Líbia: A paz será uma miragem?

 

Os dois governos rivais que ocuparam o lugar deixado vago após o assassínio de Muammar Kadhafi, há quase uma década, comprometeram-se a cessar os combates e a organizar eleições. Foi uma surpresa quando se previa a escalada de um conflito envolvendo vários Estados que cobiçam riquezas e influência numa região estratégica. Emadeddin Badi, especialista no Norte de África, recomenda um “optimismo cauteloso”. (Ler mais | Read more…)

Forças do “Exército Nacional Líbio” (ENL), de Khalifa Haftar, o homem que anseia ser o líder de toda a Líbia, um autocrata à semelhança de Muammar Kadhafi
© Reuters | BBC

Emadeddin Badi é senior fellow do Programa de Médio Oriente do Atlantic Council, um think-tank americano onde investiga os actores não estatais da Líbia, assim como as políticas em relação a este país conduzidas pela Europa e pela América, e as implicações geopolíticas do conflito.

Consultor independente de diversas organizações internacionais, Badi tem conduzido trabalho de campo no Norte de África sobre reforma das instituições de segurança da Líbia, grupos armados, economias de guerra e crime transfronteiriço.

Formado nas universidades de Essex e Trípoli e na SOAS, em Londres, Badi deu-me esta entrevista  via e-mail e Twitter, em dois tempos. Primeiro, quando a Líbia se preparava para uma batalha que parecia iminente entre a Turquia e o Egipto pelo controlo da preciosa cidade de Sirte.

Depois, quando autoridades rivais em Trípoli e em Tobruk prometeram um cessar-fogo e eleições, cedendo a pressões dos EUA e da Alemanha, inquietos com as ambições da Rússia no maior produtor de petróleo de África.

Dezenas de milhares de crianças e civis continuam a ser as principais vítimas da guerra na Líbia, que parece invencível
© Mahmud Turkia | AFP | Getty Images | CNN

Quando olha para a revolução de 2011, consegue determinar os principais factores que a fizeram fracassar?

Com tudo o que acontece na Líbia, é sempre tentador encontrar o ponto exacto em que a revolução falhou. Para alguns, a realidade do que vemos hoje é o resultado inescapável de anos de decadência institucional sob o poder autoritário de Kadhafi.

Para outros, [o problema está] nos anos recentes. Uma coisa é certa, a internacionalização da cena líbia que vemos hoje tem as suas raízes na internacionalização da guerra civil em 2011.

Eu não diria que o problema foi a intervenção da NATO per se, mas o facto de essa intervenção ter mascarado intervenções unilaterais, mais subtis e perniciosas, por parte de Estados como o Qatar – e subsequentemente os Emirados Árabes Unidos [EAU] – que lançaram as sementes dos conflitos que testemunhámos nos anos posteriores.

Também não quero dizer que o jogo de soma zero da classe política líbia não tivesse sido um factor. Afinal de contas, essa abordagem foi a que abriu o caminho a decisões draconianas, como a Lei do Isolamento Político [ver cronologia].

No entanto, o intervencionismo quase constante desde 2011 – levado a cabo por actores externos e facilitado por actores internos – acabou por dar força a grupos armados e institucionalizou a violência na paisagem líbia.

Ironicamente, vemos o resultado desta abordagem hoje: ao apelar a Estados estrangeiros que intervenham cada vez mais a favor deles, enquanto procuram, cinicamente, marginalizar-se uns aos outros, os políticos líbios perderam relevância, quer em termos políticos como de segurança.

Combatentes das forças do Governo do Acordo Nacional, (GAN), um dos dois executivos líbios, com sede em Trípoli e o único reconhecido pela ONU, celebram a sua vitória sobre os combatentes de Khalifa Haftar, no Leste, ao reconquistarem o bastião de Taruna
© Ismail Zitouny | Reuters

O país tem agora dois governos rivais apoiados por potências estrangeiras com agendas díspares. Depois de um cerco a Trípoli durante um ano, os beligerantes enfrentam-se em Sirte desde que a Turquia forçou a retirada das forças de Khalifa Haftar, que controlam o Leste e o Sul. A Líbia está à beira de se partir?

A Líbia já está partida de facto, há algum tempo, uma vez que a maior parte das suas instituições se dividiu ou duplicou. Praticamente nenhuma delas consegue funcionar em todo o país. O que mantém a Líbia unida hoje é o facto de ter uma economia e um sistema de governo centralizados [porque era na capital, sede do Banco Central e da Companhia Nacional de Petróleos, que Kadhafi acumulava e distribuía riquezas].

Esta peculiaridade exige que qualquer processo de partição necessite de reformas económicas e de governação que nenhuma das partes beligerantes quer ver concretizadas.

No entanto, a situação em que um sistema centralizado financia um Estado disfuncional é insustentável, uma realidade que se tornou mais saliente depois do fracasso de Haftar em conquistar Trípoli, na sequência da ofensiva que iniciou em Abril de 2019.

Poderemos estar a descair para uma partição de jure – com todas as complicações – ou a caminho de obter apoio internacional que permita uma solução construtiva que delegue poderes de governação, descentralize a economia, resolva conflitos e diminua as intervenções estrangeiras.

Membros da “Força de Proteção de Trípoli”, uma aliança de milícias, patrulham uma área no sul da capital, em 18 de Janeiro de 2019, durante confrontos com a “Sétima Brigada”, força leal a Khalifa Haftar, que partiu de Tahuna para (em vão) conquistar a cidade
© Mahmud Turkia | AFP | Getty Images | Council on Foreign Relations

O Egipto ameaçou intervir, se as forças do governo de Fayez al-Sarraj, apoiadas por Ancara, entrassem em Sirte – cidade que fica a mil quilómetros da sua fronteira. Há risco real de um confronto directo?

A intenção inicial do Cairo não era tanto intervir, mas sim desencadear o frenesim diplomático que se gerou com a ameaça – genuína – do Presidente [Abdel Fattah el-] Sisi de envolvimento militar na Líbia. A natureza bem explícita do ultimato do Cairo – e a calmaria que logo induziu ao conflito – conseguiu duas coisas.

Por um lado, permitiu que Moscovo, cuja intervenção na Líbia é financiada pelos EAU, fortificasse as suas defesas no Centro da Líbia e se entrincheirasse em bases aéreas e instalações petrolíferas cruciais.

Por outro lado, impeliu os Estados Unidos a mobilizar actores nacionais e internacionais para evitar uma potencial colisão entre a Turquia e o Egipto, desencadeando um processo que permita a desmilitarização de Sirte e o fim do bloqueio aos campos e terminais petrolíferos.

Moscovo pretende, todavia, expandir a sua pegada militar, para se posicionar como contraparte da Turquia no Leste, e impedir que sejam retomadas as exportações petrolíferas líbias.

Uma embarcação de madeira a abarrotar de refugiados e migrantes, que esperam ser assistidos por uma ONG, 14 milhas a norte de Sabratha, na Líbia, em 2 de Março de 2017: este é um dos muitos dramas humanos do conflito
© Santi Palacios | AP | The Washington Post

Esperava uma intervenção directa da Turquia a favor do Governo do Acordo Nacional (GAN, em Trípoli) e a mudança no equilíbrio de forças? Por que está Ancara a investir tanto neste conflito?

De Setembro até meados de Dezembro de 2019, o Exército Nacional Líbio (ENL), de Haftar, reforçado com um número considerável de mercenários do grupo russo Wagner, o qual desempenhou um papel activo na ofensiva contra a capital, esteve quase a quebrar as defesas de Trípoli.

Um desfecho destes teria provocado meses, senão anos, de uma guerra de guerrilha que desalojaria a maior parte dos residentes de Trípoli e a maior parte das infra-estruturas da cidade.

Ancara só neutralizou esta ameaça, depois de garantir que valia a pena o custo-oportunidade de uma intervenção plena. E isto só aconteceu quando o GAN assinou um acordo que oferece uma fronteira marítima alargada com a Turquia.

Este desenvolvimento ligou, inextricavelmente, a sobrevivência do GAN às reivindicações marítimas da Turquia no Mediterrâneo Oriental, cimentando a ideia de que um recuo da ofensiva de Haftar seria o equivalente a um triunfo em nome da famosa doutrina Blue Homeland /Pátria Azul (1) de Ancara.

Há mais dois objectivos estratégicos que guiam a intervenção de Ancara na Líbia, um deles a contenção de Abu Dhabi – com quem Ancara rivaliza na luta pela hegemonia árabe – e outro a vontade de penetrar no Norte de África, para estender a sua influência ao Sahel.

Um terceiro incentivo é garantir que uma Líbia governada por Haftar pagará a dívida contraída durante a era de Kadhafi, quando foram assinados contratos de construção com empresas turcas. Todos estes factores estratégicos – e, na sua maioria, objectivos de longo prazo – explicam a magnitude do investimento de Ancara no conflito líbio.

Em todo o caso, vale a pena referir que o preço [do apoio a Sarraj] não tem sido suportado apenas pela Turquia, mas também, indirectamente, por fundos do Qatar.

Ancara usa, igualmente, terceiros para susterem os danos humanos, preferindo mobilizar mercenários sírios, que considera dispensáveis, e drones de baixo custo.

Os dois “homens fortes” da Líbia: o autoproclamado “marechal de campo” Khalifa Haftar (à esq.) e o primeiro-ministro do GAN, Fayez al-Sarraj
© aboutenergy.com

E quais são a estratégia e os objectivos dos Emirados Árabes Unidos?

A intervenção dos EAU remonta ao início de 2011. Com a campanha aérea da NATO a servir de distração, Doha e Abu Dhabi envolveram-se numa luta clandestina por influência, cada um deles a apoiar diversas fações políticas e militares com visões diametralmente opostas sobre o que deveria ser a Líbia depois de Kadhafi.

Abu Dhabi [o mais poderoso dos sete Emirados] vê a Líbia como um campo de batalha central para remodelar a ordem pós-Estados revolucionários [árabes] e o papel dos grupos islamistas – como a Irmandade Muçulmana –, que os EAU tentam reprimir interna e regionalmente.

Em muitos aspectos, a visão de Abu Dhabi para os Estados outrora revolucionários envolve restaurar velhos sistemas de governação, introduzindo-lhes uma espécie de novos líderes que aceitam submeter-se aos EAU.

A dependência em relação a Abu Dhabi de autoritários criados artificialmente cimentaria a posição deste Estado do Golfo como guardião da estabilidade na região.

Esta subordinação é também fundamental para a estratégia de diversificação económica dos EAU, porque lhes dá maior acesso a portos, consolidando a sua posição de centro marítimo.

É claro que, embora fosse de venda fácil nas capitais ocidentais, a receita dos EAU para a estabilidade na região está longe de ser uma utopia, como tem sido descrita.

Na realidade, acelerar uma recaída de alguns países para o autoritarismo – particularmente em lugares onde revoluções começaram como protestos populares – exige um grau desproporcional de violência infligida às sociedades. Vemos isto na Líbia, mas também no Egipto, na Síria, no Iémen, no Bahrain, na Argélia, no Sudão e noutros países.

Membro do “Exército “Exército Nacional Líbio”, de Khalifa Haftar, durante confrontos com combatentes islamistas no distrito de Khreibish, em Benghazi, em 9 de Novembro de 2017
© Esam Omran Al- Fetori | Reuters | Council on Foreign Relations

Como é que avalia as ambições da Rússia?

A política russa na Líbia era, até meados de 2019, uma abordagem multifacetada que permitiu a Moscovo a capacidade de se posicionar como intermediário, ao manter um canal de comunicação com todos os protagonistas envolvidos na cena líbia.

O ministério [russo] da Defesa foi o pilar de um processo mais amplo que procurava estabelecer uma relação de dependência entre Haftar e Moscovo.

Além de fornecer ao ENL treino e conselheiros militares, a companhia Goznak, ligada à Rússia, também o assistiu financeiramente, imprimindo um número indeterminado de “novas” notas líbias que [Haftar] usou para custear o seu esforço de guerra e formar o seu exército.

Por outro lado, o ministério [russo] dos Negócios Estrangeiros tem mantido laços com o GAN em Trípoli e com figuras influentes em cidades no Oeste, como Zawiya, Misrata e Zintan – estratagema indicativo de que a Moscovo sabe que não pode confiar, exclusivamente, no plano autoritário de Haftar, apoiado pelos EAU, porque isso poderá ser prejudicial ao seu capital político na Líbia.

De forma mais disfarçada e independente, empresários russos – influentes nos círculos restritos do Kremlin – têm também vindo a estabelecer contactos com figuras da era de Kadhafi, incluindo muitos políticos e oficiais militares do antigo regime, com os quais mantiveram laços no passado.

Em 2019, uns seis meses depois de o ENL ter lançado a ofensiva contra Trípoli, a Rússia adaptou a sua política ao contexto de guerra civil, aproveitando-se da inacção ocidental e do erro de cálculo de Haftar. Rapidamente, enviou mercenários Wagner [grupo próximo do Kremlin] para as linhas da frente de Trípoli, uma decisão que aumentou a dependência de Haftar e do seu ENL em relação ao apoio militar russo.

Ao barricar-se militarmente no Leste [Sirte] e Centro [Jufra] – um esforço que é, provavelmente, financiado pelas monarquias do Golfo que apoiam Haftar –, Moscovo manteve-se fiel à aspiração de ser um mediador. A instalação de sistemas mais sofisticados, como o [de mísseis] S-300 representará um desvio em relação à sua política de aversão ao risco, e deixa evidente como Moscovo considera valiosa, a vários níveis, a sua presença na Líbia.

A Rússia está agora bem posicionada para remodelar a paisagem política e militar no Leste da Líbia, ao apresentar-se a si mesma – e aos seus associados favoritos locais – como a base para qualquer processo político vindouro.

De maneira mais ampla, pode usar a sua presença, relativamente barata, para pressionar a Turquia, semear a discórdia na NATO, ameaçar a União Europeia, elevar o seu capital político junto dos Estados do Golfo e prejudicar os EUA.

A Rússia mobilizou mercenários do grupo Wagner, próximo do Kremlin, para intervir no conflito líbio e salvaguardar os seus interesses na região
© Alexander Avilov | Moskva News Agency | The Moscow Times

Haftar conseguirá manter o seu bastião no Leste ou os patronos estrangeiros poderão substituí-lo por ex-oficiais de Kadhafi?

Já há sinais de que a relevância de Haftar está a diminuir. A ofensiva contra Trípoli foi uma tentativa de fazer a Líbia regressar, pela força, ao autoritarismo com a cumplicidade de uma panóplia de actores externos.

Uma vez perdida essa aposta, ele tornou-se dispensável, até mesmo para os seus mais fervorosos partidários. O que assistimos agora, entre os patrocinadores de Haftar, é uma mudança: em vez de apoiarem o indivíduo, estão a tentar revigorar a coesão do seu ENL.

No entanto, sendo uma amálgama de grupos armados, o ENL só muito tenuamente se mantém unido: alguns são leais a Haftar, outros às suas circunscrições tribais, e outros ainda são meros oportunistas que se aliaram a Haftar esperando colher a recompensa da sua fracassada campanha de Trípoli.

Mesmo que actores como o Egipto e a Rússia procurem iniciar um processo de reforma do sector da segurança, que leve ex-oficiais de Kadhafi a assumir o controlo do ENL, a aliança que hoje existe está condenada a estilhaçar-se.

O que poucos têm enfatizado, porém, é que a presença de tropas russas no terreno poderá servir de medida paliativa para deter uma fragmentação violenta do ENL. Entretanto, o Egipto, com o apoio da Rússia, posiciona-se para um jogo precário que consiste em transferir os poderes de Haftar para outros militares nas fileiras do ELN, incluindo ex-oficiais de Kadhafi.

Esta tentativa pouco convincente de reformar o sector de segurança poderá correr mal dada a natureza híbrida do ENL e as lealdades divergentes que a caracterizam a coligação no seu todo.

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Tempos de esperança, em Outubro de 2011: a Líbia festeja a queda de Muammar Kadhafi nas ruas de Trípoli, a capital
© Mahmud Turkia | pri.org

Voltamos a si, porque [em 21 de Agosto], Sarraj e o presidente do parlamento em Tobruk, Aguila Saleh, aliado de Haftar e com importante peso tribal no Leste, anunciaram um cessar-fogo em todo o território e a organização de eleições. Como avalia este compromisso? (Ver cronologia)

Eu diria que exige um optimismo cauteloso, até porque há discrepâncias consideráveis nas propostas de cessar-fogo de Sarraj e de Saleh.

O mecanismo de distribuição da renda [petrolífera] que Saleh reclama [para o Leste] será particularmente contencioso entre as instituições ligadas a Sarraj, sobretudo o Banco Central, em Trípoli.

[Uma das condições de Haftar para pôr fim ao bloqueio petrolífero é que as receitas sejam depositadas numa conta no estrangeiro, com um “mecanismo claro” que permita a distribuição equitativa de fundos entre as três regiões da Líbia. Já viu aprovada, em Julho, a exigência de uma auditoria aos gastos do Banco Central.]

É preciso dizer também que, para permitir a desmilitarização de Sirte e de Jufra, a Rússia terá de retirar dali os seus mercenários, e ainda não está claro se irá aceitar.

O que possibilitou os dois anúncios, em separado, mas em simultâneo?

Isso só foi possível porque os EUA apoiaram as pressões da Alemanha. Mas, principalmente, porque turcos e egípcios também alinharam.

Foi uma surpresa, para si?

Foi verdadeiramente uma surpresa!

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* Com a doutrina “Mavi Vatan” (“Blue Homeland” ou Pátria Azul), a Turquia pretende obter o controlo dos três mares que a rodeiam (Mediterrâneo, Egeu, Negro) e de outros mares estratégicos (Vermelho, Cáspio e Arábico, incluindo o Golfo Pérsico). O objectivo é assegurar independência económica e energética (em relação à Rússia, Irão, Iraque e Líbia, seus principais fornecedores), mas também expandir a sua influência regional (norte da Síria, Norte do Iraque e Corno de África; já tem bases navais e militares, na Somália, no Sudão, na Líbia e no Qatar) e internacional. Um outro propósito, implícito, será o de cancelar os efeitos do Tratado de Lausanne de 1923, que delimitou as fronteiras da moderna Turquia, depois da I Guerra Mundial e da queda do Império Otomano. O arquitecto da “Mavi Vatan”, anunciada pela primeira vez em 2006, foi o almirante nacionalista Cem Gurdeniz, que desempenhou, até 2012, o cargo de Chefe da Divisão de Estratégia e Planeamento da Marinha turca. O desejo de uma “Pátria Azul” une os islamistas neo-otomanistas do actual Presidente, Recep Tayyip Erdogan, e os secularistas e euroasianistas leais a Mustafa Kemal Ataturk, o fundador da nação.

Emadeddin Badi é senior fellow do Programa de Médio Oriente do think-tank Atlantic Council
© Cortesia de | Courtesy of Emadeddin Badi

Da esperança ao caos

História de uma revolução fracassada

Fizeste mesmo uma festa no dia em que o ditador morreu?

E havia um bolo decorado com todas as bandeiras?

Pensaste que a morte dele resolveria tudo?

(…)

Todas estas pessoas que fogem e se afogam,

o que esperam elas? De quem é a culpa?

Por quanto mais tempo temos de esperar que as coisas melhorem? *

(Tradução livre do poema Beatitudes, do escritor líbio Khaled Mattawa)

2011

Uma mãe com uma fotografia do filho que perdeu na prisão de Abu Salim, em Trípoli, onde Muammar Kadhafi cometeu um dos piores massacres, em 1996
© Nicole Tung

15 Fevereiro: Forças de segurança líbias prendem Fathi Terbil, um advogado da cidade de Benghazi, no Leste. Há vários anos que, todos os sábados, Terbil organizava protestos de várias famílias exigindo indemnizações e castigo por um massacre cometido em 1996 na penitenciária de Abu Salim, em Trípoli. Entre os 1200 mortos, estava um irmão, um primo e um cunhado de Terbil. A prisão do advogado gera uma onda de indignação popular;

16 Fevereiro: A revolta em Benghazi alastra-se a outras cidades do Leste. As reivindicações já não são apenas “justiça social, liberdade e Constituição”, mas também a queda de Muammar Kadhafi, há 42 anos no poder;

17 Fevereiro: Num “Dia de Raiva” convocado pela oposição, as tropas do ditador usam munições reais e mercenários para reprimir “centenas de milhares” de manifestantes. Benghazi, a segunda cidade da Líbia, torna-se no berço da revolução;

20 Fevereiro: Kadhafi perde Benghazi, quando o general Abd al-Fattah Younis, o ministro do Interior que o ajudara a derrubar a monarquia em 1969 e a esmagar os islamistas nos anos 1990, se junta ao campo dos rebeldes. No mesmo dia, num discurso televisivo, que terá selado o destino do regime, Saif al-Islam desilude os líbios que ainda acreditavam nas suas promessas de reforma, ao acusar os manifestantes de serem “agentes estrangeiros” empenhados em criar um “emirado islâmico” e iniciar uma “guerra civil pior do que a do Iraque ou da Jugoslávia”;

26 Fevereiro: O Conselho de Segurança da ONU aprova, por unanimidade, a Resolução 1970, que impõe sanções a Kadhafi, à sua família e associados;

Um rebelde líbio no topo de um rocket montado sobre uma carrinha no deserto próximo de Sirte, a terra-natal de Kadhafi, em 6 de Outubro de 2011
© Fabio Bucciarelli | MeMo | TIME

5 Março: O Conselho Nacional de Transição (CNT), movimento de rebeldes criado em 27 de Fevereiro, declara-se “único representante legítimo” da Líbia e pede protecção internacional “sem intervenção militar directa no terreno”;

15 Março: Depois de 20 anos nos EUA, supostamente “ao serviço da CIA”, o general Khalifa Haftar regressa à Líbia para se vingar de Kadhafi, que o renegara quando foi capturado por tropas do Chade, após o fiasco de uma expedição militar clandestina em 1987. Forma um “exército” de rebeldes e tribos, uma delas a sua (Ferjani), mas o CNT prefere apoiar Younis;

17 Março: O Conselho de Segurança da ONU aprova a Resolução 1973, que autoriza “todas as medidas necessárias – excepto uma força de ocupação – para proteger os civis na Líbia”. Impõe também um embargo de armas, reforça as sanções e cria uma zona de exclusão aérea em Benghazi;

19 Março: Forças americanas, francesas e britânicas iniciam a operação Odisseia ao Amanhecer: Doze dias depois, os EUA cedem à NATO o comando desta campanha aérea. Aos membros da Aliança Atlântica juntam-se outros, como a Suécia, os Emirados Árabes Unidos (EAU), o Qatar ou a Jordânia;

15 Abril: Barack Obama, David Cameron e Nicolas Sarkozy consideram “impensável” a permanência de Kadhafi no poder e enviam “conselheiros militares” para Benghazi. Os rebeldes começam a receber armas e treino militar de duas monarquias rivais: uma inimiga visceral (os EAU) e outra um patrono (Qatar) da Irmandade Muçulmana, ambas ambicionando refazer o mapa regional pós-primaveras árabes”;

23 Agosto: Com apoio aéreo da NATO, e sem encontrar resistência, rebeldes de Misrata e Zintan entram no quartel-general de Kadhafi em Trípoli, a capital;

O cadáver de Muammar Kadhafi numa residência de rebeldes em Misrata, em 20 de Outubro de 2011, o dia em que foi assassinado
© Fabio Buciarelli | MeMo | TIME

20 Outubro: Com apoio aéreo da NATO, Kadhafi é capturado e morto à queima-roupa por rebeldes, quando tenta fugir de Sirte, a cidade-natal onde se refugiara em 18 de Agosto. O seu corpo fica exposto numa câmara frigorífica durante vários dias. Os líbios fazem fila sob um sol tórrido para um último e macabro adeus ao homem que os oprimiu. Ao abrigo da lei internacional, este assassínio é um crime de guerra;

23 Outubro: O CNT anuncia a “libertação” da Líbia e eleições num prazo de oito meses. Apesar da euforia, poucos acreditam que o processo ajude a sarar as feridas, sobretudo devido ao domínio crescente de distintos grupos armados (só em Misrata, há “236 com um total de 40 mil membros”);

31 Outubro: A NATO põe fim à sua missão, apesar de violentos combates por todo o país, motivados por divisões tribais entre os que, ressentidos e desconfiados, ficaram e sofreram sob o jugo de Kadhafi, e os que, exultantes, regressam do estrangeiro, alguns com maiores competências;

2012

Assembleia de voto em Trípoli, a capital líbia, no dia das primeiras eleições livres em 60 anos, em 7 de Julho de 2012
© Zohra Bensemra | Reuters | The Washington Post

6 Março: Membros do CNT em Benghazi defensores de uma federação entre as três principais regiões do país – Tripolitânia (noroeste), Fezzan (sudoeste) e Cirenaica/Barqa (leste) – formam nesta última um estado semi-autónomo;

7 Julho: Dois milhões e meio de líbios (52%) participam nas primeiras eleições livres em meio século, para escolher os 200 representantes do Congresso Geral Nacional (CGN), o primeiro parlamento de transição, que deve suceder ao moribundo CNT. Os resultados surpreendem: a Irmandade Muçulmana não obtém a maioria. Começa imediatamente uma luta pelo poder. Políticos contratam milícias das suas respectivas tribos, bairros, cidades e regiões;

11 Setembro: O grupo Ansar al-Sharia, ligado à Al-Qaeda, ataca o consulado dos EUA em Benghazi e mata o embaixador dos EUA Chris Stevens;

2013 

Um homem exibe um livro anteriormente censurado por ser crítico do tirano derrubado e assassinado em 2011: A Líbia de Kadhafi: A política da contradição
© Rima Bugaighis | mashallahnews.com

5 Maio: O CGN aprova a Lei do Isolamento Político, que proíbe ex-governantes de Kadhafi de exercer cargos políticos durante 10 anos.

A definição de “cumplicidade com o antigo regime” é tão ampla que fecha as portas a numerosos tecnocratas, militares ou líderes estudantis que tentaram reformar o sistema ou desertaram em 2011.

A votação é forçada por facções islamistas de Misrata que consideram a lei “uma ruptura total como o passado”. Os opositores criticam-na como “suicídio colectivo”. O conflito é agora uma luta por supremacia e acesso às riquezas do país, envolvendo tribos (há 140 na Líbia) e milícias;

2014

Um estudante de Medicina que aderiu à revolução contra Kadhafi posa para um retrato junto uma estação de rádio dos rebeldes, em Al Bayda
© Scott Nelson | The New York Times

17 Maio: Com apoio do Egipto, dos EAU e da França, Khalifa Haftar lança a Operação Dignidade, visando grupos islamistas no Leste, incluindo a Irmandade Muçulmana. O seu Exército Nacional Líbio (ENL) é uma “rede de alianças tribais”, que agora controla Benghazi. O Governo interino em Trípoli denuncia um golpe. No dia seguinte, milicianos de Zintan, alinhados com Haftar, avançam para a capital;

25 Junho: Realizam-se legislativas para substituir o CGN. Os islamistas obtêm apenas 25 dos 200 lugares;

13 de Julho: Uma coligação controlada por milicianos islamistas de Misrata lança a Operação Alvorada Líbia, conquistando Trípoli depois de cinco semanas de batalhas. A Alvorada recusa reconhecer a recém-eleita Câmara dos Representantes, dominada por políticos seculares;

4 Agosto: A Câmara dos Representantes foge para Tobruk, no extremo oriente do país, dando posse ao seu próprio governo, na cidade de Bayda. Alia-se ao ENL, encarregando Haftar de “libertar Trípoli”;

18 Agosto: Violando um embargo imposto pela ONU, caças Mirage 2000, pilotados por oficiais dos EAU (que instalaram uma base militar na Líbia), e helicópteros Mi-8, caças MiG-21 e outras armas e munições enviados pelo Egipto ajudam Haftar a bombardear posições da Alvorada Líbia (apoiada pelo Qatar e pela Turquia) em Trípoli;

25 Agosto: Em Trípoli, a Alvorada Líbia – agora uma “amálgama de milícias” de Misrata, Zawiya e Gharyan, de comunidades Imazzighen (berberes) e da Irmandade Muçulmana, “todos unidos na oposição a Haftar” –, ressuscita o antigo CGN e forma um “Governo de Salvação Nacional”. O país tem agora dois primeiros-ministros e dois parlamentos;

19 Novembro: No Leste, o “Estado Islâmico” apodera-se de Derna, cidade de onde muitos saíram para combater na Síria. No regresso, estes veteranos declaram Cirenaica/Barqa a primeira de três “províncias” do Daesh;

2015

Antigos responsáveis do regime de Kadhafi aguardam o seu julgamento, sentados numa “jaula” em 28 de Julho de 2015
© avauntmagazine.com

15-16 Fevereiro: O Daesh cria mais duas “províncias”: Fezzan e Tripolitânia. Aqui, na cidade de Sirte, ergue a sua principal base. No final do ano, a ONU adverte que o Daesh tem na Líbia mais de 3000 combatentes, controlando uma faixa de território de quase 250 km de extensão – apenas a 600 km de distância da Europa;

17 Dezembro: Num encontro em Marrocos, a ONU tenta convencer a Alvorada e a Dignidade a aceitar um Acordo Político Líbio, que prevê um Conselho da Presidência, de 9 membros, e duas assembleias legislativas: a Câmara dos Representantes, já existente, e um Conselho de Estado. O parlamento em Tobruk assina o acordo, mas depois, por ordem de Haftar, recusa reunir-se e apoiar o Governo do Acordo Nacional (GAN) que será reconhecido pelos EUA e por vários países europeus como representante legítimo da Líbia;

2016

Rebeldes líbios depois de assumirem o controlo do aeroporto de Sirte em confrontos com forças rivais
© Manu Brabo | birdinflight.com

30 Março: O arquitecto Fayez al-Sarraj, primeiro-ministro do GAN, chega a Trípoli, uma capital sem serviços básicos, como água e luz, sem uma força de polícia e um exército, e “dependente da boa vontade” de numerosas milícias;

6 Dezembro: O GAN anuncia que o Daesh (já expulso de Derna) foi derrotado em Sirte, após uma ofensiva que durou 9 meses, assistida por ataques aéreos dos EUA. Em 2017 e 2018, o grupo regressa e protagoniza vários atentados suicidas em Trípoli;

2017

Migrantes africanos no centro de detenção de Sikka Road, em Trípoli, capital da Líbia, tomam banho num dos raros momentos em que são autorizados a sair das instalações geridas pelo Ministério do Interior. A maioria dos 1400 detidos provêm da África Subsariana e são mantidos em condições deploráveis enquanto aguardam o seu repatriamento
© Moises Saman | magnumphotos.com

25 Julho: Em Paris, o presidente Emmanuel Macron recebe Sarraj e Haftar (agora “marechal de campo”), concedendo a este “legitimidade nacional e internacional”. Os dois adversários aceitam (mas não cumprem) um cessar-fogo condicional e eleições em 2018. Resoluta em impedir que extremistas tenham bases no Mediterrâneo e ameacem os seus interesses no Sahel, a França apoia, desde 2015, o ELN, apesar de este “exército” integrar também salafistas e ser acusado de violações dos direitos humanos no Leste da Líbia;

Agosto-Setembro: Ghassam Salamé, chefe da Missão da ONU para a Líbia (o sexto desde 2011), propõe um “plano de acção” para rever o Acordo Político assinado em Marrocos, organizar uma Conferência de Reconciliação Nacional e realizar de eleições legislativas e presidenciais – no prazo de um ano. Para a primeira ronda de negociações, junta delegações de Trípoli e de Tobruk num hotel de luxo em Tunes – em vão. O enviado libanês acabará por se demitir;

Novembro: Desde Janeiro, perdem a vida no Mar Mediterrâneo, 2772 de um total de 200 mil migrantes que fogem da Líbia em busca de refúgio na Europa. Os sobreviventes que não concluem a viagem são colocados em centros de detenção, nominalmente sob controlo do governo de Trípoli (ao qual a UE paga para travar o fluxo migratório ilegal), mas que, na realidade, são geridos por milícias. Apesar de receberem salários do Estado, estes grupos armados são também traficantes, que torturam e escravizam migrantes, e contrabandistas de droga e armas;

2018

Um veículo carbonizado e abandonado numa estrada que liga a povoação de Bin Jawwad à refinaria de Ras Lanuf, no Leste da Líbia, sob controlo das forças de Khalifa Haftar
© Moises Saman | The New York Times

Fevereiro: São descobertas significativas reservas de gás natural no Mediterrâneo Oriental, o que leva uma coligação formada pela Grécia, Chipre, Israel e Egipto a desenvolver uma infra-estrutura económica e de segurança. A Turquia considera este bloco uma ameaça aos seus interesses na região;

Agosto-Setembro: A milícia Kaniyat e outros aliados de Haftar atacam a capital, mas enfrentam oposição feroz dos dois maiores grupos armados leais ao GAN: Brigadas Revolucionárias de Trípoli e Nawasi. Um cessar-fogo declarado por Sarraj permite a reabertura do aeroporto e o regresso a casa de 25 mil desalojados;

2019

Muitas mulheres líbias ficaram viúvas em consequência da guerra que envolve actores internos e externo, e parece não ter fim 
© Giles Clarke | UN OCHA

3 Abril: António Guterres, secretário-geral da ONU, chega à Líbia para participar numa Conferência Nacional, em Ghadames, destinada a impulsionar um processo político que conduza à “paz, estabilidade, democracia e prosperidade”. No mesmo dia, apoiado por milícias do Leste, mercenários sudaneses, drones, caças e sistemas de defesa aérea, fornecidos pelos EAU e pela Rússia, Haftar inicia uma ofensiva para conquistar Trípoli, que irá causar mais de 2300 mortos;

Setembro: Alterando o equilíbrio de poder a favor de Haftar (um oficial formado na ex-URSS), “de olho em lucrativos contratos nas áreas do petróleo e da construção, mas sobretudo com o objectivo de criar bases militares no flanco sul da Europa”, Moscovo envia para a Líbia cerca de 1200 mercenários do grupo Wagner, aliado do Kremlin, mais de uma dúzia de caças e uns 2000 combatentes sírios, recrutados em áreas controladas pelas tropas de Bashar al-Assad;

27 Novembro: Cercado por Haftar e sob pressão de Ancara, Sarraj assina um acordo marítimo com a Turquia, oferecendo-lhe direitos de exploração exclusivos no Mediterrâneo Oriental;

2020

A Cidade Velha de Benghazi, berço da revolução, continua em ruínas e a maior parte permanece inacessível devido à proliferação de minas que não explodiram: durante três anos, entre 2014 e 2017, esta área esteve sob o controlo do “estado islâmico” ou Daesh
© gilesnclarke.com | UN

2 Janeiro: O Parlamento turco ratifica um acordo de segurança e cooperação militar com a Líbia, que permite assistir as forças de Sarraj, em Trípoli, com tropas no terreno, drones Bayraktar TB2, sistemas de defesa aérea Korkut e três fragatas da classe Gabya. Para a linha da frente, Ancara mobiliza também cerca de 6000 sírios, seus parceiros na guerra contra Bashar al-Assad;

18 Janeiro: Depois de se mostrar irredutível numa mini-cimeira em Moscovo e numa conferência em Berlim, Haftar encerra o oleoduto que liga os dois maiores campos de petróleo da Líbia (El-Sharara e El-Feel) à cidade costeira de Zawiya. Este bloqueio reduz a produção diária de crude de 1,3 milhões de barris para apenas 500 mil, causando perdas de 55 milhões de dólares/dia;

4-5 Junho: Numa reviravolta, as forças de Sarraj e da Turquia obrigam Haftar a retirar-se das suas últimas posições nas imediações de Trípoli e recuperam o controlo da capital, após um cerco de 14 meses.

No dia seguinte, o GAN apodera-se de Tahuna, linha de abastecimento vital do ENL, onde encontra valas comuns com mais de 200 corpos. Os massacres são atribuídos à milícia Kaniyat.

A Rússia impede que as tropas de Sarraj avancem para Sirte – a meio caminho entre Trípoli e Benghazi – e para Jufra, conquistada por Haftar em 2017.

Jufra é uma das suas principais bases militares e é onde Moscovo tem caças Mig-29, bombardeiros Sukhoi-24, mercenários Wagner, combatentes ucranianos e sérvios, além de sistemas de defesa aérea Pantsir;

Em 21 de Agosto de 2020, o governo de Sarraj, em Trípoli, e o presidente do parlamento em Tobruk, Aguila Saleh, aceitaram um cessar-fogo e eleições, legislativas e presidenciais, em 2021: foi uma surpresa, mas as incertezas abundam
© europost.eu

6-12 Agosto: Em resposta ao pacto Turquia-Líbia, Egipto e Grécia assinam um acordo que define a fronteira marítima entre ambos e delimita uma zona económica exclusiva para direitos de prospeção de gás e petróleo no Mediterrâneo Oriental.

A Turquia envia o navio de pesquisa sísmica Oruç Reis e outros dois de apoio para águas próximas da ilha grega de Kastellorizo. A França reforça a sua presença militar na região, com dois caças Rafale e uma fragata Lafayette, para pôr fim às acções “unilaterais” da Turquia;

21 Agosto – Com a Líbia mergulhada numa crise económica, agravada pela pandemia de COVID-19, e cedendo a pressões dos EUA e da Alemanha, o governo de Sarraj, em Trípoli, e o presidente do parlamento em Tobruk, Aguila Saleh, aceitam um cessar-fogo e eleições, legislativas e presidenciais, em 2021.

Sarraj diz que o fim dos combates exige “a desmilitarização de Sirte e Jufra, e um acordo de segurança” entre beligerantes. Saleh apoia a desmilitarização de Sirte – sem mencionar Jufra –, salientando que a cessação das hostilidades permitirá “travar intervenções militares estrangeiras, expulsar mercenários, dissolver milícias e restaurar a soberania nacional”.

Ambos defendem também o fim do bloqueio petrolífero imposto por Haftar. O Egipto, a Turquia e os Emirados elogiam a iniciativa.

Fontes:

Africa Security Brief nº 37;  Associated Press; Boston Review; EuroNews; france24.com; Human Rights Watch; Political Geography Now; POLITICO; Security Council Report; Stratfor; The Atlantic Council; The Burning Shores – Inside the Battle for the New Libya, de Frederic Wehrey; The Guardian; The Independent; The Washington Post; Understanding Libya since Gaddafi, de Ulf Laessing; United States Institute of Peace; War on the Rocks.

Estes artigos foram publicados originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Setembro 2020 | These articles were originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, September 2020 edition

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