A “deskhomeinização” do Irão

O resultado das eleições de Fevereiro para o Parlamento e para a Assembleia de Peritos, com competência para designar o Supremo Líder, indicam que os “moderados” se impuseram à “linha dura”. Entre os vencedores – ainda que a sua candidatura tenha sido chumbada – estará um dos netos do fundador da República Islâmica, considerado um “reformista”. Na política interna, ele parece ganhar influência. Na política externa, os Guardas da Revolução ainda são quem mais ordena. (Ler mais | Read more…)

Dos 290 membros do Parlamento eleito em Fevereiro, pelo menos 14 serão mulheres © Behrouz Mehr | AFP | Getty

Dos 290 membros do Parlamento eleito em Fevereiro, pelo menos 14 serão mulheres
© Behrouz Mehr | AFP | Getty

A auto-estrada que liga Teerão a Qom cheira a água de rosas e a tulipas vermelhas. Uma fileira extensa de homens estende os braços tentando vender as flores aos que seguem para Behesht-e Zahra, o maior cemitério do Irão.

A cúpula e os minaretes do mausoléu de Khomeini dominam o horizonte. Mas o que a multidão procura são as campas dos shahid (mártires) da mais longa guerra convencional do século XX.

Neste “Paraíso de Zahra”, é visível quem mais ordena. Não são os mullahs que instauraram a República Islâmica, em 1979. São os Pasdaran (Guardas da Revolução), que sacrificaram vidas, para vencer o Iraque de Saddam Hussein, entre 1980 e 1988, e desde o fim dos combates controlam quase todas as esferas de poder.

Uma das esferas é o Conselho dos Guardiões, organismo não eleito que avalia a “lealdade e competências” dos que concorrem a órgãos eleitos: Parlamento e Assembleia de Peritos. Nas eleições de 26 de Fevereiro, dos 800 teólogos aspirantes a membros desta instituição – de onde deverá sair o próximo Líder Supremo – só 161 foram aprovados. Também foram excluídos 40% dos 12.000 candidatos aos 290 lugares no Majlis, dominado há mais de uma década pelos ultraconservadores. De 3000 reformistas, só 100 foram qualificados.

Para choque de muitos, e surpresa do próprio, Hassan Khomeini está entre os candidatos à Assembleia de Peritos cuja candidatura foi chumbada e o recurso indeferido. Os 12 membros do Conselho dos Guardiões justificaram o veto com “conhecimento insuficiente da Ijtihad”, interpretação da lei islâmica.

No entanto, o neto do ayatollah que destronou 2500 anos de monarquia é um hojatoleslam formado no seminário de Qom, onde o avô mudou a doutrina xiita para dar aos religiosos poder temporal. O turbante negro e o título de Sayyid identificam-no como descendente directo de Maomé.

O juízo primário para o afastamento terá sido a proximidade aos que querem reformar o regime instaurado pelo avô. [Hassan não recorreu da decisão de o excluírem. Encorajou um afluência maciça às urnas, e acabou por virar o feitiço contra o feiticeiro.]

“Os que foram desqualificados não são dissidentes, activistas, secularistas e outros que constituam ameaça ao poder teocrático”, anotou International Campaign for Human Rights in Iran, organização não governamental com sede em Nova Iorque. “Pelo contrário, são dignitários da república e responsáveis do sistema clerical.”

Iranianos celebram o acordo nuclear assinado entre o Irão e a comunidade internacional © Ebrahim Noroozi | AP

Iranianos celebram o acordo nuclear assinado entre o Irão e a comunidade internacional
© Ebrahim Noroozi | AP

Apesar da razia no seu campo, os chamados “centristas” não perderam o entusiasmo e coligaram-se. O Presidente Hassan Rouhani, eleito em 2013, e um dos candidatos à Assembleia de Peritos, criticou publicamente o Conselho dos Guardiões (“O Parlamento é a casa do povo, não a casa de uma só facção”) e apelou a uma votação em massa. Ele sabe que só vencendo os adversários pode assegurar um segundo mandato.

Há unanimidade em considerar históricas estas eleições. Porque se trata de um referendo que consolidará o acordo nuclear e o fim das sanções internacionais, ganhem os conservadores ou os moderados. E porque a próxima Assembleia de Peritos deverá escolher o rumo da nação, ao designar o herdeiro de Ali Khamenei, que ocupa o lugar de Khomeini desde 1989.

Khamenei tem 78 anos e uma saúde débil. Suspeita-se de uma doença terminal. Ficou com um braço imobilizado após um atentado bombista que, em 1981, decapitou quase toda a liderança do Partido da Revolução Islâmica. A sua escolha para Líder Supremo não foi consensual.

Era um hojatoleslam. Foi promovido à pressa a ayatollah, o que enfureceu as elites xiitas. Ali Montazeri, o sucessor designado de Khomeini, tinha caído em desgraça, por condenar a execução extrajudicial de prisioneiros políticos.

O responsável pela ascensão de Khamenei foi Ali Rafsanjani, o ex-Presidente que convenceu Khomeini a “beber o cálice de veneno” do cessar-fogo na guerra com Saddam. Rapidamente, o protegido se tornou rival. Ao candidatar-se à Assembleia de Peritos, o milionário exportador de pistáchios, dos maiores apoiantes do Movimento Verde contra Ahmadinejad, ambiciona ser escolhido, e não apenas escolher o futuro “Guia”.

Khamenei deve a Rafsanjani legitimidade religiosa, mas foram os Guardas da Revolução que lhe ofereceram omnipotência. Em troca, deu-lhes rédea livre. E Behest-e Zahra é um dos lugares onde essa aliança é bem visível.

O ayatollah Khamenei e o general Qasem Suleimani (à direita): O comandante da Força Qods, unidade de elite dos Guardas da Revolução, é hoje dos "heróis vivos" do Irão. A sua fotografia compete visibilidade, nas parede, de Teerão, com a de Khomeini © Gabinete do Supremo Líder

O ayatollah Khamenei e o general Qasem Suleimani (dir.): O comandante da Força Qods, unidade de elite dos Guardas da Revolução, é hoje um dos “heróis vivos” num país de shahid (mártires).  A sua fotografia parece concorrer, em visibilidade, nas paredes de Teerão, com a de Khomeini
© Gabinete do Supremo Líder

No cemitério que começou a ser construído no final dos anos 1950, antes de se tornar repouso de mártires, está o complexo de ShahreAftab (Cidade do Sol). Inclui o jazigo de Khomeini, uma universidade, um hotel de cinco estrelas, um hospital, um museu, um parque para “dezenas de milhares” de veículos, uma estação de metro e várias lojas.

O ayatollah ficaria escandalizado com os produtos à venda: calças de ganga de cintura descaída e leggings, hambúrgueres e pizzas, e até Coca-Cola americana (importada), não o refrigerante nacional que a imita.

Talvez ficasse mais indignado com a arquitectura extravagante e kitsch do seu jazigo. Contrasta tanto com a simplicidade extrema da casa térrea onde viveu em Teerão que não lhe custaria juntar-se aos que bradaram contra “um palácio de Hollywood”.

Na defesa do mega-projecto, juntaram-se a família do ayatollah e os Guardas da Revolução. Hassan Khomeini, o candidato vetado, dirige o museu e o Instituto para a Compilação e Publicação das Obras do Imã, legado do avô. No entanto, são pasdaran barbudos e não mujtahids (juristas) que controlam o recinto onde fiéis acariciam as grades do sarcófago, rezam, lêem ou dormem no chão coberto por riquíssimas carpetes persas.

Os poucos visitantes do mausoléu e os lojistas quase sem clientes parecem pertencer à mesma classe social desfavorecida dos numerosos grupos que se concentram junto às campas dos shahid. Num dos acessos, está uma fonte que jorra água tingida de vermelho, para simbolizar o sangue dos mártires, tal como as tulipas à beira da auto-estrada. No caminho de regresso à capital, já não são flores que se vendem, mas hortaliças.

O controlo é, mais uma vez, assegurado pelos pasdaran, que fazem sentir ostensivamente a sua presença. Distribuem chá quente, bolos e sumos. Sozinhas ou acompanhadas, mães, filhas e viúvas, mulheres de chador negro ajoelham-se e choram frente às pedras tumulares. Algumas contêm os restos mortais de mais do que um familiar. Em cacifos verticais envidraçados guardam-se, amarelecidas pelo sol, fotos dos defuntos; exemplares do Corão; objectos pessoais, como anéis e brinquedos.

Muitas das vítimas pertenciam à Vahid-e Basij-e Mustazafin (Unidade de Mobilização dos Deserdados). E muitas eram miúdos, alguns com 10-12 anos, que desminavam as frentes de batalha. Eram os sapadores dos Guardas da Revolução. Na testa, levavam fitas amarelas com palavras de louvor a Khomeini. No peito, chaves de plástico para “abrir as portas do paraíso”.

Todas as famílias iranianas têm um ou mais mártires da guerra contra Saddam. Muitos deram nomes a ruas que antes homenageavam reis.

Ao “Paraíso de Zahra” chegam agora, também, shahid de outros combates, no Iraque e na Síria, onde os Guardas da Revolução protegem interesses, nacionais e pessoais. Vê-se pelas fotografias recentes, não apenas no cemitério mas em outdoors que se vão sobrepondo aos velhos cartazes com a cara de Khomeini.

No meio dos mortos há um “herói vivo” que simboliza a vontade de dominar o Golfo Pérsico: Qasem Soleimani [que mostrou a sua força ao anunciar a continuação do programa de mísseis balísticos, depois de Rouhani ter selado o acordo nuclear].

O misterioso general que comanda a Força Qods, a unidade de elite dos Pasdaran, responsável pelas operações militares na Síria e no Iraque, tem o seu rosto em destaque em Teerão: das estações de metro ao pórtico da antiga embaixada dos EUA, “o ninho dos espiões”, de onde desapareceram os graffiti de Morte à América.

Dia das eleições, 26 de Fevereiro, em Teerão © The Independent

Dia das eleições, 26 de Fevereiro, em Teerão
© The Independent

Os jogos de poder na capital não passam despercebidos aos iranianos. Sejam eles mullahs, responsabilizados por uma gestão económica desastrosa, ou jovens com menos de 30 anos, que constituem 60% dos quase 80 milhões de habitantes, mais interessados em empregos e liberdades individuais.

Em Isfahan, grandiosa cidade de Abbas I, o xá safávida que expulsou os portugueses de Ormuz, no século XVII, dois hojatoleslam confessam que já tiveram dias melhores. “Hoje, só em Qom ou em Mashad [santuários xiitas], consigo movimentar-me livremente com este hábito – até posso andar de motorizada”, diz Maysan, 43 anos, puxando para cima a longa batina castanha. “Há preceitos para usar estas roupas. Não posso ir assim ao cinema, porque vou atrair as atenções.”

Mahdi, 26 anos, olha para o mestre a quem pedirá conselhos e sorri. Ele guardou a túnica e o turbante no escritório da mesquita, e esconde-os num saco plástico se quiser convencer os taxistas a transportá-lo. Num passado recente, admite, não teria dificuldade em cativar audiências. No presente, tenta convencer crentes e não crentes a comprar livros de propaganda, para financiar as actividades religiosas.

Num café com Internet grátis, à entrada do bazar, o empregado de balcão Bahman, de 25 anos, não tem pena dos religiosos. Apenas lastima a sua sorte. “Licenciei-me em Artes e só consegui trabalhar aqui, a tempo parcial”, diz-nos. “Gostaria de estudar no estrangeiro, mas não posso. Estamos limitados em tudo. Vou dar o benefício da dúvida ao Presidente Rouhani. Porque estamos cansados de revoluções. Os protestos depois das eleições em 2009 desmoralizaram-nos. Perdemos a fé. Não acredito em religiões”

Em Kashan, também na província de Isfahan, outros dois jovens, Farshad e Kian, 22 e 26 anos, estão seguros de que “50% dos iranianos são ateus”. Não sabem explicar esta percentagem, que será um palpite ou um desejo. “Não me interessa o que a sociedade exige de mim”, declara Farshad, de origem curda, ajeitando o blusão de cabedal e o chapéu. “Sou eu que defino as minhas regras, e uma delas é quebrar as regras.”

Kian, elegante num corpo moldado pelo ioga, diz que confia mais em Darwin do que em Deus. “Enquanto o governo islâmico tinha dinheiro, o povo adorava-o; agora, já nem olham para os retratos dos religiosos”, observa o professor que sonha estudar Física Quântica na Europa.

Que sistema serviria melhor o país? “Uma monarquia constitucional”, responde Farshad, sem hesitar. “O erro do Xá [Mohammad Reza Pahlavi] foi achar que devíamos imitar o Ocidente. Tentou acelerar a modernização do país, mas as pessoas não estavam preparadas. Hoje, com as redes sociais, há maior abertura ao mundo. Podem tentar isolar-nos mas já não conseguem.”

Uma família muito rebelde

Se fosse vivo, o que diria Khomeini ao ver a maioria dos 15 netos (oito homens e sete mulheres) entre os que tentam reformar o regime? Talvez desse razão à filha Zahra Mostafavi, que acusou os Guardas da Revolução de desobedecerem à ordem do pai: “Todos os homens de farda devem afastar-se dos jogos políticos.”

Hassan Khomeini
© Direitos Reservados | All Rights Reserved

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O neto mais carismático do fundador da República Islâmica, Hassan Khomeini, 43 anos, é a prova de que, hoje, são os “homens de farda” e não os mullahs quem mais ordena. O Conselho dos Guardiões, dominado pelos Guardas da Revolução, concluiu que o hojatoleslam formado no seminário de Qom “não tem conhecimento suficiente da lei islâmica” para integrar a assembleia que irá designar o sucessor do actual líder, Ali Khamenei. O que impediu a desqualificação de Hassan é o seu apoio aos reformistas do regime. Em 2002, defendeu um professor acusado de “insultar o Islão”, dizendo que cada geração “deve ter a sua própria interpretação da religião”. Foi logo acusado de “corrupção”. Em 2008, declarou: “A presença das armas na política levará ao fim de todo o diálogo.” Em 2009, apoiou o candidato da oposição às legislativas, Mir Hossein Mousavi, e faltou à tomada de posse do contestado Presidente Mahmoud Ahmadinejad. Em 2011, afirmou: “O extremismo é o maior perigo.”

Zahra Eshraghi
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Rebelde como a tia Zahra Mostafavi, a feminista Zahra Eshraghi, 52 anos, não aprova sequer o véu imposto pelo avô. “Não deve ser obrigatório”, declarou a activista de lenços coloridos e calças de ganga, cunhada do ex-Presidente Mohammad Khatami. Em 2004, foi impedida de concorrer às legislativas. Em 2006, inscreveu o nome na petição Um Milhão de Assinaturas, exigindo a revogação de leis que discriminam as mulheres. “O Governo ilude-se ao pensar que o pensamento único e a limitação das escolhas dos eleitores impedirão ameaças externas”, disse à agência IPS. Durante os protestos do Movimento Verde contra Ahmadinejad, em 2011, Zahra e o marido, Mohammad-Reza Khatami, foram detidos por apoiarem a oposição. Em 2013, ambos regozijaram com a vitória do pragmático Hassan Rouhani.

Naeimeh e Ali
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Irmãos de Zahra, a engenheira petroquímica Naeimeh e o engenheiro civil Ali Eshraghi são também reformistas. Em 2011, Naeimeh apoiou uma campanha de mulheres contra o véu obrigatório. Defende negociações directas com os EUA, “porque não há inimigos eternos”, e tem acusado o ayatollah Ali Khamenei, sucessor do avô, de obstruir a democracia. Quanto a Ali Eshraghi, o irmão mais novo, foi impedido de concorrer às legislativas em 2008. A decisão nunca foi explicada, mas ele contou à Associated Press, que os vizinhos foram questionados sobre se rezava e jejuava. “Atacam-nos porque se desviaram do caminho traçado pelo nosso avô”.

Ali, Yasser e Hossein
Yasser Khomeini © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Yasser Khomeini
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Hossein Khomeini © Direitos Reservados | All Rights Reserved

Hossein Khomeini
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Casado com uma neta do ayatollah Ali al-Sistani, a mais importante autoridade religiosa xiita no Iraque, Ali Khomeini está ligado a duas famílias rivais. Sistani jamais aceitou o conceito de velayat-e faqhi (governo do jurista) e o estatuto de Marja-e Taqlid (Fonte de Emulação) do teólogo de Qom. Ali Khomeini passou grande parte da infância com o avô no exílio mas, em 2009, apoiou Mousavi, avisando que o regime “se tornaria menos legítimo” se não se reformasse. O irmão Yasser Khomeini deu o voto a Mehdi Karroubi, outro candidato da oposição. O mais controverso de todos os netos é Hossein Khomeini, teólogo como Ali e Yasser. Em 1981, foi preso por dizer que a teocracia é pior do que foi o reinado do Xá. Em 2003, defendeu para o Irão uma intervenção militar americana como a do Iraque: “A revolução do meu avô devorou os seus filhos.”

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Estes artigos, agora actualizados, foram publicados originalmente na revista VISÃO, em 25 de Fevereiro de 2016 | These articles, now updated, were originally published in the Portuguese news magazine VISÃO, on February 25, 2018

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