A “nobre Pérsia” e o “desventurado Irão” de Shirin Ebadi

Por que é que os iranianos saíram à rua numa “revolução verde”? A resposta está em A Gaiola de Ouro, da juíza-advogada que, em 2003, ganhou o Prémio Nobel da Paz. (Ler mais | Read more…)

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Em A Gaiola de Ouro, disse Shirin Ebadi, os leitores “vão compreender as razões por detrás da fúria do povo contra o governo”, em 2009
Cortesia de | Courtesy of © Pedro Vieira

Esta é a história de Abbas, de Javad e de Ali, mas é também a história da “nobre Pérsia e do desventurado Irão”. Esta é a história de uma família e de uma nação “desfeitas, dilaceradas, destruídas pelo ódio político trazido como um vento maléfico pela revolução islâmica”.

Depois de lerem A Gaiola de Ouro (Ed. Esfera dos Livros), disse-nos a autora, Shirin Ebadi, “vão compreender as razões por detrás da fúria do povo contra o governo, e porque milhões de iranianos foram para as ruas protestar [em 2009, contra a reeleição, alegadamente fraudulenta, do [anterior] Presidente Mahmoud Ahmadinejad]”.

A ira popular “não foi motivada apenas pelas eleições mas pelo que se passa neste país nos últimos 30 anos”, acrescentou a advogada que recebeu o Nobel da Paz em 2003.

O livro de Shirin Ebadi, proibido no Irão, só podia começar no cemitério de Khavaran, onde o regime dos Mullahs enterra os seus “traidores”. Não é difícil de imaginar que as valas comuns neste lugar onde os mortos não têm nomes, nem campas nem flores tenham voltado a encher-se nos últimos dias de repressão. Assim como se voltaram a encher as prisões e as celas de isolamento ou de “tortura branca”.

Relatórios e imagens divulgados pela Amnistia Internacional e pela Human Rights Watch não são muito diferentes da descrição que Ebadi – a primeira mulher juíza no Irão mas impedida de exercer o cargo – faz da sua própria detenção. “A porta fecha-se atrás de mim com um clique seco”, escreveu.

“Encontro-me num compartimento de três metros por dois. Quatro paredes cinzentas e lisas, sem escritos. Do tecto pende uma lâmpada de luz fraca. Não há janela. O pavimento está coberto por uma alcatifa impregnada de pó e excrementos. (…) Não há nenhum ruído à minha volta, nenhum lamento, nenhuma respiração.” (Pp 61-64)

Shirin Ebadi, Prémio Nobel da Paz e a primeira mulher juíza do Irão, mas forçada pelo regime islâmico a exercer apenas as funções de advogada. @DR (Direitos Reservados | Rights Reserved)

Shirin Ebadi, Prémio Nobel da Paz, foi a primeira mulher juíza do Irão, mas forçada pelo regime islâmico a exercer apenas as funções de advogada
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Os destinos de Abbas, de Javad e de Ali foram mais funestos. Javad, por exemplo, saiu da infame prisão de Evin para o cemitério de Khavaran. Queriam forçá-lo à humilhação de passar pela “rampa do arrependimento”, mas ele manteve-se fiel às suas convicções.

Militante do Tudeh, o partido comunista que ajudou o Ayatollah Khomeini a derrubar o Xá Mohammad Reza Pahlavi para depois ser aniquilado pela revolução islâmica, Javad é uma das “personagens” mais tocantes do livro de Ebadi.

Ninguém ficará também indiferente ao fim trágico de Abbas, um general tão leal ao imperador que, quando este se exilou, tudo à sua volta ruiu. A viver nos EUA sem poder regressar, perdeu os bens, confiscados no Irão, perdeu a mulher, que morreu de cancro, e perdeu a vida, quando se suicidou ao descobrir o segredo do seu filho mais querido.

Inesquecível é igualmente a figura de Ali, o irmão mais novo de Abbas e de Javad. Fiel devoto de Khomeini, apercebe-se de como o regime traiu as suas promessas, quando vai trabalhar para os serviços de segurança depois de a sua mulher e único filho terem sido mortos durante a guerra com o Iraque.

Tal como o ayatollah seu mentor, Ali pediu asilo político à França, mas como ele próprio dissera quando era um “revolucionário”, para justificar os condenados e os executados em nome de Deus: “A República Islâmica não faz nada sem uma razão”. A brutalidade com que o mataram impressiona.

Finalmente, temos Pari, a irmã de Abbas, de Javad e de Ali. Médica e professora universitária, resistiu a não deixar o país, mas que podia fazer depois de ter sido despedida e de o seu consultório ter sido completamente vandalizado (em cima da secretária colocaram a cabeça cortada de um cão, estilhaçaram vidros, rasgaram cortinas, danificaram instrumentos, pisaram comprimidos, espremeram tubos de pomada pelos móveis e pelo cão, queimaram o certificado de licenciatura? (pp 207 e 208).

Foi Pari, destroçada com o seu drama familiar, que pediu à melhor amiga, Shrin Ebadi, um livro em memória dos três homens para quem a “gaiola de ouro” nunca se abriu.

Shirin Ebadi, durante uma visita a Lisboa, para apresentar A Gaiola Dourada. @Enric Vives-Rubio

Shirin Ebadi, em Lisboa, para apresentar A Gaiola de Ouro.
© Enric Vives-Rubio

Este artigo, agora revisto, foi publicado originalmente no jornal PÚBLICO | This article, now revised, was originally published in the Portuguese newspaper PÚBLICO

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