Os “pecados” da Terra Santa

2017 é o ano do centenário da Declaração Balfour, de sete décadas da divisão da Palestina do Mandato Britânico e de meio século de uma “guerra de seis dias”. Neste conflito, o presente parece pesar mais do que o passado. (Ler mais | Read more…)

No léxico dos palestinianos há duas palavras que resumem as suas derrotas. Uma é Nakba (catástrofe), a guerra de 1948 que os forçou ao exílio do que é hoje o Estado de Israel. A outra é Naksa (revés), a guerra de 1967 que os obrigou a novo êxodo ou deixou sob ocupação.

E tudo começou há cem anos, a 2 de Novembro de 1917, com “um simples parágrafo” numa carta que Arthur James Balfour, então ministro dos Negócios Estrangeiros de Londres, enviou à Federação Sionista da Grã-Bretanha e Irlanda. “O Governo de Sua Majestade vê favoravelmente a criação na Palestina de um lar nacional para o povo judeu, e fará o possível para facilitar esse objectivo.”

A Declaração Balfour e o Mandato Britânico da Palestina iniciado em 1920, após o colapso do Império Otomano, abalaram a região como um sismo. Os árabes esperavam autodeterminação por terem lutado ao lado dos ingleses contra os turcos da Sublime Porta, mas os horrores do Holocausto conduziram a uma imigração em massa que aumentou a população judaica de 50.000, em 1917, para mais de 600.000, em 1947. A 29 de Novembro, a ONU votou a criação de dois Estados.

Os árabes, denunciando “traição”, recusaram a “partilha”. Os judeus proclamaram a “independência de Israel”, em 2 de Maio de 1948. Apagaram do mapa mais de 500 aldeias. Mais de 700 mil palestinianos tornaram-se refugiados.

Palestinianos em fuga para a Jordânia, sobre a Ponte Allenby, durante a guerra de 1967. Depois do primeiro êxodo em 1948, a Nakba, veio o segundo, a Naksa
© AP

Em 5 de Junho de 1967, numa guerra que em apenas seis dias derrotou vários exércitos árabes hostis, Israel expandiu território para incorporar áreas reservadas ao Estado palestiniano. Em 1968, com um governo trabalhista, iniciou a colonização dos territórios ocupados.

Os palestinianos tentaram libertar-se em 1987, com uma primeira Intifada. Esta revolta, que misturou pedras e protestos pacíficos, levou Israel a negociar os Acordos de Oslo (1993) com uma OLP enfraquecida após o apoio à invasão iraquiana do Kuwait (2 de Agosto de 1990).

Oslo confinou os palestinianos a enclaves em 40% do território ocupado, administrado por uma Autoridade Palestiniana (AP), cuja missão tem sido a de guardião de Israel. Nos restantes 60%, estão agora mais de 200 colonatos e os recursos de água.

Em 2000, os palestinianos lançaram outra Intifada, uma série de atentados suicidas visando sobretudo civis. Israel construiu um “muro de separação” na Cisjordânia. Em 2005, retirou unilateralmente colonos e soldados de Gaza, mas tem voltado com bombas sempre que o Hamas lança rockets. Foi assim em 2008-2009, em 2012 e em 2014. Em Telavive, a extrema-direita consolidou o poder.

Soldado israelita em oração no Muro Ocidental (ou das Lamentações), em Jerusalém, em Junho de 1967, durante a guerra. O sector leste da cidade foi anexado imediatamente depois de ocupado
© Micha Bar Am | Magnum Photos

“Ainda hoje os palestinianos vivem as consequências da Declaração Balfour”, constata Nivine S., residente em Jerusalém Leste, sector árabe anexado em 1967. “Se a promessa [britânica] não tivesse sido feita talvez vivêssemos hoje numa Palestina independente. Por outro lado, quando vejo o que se passa nesta região, pergunto-me se a Palestina estaria ou não em paz. Talvez se dividisse em diferentes grupos, porque enfrentamos os nossos próprios conflitos internos.”

Nascida em 1982, o ano dos massacres de Sabra e Shatila, em Beirute, Nivine concluiu um mestrado em Democracia e Direitos Humanos na Universidade de Bir Zeit (Cisjordânia). É co-directora de uma organização não governamental que junta judeus e árabes pela coexistência: Israel Palestine Regional Creative Initiatives (IPCRI). É especialista em programas de construção da paz e igualdade de género. Trabalha com outras associações, locais e internacionais, de mulheres e da sociedade civil.

Depois de Balfour, outro acontecimento ainda hoje traumático é a Naksa. “Sem guerra de 1967 não haveria a ocupação que diariamente afecta as nossas vidas”, observa Nivine. “Talvez fôssemos vizinhos de Israel, duas nações em paz e em segurança.”

“A ocupação controla a nossa liberdade, as nossas escolhas – com quem vivemos, com quem nos casamos, quem são os nossos amigos. A ocupação dividiu os palestinianos – os da Cisjordânia, os de Jerusalém, os de Gaza, os palestinianos de Israel.  Cada um destes grupos está submetido a diferentes leis. Fazem-nos sentir que uns são melhores do que outros. Os meus amigos em Gaza queixam-se de que pagam o preço mais elevado: acham que nós, em Jerusalém, vivemos no céu por não termos tantas restrições de movimento; pensam que os palestinianos em Israel são traidores.”

“Perdemos a esperança”, afirma Nivine. “Já nem sequer nos importa que Israel comece outra guerra. Damos o melhor de nós, avançando com iniciativas, mas sentimo-nos atraiçoados pelos nossos dirigentes e pelo mundo. A ocupação tem sido usada pela Autoridade Palestiniana para ignorar apelos a eleições e reformas. A corrupção aumenta, e aumenta também a fúria dos jovens.”

“A Autoridade Palestiniana tem de ser desmantelada, para permitir que Israel assuma as suas responsabilidades como potência ocupante”, sublinha Nivine. “A luta deve ser um homem um voto, uma voz um Estado.”

A cidade palestiniana de Qalqilyah, na Cisjordânia, durante a guerra de 1967
© AP | Ha’aretz

Não é muito diferente, embora mais optimista, a posição de Rami Younis, 32 anos, palestiniano de cidadania israelita, residente em  Haifa, biólogo, activista, escritor, produtor artístico.

“É importante distinguirmos o modo como a velha e a nova geração de palestinianos olha para Balfour e outras efemérides”, diz-nos Rami. “Há cada vez mais jovens a abandonar a mentalidade de vítima’. A nossa resistência à ocupação liga-se cada vez mais ao exterior e cada vez menos às lágrimas das memórias dolorosas do passado.”

“Não me interpretem mal. Essas memórias e aniversários são importantes para que os jovens aprendam o que aconteceu ao seu povo e às suas famílias, mas nós, terceira geração da Nakba, não abraçamos apenas essas memórias. Nós agimos de forma criativa e independente.”

“Os melhores exemplos estão na cena cultural”, explica Rami. “Em Haifa, realizámos [em Março] o segundo festival de cinema independente – sem qualquer apoio de Israel ou da Autoridade Palestiniana – e a Expo Música da Palestina [em Abril]. O objectivo é ligarmo-nos ao mundo apesar de a ocupação nos tentar isolar. É uma resistência activa que não depende dos líderes. A Autoridade Palestiniana, corrupta, perdeu toda a nossa confiança.”

Rami Younis, como Nivine, também advoga a solução de um só Estado: “É a única maneira de eliminar o apartheid, porque qualquer tipo de separação só mantém o statu quo.”

Judeus e árabes nas celebrações do “Dia da Independência” de Israel, junto à Porta de Damasco, em Jerusalém, em 1969
© Moshe Milner | Ha’aretz

“Sim”, admite Larry Derfner, filho de sobreviventes do Holocausto, “o modo como Israel olha para os palestinianos é idêntico à forma como os brancos na África do Sul olhavam para os negros durante o apartheid [1967-1991], pelo menos, num aspecto importante: eles são invisíveis.”

“As pessoas que invocam uma ‘ameaça demográfica’ se Israel mantiver a ocupação estão erradas”, acrescenta Derfner, judeu americano que em 1985 se mudou de Los Angeles para Telavive, apenas para ser jornalista e acabou por ficar. “Israel não se preocupa com os árabes que vivem sob o seu domínio enquanto eles não tiverem direito de voto ou qualquer poder – tal como os não-brancos durante o regime de segregação racial na África do Sul.”

Autor de No Country For Jewish Liberals, as suas memórias recém-publicadas, Derfner lamenta que a esquerda seja fraca, “provavelmente, doente terminal”. No seu percurso de vida, ele sempre colocou a si próprio duas questões: “Por que é que os judeus têm de ter mais direitos dos que os árabes entre nós? Se fôssemos maltratados, como Israel faz com os palestinianos, como reagiríamos nós?” A realidade amargura-o.

“A maioria dos israelitas pensa que já foram tentadas todas as soluções de esquerda, desde  negociar Oslo à retirada unilateral de Gaza, e que a retribuição tem sido violência. A maioria pensa que ofereceu aos palestinianos ‘um bom acordo’ [em Camp David, em 2000] e que, como recompensa, recebeu terrorismo. O que eles não entendem é que ofereceram aos palestinianos um acordo muito mau. Nunca lhes prometeram independência, soberania e liberdade. Pelo contrário, prosseguiram os abusos da ocupação e, por isso, o terrorismo não cessou.”

Na conjuntura actual, onde se situa Larry Derfner, colunista do diário Ha’aretz e um dos 85 mil residentes da cidade de Modi’in, nenhum deles árabe, “como é hoje a norma”? “Sou pós-sionista porque acredito que o Estado sionista já está garantido e chegou a hora de o tornar democrático. Continuo, porém, a ser sionista porque quero que Israel se mantenha um Estado judaico. Um Estado binacional é receita para uma guerra civil.”

Este artigo foi publicado originalmente na revista ALÉM-MAR, edição de Junho de 2017 | This article was originally published in the Portuguese magazine ALÉM-MAR, June 2017 edition

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