O Irão testa o poder da “geração K”

Os “pragmáticos” – grupo que inclui “reformistas, centristas e conservadores moderados” – conseguiram, aparentemente, suplantar a “linha dura” no Parlamento. Se na política interna se admitem ajustamentos, na política externa não deverá haver alterações. O apoio à Síria e a estabilidade de um Iraque de maioria xiita são questões consensuais de segurança nacional. (Ler mais | Read more…)

Uma iraniana ergue um cartaz da Coligação Universal dos Reformistas, num comício em Teerão_ o azul turquesa foi uma das cores da campanha © Fatemeh Bahrami Anadolou | Getty

Uma iraniana ergue um cartaz da Coligação Universal dos Reformistas, num comício em Teerão: o azul turquesa foi uma das cores da campanha
© Fatemeh Bahrami Anadolou | Getty

A balançar no espelho retrovisor de um miniautocarro, acompanhando as curvas da estrada entre Yazd e Shiraz, um crucifixo dourado abençoa as viagens de Ali Reza Ghougassian. Este motorista nascido no bairro cristão arménio de Nova Julfa, em Isfahan, nem precisaria de votar nas eleições de 26 de Fevereiro. Sabe que dois dos 290 deputados da República Islâmica do Irão serão membros da sua comunidade.

Têm mais sorte os cristãos arménios, como Ali Reza (e também os assírios e caldeus, zoroastras e judeus, cada uma destas minorias com direito a um lugar no Parlamento), do que os reformistas, como Mohammad Khatami. A maioria dos seus candidatos, ao Majlis-e shoura-ye eslami e ao Majlis-e Khobregan (Assembleia de Peritos), que escolhe o Líder Supremo, foi vetada pelo Conselho dos Guardiões.

A participação do antigo Presidente na campanha foi interdita, depois de ter apoiado o Movimento Verde da oposição que, em 2009, ameaçou a legitimidade do Líder Supremo, Ali Khamenei. Apesar das proibições e da repressão contra os seus partidários, Khatami conseguiu formar uma “Lista da Esperança”, coligação de grupos moderados apoiantes do Governo do actual Presidente, Hassan Rouhani.

Para se dirigir às massas, sobretudo à “geração K” – os jovens com menos de 25 anos, mais de 60% da população, que só conhecem a teocracia de Khomeini e Khamenei – usou redes sociais. O YouTube e uma nova aplicação móvel, Telegram, ainda não censurada e com mais de 20 milhões de utilizadores só no Irão.

O ex-Presidente Mohammad Khatami, um reformista (aqui numa foto em 2009), foi uma figura central das eleições apesar de o seu nome e fotografia terem sido proibidos pelo regime © Hasan Sarbakhshian | AP

O ex-Presidente Mohammad Khatami, um reformista (aqui numa foto em 2009), foi uma figura central das eleições apesar de o seu nome e fotografia terem sido proibidos pelo regime
© Hasan Sarbakhshian | AP

Foram os jovens que deram 70% dos votos a Khatami em 1997 e o reelegeram em 2001. Em 2005, desiludidos por ele não ter enfrentado Khamenei e todos os que boicotaram a sua promessa de mais liberdades individuais, a maioria faltou às urnas. E o messiânico Ahmadinejad chegou ao poder.

Para Khatami, a vitória espantosa de Rouhani, em 2013, foi o prelúdio para “um segundo passo”, que é afastar figuras ultraconservadoras como Ahmad Jannati, o ayatollah que lidera o Conselho dos Guardiões, e Mohammad Yazdi, o ayatollah que dirige a Assembleia dos Peritos. Rouhani convenceu Khamenei a aprovar negociações com o “grande Satã” (América) das quais resultou um acordo nuclear histórico. O compromisso pôs fim a três décadas de sanções internacionais.

“As eleições deste ano são muito importantes”, diz-me, em conversa telefónica, Sanam Vakil, investigadora da Chatham House, em Londres. “Permitem avaliar se Rouhani vai ser capaz de continuar o programa de reformas. São, igualmente, um referendo ao acordo nuclear e um barómetro das mudanças que podem ou não acontecer.”

A iraniana que é também professora no pólo de Bolonha (Itália) da Escola de Estudos Internacionais Avançados de Johns Hopkins surpreendeu-se mais com o número sem precedentes dos que concorreram do que com o que foi excluído pelos “guardiões” (6.229 de um total de 12.123 para o Parlamento e 161 dos 861 para a Assembleia de Peritos).

“Foram impressionantes os meios usados pelos reformistas para garantir que um número significativo deles será eleito. A desqualificação poder ser entendida como sinal de que a ‘linha dura’ se sente ameaçada, mas não que esteja enfraquecida. O sistema político no Irão é estável e equilibrado. O êxito da República Islâmica deve-se à partilha de poder por muitos e diferentes actores. Todos têm uma fatia para satisfazer os seus interesses.”

Farideh Farhi, outra académica iraniana, da Universidade do Havai, crê que Rouhani não terá dificuldade em obter um segundo mandato, mesmo que falhe os seus objectivos. “O Presidente introduziu alguma abertura política e cultural, mas teve de se concentrar na economia, em muito mau estado, para que terminasse o embargo. O acordo nuclear foi aceite por uma maioria, e nada impede que Rouhani venha a ser reeleito. Os adversários não têm um candidato único que concorra contra ele em 2017.”

O Presidente actual, Hassan Rouhani, e Ali Akbar Rafsanjani, o ayatollah que fez de Ali Khamenei sucessor de Khomeini, foram os artífices da vitória dos "moderados". © Direitos Reservados | All Rights Reserved

O Presidente actual, Hassan Rouhani (à esquerda), e Ali Akbar Rafsanjani, o ayatollah que fez de Ali Khamenei sucessor de Khomeini, foram os artífices da vitória dos “moderados”
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

Se o Parlamento vai ser “um campo de batalha” entre vitoriosos e derrotados, a Assembleia de Peritos será uma incógnita. “Talvez os centristas melhorem a sua posição, mas não os imagino a deter o controlo”, observou Sanam Vakil. “Terá algum dos eleitos influência suficiente para designar o próximo Líder Supremo? Não sabemos quando Khamenei vai morrer, e em que circunstâncias. Não sabemos como os diferentes grupos vão reagir quando sair de cena. Ele tentará, provavelmente, preservar o sistema, assegurando uma transição pacífica. Para isso, precisa que uma maioria concorde com o sucessor que ele escolher.”

Esta opinião é partilhada por Farideh Farhi, antiga professora de Política Comparada na Universidade de Teerão. “Os cenários pós-Khamenei dependerão da transição. Ele precisa de facilitar um processo de escolha que reflicta o equilíbrio de forças interno. Se isso não acontecer, são mais prováveis a instabilidade e o conflito. Seja quem for, o herdeiro de Khamenei dificilmente exercerá tanto poder, pessoal e institucional, como o que ele acumulou nos últimos 27 anos.”

O que não deverá mudar é a política externa, salientou a ex-conselheira do Banco Mundial. “Actualmente, entre as várias facções, há consenso. A desintegração do Estado sírio é considerada uma ameaça, daí o apoio a Bashar al-Assad.”

“A estabilidade do Iraque e a existência, aqui, de um governo aliado de Teerão são vistas como fundamentais para a segurança nacional. Quanto à Arábia Saudita, é responsabilizada pela animosidade entre os dois países e pelo seu medo irracional do Irão.”

A guerra na Síria dura há cinco anos. Já causou mais de 250 mil mortos e milhões de refugiados/deslocados internos. O Irão enviou guardas da revolução para impedir a queda de Assad. Mais do que uma parceria religiosa – os alauitas em Damasco são uma subseita do Xiismo –, é uma aliança política e militar estratégica.

No Iraque, onde a maioria xiita conquistou o poder após a invasão americana em 2003, o Irão trava outra guerra. Contra o Daesh sunita, que emergiu das fileiras do antigo exército de Saddam Hussein. No Iémen, o Irão apoia os Houthis, também eles xiitas, contra os sauditas que invadiram o país para restabelecer um governo amigo em Áden.

“Se Khamenei morresse agora, não mudaria a unanimidade no que diz respeito a estas questões, a não ser que beligerantes regionais mudem também a sua postura”, refere Farideh Farhi. “O acordo nuclear será irreversível enquanto o Irão tiver garantias de que não haverá nova aliança, como a que Obama formou para impor sanções. Um resultado eleitoral que confirme o Governo de Rouhani poderá ajudar a melhorar, no futuro, os laços com os Estados Unidos. O Irão é, no entanto, apenas um dos lados da história. Quase todos os candidatos presidenciais americanos (com excepção de Bernie Sanders e incluindo Hillary Clinton) têm demonstrado antagonismo ostensivo ou suspeições profundas. Muitos anunciaram vontade de revogar as medidas que facilitaram o compromisso. Tudo dependerá, portanto, da dinâmica entre os dois países, e não apenas das acções de um deles.”

[Os chamados “pragmáticos”, o que a revista “Fortune” definiu como “amálgama entre reformistas, centristas ec onservadores moderados”, conquistaram todos os lugares que representam Teerão no Parlamento. No total elegeram 83 deputados contra 64 da “linha dura”. No entanto, cerca de 1/4 dos 290 assentos só serão preenchidos após uma segunda volta em meados de Abril. Na eleição da Assembleia de Peritos, os “pragmáticos” também obtiveram bons resultados, conseguindo afastar dois “ayatollahs” ultraconservadores, Mohammad Yazdi and Mohammad Taghi Mesbah-Yazdi.]

Farideh Farhi © Alaska World Affairs Council

Farideh Farhi
© Alaska World Affairs Council

Sanam Vakil © www.itv.com

Sanam Vakil
© http://www.itv.com

Khamenei: O dono de quase tudo

No Irão, só Deus é mais poderoso do que Ali Khamenei. O Vali-e Faqih (Líder Supremo) controla tudo. O Governo e o Parlamento. Os Pasdaran (Guardas da Revolução) e as Forças Armadas. Os tribunais e os serviços secretos. Os media e os imãs. As Bonyads, fundações que gerem milhões de dólares, e a milícia Bassij.

Nem todas as decisões são tomadas por iniciativa quase octogenário que, em 1989, sucedeu a Khomeini, o fundador da República Islâmica. Mas nenhuma é aprovada sem a sua bênção. O exemplo mais recente é o acordo nuclear que abriu caminho ao fim das sanções internacionais. Negociado pelo Presidente Hassan Rouhani, só foi assinado quando Khamenei consentiu.

Nascido em 1939, em Mashhad, no Nordeste, Khamenei é o segundo de oito filhos de uma família pobre de origem azeri. O pai era pregador e ele seguiu-lhe as pisadas. Aos cinco anos, iniciou os estudos religiosos num modesto hawza (seminário) e não mais parou. Formou-se nos grandes centros teológicos de Najaf, no Iraque, e de Qom, no Irão. Aqui se tornou discípulo de Khomeini, e começou a envolver-se nas revoltas contra o Xá Mohammad Reza Pahlavi.

Em 1964, quando Khomeini foi “deportado” para Najaf, Khamenei ajudou-o a propagar a doutrina de Velayat-e faqhi (governo do jurista), que deu autoridade temporal aos religiosos. Até ao final da década de 1970, a Savak prendeu Khamenei várias vezes.

Na cadeia, torturado e isolado por longos períodos, reforçou o ódio aos EUA e a Israel, porque a CIA e a Mossad treinaram a polícia política do Shahanshah (Rei dos reis).

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A lealdade a Khomeini foi recompensada. Após o regresso do mentor do último exílio, em França, Khamenei foi nomeado ministro da Defesa, supervisor dos Pasdaran, líder das orações em Teerão. Em Junho de 1981, sobreviveu a um atentado bombista reivindicado pelos Mujahedin-e Khalq (Combatentes do Povo).

Ficou com um braço paralisado. No final do mesmo ano, depois da impugnação de um presidente, Abolhassan Bani Sadr, e do assassínio de outro, Mohammad Ali-Rajai, os Guardas da Revolução convenceram-no a candidatar-se ao lugar vago.

Foi um mandato de dois anos, dominado pela guerra contra Saddam Hussein. Nesse período, Khamenei era uma figura apagada, em comparação com o primeiro-ministro Mir Hossein Mousavi – um dos actuais líderes da oposição, há cinco anos sob detenção domiciliária –, com o presidente do parlamento, Ali Akbar Rafsanjani, e com o comandante dos Pasdaran, Mohsen Rezaee.

Khomeini morreu de ataque cardíaco, em 1989. Meses antes, renegara o herdeiro designado, Hussein-Ali Montazeri, crítico da execução sumária de milhares de dissidentes.

Como a Constituição exigia que o Líder Supremo fosse um Ayatollah al-Ozma (Grande Ayatollah ou Sinal de Deus), o texto foi revisto, requerendo que o sucessor tivesse apenas “competências de política e gestão”.

Num ápice, convencidos por Rafsanjani, os 88 membros da Assembleia de Peritos promoveram Khamenei de hojjat ol- Islam (Prova do Islão) a ayatollah e proclamaram-no (com 14 votos contra) sucessor de Khomeini. As elites religiosas em Qom sentiram-se ultrajadas.

Khamenei não tem as credenciais religiosas, o apoio popular (perdeu legitimidade nas legislativas de 2009, quando se colocou ao lado de Ahmadinejad) nem o carisma de Khomeini, mas foi com ele que o Irão voltou a ser uma potência regional. Graças às guerras no Iraque e na Síria.

Teoricamente, é a Assembleia de Peritos que nomeará o sucessor de Khamenei. Na prática, poucos duvidam que essa escolha está nas mãos dos Guardas da Revolução, força paramilitar da qual ele é comandante-supremo.

Quem será o futuro líder?

Hassan Khomeini: Fora de jogo

Hassan Khomeini, grandson of Iran's late leader Ayatollah Ruhollah Khomeini, waves as he speaks at a ceremony to mark the death anniversary of the Islamic Republic founder Ayatollah Khomeini at Khomeini's shrine in southern Tehran June 4, 2010. REUTERS/IIPA/Sajjad Safari/Files

Ainda é cedo para identificar o herdeiro político e religioso de Ali Khamenei. Mas há já uma certeza: não será Hassan Khomeini. O neto do fundador da República Islâmica foi excluído das eleições para a Assembleia de Peritos, que tem competência para escolher o Líder Supremo. Formado no seminário de Qom, descendente directo de Maomé e guardião do legado do avô, como director do Instituto para a Compilação e Publicação das Obras do Imã, Sayyid Hassan Khomeini surpreendeu-se ao ver o nome chumbado pelo Conselho de Guardiões. O veto foi justificado com “preparação insuficiente para interpretar a lei islâmica”. A ijtihad é central no Xiismo, e Hassan Khomeini não é mujtahid, apenas hojatoleslam, dos primeiros graus na hierarquia. A razão principal terá sido a ligação aos reformistas. Ser hojatoleslam não foi impedimento para que Khamenei sucedesse ao ayatollah Khomeini – graças a Ali Akbar Hashemi Rafsanjani.

Rafsanjani: O pragmático

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Antigo presidente da Assembleia de Peritos, Rafsanjani é novamente candidato. A sua ambição será afastar a “linha dura” dos principais pilares regime. Mais do que suceder a Khamenei, pretenderá desempenhar um papel decisivo na escolha do Líder Supremo. Vem defendendo o fim deste cargo, a favor de um coletivo de teólogos. Se controlar o Velayat-e faqhi (governo do jurista), poderá alterar, também, a favor dos “moderados”, a composição do Corpo de Guardas da Revolução e do sistema judicial. Outrora mais poderoso do que o ex-protegido, o milionário a quem chamam kusseh – palavra persa com significado duplo de “imberbe” e “tubarão” – mantém-se influente. Ainda presidente do Conselho de Discernimento, árbitro entre o Parlamento e Conselho de Guardiões, Rafsanjani foi sempre leal a Khomeini. Hoje é temido como a maior ameaça ao regime.

Shahrudi: A ponte

shahroudi

Nascido e formado em Najaf (Iraque), o ayatollah Mahmoud Hashemi Shahrudi é considerado o mentor de Khamenei. Em 1982, ajudou a criar uma das organizações de resistência a Saddam Hussein da qual emergiram duas milícias treinadas pelo Irão. De 1999 a 2009, foi chefe dos juízes, durante a presidência de Mohammad Khatami, e tentou reformar um sistema de má fama. Analistas admitem que possa vir a adoptar políticas internas e externas mais moderadas do que as de Khamenei, se lhe suceder.

Larijani: O carrasco

Larijani

Também nascido em Najaf, Sadeq Larijani deve o cargo de chefe dos juízes à obediência cega a Khamenei. Não seguiu o exemplo do sogro, ayatollah Hossein Vahid Khorasani, que não reconhece legitimidade ao Líder Supremo. Sadeq pertence à “linha dura”, tal como o irmão mais velho, Mohammad Javad (Ardeshir) Larijani, que dirige “a divisão de direitos humanos” do sistema judicial. São ambos responsáveis pela repressão de dissidentes. Outro irmão é Ali Larijani, presidente do parlamento cessante, um conservador que defendeu o acordo nuclear.

Mojtaba: O filho

Mojtaba

Das figuras mais temíveis no Irão, Mojtaba Khamenei exerce grande influência sobre a milícia Basij. Terá sido comanditário dos assassínios de opositores entre 1988 e 1998 e dos ataques contra o Movimento Verde, entre 2009 e 2011. Um dos seis filhos de Khamenei, Mojtaba tem como conselheiro, entre outros radicais, o ayatollah Mohammad Mesbah Yazdi, responsável pela perseguição aos Bahá’ís, a maior minoria religiosa do Irão. Para os Guardas da Revolução, é o candidato preferido a ocupar o lugar do pai.

Estes artigos, agora actualizados, foram publicados no jornal EXPRESSO em 27 de Fevereiro de 2016 | These articles, now updated, were originally published in the Portuguese newspaper EXPRESSO, on February 27, 2016

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