Gaza: Se isto é uma “guerra”

Uns chamam-lhe “assalto” e outros “ofensiva”. Uns invocam legítima autodefesa e outros denunciam crimes contra a humanidade. Uns desvalorizam o poder do Hamas e outros consideram-no uma ameaça existencial. Não há consenso em definir a Operação Escudo Protector, lançada por Israel na Faixa de Gaza, como uma “guerra”. Seguem-se algumas perguntas e respostas para ajudar a entender o mais recente “conflito”. (Ler mais | Read more…)

Amir Schiby, um artista israelita, conhecido pelas suas colagens de sátira política, criou uma imagem que representa Ahed Atef Bakr, Zakaria Ahed Bakr, Mohamed Ramez Bakr e Ismael Mohamed Bakr, quarto rapazes mortos numa praia de Gaza, por bombardeamentos israelitas testemunhados por jornalistas estrangeiros alojados num hotel local. © Amir Schiby

Amir Schiby, artista israelita conhecido pelas suas colagens de sátira política, criou uma imagem que representa Ahed Atef Bakr, Zakaria Ahed Bakr, Mohamed Ramez Bakr e Ismael Mohamed Bakr, quarto rapazes mortos numa praia de Gaza, por bombardeamentos israelitas testemunhados por jornalistas estrangeiros alojados num hotel local
© Amir Schiby

 1. Como e por que começou mais uma invasão de Gaza?

Naftali Fraenkel, Gilad Shaer e Eyal Yifrah, de 16, 18 e 19 anos, respectivamente 19, estudantes numa yeshiva (escola religiosa), pediam boleia para regressar às suas casas quando, a 12 de Junho, foram raptados, à beira de uma estrada em Gush Etzion, na Cisjordânia ocupada.

Assim que soou o alarme do seu desaparecimento, o Exército israelita iniciou uma operação de busca e resgate. Em 18 dias de rusgas, casa a casa, cerca de 350 palestinianos foram detidos.

A 15 de Junho, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, acusou publicamente o Hamas pelo sequestro. O movimento islâmico negou responsabilidade, mas não condenou os perpetradores.

 A 1 de Julho, depois de os corpos dos rapazes terem sido encontrados, “surgiu a verdade”, escreveu J.J. Goldenberg no site Forward.com. “O Governo sabia, quase desde o início, que eles estavam mortos. Manteve a ficção de que esperava recuperá-los vivos como pretexto para desmantelar as operações do Hamas na Cisjordânia.”

“A prova inicial foi uma gravação com a voz desesperada de Gilad Shaer, numa chamada do seu telemóvel para o Moked 100”, o equivalente ao 112 israelita, revelou Goldenberg.

“Ouve-se o jovem a sussurrar: ‘Eles raptaram-me’ (haftu oti), seguindo-se gritos de “Baixa-te!”, tiros, dois gemidos, mais tiros, e depois alguém a cantar em árabe. Nessa noite, os sapadores encontraram o carro dos raptados, um Hyundai abandonado e incendiado, com oito balas, e o ADN dos três amigos. Não havia dúvidas.”

Assim que tomou conhecimento, Netanyahu ordenou imediatamente que as mortes não fossem comunicadas. “Para consumo público, a palavra oficial era a de que Israel ‘agia na assunção de que eles estavam vivos’. Era, simplesmente, uma mentira”, repetida pelo porta-voz do Exército, Moti Almoz (que assumiria depois a culpa), e pelo ministro da Defesa, Moshe Yaalon, criticou Goldenberg.

“Desde o princípio que se sabia que os raptores não agiam por ordem da liderança do Hamas em Gaza ou em Damasco. O ramo do Hamas em Hebron – família criminosa mais do que grupo clandestino – tem um historial de agir sem conhecimento dos chefes, por vezes até contra os interesses destes.

Netanyahu insistiu, porém, repetidamente, que o Hamas era responsável pelo crime e pagaria por isso. Mas Netanyahu não tinha essa intenção.”

Recordou Goldenberg que a anterior operação militar em Gaza (Pilar de Defesa, 2012) tinha “ensinado uma lição” aos líderes israelitas. Desde essa data que o Hamas “não disparava um só rocket e conseguira suprimir, em larga medida, os pequenos grupos jihadistas”.

De uma “média de 240 por mês em 2007”, o número de rockets baixara para “cinco por mês” em 2013. “Nenhuma das partes estava interessada em pôr fim à détente. O que substituísse o Hamas em Gaza poderia ser muito pior.”

Foto 2 (a)

O sequestro dos três jovens e a ofensiva contra o Hamas na Cisjordânia “abalou o equilíbrio”. Em Israel e nas comunidades judaicas na diáspora, a ira e a dor causada pela morte dos rapazes deu lugar, rapidamente, a motins nas ruas e apelos à vingança.

A 2 de Julho, um jovem palestiniano de 16 anos, Mohamed Abu Khdeir, foi raptado e queimado vivo, com gasolina que o fizeram ingerir, segundo confessaram os seis suspeitos israelitas, que agora alegam “insanidade mental temporária”.

Este acto brutal não sensibilizou o Governo de Netanyahu, incentivado por alguns dos seus membros mais extremistas a uma reocupação de Gaza e destruição do Hamas. Em Gaza, os líderes do Hamas desceram aos seus esconderijos subterrâneos.

“A 19 de Junho”, referiu Goldenberg, “num aparente acidente de trabalho, cinco activistas do Hamas morreram na explosão de um túnel, convencendo alguns em Gaza de que a ofensiva israelita já começara e aumentando o receio em Israel de que o Hamas estava a planear atentados terroristas.”

“A 29 de Junho, um ataque aéreo israelita matou um operacional do Hamas. No dia seguinte, o Hamas lançou uma série de rockets– os primeiros desde [Novembro de] 2012. O cessar-fogo terminara e começaram os bombardeamentos, em retaliação contra os rockets.”

A 8 de Julho, Israel mobilizou os reservistas para iniciar a ofensiva terrestre, com o nome de Escudo Protector (do inglês Protective Edge; em hebraico, Tzuk Eitan, significa Penhasco Sólido).

O objectivo já não é apenas destruir as baterias de rockets mas também a rede de “dezenas de túneis” que foi sendo construída, na fronteira com o Egipto, desde que Israel se retirou unilateralmente de Gaza, em 2005, e sobretudo depois de o Hamas ter conquistado o poder, pela força, à Fatah, em 2007.

Foi através destes túneis que militantes do Hamas se infiltraram em Israel, em Junho de 2006, para raptarem o soldado Gilad Shalit e, mais recentemente, para entrarem armados (e com uniformes israelitas) no kibbutz de Ein Haslosha, em Outubro de 2013.

Funeral de oito membros da família palestiniana Al Haj mortos durante bombardeamentos israelitas campo de refugiados de Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, em 10 de Julho de 2014. © Khalil Hamra | AP

Funeral de oito membros da família palestiniana Al Haj, mortos durante bombardeamentos israelitas no campo de refugiados de Khan Younis, Faixa de Gaza, em 10 Julho de 2014
© Khalil Hamra | AP

O argumento de que Israel se tem de se defender dos rockets e dos túneis não convence Ghada Ageel, refugiada palestiniana de terceira geração, nascida e criada no campo de Khan Yunis, em Gaza. Num artigo publicado pelo jornal The New York Times, esta professora visitante de Ciência Política na Universidade de Alberta (Canadá), mostra-se chocada com a “linguagem depreciativa” dos responsáveis israelitas.

“Eles pensam que podem absolver-se dos crimes colocando as culpas todas no Hamas e – segundo as palavras desumanas de Netanyahu – nesses ‘mortos telegénicos palestinianos’. Com isso, facilitam a morte de inocentes.” Como as de quatro crianças que jogavam futebol numa praia ou de todos os sete membros da família al-Kilani. (Para mais informação ver aqui:  e aqui:

Os bombardeamentos por terra, mar e ar causaram até agora mais de 600 mortos palestinianos (um número superior a 130 são crianças) e quase 5000 feridos, segundo dados da ONU que ninguém desmente. No campo israelita foram confirmadas as mortes de 29 soldados e dois civis.

Um soldado está desaparecido, mas não estará vivo, embora o Hamas afirme que o capturou. Responsáveis militares acreditam que o grupo apenas tem em seu poder (porque os exibiu) o uniforme e a chapa de identificação, com o nome (Oron Shaul, sargento da Brigada Golani) e número.

“Israel pode continuar a culpar o Hamas por todos os que morrem em Gaza, alegando que os civis são usados como escudos humanos, mas esse raciocínio só pode persuadir os que não estão familiarizados com a extrema densidade populacional de Gaza [mais de 1,8 milhões de habitantes em 360 km2) e aqueles que querem agarrar-se à ideia de que o Exército de Israel detém superioridade moral”, escreveu Ghada Ageel.

“As acções de Israel só ajudam o Hamas”, salientou a académica palestiniana. “Depois de um longo período de isolamento internacional e crescente impopularidade entre os habitantes de Gaza, o Hamas pode mais uma vez reclamar o manto de defensor do povo palestiniano contra a agressão israelita.”

“Esta operação vai criar nova vaga de militantes – pessoas que sentem não ter nada a perder depois de as suas casas, famílias e vidas terem sido devastadas.”

“Em vez de ter feito tudo para desagregar o governo de unidade palestiniano [Fatah-Hamas, formado em Abril], Israel deveria começar a negociar com este o fim do bloqueio à minúscula Faixa de Gaza e o fim da ocupação da Cisjordânia. Só assim Israel pode esperar paz verdadeira e duradoura.”

2. Hamas – que força é esta?
Israel mantém a Faixa de Gaza sujeita a um bloqueio por terra, mar e ar desde 2007. O território que a ONU considera o mais densamente povoado do mundo – mais de 1,8 milhões de pessoas em 346 quilómetros quadrados – é como uma prisão sem movimento de pessoas e bens para o exterior, e com restrições ao fornecimento de água e electricidade. Sob cerco, o Hamas escavou dezenas túneis junto à fronteira com o Egipto, que servem para abastecer a população civil de alimentos e medicamentos, mas também para contrabando de armas e refúgio de operacionais de guerrilha que, através desta rede subterranean podem infiltrar-se em Israel. © Mahmud Hams | AFP | Getty Images

Israel mantém a Faixa de Gaza sujeita a um bloqueio por terra, mar e ar desde 2007. O território de mais de 1,8 milhões de habitantes confinados a 346 quilómetros quadrados é como uma prisão sem movimento de pessoas e bens para o exterior, e com restrições ao fornecimento de água e electricidade. Sob cerco, o Hamas escavou dezenas túneis junto à fronteira com o Egipto, que servem para abastecer a população de alimentos e medicamentos, mas também para contrabando de armas e refúgio de operacionais de guerrilha 
© Mahmud Hams | AFP | Getty

Com pelo menos três significados – entusiasmo, coragem ou zelo – Hamas é o acrónimo árabe de Harakat al-Muqawamah al-Islamiyyah (Movimento de Resistência Islâmica). Nasceu no campo de refugiados de Jabaliya, na Faixa de Gaza, logo após a eclosão da primeira Intifada, no final de 1987. O seu fundador, Shaykh (xeque) Ahmed Ismail Yassin, era o representante de uma organização mais ampla, a Irmandade Muçulmana.

Inicialmente tolerado pela administração militar israelita nos territórios ocupados, por considerar os islamistas mais inofensivos do que os nacionalistas da Organização de Libertação da Palestina (OLP), o Hamas transformou-se, logo após a espontânea sublevação popular, no maior inimigo interno de Israel.

As suas actividades dividiam-se em duas esferas: 1) programas sociais, como a construção de escolas, hospitais e instituições religiosas, 2) ataques terroristas levados a cabo pela sua milícia Ezzedin (Izz al-Din) al-Qassam, em coordenação com os chefes até então exilados na Síria e na Jordânia.

Nos panfletos, o Hamas defendia abertamente a destruição de Israel. A carta de princípios proclama: “A Palestina é propriedade sagrada islâmica. […] O Dia do Juízo Final não virá enquanto os muçulmanos não combaterem e matarem os judeus, e se um judeu se esconder atrás de uma pedra ou de uma árvore, a árvore ou a pedra dirão: ‘muçulmano, escravo de Deus, há um judeu escondido atrás de mim – vem e mata-o’”.

Em Janeiro de 2006, antes de eleições legislativas que haveria de ganhar, por maioria absoluta, o Hamas, peça central de uma vaga de atentados suicidas durante a Segunda Intifada de 2000, deixou cair do seu manifesto o apelo à destruição de Israel, sem renunciar à luta armada.

Assumiu a posição ambígua, que definiu como “nova estratégia política”, de “aceitar um Estado interino, com base nas fronteiras [da guerra] de 1967, deixando a decisão final de reconhecimento do direito de existência de Israel para gerações futuras”.

Palestinianos fogem das suas casas em Shejaiya, no sector oriental da Faixa de Gaza, em 20 de Julho de 2014, depois de violentos bombardeamentos da artilharia israelita. Muitos mortos jaziam nas ruas, Segundo reporters no local. As ambulâncias foram incapazes de chegar à area devido à intensidade do tiroteio. © Mohammed Abed |AFP | Getty Images

Palestinianos fogem das suas casas em Shejaiya, no sector oriental da Faixa de Gaza, em 20 de Julho de 2014, depois de  bombardeamentos da artilharia israelita. Muitos mortos jaziam nas ruas. As ambulâncias foram incapazes de chegar à area devido à intensidade do tiroteio
© Mohammed Abed | AFP | Getty Images

Arun Kapil, professor de Ciência Política em Paris, nunca acreditou na metamorfose do Hamas, organização que, segundo o Jane’s Military Balance 2014, contará com cerca de 20.000 combatentes.

São eles que, em conjunto com outros milhares de milicianos da Jihad islâmica da Palestina e dos Comités de Resistência Popular, enfrentam agora as poderosas Forças de Defesa de Israel: 176,500 militares no activo (Exército/133.000; Marinha/9500; Força Aérea/34.000) e 465.000 reservistas.

No seu blogue, Kapil chamou a atenção para um discurso de Khaled Meshal, chefe do Hamas actualmente exilado no Qatar, país que se tornou o financiador principal do movimento. Em Dezembro de 2012, falando a uma multidão em Gaza, em vésperas de eleições em Israel, Meshal “alterou as regras do jogo”, observou Kapil, que partilhou o vídeo com o “discurso sinistro” de Meshal.

“A Palestina, do rio [Jordão] ao mar [Mediterrâneo], do Norte ao Sul, é a nossa terra, o nosso direito, a nossa pátria”, frisou Meshal. “Não abdicaremos de uma só parte dela. A Palestina continua a ser e a continuará a ser árabe e islâmica. (…) A Cisjordânia não será separada de Gaza, e é inseparável de Haifa, Jaffa, Beersheba e Safed.”

“(…) A ocupação é ilegítima e, por isso, Israel é ilegítimo, e assim permanecerá ao longo do tempo. A Palestina pertence-nos a nós e não aos sionistas. (…) Os acontecimentos mostram-nos que a jihad e a resistência são a opção mais vantajosa e de maior confiança. Esta opção não é uma ilusão ou uma miragem.”

“(…) O verdadeiro estadista nasce da espingarda e do míssil. (…) Que maravilha que foi o vosso ataque em Telavive. Que sejam abençoadas as vossas mãos”.

Ao Hamas até pode interessar a “libertação da Palestina” mas “o segredo que não quer partilhar é o de que não tem qualquer ideia sobre como conseguir esse objectivo”, observou Nathan J. Brown, professor de Ciência Política e Assuntos Internacionais na Universidade de George Washington e associate senior no Carnegie Endowment for International Peace.

No artigo 5 Myths about Hamas, publicado pelo diário The Washington Post, o autor de When victory is not an option: Islamist movements in Arab politics, adianta:

-“O movimento é duro, evasivo e, de um modo perverso, dedicado ao princípio da resistência armada. No entanto, não tem um mapa, e todas as suas acções até à data – visar civis, capturar soldados israelitas, concorrer a eleições, aprovar leis e cuidar dos doentes – não deixaram os palestinianos mais próximos de qualquer objectivo nacional. (…)”

“O que preocupa o Hamas é a sua relevância, a capacidade de aproveitar o sentimento profundo de frustração e injustiça da maioria dos palestinianos – e fazer com que a sua retórica ressoe entre as pessoas.”

3. O palestinianos apoiam o Hamas? Porquê?
Um rapaz palestiniano ferido num bombardeamento israelita no bairro de Shujaiya – onde foram mortas mais de 60 civis – recebe tratamento do hospital de Sifa, que também foi alvo de ataques. © Ali Jadallah | APA images

Rapaz palestiniano ferido num bombardeamento israelita no bairro de Shujaiya – onde foram mortos mais de 60 civis em apenas um dia – recebe tratamento do hospital de Sifa, também foi alvo de ataques.
© Ali Jadallah | APA

Nathan Brown reconhece que o Hamas não tem uma estratégia para “respostas de longo prazo” e que a sua imagem como “movimento não corrupto” já não corresponde à realidade. Então, por que é que os palestinianos ainda não derrubaram o governo em Gaza?

Responde o jornalista e activista político Noam Sheizaf, num artigo publicado no site israelita +972: “Embora rejeitem a ideologia fundamentalista, as políticas opressivas e outros aspectos do poder” do Hamas, muitos palestinianos apoiam este movimento porque, para eles, combater o bloqueio [israelita, por terra, mar e ar, a que estão sujeitos desde 2007] é a sua guerra de independência – ou pelo menos parte dela.”

“A exigência, que frequentemente se ouve em Israel, para que as pessoas em Gaza protestem contra o Hamas é absurda”, diz Sheizaf. “Mesmo ignorando o facto de eles próprios odiarem protestos em tempos de guerra, os israelitas continuam à espera que os palestinianos iniciem uma revolta civil sob fogo. Os israelitas, à esquerda e à direita, estão errados ao assumir que o Hamas é uma ditadura que combate Israel contra a vontade do povo.”

“O Hamas é, sem dúvida, uma ditadura, e há muitos palestinianos que ficariam contentes se ela fosse derrubada – mas não agora. (…) Neste momento, a maioria apoia os ataques contra soldados israelitas que entram em Gaza; apoiam raptos como meio de libertar os seus prisioneiros (que consideram prisioneiros de guerra) e – facto desagradável – muitos deles apoiam os disparos de rockets contra Israel.”

Para Sheizaf, “os anos de calma na Cisjordânia não deixaram os palestinianos mais próximos de um Estado independente, e a trégua entre guerras em Gaza não conduziu ao levantamento do bloqueio”.

O Hamas diz aos palestinianos que a liberdade se conquista pelo sangue, e o jornalista lamenta que Israel lhe dê razão: “A evacuação dos colonatos em Gaza [em 2005] aconteceu depois da Segunda intifada [em 2000], não como resultado de negociações. Os Acordos de Oslo [em 1993] seguiram-se à primeira Intifada [1987-1994].

As vidas dos palestinianos não são mais baratas do que as dos israelitas, referiu Sheizaf, “mas as nações que se batem pela liberdade suportam os piores sacrifícios”. E deu um exemplo: Israel que, na guerra de 1948, “perdeu um terço da população judaica na luta pela existência.”

4. Ferido de morte ou maior ameaça à vida?
Israeli soldiers mourn during the funeral of their comrade Bnaya Rubel in Holon, near Tel Aviv © Reuters

Soldados israelitas choram a morte do seu camarada de armas Bnaya Rubel, no funeral em Holon, arredores de Telavive
© Reuters

Na quinta-feira [24 de Julho], o Hamas e a Autoridade Palestiniana apresentaram uma proposta conjunta de cessar-fogo que prevê tudo o que Israel não lhes quer dar (como a libertação de prisioneiros e o fim do bloqueio a Gaza) e nada do que interessaria a Israel (a desmilitarização do movimento islâmico).

Inicialmente, influenciado pela Turquia e pelo Qatar, os seus actuais patronos, o Hamas rejeitou as tréguas sugeridas pelo Egipto e que Israel aceitou.

A aproximação de Abbas aos rivais parece indiciar que estes se encontram em posição de superioridade e o presidente da Autoridade Palestiniana visto como figura irrelevante após o colapso do processo de paz. As opiniões sobre a força e a fraqueza do Hamas dividem-se.

Para Nathan Thrall, do International Crisis Group, o Hamas está desesperado e isolado, como escreveu no jornal The New York Times. “A aliança do grupo com a Síria e o Irão está de rastos. A sua ligação à Irmandade Muçulmana no Egipto tornou-se um ónus depois do golpe de Julho de 2013 que substituiu um aliado, o Presidente Mohamed Morsi, por um adversário mais acerbo, o general Abdel Fattah el-Sisi.”

“Os cofres do Hamas esvaziaram-se à medida que o general Sisi foi fechando os túneis que permitiam a entrada em Gaza de bens e receitas fiscais dos quais dependia.”

“Vendo a região [do Médio Oriente e Norte de África] ser abalada por protestos populares contra líderes que não satisfaziam as necessidades básicas dos seus cidadãos, o Hamas optou por ceder o controlo oficial de Gaza em vez de correr o risco de ser derrubado.

Essa decisão conduziu a um acordo de reconciliação entre o Hamas e a OLP, em termos quase inteiramente definidos pelo presidente da Autoridade Palestinian, Mahmoud Abbas.

Netream Netzleam conforta o corpo da sua filha Razel, de 1 ano, que médicos disseram ter morrido de ferimentos sofridos num ataque israelita em Rafah, no sul da Faixa de Gaza the southern Gaza, em 18 de Julho de 2014. © Finbarr O'Reilly

Netream Netzleam conforta o corpo da sua filha Razel, de 1 ano, que médicos disseram ter morrido de ferimentos sofridos num ataque israelita em Rafah, sul da Faixa de Gaza, em 18 de Julho de 2014
© Finbarr O’Reilly

A opinião de Thrall é, de certo modo, partilhada, num texto publicado pelo site da BBC, por Jeroen Gunning, director executivo do Durham Global Security Institute, no Reino Unido: “O Hamas perdeu o apoio sírio e (muito do) apoio iraniano em 2011, quando decidiu alinhar com a insurreição contra o Presidente Bashar al-Assad. Em 2013, o seu aliado egípcio, a Irmandade Muçulmana, foi afastado do poder.”

“A liderança egípcia declarou guerra ao Hamas e fechou túneis na fronteira entre o Egipto e Gaza que permitiam a sobrevivência de Gaza (e a capacidade de o Hamas obter armas) durante o bloqueio israelita.”

“O apoio popular decresceu, assim como a sua capacidade de pagar aos funcionários públicos em Gaza. O Governo de unidade nacional, que deu, efectivamente, o controlo à Fatah, foi um gesto desesperado [do Hamas] para pôr fim ao seu isolamento.”

Duas sondagens (realizadas antes da operação israelita em curso) parecem dar razão a estes comentadores. Uma sondagem, conduzida de 5 a 7 de Junho pelo Palestinian Center for Policy and Survey Research, liderado por uma figura respeitada por palestinianos e israelitas, Khalil Shikaki, chegou às seguintes conclusões:

  • Se houvesse agora eleições presidenciais na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, Mahmoud Abbas venceria Ismail Haniyeh, um dos chefes políticos do Hamas, por 53% contra 41% dos votos. Se Marwan Barghouti, o carismático líder da Intifada, a cumprir cinco penas de prisão perpétua em Israel, concorresse contra Haniyeh, triunfaria com 58% contra 38%.

O segundo inquérito, realizado pelo Washington Institute for Near East Policy, entre 15 e 17 de Junho, constatou o seguinte:

  • “70% dos habitantes de Gaza querem que o Hamas mantenha um cessar-fogo com Israel em Gaza e na Cisjordânia” e 73% defendem que sejam adoptadas “propostas (não violentas) de resistência popular contra a ocupação”. Uma maioria de 57% também está de acordo com a posição da Autoridade Palestiniana de renunciar à luta armada contra Israel.
Funeral de Dror Hanin, em Yahud Monoson, Israel. Atingido por um morteiro palestiniano, foi o primeiro soldado israelita morto na Operação Escudo Protector ©Andrew Burton |Getty Images

Funeral de Dror Hanin, em Yahud Monoson, Israel. Atingido por um morteiro palestiniano, foi o primeiro soldado israelita morto na Operação Escudo Protector
© Andrew Burton | Getty Images

Ao contrário dos que vêem o Hamas ferido de morte e/ou como potencial parceiro político, o jornalista israelita Shlomo Eldar, que conhece bem o movimento cujos líderes entrevistou em Gaza, considera que pouco ou nada o distingue das organizações que agora aterrorizam o Iraque e a Síria.

No site Al-Monitor, onde é colaborador, Eldar caracteriza o Hamas como “o primeiro exército palestiniano”. Os seus “soldados” usam fardas e submetem-se a treinos em armas para desenvolver “excelentes capacidades militares”, combinadas com uma rígida doutrina religiosa.

“Terá mobilizado entre 15.000 e 20.000 homens, divididos em três brigadas geográficas – no norte, centro e sul de Gaza”.

Conta ainda com “unidades de elite especiais – cada uma composta de 10 a 15 combatentes, “conscientes de que têm poucas probabilidades de sobrevivência” – para operações específicas, como a infiltração em território israelita através da sua rede de túneis, uma ameaça para a qual as tropas israelitas não estavam, aparentemente, preparadas.

“Agora que as verdadeiras dimensão e magnitude estão à vista”, pergunta Eldar, “será que Israel ainda acredita que é melhor manter o regime do Hamas em Gaza como o menor dos males? Será preferível o Hamas às entidades desconhecidas que poderão ocupar o seu lugar?”

“Quando Israel fala do ‘desconhecido’ (…) alude principalmente ao estado islâmico (IS, [sigla em inglês; Daesh]). Esta organização islamista já conseguiu conquistar cidades no Iraque e, supostamente, está a avançar até à península do Sinai e à Faixa de Gaza.”

“O seu objectivo assumido é o de estabelecer ‘um Estado islâmico do Iraque à Síria’. Em que é que o Hamas é diferente da organização fanática activa no Iraque? Ambos são movidos pela crença religiosa no martírio, recrutam exércitos bem treinados e exibem excelsos dotes militares.”

“Assim sendo, Israel não deve continuar a ver o Hamas como os governantes ‘de facto’ de Gaza. Como é que outras organizações salafistas em Gaza, como a Jihad Islâmica e os Comités de Resistência Popular, ameaçam Israel mais do que o Hamas?”

“Todos os recursos do Hamas estão mobilizados para o seu exagerado armamento e incrível protecção subterrânea”, adianta Eldar. “As células do IS, as organizações salafistas e a Jihad Islâmica não têm acesso a estes enormes recursos financeiros. (…) Israel não avaliou adequadamente as capacidades militares do Hamas nem, evidentemente, as suas intenções.”

“Até à eclosão desta guerra, muitos em Israel estimavam que o Hamas estava em crise e não lhe interessava entrar agora num novo conflito.”

“Qualquer acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas será descrito como uma vitória pela organização palestiniana. Será, para o Hamas, uma oportunidade de reorganização, reconstrução e expansão do seu exército para a próxima série de hostilidades.”

Soldados israelitas disparam canhões de artilhara de 155 milímetros em direcção à Faixa de Gaza, a partir da sua base na fronteira, a 21 de Julho de 2014. © Menahem Kahana/AFP/Getty Images

Soldados israelitas disparam canhões de artilhara de 155 milímetros em direcção à Faixa de Gaza, a partir da sua base na fronteira, a 21 de Julho de 2014.
© Menahem Kahana | AFP | Getty Images

Para Eldar, “mesmo a destruição dos túneis, por mais eficaz que seja, não destruirá o Hamas e a sua ala militar”. Porque “o quartel-general do Hamas, os chefes do seu braço armado e os comandante das brigadas continuarão protegidos nos seus bunkers debaixo Gaza, tal como os seus líderes políticos.”

“Quem pense que o Hamas aceitará uma desmilitarização de Gaza ou [a destruição dos rockets está iludido. Para desmantelar os rockets do Hamas é preciso primeiro desmantelar o Hamas.”

Shlomo Eldar tem uma certeza: “mesmo que a existência e presença do Hamas venha a ser aceite na Faixa de Gaza, não haverá outra organização mais perigosa para a segurança de Israel do que o Hamas”.

Nathan J. Brown discorda, como deixou claro no seu artigo sobre os 5 mitos, publicado no Washington Post. “O Hamas, como movimento, oferece resistência – ataca civis, lança rockets e faz reféns para obter resgates – mas não consegue mobilizar uma força militar que enfrente Israel no campo de batalha.”

“Neste momento, todos os combates terrestres ocorrem em Gaza e o território israelita permanece relativamente seguro. (….) É uma verdade absoluta que o Hamas não representa uma ameaça existencial para Israel.”

No entanto, admite Brown, há outras ameaças. “Embora possa ser discutida a eficácia do sistema de intercepção Iron Dome – responsáveis regozijam que pode deter ‘até 90%’–, uma grande parte da população israelita sente-se agora ao alcance dos rockets do Hamas que estão ser lançados a maior altitude [por ter visado o aeroporto de Ben-Gurion, em Telavive, várias companhias aéreas internacionais, suspenderam os seus voos – o que foi interpretado como ‘uma vitória para os terroristas’].”

“O Hamas nunca vencerá Israel numa guerra, mas a evolução das suas capacidades – túneis, raptos, mísseis e até um drone – deixa os israelitas muito nervosos e a obriga-os a reagir.”

5. “Guerra justa” e justiça na guerra
Hospital de Shifa, em Gaza: Uma palestiniana com a roupa mancaha pelo sangue dos seus familiares feridos num ataque a 20 de Julho 2014. © Mohammed Salem | Reuters

Num corredor do Hospital de Shifa em Gaza, uma palestiniana com a roupa manchada pelo sangue de vários dos seus familiares feridos num ataque israelita, ocorrido a 20 de Julho 2014.
© Mohammed Salem | Reuters

Para Ami Ayalon, antigo director do Shin Bet e co-fundador da organização israelita Blue White Future, que defende uma solução dois Estados através de um acordo negociado com os palestinianos, “a resposta [em Gaza] foi proporcional à ameaça do Hamas”.

Numa série de artigos de opinião publicada pelo jornal The New York Times (NYT), Ayalon, um dos convidados, afirma que “não se mede ética e moralidade contando corpos”. E acrescenta: “O facto de muito mais palestinianos do que israelitas terem sido mortos não significa que a nossa causa, ou esta guerra, não seja justa. Muito mais alemães do que americanos morreram na II Guerra Mundial. Significa isso que Hitler tinha razão e que a América estava errada?”

Ayalon insiste, como outros responsáveis israelitas, que Israel “tem o direito de defender os seus cidadãos”, porque o Hamas, “com os seus túneis e visando civis com rockets, constitui “uma ameaça real”.

O almirante que chefiou a Marinha concede que “há um fosso entre uma guerra justa e justiça na guerra” e que, por isso, “é legítimo questionar se a resposta israelita é proporcional”.

Ele garante: “Estamos a cumprir a lei internacional. As nossas acções (…) têm de ser comparadas com o que outros Estados fizeram ou fariam se enfrentassem ameaças semelhantes. (…) A conduta do Hamas é uma violação flagrante da lei internacional e de todas as normas de decência. Impõe-nos esta guerra e empurra-nos para áreas civis. Usa civis como escudos humanos. A sua estratégia é fazer-nos matar o maior número possível de civis. Infelizmente, isso por vezes acontece.”

Na mesma série de artigos, o palestiniano-americano George Bisharat, professor de Direito na California Hastings College of the Law, em São Francisco, concorda que todos os países têm direito à autodefesa mas cita duas razões que, em seu entender, “anulam os considerandos” de Israel – e de Ayalon.

“A primeira [razão]: apesar de ter retirado as suas forças terrestres e colonos de Gaza em 2005, Israel continua a exercer domínio efectivo sobre a região, controlando o espaço aéreo, costa e águas territoriais, fronteiras terrestres (com o Egipto), campos electromagnéticos, abastecimento de electricidade e combustíveis”, observou Bisharat.

“Assim sendo, Israel permanece uma potência ocupante, segundo a lei internacional, com a obrigação de proteger a população civil ocupada. Israel pode usar a força para se defender, mas não mais do que o necessário para resolver distúrbios. Portanto, isto não é uma guerra – é sim o uso de poder de fogo maciço por parte de uma força militar de topo contra uma população palestiniana ocupada e cercada.”

Segunda razão: “A autodefesa não pode ser rogada por um Estado que inicia a violência, como Israel fez na sua ofensiva contra o Hamas na Cisjordânia, ao prender mais de 400 [suspeitos], efectuando rusgas em 2200 casas e outros locais e matando pelo menos nove palestinianos.”

A irmã do soldado israelita Tsafrir Bar-Or, morto em Gaza a 20 de Julho de 2014, chora a sua perda durante o funeral em Holon, © Daniel Bar-On/Reuters

A irmã do soldado israelita Tsafrir Bar-Or, morto em Gaza a 20 de Julho de 2014, chora a sua perda durante o funeral em Holon
© Daniel Bar-On  | Reuters

Licenciado em Antropologia pela Universidade de Berkeley, com um mestrado em História pela Universidade de Georgetown e doutorado em Direito pela Universidade de Harvard, Bisharat afirma não haver provas de que o assassínio de três jovens israelitas “tenha sido mais do que actos de criminalidade privada que não forçam uma nação ao direito de autodefesa”.

E dá um exemplo: se um cidadão norte-americano ou até um agente da autoridade contra o tráfico de droga (DEA) fosse morto por cartéis na fronteira com o México isso não daria o direito de este país ser bombardeado pelos EUA.

O Hamas e outros grupos, garante Bisharat, “só começaram a intensificar o lançamento de rockets depois da provocação israelita”. Até então e durante dois anos, “o Hamas tinha sido um parceiro de confiança para manter a calma ao longo da fronteira com Gaza”, controlando milícias desobedientes.

“Israel também viola, aparentemente, o princípio da distinção, o qual exige que exércitos ataquem apenas alvos militares. Ao atacar responsáveis civis e figuras políticas do Hamas nas suas casas, ao atacar hospitais, centrais de abastecimento de água e estações de tratamento de esgotos, e outras infra-estruturas civis, Israel abandonou essa distinção. Não é de surpreender que 75% das vítimas palestinianas sejam civis.”

Bisharat não nega que o lançamento indiscriminado de rockets por parte do Hamas “provavelmente também viola a lei internacional”, mas relativiza porque “apenas causou uma morte”. Embora “todas as vidas sejam valiosas, a gravidade das violações do Hamas empalidece quando comparada com os graves crimes de guerra de Israel”.

“A autodefesa de Israel não inclui o direito de (mais uma vez) matar centenas de civis em Gaza, de bombardear hospitais ou até de avisar as pessoas para evacuarem edifícios quando não têm outro lugar onde se refugiar”, corrobora Daniel Levy, director do Programa Médio Oriente e Norte de África da New American Foundation, outro contribuinte para a série de depoimentos recolhidos pelo NYT.

“A tentativa do Governo israelita de, a priori, responsabilizar o Hamas por todas as perdas e se desonerar, assim, da responsabilidade pelas vítimas não pode ser aceite.”.

“Vamos dar um passo atrás nesta última escalada”, aconselhou Levy, que participou nas negociações israelo-palestinianas como consultor dos primeiros-ministros Yitzhak Rabin e Ehud Barak. “A maioria das pessoas em Gaza são refugiados, as suas raízes estão na guerra e na expulsão em 1948.”

“Desde 1967 que vivem sob ocupação directa israelita e sob bloqueio quase há uma década. Israel não oferece às pessoas de Gaza ‘calma em troca de calma’. Quando o Hamas cessa fogo, quando está ‘calmo’, Israel regressa à normalidade, mas as pessoas em Gaza continuam isoladas do mundo, privadas das liberdades mais básicas que, para nós, estão garantidas.”

“Recuemos agora até à Cisjordânia, onde tem sido seguida uma alternativa estratégica palestiniana ao Hamas”, sugeriu Levy. “O movimento Fatah, do presidente Abbas, reconhece Israel, participa em negociações pacíficas e cooperação de segurança. Isto foi recompensado com um reforço do controlo israelita, a expansão dos colonatos e incursões militares em cidades palestinianas. O que fariam nestas circunstâncias?”

“Talvez começar por não negar perpetuamente os direitos de outro povo, incluindo o direito à autodeterminação. Não há uma solução militar, mas o Governo de Israel recusa qualquer solução política – nem o Governo nem o seu partido principal, o Likud, alguma vez aceitaram um Estado palestiniano.”

“Os seres humanos não respondem bem à humilhação, à repressão e às tentativas de negar a sua dignidade mais básica”, lembrou Daniel Levy.

“Os palestinianos são humanos. Os palestinianos encontrarão formas de resistir – o que é humano – e por vezes a resistência será armada. (…) É claro que os israelitas não respondem bem quando estão sob fogo mas, ao contrário dos palestinianos, têm um Estado, um exército, apoio dos EUA, armas, e felizmente, a sua liberdade. “

6. E depois do cessar-fogo?
Um rapaz palestiniano que fugiu da casa da família destruída na aldeia de Beit Lahiya, na fronteira com israel, dome numa escola gerida pela Nações Unidas onde muitos outros palestinianos se abrigaram, em 14 de Julho de 2014. © Mohammed Salem/Reuters

Um rapaz que fugiu da casa da família destruída na aldeia de Beit Lahiya, na fronteira com Israel, dorme numa escola gerida pela UNRWA, agência das Nações Unidas de apoio aos refugiados palestinianos, onde muitos outros civis se abrigaram, em 14 de Julho de 2014
© Mohammed Salem | Reuters

Peter Beinart, influente membro da comunidade judaica norte-americana e agora colunista do diário Ha’aretz, de Telavive, diz que “os rockets são sintomas militares de um problema político” e, embora Israel, na sua opinião, deva “retribuir o fogo”, para que o Hamas ou a Jihad Islâmica “não ataquem com impunidade”, acredita que não será mais uma invasão de Gaza a receita para oferecer segurança a Israel.

O que é preciso, especificou na sua coluna de opinião, em 23 de Julho, é obter um cessar-fogo que “devolva a esperança aos palestinianos”. Tréguas que permitam aos jovens em Gaza estudar no estrangeiro, por exemplo, ou que facilitem a exportação de bens para a Cisjordânia e Israel, seus principais mercados.

Tréguas que contemplem o fim da colonização e a promessa de um Estado palestiniano com capital em Jerusalém Leste. Deste modo, acredita Beinart, os “moderados” serão reforçados e o Hamas enfraquecido.

Não obstante a sua proposta, Beinart não tem o que quer oferecer: “Infelizmente, se tem sido eficaz a destruir os rockets do Hamas, [o primeiro-ministro israelita] Benjamin Netanyahu tem sido ainda mais eficiente em destruir a esperança palestiniana.”

Aparentemente mais optimista está Gershon Baskin, fundador e vice-presidente do IPCRI – Israel/Palestine Center for Research and Information, o activista incansável que venceu os obstáculos colocados por Netanyahu e conseguiu ajudar a libertar, em Outubro de 2011, o soldado Gilad Shalit.

Porque “não há uma solução militar”, mesmo que Israel “consiga derrubar o Hamas, o que exigiria a reocupação de Gaza e resultaria, talvez, numa vitória semelhante à de George W. Bush sobre Saddam Hussein no Iraque”, Baskin detalhou publicamente na sua página de Facebook o que designou por “Iniciativa Israelita para a Segurança, Estabilidade e Paz”.

Este plano envolve Israel, a Autoridade Palestiniana, sob a presidência de Abbas, o Egipto, a Jordânia, a Liga Árabe e os EUA. O Conselho de Segurança da ONU daria a sua bênção ao Estado da Palestina que beneficiaria de uma espécie de Plano Marshall para a sua reconstrução.

Soldados israelita da Brigada de Infantaria Nahal, na região central da Faixa de Gaza, durante a invasão terrestre, a 12 de Julho de 2014. © Finbarr O'Reilly |Reuters

Soldados da Brigada de Infantaria Nahal, uma das unidades de elite do exército israelita, na região central da Faixa de Gaza, durante a invasão terrestre
© Finbarr O’Reilly | Reuters

Um outro israelita, Yuval Diskin, que foi chefe do Shin Bet, tem uma visão mais sombria. Também ele escreveu na sua página de Facebook. As suas palavras foram traduzidas por J.J. Goldenberg, do hebraico para inglês, no site Forward: “Vejo a rápida deterioração nos territórios [ocupados], em Jerusalém e no Triângulo [localidades onde vivem os palestinianos de cidadania israelita] e não me surpreendo. (…)”

“Este é o resultado da política conduzida pelo actual Governo, cuja essência é: vamos assustar a população sobre o que se está a passar à nossa volta, no Médio Oriente; vamos provar que não há parceiro palestiniano; vamos construir mais e mais casas nos colonatos, criar uma realidade que não pode ser alterada; vamos continuar a ignorar os graves problemas no sector árabe em Israel; vamos continuar a não resolver a profundas desigualdades sociais na sociedade israelita.”

“A ilusão durou maravilhosamente enquanto o aparelho de segurança foi capaz de garantir a calma nos últimos anos devido ao trabalho dedicado e de alta qualidade do Shin Bet, das Forças de Defesa e da Polícia de Israel, mas também dos palestinianos cujo contributo significativo para a calma relativa na Cisjordânia não pode ser minimizado.”

E Diskin continua: “A rápida deterioração que se verifica na situação de segurança não resulta do assassínio vil de Naftali, Eyal e Gilad. A deterioração (…) advém da ilusão de que tudo pode ser resolvido com mais força, da ilusão de que os palestinianos aceitarão tudo o que é feito na Cisjordânia e não responderão apesar da raiva, frustração e do agravamento das condições económicas, da ilusão de que a comunidade internacional não nos imporá sanções, de que os cidadãos árabes de Israel não virão para as ruas porque não cuidamos dos seus problemas e de que os israelitas continuarão, submissamente, a aceitar a falta de capacidade do governo para lidar com o fosso social, enquanto a corrupção continua a envenenar tudo o que é bom, e por aí adiante.”

Citando a sua “experiência”, Yuval Diskin, um dos cinco antigos chefes do Shin Bet entrevistados pelo cineasta Dror Moreh para o seu documentário The Gatekeepers, nomeado para um Óscar em 2013, conclui: “Posso dizer-vos que é da natureza dos acontecimentos perderem o controlo.”

“Até mesmo Marwan Barghouti, que foi o instigador do que conduziu à Segunda intifada, não planeou antecipadamente as manifestações, em Setembro de 2000, transformadas em insurreição com atentados suicidas que mataram muitas centenas e feriram dezenas de milhares, nos dois campos.”

“Ele organizou apenas uns dias ou semanas de manifestações isoladas, mas a cadeia de acontecimentos, as reacções a elas e as reacções às reacções, levou à perda de controlo e à vaga de terror que durou quase sete anos.”

Muitos analistas, israelitas e palestinianos, acreditam que só uma mudança de líderes pode salvar a moribunda solução de dois Estados. Barghouti, ainda que condenado a prisão perpétua, continua a acreditar naquela opção e é o preferido em todas as sondagens para suceder a Abbas.

(A sua libertação é um trunfo que Israel guarda, talvez, para o trocar pelo espião Jonathan Pollard, detido nos EUA e que seria libertado em Novembro de 2015, aparentemente para apaziguar a fúria de Telavive pelo acordo entre Washington e Teerão). Diskin, por seu turno, não exclui a ambição de vir a ocupar o lugar de Netanyahu. Serão eles os salvadores?

Manobras militares no norte da Faixa de Gaza, em 18 de Julho de 2014, quando Israel intensificou a ofensiva com artilharia, carros de combate e canhoeiras. © Ronen Zvulun | Reuters

Manobras militares no norte da Faixa de Gaza, em 18 de Julho de 2014, quando Israel intensificou a ofensiva com artilharia, carros de combate e canhoneiras
© Ronen Zvulun | Reuters

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente no REDE ANGOLA em 25 de Julho de 2014 | This article was originally posted on the news website REDE ANGOLA, on July 25, 2014

O professor palestiniano que foi a Auschwitz e perdeu o emprego

Uma visita ao campo onde Hitler praticou a “Solução Final” forçou o académico Mohammed Daoudi a abandonar as suas funções na Universidade de al-Quds, em Jerusalém Leste. Ele não se arrepende. Os seus alunos também não. “Sentimos simpatia pelas vítimas [dos nazis] mas rejeitamos que o Holocausto seja usado para justificar a ocupação israelita.” (Ler mais | Read more…)

An undated archive photograph shows Auschwitz II-Birkenau main guard house which prisoners called "the gate of death". An undated archive photograph shows Auschwitz II-Birkenau's main guard house which prisoners called "the gate of death" and the railway with the remains of abandoned crockery. The railway, which was built in 1944, was the last stop for the trains bringing Jews to the death camp. © REUTERS/HO-AUSCHWITZ MUSEUM

Foto de arquivo, sem data, mostra a principal casa dos guardas em Auschwitz II-Birkenau. Os prisioneiros chamavam-lhe “porta da morte”. A linha férrea foi construída em 1944 e esta era a última paragem dos comboios que levavam os judeus para os campos nazis de extermínio
© Reuters | HO-AUSCHWITZ MUSEUM

Em Março deste ano, Mohammed S. Dajani Daoudi partiu com um grupo de 27 estudantes palestinianos para uma visita inédita a Auschwitz.

Queria dar a conhecer o “principal símbolo do Holocausto”: uma rede de campos de concentração e extermínio, controlados pelos nazis na Polónia, onde 1,1 milhões de prisioneiros foram mortos entre 1941 e 1945– 90% dos quais judeus.

Ainda a viagem não tinha começado e já Daoudi era acusado de “traição” nas redes sociais. No regresso a casa, à vaga de insultos juntaram-se também ameaças de morte.

O antigo guerrilheiro da Fatah (principal facção da OLP) que fez dois doutoramentos nos EUA e criou o American Studies Center na Universidade de al-Quds, em Jerusalém Leste, contava com a solidariedade dos colegas docentes e da administração. Em vão.

Em Maio, o professor demitiu-se de todos os cargos (também dirigia a Biblioteca), numa carta enviada à universidade. Esperava que fosse recusada, mas foi aceite. Queixa-se de “falta de liberdade académica”, mas garante, numa entrevista que nos deu, via e-mail, que não se considera derrotado.

Daoudi acredita que a sua filosofia de wasatia (moderação) – nome do movimento da sociedade civil que fundou em 2007 – é o único caminho. Porque, misturando religião e política, é “a alternativa a um Islão extremista e a uma política totalmente secular”.

Houve duas “experiências pessoais” que desviaram Daoudi da luta armada a que aderiu quando a guerra de 1967 o separou da família, um dos veneráveis clãs de Jerusalém, a par dos Nashashib mas rival dos Husseini. Só em 1993, após a assinatura dos Acordos de Oslo, ele foi autorizado pelas autoridades israelitas a deixar Beirute, onde se licenciava.

Nesse ano, contou o professor, como o pai sofria de cancro, ele acompanhou-o diversas vezes ao Hospital Hadassah Ein Karem. “Fiquei surpreendido por ver que os médicos israelitas o tratavam como um paciente e não como árabe ou inimigo”, salientou.

A segunda experiência envolveu a mãe que saiu de casa sem os inaladores para a asma e teve uma crise aguda, num Shabat (sábado judeu), com todos os serviços encerrados. Daoudi e o seu irmão mais novo conduziram até ao Aeroporto de Ben-Gurion.

“Para nossa surpresa, os guardas apressaram-se a ajudar, chamando uma ambulância. Foi tarde de mais”, informou o professor. “A mãe morreu antes de chegar ao hospital. Estas experiências ajudaram-me a ver a face humana do meu inimigo, e converteram-me num activista pela paz, cujo lema é ‘nós e eles’ e não ‘nós ou eles’.”

This undated file image shows the main gate of the Nazi's Auschwitz concentration camp in Poland, which was liberated by the Russians in January 1945. Writing over the gate reads: "Arbeit macht frei" -- or "Work Sets You Free." © NBC News

Foto de arquivo, sem data, mostra a principal entrada do campo de concentração de Auschwitz, na Polónia, libertado por forças russas em Janeiro de 1945, Na placa está a inscrição Arbeit macht frei ( “O trabalho liberta-te”)
© NBC News

A visita a Auschwitz insere-se na filosofia wasatia que Daoudi propaga, e à iniciativa deu o nome de Hearts of Blood – not of Stone (“Corações de sangue – não de pedra”). Daoudi já havia estado no campo onde sobreviveram judeus como Primo Levi (autor de Se isto é um homem). Em Fevereiro de 2011, convidado pela organização Aladdin, em Paris, integrou um grupo de 150 líderes religiosos de todo o mundo.

“A visita abriu os olhos de um palestiniano, árabe e muçulmano, criado numa cultura que nega o Holocausto, considera este a causa da catástrofe nacional de 1948 ou alimenta a teoria de um esforço coordenado entre nazismo e o sionismo para obrigar os judeus a criarem o Estado de Israel na Palestina”, disse Daoudi.

“A bestialidade do que vi obrigou-se a deixar de ser um espectador”, adiantou. Dois meses depois [Abril 2011], eu e Robert Satloff [director executivo do think-tank conservador The Washington Institute for Near East Policy] assinámos um artigo conjunto intitulado Why should the Palestinians know about the Holocaust [Por que devem os Palestinianos aprender o que é o Holocausto”].

Inquirido sobre se a sua ligação aos neocon não teria contribuído para a polémica, Daoudi respondeu: “Quando criei o American Studies Center, em 2002, os críticos viram nisto um operação da CIA com vista a recrutar estudantes para trabalharem na agência.”

“Em 2007, quando fundei a Wasatia, os críticos disseram que eu recebia dinheiros dos EUA para promover um Islão ocidental. Desta vez, uma viagem educacional transformou-se num esquema perverso para lavar o cérebro da juventude palestiniana. Se ligasse aos críticos em breve me tornaria num vegetal.”

A viagem em Março de 2014 não foi organizada nem financiada por organizações judaicas, como alegaram os detractores. Tratou-se de um “projecto conjunto com a universidade alemã de Freidrich Schiller e paga pela German Research Foundation”, garantiu o professor.

“A maioria dos estudantes que participaram na viagem frequentou primeiro um curso de reconciliação no American Studies Center”, explicou Daoudi.

“Recebemos um total de 70 candidaturas mas só seleccionámos 30. Comprámos os bilhetes e pedimos vistos. Duas raparigas desistiram e um simpatizante do [movimento islâmico] Hamas não foi autorizado por Israel a sair do país.”

Barbed wire preventing any escape at Auschwitz I © avisionn.com

Arame farpado para impedir qualquer tentativa de fuga de Auschwitz I
© avisionn.com

Nem Daoudi nem os alunos estavam preparados para a acesa controvérsia. “Para nós, era tão só uma visita de estudo, mas alguns acusaram-nos de ‘promover a causa sionista contra os palestinianos. Muitos ignoraram as visitas de estudantes judeus israelitas a campos de refugiados palestinianos.”

“É difícil reconhecer as respectivas narrativas porque estamos ainda numa rota de colisão, cada parte a tentar aniquilar a outra e ser a força dominante. Se cada um respeitar a narrativa do outro sem ter de a adoptar, talvez cheguemos à paz e à coexistência.”

Para Mohammed Daoudi, a “visita de estudo” foi, sem dúvida alguma, “um dos maiores desafios” que enfrentou. “Conhecendo a natureza altamente sensível do Holocausto no que toca à identidade nacional palestiniana, eu sabia que pisava terreno minado e corria muitos riscos.”

Antes de partir, Daoudi foi aconselhado a desistir. Recebeu um e-mail do presidente da Universidade de al-Quds a desencorajá-lo. Para se proteger, o professor pediu aos estudantes que assinassem termos de consentimento e responsabilidade. “Eu sabia que violava códigos da sociedade e que iria quebrar tabus, mas não desrespeitei quaisquer regulamentos académicos”, referiu.

Entre os estudantes que participaram na viagem estava Ohood Murqatem, 28 anos, que se licenciou em Media e TV na Universidade de al-Quds. Esteve presente como “antiga aluna”. Outro membro da comitiva foi Hani Khalil Smirat, 32 anos, que ainda não conclui o curso de Resolução de conflitos. Vivem ambos em Ramallah, na Cisjordânia.

“Não considero que a visita tenha sido o maior desafio pessoal”, frisa Ohood, em declarações por e-mail. “Para mim, foi apenas um projecto 100% educativo que me permitiu aprender muito sobre História e conflito”, acrescentou a coordenadora em Ramallah (Cisjordânia) do maior grupo pró-paz nascido na Internet, YaLa Young Leaders.

“Quando me refiro a conflito, estou a falar do modo como a ocupação israelita trata os palestinianos. Depois de estar em Auschwitz, fiquei a entender melhor este conflito – mas não a justificá-lo.”

“Os sentimentos confundiram-se enquanto lá estive”, observou. “Senti-me muito mal, e a maior parte do tempo não conseguia sequer imaginar o que acontecera na realidade. Não podia admitir que seres humanos cometessem contra outros seres humanos crimes tão incrivelmente horrendos. Foi impressionante porque estávamos a presenciar o que passou e não a ler ou ver documentários sobre o Holocausto.”

“Tivemos de viajar através da Jordânia e o percurso é muito longo”, notou ainda. “O meu estado de saúde é débil e a viagem implicava andarmos frequentemente de autocarro. Ficámos muitas horas de pé. Quando comecei a entender os factos, não conseguia dormir à noite.”

“Não se tratava de pesadelos mas de insónias. Tinha a sensação de que as almas das vítimas pairavam por toda a parte. Senti-me estranha depois de saber que milhões de pessoas tinham sido mortas ali, naquele lugar.”

Newly arrived prisoners at Auschwitz are sorted by guards into groups of who will be sent to labour camps and who will be sent to the gas chambers. © Vashem | AP

Prisioneiros à chegada a Auschwitz são divididos por guards nazis em grupos: os que iriam para campos de trabalhos forçados e os que seriam enviados para as câmaras de gás
© Vashem | AP 

Ohood não teve medo de partilhar o que viu e ouviu. “Nada tenho a esconder”, frisou. “Outros não pensam deste modo, provavelmente porque ficaram atemorizados com as reacções do movimento palestiniano anti-normalização (o chamado BDS – boicote, desinvestimento e sanções].”

Hani Smirat, por seu turno, não hesita em classificar esta viagem como “o maior dos desafios pessoais – por duas razões”. Primeira: “contrariou os apelos do BDS”; e segunda, porque “ocorreu no momento errado, quando fracassaram as negociações de paz [mediadas por John Kerry, secretário de Estado norte-americano].”

“O conceito de normalização”, explicou Smirat, numa entrevista por Facebook, “não está bem definido e divide a sociedade palestiniana. Embora todos sejam favoráveis a um boicote económico, outros há, como eu, que não vêem necessidade de um boicote académico e/ou político.”

“Não foi nada fácil, para mim, participar nesta viagem académica e de carácter humanitário, mas decidi que precisava de explorar a realidade do Holocausto”, acentuou.

“As vítimas [dos nazis] não têm culpa dos crimes da ocupação israelita. Fui seleccionado porque a minha área de estudo é resolução de conflitos e a minha tese relaciona-se com a opção de um só Estado.” O professor Daoudi é adepto de dois Estados.

“O Holocausto foi um crime imoral que reflecte um plano de opressão e injustiça para acabar com uma raça humana”, disse Smirat. “Na visita, centrámo-nos nas imagens do campo de concentração. Essas imagens não saem da minha cabeça. Como palestiniano a viver sob ocupação e como activista pela paz, foi horrível ver as câmaras de gás onde dezenas de milhares de judeus foram brutalmente mortos.”

“A certa altura, dei por mim a pensar no modo como o Exército israelita lança sobre a Faixa de Gaza granadas de gás proibido internacionalmente, matando dezenas de pessoas, muitas delas crianças.”

“O que vi em Auschwitz magoou-me como se me tivessem apunhalado pelas costas”, referiu Smirat. “Não consigo deixar de estabelecer um paralelo entre o que vi ali e o que vivo diariamente. Hitler matou seis milhões de judeus, o que foi uma tragédia.”

“Entre os palestinianos, também havia 5 milhões de refugiados, 70% dos quais já morreram. Os que sobreviveram não têm esperança de voltar às suas casas, e continuam vulneráveis a injúrias e racismo.

“Os que negam o Holocausto estão cegos – mas também estão cegos os que negam a Nakba [êxodo forçado palestiniano após a criação de Israel em 1948]”, declarou Smirat. “Há mais de 60 anos que vivemos esta dor. Tenho esperança de que os judeus e os judeus israelitas deixem de negar a nossa humanidade.”

Dos estudantes que foram à Polónia nenhum era negacionista do Holocausto, garantiu Smirat. “No entanto, todos lamentamos que Israel use o Holocausto para justificar a ocupação dos territórios palestinianos. Estamos solidários com as vítimas [dos nazis] – o nosso problema é a ocupação.”

Mohammed Daoudi enfatiza que, ao visitar Auschwitz, não esteve a fazer concessões ao inimigo. “Fui lá por mim. Não queria continuar inerte, mesmo que as vítimas do sofrimento pelas quais eu exprimo simpatia sejam o ocupantes que cometem actos violentos. Ódio, racismo e fanatismo propagam um reino de terror, e o medo paralisa as pessoas boas que ficam sem força para protestar contra o Mal, que assim ganha mais poder.

“Fui a Auschwitz para saber o que aconteceu e evitar que se repita”, concluiu. “Creio que é importante quebrar este muro de ignorância e intolerância que nos divide e impede de chegar ao outro lado. Quando um dos meus alunos me perguntou por que devíamos conhecer o Holocausto se os Israel até quer proibir a palavra Nakba, a minha resposta foi simples: ‘Porque estamos a fazer o que é certo.”

© Cortesia de | Courtesy of Ohood Murqatem

© Cortesia de | Courtesy of Ohood Murqatem

© Cortesia deMohammed S. Dajani Daoudi | Courtesy of Mohammed S. Dajani Daoudi

© Cortesia de | Courtesy of Mohammed Daoudi

Este artigo, com um título diferente, foi publicado originalmente no jornal EXPRESSO, em 5 de Julho de 2014 | This article,  under a different headline, was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on July 5 2014

Mahmoud Darwish: O poeta da Palestina e a sua amada judia

Os palestinianos veneram-no como símbolo nacional. A sua prosa e poesia fazem parte de currículos escolares do Levante ao Magreb. Mais de cinco anos após a morte de Mahmoud Darwish (2008), os mistérios da sua vida são desvendados, num documentário sublime, pela cineasta Ibtisam Mara’ana Menuhim. (Ler mais | Read more…)

O jovem Mahmoud Darwish © Courtesy of Ibtisam Mara'ana Menuhim

Mahmoud Darwish: “Não gosto de ser o representante do povo palestiniano, porque dificilmente me represento a mim próprio”, disse ele à poeta israelita Helit Yeshurun
© Cortesia de Ibitisam Mara’ana Menuhim | Courtesy of Ibtisam Mara’ana Menuhim

Documentário inspirado nos versos do poema Bilhete de Identidade, de Mahmoud DarwishWrite Down, I am an Arab (“Escreva, sou um Árabe”) começa com um diálogo em hebraico.

E assim começa também um retrato até agora desconhecido do poeta da Palestina que perdeu o direito de regressar à sua aldeia de al-Birwa, integrada em Israel, mas não matou a paixão pela judia Tamar Ben Ami.

Escrito, produzido e dirigido por Ibtisam Mara’ana Menuhim, cineasta palestiniana de cidadania israelita, Write Down I am an Arab foi exibido, com enorme aplauso, em dois festivais: no Canadá (HotDocs, de Toronto) e em Israel (DocAviv, onde ganhou o “Prémio da Audiência). Valeria a pena exibi-lo, também, em Portugal, no próximo DocLisboa.

O diálogo com que Ibtisam Mara’ana inicia a história de Darwish, foi gravado em 1996. São fragmentos de uma conversa entre a poeta e crítica literária israelita Helit Yeshurun, quando o “processo de paz” aparentava esperança.

Helit é filha de outro poeta gigante, o judeu Avot Yeshurun, que, contra a vontade dos pais, emigrou da Ucrânia para a Palestina, em 1925. Perderia toda a família no Holocausto, na Polónia, e o “sentimento de culpa” impregna os seus escritos.

Após a criação do Estado de Israel, Avot foi das raras figuras literárias a reconhecer o sofrimento dos palestinianos, considerando que estes e os judeus da Europa “partilhavam uma tragédia comum”. A obra de Avot é preciosa e única por salpicar a língua hebraica com os alfabetos yidish e árabe.

“Penso que todos os poetas sonham ser a voz dos outros”, confidencia Darwish a Helit. “Isso incomoda-o?”, pergunta-lhe ela. “Não gosto de ser o representante do povo palestiniano, porque dificilmente me represento a mim próprio.”

A partir daqui, Ibtisam Mara’ana introduz a mais perfeita versão musical de um poema emblemático de Darwish entoada por Mira Awad (também ela palestiniana de cidadania israelita). E os segredos vão sendo desvelados. “Cada canção de amor que escrevo, dizem que é sobre a pátria. ‘Rita’ é um poema erótico. Escolhi esse nome mas o nome dela não é Rita. É uma mulher judia”, revela o escritor.

Entre Rita e os meus olhos / há uma espingarda/ E quem conhece Rita/ ajoelha-se e reza à divindade / naqueles olhos cor de mel/ E eu beijei Rita/ quando era jovem/ E lembro-me como ela se aproximou / e como o meu braço/ tocou as suas tranças adoráveis/ Ah Rita

Mahmoud Darwish e a sua namorada judia. Tamar Ben Ami © Courtesy of Ibtisam Mara'ana Menuhim

Mahmoud Darwish quando namorava com a judia Tamar Ben Ami, a quem escreveu várias cartas de amor, alguns deles vistos pelos palestinianos como uma referência à pátria
© Cortesia de Ibtisam Mara’ana Menuhim | Courtesy of Ibtisam Mara’ana Menuhim

Antes de Rita/Tamar, outra judia marcou o percurso de Darwish: Shoshana Lapidot, professora de hebraico, enviada pelo governador militar para Yasif, a aldeia onde a família do poeta se instalou quando o pai decidiu fugir das tendas de refugiados no Líbano.

Foi Shoshana quem apresentou ao seu aluno “modesto, discreto e bem comportado, de cerca de 15 anos”, o ilustre poeta israelita, Haim Bialik (1873/Rússia – 1934/Áustria), que muito influenciou os seus temas. “Nós temos saudades dos mesmos lugares”, diz Darwish.

“É natural que falemos de Inverno, de uma janela, de pássaros, do cheiro de uma terra distante depois das primeiras chuvas. É como uma língua em que pessoas saudosas se juntam, mesmo que percorram caminhos diferentes.”

Entra, agora, em cena Tamar Ben Ami. Darwish não nos engana quando glorifica a judia de “olhos cor de mel”.

Ela preserva a beleza da adolescência, quando ambos se apaixonaram enquanto militantes do movimento comunista israelo-palestiniano. Ela, sentada numa poltrona, vai mostrando as muitas cartas que o poeta lhe endereçou, algumas enviadas para o número 28 da Rua Palmach (nome do grupo de resistência judaica de onde emergiram as actuais Forças de Defesa de Israel).

Tamari [diminutivo carinhoso], não estou a escrever mas a sussurrar ao teu ouvido/ (…) Estás no meu quarto/ na minha cama/ na minha mala/ no meu livro / na minha caneta/ no meu coração e no meu sangue Teu/ Mahmoud

Ibtisam Mara’ana vai bordando com imagens de arquivo e actuais todas as entrevistas, como a do irmão de Mahmoud que ainda se lembra da fuga coagida e do retorno penoso em 1948.

O amor de Tamari era impossível – e mais ainda se tornou quando ela, dançarina profissional, se juntou a uma banda da Marinha israelita durante a guerra de 1967.

Tamari, sinto-me como se tivesse sido ferido gravemente (…) / Podes não gostar de ler estas palavras duras, cruéis/ porque desgraçam a pureza do amor em que acreditavas /Peço-te que me perdoes/ (…) O meu coração só se abriu durante uns 30 minutos e agora vou fechá-lo /Adeus/ Teu/ Mahmoud

Em 1967, Mahmoud Darwish foi preso, porque as autoridades militares israelitas consideravam os seus poemas subversivos (os censores sauditas, numa recente feira literária em Riad, proibiram-nos como “blasfemos”). Em 1970, ele mudou-se para Moscovo.

Samih al-Qassim, poeta palestiniano-israelita, teve dificuldade em perdoar o amigo por “atraiçoar” estes versos: O meu país não é uma mala/ Eu não sou um viajante. “Ele, afinal, partiu”, lamentou Samir.

A jovem Tamar Ben Ami, quando namorava, secretamente, com Mahmoud Darwish © Cortesia de Ibtisam Mara'ana Menuhim

A jovem Tamar Ben Ami, quando namorava, secretamente, com Mahmoud Darwish
© Cortesia de Ibtisam Mara’ana Menuhim | Courtesy of Ibtisam Mara’ana Menuhim

Em 1973, alojado numa capital libanesa em guerra civil, Darwish ganhou fama como poeta da Thawra (revolução). Em 1988, escreveu a declaração de independência de um Estado palestiniano. Em 1992, zangou-se com Yasser Arafat, o chefe histórico da OLP, por ter assinado os Acordos de Oslo.

Foi também em 1992 que Darwish entrou na Cisjordânia, pondo fim ao exílio. À chegada, um jornalista perguntou-lhe se ainda se considerava cidadão israelita.

“Eu era. Agora não sei”, disse. “Gostaria de ser?”, insistiu o interlocutor. “É uma questão sensível porque me tornei, oficialmente, um cidadão palestiniano, com um Bilhete de Identidade palestiniano.”

Na diáspora, Darwish conheceu outro amor: Rana Qabbani (ou Kabbani), filha de um embaixador sírio nos EUA e que reside actualmente em Londres.

Ele tinha 34 anos e ela 18. No dia em que foram apresentados, ele pediu-a em casamento. Ela aceitou, e a união consumou-se nessa noite. Viveram juntos seis meses, em Beirute, e separaram-se.

Seis meses depois, voltaram a casar-se, e instalaram-se em Paris. Sem filhos, sob ameaças de morte, concordaram em divorciar-se. O amor perdurou.

No documentário, Rana, que é sobrinha do poeta sírio Nizar Qabbani (1923-1988) e foi casada com o  jornalista Patrick Seale (1930-2014), biógrafo do Presidente sírio Hafez al-Assad (1930-2000), emociona-se ao ler uma das cartas de Darwish que incluiu num livro que ela traduziu, para inglês: In Sand and Other Poems:

As tuas palmas das mãos/ A minha voz / O teu amor / A minha espada / Os teus olhos / Dois rios / A tua presença/ Eu moribundo/ A tua ausência / A minha morte

Ibtisam Mara’ana Menuhim assume que quis dar a conhecer Darwish através de dois amores da vida dele. “Cresci numa sociedade árabe chauvinista que discrimina as mulheres, por isso luto pelas minhas identidades feminina e nacional em Israel”, disse-nos, em declarações por e-mail.

“Os protagonistas nos meus filmes reflectem contextos sociais israelitas e palestinianos que são, na maior parte das vezes, ocultados, porque são os mais feios. Eu lido com estes temas porque há uma enorme falta de justiça em relação às mulheres.”

Tamar Ben Ami, durante uma sessão de perguntas e respostas quando o documentário foi exibido em Telavive- © DocAviv 2014

Tamar Ben Ami, quando o documentário foi exibido em Telavive
© DocAviv 2014

A síria Rana Qabbani casou-se duas vezes com Mahmoud Darwish. è agora escritora e traduziu alguns versos do poeta palestiniano. © Direitos Reservados | All Rights Reserved

A síria Rana Qabbani casou-se duas vezes com Mahmoud Darwish. A residir actualmente em Londres, define-se como escritora e traduziu alguns versos do poeta palestiniano
© Le Monde Diplomatqiue

Ibtisam Mara’ana nasceu em 1975 em Faradis, aldeia árabe e muçulmana no Norte de Israel. Aos 18 anos, ingressou numa escola de cinema onde iniciou um processo criativo – “sem nunca antes ter visto um filme”, conta. Paradise Lost (“Paraíso Perdido”), a estreia, foi “o primeiro filme realizado da perspectiva das mulheres palestinianas”.

Há cerca de uma década, a cineasta fundou a Ibtisam Films, dando primazia a filmes que “expõem os problemas das mulheres e das minorias em Israel e nos territórios ocupados, abordando temas como género, classe, racismo, identidade identidade e colectiva, a história presente e os sonhos de futuro.”

“Nunca pensei fazer um filme sobre Mahmoud Darwish, como homem e poeta nacional”, confessa nesta entrevista. “Em 2010, fiz um documentário chamado 77 Steps (“77 Passos) – a minha história com um ex-namorado canadiano.”

“Durante dois anos, documentei a minha vida e a dele, as dificuldades que enfrentámos como casal judeu-palestiniano. Lembro-me do medo que senti durante a realização do filme, por ser muito pessoal.”

“Um dos maiores temores era que a sociedade árabe não o acolhesse bem”, precisou. “Memorizei uma ‘resposta segura’ se alguém me atacasse: se Darwish pôde escrever poemas sobre a sua amada judia (Rita and the Rifle), eu podia fazer o mesmo, com o meu namorado judeu. No final da produção, tentei descobrir quem era Rita.”

“A investigação durou meio ano, mas encontrei-a. Tamar Ben Ami vive em Berlim e aceitou revelar a sua história com Mahmoud, 40 anos antes, além de mostrar as cartas que ele lhe enviara. Conclui então que só através daquela história de amor eu poderia contar a história do poeta nacional”, sublinhou Ibtisam Mara’ana.

“Como palestiniana que vive em Israel, nunca me identifiquei com o hino nacional israelita (Hatikva) nem com a bandeira israelita”, adiantou.

“O poema Bilhete de Identidade é, para mim, uma espécie de hino nacional, embora o meu favorito seja Rita and the Rifle, por descrever o conflito palestiniano-judaico, simultaneamente, do ponto de vista nacional e pessoal.”

A cineasta Ibtisam Mara'ana Menuhim, palestiniana de cidadania israelita escreveu e tealizou um documentário sublime © Cortesia de Ibtisam Mara'ana Menuhim

Ibtisam Mara’ana, palestiniana-israelita escreveu e realizou um documentário sublime
© Cortesia de Ibtisam Mara’ana Menuhim | Courtesy of Ibtisam Mara’ana Menuhim

Bilhete de Identidade

Escreve

sou árabe

o  número do meu bilhete de identidade é o

                  cinquenta mil

tenho oito filhos

e o nono chegará… depois do Verão

Ficarás irritado?

 

Escreve

sou árabe

trabalho com os meus companheiros de infortúnio

numa pedreira

tenho oito filhos

para eles extraio da rocha

a carcaça do pão

a roupa e os cadernos

E não venho mendigar à tua porta

não me curvo

no átrio da tua casa

Ficarás irritado?

 

Escreve

sou árabe

Tenho um nome vulgar

sofro num país

que ferve de raiva

As minhas raízes…

fixadas antes do nascimento do tempo

antes da eclosão dos séculos

antes dos ciprestes e das oliveiras

antes da erva

O meu pai…

da família do arado

e não dos senhores de Nujub

O meu avô, um camponês

sem árvore genealógica

Ensinou-me os movimentos do sol

antes da leitura

A minha casa

uma cabana de guarda

feita de canos e ramos

Estás contente com a minha condição?

tenho um nome vulgar

 

Escreve

sou árabe

cabelos… pretos

olhos… castanhos

sinais particulares

na cabeça um ‘keffyah’ seguro por um cordel

A palma da minha mão, rugosa como a rocha

arranha a mão que aperta

o meu endereço: sou duma aldeia perdida, sem defesa

e todos os seus homens estão no campo e na

                              pedreira…

Ficarás irritado?

 

Então

escreve

ao alto da primeira página

Eu não odeio os meus semelhantes

e não ataco ninguém

Mas… se um dia me obrigarem a passar fome

comerei a carne do meu espoliador

Fica atento… fica atento

à minha fome

e à minha cólera

(In: “Pequena antologia da Poesia Palestiniana Contemporânea; Selecção e Tradução de Albano Martins, Pp: 25/26/27)

** FILE ** In this Sunday, July 15, 2007 picture, Palestinian poet Mahmoud Darwish, pauses during a reading in the northern Israeli city of Haifa. A Palestinian presidential aide said Saturday, Aug. 9, 2008 that the renowned poet has died at a hospital in Houston following complications from an open heart surgery © AP Photo/Gil Cohen Magen, Pool)

Mahmoud Darwish, no intervalo de uma leitura de poesia na cidade de Haifa,  Norte de Israel, em Julho de 2007. O poeta nacional palestiniano morreria a 9 de Agosto de 2008. O seu estado de saúde agravara-se em consequência de uma cirurgia ao coração, nos Estados Unidos
© Gil Cohen Magen | AP Photo

Este artigo, agora actualizado, foi originalmente publicado no jornal EXPRESSO, em 21 de Junho de 2014| This article, now updated, was originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on June 21, 2014

Darwish through the eyes of three women – one of them his Jewish lover

Ibtisam Mara’ana Menuhim wrote, produced and directed a sublime documentary centered on the life of the Palestinian national poet, Mahmoud Darwish. It is a compelling portrait of a man whose verses confused his readers. Rita and the Rifle, for instance, was written as a love letter to a Jewish girlfriend Tamar Ben Ami – and not as tribute to this homeland. (Read more…)

Write Down I m an Arab was given the Audience Award, at DocAviv Festival @ Courtesy of Ibtisam Mara'ana Menuhim

Write Down I m an Arab was given the Audience Award at DocAviv Festival 2014. Pictured here, Mahmoud Darwish embraces his Jewish girlfriend Tamar Ben Ami. The love story ended with the 1967 war and the Israeli occupation of Palestine
@ Courtesy of Ibtisam Mara’ana Menuhim

For Portuguese readers not familiar with your work, will please tell us who is Ibtisam Mara’ana?

I was was born in 1975 in Faradis [Paradise]. I am a Muslim, Arab, working class village in the North of Israel. At the age of 18, I was accepted to film school where I began to create without previously ever having seen a film in a cinema.

Immediately, I began working with the themes that my films continue to explore until today. My first commercial release, Paradise Lost, is considered to be the first film to be made from the perspective of a Palestinian woman.

I founded Ibtisam Films over a decade ago to produce films which have a strong personal voice exploring the borders and boundaries of Palestinian and Israeli society with a focus on women and minorities.

The films explore gender, class, racism, collective and individual identity, history, the present and dreams for the future. Beyond my film work, I give lectures at Bezalel – Academy of Arts and Design in Jerusalem.

Do you recognize yourself in this definition of your films: “They explore gender, class, racism, and collective and individual identity, showing the plight of Palestinians of Israeli citizenship in Israel but also criticizing the backward traditions (including the so-called ‘honor killings’) within their own society”?

I grew in an Arab chauvinist society that discriminates women and in the Israeli Jewish society that discriminates Arabs, thus most of my life I fight for my own woman identity and my national identity in Israel.

The subjects of my films reflect the backyard of the Israeli and the Palestinian society, which are most of time the most hidden ones, because they are also the ugly ones.

I deal with those subjects because, in my opinion, there is a huge lack of justice that is done toward women through all history of men kind, and it is time to put an end to this miserable situation.

I believe that as long as women are depressed and occupation continues, my movies will continue to reflect this situation, which is my reality, and the reality of most women on earth.

© medium.com/@thepalestineproject

Why did you decide to write and direct a documentary about Mahmoud Darwish? 

I never thought to make a film about Darwish’s life as a national poet and as a man. In 2010 I released a documentary film called 77 steps which is a love story between me and my Canadian Jewish ex-boyfriend.

For two years I documented my life with him and the difficulties we had as a Palestian-Jewish couple. I remember the fears I dealt with through the making of “77 steps”, which was a very personal movie. One of my biggest fears was how arab society will accept this film.

To convince myself and in order to feel safe, I made a ‘safe answer’ to throw at anyone attacking me for exposing my relationship with a Jewish man.

This ‘safe answer’ was that Mahmud Darwish could write love poems about his Jewish loved one (one of the poems is Rita and the rifle), it is perfectly fine that I’ll make a movie about my relationship with my Jewish boyfriend, a controversial act in both the Arab Israeli and Jewish Israeli societies.

After the end the movie production, I went to seek who Rita is. I went to a half a year research in which I found a woman who might be Rita in Darwish’s poetry.

The name of that woman is Tamar Ben Ami, and I found her living in Berlin. She exposed her love story with Mahmoud Darwish 40 years ago. She also exposed love letters that Mahmoud sent her. That when I understood that only through such a love story I can tell a story of a national poet.

The HotDocs Film Festival is one of the biggest and honourable documentary film festivals in the world. And this is not the first time I première my films in this festival.

Why the title Write Down, I am an Arab? Is Identity Card your favorite poem? 

As an Arab who lives in Israel, I never identified with the Israeli National hymn (“Hatikva”) nor the Israeli Flag.

The poem Identity card is sort of a national hymn for me. Though my favorite poem of Darwish is Rita and the rifle [Mira Awad plays a beautiful song with these verses; an older version is performed by the great Lebanese composer, singer and oud player Marcel Khalife] because it describes the Palestinian-Jewish conflict, and is both national and personal at the same time.

Rita and the Rifle

Between Rita and my eyes
There is a rifle
And whoever knows Rita
Kneels and plays
To the divinity in those honey-colored eyes
And I kissed Rita
When she was young
And I remember how she approached
And how my arm covered the loveliest of braids
And I remember Rita
The way a sparrow remembers its stream 
Ah, Rita
Between us there are a million sparrows and images 
And many a rendezvous
Fired at by a rifle

Rita’s name was a feast in my mouth
Rita’s body was a wedding in my blood
And I was lost in Rita for two years
And for two years she slept on my arm
And we made promises
Over the most beautiful of cups
And we burned in the wine of our lips
And we were born again

Ah, Rita!
What before this rifle could have turned my eyes from yours
Except a nap or two or honey-colored clouds?
Once upon a time
Oh, the silence of dusk
In the morning my moon migrated to a far place
Towards those honey-colored eyes
And the city swept away all the singers
And Rita

Between Rita and my eyes —
A rifle

Rana Kabbani, a writer living in London, was the Syrian wife of Mahmoud Darwish: they got married and divorced twice
© http://www.gov.uk/government/news/voices-of-the-women-of-syria

Have you ever met Darwish? Are there one or more personal stories that you wouldn’t mind to share? How do you describe the impact of his poems and of his life in his homeland and among Palestinians in exile?

I met Darwish in 2007, a year before his death, in Ramallah when I went to document a Palestinian writer named Raji Bathish, I tried interviewing him but he did not cooperate. Mahmoud is considered as the voice of the Palestinian people across the world. He is greated than any Palestinian leader. His impact is huge and I hope my film will bring some of him to many people who have not discovered him yet.

Mahmoud Darwish was, initially, a Palestinian of Israeli citizenship, a member of a community that “walk like an acrobat on a tightrope”, as David Grossman wrote – a minority treated with suspicion not only by Israelis demanding loyalty to a “Jewish State”, but also by Palestinians in the occupied territories. You were a candidate to the Knesset on a list of the Meretz party. How do you evaluate the role of Palestinians of Israeli citizenship in the national political scene? Why so many of them vote for Zionist parties, and how do you explain the divisions that prevent a common front?

The Israeli Palestinian people do not see themselves as part of the political scene. They do not believe in Palestinian leaders and don’t think that they can help them. Therefore most of them do not vote.

April 2014 was supposed to be the deadline to close the “peace process”, under the auspices of US secretary of State John Kerry. What are your expectations? Do you believe in a two-state solution? What would be the ideal Palestine of Mahmoud Darwish?

I do not believe in a two states solution, I believe in a one state solution for both nations. We can keep on daydreaming about a Palestinian state, but as I see the state of the occupation, I see no way an Israeli leader will rip apart the settlements.

Israel is stalling on purpose so it will be able to continue expanding on more private lands and more settlements.

I think that both sides, the Israeli leadership and the Palestinian leadership is benefiting from the current state. No Palestinian leader will ever acknowledge Israel as a Jewish state, because it isn’t (this is a state with both Jewish and Arab people).

As one state will rise for both nations and the refugees will be able to come back home, justice will be made after decades of bloodshed. I think Mahmoud Darwish spoke about one state for two nations.

© zinnedproject.org

Israeli media nominated you as “one of the 10 most influential women”. Do you see yourself like that? What are the Palestinian women’s main challenges, and what is the role of your foundation in this regard?

Every year, Israeli media declares different 10 most influential women, I don’t take those lists too seriously. The main problems of Palestinian women is that they keep silent and see the Arab man as a target they need to reach, they give them respect even when they shouldn’t and they are not willing to pay the price of challenge and revolution.

Being your brave mother a role model, according to this interview, if you had to make a film about a woman poet whom would you chose?

Great question! One of the persons I would choose to make a film on is Fadwa Tuqan, a Palestinian poet [Nablus, 1917-2003], that never married. Her point of view as a single woman in the Palestinian patriarchal society is unique.

Books by Darwish were recently banned as “blasphemous” and removed from the Riyadh International Book Fair. How do you explain this decision being Darwish a writer whose poems are taught in schools throughout the Arab world and who is seen as one of the most important poets in the Arabic language?

Mahmoud Darwish is very secular, that is why I identify with him. It is a sad decision of the book fair organizers but I don’t think it represents the Muslim world.

There always are and always will be extremists who see Mahmoud Darwish’s poetry as a threat. Did you know that Mahmoud Darwish’s poetry is banned in Israeli Schools?

Israel, as much as the Riyadh Book Fair people, is afraid from people such as Mahmoud Darwish for their influence on nations. I think that poetry can influence people as much as any religious book.

Identity Card

 

Write down!

I am an Arab

And my identity card number is fifty thousand

I have eight children

And the ninth will come after a summer

Will you be angry?

Write down!

I am an Arab

Employed with fellow workers at a quarry

I have eight children

I get them bread

Garments and books

from the rocks…

I do not supplicate charity at your doors

Nor do I belittle myself at the footsteps of your chamber

So will you be angry?

 

Write down!

I am an Arab

I have a name without a title

Patient in a country

Where people are enraged

My roots

Were entrenched before the birth of time

And before the opening of the eras

Before the pines, and the olive trees

And before the grass grew

My father… descends from the family of the plow

Not from a privileged class

And my grandfather… was a farmer

Neither well-bred, nor well-born!

Teaches me the pride of the sun

Before teaching me how to read

And my house is like a watchman’s hut

Made of branches and cane

Are you satisfied with my status?

I have a name without a title!

 

Write down!

I am an Arab

You have stolen the orchards of my ancestors

And the land which I cultivated

Along with my children

And you left nothing for us

Except for these rocks..

So will the State take them

As it has been said?!

Therefore!

 

Write down on the top of the first page:

I do not hate poeple

Nor do I encroach

But if I become hungry

The usurper’s flesh will be my food

Beware..

Beware..

Of my hunger

And my anger!

Israeli Premiere @ DocAviv Ibtisam Mra'ana, the director, and Tamar Ben-Ami, the Jewish lover of Mahmoud Darwish, before the 1967 war © Neta Lanzman

Israeli Premiere at the DocAviv festival: Ibtisam Mara’ana, the director of documentary Write Down, I am Arab, and Tamar Ben Ami, the Jewish lover of Mahmoud Darwish when they were both youngsters, before the 1967 war
© Neta Lanzman

Parts of this interview were included in a long article published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on June 21, 2014.

Uma oração no Vaticano, à espera de um milagre na Terra Santa

O Papa Francisco renova a influência política do Vaticano no Médio Oriente ao juntar, num jardim da Santa Sé, os presidentes de Israel e da Palestina.(Ler mais | Read More)

Mahmoud Abbas, Shimon Peres e o Papa Francisco, na reunião de oração nos jardins do Vaticano. © ANSA

O palestiniano Mahmoud Abbas, o israelita Shimon Peres e o Papa Francisco, na reunião de oração nos jardins do Vaticano
© ANSA

Dois ateus – o judeu Shimon Peres e o muçulmano Mahmoud Abbas – encontram-se [a 8 de Junho de 2014] com o chefe da Igreja Católica Romana, Papa Francisco, numa oração colectiva. Não é uma tentativa de mediação do conflito israelo-palestiniano, garantiu o porta-voz da Santa Sé, mas todos os analistas reconhecem o peso político desta prece no Domingo de Pentecostes.

O convite para a reunião inter-religiosa (que incluirá também a presença do patriarca ortodoxo de Constantinopla, Bartolomeu I, e de líderes espirituais da comunidade drusa) foi endereçado aos dois presidentes durante a primeira, e histórica, visita do Papa à Terra Santa, de 24 a 26 de Maio.

Francisco voltou a surpreender e marcar a diferença ao começar a viagem, de carácter oficial, no Reino da Jordânia, de onde partiu, de helicóptero, para Belém, na Cisjordânia ocupada.

As duas anteriores visitas papais começaram em Telavive; por isso, este gesto simbólico de dar a primazia a Mahmoud Abbas não passou despercebido.

“O facto de ele ter vindo da Jordânia directamente para Belém, sem passar por Israel, foi um reconhecimento tácito do Estado da Palestina”, disse ao diário britânico The Guardian a cristã Hanan Ashrawi, influente figura política palestiniana.

“Estado da Palestina” foi, aliás, uma expressão que o sucessor de Bento XVI usou, por diversas vezes, não apenas em Belém, cidade-berço do Cristianismo, onde foi acolhido por milhares de fiéis, vindos de vários países do Médio Oriente, mas também durante a sua passagem por território israelita. Esta incluiu igualmente paragens emblemáticas: o memorial às vítimas de terrorismo no Monte Herzl e o Museu do Holocausto de Yad Vashem.

O Papa Francisco, num momento de oração espontânea, junto ao muro – “de separação”, para uns, “do aparthteid” para outros – que separa Belém, na Cisjordânia, de Jerusalém
© The Guardian

A simpatia que o Papa demonstrou para com os palestinianos não foi ignorada pelo lado israelita, que tentou retirar qualquer carga política aos seus gestos. Um dos mais extraordinários foi uma paragem espontânea junto ao que uns chamam de “barreira de separação” e outros condenam como “muro do apartheid”.

Junto ao campo de refugiados de Dheisheh, rodeado de crianças sorridentes e guarda-costas israelitas melindrados com a reduzida protecção pedida pelo antigo cardeal argentino Bergoglio, este encostou a sua cabeça a uma parte do cimento armado, numa súplica silenciosa.

À sombra de uma torre de vigia militar israelita, os grafitti que alguém pintou foram também um rogo: “Papa, Belém é o gueto de Varsóvia. Papa, queremos justiça. Palestina Livre.”

E “justiça” foi o que mais impressionou o influente comentador Peter Beinart, judeu de dupla nacionalidade, americana e israelita. Na sua coluna semanal no diário Ha’aretz, escreveu ele: “O Papa Francisco pediu a Israel e aos palestinianos que procurassem ‘uma paz estável baseada na justiça, no reconhecimento dos direitos de cada indivíduo e na segurança mútua’. Tive de ler esta declaração duas vezes. ‘Uma paz estável’ é suficientemente familiar. O que me intrigou foi a palavra ‘justiça’.”

“É um termo que os políticos americanos e judeus raramente aplicam ao conflito israelo-palestiniano”, adiantou Beinart. “‘Paz’, segundo o Dicionário Merriam-Webster significa apenas ‘a ausência de guerra ou de conflito’ Não diz nada sobre as razões da ‘ausência de guerra ou de conflito’.”

“[O escritor] David Grossman quer acabar com “a guerra ou o conflito” entre o rio [Jordão] e o mar [Mediterrâneo] ajudando os Palestinianos a concretizar as suas aspirações de um Estado. [O ministro da Economia e líder da extrema-direita] Naftali Bennett, pelo contrário, quer acabar com a ‘guerra ou conflito’ forçando os Palestinianos a abandonar essas aspirações.”

“Se falarmos apenas de ‘paz’ e nunca de ‘justiça’, não temos de escolher entre as visões de Grossman e as de Bennett; é isso que têm feito muitos membros do Congresso e líderes judeus na América”, acrescentou Beinart, frustrado com o fracasso de quase um ano de esforços de mediação do chefe da diplomacia de Washington, John Kerry.

Meninas palestinianas passam por um mural com a cara do Papa Francisco no campo beduíno de Jabal al-Baba, próximo do colonato de M’ale Adumim, na Cisjordânia ocupada, nos arredores de Jerusalém, em 23 de Novembro de 2017
© Ahmad Gharabli | AFP

Uma solução de dois Estados, que moderados israelitas, como o político (ex-trabalhista) Avraham Burg, e palestinianos, como o filósofo Sari Nusseibeh, já consideram impossível, foi repetidamente defendida pelo Papa.

Francisco está preocupado com os cristãos do Médio Oriente: constituem apenas 2% na terra que viu nascer Jesus. Em 1948, quando foi criado Israel, ascendiam a cerca de 10%. Em Belém, representam agora um terço da população, mas já totalizaram 75%.

A preocupação papal (que João Paulo II, em 2000, e Bento XVI, em 2009, também já tinham manifestado) ficou expressa nas refeições partilhadas com várias famílias palestinianas no campo de Dheisheh. O Papa comoveu-se com o relato de dramas quotidianos, consequência do mais antigo projecto colonial – a ocupação israelita que dura desde a guerra de 1967.

O encontro de oração do Papa com Peres e Abbas tem lugar num jardim, para respeitar o preceito judaico de não rezar em templos com símbolos religiosos.

No regresso de Telavive a Roma, Francisco, que já havia realçado o “direito de existência de Israel em fronteiras reconhecidas internacionalmente” e “o direito de os palestinianos terem um Estado soberano”, afirmou que “seria uma loucura” da sua parte querer servir de intermediário político.

“É preciso muita coragem e eu rezo ao Senhor para que estes dois líderes, estes dois governos, tenham a coragem de avançar. É o único caminho para a paz.”

Ninguém minimiza o potencial político deste encontro, que poderá revitalizar a influência do Vaticano no Médio Oriente, mas poucos acreditam em milagres.

Durante a mediação de John Kerry, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu (rival de Peres) fez tudo para afrontar os aliados na Casa Branca, expandindo sem vergonha a rede de colonatos que transforma os territórios ocupados em guetos.

Terá sido, desta vez, uma espécie de  vingança pelo acordo entre os desavindos Fatah (que governa a Cisjordânia) e Hamas (que administrava a Faixa de Gaza) para formar um Governo de unidade nacional.

A gust of wind blows Pope Francis' mantle as he stands with Rabbi Shmuel Rabinovitch at the Western Wall © AP

Uma rajada de vento fez subir o manto do Papa Francisco tapando-lhe o rosto quando ele visitava, na companhia do rabi Shmuel Rabinovitch, o Muro Ocidental (ou das Lamentações), em Jerusalém, considerado um dos lugares mais sagrados do Judaísmo
© Associated Press (AP)

Peres, que nem sequer acredita em Deus, terminará o seu mandato em Julho próximo. [O  sucessor, eleito a 10 de Junho de 2014, foi Reuven “Ruby” Rivlin, membro do Partido Likud, de direita,  opositor de um Estado palestiniano mas defensor de direitos iguais para os dois povos]. Mas quem sabe? Ninguém imaginava que o argentino Francisco fosse capaz de enfrentar a poderosa Cúria Romana para a reformar, e é isso que ele tem estado a fazer.

Passagens da Torá, do Novo Testamento e do Alcorão serão lidas no Domingo de Pentecostes, uma data importante para os cristãos. Conta o livro dos Actos dos Apóstolos:

Quando chegou o dia do Pentecostes, encontravam-se todos reunidos no mesmo lugar. De repente, ressoou, vindo do céu, um som comparável ao de forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde eles se encontravam.

Viram então aparecer umas línguas, à maneira de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas […]

Ora, residiam em Jerusalém judeus piedosos provenientes de todas as nações […] a multidão reuniu-se e ficou estupefacta, pois cada um os ouvia falar na sua própria língua.

Atónitos e maravilhados, diziam: ‘Mas esses que estão a falar não são todos galileus? Que se passa, então, para que cada um de nós os oiça falar na nossa língua materna? Partos, Medos, Elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia Cirenaica, colonos de Roma, judeus e prosélitos, Cretenses e Árabes ouvimo-los anunciar, nas nossas línguas, as maravilhas de Deus!” [Actos dos Apóstolos 2, 1-11)]

Talvez o Papa Francisco acredite que só o Espírito Santo conseguirá que os seus convidados se entendam falando uma mesma língua.

Pope Francis (3rd R), Israeli President Shimon Peres (2nd R), Palestinian President Mahmoud Abbas (R) and Patriarch Bartholomaios I plant an olive tree during a peace invocation prayer at the Vatican Gardens on June 8, 2014 in Vatican City, Vatican. Pope Francis invited Israeli President Shimon Peres and Palestinian President Mahmoud Abbas to the encounter on May 25th during his brief but intense visit to the Holy Land. © Franco Origlia/Getty Images)

Francisco, Mahmoud Abbas,  Shimon Peres e Bartolomeu I plantam uma oliveira, durante a oração pela paz, nos jardins do Vaticano, em 8 de Junho de 2014
© Franco Origlia | Getty Images

Este artigo, agora com um título diferente e actualizado, foi publicado originalmente no blogue Religionline a 7 de Junho de 2014 | This article, now updated and under a different headline, was originally posted on the Portuguese website Religionline, June 7, 2014

De Goa para Caxemira: Pessoa e Saramago na biblioteca de um analfabeto

O indiano Latif Oata vive em permanente desassossego, tentando curar a cegueira da família, que lhe exige a venda a colectores de lixo de mais de 500 obras que ele não sabe ler, mas guarda como um tesouro. O primeiro emprego ensinou-o a “remar contra ventos e marés”. O primeiro livro inspirou-o a seguir “uma luz na escuridão”.  (Ler mais | Read more…)

© Cortesia de Majid Maqbool | Courtesy of Majid Maqbool

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Na loja de artesanato que alugara a um antigo patrão, em Goa, território indiano administrado pelos Portugueses durante 450 anos, Latif Oata recebeu, “por volta de 1990”, o seu primeiro livro.

Da autoria de um compatriota e oferta de uma turista britânica, cujos nomes não recorda, tem como heroína uma jovem pobre que transverte a seu favor um destino trágico.

Também não fixou o título, mas memorizou a história, quase autobiográfica. Pediu que lhe fosse contada. Não sabe ler nem escrever. E assim começou a Biblioteca do Viajante.

A colecção de Latif tem agora “uns 500 a 600 livros”, entre os quais dois de escritores portugueses: Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, e Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa/Bernardo Soares, nas versões em inglês (Blindness e The Book of Disquiet, respectivamente).

“Só os folheei, mas sei que um deles é de um Prémio Nobel [da Literatura 1998, Saramago]”, diz-nos Latif, numa entrevista por telefone, a partir da sua nova morada, nas margens do Lago Dal, no estado de Jammu e Caxemira.

“Entregaram-nos aqui”, refere o indiano, regozijando-se com o facto de os dadores serem oriundos de “diversos países, da América à Suécia”.

Esse contacto com estrangeiros faz com que este analfabeto fale “pelo menos sete línguas: hindi e caxemira [dois dos 450 idiomas e dialectos da Índia], inglês, alemão, francês, italiano, urdu… e até um pouco de pashto”.

Uma passagem dos fragmentos de Pessoa harmoniza com a narrativa de Latif: Todos têm, como eu, um coração exaltado e triste. Conheço-os bem: uns são moços de lojas, outros são empregados de escritório, outros são comerciantes de pequenos comércios. (…) Mas todos, coitados, são poetas, e arrastam a meus olhos, como eu aos olhos deles, a igual miséria da nossa comum incongruência. Têm todos, como eu, o futuro no passado. (Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Edição Richard Zenith, Obras de Fernando Pessoa/4, Ed. Assírio e Alvim, pp 92-93)

Sobre o primeiro livro, recebido em Goa e que já não é seu, “sem arrependimento”, exulta Latif: “Foi como se alguém tivesse recitado a minha própria vida. Gostava tanto de poder usar uma caneta e dar a conhecer este meu mundo de trevas, de ser também fonte de inspiração para outros”.

(Não presenciamos as lágrimas do homem que se expressa cortês e cândido, mas intuímos a emoção que, do outro lado da linha, o faz soluçar.)

“Já me desafiaram várias vezes, mas recuso vender as obras que fui reunindo – algumas são antiguidades, como a primeira edição, em capa dura, de Goldfinger [de Ian Flemming, autor de 007]”, explica Latif.

“Só empresto e troco. Quem quiser levar um livro tem de deixar uma caução de 200 rupias [pouco mais de dois euros]. Quando o vier devolver, receberá de volta o que pagou. Se me oferecer dois livros, dou-lhe um dos meus, como retribuição.”

A biblioteca funciona numa casa de madeira para onde Latif transferiu o que tinha na loja de Goa, e onde vive actualmente com a mulher e dois filhos, uma rapariga de 13 anos e um rapaz de 10. À entrada da porta principal, ele colocou uma placa: Reading is [to be] free. É uma frase com dois sentidos: “Ler é grátis” e “Ler é ser livre”, observa.

Em Jammu e Caxemira o ensino é gratuito, a todos os níveis, da primária à universidade. A taxa de literacia tem vindo a aumentar, de 55,52% em 2001 para 67,16% em 2011, segundo estatísticas oficiais mais recentes.

Permanece, porém, um fosso entre homens alfabetizados (mais de 7 milhões) e mulheres (menos de 3 milhões) numa população local superior a 12 milhões (aproximadamente 1% do total da Índia).

Perguntamos a Latif por que não retomou os estudos, interrompidos aos 10 anos, se os livros se tornaram no seu “tesouro”, agora aos 44. Ele responde: “Oh Madam, don’t make me cry…” (Oh senhora, não me faça chorar..).”

“Nunca tive qualquer apoio; não é fácil”, explica. “Talvez não saiba, mas a maioria das famílias indianas aqui só se interessa por dinheiro. Os meus pais e irmãos cortaram relações, quando recusei vender os livros ou deitá-los na lixeira.”

“A minha mulher, que é dona de casa, também não me compreende. Só os meus filhos se interessam, e farei tudo para que sigam um caminho diferente do meu.”

© Cortesia de Majid Maqbool | Courtesy of Majid Maqbool

© Cortesia de Majid Maqbool | Courtesy of Majid Maqbool

O primeiro emprego de Latif foi conduzir pequenas embarcações, “tipo táxis”, na Caxemira. “Era muito duro, mas creio que me ajudou a remar contra outros ventos e marés que depois apareceram”, afirma. Em 1987, mudou-se para Goa, onde trabalhou por conta de outrem, primeiro, e própria, depois.

Esteve uma década no estado onde a maior cidade se chama Vasco da Gama (o navegador que desembarcou em Calecute em 1498) e que a Índia anexou em 1961. “Ficava por lá dez meses por ano, até o calor se tornar insuportável e procurar o clima mais fresco no Vale de Caxemira” diz.

Em 1997, Latif instalou-se em Karnataka, capital e maior cidade de outro estado, o de Bangalore, no Sudoeste. Em 2007, assentou então em Srinagar, a “jóia da coroa” de Jammu e Caxemira, atraído pelo número crescente de turistas, por seu turno, cativados pela beleza cénica da “Veneza do Oriente”.

“Arrependo-me muito de ter deixado Goa, onde todos eram afáveis”, confessa o comerciante. “Em Caxemira, talvez, devido às tensões políticas e religiosas [quatro guerras entre a Índia e o Paquistão – 1947, 1965, 1971, 1999], há maior frieza e desconfiança. Sou indiano e muçulmano, mas acho que muitos muçulmanos têm medo de que os livros possam contaminar o Islão. Isso é ignorância.”

Ou cegueira, como Saramago retrata, no seu ensaio/metáfora, uma sociedade doente que se contagia e se deixa aprisionar num manicómio. É como se Latif representasse, de certo modo, a mulher do médico (um dos protagonistas), que não fecha os olhos e mantém a esperança.

O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos. (José Saramago, “Ensaio sobre a Cegueira”, Ed. Caminho/LeYa, p. 173.)

“Provavelmente, haverá quem me considere herege por um dos livros de que mais gostei ter sido O Código da Vinci, de Dan Brown”, revela Latif Oata, voz agora sorridente, ao telefone. “Apreciei aquela mistura de misticismo e conspiração.”

“Tenho muita pena de que família e outras pessoas na Caxemira não se interessem pela minha modesta biblioteca”, queixa-se. “Quando Majid [Maqbool] publicou o artigo no New York Times [Illiterate, but in Love With Books/”Analfabeto mas apaixonado por livros”, 10 Janeiro, 2014; ], alguns escritores indianos foram ter com o meu pai e disseram-lhe: ‘Você devia valorizar o seu filho; merece ser apoiado’.”

“Ele já tem 70 anos e manteve-se intransigente. Continuamos afastados, cada um para seu lado, sem qualquer contacto. Carrego uma grande tristeza.”

Mais do que o negócio de souvenirs, o que Latif aprecia mesmo, confessa, é juntar clientes numa sala, ao lado da biblioteca, escutando-os a historiar os livros, a maioria destes em inglês e em alemão, enquanto bebem chá.

Três amigos, um francês, um canadiano e um neo-zelandês, ajudaram-no a arrumar as prateleiras, abauladas com o peso, alinhando por ordem alfabética os nomes dos autores.

O “espaço sagrado” de Latif Oata está aberto das 9h00/10h00 às 21h00/22h00. “A primeira coisa que faço quando acordo e a última antes de me deitar é olhar para as cores nas estantes”, declara, no final desta entrevista. “I am a believer: there is a light in darkness (Sou um crente; há luz na escuridão.)”  

As coisas sonhadas só têm o lado de cá… Não se lhes pode ver o outro lado… Não se pode andar à roda delas… O mal das coisas da vida é que podemos ir olhando por todos os lados… As coisas de sonho só têm o lado que vemos… Têm uma só face, como as nossas almas. (“Livro do Desassossego”, p. 319)

© Cortesia de Majid Maqbool | Courtesy of Majid Maqbool

© Cortesia de Majid Maqbool | Courtesy of Majid Maqbool

Este artigo foi publicado originalmente na edição de Junho de 2014 da revista LER | This article was originally published in the Portuguese magazine LER, June 2014 edition

A alma do Irão lê-se nos poemas de Rumi

Um tweet desejando feliz Ano Novo aos judeus, uma conversa telefónica com Barack Obama e a vontade expressa de um acordo sobre o nuclear bastaram para que o novo Presidente iraniano, Hassan Rouhani, reconciliasse parte do mundo com a República Islâmica. Que país é este, isolado e demonizado desde que a teocracia derrubou a monarquia? Viajemos através de alguns livros, com a ajuda de dois académicos, Roy Mottahedeh, de Harvard, autor da obra de referência The Mantle of the Prophet, e Franklin Lewis, de Chicago, tradutor dos versos de um místico sufi do século XIII, venerado por milhões de Teerão a Washington. (Ler Mais | Read more…)

© Mohammad Reza Domiri Ganji | Business Insider

Roy Mottahedeh não se esquece de um “tempo maravilhoso na infância”, quando o avô lia, em voz alta, no jardim da casa da família, páginas do Shahnameh (“Rei dos Reis”), o épico de Ferdowsi. Mas se lhe perguntarmos qual o livro que melhor ajuda a compreender a antiga Pérsia e a actual República Islâmica do Irão, ele recomenda Masnavi.

Trata-se de um compêndio de versos de Jalal al-Din Rumi “profundamente permeado de significados e referências corânicas”, que este poeta do século XIII começou a escrever quando já tinha “entre 54 e 57 anos de idade.

A última história, composta em 1273, ano do seu óbito, ficou incompleta. O próprio Rumi descreve Masnavi como “as raízes das raízes das raízes da religião [o Islão].” (Masnavi, Livro I, Prefácio)*

“Ferdowsi enaltece a civilização e o heroísmo militar do Irão”, explica Mottahedeh, numa entrevista por telefone, a partir de Boston, onde é professor de História Islâmica na Universidade de Harvard. “Rumi é o poeta místico que todos os iranianos querem ser.”

“É um muçulmano profundamente religioso, e se há um poeta que pode ser evocado num sermão nas mesquitas é Rumi. Ele desperta nos iranianos uma nostalgia espiritual.”

Antes de pesar melhor o valor de Rumi, falemos de Roy Mottahedeh e da obra de referência, The Mantle of  the Prophet: Religion and Politics in Iran, elogiada pelo Wall Street Journal como “um tesouro admirável”, e dedicada à sua mãe, Mildred, que teve uma ligação profunda a Portugal.

Das maiores coleccionadoras de porcelana chinesa, Mildred Mottahedeh desenhou peças para a empresa Vista Alegre, algumas das quais foram usadas na Casa Branca e no Departamento de Estado norte-americano.

Roy Parviz Mottahedeh nasceu em Nova Iorque, em 1940. Formou-se em Harvard e em Cambridge (Inglaterra). Começou a ser professor em 1970, em Princeton, ano em que se doutorou.

Uma década depois, ganhou uma Bolsa Guggenheim que lhe permitiu escrever o primeiro livro, Loyalty and Leadership in an Early Islamic Society (“Lealdade e Liderança nos Primórdios da Sociedade Islâmica”, 1980).

Em 2000, recebeu a Bolsa MacArthur, conhecida como “Genius Grant”, para The Mantle of the Prophet, que foi publicado pela primeira vez em 2000, ano em que Mildred Mottahedeh morreu. O êxito pode ser medido, em parte, pelas reedições em 2002, 2004, 2005, 2007 e 2009.

Ainda que reconhecido como um dos mais importantes estudiosos do mundo islâmico, Roy não é muçulmano mas bahá’í. Ou seja, pertence à maior minoria religiosa do Irão de que Mildred Mottahedeh foi a primeira representante nas Nações Unidas.

© Mohammad Reza Domiri Ganji | Business Insider

“Sou um historiador e a História obriga-me a ser o mais fiel possível aos factos, mesmo quando estes têm um lado extremista e feio”, afirmou Mottahedeh, quando o inquirimos como conseguiu retratar a Revolução Islâmica de 1979 sem crítica às perseguições de que a sua comunidade tem sido vítima, só por acreditar num profeta, Bahá’u’llá (1817-1892), posterior a Maomé.

Na primeira década de teocracia, depois de o Ayatollah Ruhollah Khomeini ter derrubado o imperador Mohamad Reza Pahlavi, “mais de 200 fiéis foram mortos ou executados, centenas torturados e encarcerados” – entre eles os sete líderes, condenados a 20 anos de prisão, em 2008; “dezenas de milhares perderam empregos e acesso à educação e a outros direitos; casas e templos são assaltados e queimados.” **

The Mantle of the Prophet tem como objectivo, segundo Roy Mottahedeh, “mostrar a variedade e complexidade da cultura de uma nação com mais de dois milénios de história e ajudar a entender o que significa ser iraniano”.

No prefácio da edição mais recente, ele escreve (página 6 de um total de 424): “Muitos comentadores e leitores me pediram que avaliasse, agora, a Revolução Islâmica de 1979. A melhor resposta que tenho para dar são algumas palavras do grande [Lord Thomas Babington] Macaulay, em 1835.”

“Dividido entre a simpatia pelas aspirações progressistas da Revolução Francesa de 1789 e o horror face a esse período de sacrifício sangrento, ele constatou a dificuldade de observadores imparciais julgarem um acontecimento tão complexo e, simultaneamente, tão perturbador:

Um viajante encanta-se por uma baga que nunca antes vira. Prova-a, repara que é doce e refrescante. Elogia-a e resolve introduzi-la no seu país. Em poucos minutos, porém, fica gravemente doente; em convulsão; à beira da morte.

É claro que muda de opinião; declara que o fruto delicioso é veneno, culpa a sua loucura por o ter provado e alerta os amigos para não seguirem o seu exemplo. Depois de uma luta longa e violenta, ele recupera, mas livre das queixas crónicas que atormentavam a sua vida.

Muda novamente de opinião, e afirma que o fruto é um remédio potente, mas que só deve ser prescrito em casos extremos e com grande cautela, embora não deva ser excluído, de todo, da Pharmacopeia.

A história em que The Mantle of the Prophet se baseia é verídica. “Na Primavera de 1978, um professor da Universidade de Teerão veio visitar-me a Princeton”, conta o autor. “Ela estudara durante muitos anos em seminários na cidade-santuário de Qom onde se ensina a doutrina xiita tradicional. Depois, interessou-se por uma educação secular.”

“Perguntei-lhe como é que alguém se torna mullah. Ele explicou que se começa por aprender gramática, retórica e lógica. A partir daí, tive a certeza de que queria escrever este livro.”

© Mohammad Reza Domiri Ganji | Business Insider

Os dois anos seguintes foram passados por Roy Mottahedeh a avaliar os currículos dos mullahs, no Irão e também no Iraque, onde a maioria da população é xiita.

O protagonista do seu livro, “Ali Hashemi”, existe mas pediu para manter o anonimato, o que foi cumprido. “Tenho a consciência de que não agradei a todos os iranianos”, reconhece o autor.

“Uns vão achar que a descrição do mullah não é suficientemente respeitadora, porque ele sente dúvidas e muda de posições, o que não é próprio de um homem religioso; outros vão achar que é um retrato demasiado reverencial já, que tendo frequentado uma escola laica e com ideias liberais, ele não é um teólogo típico.”

“Ambas as partes têm razão, mas não era minha intenção fornecer o arquétipo de um mullah e, em boa consciência, não podia fazer isso como historiador.”

Ali Hashemi é um sayyed (descendente de Maomé), formado em Qom, onde o pregador mais famoso era Khomeini, que instituiu o conceito de velayat-e faqhi (governo do jurista), deitando por terra séculos de tradição xiita duodecimana, segundo a qual “todo o governo na ausência do 12º imã é profano”, negando com isso a legitimidade do rei.

Aos 36 anos, Ali Hashemi sente-se “surpreendentemente apreensivo quanto ao futuro”, quando o velho teólogo exilado em França regressa, vitorioso, para destronar o imperador.

É como se o protagonista tivesse uma dupla personalidade, caracterizada pelas palavras andaruni e birun – o espaço interior e exterior, respectivamente, das casas persas.

O bazar e a mesquita – centros de poder – são lugares estranhos e familiares. Por exemplo, ele gosta de música, o que o afasta dos conservadores que a proíbem.

Admira o seu professor Davudi, um bahá’í que o fez conhecer o pensamento de Aristóteles, mas é incapaz de o defender e impedir que seja preso pelos revolucionários, mesmo que, para ele, eles “tenham quebrado um código de honra”.

Esta ambiguidade na figura de um mullah permite que o leitor (re)descubra a humanidade de um país que muitos associam apenas ao sequestro dos funcionários da Embaixada dos EUA em Teerão, a chamada “crise dos reféns”, em 1979; à fatwa que condenou Salman Rushdie à morte após a publicação de Os Versículos Satânicos; ou ao messiânico antigo Presidente Mahmoud Ahmadinejad, que negava o Holocausto e acelerou o programa de enriquecimento de urânio.

© Mohammad Reza Domiri Ganji | Business Insider

Com a eleição de Hassan Rouhani, um teólogo “pragmático” que reprova as políticas do seu antecessor e tem contado com a bênção de Ali Khamenei, Supremo Líder, o académico Roy Mottahedeh confessa que está “esperançoso”.

Quando escreveu The Mantle of the Prophet, “tinha a certeza de que a flexibilidade seria impossível nos primeiros anos da revolução, mas não imaginava que haveria uma tão grande rigidez no regime”.

Hoje, ao saber que “milhares e milhares de pessoas e não apenas iranianos” visitaram uma exposição do British Museum que percorreu vários estados da América, The Cyrus Cylinder and Ancien Beginning, Mottahedeh reafirma o alento.

O Cilindro de Ciro é considerado “a primeira carta de direitos humanos do mundo”. Garante liberdade e protecção a todos os cidadãos, independentemente das suas origens e crenças. O texto, inscrito por ordem do primeiro rei aqueménida, foi encontrado durante escavações arqueológicas, em 1879, na antiga Babilónia.

O apelo de Ciro I é assim justificado Mottahedeh: “Os iranianos, cansados de uma longa guerra com o Iraque [1980-88] e de penosas sanções económicas internacionais, estão conscientes da grandeza da sua História e aspiram a um retorno aos ideais progressistas. Eu confio em que, dentro de uns 60 anos, haverá uma separação entre religião e Estado.”

“Para isso é necessário que os pensadores se organizem. Abdolkarim Soroush, por exemplo, foi um filósofo influente sob a presidência de Mohammad Khatami, porque recusava uma religião de Estado, mas depois sentiu-se forçado a abandonar o país”, para os EUA.

“Os mullahs ultraconservadores não gostavam de Soroush, porque é um muçulmano sufi que, segundo eles, ameaça as tradições xiitas”, explicou Mottahedeh, que esteve mais vezes em Portugal, a acompanhar a mãe em negócios, do que no Irão, que o pai trocou pela América, aos 24 anos. “Só lá fui no tempo do Xá [Mohammad Reza] e de Khatami, e não mais voltei.”

Soroush, licenciado em Farmácia e em História e Filosofia da Ciência, tem apenas uma obra publicada em inglês, Reason, Freedom and Democracy in Islam. Foi professor convidado em várias universidades americanas (Berkeley, Harvard, Princeton e Yale. A revista TIME colocou-o, em 2005, na lista das 100 personalidades mais influentes.

Com uma educação religiosa e secular – à semelhança de Ali Hashemi, o protagonista do livro de Mottahedeh –, Soroush é um discípulo de Rumi – “o poeta que combina a alma persa e a alma islâmica do Irão”.

Da Universidade de Chicago, onde é professor associado de Línguas e Civilizações do Próximo Oriente, Franklin Lewis explica, numa entrevista por e-mail, por que é que o objecto de um do seus livros, Rumi – Past and Present, East and West: The Life, Teachings and Poetry of Jalal al-Din Rumi (2007), desempenha um papel central na formação e expressão da identidade iraniana.

© Mohammad Reza Domiri Ganji | Business Insider

“Rumi citou e traduziu alguns milhares de versículos corânicos nos seus poemas, o que é difícil, uma vez que o Corão não se conforma com as exigências da métrica poética persa.”

“A sua poesia, e sobretudo o Masnavi, também foi crucial ao formular, com versos memoráveis, uma certa maneira de entender o Islão. É por isso que o Masnavi tem sido descrito por quem o estuda como “o Corão da língua persa”.

“Rumi, que era um muçulmano sunita e gravitou para uma interpretação sufi do Islão, não tem sido bem aceite  por todos os iranianos, que são maioritariamente xiitas”, refere Lewis.

“No entanto, o modo como Rumi entende o Islão é espiritual, com menos ênfase na lei religiosa, com a crença assente no amor a Deus e aos santos, do que num conhecimento religioso específico ou dogma.”

“Boas intenções, graça divina e aspectos da religião que o mundo moderno considera inclusivos e ecuménicos e não rigidamente definidos pela doutrina são atraentes.”

“A Ordem Mevlevi (Mawlaviyya), frequentemente designada por Dervixes Rodopiantes – a linhagem sufi que se estabeleceu à volta dos ensinamentos e práticas de Jalal al-Din Rum – estava bem consolidada no Mediterrâneo Oriental, durante o Império Otomano”, indica Lewis.

“Não era, porém, muito activa no Irão, por isso, o amor pelos poemas de Rumi não corresponde à filiação em nenhuma ordem sufi específica. A devoção não é organizada. A poesia de Rumi no Irão é mais um meio de olhar para o mundo e de relacionamento com o mundo do que uma série de rituais e práticas.

Rumi é tão popular e goza de reputação tão elevada como uma figura de reverência do misticismo que há citações que lhe são atribuídas mas não são dele, como este poema, traduzido há mais de 100 anos por Reynold Nicholson, um estudioso de Rumi:

-“I am neither Christian, nor Jewish, nor Muslim /I am not of the East, nor of the West…/ I have put duality away, I have seen the two worlds as one; / One I seek, One I know, One I see, One I call.” (Divan-I Shams-I Tabriz, II).

Crê-se agora que, talvez, pertença a um dos seguidores da ordem de Mevlevi.”

Lewis, autor também de Rumi: Swallowing the Sun (2008), que inclui “alguns poemas organizados em 13 categorias temáticas ou conceitos (sobre fé e observância, de discípulo para mestre, de mestre para discípulo, de sonhos e visões, sobre o nascer da alma, etc), destaca que são dezenas as traduções, versões e interpretações de Rumi publicadas – algumas desde o século XIX e outras dos séculos XX e XXI.

“As traduções em inglês foram feitas por britânicos, a partir do persa, mas o interesse maior em Rumi começou depois de a UNESCO ter comemorado, em 1973, o 700º aniversário da morte de Rumi, assim como depois da visita a São Francisco (EUA) de um professor sufi ligado à ordem de  Mevlevi na Turquia otomana antes de as ordens sufis terem sido ilegalizadas pela República Turca.”

“Isto gerou um grande interesse em Rumi por parte de poetas norte-americanos como Robert Duncan, Robert Bly e Coleman Barks [este último, juntamente com John Moyne, assina The Essencial Rumi] nenhum dos quais aprendeu persa ou árabe, línguas da escrita de Rumi”, observou Lewis.

“Serviram-se de traduções antigas que não eram poéticas, ou trabalharam com indivíduos que sabiam persa ou lhes traduziam  para inglês, a partir de traduções turcas, fornecendo um significado em segunda ou terceira mão. Estas versões populares representam uma nova era americanizada de Rumi que ignora a base islâmica do seu pensamento e praxis.”

© Mohammad Reza Domiri Ganji | Business Insider

Embora os iranianos reclamem Rumi como seu, Lewis chama a atenção para o facto de muitos  dizerem que o poeta era “afegão” porque supunham que nascera em Balkh.

Sabe-se agora que provém de Vakhsh [actual Tajiquistão] e que viveu em Samarcanda enquanto criança. “Talvez seja mais correcto dizermos que é oriundo da Ásia Central”, aconselha o académico, para quem “é um anacronismo pensar em Rumi como pertencendo à religião e cultura do estado moderno do Irão, ou como parte dos iranianos e tajiques.”

“Rumi era de uma região poliglota e multiétnica do mundo: a Ásia Central, onde o persa era a lingua franca, mas onde se misturavam persas, árabes,  turcos, mongóis no que é hoje a China”, prossegue Lewis. “Depois, a sua família mudou-se da pequena vila de  Vakhsh para a Anatólia, onde os turcos se haviam recentemente instalado.”

“No entanto arménios, gregos e georgianos ainda conviviam com imigrantes de origem persa e árabe. Foi aqui que Rumi viveu a maior parte do seu tempo, desde a  adolescência, excepto quando foi estudar para a Síria, de expressão árabe (também escreveu alguns poemas em árabe, o que não era comum em poetas persas do século XIII).”

“É natural que falar persa tenha sido parte da identidade de Rumi”, segundo Lewis, “tal como era a tradição sufi e islâmica de Khorasan – na Grande Pérsia, que incluía partes do que é hoje  o Uzbequistão, o Tajiquistão, o Afeganistão, o Turquemenistão e o  Irão.”

“Uma vez que o Irão moderno tem a maior concentração de falantes de persa em todo o mundo, não é de estranhar que os cidadãos do moderno Estado iraniano o considerem um filho da pátria, podendo dizer-se o mesmo dos falantes de persa no Tajiquistão ou no Afeganistão (onde a sua efígie era impressa em selos de correio), no Uzbequistão ou no Turquemenistão.

“É, seguramente, motivo de orgulho para muitos iranianos, afegãos e tajiques que Rumi seja amado e respeitado por todo o mundo, sobretudo nos países de expressão inglesa”, realça Lewis.

“Parte das passagens inclusivas das suas obras podem servir de ponte – nos Estados Unidos alguma frases atribuídas a Rumi foram publicadas no jornal The New York Times, há cerca de uma década, como um argumento a favor de uma reaproximação entre Washington e a República Islâmica do Irão.”

No pedestal dos seus heróis, os iranianos não colocam apenas Rumi mas também Ferdowsi (ou Firdawsi ou Ferdusi). Pseudónimo de Abdul Qassim Mandur, nasceu em 940, próximo de Mashdad, no Nordeste do Irão. Seria um latifundiário que aceitou escrever um poema épico, encomendado pelo sultão Mahmoud, de Ghazan, para poder pagar o dote da sua filha única.

Demorou 35 anos a compor Shâ Nâmâ ou Shahnameh (“Livro dos Reis”), 60 mil linhas que narram mil anos de história, dos Aqueménidas aos Sassânidas. Ferdowsi foi pago em prata, transportada em 30 cavalos, e não com ouro como combinado, porque o sultão ficou furioso por não ter ser o único protagonista.

Para muitos iranianos, Shâ Nâmâ é, juntamente, com Persépolis (a cidade), um símbolo da sua identidade, celebração da grandeza mas também evocação das derrotas infligidas pelos invasores.

O xiita Ferdowsi perdoou Alexandre, O Grande, mas não “esses árabes incivilizados que vieram forçar-me a ser muçulmano”.

O “maior poeta iraniano”, que “recriou o persa – a mais bela das línguas”, morreu em 1020. Está enterrado junto à fronteira com o Turquemenistão. No monumento erguido em sua memória foi inscrita a frase. “Que este corpo não viva se não existir o Irão”.

Um dos livros recomendados por Roy Mottahedeh é Shahnameh:  The Persian Book of Kings, traduzido por  Dick Davis. A belíssima edição ilustrada oferece um “bom resumo do épico nacional persa, escrito há mais de 2000 anos e traduzido por um poeta moderno britânico.”

“Ferdowsi narra a história mítica e lendária do Irão pré-islâmico na Pérsia moderna, e essa linguagem poética mantém-se mais ou menos inalterada desde o século X”, analisou Franklin Lewis. “Foi nesta altura que ele começou a registar as lendas que conta, construindo as tradições preservadas desde o Império Sassânida na Média Pérsia.”

“Descreve também o pensamento e os conflitos internos de reis, dos seus filhos e de grandes guerreiros, conta muitas histórias de amor mas também de batalhas contra demónios e campões sobre-humanos, embora em tudo esteja sempre presente a tragédia.”

Roy Mottahedeh

Franklin Lewis

Lewis revela que episódios de Shahnameh, “obra extraordinariamente rica e dramática”, são recitados em cafés e ginásios iranianos, os chamados Zur-khaneh. Os iranianos também inscrevem os seus poemas nas lápides das sepulturas. “Algumas histórias de O Livro dos Reis decorrem no Afeganistão e outras na Ásia Central, assim como em territórios árabes, portanto, reflectem o império transnacional do antigo Irão.”

Outro poeta venerado é Sa’adi, do século XIII, contemporâneo de Rumi, mas residente de Shiraz, ainda hoje uma das principais cidades do Irão moderno.

“É famoso pela sua “simplicidade inimitável”, expressões proverbiais e sentido de humor – qualidades altamente valorizadas na cultura iraniana”, notou Lewis. “Era também muito apreciado por Voltaire, na Europa, e por Benjamin Franklin, um dos pais fundadores dos EUA.”

Em Science of Love, com tradução de Makan Rohi, podemos encontrar Sa’adi, mas também Attar e Hafez – que Lewis define como “o génio lírico da língua persa (adorado por Keats, Shelley e Yeats), sufi e antinomiano que se insurge contra a piedade fraudulenta, libertino, m activista político, humanista.

Hafez (ou Hafiz), traduzido por Gertrude Bell – escritora, arqueóloga, viajante e agente de espionagem britânica –  em The Garden of Heaven, é uma das sugestões de Roy Mottahedeh. Ele considera que esta tradução livre oferece ao leitor “uma agradável entoação poética”.

Apesar da sua grandeza, Hafez/Hafiz não conseguiu ser tão famoso quanto Omar Khayyam. Este filósofo, geógrafo, matemático, astrónomo e poeta que, segundo Franklin Lewis, “acreditava na apreciação epicurista do aqui e do agora, não a do além”, viu a sua fama disparar depois de uma tradução bem sucedida, para inglês, da autoria de Edward FitzGerald, das suas quadras (Rubáiyát).

Vale a pena adquirir The Illustrated Rubaiyat of Omar Khayyam: Special Edition, com as ilustrações esplendorosas de Edmund Dolac e design de Don Diego.

De todos estes poetas nenhum se compara a Rumi, na opinião de Franklin Lewis,  porque “é a epítome do espírito místico, em persa.” Numa série de artigos publicados no diário britânico The Guardian, o professor de Chicago destacou a admiração  de Hegel, Martin Buber, Gurdjieff, Dag Hammarskjöld, Erich Fromm, e outros.

Perguntámos-lhe como explica este fascínio e esta foi a resposta: “Rumi é verdadeiramente admirável – ele vê um universo vivo pleno de sinais de divindade e, para ele, a divindade é, simultaneamente, fabulosa e majestosa, mas também a definição do próprio amor. Rumi é ainda um observador atento das dinâmicas sociais e, por vezes, pode ser bem-humorado sobre as motivações e fraquezas humanas.”

“Embora se integre firmemente na tradição islâmica sufi, e assuma que o Islão é a última e mais completa forma de revelação divina à Humanidade, no que toca à doutrina prefere a complexidade e a flexibilidade situacional, até mesmo a ambiguidade, do que o dogma.”

“De uma perspectiva moderna sobre religião e espiritualidade, isto é muito atraente, e se compararmos o que Rumi ensina no Masnavi com, digamos, contemporâneos como Dante, em A Divina Comédia, o retrato que emerge é mais moderno, ecuménico e verdadeiro.

© Mohammad Reza Domiri Ganji | Business Insider

Religion is furthermore about remembering human beings as all divinely touched, if we can

only feel and remember that innate spiritual connection:

We all were parts of Adam at one time

In paradise we all have heard these tunes

Though clay and water fill us up with doubts

We still remember something of those songs

(Masnavi 736-7)

A ler em português

Ahmad Shamloo é um poeta amado pelos iranianos. Os seus versos Strange times my Dear (em inglês) inspiraram a antologia que, em Portugal, foi publicada (apenas a prosa) como Um escritor bom é um escritor morto

Um Bom Escritor é um Escritor Morto

Esta é uma antologia dos melhores contos e excertos de romances escritos dentro e fora do Irão desde a Revolução Islâmica de 1979.  Em inglês, a obra publicada pela Nova Vega mereceu o título de Strange Times, My Dear, versos de In this blind alley, homenagem ao autor, Ahmad Shamloo, um dos maiores poetas contemporâneos iranianos, que ficou de fora da  edição portuguesa porque esta inclui apenas prosa. 

IN THIS BLIND ALLEY

They smell your mouth

Lest you’ve told someone ‘I love you.’

They smell your heart

These are strange times, my dear

Love,

they drag out under lampposts

to thrash.

Love must be hid in closets at home.

In the cold of this blind alley

They keep their fires ablaze

burning our anthems and poems.

Do not venture to think.

These are strange times, my dear

 

He who pounds on the door in the nighttime

Has come to kill the light.

Light must be hid in closets at home.

Lo! the butchers

stationed on roads

with chopping-board and cleaver soaked in blood

These are strange times, my dear

They slit smiles off of lips

And song from the throat.

Joy must be hid in closets at home.

Canaries are being roasted

on a spit of lilacs and jasmine

These are strange times, my dear

Satan, triumph-drunk

Feasts at a table spread with our mourning

God must be hid in closets at home.

(Autor: Ahmad Shamloo |Tradutor: Saya Ovaisy | Fonte: PBS Frontline)

Trata-se, apesar da ausência de Shamloo, de uma colectânea excepcional de Nahid Mozzafari, doutorada em Estudos do Médio Oriente pela Universidade de Harvard. Aqui encontramos homens e mulheres, como Simin Daneshvar, a primeira romancista iraniana, que morreu recentemente em Teerão, ou Nasim Khaksar, exilado na Holanda.

Os dois incluem-se num primeiro grupo, onde também estão Mahmoud Dowlatabadi (que escreveu The Colonel “O Coronel”), já traduzido para várias línguas, mas ainda na gaveta do censor na edição original em persa) e Iraj Pezeshkzad (autor de uma obra presente em todas as casas iranianas, My Oncle Napoleon (“O Meu Tio Napoleão).

Os seus temas incidem sobre “poder e corrupção, diferenças de classe ou incerteza de identidade, alienação e fraquezas dos intelectuais”.

Num segundo grupo, o dos que “começaram a escrever, publicar e a ser lidos depois da revolução”, Nahid Mozzafari incluiu Reza Daneshvar, Farkondeh Aghai, Aashgar Abdollahi, Seyyed Ebrahim Nabavi (duas vezes detido por a sua sátira “ser demasiado satírica”), Shahriyar Mandanipur, Ghazi Rabihavi e Goli Taraghi. Este é o grupo dos mais jovens, os que abordam questões novas e velhos tabus.

Shirin Ebadi, Prémio Nobel da Paz 2003, a advogada que foi a primeira mulher juíza no Irão (cargo que a Revolução islâmica baniu) tem dois livros notáveis publicados em português: A Gaiola de Ouro (Ed. Esfera dos Livros) e O Despertar do Irão: Memórias da Revolução e da Esperança (Ed. Guerra e Paz)

A Gaiola de Ouro – Três irmãos no pesadelo da revolução iraniana

Depois de lerem A Gaiola de Ouro (Ed. Esfera dos Livros), diz-me a autora, Shirin Ebadi, “vão compreender as razões por detrás da fúria do povo contra o governo, e porque milhões de iranianos foram para as ruas protestar” contra Mahmoud Ahmadinejad.

A ira popular “não foi motivada apenas pelas eleições [de 2009] mas pelo que se passa neste país nos últimos 30 anos”, acrescentou a advogada que recebeu o Prémio Nobel da Paz em 2003.

O livro de Shirin Ebadi, proibido no Irão, só podia começar no cemitério de Khavaran, onde o regime dos mullahs enterra os seus “traidores”.

Não é difícil de imaginar que as valas comuns neste lugar onde os mortos não têm nomes, nem campas nem flores tenham voltado a encher-se nos últimos dias de repressão. Assim como se voltaram a encher as prisões e as celas de isolamento ou de “tortura branca”.

Os destinos de Abbas, de Javad e de Ali foram funestos. Javad, por exemplo, saiu da infame prisão de Evin para Kharavan. Queriam forçá-lo à humilhação de passar pela “rampa do arrependimento”, mas ele manteve-se fiel às suas convicções. Militante do Tudeh, o partido comunista que ajudou Khomeini a derrubar o Xá Mohammad Reza Pahlavi para depois ser aniquilado pela Revolução Islâmica.

Ninguém ficará também indiferente ao fim trágico de Abbas, um general tão leal ao imperador que, quando este se exilou, tudo à sua volta ruiu.

A viver nos EUA sem poder regressar, Abbas perdeu os bens, confiscados no Irão, perdeu a mulher, que morreu de cancro, e perdeu a vida. Suicidou-se ao descobrir o segredo do filho mais querido.

Inesquecível é igualmente a figura de Ali, o irmão mais novo de Abbas e de Javad. Fiel devoto de Khomeini, apercebe-se de como o regime traiu as suas promessas, quando vai trabalhar para os serviços de segurança depois de a sua mulher e único filho terem sido mortos durante a guerra com o Iraque.

Pediu asilo político à França, mas como ele próprio dissera quando era um “revolucionário”, para justificar os condenados e os executados em nome de Deus: “A República Islâmica não faz nada sem uma razão”. A brutalidade com que o mataram impressiona.

Finalmente, temos Pari, a irmã de Abbas, de Javad e de Ali. Médica e professora universitária, resistiu a não deixar o país, mas que podia fazer depois de ter sido despedida e de o seu consultório ter sido completamente vandalizado (em cima da secretária colocaram a cabeça cortada de um cão, estilhaçaram vidros, rasgaram cortinas, danificaram instrumentos, pisaram comprimidos, espremeram tubos de pomada pelos móveis e pelo cão, queimaram o certificado de licenciatura? (pp 207 e 208).

Foi Pari, destroçada com o seu drama familiar, que pediu à melhor amiga, Shrin Ebadi, um livro em memória dos três homens para quem a “gaiola de ouro” nunca se abriu.

Em português, Shirin Ebadi tem também publicado O Despertar do Irão: Memórias da Revolução e da Esperança (Ed. Guerra e Paz), o relato da sua própria luta pelos direitos humanos.

Mohammad Mossadegh, o primeiro-ministro nacionalista que a CIA derrubou, é o protagonista de Os Homens do Xá, de Stephen Kinzer

Os Homens do Xá – O Golpe no Irão e as Origens do Terrorismo no Médio Oriente 

Em 1979, quando estudantes iranianos ocuparam a Embaixada dos EUA em Teerão, muitos norte-americanos interrogaram-se: “Por que nos odeiam eles?”

A resposta está em Os Homens do Xá – O Golpe no Irão e as Origens do Terrorismo no Médio Oriente (ED. Tinta da China), um livro de Stephen Kinzer, que acaba de publicar mais uma obra a merecer elogios: The Brothers, sobre os irmãos Dulles. John Foster e Allen Dulles, figuras influentes da política e dos serviços secretos norte-americanos, no auge da Guerra Fria,  anos 1950.

Em Os Homens do Xá, Kinzer escreve que a democracia chegou ao Irão, em Dezembro de 1891, no dia em que as mulheres do Xá Nasir al-Din, da Dinastia Qajar, “puseram de lado os seus cachimbos de água e juraram que não fumavam mais”. Era um duro sacrifício, porque o tabaco se tornara num dos “maiores prazeres da vida num harém”.

Mas o que é que esta rebeldia tem a ver com o golpe da CIA que, em 1953, derrubou o primeiro-ministro, Mohammad Mossadegh? Teve uma grande influência, porque a “greve” das odaliscas abalou a monarquia absoluta e abriu o caminho do poder aos democratas nacionalistas  que depois desafiaram ingleses e americanos.

O harém de Nasir al-Din, pai de centenas de príncipes, chegou a totalizar umas 600 pessoas, entre mulheres, concubinas e eunucos, disse-me Kinzer, em entrevista. O tirano que ostentava títulos como “Sombra de Deus na Terra” e era capaz de enterrar vivos os súbditos adorava viajar pela Europa com o seu séquito.

Quando o tesouro do império se tornou pequeno para as suas extravagâncias começou a vender património a companhias e governos estrangeiros. Os britânicos foram dos primeiros “clientes”, e o que teve direito “à mais espantosa de todas as concessões” foi o barão, de origem alemã, Julius de Reuter, já famoso no mundo das agencies noticiosas.

Em 1972, refere Kinzer, “por uma soma insignificante”, Reuter ganhou “o direito exclusivo de gerir as indústrias do país, de irrigar as suas terras de cultivo, explorar os seus recursos minerais, desenvolver as linhas ferroviárias e dos eléctricos, fundar um banco nacional e imprimir o seu papel-moeda (…) – ‘a mais completa entrega de todos os recursos industriais de um reino em mãos estrangeiras alguma vez sonhada e nunca antes levada a cabo na história’.”

Os iranianos sentiram-se ultrajados. A Rússia ficou “alarmada por uma companhia britânica adquirir tanto poder logo do outro lado da sua fronteira” e até as autoridades de Londres, que Reuter não consultara previamente questionaram a “sensatez do acto”.

O Xá Nasir al-Din revogou a concessão, menos de um ano depois de a ter atribuído, quando tomou consciência da sua leviandade. No entanto, como continuava a esbanjar riqueza, voltou a vender mais património, tornando o Irão cada vez mais pobre e dependente.

Em 1891, com os Qajar ainda mais endividados, a indústria tabaqueira iraniana foi comprada, por 15 mil libras, pela British Imperial Tobacco Company, que detinha o exclusivo da compra aos produtores e da venda a retalho.

Foi então que uma coligação de  intelectuais, agricultures, comerciantes e líderes religiosos se uniu num protesto sem precedentes.

Quando o xeque Xirazi, a mais alta autoridade religiosa emitiu uma fatwa (édito) decretando que fumar constituía “uma desobediência ao 12º Imã”, enquanto os estrangeiros controlassem este negócio, todos aderiram, até as mulheres do Xá.

A concessão foi anulada mas, suprema humilhação, Nasir al-Din teve de pedir um empréstimo de meio milhão de libras à British Imperial para… a indemnizar.

Kinzer salienta que a “Revolução do Tabaco” marcou o “fim do absolutismo” e o “início de uma nova era política”.

© Mohammad Reza Domiri Ganji | Business Insider

Este artigo, agora revisto e actualizado, foi publicado originalmente na edição de Fevereiro de 2014 da revista LER | This article, now revised and updated, was originally published in the Portuguese magazine LER, February 2014 edition

Rumi and the soul of Iran

The Unites States and the Islamic Republic of Iran are involved in historical diplomatic negotiations for the first time since 1979. How can we better understand a nation where the verses of a sufi poet are as much venerated as the verses of the Koran? We asked Franklin Lewis, an expert on Rumi – the founder of the Mevelevi Order who is loved from Tehran to Washington. (Read more…)

Picturesque mosque underneath volcano Damavand, highest peak in Iran
©Michal Knitl | Shutterstock | theculturetrip.com

Franklin Lewis teaches courses on Persian literature and language, medieval Islamic thought, Islamic mysticism, Iranian cinema, translation history, and comparative literature, and ism the current Director of Graduate Studies for the Medieval and Modern programs in NELC.

He serves as Deputy Director of the Center for Middle Eastern Studies at the University of Chicago, as well as President of the American Institute of Iranian Studies. From 1997-2005 I taught at Emory University in the Department of Middle Eastern and South Asian Studies.

Lewis is also the author of Rumi: Past and Present, East and WestThe Life Teachings and Poetry of Jalâl al-Din Rumi. (Oxford: One World Publications). This monumental book, originally published in 2000, was reprinted several times and with a revised and expanded 2007 edition.

It was the object of several awards: British Society for Middle Eastern Studies, British-Kuwaiti Friendship Society for the Best Book in Middle Eastern Studies published in the UK in 2000; Encyclopædia Iranica Foundation, 2001 and Saidi-Sirjani Award (Hon. Mention), Society of Iranian Studies, 2004.

People walking through Stars Valley. Mountain range at Qeshm Island, Iran
© SJ Travel Photo and Video | Shutterstock | theculturetrip.com

All over the world people are quoting poems or verses attributed to Rumi. Jews, Christians, Muslims, Buddhists, and even agnostics or/and atheists look at this mystical figure with reverence, as a source of inspiration, almost like a divinity. Yet, nobody relates him to the Islamic Republic of Iran, to its theology of confrontation. Some don’t even relate him to Islam, as this article suggests. Why is Rumi important to understand the Persian and the Islamic soul of Iran?

Rumi is not the only poet, or even necessarily the primary one, to play a central role in shaping or expressing “Iranian identity” or Persian Islam. But he does have a special role in expressing Islamic stories and spirituality, and has quoted or translated a few thousand verses of the Qur’an in his poems (especially in the “Masnavi“), which is a difficult feat, since the Qur’an does not conform to the requirements of Persian poetic meter.

Also, Rumi’s poetry, especially the “Masnavi”, plays a major role in formulating in memorable and often beautiful verse, a certain mode of understanding the Qur’an and of Islam.  This is why commentators on Rumi’s Masnavi have called it the “Qur’an in  the Persian tongue.”

Why do Iranians, religious and non-religious, find him a source of union and not of division?

Rumi, who was brought up a Sunni Muslim, and gravitated toward a Sufi understanding of Islam, has not always been accepted by all Iranians, who are mostly Shi’ite Muslims.

In the 19th and early 20th century, there were some Iranian Shi’ite who did not have a favorable attitude toward Rumi because of his Sufi orientation and his Sunni background.

But Rumi’s approach to understanding Islam is a spiritual one, grounded less in religious law, with belief consisting in love of God and the saints more than in specific religious knowledge or dogma.  Good intention, divine grace, and those aspects of religion which the modern world thinks of as inclusive or ecumenical and not strictly defined by doctrine are inclusive and attractive.

Of course, as is the case with the Bible or the Qur’an or other religious or literary texts readers tend to focus on those passages that support this view and either ignore or marginalize passages that do not conform to the socially constructed “iconic” meaning of the poet (a meaning which can change over time and from place to place).

Do the Iranian people’s love for Rumi have correspondence at the regime’s level? Is Sufism tolerated by the centers of political and religious power in Teheran? Former President Mahmoud Ahmadinejad, for instance, used do emphasise a Messianic Islam (The return of the 12th Imam) and increased the persecution of religious minorities, as the Baha’is – a path totally different from this one:  “I am neither Christian, nor Jewish, nor Muslim I am not of the East, nor of the West… I have put duality away, I have seen the two worlds as one; One I seek, One I know, One I see, One I call.” (Divan-I Shams-I Tabriz, II)

The Mevlevi (Mawlaviyya) order, often called “whirling dervishes” – the Sufi lineage that was established around the practice and teachings of Jalal al-Din Rum, was widely established in the eastern Mediterranean, in the Ottoman Empire. It was not, however, active in Iran, so love of Rumi’s poems does not correlate with membership in a specific Sufi order in Iran (or South Asia), where Rumi’s poetry is very popular across many groups.

Devotion to Rumi is thus non-denomenational and non-organized in Iran, and relatively non-threatening to established political or religious authority.

And, it is a way of looking at the world through an Islamic lens, though not a literalist one – and for this reason, it can be very appealing to people who do not find religious literalism or fundamentalist approaches appealing, or even organized religions, but are attracted to spirituality and to the imminence of God in the world.

It is also the case that Rumi’s poetry was written for a popular audience, many of whom were new Muslims, and so it can be easily understood, and appreciated at various levels (there is often a deep study of Islam and of Sufism informing the theology expressed in his poems, but the poems can be grasped at some level without much particular or prior knowledge).

Rumi’s poetry in Iran is thus more a way of looking at the world and relating to people than it is a series of rituals and practices which people meet to perform together (though they may meet to read Rumi like one  meets for a book club, or Bible study).

On the other hand, some of the Sufi orders which are active in Iran  and do have certain shared practices and gatherings, have faced restrictions and persecutions in recent years,  just as have several religious minorities, including Sunni Muslims, Baha’is, Christians, Jews, etc., and also some ethnic minorities – Baluchis, Arabs, etc.

Rumi is so popular and enjoys such a reputation as an authoritative figure of mysticism, that poems and sayings are often ascribed to him that are not his.

The poem quoted above (I am neither Christian or Jewish…) was once thought to belong to Rumi (and was translated over a hundred years ago by Reynold Nicholson, the great scholar of Rumi), but is no longer thought to be his. It is perhaps by a later follower of the Mevlevi order.

Salt Lake on Maranjab Desert in Iran
© Fotokon | Shutterstock | theculturetrip.com

There are several translations of Rumi’s poems in English. Which ones would you recommend as the most accurate and faithful to the originals?

My publisher will be unhappy if I don’t recommend my own translations! Rumi: Swallowing the Sun (Oneworld, 2008), which presents a smaller selection of his poems organized into thirteen thematic categories or concepts (poems about faith and observance, poems from disciple to master, from master to disciple, poems of dreams and visions, poems about birthing the soul, etc.).

But there are dozens of translations, versions and interpretations of Rumi still in print – some from the 19th century, & some from the 20th and 21st.

There is a whole chapter on the various translations, versions and interpretations of Rumi and the  scholarship about him.

English translations were done by British scholars of Persian beginning in the 19th century, but the wider  interest in Rumi as poet began after the 1973 UNESCO commemoration of the 700th anniversary of Rumi’s death, as well as the visit  to San Francisco of a Sufi teacher who had been affiliated with the Mevlevi order in Ottoman Turkey before the sufi orders there were  disbanded by law in the Turkish Republic.

All this led to an interest in Rumi on the part of American poets like Robert Duncan, Robert Bly and Coleman Barks, none of whom, however, knew or learned Persian or Arabic, the languages in which Rumi wrote.

Instead, they worked with older translations which were not poetic, or they worked with individuals who either knew Persian, ortranslated for them to English from Turkish translations of Rumi’s Persian, and provided a second- or third-hand crib of the meaning, which was then worked into a modern American free verse form.

These popular versions and translations, even some by native  speakers of Persian, present a very Americanized new age Rumi which ignores the Islamic grounding of his thought and praxis. There are also good translations by scholars who are well informed both of the content of Rumi’s Persian and with modern poetic idioms of the target languages.

Of Rumi’s poems, can you select a few that better explain the character of Iranian culture and religion? Can he serve as a bridge to dissipate tensions between Iran and the West, mainly the US – after all, it seems that the great poet is now more popular in America than in Turkey, for instance.

Citizens of the modern state of Afghanistan have traditionally claimed Rumi as an “Afghan” because they thought he was from Balkh.  We now know Rumi was really from Vakhsh and lived in Samarqand as a boy, so we could perhaps think of him as Central Asian.

So, if by characteristic “Iranian” culture and religion we mean something that is particular to the citizens of the modern state of Iran, or the people who are ethnically Iranian or Tajiks, that is an anachronistic way to think about him.

Rumi himself was from a polyglot and multi-ethnic region of the world – Central Asia, where Persian was the lingua franca, but where Persians, Arabs, Turks, Mongols and various peoples from what is now China mixed.

His family then moved from Transoxiana – Samarqand and the little town of Vakhsh  – to Anatolia, where Oghuz Turks ruled, and where Muslim Turks had recently settled, but Armenians and Greeks and Georgians still mingled with immigrants of Persian and Arab background.

This is where Rumi lived most of his life, from his teenage years onward, except when he studied in Arabic-speaking Syria (he also wrote a fair number of poems in Arabic, which was not uncommon for Persian poets of the 13th century).

Certainly, speaking Persian was an important part of Rumi’s identity, as was the Islamic and Sufi tradition of Khorasan – greater Persia, encompassing parts of what are now Uzbekistan, Tajikistan, Afghanistan, Turkmenistan and Iran.

Modern Iran has the largest population of Persian speakers in the world, and in this sense, the citizens of the modern state of Iran can call him its native son, as can the Persian speakers of Tajikistan or Afghanistan (which has featured him on its postage stamps), or Uzbekistan and Turkmenistan.

Certainly, it is a matter of pride for many Iranians, Afghans and Tajiks that Rumi is so loved and respected throughout the world, most especially in English-speaking countries.

And many of the ecumenical and inclusive passages in his writings can help create a bridge – in the U.S. some lines supposedly by Rumi were printed in “The New York Times” a dozen years ago as an argument for rapprochement between the U.S. and the Islamic Republic of Iran.

Dasht-e-Lut, Lut desert, hottest desert in the world, Iran
© Marcin Szymczak | Shutterstock | theculturetrip.com

Besides Rumi, what other poets would you recommend to better appreciate Iran’s culture richness: Sa’adi, Omar Khayyam, Hafez, Ferdowsi…? What distinguishes them from Rumi?

Ferdowsi tells the mythical and legendary history of pre-Islamic Iran in modern Persian, which has remained more or less the same poetic language since the 10th century, when Ferdowsi began recording these legends, building off of the traditions saved from Sasanian Middle Persian learning and lore.

Ferdowsi also describes the thoughts and internal  conflicts of the kings, their sons, and the great warriors, telling several love stories, as well as battles against demons and super-human champions, though ultimately it is a tale suffused with tragedy.

Ferdowsi’s “Shahnameh” (Book of Kings) is an exceedingly rich and dramatic work, the episodes of which were recited in coffee houses and in the Iranian gymnasiums, the Zur-khaneh.  Some of the story takes place in Afghanistan and some in Central Asia, as well as some in the Arab lands,  so it reflects the trans-national empire of ancient Iran.

Sa’adi (13th century – a contemporary of Rumi, but living in Shiraz, still one of the central cities of modern Iran) is renowned for his “inimitable simplicity” and proverbial expressions, and humor – all of which qualities are valued highly in Iranian culture – and he was also greatly appreciated by Enlightenment Europe, including Voltaire and Benjamin Franklin.

Khayyam is the pithy philosopher, who believes in epicurean appreciation of the here and now, and not of the hereafter – his fame skyrocketed after the successful translation to English by Edward FitzGerald.

Hafez is the lyric genius of Persian – Keats and Shelley and Yeats rolled into one, and something of a rohrshach test – he is interpreted as a Sufi, as an antinomian railing against sham piety, a libertine, a political activist, a humanist.  Hafez has been repeatedly translated to English and to many many other languages, but never so successfully as Khayyam.

Rumi, however, is the epitome of the mystical spirit in Persian, for whom the universe is vibrating and overflowing with the manifest signs of divinity, if only we can figure out how to read them.

In one of your The Guardian‘s articles, you said: “He (Rumi) has won the admiration of Hegel, Martin Buber, Gurdjieff, Dag Hammarskjöld, Erich Fromm, among others. Some have called him the world’s greatest representative of mysticism and mystical poetry. And he certainly had something to say about looking beyond the linguistic, national and religious borders that divide us to the mystical realm in which separateness and distinction melt away.” Can you elaborate on the reasons for this fascination?

The poetry of Rumi is truly remarkable – he sees the universe alive and reverberating with the signs of divinity, and for him this divinity is both awesome and overwhelmingly majestic, but also is the definition of love itself. And it is love that turns the whole universe for Rumi.

God’s love emanates from the core of divine meaning into the forms of the physical word and drips like sap throughout the universe and colors and clings to and shapes everything. He also finds love of God in the love of spiritual teachers and so has a human immediacy as well as a transcendence in his theological outlooks.

He also is a keen observer of social dynamics and at times can be very humorous about human motivations and foibles.

Although Rumi stands firmly within the Islamic Sufi tradition, and assumes that Islam is the latest and most complete form of divine revelation to man, he shows himself more concerned with its spirit than with its law, and on points of doctrine, he prefers complexity and situational flexibility, even ambiguity, to dogma.

Masuleh Vilage, Gilan, Iran
© Roserunn | Shutterstock | theculturetrip.com

From the modern perspective on religion and spirituality, this is quite attractive, and If we compare what Rumi teaches in the Masnavi to, let’s say his somewhat later contemporary, Dante in his Divine Comedy, the picture that emerges is more modern and more ecumenical and more ruthful. For Rumi at his best, religion is mostly about opening windows to the wide, wide vista of the divine:

“As I enter the solitude of prayer
I put these matters to Him, for He knows
That’s my prayer-time habit, to turn and talk
That’s why it’s said “My heart delights in prayer”
Through pureness a window opens in my soul
God’s message comes immediate to me
Through my window the Book, the rain and light
all pour into my room from gleaming source
Hell’s the room in which there is no window
To open windows, that’s religion’s goal”

Masnavi 3: 2400-2404

Religion is furthermore about remembering human beings as all divinely touched, if we can only feel and remember that innate spiritual connection:

“We all were parts of Adam at one time
In paradise we all have heard these tunes
Though clay and water fill us up with doubts
We still remember something of those songs”

Rumi, Masnavi 736-7

And it is this spark of divinity in us that transcends earthly religions and creeds – and creates a kind of natural theology that trumps – in the God’s-eye view of mankind – our individual creeds and rituals and doctrines:

“Hindus praise me in the terms of India
And the Sindhis praise in terms from Sindh
Not for magnificats do I make them pure
They themselves become pure and precious
We do not look to language or to words
We look inside to find intent and rapture”

Masnavi 2: 1757-59

The ruins of what Afghan authorities say it is the house of Sufi mystic and poet Rumi in the Khowaja Gholak district of northern Balkh province. Professor Franklin Lewis says: “We now know Rumi was really from Vakhsh and lived in Samarqand as a boy, so we could perhaps think of him as Central Asian”
© AFP | gulfnews.com

 

This interview was included in an article published in the Portuguese literary magazine LER, February 2014 edition

The “architect of the homeless” designed lockers to house their belongings

Duarte Paiva built shiny yellow lockers with shelves and a place to hang clothes. They also serve as a postal address: Letters can be inserted through an outer slot. (Read more…)

Duarte Paiva (r.) stands with Jorge Toledo in front of the lockers he designed for homeless people in Lisbon to store their treasured possessions. @ Nuno Nunes

Architect Duarte Paiva (right) stands with Jorge Toledo, the first beneficiary of a singular project, in front of the lockers he designed for homeless people in Lisbon 
© Nuno Nunes | ACA (Associação Conversa Amiga)

In Arroios, a neighborhood of Lisbon, stands a set of 12 metal lockers. Surrounded by old trees and newly planted bushes, the lockers represent a pilot project designed by Portuguese architect Duarte Paiva as a way to safeguard the possessions of the homeless.

The shining yellow cabinets also serve as a postal address: Letters can be inserted through an outer slot. Inside, each has three shelves and a place to hang clothes.

Among the beneficiaries is Jorge Toledo. He was the first to receive a key to a locker on Oct. 17, 2013, designated by the United Nations as the International Day for the Eradication of Poverty. Until recently in Locker No. 1 he had put only his “main treasures”: photos of his two daughters and a document proving that he is a certified electrician. Now he also stores some clothes, a backpack with other garments, a pair of sneakers, and a tool bag.

Like Mr. Toledo, other less fortunate people use the lockers to store their belongings, which they previously dragged up and down the streets of Lisbon – “the city of seven hills” – in boxes, bags, or supermarket shopping carts.

Now, as winter sets in, they feel protected against robberies and rain.

“The idea is to restore the sense of responsibility of the homeless, reinforce their self-esteem, and reduce the feeling of exclusion and loneliness,” explains Mr. Paiva, who in 2007 founded the Associação Conversa Amiga (ACA, or Friendly Talk Association).

The €11,635 ($15,800) locker project was funded by the Lisbon municipal government. Paiva would like to start similar locker projects all over Portugal and in other European cities – and even bring his idea to America.

In order to obtain and keep using a locker a homeless person has to obey several rules, which include maintaining regular contact with the ACA street team, and promising to help keep the area around the lockers clean and not use them to store illicit substances.

The first locker was given to . Jorge Toledo, in October @Nuno NUnes | Associação Conversa Amiga

The first locker was given to Jorge Toledo, in October
© Nuno Nunes | ACA (Associação Conversa Amiga)

In Arroios, the lockers were placed close to a church and police station. It was on the stairs of St. George Church that Toledo used to sleep before being offered shelter in an old van. Sliding open a door of the van’s cargo area, he proudly shows his mattress with its crumpled sheets.

Toledo was born in Ilha Terceira, one of the nine islands of the Azores archipelago, an autonomous region of Portugal. His late father, of whom he speaks with visible pride (“Thanks to him, I finished secondary school”), was an aircraft maintenance employee at a US air base there.

Toledo’s parents eventually rented their house to a US military officer and moved with their four children (two boys and two girls) to the Azores city of Angra do Heroísmo. Coincidentally, Paiva was born there in 1981.

But Paiva and Toledo never met in the Azores. They first encountered each other in Lisbon in 2010. One year later, the architect was awarded a community prize from Do Something (Portugal), a US organization supporting the charitable projects of younger adults.

Paiva had started volunteering at age 14. His first effort, with the cooperation of firefighters, was “to save a cat trapped on the top of a telephone pole,” he says. Instead of being grateful, the animal acted with fury toward his benefactor. That taught Paiva an early lesson.

“This also happens with homeless people – not all of them are docile,” he says. “At daytime, they are frequently neglected; at night, when helpers come, they can be aggressive just to reassert their dignity.

“We are not taking care of a homogenous population. There are so many different cases that it is wrong to address them” as though they are all alike, he says.

The ACA has a yearly budget of around €20,000 ($27,000) and about 70 regular volunteers. During 2012 it managed to assist more than 6,100 people – not all of them homeless.

A homeless person was so happy after receiving his locker that he expressed his gratitude by kissing Duarte Paiva. @Nuno Nunes | Associação Conversa Amiga

A homeless man receives a locker and express his gratitude by kissing Mr. Duarte Paiva
© Nuno Nunes | ACA (Associação Conversa Amiga)

On World Diabetes Day (Nov. 14) a group of ACA volunteers, among them a doctor and a nurse, taught a group of men and women at a senior center the best way to care for their feet. The local Roman Catholic church, which runs the senior center, is one of 17 ACA partners.

Elsewhere, in a poor neighborhood two young women from ACA were helping a group of children do their homework. Their parents, most of them destitute, pay only a small fee.

Paiva’s dedication to the homeless is related to his childhood in the Azores.

“I used to play by inventing and creating things,” he says. “My family is not rich, and I had to struggle to have what I wanted, whether it was a toy or a university degree.”

When he was 9 years old, he offered bread to an impoverished neighbor, who rejected the gift. Paiva wondered why.

The answer arrived in 2005. It was Christmas Eve. He was delivering food and clothes to the homeless and was surprised when they told him what they needed most: someone to listen to them. They needed a friend.

“My thoughts were, ‘I do not have the means to offer a house to everyone, but I can share a portion of my time,’ ” Paiva says. “Then, I created an Internet page, Um sem-abrigo; Um amigo [“One homeless; One friend”]. Since the beginning our purpose remains the same: to diminish the isolation and marginalization of vulnerable individuals and groups.”

He started by offering hot tea to homeless people, still a trademark of ACA volunteers. Every fortnight a different person in each ACA team prepares a large container of hot tea and serves it in paper cups.

One of the six main locations served by ACA is Gare do Oriente. At least 30 homeless people, mostly men, sleep on the cold stone benches of this central railway station, which connects the north and south of Portugal. All of them are treated like relatives by the ACA helpers, who are easily identified by their green vests. On a Saturday night, Hugo Martins, a young doctor who has donated backpacks with simple medical supplies for the homeless, gives two octogenarians medical advice. One of them, a widower, owns a house but moved to the station to sleep after the love of his life died five years ago. The ACA focuses on basic needs, such as offering medical treatment free of charge, obtaining documents, or arranging for a state pension. It does not distribute soup or blankets since many other groups do that. Working with the homeless is a remarkable personal experience, Dr. Martins says. "I no longer deal solely with diseases but with human beings, who make a better person out of me," he says. @Associação Conversa Amiga

Gare do Oriente, Lisbon: At least 30 homeless people, mostly men, sleep on the cold stone benches of this central railway station. Mr. Hugo Martins, a young doctor who has donated backpacks with medical supplies for the homeless, gives medical advice. His experience as ACA volunteer changed his life: “I no longer deal solely with diseases but with human beings, who make a better person out of me”
© Rui Vaz | ACA (Associação Conversa Amiga)

"My thoughts were, 'I do not have the means to offer a house to everyone, but I can share a portion of my time,' " Paiva says. "Then, I created an Internet page, Um sem-abrigo; Um amigo ["One homeless; One friend"]. Since the beginning our purpose remains the same: to diminish the isolation and marginalization of vulnerable individuals and groups." He started by offering hot tea to homeless people, still a trademark of ACA volunteers. Every fortnight a different person in each ACA team prepares a large container of hot tea and serves it in paper cups. @ACA

“My thoughts were, ‘I do not have the means to offer a house to everyone, but I can share a portion of my time,'”, Mr.Duarte Paiva said. “Then, I created an Internet page, Um sem-abrigo; Um amigo [“One homeless; One friend”]. Since the beginning our purpose is the same: to diminish the isolation and marginalization of vulnerable individuals and groups.” He started by offering hot tea to homeless people (pictured here a volunteer at Gare do Oriente railway station in Lisbon)
© Rui Vaz| ACA (Associação Conversa Amiga)

One of the six main locations served by ACA is Gare do Oriente. At least 30 homeless people, mostly men, sleep on the cold stone benches of this central railway station, which connects the north and south of Portugal.

All of them are treated like relatives by the ACA helpers, who are easily identified by their green vests.

On a Saturday night, Hugo Martins, a young doctor who has donated backpacks with simple medical supplies for the homeless, gives two octogenarians medical advice. One of them, a widower, owns a house but moved to the station to sleep after the love of his life died five years ago.

The ACA focuses on basic needs, such as offering medical treatment free of charge, obtaining documents, or arranging for a state pension. It does not distribute soup or blankets since many other groups do that.

Working with the homeless is a remarkable personal experience, Dr. Martins says. “I no longer deal solely with diseases but with human beings, who make a better person out of me,” he says.

One man always waiting for the ACA volunteers, Armando Barbosa, is unemployed. But thanks to ACA he is now receiving a monthly social services allowance and learning English, and he expects to take the test to become a truck or bus driver. He still goes to the Gare do Oriente train station, where he slept for three months, but now it is only to talk.

Toledo, who received Locker No. 1, says he’s never felt “so happy.” After two failed marriages and the loss of his father and of two friends, he arrived in Lisbon in 2009, dependent on drugs and expecting to die. “I brought €22,000 [$30,000] and I spent all of it in less than six months on cocaine and parties,” he recalls.

Now, sitting in a coffee shop and bakery where he helps out doing a bit of everything in exchange for meals, Toledo smiles at Paiva. He concedes that ACA is “reintegrating him into society.” He is saving his money for a journey across North Africa.

Paiva, his friend, is pleased.

“If I cannot change the whole world overnight, I am sure that I can change the street where I live,” he says. “Probably, I will never [build] big buildings. But if someone leaves me on an isolated island I will be able to erect a city with [only] a few sticks and ropes.”

• For more information, visit http://acamiga.wix.com/aca-pt or https://www.facebook.com/AssociacaoConversaAmiga (both sites are in Portuguese)

Duarte Paiva's initial project: the idea was to create lockers shaped like the traditional Lisbon trams and yellow, the colour of the city. @ACA (Associação Conversa Amiga)

Duarte Paiva’s initial project: to create lockers shaped like the traditional Lisbon trams, and yellow, the colour of the city.
© ACA (Associação Conversa Amiga)

This article, under a different headline, was originally published in the newspaper “The Christian Science Monitor”