De Gaza para a NASA: A odisseia de uma engenheira palestiniana

Desde criança que Soha Alqeshawi queria ser astronauta. Hoje, é uma das principais responsáveis na nave Orion, projectada para transportar seres humanos ao espaço profundo. Os pais investiram na sua educação e ela escapou à ocupação israelita para realizar um sonho. “Nenhuma mulher deve permitir que lhe digam o que pode e não pode fazer.” A publicação Arabian Business.com acaba de a incluir na sua lista dos “100 Árabes mas poderosos com menos de 40 anos“. (Ler mais | Read more…)

Soha Alqeshawi © NASA | Radislav Sinyak

Soha Alqeshawi foi encorajada pela família a não desistir dos seus sonhos
© NASA | Radislav Sinyak

A televisão mostrava o primeiro lançamento do Space Shuttle Columbia, em 1981, e Soha Alqeshawi, uma criança na Cidade de Gaza, onde nasceu, ficou fascinada.

“Foi uma experiência inesquecível, aquela enorme quantidade de fogo e fumo. Desejei desde logo ser astronauta. Queria viajar numa potente nave e entrar no espaço sideral. A NASA concretizou o meu sonho ao abrir-me as portas, primeiro do Space Shuttle e, depois, do Projecto Orion.”

O sonho de Soha consumou-se, acima de tudo, porque foi encorajada a não desistir. “Somos uma família numerosa: pai, mãe e oito filhos”, conta a engenheira palestiniana, numa entrevista que me deu por e-mail. O meu pai era contabilista e a mãe trabalhava em casa. Dedicou a vida a educar-nos e a orientar-nos para sermos o melhor que podíamos. Desde miúda que me ensinaram a importância da educação para realizar as minhas aspirações.”

“Os meus pais também deram o seu melhor para nos proteger dos efeitos do contínuo e horrífico conflito que vivemos em Gaza”, adianta Soha. “É uma vida sob medo constante e desespero. Tudo é incerto. A maior parte dos dias não temos acesso às necessidades básicas, como água e electricidade. Frequentar a escola pode ser uma viagem perigosa. A morte espera-nos a qualquer passo no caminho. Tudo isto fez de nós mais determinados.”

Embora Soha fosse o único elemento da família que teve oportunidade de sair de Gaza para estudar e trabalhar nos Estados Unidos – não revelou o ano nem como conseguiu sair do território mais densamente povoado do mundo (1,8 milhões de habitantes em 360 quilómetros quadrados) – todos os seus irmãos e irmãs têm formação universitária, com licenciaturas em Ciência, Engenharia e Gestão de Empresas.

O marido, também natural de Gaza, é doutorado em Engenharia Eléctrica e trabalha igualmente para a NASA. Sobre ele, ela não deu mais pormenores.

Guerra de 2014: Bombardeamentos israelita na Cidade de Gaza, onde nasceu Soha Alqeshawi, que alerta: "Estamos sujeitos a um embargo e a um boqueio desumanos [desde 2007]". © Direitos Reservados |All Rights Reserved

Guerra de 2014: Bombardeamentos israelita na Cidade de Gaza, onde nasceu Soha Alqeshawi, que alerta: “Estamos sujeitos a um embargo e a um bloqueio desumanos [desde 2007]”
© Direitos Reservados |All Rights Reserved

Conquistada por Israel ao Egipto na guerra de 1967, e quase arrasada numa ofensiva militar contra o movimento Hamas, em 2014, que causou mais de dois milhares de mortos, Gaza é, para muitos, sinónimo de “violência e pobreza”, admite Soha.

Mas ela questiona: “Saberão que o nosso povo está sujeito pelos ocupantes israelitas a um embago e bloqueio desumano [por terra, mar e ar, desde 2007]? A violência e a pobreza são-nos impostas. A riqueza de Gaza está na sua população, que é culta, trabalhadora e apaixonada pela vida. Sou apenas um exemplo simples do que pessoas motivadas e oprimidas podem fazer.”

“A minha educação nos EUA foi a recompensa de um desafio”, acrescenta. “Ultrapassei as barreiras da língua e da cultura. Ser uma muçulmana que cobre o cabelo com um lenço [hijab] faz com que me olhem de forma diferente em relação a outros, mas nunca duvidei das minhas qualidades ou da religião nobre a que pertenço.”

“Contei sempre com o apoio da minha família e do meu marido, em casa; dos meus professores, na faculdade; e dos meus chefes e colegas, no trabalho. A outras mulheres eu digo que precisam de acreditar em si próprias antes de pedir aos outros que acreditem nelas.”

Soha reforçou a confiança pessoal quando, na Escola Bashir El-Rayes, em Gaza, obteve um Certificado de Educação Secundária Geral, equivalente ao currículo dos liceus nos EUA. “Segui depois para o Texas, para estudar na Universidade de Houston.”

“Inscrevi-me, de início, em Ciências de Computação mas, depois, mudei para Engenharia de Sistemas de Comunicação. Terminei como a melhor aluna do curso.

Após a licenciatura, a NASA ofereceu-me logo emprego, no projecto Space Shuttle – o sonho que se tornou realidade.” Não prossegui os estudos superiores para manter vivo este sonho de trabalhar num programa espacial.”

Primeiro lançamento da nave espacial Orion, a partir do Cabo Canaveral, na Florida, em 5 de Dezembro de 2014. © NASA Bill Ingalls

Primeiro lançamento da nave espacial Orion, a partir do Cabo Canaveral, na Florida, em 5 de Dezembro de 2014
© NASA | Bill Ingalls

Como engenheira sénior na Orion, Soha é responsável pela integração do software/hardware e pelos testes que garantirão o bom funcionamento da próxima geração de naves espaciais. Também coordena o treino dos membros do seu grupo, a definição do tempo de testes e supervisão de todo o processo de integração para cada fase do voo.

“Algumas das qualidades necessárias que me são requeridas são liderança, trabalho em equipa, dedicação total, disponibilidade para aprender sobre novos materiais, capacidade para resolver rapidamente problemas que surjam, sem erros, além de aptidão para enfrentar situações de stress, engenho técnico e talento para comunicar.”

“Simulamos cada uma das missões planeadas”, explica. “O software que simula a missão precisa de ser desenvolvido e integrado em módulos com o hardware. Levamos a cabo testes complexos sobre software e hardware de voo e de todos os interfaces para assegurar as exigências de fiabilidade, funcionalidade e performance.”

“Detectamos e reparamos todas as falhas, voltando a testar tudo para garantir a segurança e o êxito da missão. Durante estas simulações, testamos cada fase da missão desde o momento em que é lançada até à aterragem.”

“A Orion é a nave espacial de que a NASA precisa para poder levar seres humanos para o espaço profundo, durante longos períodos de tempo, e trazê-los de volta em segurança”, especifica Soha.

“A 5 de Dezembro de 2014 tivemos um bem sucedido Exploration Flight Test-1 (Teste-1 de Voo Exploratório) a 3.600 [mais de 4800 quilómetros] de distância da Terra – 15 vezes superior à da Estação Espacial Internacional.”

“Esta missão de 4,5 horas terminou com a amaragem no Oceano Pacífico. A próxima etapa é a Exploration Mission-1 [Missão-1 de Exploração], uma missão não tripulada que irá durar 22 dias 22 e percorrer um total de 275.000 milhas [mais de 440.000 quilómetros] no espaço profundo.”

O ídolo de Soha é a directora do Johnson Space Center e antiga astronauta, Ellen Ochoa © NASA

O ídolo de Soha é Ellen Ochoa, directora do Johnson Space Center e antiga astronauta
© NASA

A engenheira palestiniana diz-se convencida de que “a exploração espacial está numa marcha avançada para a próxima era – a das longas missões a Marte, e mais além.” Para que isto seja viável, ela trabalha “umas 10 a 11 horas por dia”.

Podem ser mais, durante testes formais ou testes de apoio à missão. “Com três filhos, por vezes é um desafio combinar as expectativas do emprego mantendo, simultaneamente, uma vida familiar normal”, confessa.

“De início, foi difícil, mas sou afortunada por ter um marido que compreende a natureza do que eu faço, e está disponível para me ajudar em qualquer circunstância. Incentivada por ele, tenho sido capaz de combinar os compromissos e múltiplas tarefas da minha vida – e ainda ser capaz de fazer planos futuros.”

Soha Alqeshawi espera que a sua história seja uma inspiração. “Acredito que o envolvimento das mulheres na Ciência e na Tecnologia aumentou significativamente nas últimas décadas e, por isso, há mais oportunidades.”

O ídolo de Soha é a directora do Johnson Space Center e antiga astronauta, Ellen Ochoa: “É uma das líderes que mais admiro. O exemplo de uma mulher que se mantém no topo na área da Ciência e Engenharia e, ao mesmo tempo, está na liderança de uma grande organização como o JSC.”

“Há sempre uma maneira de encontrar o sucesso”, conclui Soha Alqeshawi. “Aconselho todas as jovens e adultas a jamais deixarem que alguém lhes diga o que podem ou não podem fazer. A vida nunca é fácil, mas com determinação os sonhos materializam-se, e chegamos aos lugares elevados que os nossos corações anseiam.”

Soha Alqeshawi - Engenheira sénior de software da nave espacial Orion ©Friends of NASA's photos

Soha Alqeshawi : Engenheira sénior de software da nave espacial Orion
©Friends of NASA’s photos

Orion: A cápsula do futuro

Em 2011, os vaivéns do programa espacial dos Estados Unidos foram para a reforma – após 33 anos de serviço – e a NASA teve imediatamente de trabalhar nas naves que lhes sucedessem.Um processo que tem sido acompanhado desde então pela engenheira Soha Alqeshawi. O grande objectivo do Programa Orion é colocar os americanos na frente da corrida espacial – incluindo uma viagem a Marte.

8913 Kg

É o peso da cápsula de tripulação.

11,3 m

É a área habitável.

4

É o número de astronautas na tripulação.

5 metros

É o diâmetro.

32.000 km/h

É a velocidade máxima.

18.000 milhões

São as previsões de quanto custará o Programa Orion até 2021.

CRONOLOGIA

© Direitos Reservados | All Rights Reserved

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2o14: A 5 de Dezembro, a Orion teve o seu voo de baptismo. Durou quatro horas e meia, sem ninguém a bordo. Cumpriu duas órbitas à volta da Terra.

2018: A nave deve cumprir o segundo voo com um novo e mais potente lançado, ainda sem tripulação.

2021: Data prevista para o primeiro voo com astronautas. Nos anos seguintes deverá rumar numa missão tripulada a um asteróide ou à Lua.

2010: Ano a partir do qual está prevista uma possível missão a Marte.

A nave Orion © NASA

A nave Orion
© NASA

Este artigo, agora actualizado, foi publicado originalmente na revista VISÃO em 26 de Março de 2015 | This article, now updated, was originally published in the Portuguese news magazine VISÃO, on March 28, 2015

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