Da importância de George Floyd

Ele tinha um sonho: “tocar o mundo”. E o sonho cumpriu-se. Não quando imaginava um futuro brilhante, mas na sua morte brutal, que obriga a América a penitenciar-se pelo racismo do passado e do presente – 155 anos depois de abolir a escravatura. (Ler mais | Read more…)

Um mural de homenagem pintado na parede da loja de conveniência Cup Foods, na Chicago Avenue, em Minneapolis, onde George Floyd foi assassinado
© Brian Peterson | Star Tribune | AP | nbcnews.com

To look around the United States today

is enough to make prophets and angels weep.

This is not the land of the free;

it is only very unwillingly and sporadically

the home of the brave. *

James Baldwin, I’m not your Negro

 

A vida do negro George Perry Floyd Jr, 46 anos, foi roubada em 25 de Maio, depois de um agente branco da Polícia de Minneapolis, impávido e de mãos nos bolsos, o ter asfixiado com um joelho, durante 8 minutos e 46 segundos, indiferente aos seus gritos de dor: I can’t breathe (“Não consigo respirar”).

Tudo começou ao entardecer do Memorial Day, dia em que os Estados Unidos homenageiam os seus soldados caídos em combate, quando Floyd foi comprar um maço de cigarros à Cup Foods. Às 22:01, um dos empregados desta loja de conveniência ligou para o serviço de emergência 911, queixando-se de que Floyd, interpelado num parque onde estacionara o seu SUV, havia recusado devolver o tabaco, alegadamente pago com “uma nota falsa de 20 dólares”.

Um primeiro carro-patrulha com dois agentes, Alexander Kueng e Thomas Lane, chegou às 22:08. Lane puxou da arma para exigir que Floyd colocasse as mãos no volante, e este obedeceu. Depois, ordenaram-lhe que saísse da sua viatura, algemaram-no e deram-lhe ordem de prisão.

Quando o forçaram a entrar no veículo da polícia, Floyd resistiu, em vão, dizendo que era claustrofóbico. Chegaram, entretanto, mais duas viaturas, a terceira trazendo os agentes Tou Thao e Derek Chauvin, que assumiu o comando.

Às 22:19, Chauvin retirou Floyd do carro-patrulha onde fora detido à força, fazendo-o cair com o rosto no alcatrão. Floyd implorou pelo menos 16 vezes: I can’t breathe. Quando avisou, I’m about to die (“Estou a morrer”), Chauvin respondeu: “Relaxa”. Floyd suplicou: “Por favor, solte o joelho do meu pescoço. Não consigo respirar.”

Às 20:22, os agentes requisitaram uma ambulância, “sem urgência”. Sangrando do nariz, Floyd queixou-se novamente: “Dói-me o estômago, dói-me o pescoço, dói-me tudo.” Pediu água e rogou: “Não me matem!”

Às 22:27, quando a ambulância chegou, Chauvin manteve o joelho sobre o pescoço de Floyd durante mais um minuto, enquanto os paramédicos mediam a pulsação do detido, já silencioso e imóvel. Foram chamados os bombeiros, mas os agentes não os ajudaram a localizar a ambulância, onde Floyd sofreu uma paragem cardíaca. Às 21:25, foi declarado o óbito, no Hennepin County Medical Center.

Theo Ponchavelli usou tinta em spray para criar este grafito em Dallas, no Texas, que imortaliza o momento agonizante em que George Floyd é morto pelo agente da polícia Derek Chauvin
© Tony Gutierrez | AP | insider.com

O primeiro relatório do Departamento da Polícia de Minneapolis omitiu quase todos os pormenores filmados por testemunhas, em particular o joelho de Chauvin sobre o pescoço da vítima. A primeira autópsia negou sinais de “asfixia traumática” ou “estrangulamento”.

Em 1 de Junho, porém, nas conclusões finais e após dois exames forenses independentes requeridos pela família, o principal médico legista concluiu que a morte de Floyd foi “um homicídio, provocado por paragem cardiopulmomar, enquanto estava a ser dominado” pelos agentes que o submeteram a uma “compressão do pescoço”.

Chauvin só foi detido em 29 de Maio, já os protestos contra a brutalidade e impunidade da polícia alastravam por Minneapolis, depois de um vídeo posto a circular nas redes sociais ter criado choque e repulsa. Embora tenha sido o primeiro agente branco no estado do Minnesota a ser incriminado pela morte de um negro, Chauvin foi, inicialmente, apenas acusado de “homicídio em terceiro grau e homicídio involuntário de segundo grau”.

Em 3 de Junho, após ter tomado conta do caso, o procurador Keith Ellison alterou as acusações contra Chauvin, para que incluíssem “homicídio em segundo grau”. Acusou também os restantes três agentes de “cumplicidade em homicídio de segundo grau”.

Tributo do artista de rua Akse a George Floyd, em Manchester, no Reino Unido; assim que o mural ficou concluído, muitas pessoas ali foram colocar cartas e flores
© Christopher Furlong | Getty Images | insider.com

A morte de Floyd teve, no imediato, um impacto maior do que o do assassínio, em 1967, do reverendo Martin Luther King Jr., o activista dos direitos cívicos cujo manifesto, I Have a Dream (“Eu tenho um sonho”), obrigou a América a fazer um exame de consciência. “Quero que os meus filhos sejam julgados pelo teor do seu carácter e não pela cor da sua pele”, proclamou King.

Hoje, ao movimento Black Lives Matter (BLM, Vidas Negras Importam), que comanda os protestos, não basta contrição por séculos de injustiça, desigualdade e segregação.

Nas ruas, centenas de milhares de pessoas exigem mudanças concretas. Até porque, ao contrário do que em 1971 cantava Gil Scott Heron, The Revolution Will not be Televised, a atual rebelião está a ser transmitida por uma potente arma: os telemóveis.

Foi um vídeo gravado por Darnella Frazier, uma jovem negra de 17 anos, que imortalizou o martírio de Floyd.

Uma morte que, desde logo, congregou multidões de várias raças, religiões e classes sociais num grito colectivo pela dignidade humana.

Uma morte que exige a proibição de métodos cruéis de policiamento, a demissão e condenação de agentes abusadores, a reabertura de casos suspeitos arquivados.

Uma morte que obrigou políticos a delinear reformas urgentes. Uma morte que compeliu indivíduos, empresas e instituições a fazer mea culpa, por palavras, actos e omissões.

Uma morte que remove símbolos e derruba estátuas de esclavagistas e colonizadores, porque uma nova geração de negros reclama o seu devido lugar nos livros de História.

Graffito produzido pelo pintor Fouad Hachmi e a sua equipa ‘CNN199’ e tributo a George Floyd e a todas as vítimas da brutalidade policial, em Grimbergen, Bélgica
© Stephanie Lecocq | EPA | EFE | artnews.com

Ainda hoje, manuais escolares nos EUA ignoram ou subvalorizam acontecimentos traumáticos, como o Massacre de Tulsa em 1921, quando, em dois dias de terror, supremacistas brancos do Ku Klux Klan (KKK) mataram mais de 300 pessoas negras e queimaram centenas de casas e negócios na próspera “Black Wall Street”.

Até à morte de Floyd, muitos brancos americanos nunca tinham ouvido falar no Juneteenth (fusão de “June” e “nineteenth”), a celebração do dia 19 de Junho de 1865, quando o general da União, Gordon Granger, chegou a Galveston, no Texas, para anunciar o fim da Guerra Civil e a libertação de todos os escravizados, dois meses depois da rendição do general da Confederação, Robert E. Lee, e mais de dois anos após a Proclamação da Emancipação, que o presidente Abraham Lincoln assinara em 1 de Janeiro de 1863.

Volvidos 155 anos, a América negra interroga-se por que é que o seu Dia da Liberdade se mantém um feriado estadual no Texas, não merecendo o tributo reservado à Confederação e a Robert E. Lee, homenageados em bandeiras e esculturas, monumentos e estradas, moedas e selos, parques e hotéis, navios e submarinos, liceus e universidades – da Virgínia à Carolina do Norte.

Foi aqui, na Carolina do Norte, em Fayeteville, que George Floyd nasceu, embora tenha crescido em Third Ward Cuney Homes, um bairro social conhecido como “Bricks”, onde a mãe, Larcenia “Cissy” Floyd, separada do marido, criou filhos e netos e se tornou num dos membros mais activos da comissão de moradores.

George Floyd homenageado em Kibera, o maior bairro bairro de lata de Nairobi, no Quénia; no mural está escrito “justiça”, na língua swahili
© Baz Ratner | Reuters

Para os amigos, Floyd era “Big Floyd”, porque o seu 1,94m a todos impressionava. Para a família, era o Superman, que concluiu o ensino secundário na Jack Yates High School, onde, atleta exímio, elevou a equipa de futebol a um campeonato estadual – uma proeza no Texas.

O desporto poderia ter salvado Floyd da pobreza. Aos 17 anos, ansiava por “tocar o mundo”, ser um basquetebolista famoso na NBA, como o seu ídolo LeBron James, ou um futebolista célebre da NFL.

Foi o primeiro dos irmãos a ser admitido, em 1993, numa universidade (South Florida Community College) e a obter uma bolsa de estudos. Em 1995, foi treinar basquetebol para o campus de Kingsville da Texas A&M University, mas abandonou os estudos.

Sem um diploma, o “gigante gentil” regressou a Houston e a “Bricks”, onde drogas e gangues matavam muitos jovens, alguns antes de chegar aos 20 anos. Mas “Bricks” também inspirava artistas, como Beyoncé, e Floyd, com a sua voz rouca de Ray Charles, integrou um grupo de hip-hop.

Não bastou para o livrar de apuros. Passou pelo menos uma década em várias penitenciárias. Libertado em 2013, procurou refúgio na Igreja da Ressurreição, em Houston, determinado a ser líder comunitário e exemplo para os cinco filhos.

George Floyd homenageado numa rua de Barcelona, em Espanha
© Pau Barrena | AFP | Getti Images

A estrada para a redenção levou-o até St Louis Park, no Minnesota, onde foi partilhar um duplex com dois colegas. No seu quarto, debaixo da almofada, guardava uma Bíblia, que costumava ler em voz alta, relata o New York Times.

Em 2017, foi contratado como guarda de um centro para pessoas sem abrigo do Exército de Salvação. Posteriormente, arranjou um emprego como camionista e outro como segurança num restaurante-danceteria, onde os clientes adoravam a sua simpatia e sentido de humor.

A pandemia de Covid-19, infectou-o e deixou-o sem trabalho, quando o governador ordenou o confinamento social.

No dia 9 de Junho, quando duas fileiras de agentes saudaram o caixão de George Floyd, à entrada da Igreja Fonte de Louvor (Fountain of Praise), em Houston, antes de o seu corpo ser sepultado ao lado da campa da mãe que ele tanto admirava e a quem pediu socorro enquanto o matavam, muitos rezaram para que ele tivesse sido a última das mais recentes vítimas de brutalidade policial.

A lista é longa: Rodney King, em 1991; Amadou Diallo, em 1999; Sean Bell, em 2006; Anthony Lamar, em 2001; Jonathan Ferrell, em 2013; Eric Garner, Michael Brown e Tamir Rice, em 2014; Walter Scott e Freddie Gray, em 2015; Alton Sterling, Korryn Gaines e Pillando Castille, em 2016; Stephon Clark e Antwon Rose, em 2018; Elijah McCalin, em 2019; ou Breonna Taylor, em Março de 2020.

Mas não. No sábado 13 de junho, em Atlanta, o negro Rayshard Brooks, 27 anos foi morto, com duas balas nas costas, no dia de aniversário de uma das suas três filhas, às quais deu os nomes de Blessing (Bênção), Memory (Memória) e Dream (Sonho).

Tinha adormecido e estava a congestionar o drive-in de um parque de estacionamento. O encontro com a polícia, que se iniciou cordial e terminou fatal, durou 41 minutos e 17 segundos.

Os artistas Aziz Asmar e Anis Hamdoun pintaram um mural de George Floyd nas ruínas de uma casa bombardeada pelo regime de Bashar al-Assad, em Idlib, na Síria
© Izzeddin Idilbi | Anadolu Agency | Getty Images

Submetido primeiro a um teste de alcoolemia, cujo resultado o interditava de conduzir, foi-lhe dada ordem de prisão, sem lhe terem sido lidos os seus direitos, como a lei requer. Assustado, Brooks resistiu, apossou-se do taser de um agente, disparou-o e tentou fugir. Um outro polícia pegou na sua Glock de 9mm e alvejou-o, regozijando-se: “Apanhei-o!”.

Antes da morte de Floyd, talvez nenhum dos agentes fosse punido. Mas, aparentemente, já não é possível ignorar os clamores de justiça.

O chefe da polícia de Atlanta demitiu-se logo após o tiroteio. Garrett Rolfe, o agente que baleou e pontapeou Brooks quando o corpo deste jazia ensanguentado no pavimento, foi despedido e enfrenta 11 acusações, incluindo homicídio. Se considerado culpado em tribunal, pode ficar em prisão perpétua.

George Floyd tinha um sonho…

 

* Olhar hoje para os Estados Unidos

é o suficiente para fazer chorar profetas e anjos.

Esta não é a terra dos livres;

é apenas a contragosto e esporadicamente

a terra dos corajosos.

(Tradução livre)

George Floyd e a sua filha Gianna
© ABC News

Este artigo foi publicado originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Julho-Agosto de 2020 | This article was originally published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, July-August 2020 edition

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