inclui um miliciano falangista e um prisioneiro sírio.

Eles fazem parte da guerra onde os feridos têm nome de código de “flores” e os mortos de “anjos”. A guerra que fez nascer na antiga Praça dos Reis, em Telavive, o movimento Peace Now.

A guerra que abriu o caminho aos massacres de Sabra e Chatila. A guerra que inspirou a primeira Intifada na Cisjordânia e Faixa de Gaza, em 1987. E esta guerra, a que vemos através do periscópio do tanque de Shmulik, começou assim:

Confortado com as negociações de paz em curso com o Egipto de Anwar el-Sadat, Menachem Begin obrigou a OLP a adoptar uma posição defensiva em todas as frentes.

Em 1978, Arafat ofereceu-lhe a oportunidade para a primeira invasão terrestre do Líbano. Na manhã de 11 de Março, um grupo de 11 comandos da Fatah, a maior facção da OLP, comandados por uma mulher, iludiu os radares devido ao mau tempo e desembarcou numa praia a sul do porto israelita de Haifa.

Cada um deles estava munido de metralhadoras, granadas e dinamite. Avançaram três quilómetros até à principal auto-estrada para Telavive e sequestraram um autocarro com 63 passageiros a bordo.

A polícia, o exército e a guarda fronteiriça moveram uma perseguição aos atacantes, que disparavam pelas janelas e fizeram explodir granadas no seu interior. Quando tudo terminou, contaram-se 46 mortos – 37 israelitas e nove palestinianos – e quase 80 feridos.

O que ficou conhecido como “massacre na estrada costeira” foi, até então, o mais devastador ataque palestiniano desferido a partir do Líbano. A 14 de Março, os israelitas lançaram a Operação Pedra da Sabedoria, envolvendo 28 mil homens. Bombardearam bases da guerrilha e campos de refugiados no Sul do Líbano e em Beirute.

Uma semana depois, declarado um cessar-fogo, tinham sido mortos 200 combatentes da OLP, 20 soldados israelitas e cerca de mil civis palestinianos e libaneses. Mais de dez aldeias foram arrasadas e 6000 casas destruídas; centenas de milhares de pessoas ficaram sem lar e tornaram-se exiladas no seu próprio país. Estas estimativas são da Cruz Vermelha Internacional.

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“O Líbano,é fácil de comer, mas difícil de digerir”, dizia o líder cristão falangista Bashir Gemayel, aliado de Israel que seria assassinado pela Síria, num acto de vingança, depois de os tanques de Ariel Sharon terem entrado em Beirute e cercado, pela primeira vez, uma capital árabe (em 1982). Na foto, uma cena do filme
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A 19 de Março, o Conselho de Segurança apelou à retirada israelita e criou uma Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL), para servir de “tampão”. No entanto, nem a presença destes “capacetes azuis”, nem a “zona de segurança” na fronteira, entregue por Israel à milícia cristã Exército do Sul do Líbano, antes de retirar os seus soldados em 1978, impediu que os guerrilheiros palestinianos continuassem a atacar povoações na Galileia com rockets Katyusha.

Em 1981, o ministro israelita da Defesa, Ariel Sharon, começou a delinear planos de nova invasão, alegando que um cessar-fogo negociado pelo emissário norte-americano Philip Habib estava a “servir de cobertura” aos guerrilheiros para expandirem as suas forças e lançarem ataques. A ONU – e os Estados Unidos – não corroboraram essas alegações.

O general Arik, encorajado pelos seus contactos em Beirute com Bashir Gemayel, o implacável líder da Falange que não hesitara em matar, ao estilo da Mafia, os rivais cristãos que se opunham a uma aliança com Israel, elaborou uma “pequena” e uma “grande” versão da Operação Pinhal.

A mais modesta, previa um avanço das tropas israelitas até Sídon, no Sul do Líbano. A mais ambiciosa, incluía uma progressão até à auto-estrada Beirute-Damasco.

Em 25 de Maio, num frente-a-frente com William Haig, secretário de Estado do Presidente Ronald Reagan, em Washington, Sharon pediu “luz verde” para invadir o “País do Cedro” e destruir a OLP.

O anfitrião, embora inimigo visceral da organização palestiniana, terá acendido uma “luz amarela”. O bastante para o visitante regressar a Israel confiante de que os EUA não travariam os seus planos.

Só faltava um pretexto. E ele chegou, oficialmente, a 3 de Junho de 1982, quando um atirador palestiniano, do grupo de Abu Nidal, disparou sobre o embaixador de Israel em Londres, Shlomo Argov, deixando-o gravemente ferido. Para “falcões”, como Sharon, não havia diferença entre Abu Nidal e Yasser Arafat, apesar de o primeiro ter sido banido da Fatah, por ter tentado assassinar o segundo. O chefe de Estado-Maior das Forças Armadas de Israel, Rafael Eitan, confessou: “Ergui uma máquina militar no valor de biliões de dólares. Tenho de a usar.”

Na mesma noite de 3 de Junho de 1982 em que o embaixador Shlomo Argov quase foi morto em Londres, a polícia britânica responsabilizou os serviços secretos iraquianos e ilibou a OLP pelo atentado.

Indiferente, Begin ordenou um castigo imediato, com raides aéreos a alvos palestinianos. Só informou o seu governo na manhã seguinte, numa reunião de emergência. À tarde, a OLP ripostou com tiros de metralhadora e morteiros contra a Galileia.

A 5 de Junho, numa outra reunião na casa de Begin em Jerusalém, foi aprovada uma incursão de 40 quilómetros no Sul do Líbano, para destruir os arsenais da OLP. Sharon afiançou: “A operação durará apenas 24 horas” e “Beirute está fora de questão”. Nem uma nem outra promessa foram cumpridas.

Em 6 de Junho de 1982, o “Napoleão do Médio Oriente” entrou no Líbano com 80 mil soldados em 1240 carros de combate e mais de 1500 outros veículos blindados – um deles o tanque de Shmulik. Nem nos seus piores pesadelos, Arafat imaginava que Sharon fosse cercar Beirute.

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Samuel Maoz, realizador de Lebanon, é um ex-comandante de carros de combate. Tinha 20 anos quando matou um homem, pela primeira vez. Foi em 1982, durante a invasão israelita de Beirute. Por não conseguir esquecer esse tempo de guerra, fez este filme.
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Arafat não esperava também que a UNIFIL nada fizesse para travar o início da Operação Paz para a Galileia no Sul do Líbano, região conhecida como “Fatahlândia”, onde a OLP tinha 6000 de um total de 15 mil combatentes profissionais, além de voluntários.

A 6 de Junho, Sharon fez avançar as tropas israelitas não só por terra, mas também por mar e ar. Na madrugada de 7 de Junho, tinha atingido os seus “limitados objectivos”: silenciar as armas palestinianas e evitar um confronto com os sírios, que desde o início da guerra civil libanesa (1976) já tinham quase 30 mil soldados no país vizinho.

Um a um, foram caindo os bastiões mais importantes da guerrilha, como o Castelo de Beaufort (que inspirou outro filme israelita, dirigido por Joseph Cedar) e os campos de refugiados de Al Rashidiya e Ain al-Hilweh. No dia 9, os sírios viram destruídas 17 baterias de mísseis e 29 caças, no Vale de Bekaa.

No dia 13, Pierre e Bachir Gemayel, o pai fundador e o filho herdeiro da milícia falangista criada em 1936 e inspirada no modelo nazi (os seus elementos faziam saudações de braço no ar, usavam capacetes coloniais, camisas e gravatas caqui), juntaram-se aos generais israelitas para celebrar a chegada de Sharon aos subúrbios de Beirute.

A capital libanesa seria, porém, um osso duro de roer. Uns dez mil guerrilheiros palestinianos, milicianos libaneses e o que restava do contingente sírio resistiram a um apertado cerco.

Sharon queria que os Gemayel conquistassem Beirute Ocidental, mas os falangistas recusaram. Os israelitas tiveram de fazer o trabalho sujo, bombardeando incessantemente o sector muçulmano da cidade, deixando os habitantes sem água, luz e alimentos, aterrorizando-os com explosões de carros armadilhados.

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Lebanon, que estreou no Festival de Veneza, em 2009, foi totalmente filmado no interior de um carro de combate, “um lugar quente, suado e enferrujado com odores de homens e medo”. Na foto, cena do filme
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Os EUA voltaram a enviar o seu emissário Philip Habib, para negociar tréguas mas também uma retirada dos guerrilheiros palestinianos e dos soldados sírios. Em Israel, a pressão política aumentou sobre Begin e Sharon, para justificarem os cerca de 19 mil mortos (700 deles israelitas) e mais de 30 mil feridos da Operação Paz para a Galileia.

A 1 de Agosto, o Governo israelita aceitou um cessar-fogo na condição de, à mínima violação, poder atacar. Ainda a reunião não tinha acabado e já o aeroporto de Beirute estava a ser bombardeado.

No dia 4, Sharon ordenou uma ofensiva total para matar Arafat na autoproclamada “República Fakhani”, o bairro onde funcionava o seu quartel-general, e não hesitou em arrasar edifícios com bombas de vácuo, numa tentativa vã de matar o inimigo.

Perante um ultimato israelita para se render “em 24 horas”, e aconselhado por destacadas figuras libanesas a “partir com honra”, o chefe da OLP aceitou dispersar os seus 10 mil guerrilheiros por oito países árabes. Os primeiros partiram, no dia 20. Ele, a quem o seu povo chamava afectuosamente Al-Kitiyar (O Velhote), fez questão de ser o último a sair da Watan al-badeel, ou “pátria substituta”, no dia 30.

Este homem, que durante o cerco de Beirute trocara o inseparável kaffiyeh por um boné dos generais alemães, não podia aceitar uma derrota humilhante. Para Arafat, a resistência tinha sido “heróica, histórica, sangrenta, gloriosa”.

Os palestinianos tinham arrastado Israel para o atoleiro libanês, uma ocupação que viria a revelar-se mais insuportável (terminou em 2000) do que a da Cisjordânia e Gaza; e o mundo viu como os israelitas bombardeavam indiscriminadamente civis para exibir a sua superioridade militar.

Uma superioridade, alguns dirão invencibilidade, que Samuel Maoz questiona, quando nos mostra quatro soldados vulneráveis, perturbados com as ordens para disparar a matar, sensíveis ao sofrimento do inimigo (sírio), traídos pelo aliado (falangista).

Os mesmos aliados falangistas que, durante três dias e três noites, em Setembro de 1982, banharam de sangue os campos de refugiados de Sabra e Shatila: 1500 mortos, segundo os palestinianos; entre 700 e 800 mortos, segundo uma comissão de inquérito israelita, que forçou a demissão de Arik.

Os massacres “vingaram” o assassínio do entretanto eleito Presidente Bashir Gemayel. A sua morte, num brutal atentado bombista ordenado pela Síria de Hafez al-Assad, inviabilizou o sonho de Sharon e Begin de ver o Líbano tornar-se no segundo país árabe a assinar a paz com Israel.

O Líbano, dizia Gemayel, “é fácil de comer, mas difícil de digerir.”

In this June 15, 1982 file picture, Israeli Defence Minister Ariel Sharon, foreground, rides an armored personnel carrier on a tour of Israeli units advancing to the outskirts of Beirut, Lebanon. (THE @ASSOCIATED PRESS / Israeli Defence Ministry / File)

15 de Junho de 1982: Ariel Sharon (Arik), o “arquitecto” da invasão do Líbano, planeada para “erradicar a OLP”, visita unidades militares sob seu comando, nos arredores de Beirute
© The Associated Press | Israeli Defence Ministry

Este artigo foi publicado originalmente no Jornal PÚBLICO em 30 de Abril de 2010 | This article was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO, on April 30, 2010

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