Afeganistão: A pandemia que ameaça a paz

Cansados de guerras, 89% dos afegãos apoiam o “acordo histórico” entre os Estados Unidos e os Talibã. Mas a esperança neste processo, que promete a retirada das tropas estrangeiras e recomenda uma partilha de poder entre líderes rivais, está a ser abalada por um novo e mais insidioso inimigo: a COVID-19. (Ler mais | Read more…)

Um mural evocativo da assinatura de um “acordo de paz” entre o enviado americano, Zalmay Khalilzad, e o líder os Talibã, Mullah Abdul Ghani Baradar – a violência continua no Afeganistão acompanhada de um novo inimigo: a COVID-19
© Mohammad Ismail | Reuters | The New York Times

Said Sabir Ibrahimi, que nasceu e cresceu em Cabul, olha para o acordo Estados Unidos-Talibã e exalta-o como “o primeiro grande passo no processo de paz afegão”. Mas, depois, vê a COVID-19 a propagar-se num país “com um dos sistemas de saúde menos funcionais da região”, e avisa: “A pandemia poderá ser mais desastrosa do que a insurreição”.

Assinado em Doha, capital do Qatar, em 29 de Fevereiro, pelo emissário dos EUA, Zalmay Khalilzad, e pelo vice-líder dos Talibã, Mullah Abdul Ghani Baradar, o “Acordo para Levar a Paz ao Afeganistão” pretende ser o princípio do fim da “mais longa guerra da América”.

Um conflito iniciado em 7 de Outubro de 2011 como represália pelos ataques terroristas da Al-Qaeda em 11 de Setembro, e que, em quase duas décadas, causou dezenas de milhares de mortos.

O pacto histórico com os Talibã foi testemunhado por ministros e diplomatas de cerca de 30 países. Não esteve presente qualquer membro do Governo afegão, cuja legitimidade os Talibã não reconhecem.

Por isso, no mesmo dia, em Cabul, foi assinada uma “Declaração Conjunta entre a República Islâmica do Afeganistão e os Estados Unidos para Levar a Paz ao Afeganistão” – um acordo para garantir que só há um governo, o reconhecido pelas Nações Unidas e não o “Emirado Islâmico do Afeganistão”, como os Talibã se designam.

Quais foram as concessões dos americanos aos Talibã? Uma redução no número de militares estrangeiros, dos actuais 13.000 para 8600 num prazo de 135 dias, e uma retirada total até Abril de 2021; o fim das sanções aos Talibã ainda este ano – as da ONU até 29 de Maio e as dos EUA até 27 de Agosto; convencer o governo afegão a uma troca de prisioneiros – 5000 Talibã por 1000 “da outra parte”; a promessa de “não violar a soberania do Afeganistão com ameaça de força, uso da força ou ingerência nos assuntos internos afegãos”.

Em contrapartida, os Talibã comprometem-se em travar ameaças à segurança dos EUA e seus aliados, por parte de grupos como a Al-Qaeda, que não poderão usar o território afegão como santuário. Em 2001, os EUA invadiram o Afeganistão e derrubaram o regime dos Talibã, porque estes tinham oferecido refúgio à organização de Osama bin Laden e recusado extraditá-lo.

Os principais termos do acordo de Doha prevêem ainda negociações intra-afegãs para um consenso político. Muitos analistas olham, todavia, para as cedências aos Talibã como uma capitulação, apesar das garantias de que os EUA continuarão a apoiar as forças de segurança e outras instituições afegãs, porque lhes interessa a estabilidade regional.

Zalmay Khalilzad (à esq.) e o Mullah Abdul Ghani Baradar assinam, em Doha (no Qatar), o “acordo histórico” entre os EUA e os Talibã – do qual o Governo afegão foi excluído
© Hussein Sayed | AP | nebcnews.com

Said Ibrahimi, investigador ligado ao Projecto Regional Afeganistão-Paquistão do Centro de Cooperação Internacional da Universidade de Nova Iorque, confia-me, por e-mail, que “a paz pode ser garantida se o Governo [afegão], as várias facções políticas e os Talibã aceitarem um compromisso político, apoiado por actores regionais”.

Mais pessimista, Marvin G. Weinbaum, director para o Afeganistão e Paquistão no Middle East Institute em Washington, diz-nos que o acordo com os Talibã “tem pouco a ver com a paz e é, sobretudo, uma cobertura política para os EUA saírem em segurança e sem humilhação”.

“Decidida a proceder a uma retirada, a Administração Trump aceitou um acordo com falhas graves e a continuação da violência”, lamenta Weinbaum, que foi analista no Departamento de Estado americano e hoje é professor emérito de Ciência Política na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign.

“A retirada das forças estrangeiras e, em particular, de poder aéreo, conduzirá à dissolução das forças de segurança afegãs num curto espaço de tempo.”

“Mais do que uma consolidação do poder dos Talibã, como aconteceu nos anos 1990, temos agora os ingredientes para um caótico conflito civil”, realça Weinbaum. “A partilha de poder é impossível, porque os Talibã só estão interessados em dominar e em restaurar o seu emirado. Nunca disseram que aceitariam outra coisa.”

“E mesmo que a sua ideia de partilha de poder seja a de um governo mais inclusivo, vão querer ditar as condições para a sua formação: nada que assente, com toda a certeza, na soberania popular, no pluralismo e nas instituições que lhes são associadas.”

Quanto às conversações intra-afegãs, “por muito tempo que se arrastem nunca resultarão num bom acordo”, afirma o céptico Weinbaum. “Aos Talibã só interessa a legitimidade que [o diálogo] lhes conferirá, ao mesmo tempo que prosseguem a sua campanha militar”.

Entre as principais críticas que têm sido feitas ao emissário Khalilzad estão as de não ter exigido aos Talibã o corte de relações com a Al-Qaeda (são apenas intimados a “não cooperarem”). A Al-Qaeda celebrou o acordo EUA-Talibã como uma derrota dos americanos, “mas isso era expectável”, admite Said Ibrahim.

“Não é de esperar uma ruptura dos laços bilaterais, porque a liderança da Al-Qaeda jurou lealdade aos dirigentes Talibã e há uma grande camaradagem entre os dois grupos desde há quase três décadas”.

Os Talibã não têm qualquer incentivo para abraçar um acordo que não lhes exige concessões, e a razão é esta: eles acreditam que estão a vencer”, escreveu, no diário The Washington Post, Douglas London, ex-oficial da CIA
© Associated Press

Outra crítica que é feita aos EUA é a de não ter deixado explícito que, continuando os actos de violência, Washington continuará a intervir para proteger a vulnerável população afegã e não apenas as suas tropas e as dos seus aliados.

Por outro lado, ao incluir no Acordo de Doha (mas não na Declaração de Cabul) uma cláusula sobre a libertação de 5000 prisioneiros Talibã, alguns deles líderes do movimento, o mediador americano também retirou ao Governo afegão “o seu principal trunfo” para obrigar os insurrectos a sentar-se à mesa das negociações sem reivindicações maximalistas.

“Os Talibã não têm qualquer incentivo para abraçar um acordo que não lhes exige concessões, e a razão é esta: eles acreditam que estão a vencer”, escreveu, no diário The New York Times, Douglas London, ex-oficial da CIA.

“Os Talibã têm vindo a retirar ao Governo o controlo das zonas rurais [onde vive 71,5% dos 31,6 milhões de habitantes] e, com isso, apoderam-se das estradas necessárias ao reabastecimento das áreas urbanas.”

“E, embora as autoridades em Cabul clamem que têm o apoio da maioria da população – sobretudo nas grandes cidades –, os Talibã continuam a expandir o território sob seu domínio. Por que hão-de de aceitar o que possa travar a sua inevitável marcha para o poder? O tempo joga a seu favor.”

Os Talibã aproveitaram-se da rivalidade entre Ashraf Ghani (à direita) e Abdullah Abdullah, ambos reivindicando vitória nas eleições presidenciais de Fevereiro
© Reuters | rferl.org

Os antigos senhores de Cabul também se estão a aproveitar da rivalidade entre Ashraf Ghani e Abdullah Abdullah, ambos reivindicando vitória nas eleições presidenciais de Fevereiro último. Já em 2014, os EUA tiveram de intervir para que os dois aceitassem partilhar o poder: Ghani tornou-se presidente e Abdullah o chefe do Executivo.

Desta vez, nenhum deles parece querer recuar, apesar de Washington já ter reduzido em mil milhões de dólares a sua ajuda para os forçar a um entendimento.

“Abdullah alega que as eleições foram mal organizadas e falsificadas”, explica o investigador Said Ibrahimi. “Ghani nem sequer desmente que houve irregularidades. Abdullah quer entrar no governo em pé de igualdade e com poderes executivos.”

“Ghani não quer um governo com dois chefes. O problema mais complicado é a estrutura do Governo – um sistema altamente centralizado em que o presidente detém demasiados poderes. Uma solução poderá ser um novo governo de unidade nacional.”

“A crise política entre Abdullah e Ghani é tão perigosa como a ameaça que os Talibã representam”, alerta Ibrahimi. “Se não houver acordo para a criação de um ‘governo inclusivo’, não poderemos excluir a possibilidade de uma guerra civil. Se o impasse se arrastar, os representantes de Cabul ficarão numa posição debilitada nas negociações com os Talibã.”

“O sistema pós-2001 apesar dos seus defeitos, permitiu muitos progressos”, enaltece o investigador afegão Said Ibrahimi. “Nove milhões de crianças frequentam a escola, 35% das quais são meninas” – algo que contraria a doutrina dos Talibã
© Jim Huylebroek | The New York Times

Uma sondagem da Asia Foundation, citada por Ibrahimi no site da cadeia de TV afegã TOLOnews, revela que 93,1% dos afegãos temem o regresso dos Talibã. Nos anos 1990, a economia entrou em colapso e “as rações fornecidas pela ONU eram a única fonte alimentar de grande parte da população”.

Os residentes da capital “tinham de ir a um posto de correios para fazer uma chamada internacional”. A polícia “da virtude contra o vício” espancava mulheres em público, acusando-as de “imodéstia” se não usassem a burqa.

Os homens eram presos se “aparassem as longas barbas”. Aos ladrões eram cortadas as mãos. Os “adúlteros” eram apedrejados e os condenados executados em campos de futebol. Estas regras “continuam a ser praticadas nas áreas subjugadas pelos Talibã”, atenta Ibrahimi.

“O sistema pós-2001 apesar dos seus defeitos, permitiu muitos progressos”, adianta o investigador afegão. “Nove milhões de crianças frequentam a escola, 35% das quais são meninas. O Afeganistão tem a imprensa mais livre da região, com dezenas de rádios e televisões, jornais e revistas privados. Vinte milhões de pessoas têm telemóveis.”

“Há no país uma dúzia de universidades particulares. Os afegãos também se têm destacado em várias áreas, como a cultura, o desporto e as artes marciais – em que competem atletas femininas. Tudo isto significa não apenas uma mudança temporária, mas uma profunda alteração em termos sociopolíticos e de mentalidade.”

Sob a teocracia dos Talibã, refere Ibrahimi, nunca teria sido possível a eleição de um presidente ou uma transferência pacífica de poderes. “Não quer isto dizer que o regime pós-Talibã seja perfeito. Das quatro eleições presidenciais, três foram manchadas por fraudes maciças.”

A economia afegã baseia-se na maior produção global de ópio (82%, segundo as Nações Unidas apesar dos 9000 milhões de dólares gastos, desde 2001, para convencer, em vão, os agricultores a destruir as suas safras – o narcotráfico e a extorsão são as maiores fontes de rendimento dos Talibã)
© Muhammad Sadiq | European Pressphoto Agency | The New York Times

“O Afeganistão continua a ser um dos dez países mais corruptos do mundo [em grande medida, reconhecem responsáveis americanos ouvidos pelo Washington Post, porque ‘os milhões de dólares esbanjados diariamente’ pelos EUA para a reconstrução ‘fomentaram uma cleptocracia entre as elites’].

“A economia baseia-se na maior produção global de ópio [82%, segundo a ONU, apesar dos 9000 milhões de dólares gastos, desde 2001, para convencer, em vão, os agricultores a destruir as suas safras – o narcotráfico e a extorsão são as maiores fontes de rendimento dos Talibã].”

O estudo da Asia Foundation indica que 66,1% dos afegãos aprova a “quase-democracia” instaurada após a invasão americana. Por exemplo, 86% apoiam a educação das mulheres e 76% são favoráveis a que trabalhem fora de casa. Como entender, então, que 89% aceitem negociações com o grupo de fanáticos que tenciona restaurar um “emirado” tirânico?

“Sim, as pessoas estão receosas, sobretudo as mulheres, as minorias e os que vivem nas grandes cidades, porque preferem uma democracia”, diz-me Ibrahimi. “O regime dos Talibã era pior do que as ditaduras actuais. Os cidadãos também estão preocupados com as consequências económicas de um regresso dos Talibã.

“Se estes tentarem reconquistar o poder pela força, é muito provável que a comunidade internacional se retire e corte a ajuda ao desenvolvimento. Em todo o caso, a maioria dos afegãos apoia conversações com os Talibã porque anseia pelo fim do sofrimento.”

“E porque eles representam uma parte da sociedade, ainda muito conservadora. Embora a sua principal base seja o Paquistão [o grande patrono], nem todos os Talibã são estrangeiros. O grupo também conta com apoio no Afeganistão.”

Entre as poucas coisas que “correram bem” no Afeganistão, o académico Martin Weinbaum inclui a escolha de Hamid Karzai, em 2014, para presidente do Afeganistão
© Paula Bronstein | The New York Review of Books

O ressurgimento dos Talibã depois de, em 19 anos, os EUA terem investido mais de 2 biliões de dólares para estabilizar o Afeganistão obriga à pergunta: o que correu mal e o que correu bem? Responde-nos o académico Marvin Weinbaum:

– “O que correu bem foi figuras poderosas terem sido capazes de [em 2002], sob pressão de potências externas, aceitar [numa conferência em] Bona um projecto de governo, na altura com Hamid Karzai como presidente interino, e uma Constituição.”

“Também foi uma vantagem óbvia contar com apoio popular e realizar eleições presidenciais em 2004, sem controvérsia. Nesses primeiros anos, tudo parecia fluir bem, porque os afegãos aceitaram não só Karzai, mas também a presença de forças internacionais.”

“Muitos [incluindo responsáveis militares americanos] acreditam que o erro fatal foi a ausência dos Talibã em Bona”, diz Weinbaum.”

Alguns dos insurrectos quiseram render-se e fazer parte das conversações na Alemanha, mas uma ufana Administração Bush preferiu classificá-los de terroristas e emitir mandados de captura. Ironia do destino: alguns dos que foram encarcerados em Guantánamo fazem agora parte da equipa que negoceia com Khalilzad.

Martin Weinbaum acha que “teria sido impossível” um acordo tão amplo em Bona se os Talibã lá estivessem. “Os representantes da Aliança do Norte [que os derrubaram em Novembro de 2001] jamais se sentariam à mesa com aqueles contra os quais combateram durante 7 anos e que consideravam uma força derrotada”, justifica.

Um dos problemas da intervenção dos EUA é nunca terá havido consenso sobre quem era o inimigo: a Al-Qaeda, que planeou e cometeu os ataques de 11 de Setembro de 2001, ou os Talibã, que apenas ofereceram um santuário a Bin Laden? (Na foto, soldados do Exército Nacional Afegão
(à esquerda) e soldados americanos destroem uma base dos Talibã na província de Kandahar, em Fevereiro de 2013
© Bryan Denton | Getty Images | The New York Times

Para o politólogo que é autor ou coordenador de seis livros e mais de 100 artigos científicos, o maior erro “foi os EUA terem mudado, quase imediatamente, a sua atenção para o Iraque [de Saddam Hussein, falsamente acusado de ter ‘armas de destruição maciça’], acreditando que já não havia ameaças no Afeganistão.”

“Outra coisa que correu mal foi recusa dos EUA, desde o início, em permitir que tropas internacionais se envolvessem na segurança do país”, adianta o académico americano. “Isso permitiu o reaparecimento de ‘homens fortes’ regionais.”

“Depois, quando a insurreição parecia ganhar ímpeto em 2005-2006, não se fizeram as mudanças necessárias na estratégia de contra-insurreição, apesar de se ter aumentado o número de soldados e criado um comando mais unificado sob a liderança da NATO.”

Um responsável governamental americano desabafou ao Washington Post: “Havia tantas prioridades e aspirações que deixou de haver qualquer estratégia.”

Uns queriam transformar a cultura afegã, para dar mais direitos às mulheres; outros apostavam na reconstrução e na democracia; e outros ainda queriam alterar o equilíbrio regional de forças entre Paquistão, Índia, Irão e Rússia.

Também nunca terá havido consenso sobre quem era o inimigo, como constata ainda o Washington Post: “A Al-Qaeda, que planeou e cometeu os ataques de 11 de Setembro, ou os Talibã, que apenas ofereceram um santuário a Bin Laden? O Paquistão, patrono dos Talibã, é aliado ou adversário? E como classificar o Daesh e outros grupos jihadistas, para não falar dos ‘senhores da guerra’ financiados pela CIA?” A Administração americana “nunca encontrou uma resposta”.

O Afeganistão, onde incessantes combates e desastres naturais contribuíram para a prevalência de doenças como o sarampo e a poliomielite, “não tem capacidade para enfrentar sozinho” um novo inimigo: a COVID-19, diz o investigador Said Ibrahimi
© Associated Press

Agora, o país onde quase ¼ da população (9,4 milhões) necessita de ajuda humanitária tem pela frente um inimigo mais implacável: a pandemia de COVID-19.

Em 25 de Março, o ministro da Saúde, Ferozuddin Feroz, estimava que 80% dos afegãos, ou seja, 25 milhões, poderia contrair o novo coronavírus. A província com mais casos de infectados é a de Herat, fronteiriça com o Irão, de onde regressam milhares de migrantes e refugiados.

Mas a doença está a disseminar-se, afirma Said Ibrahimi, que não perde a esperança de ver os Talibã declarar tréguas, pelo menos nas áreas sob seu domínio.

O Afeganistão, onde incessantes combates e desastres naturais contribuíram para a prevalência de doenças como o sarampo e a poliomielite, “não tem capacidade para enfrentar sozinho este vírus”, enfatiza Ibrahimi. “Mesmo em condições normais, muitos afegãos deslocam-se ao Paquistão, ao Irão, à Turquia ou à Índia para tratamentos médicos.”

“O Governo atribuiu fundos a hospitais e apelou ao confinamento social, mas 50% das pessoas são pobres e têm de sair de casa para ganhar a vida. É preciso maior apoio da comunidade internacional e da elite rica afegã, para que haja mais acesso a testes, ventiladores, máscaras e equipamento de protecção individual, mas também alimentos. Temos de entender que a COVID-19 e o terrorismo são fenómenos transnacionais e precisam da atenção internacional.”

Marvin Weinbaum está tão pessimista como os que prevêem um impacto tão devastador como o que teve no Afeganistão comunista o colapso da URSS em 1991: “O coronavírus vai acelerar a partida das forças estrangeiras, se as condições de saúde se agravarem muito. Assim que os EUA se retirarem, haverá um vazio de poder que muitos países tentarão ocupar.”

“É certo que os vizinhos preferem estabilidade e não têm interesse numa desintegração do Afeganistão. Mas se houver uma caótica guerra civil, o Paquistão, o Irão, a Rússia, mas também a Índia e a Arábia Saudita, serão arrastados para um conflito por procuração. Quanto à Al-Qaeda e ao Daesh [a sua ‘filial’ afegã chama-se Estado Islâmico na Província de Khorassan], vão aproveitar-se para instalarem novas bases operacionais.”

A esperança de Ibrahimi e Weinbaum está numa “cooperação global”. Ambos acreditam que, embora o lema da Administração Trump seja “A América primeiro”, esta tem-se mostrado disponível para colaborar com a ONU e actores regionais com vista a uma solução política. Resta saber se os Talibã estarão interessados numa mediação internacional que, certamente, não se inclinará para um regresso às trevas.

Said Sabir Ibrahimi é investigador ligado ao Projecto Regional Afeganistão-Paquistão do Centro de Cooperação Internacional da Universidade de Nova Iorque
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Marvin G. Weinbaum, actual director para o Afeganistão e Paquistão no Middle East Institute em Washington, foi analista no Departamento de Estado americano. Hoje é também professor emérito de Ciência Política na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign
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História de uma nação indomável

Muitos descrevem o Afeganistão como um “cemitério de impérios”. E foram muitos os invasores derrotados: Mauryas, Guptas, Macedónios, Sassânidas, Kushans, Abássidas, Ghaznavids, Mongóis, Timuridas, Mogóis, Safávidas, Uzbeques Shaybani, Britânicos, Sikhs, Soviéticos. Não tem sido fácil combater, conquistar e governar este lugar de montanhas e desertos inóspitos, invernos rigorosos e guerreiros orgulhosos.

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Século X: O nome “Afeganistão” surge, pela primeira vez, num livro de geografia persa, Hudud al-‘Alam (Fronteiras do Mundo”), para definir a região que hoje se designa por “Área Fronteiriça Afeganistão-Paquistão”. Naquela altura, uma grande parte do que é hoje o Afeganistão, incluindo Cabul, Balkh e Herat, pertencia à região de Khorasan, na Pérsia Oriental;

1721: Mirwais Khan (1673-1715) líder da confederação tribal Ghilzai, conquista Kandahar aos persas Safávidas e cria a dinastia Hotaki. O seu império é rapidamente absorvido pelo Xá Nadir Khan Afshar, cuja cavalaria é comandada por Ahmad Shah Abdali, um kandahari do clã Saddozai e da tribo rival Popalzai;

1747: Nadir é assassinado e Abdali regressa a Kandahar, para se tornar o primeiro monarca afegão. Assume o título de Padshah-i Durr-i Durran – “Rei da pérola das pérolas”. Os Abdali mudam o seu nome para “Durrani”, e Ahmad Shah Durrani (1722-1772) cria um Estado com capital em Kandahar;

1809: Shah Shuja Durrani (1780-1842), que assumira o trono em 1803, assina um tratado com a Companhia Britânica da Índia Oriental para prevenir uma invasão franco-russa da Índia. Semanas depois, é deposto por Shah Mahmoud Khan, do clã pashtun rival Barakzai;

1826: Dost Mohammad Khan (1793-1863) assume o poder em Cabul e o clã Barakzai destrona o clã Durrani;

1839: Forças britânicas invadem o Afeganistão, derrubam Dost Mohammad e voltam a colocar no poder Shah Shuja. Segue-se a I Guerra Anglo-Afegã e uma rebelião alastra pelo país;

1842: Combatentes afegãos leais a Dost Mohammad massacram 4500 soldados britânicos e indianos quando estes se retiram de Cabul. Shah Shujah, é assassinado e o clã Barakzai assume o poder;

1878-1879: Início da II Guerra Anglo-Afegã (foto), depois de o emir Sher Ali Khan (1825-1879), filho de Dost Mohammad, ter reforçado os laços com a Rússia. Com o avanço das forças britânicas em direcção a Cabul, Sher Ali abandona a cidade e pede asilo à Rússia. Deixa o trono ao filho Mohammad Yakub Khan (1849-1923), que assina o Tratado de Gandamak, oferecendo aos britânicos o controlo da política externa afegã. O Afeganistão é oficialmente referido, pela primeira vez, como um Estado e não apenas uma região. Em 1879, uma revolta contra este acordo força Yaqub Khan a abdicar.

© History Today

1880-1901: Abdul Rahman Khan (1844-1901), neto de Dost Mohammad, torna-se emir e unifica o país, transformando-o de uma monarquia tribal, com uma administração feudal-militar, numa monarquia absoluta dinástica, com uma administração centralizada. Reprime mais de 40 revoltas – quatro delas por ele caracterizadas como guerras civis. Incorpora novas regiões, tribos e grupos étnicos, através de casamentos, criando uma elite política nacional. Em 1901, morre no seu leito, deixando o trono ao filho Habibullah Khan, que introduz várias reformas, designadamente a criação das primeiras escolas (só para rapazes);

1919: Talvez por se manter neutral durante a I Guerra Mundial, Habibullah é assassinado, em 20 de Fevereiro. Sucede-lhe Amanullah Khan (1892-1960), o filho mais novo. Em 6 de Maio, começa a III Guerra Anglo-Afegã, ou Guerra da Independência, quando o Emirado do Afeganistão invade a Índia Britânica. O conflito termina em 8 de Agosto com a assinatura do Tratado de Rawalpindi. O Afeganistão recupera a soberania e o controlo total dos seus negócios estrangeiros. Em troca, aceita as fronteiras coloniais (a “Linha Durand”);

1923: Amanullah Khan promulga a primeira Constituição do Afeganistão, estabelecendo uma monarquia e limitando os poderes dos líderes tribais;

1926-1932: As reformas sociais que Amanullah tenta introduzir geram revoltas tribais. Em 1929, sem subsídios britânicos e incapaz de formar um exército forte, o emir é forçado a abdicar e a exilar-se. Morre em Zurique, em 1960. O antigo general Mohammad Nadir Khan (1883-1933), do clã Barakzai, autoproclama-se rei e estabelece outra dinastia, com os seus filhos e irmãos. Em 1932, promulga uma nova Constituição que dá mais poderes às tribos;

1933: Nadir Shah é assassinado. Sucede-lhe o filho de 19 anos Mohammad Zahir Khan (na foto, o rei durante uma visita a Washington, em Setembro de 1963, ao lado o presidente John Fitzgerald Kennedy, a caminho da Casa Branca) (1914-2007), mas são os tios, Hashem Khan e Mahmud Khan, que reina, em seu nome: reforçam o exército, criam a Universidade de Cabul, fundam um banco de desenvolvimento (Bank-i Milli), entre outras medidas;

© AFP | Getty Images | The Atlantic

1953: O general Mohammed Daud Khan (1909-1978), sobrinho de Nadir Shah, toma posse como primeiro-ministro e avança com a modernização do país. Alarga a rede rodoviária, abre escolas em todas as províncias, defende a abolição do purdah, sistema que isola as mulheres em casa (ele aparece em público com a esposa, ela sem véu). Aproveitando-se da competição na Guerra Fria, tenta atrair ajuda dos dois blocos (“Sinto-me feliz por acender os meus cigarros americanos com fósforos soviéticos”, diz). Na criação do novo Exército Nacional Afegão, os EUA exigem que a sua ajuda passe pelo Paquistão, acérrimo anticomunista, adversário do Afeganistão e da Índia, visto por Washington como “o maior aliado dos aliados”. Daud Khan vira-se então para o “regime ateu” da URSS;

1963: Daud Khan é forçado a demitir-se, depois de o seu projecto de um “Grande Pashtunistão”, que incluiria territórios do Paquistão, ter irritado o vizinho, que fecha a fronteira. Perante uma crise económica, a União Soviética torna-se, pela primeira vez, o principal parceiro comercial do Afeganistão;

1964-1965: É introduzida uma monarquia constitucional, mas Zahir Shah, o rei, não partilha o poder com o parlamento: em nove anos, o país tem três eleições e quatro governos. Admite, porém, que novos partidos (etno-nacionalistas, esquerdistas e islamistas) elejam os seus líderes e se organizem. A Universidade de Cabul expande-se e abre-se a novas ideias. O véu e a burqa tornam-se raros na capital, e as mulheres começam a participar na política e no governo (na foto, duas estudantes da Faculdade de Medicina de Cabul ouvem a explicação da sua professora de Anatomia, em 1963). Em 1965, o Partido Democrático Popular do Afeganistão (PDPA), de ideologia marxista, realiza o seu primeiro congresso;

© AFP | Getty Images | The Atlantic

1973: Em Julho, enquanto Zahir Shah descansava num luxuoso spa italiano, Mohammed Daud derruba o rei, com a ajuda do exército e do PDPA, e declara-se presidente. Durante os cinco anos da sua república, tenta estabelecer um Estado de partido único, mas rejeita um governo de estilo soviético e afasta a maioria dos membros do PDPA. Também reprime o movimento islamista, forçando muitos dos seus dirigentes a exilar-se no Paquistão;

1975-1977: Os paquistaneses vingam-se de Daud instigando uma rebelião de islamistas afegãos, entre os quais se destacamGulbuddin Hekmatyar (1947-) e Ahmed Shah Massoud (1953-2001). Sabendo que a abolição da monarquia não deixara um mecanismo de sucessão pós-Daud, a URSS tenta unificar o PDPA, dividido em duas facções: Khalq (radicais) e Parcham (moderados);

1978: Em 27 de Abril, após o assassínio de um líder do PDPA, oficiais do exército ligados ao partido derrubam e matam Daud num golpe de Estado, que ficou conhecido como “Revolução Saur” (ou “Touro”, nome do mês do Zodíaco em que ocorreu). É proclamada a República Democrática do Afeganistão. Os golpistas colocam no poder os líderes da facção Khalq – Nur Mohamed Taraki (1917-1979), e Hafizullah Amin (1929-1979) -, que, durante 20 meses, cometem inúmeras atrocidades. Pelo menos 12 mil pessoas são executadas nas prisões de Cabul e outras 50 mil em zonas rurais. A repressão tem “objectivos progressistas”: distribuir terras aos pobres, garantir direitos iguais às mulheres, acabar com o analfabetismo. É feroz a oposição de grupos de mujahedin (plural árabe de mujahid, com significado de “os que combatem uma guerra santa pelo Islão”);

1979: Em 4 de Fevereiro, rebeldes maoístas raptam e matam o embaixador americano, Adolph Dubs. Os EUA cortam de imediato todo o auxílio ao Governo afegão. Em 3 de Julho, o presidente Jimmy Carter autoriza a Operação Cyclone, para fornecer ajuda não-militar aos mujahedin. Em Dezembro, cerca de 100 mil soldados soviéticos invadem o Afeganistão (na foto, soldados de Moscovo, em Janeiro de 1980, na cidade de Gardez), para estabilizar o regime e combater os mujahedin. Babrak Karmal, (1929-1996), dirigente da facção Parcham do PDPA, assume a presidência da república;

© Alain Mingam | Gamma-Rapho | Getty Images | The New York Times

1980: Carter autoriza a CIA a fornecer armas aos mujahedin, que também recebem apoio militar do Paquistão, da China, da Arábia Saudita e de alguns Estados europeus;

1981: Em Janeiro, Ronald Reagan, o sucessor de Carter, reforça a ajuda aos mujahedin, para mais de 3000 milhões de dólares, num período de seis anos;

1982: O número de afegãos que se refugia no Paquistão e no Irão totaliza por esta altura cerca de 4,5 milhões;

1984-1985: O milionário saudita Osama bin Laden (1957-2011) junta-se a compatriotas e outros árabes para lutar ao lado dos mujahedin afegãos, os quais, numa reunião no Paquistão, formam uma aliança contra as tropas soviéticas;

1986: A CIA começa a fornecer mísseis Stinger aos mujahedin para abaterem helicópteros soviéticos, dando-lhes vantagem na guerra;

1987: Mohammad Najibullah (1947-1996), membro da facção Parcham do PDPA, implacável chefe da polícia secreta afegã KHAD (equivalente ao KGB soviético), substitui Babrak Karmal como líder do partido e presidente. Mostra-se disponível para criar um governo de coligação. Realiza eleições locais e aceita legalizar partidos da oposição, desde que não se oponham aos laços com a URSS. Aprova uma nova Constituição, que reduz os poderes presidências e cria uma Assembleia Nacional (Senado e Câmara de Representantes);

1988: Em Abril, o PDPA vence eleições legislativas, boicotadas pelos mujahedin, que não desistem da luta armada apesar de lhes terem sido reservados lugares no Parlamento. No mesmo mês, em Genebra, a URSS, os EUA, o Afeganistão e o Paquistão assinam um acordo de paz. Em Maio, Mikhail Gorbatchov inicia a retirada das tropas soviéticas do “Vietname russo”. Em Agosto, num encontro de jihadistas na cidade paquistanesa de Peshawar, Bin Laden cria a Al-Qaeda;

1989: Em Fevereiro, fica concluída a retirada das tropas da URSS. Bin Laden regressa à Arábia Saudita;

1992: Em Janeiro, a URSS cessa toda a ajuda a Najibullah. A outrora poderosa Força Aérea afegã deixa de poder voar por falta de combustível. Com apoio do Paquistão, os mujahedin vão conquistando várias cidades. Ataques terroristas multiplicam-se em Cabul e semeando o terror em Cabul. Em 14 de Abril, Najibullah é forçado a demitir-se. No dia 16, facções dos mujahedin – excepto o grupo de Hekmatyar – assinam o “Acordo de Peshawar” que cria o novo Estado Islâmico do Afeganistão. Rivalidades paralisam o novo governo interino, cujo ministro da Defesa é Ahmed Shah Massoud (na foto, a inspeccionar as linhas da frente em front Dasht-e-Qala, província de Takhar). Na manhã de 17, Najibullah tenta fugir do país, esperando asilo na Índia onde já se encontram a mulher e as filhas, mas é-lhe negada entrada no aeroporto de Cabul, controlado por um antigo aliado, o miliciano afegão-uzbeque Abdul Rashid Dostum, agora no campo de Massoud. Najibullah é obrigado a refugiar-se no quartel-general da ONU em Cabul;

© Seamus Murphy

1994: Em Novembro, uma nova milícia pashtun – os Talibã – chefiada por Mullah Omar, comandante militar e mentor espiritual, conquista Kandahar e, em 1995, apodera-se de Herat.

1996: Em Setembro, os Talibã conquistam Jalalabad e Cabul, onde introduzem uma versão rígida do Islão, impedindo as mulheres de trabalhar e impondo castigos como amputação de membros e morte por apedrejamento. São eles que capturam Najibullah, enforcando-o depois de o castrarem. Bin Laden é expulso do Sudão, onde se instalara em 1991, e muda-se para Jalalabad. Aqui estabelece laços estreitos com os Talibã contra a Aliança do Norte e declara guerra aos EUA por terem enviado tropas para a Arábia Saudita (depois da invasão iraquiana do Kuwait em 1990);

1997: O Paquistão e a Arábia Saudita reconhecem como “governantes legítimos” os Talibã, que já controlam dois terços do Afeganistão;

1998: Bin Laden e o seu adjunto, o egípcio Ayman Al-Zawahiri (1951-), anunciam a criação da Frente Islâmica Mundial para a Jihad Contra os Judeus e os Cruzados. Num ataque coordenado, a Al-Qaeda destrói à bomba as embaixadas dos EUA no Quénia e na Tanzânia. Como retaliação, o presidente Bill Clinton ataca supostas bases terroristas no Afeganistão e no Sudão;

1989: O Conselho de Segurança da ONU aprova a Resolução 1267 que impõe um embargo aéreo e sanções financeiras ao regime dos Talibã;

2001:

Março – Os Talibã destroem os Grandes Budas de Bamyan, estátuas do séc. VI, património da humanidade, renegando-as como “deuses dos infiéis”.

Setembro: No dia 9, dois presumíveis operacionais da Al-Qaeda assassinam Ahmad Shah Massoud, comandante da Aliança do Norte – principal inimigo dos Talibã (deixar ficar esta referência se não forem usadas as datas anteriores a 2001, num atentado suicida. No dia 11, terroristas desviam quatro aviões comerciais e despenham-nos contra o World Trade Center (na foto), o Pentágono e uma base aérea na Pensilvânia, causando quase 3000 mortos e mais de 25 mil feridos. O presidente George W. Bush responsabiliza a Al-Qaeda pelo mais mortífero ataque em território dos EUA.

cdn.abcotvs.com

Outubro – No dia 7, uma coligação de forças americanas e britânicas invade o Afeganistão, na Operação Liberdade Duradoura, depois de os Talibã se terem recusado a extraditar Bin Laden para ser julgado. A coligação liderada pelos EUA alarga-se para incluir cerca de 40 países, que mobilizam mais de 140 mil militares espalhados por 800 bases.

Novembro – No dia 9, forças leais a Abdul Rashid Dostum (1954-), antigo general comunista que se juntara aos mujahedin e líder da comunidade uzbeque, conquistam Mazar-e Sharif, acelerando a queda do regime dos Talibã. Estes perdem sucessivamente os seus bastiões em Taloqan e Bamyan, no dia 11; Herat, no dia 12; Cabul, no dia 13; e Jalalabad, no dia 14.

Dezembro – Após a conquista de Cabul, a ONU convida as principais facções afegãs (mas não os Talibã) para uma conferência na Alemanha. No dia 5, graças a um substancial apoio diplomático do Irão, que apoia a Aliança do Norte, é aprovado o “Acordo de Bona”, prevendo a formação de um governo interino. Este é presidido por Hamid Karzai (1957-), líder da poderosa tribo Popalzai, da confederação Durrani, que regressara do Paquistão para organizar a oposição pashtun aos Talibã. No dia 7, após a perda de Kandahar, os Talibã e a Al-Qaeda recuam para a cadeia montanhosa de Tora Bora. No dia 16, após violentas batalhas, Bin Laden foge para o Paquistão. No dia 20, a Resolução 1386 do Conselho de Segurança da ONU dá luz verde à Força de Assistência de Segurança Internacional (ISAF, sigla inglesa), incorporando 48 exércitos estrangeiros, principalmente da NATO, para ajudar o governo interino afegão a manter a segurança;

2002: Em Abril, Bush apela à reconstrução do Afeganistão, evocando o Plano Marshall que fez reviver a Europa Ocidental depois da II Guerra Mundial. Em Junho, uma Loya Jirga, ou Grande Conselho (1550 delegados, dos quais 200 mulheres), reunida de emergência em Cabul, coloca Hamid Karzai na chefia da Administração de Transição Afegã. Alguns responsáveis dos Talibã rendem-se ao novo governo e são amnistiados;

2003: Em 20 de Março, os EUA invadem o Iraque, acusando Saddam Hussein de armazenar armas de destruição maciça e apoiar a Al-Qaeda. Em 1 de Maio, os EUA anunciam o fim das “principais operações de combate” no Afeganistão. Em Agosto, a NATO assume o controlo da ISAF em Cabul;

2004: Em 26 de Janeiro, Karzai ratifica a nova Constituição do Afeganistão, redigida e aprovada por uma assembleia de 502 delegados, com o objectivo de criar um forte sistema presidencial que una os 14 grupos étnicos do país. Em 9 de Outubro, Karzai, um dos 18 candidatos, vence as primeiras presidenciais directas da história afegã ––, com 55,4% dos votos, apesar das acusações de fraude.

2005: Em 23 de Maio, Bush e Karzai assinam a Declaração Conjunta para a Parceria Estratégia EUA-Afeganistão, com Washington a assumir o compromisso de ajudar Cabul na reconstrução, segurança e democracia. Em 18 de Setembro, seis milhões de afegãos votam para o Wolesi Jirga (Conselho do Povo), o Meshrano Jirga (Conselho dos Anciãos) e outras instituições as primeiras eleições parlamentares e provinciais desde 1969, durante o reinado de Zahir Shah. Num “sinal de progresso” numa sociedade conservadora e patriarcal, dos 249 lugares da câmara baixa do Parlamento 68 são reservados a mulheres (foto), tal como 23 dos 102 da câmara alta. Em 8 de Dezembro, a NATO aceita expandir a missão da ISAF, para assumir o comando militar da coligação liderada pelos EUA;

© Seamus Murphy

2006: Nos meses de Verão, sobretudo em Julho, a violência intensifica-se no sul do Afeganistão. O número de atentados suicidas quintuplica, de 27 em 2005 para 139. O número de ataques à bomba por controlo remoto mais do que duplica, no mesmo período, para 1677;

2007: Mullah Dadullah, um dos mais importantes comandantes de guerrilha dos Talibã, responsável pelo envio de bombistas suicidas e pelo rapto de estrangeiros na província de Helmand, é assassinado numa operação conjunta de tropas afegãs, dos EUA e da NATO;

2008: Para responder às críticas de Karzai e de outros de que ataques arbitrários dos EUA estão a matar dezenas de civis na província de Herat, Bush mobiliza mais 17 mil soldados americanos (foto), “para evitar a armadilha de obter vitórias tácticas, mas sofrer derrotas estratégicas”, como a perda de apoio popular afegão;

© Tyler Hicks | The New York Times

2009: Em 27 de Março, Barak Obama, o sucessor de Bush, anuncia uma nova estratégia que inclui um aumento da ajuda de segurança ao Paquistão, para estabilizar este país, e o envio de mais 4000 soldados para o Afeganistão. Em 20 de Agosto, alegações de fraude atrasam a divulgação dos resultados das presidenciais afegãs. Karzai, segundo uma investigação da ONU, obtém apenas 49,67% dos votos. Em Novembro, A Comissão Eleitoral declara Karzai o vencedor (54,6%), depois de o seu grande rival, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros Abdullah Abdullah (1960-), se ter retirado antes da segunda volta. Os EUA fazem depender ajuda futura aos esforços de Karzai para combater a corrupção. Em 1 de Dezembro, Obama envia mais 30 mil soldados – totalizam agora cem mil – para abrandar a progressão dos Talibã;

2010: Em 13 de Fevereiro, quinze mil soldados afegãos e da NATO lançam a Operação Moshtarak contra redutos dos Talibã na província de Helmand, a maior ofensiva desde o início da guerra. Em 20 de Novembro, numa cimeira em Lisboa, a Aliança Atlântica admite ceder às forças de segurança afegãs “total responsabilidade pela segurança” até ao final de 2014;

2011: Em 1 de Maio, uma equipa dos Navy Seals mata Bin Laden no seu esconderijo em Abbottabad, no Paquistão. A liderança da Al-Qaeda é assumida por Zawahiri. Em 22 de Junho, Obama anuncia que vai retirar as tropas americanas do Afeganistão até 2014. Em 9 de Novembro, a Loya Jirga afegã aceitar iniciar negociações com os Talibã, e aprova um acordo estratégico com os EUA que permite manter militares americanos no país depois de 2014. Numa conferência internacional em Bona, a que o Paquistão recusa assistir, Karzai diz que o Afeganistão precisa de 10 mil milhões de dólares anuais na próxima década. Não há acordo e os Talibã intensificam a insurreição;

2012: Em 3 de Janeiro, os Talibã anunciam a abertura de uma missão diplomática em Doha, capital do Qatar, para facilitar negociações, deixando cair a reivindicação de uma retirada das tropas americanas antes do início de um processo de paz. Em Setembro, os EUA entregam ao Governo afegão o controlo da prisão de alta segurança de Bagram, a norte de Cabul;

2013: Em Fevereiro, Karzai e o presidente do Paquistão, Asif Ali Zardari, prometem cooperar para travar um ressurgimento dos Talibã. Em 18 de Junho, as forças da NATO entregam o comando das operações militares e de segurança ao exército afegão. Em Março, dois antigos administradores do Banco de Cabul, Sherkhan Farnood e Khalilullah Ferozi, são presos, acusados de uma fraude multimilionária que quase conduziu ao colapso de todo o sistema bancário afegão em 2010;

2014: Em 5 de Abril, os afegãos (sete milhões) escolhem os seus representantes em eleições provinciais e presidenciais (na foto, uma assembleia de voto, em Cabul, dez anos antes). No dia 26, a Comissão Eleitoral anuncia uma segunda volta a ser disputada por dois dos candidatos mais votados, Abdullah Abdullah (45%) e Ashraf Ghani, antigo ministro das Finanças (31,5%). Em 27 de Maio, Obama anuncia que 9800 soldados dos EUA permanecerão no Afeganistão até 2016, para apoiar as forças afegãs e da NATO. Em 14 de Junho, realiza-se a segunda volta das presidenciais, apesar de múltiplos actos de violência. Vão às urnas sete milhões de eleitores, os resultados são inconclusivos e surgem novamente acusações de fraude. Em 21 de Setembro, Ghani e Abdullah assinam um acordo mediado pelos EUA, que designa Ghani presidente e Abdullah o chefe do Governo. Em 29 de Setembro, Ghani toma posse como segundo presidente eleito do Afeganistão. No dia seguinte, Cabul e Washington assinam um acordo de segurança a longo prazo que permite a 40 mil soldados da NATO permanecer no Afeganistão após terminarem as operações internacionais de combate em Dezembro. 2014 é o ano mais sangrento no país desde 2001;

© Seamus Murphy

2015: Em Janeiro, 12 mil militares da NATO iniciam a missão “Apoio Resoluto”, para treinar e apoiar as forças de segurança afegãs. O autoproclamado “estado islâmico” (Daesh) surge no leste do Afeganistão e, em poucos meses, conquista várias áreas controladas pelos Talibã na província de Nangarhar. Em Março, Obama aceita um pedido de Ghani para adiar a retirada de tropas do Afeganistão. Em Julho, os Talibã confirmam a morte do seu líder, Mullah Omar (em 2013), e nomeiam para lhe suceder Mullah Akhter Mansour. Em Outubro, Obama anuncia que 9800 soldados americanos permanecerão no Afeganistão até ao final de 2016. Em Dezembro, a NATO prolonga a missão “Apoio Resoluto” por mais 12 meses;

2016: Em Maio, o novo líder dos Talibã, Mullah Mansour, é morto por um drone americano no Paquistão. Em Julho, Obama anuncia que 8400 soldados americanos ficarão no Afeganistão até 2017, “devido à precária situação de segurança”. A NATO aceita manter os seus militares até 2020. De Agosto a Dezembro, os Talibã avançam para Lashkar Gah, capital da província de Helmand, e para a cidade de Kunduz, no Norte, de onde a maior parte das foças da NATO se havia retirado em 2014. Em Setembro, o Governo afegão assina um acordo de paz com o grupo rebelde Hezb-e Islami e oferece imunidade ao seu líder, Gulbuddin Hekmatyar;

2017: Em Fevereiro, os Talibã vão conquistando terreno no norte e sul do Afeganistão. Em 30 de Março, um ataque do Daesh causa pelo menos 30 mortos e mais de 50 feridos num hospital militar em Cabul. Em 13 de Abril, os EUA fazem detonar a sua mais potente bomba não nuclear sobre um esconderijo do Daesh na província de Nangarhar. Em Junho, os Talibã conquistam Tora Bora, a antiga base de Bin Laden;

2018-2019: Em Janeiro, num de muitos ataques atribuídos aos Talibã – que já controlam metade do Afeganistão –, uma ambulância armadilhada explode em Cabul, causando mais de cem mortos. Os EUA enviam tropas para zonas rurais, com o propósito de treinar soldados e lançar ataques aéreos contra laboratórios de ópio, tentando dizimar as finanças dos Talibã. Washington também reduz a ajuda de segurança ao Paquistão, por este dar abrigo aos Talibã. Em Setembro, Donald Trump nomeia Zalmay Khalilzad, um diplomata americano-afegão, para negociar com os Talibã, que recusam a inclusão do Governo afegão – o diálogo é interrompido e retomado no ano seguinte;

2020: Em 18 de Fevereiro, a Comissão Eleitoral afegã declara Ghani vencedor das eleições, mas Abdullah, o rival, não reconhece os resultados e clama vitória. No dia 29, no Qatar, os EUA e os Talibã assinam um acordo que prevê a retirada das tropas americanas do Afeganistão, a garantia de que o país não será usado para actividades terroristas e a promessa se negociações intra-afegãs sobre um futuro roteiro político. Em Março, os EUA reduzem em mil milhões de dólares a ajuda ao Afeganistão, para forçar Ghani e Abdullah a um entendimento e evitar nova guerra civil. A agravar a situação, o Afeganistão enfrenta agora também a epidemia de  um novo coronavírus.

Fontes:

Afghanistan: What Everyone Needs to Know, de Barnnett R. Rubin (Oxford University Press); BBC; Council on Foreign Relations; The Cairo Review

© Zalmaï | Dread and Dreams | Daylight Books | Lens Culture

O PREÇO DA GUERRA

157 mil

Pessoas foram mortas desde a invasão americana do Afeganistão em 2001. Deste total, 43.074 são civis afegãos (mais de dez mil dos quais só em 2019); 64.124 soldados afegãos; 42.100 insurrectos; 3814 mercenários ocidentais; 2400 soldados americanos; 1145 militares da NATO e de outros países da coligação liderada pelos EUA; 424 trabalhadores de agências humanitárias; 67 jornalistas e outros ligados a meios de comunicação social;

1,5 biliões

De dólares foi o total gasto pelos EUA no Afeganistão desde a invasão em 2001 –    10 mil milhões em operações para travar o cultivo de ópio (fonte de empregos, mas também a base do narcotráfico que enriquece os Talibã) – 80% da produção global; 87 milhões para treinar as forças de segurança afegãs; 24 mil milhões para desenvolvimento económico; 30 mil milhões para outros programas de reconstrução; 600 mil milhões para pagar juros de empréstimos contraídos para financiar a guerra;

2,7 milhões

É o número de refugiados afegãos registados em todo o mundo – 90% dos quais a viver no Irão e no Paquistão – o segundo maior grupo depois dos sírios. O número de deslocados ultrapassa os 2,7 milhões:

1,4 biliões

De dólares é a estimativa dos que os EUA irão gastar até 2059 com os veteranos das guerras que travaram desde 2001. Mais de 350 mil milhões destinam-se a despesas médicas com os soldados que serviram no Afeganistão e no Iraque.

Fontes:

Pentágono; Costs of War Project, da Brown University; Missão de Assistência da das Nações Unidas no Afeganistão; Comité para a Protecção dos Jornalistas; Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados; “The New York Times”, “The Washington Post”.

Marvin G. Weinbaum, actual director para o Afeganistão e Paquistão no Middle East Institute em Washington, foi analista no Departamento de Estado americano. Hoje é também professor emérito de Ciência Política na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign
© thenews.com.pk

Estes artigos foram publicados na revista ALÉM-MAR, edição de Maio de 2020 | These articles were published in the Portuguese news magazine ALÉM-MAR, May 2020 edition

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